Bolas e Doces

Eu adoro analogias e gostaria de usar uma para explorar a ideia de hierarquia de objectivos, e de como muitas vezes dizendo que temos um objectivo, na verdade temos outro que é prioritário, e só atingindo esse ficamos satisfeito com o outro. Estão a ver como é confuso? Vamos à analogia.

Dois miúdos têm como objectivo declarado comprar uma bola de futebol – os pais dizem-lhes que não lhes vão comprar a bola, mas que têm eles de as comprar com dinheiro que recebem de mesada. O primeiro miúdo decide poupar a sua mesada durante três meses e comprar a bola de futebol. O segundo miúdo continua a gastar a sua mesada em doces e ao fim de um ano ainda não tem a bola (mas tem cáries, felizmente os pais não o fazem pagar o dentista). O segundo miúdo continua a dizer que o seu objectivo é a bola de futebol, mas as suas acções demonstram que, embora a bola esteja teoricamente nos seus objectivos, não é o objectivo principal. Logicamente, o miúdo valoriza mais os doces do que a bola – caso contrário sacrificaria os doces pela bola, quando na verdade faz o contrário, e sacrifica a bola pelos doces.

Poderíamos dizer que o segundo miúdo não conhece o primeiro, e que como tal não tem um exemplo a seguir para obter a bola, e não consegue raciocinar quais os passos a seguir para concretizar o objectivo. Mas hipoteticamente digamos que os miúdos se conhecem na escola, e que o primeiro partilha a sua estratégia com o segundo, mas este continua a comprar doces, em vez de poupar a mesada para comprar a bola.

A situação do segundo miúdo é, a meu ver, análoga (com as devidas distâncias de complexidade) à situação dos nacionalistas, entendidos muito largamente.

Quais são os principais objectivos desse grupo? Eu consigo encontrar quatro (a ordem de prioridade depende de cada sub-grupo):

  1. Coesão e manutenção étnica
  2. Taxa de Natalidade superior a 2 filhos por mulher
  3. Manutenção e continuidade cultural
  4. Moralidade tradicional

Estes parecem-me ser os objectivos transversais a todos os grupos e opiniões debaixo da designação ‘nacionalista’, e todos os objectivos secundários (como segurança pública ou saúde física e mental) advêm em larga medida da implementação dos objectivos principais.

Se discordarem destes objectivos (como representativos do nacionalismo) agradecia aos leitores que especificassem as discórdias num comentário. Em todo o caso, penso não alterar muito o sentido do texto.

E se eu vos dissesse que existe, hoje, um grupo (composto por vários sub-grupos relacionados) de Europeus que, ao contrário de todos os outros grupos Europeus, conseguem consistentemente alcançar os quatro objectivos principais? E ainda mais surpreendente, conseguem alcançá-los sem os terem como objectivo primário – eles surgem quase como consequência colateral. Talvez não acreditem, mas a verdade é que existe. Antes de revelarmos o seu nome, vamos explorar os factos concretos sobre este grupo e a sua relação com os quatro objectivos nacionalistas.

Em relação ao ponto 1, este grupo mantêm a mesma composição étnica desde a sua origem há vários séculos. Embora em teoria seja possível juntar-se a tal grupo sem partilhar a mesma herança étnica, tal é tão raro ao ponto de ser estatisticamente irrelevante – algo que liga com o ponto 2: a taxa de natalidade.

Este grupo tem uma das mais altas taxas de crescimento populacional do mundo, duplicando os seus números em menos de 20 anos. A taxa da natalidade deste grupo é, neste momento, de 5.3 filhos por mulher. É o único grupo Europeu que mantêm uma taxa de natalidade acima do necessário para a substituição populacional (se descontarmos a contabilidade enviesada pelos imigrantes em países Europeus), e rivaliza com as mais altas taxas no mundo (todas elas, com esta excepção, em países de ‘terceiro mundo’).

No ponto 3, este grupo mantem e continua a sua cultura largamente inalterada desde a sua incepção. Este ponto pode ser ilustrado especialmente pelo facto de continuarem a falar a mesma língua que os seus antepassados, mas não só: embora vivendo numa área geográfica que não a de origem, mantêm um dialecto que no lugar original já está extinto, ou seja, são um testamento vivo de continuidade e manutenção cultural. Esta língua é uma das poucas línguas minoritárias no país em que se encontra (e a única de origem Europeia) que não está em vias de extinção pela chegada de imigrantes. A mesma dinâmica se encontra nas formas musicais tradicionais que ainda praticam, que entretanto estão extintas na geografia e grupo étnico original.

No ponto 4 basta dizer que o grupo adere a normas de moralidade tradicional, dando ênfase à família, ao casamento e à educação dos filhos para manter essas normas. O grupo considera a sua unidade mais básica a família, em vez do indivíduo, e é pelo número de famílias (e não de indivíduos) que contabilizam os números da comunidade (a contabilização da taxa de natalidade é feita pelo governo através dos métodos comuns). O homem é o líder da família e os sexos têm obrigações diferentes – e tradicionais. A maioria dos filhos continua a profissão dos pais e a maioria das filhas tem como actividade principal o cuido da casa e dos filhos. Divórcio, homossexualidade, estilos de vida ‘alternativos’, drogas e suicídio são inexistentes.

O grupo (ou colecção de grupos) em questão dá pelo nome de Amish. São descendentes de Alemães e Suiços, vivem maioritariamente na América do Norte (mas também do Sul), e avaliando os putativos objectivos dos nacionalistas, deveriam ser um exemplo a seguir, ou pelo menos a emular. Deveriam figurar permanentemente na sua propaganda e constituir um exemplo aspiracional.

Mas este cenário idílico tem custos e é quando consideramos esses custos e os sacríficos requiridos que surgem dúvidas sobre os objectivos principais dos nacionalistas: serão assim tão prioritários? Ou como o segundo miúdo do exemplo inicial, não preferem certos outros objectivos a estes? Tal como o miúdo que não quer sacrificar os doces pela bola, e como tal quer mais os doces do que a bola, os nacionalistas não parecem estar dispostos a sacrificar os confortos do mundo moderno pelos objectivos que os Amish, sacrificando-os, cumprem sem qualquer dificuldade.

Os Amish, ou os seus líderes, rejeitam o uso de uma grande quantidade de ‘benesses’ do mundo moderno. O nível de rejeição destes confortos é variado, havendo os que rejeitam totalmente a electricidade, veículos motorizados ou água canalizada, e os que os utilizam em aplicações específicas (mesmo assim uma minoria). Nenhum dos sub-grupos permite televisões ou computadores – alguns permitem telefones (antigos) em contexto de trabalho, mas não de lazer. Em última instância, cada tecnologia, a sua introdução e o seu uso são decididos pela liderança de cada grupo – geralmente um conselho de anciãos – e são avaliadas pela perspectiva única de ajudar ou prejudicar a estabilidade da comunidade e dos seus valores, e a manutenção dos mesmos. Em geral, a avaliação é que as tecnologias modernas não só não são propícias à saúde dos valores da comunidade, como são em geral detrimentais. E claro, as comunidades obedecem sem questionar as decisões dos seus líderes sobre estas questões.

Seja como for, aqui está, em pleno Século XXI, um exemplo a seguir do ponto de vista nacionalista, um grupo que cumpre todos os requisitos e atinge todos os objectivos. Mesmo concedendo algumas dificuldades logísticas em pôr em prática uma versão adaptada deste grupo, esta não é de todo uma missão impossível. E no entanto, não é costume ver propostas nesse sentido, pelo contrário. Será por falta de conhecimento? Talvez, mas tendo lido este texto – e podendo agora fazer mais pesquisa para aprofundar o conhecimento – poderão espalhar a mensagem e começar a preparação. Ou no mínimo, começar a falar da condição principal que faz com que os Amish sejam capazes de cumprir os tais objectivos.

A pergunta que se impõe aos nacionalistas, e à qual é impossível fugir, é se valorizam mais os objectivos expressos ou os confortos modernos cuja abdicação é requerida para os alcançar. Se estão dispostos aos sacrifícios necessários para atingir os seus objectivos, ou se só aceitam esses objectivos dentro de certas outras condições – condições essas que se tornam, na verdade, os objectivos principais. Por outras palavras, se preferem a bola ou os doces. E a mim parece-me que mesmo dizendo que preferem a bola, preferem ter os doces e queixar-se das cáries.

Comida para o pensamento, como se costuma dizer.

Progressistas somos nós todos, desde pequenos*

*o título é uma alusão ao verso do poema ‘Litania Para Os Tempos de Revolução’ de Mário Cesarini, ‘burgueses somos nós todos, desde pequenos’.

Já ouvimos dizer, e porventura já dissemos, vendo a impotência da direita no mundo moderno, que ‘os conservadores não conservam nada’. E é absolutamente verdade, mas convém perceber porquê, para que os críticos (a ‘extrema-direita’) entendam que na sua esmagadora maioria, ao ignorarem a natureza profunda do sistema em que vivem e na sua indisponibilidade de o rejeitar, as críticas que fazem são nulas e igualmente impotentes. E quanto mais extremos os seus valores, mais impotentes são as suas críticas, porque mais desligadas da realidade – como alguém que se queixa de estar permanentemente molhado mas que se recusa a sair da chuva.

Já vimos como o sagrado da máquina subjaz todo o pensamento moral, social e político dos nossos tempos, fora das distinções largamente artificiais de esquerda e direita. Ora, todo o sagrado é fundado num mito, numa narrativa que dá forma e direcção às nossas acções e à sociedade em que vivemos. E o mito em que o sagrado da máquina é fundado é o mito do progresso.

Se o sagrado é intocável por definição, o mito é inquestionável por definição. Na nossa sociedade questionar o mito do progresso está fora do reino das possibilidades, o mito é impermeável à realidade. E se um problema surge dentro do sistema, a solução progressista nunca é voltar atrás, mas ‘resolver’ o problema. Isto é a atitude esquerdista por natureza. Por exemplo, quando Marx observou a decadência e desumanização causada pelo sistema fabril, não rejeitou o sistema, mas propôs em vez disso controlá-lo, dar-lhe uma direcção diferente. O resultado, como se sabe, foi terrível.

Mas eu não falo para os esquerdistas, pois a sua filosofia é perfeitamente concordante com o mito do progresso. Eu falo para os conservadores, cuja filosofia é profundamente contraditória. E quando uso a palavra conservadores não me refiro apenas aos moderados que dão por esse nome na gíria comum, e que em quase nada se distinguem dos outros moderados todos, refiro-me a todos os homens que discordam do software de esquerda, veementemente até, mas que se recusam a mudar o hardware – um hardware construído, mantido e feito à medida do software que lá corre.

Comecemos com um exemplo patentemente ignorado pelos conservadores: a exploração dos combustíveis fósseis. O sistema industrial fundado pelo mito do progresso extraiu já o suficiente destes combustíveis para alterar para sempre a composição geológica do planeta. Haverá algum conservador que se pergunte se isto é bom ou mau? Segundo o mito do progresso, que o conservador subscreve, a natureza existe como recurso para ser explorado. Como já explicámos, antes do mito do progresso se tornar o mito definitivo da nossa civilização, a natureza era o substrato e a técnica o recurso. Mas o mito do progresso alterou a dinâmica: a natureza é o recurso, e a técnica o substrato. Tudo o que pode ser feito, deve ser feito – e a única coisa inquestionável é a técnica. A técnica tem de ser obedecida, a natureza subjugada em nome dela. A própria designação de ‘combustíveis fósseis’ nos diz o que a nossa civilização pensa sobre o assunto: exploração. É esta a nossa relação com a natureza: consumir. Porque precisamos de carros, e de máquinas, de motores. E claro, nunca sequer nos perguntámos que outras coisas destruíamos com a utilização destas máquinas. Nem demos meia volta quando começámos a ver os efeitos: quando vimos o carro destruir comunidades, afastando famílias, criando bairros dormitórios; ou quando vimos as máquinas destruírem a capacidade de homens sustentarem as suas famílias e destruir o equilíbrio entre os sexos; ou quando vimos os motores encherem as nossas ruas de poluição dos mais variados tipos. Nada disto foi reconsiderado, porque o progresso não é negociável. Não podemos parar, muito menos voltar atrás. As famílias e comunidades destruídas pelo progresso terão de se adaptar, porque o progresso é o mais importante. Tudo o resto que se quilhe. E surpreendentemente, o conservador concorda. Só quer ir mais devagar, por contraste ao esquerdista, que quer ir em força e rápido.

E assim, também, quando nos deparamos com um problema, nunca o solucionamos, mas simplesmente criamos outro. Os combustíveis fósseis estão a acabar, ou a poluir demais? Será que devíamos repensar o carro, a máquina, o motor? Claro que não, a solução é pensar num motor que funcione por outros meios. Certamente não terá outras consequências que não previmos, nem confirmará e aprofundará as consequências que já observámos. E se tiver, lidaremos com elas quando chegarem. Será que o conservador, e em especial o Católico, sabe que todos os industrialistas faziam parte da maçonaria? Será que alguma vez estudou a resposta da Inquisição nos países Católicos ao avanço do industrialismo? Será que alguma vez ouviu falar de Bento de Moura, e o que lhe aconteceu e porquê?

Outro exemplo: a agricultura. A quinta de família foi substituída pela agricultura industrial (como tudo, na nossa civilização, se tornou indústria). Os bois substituídos por tractores, e o estrume substituído por fertilizantes químicos. Onde antes havia uma organização orgânica e um ciclo vital, agora existe um sistema de uso e desperdício. O boi era alimentado pela quinta, e em seu turno alimentava a quinta, formando um ciclo natural e ancestral. Em vez disso, o mito do progresso dita que façamos mais, mais rápido, mesmo sob pena de destruir o ciclo natural e ancestral, e de criar um beco sem saída de desperdício. Hoje sabe-se que os tractores (para além dos altíssimos custos humanos e sociais da sua produção e da produção do seu combustível) compactam o solo de forma a exterminarem a vida que lá existe e que é necessária para as plantações; sabe-se também que aos fertilizantes químicos faltam micronutrientes importantes (para além dos custos humanos e sociais da sua produção) e que deixam vestígios nas colheitas que depois afectam a saúde humana. Mas nada disto importa, porque é preciso mais, mais rápido, mesmo sob pena da própria saúde das pessoas e do meio natural. E quando as consequências surgirem, logo inventamos novas soluções. Voltar atrás é que não, nunca. Porque o progresso não pode parar, é inquestionável.

É impensável hoje ao conservador viver sem auto-estradas e sem supermercados, sem electricidade e sem telemóveis, sem universidades e sem redes sociais. Se por acaso pensar nos seus antepassados, sem tais ‘benesses’, mas com família, comunidade e um propósito de vida, continua a considerá-los amputados. Eram tristes e não sabiam – não se podiam queixar na internet das consequências sociais da internet, não podiam ir de carro ao supermercado comprar alface e em vez disso iam a pé ao quintal. O absurdo patente na visão do conservador moderno é-lhe invisível, porque o mito do progresso cega os seus acólitos. Até entre Católicos – outrora dos maiores críticos da revolução industrial – as estruturas modernas são inegociáveis.

A mesma dinâmica que existe com o petróleo ou a agricultura, se encontra nas discussões sobre escolaridade ou sobre as redes sociais. O esquerdista tenta controlar as instituições, e o conservador chora sobre o controlo das instituições e recusa-se a admitir os danos (sociais, psicológicos e morais) da escolaridade ou das redes sociais, e ainda mais que esses danos são combustível para criar esquerdistas, isto é, progressistas convictos, em vez dos progressistas apologéticos do conservadorismo. Tudo porque “não podemos voltar atrás”. Esta é a oração do progressismo. Mas se tomámos um caminho errado, que outra solução senão dar meia volta e começar o caminho para trás?

O conservador não é menos convicto do progressismo do que o esquerdista, mas o esquerdista é consistente – está na vanguarda da vanguarda. O conservador está sempre na retaguarda da vanguarda. Como por exemplo se vê quando se depara com uma crítica do Estado Novo. O esquerdista critica o Estado Novo precisamente pelo prisma do progressismo, como não poderia deixar de ser: sob o Estado Novo, diz o esquerdista, o país regrediu, ou estagnou. Não há pecado maior na religião do progresso do que estagnar, exceptuando regredir, um pecado ainda maior. E não importa aqui se isso é verdade ou não – a verdade é que, apesar do ritmo mais lento do que Inglaterra ou França, o Estado Novo não regrediu, nem estagnou, pelo contrário. E talvez aí esteja, da perspectiva anti-progressista, o seu maior erro. Salazar, em particular, era muito consciente dos perigos do avanço tecnológico, especialmente dos perigos para a estabilidade social, para a moralidade, para a coesão da família e a manutenção da comunidade. Mas não era, infelizmente, totalmente anti-progresso. Mas a única coisa que ocorre ao conservador dizer quando um esquerdista critica Salazar é que é mentira, Salazar na realidade avançou muito o país, escolarizou muita gente, pavimentou muitas estradas e criou muitas centrais eléctricas. É a tristeza de acreditar no mito do progresso, mas sem o saber ou admitir. O único erro do Salazar foi não ser ainda mais progressista, diz o moderno conservador.

A mesma coisa quando o esquerdista ataca a Igreja medieval por ter atrasado o progresso, por ter impedido que o conhecimento se democratizasse, por ter proibido invenções de serem realizadas, por ter controlado o fluxo e a prática da ciência. O conservador contrapõe que não senhor, que a Igreja era como que um departmento do MIT, que criou universidades, e que a própria revolução científica veio das suas entranhas. E está certo, claro, mas avalia tais sinais de decadência da Igreja como sinais da sua prosperidade, quando foram as sementes do mundo caótico cuja colheita estamos agora a provar. O mérito da Igreja medieval foi precisamente atrasar o progresso, não foi ajudá-lo; foi impedir que certos desenvolvimentos se dessem, não foi dar-lhes a sua bênção mais tarde. Foi desse esforço hercúleo de estabilidade que nasceram nações e sociedades equilibradas. E foi do seu desleixo nessa tarefa fundamental que nasceram os monstros que hoje conhecemos tão bem.

A diferença entre progressistas e conservadores não é de natureza, mas de grau: o progressista defende o progresso acelerado em todas as frentes, o conservador defende o progresso com uns anos ou décadas de atraso – mas a aderência ao mito do progresso é a mesma. Tal como o esquerdista, acredita na primazia da técnica, e isto vê-se particularmente na sua fé inabalável no processo político, contra toda as evidências da sua impotência. A política não pode mudar as implicações do smartphone, pode apenas (e se tanto) condicionar o seu uso. Mas é uma batalha perdida a longo prazo – como até os regimes conservadores do início do Século XX provaram mesmo perante uma tecnologia muito menos poderosa como o cinema, a imprensa ou a televisão. O conservador sabe que os seu filho pré-adolescente vê pornografia no telemóvel, mas só se preocupa com o conteúdo do currículo escolar. Currículo esse que o miúdo vai ignorar em grande parte, porque vai estar agarrado ao telemóvel.

Já ouvimos muitas vezes dizer que os progressistas de hoje são os conservadores de amanhã. Mas é irónico que esta acusação venha dos conservadores mais ‘extremos’, acusando os conservadores mais moderados de, no futuro, irem defender qualquer dos progressismos esquerdistas (como hoje vemo-los defender a ‘liberdade’ de auto-destruição sexual, por exemplo), quando os conservadores mais extremos defendem hoje as estruturas (como o mercado, o governo republicano e democrático, ou o sistema industrial) que foram promovidos pelos inimigos da sociedade tradicional precisamente para a destruir.

Porque vivendo ambos no mito do progresso, a diferença entre conservadores e progressistas resume-se à rapidez, não à direcção geral da sociedade. O progressista de hoje que quer abolir a família tradicional, ou promover uma identidade sexual artificial, não está a ser radical, mas simplesmente a levar o mito do progresso às suas consequências naturais. Se é possível ao homem destruir culturas e modos de vida ancestrais, mudar os seus hábitos de trabalho e os seus hábitos de consumo, porque não lhe é possível alterar a identidade sexual? Se é possível libertar a mulher do trabalho doméstico através da máquina de lavar loiça, porque não é possível fazer o mesmo através do seu ingresso numa empresa de marketing? Se é possível ao homem libertar-se da responsabilidade sexual através da contracepção, porque não o é através do divórcio? Partindo da premissa errada, os progressistas de esquerda estão logicamente correctos. O grosso do que constituía um homem e uma mulher no passado já foi alterado. Não há qualquer razão lógica para não aprofundar essa mudança, essa redefinição, dentro da premissa do mito do progresso. O credo de hoje na auto-determinação do “género” é apenas a vanguarda da autodeterminação da carreira ou do consumo que os conservadores hoje abraçam de forma impensada como uma das posições inalteráveis do seu conservadorismo. O abolicionismo da normatividade sexual da feminista universitária de cabelo azul tem origem no seu pai conservador consentir que ingresse na faculdade.

É o conservador que está errado sobre as identidades tradicionais, quando as circunstâncias materiais em que vivemos são em tudo incompatíveis com essas identidades. E todas as suas queixas são em vão, e patéticas, enquanto se recusar a rejeitar os meios que tornam essas identidades obsoletas. Por muito que chore a ausência de masculinidade não exige o retorno do trabalho físico, por muito que chore a perda da nação não exige a extinção do mercado internacional, por muito que chore a desintegração da família não exige a extinção dos meios que promovem essa desintegração, por muito que chore a propaganda da vanguarda não exige a exinção dos meios pelos quais a propaganda é veiculada. Mas é pior que isto, porque na vasta maioria, nem sequer extingue esses estímulos dentro da sua própria casa. Porque no fundo da sua mundivisão não está a tradição, e não está preparado para, nem consciente da, necessidade de a aplicar na prática. No fundo da sua mundivisão está o progresso, e “voltar atrás” é para si um pecado tão grande como é para o mais convicto esquerdista.

Um conservador que se queixa da disciplina de ‘desenvolvimento social’ mas não tira os filhos da escola não é um conservador, é um esquerdista com atraso. O problema para um verdadeiro conservador não é o conteúdo da disciplina, mas o facto de existir tal disciplina em primeiro lugar, seja qual for o conteúdo. Mas o mito do progresso diz que os miúdos têm de viver numa prisão durante doze anos, e isto é inquestionável. O conservador acredita piamente que uma professora formada pela mesma máquina e doutrinada pelo mesmo mito do progresso, com uma conta de instagram onde posta fotos semi-nua e apoio à causa LGBT é capaz de ensinar os seus filhos desde que o ministério da educação designe um programa ‘conservador’. É de uma burocratização e formalismo que faria um soviético corar.

O conservador vê os delinquentes na América a destruir um restaurante de uma cadeia de fast food ou uma loja de uma marca qualquer e exclama indignado que a sociedade se está a desintegrar, ao mesmo tempo que ignora a desintegração a todos os níveis que o fast food e as marcas promoveram e continuam a promover.

Ao conservador só lhe ocorre apelar à liderança que imponha padrões de moral, sem compreender que a moral nunca foi imposta pela liderança. A liderança das sociedades tradicionais impõe as condições para que a moral floresça naturalmente. Sem essas condições, todas as imposições das mais altas autoridades são em vão. Daí a sua obsessão em ‘recapturar as instituições’. Será que ocorre ao conservador o porquê de as ter perdido? Claro que não, porque se ocorresse percebia que nunca foram suas, que nunca estiveram de acordo com os valores que pretende conservar.

Que instituições quer o conservador ‘recapturar’? O governo republicano e democrático? Será que sabe a origem, e a mundividência inerente, desse tipo de governo, que desde o início foi inimigo da moralidade e organização social tradicional? Será que entende que a sua própria existência é uma negação da hierarquia a nível nacional da mesma hierarquia que se pretende conservar a nível familiar e comunitário?

Ou será que quer recapturar as escolas? Será que entende que a escolaridade foi desde o início um instrumento de propaganda contra a sociedade tradicional e que nunca pode ser outra coisa? Será que entende que educação e escolaridade são duas coisas completamente distintas? Não me parece. As escolas existem para dois propósitos, que coincidem na perpetuação do mito do progresso: para inculcar nas mentes jovens a propaganda do sistema e perpetuarem-no como indispensável para uma vida salúbre e feliz; e para treinar as novas gerações para acatar as necessidades técnicas do sistema. Quando o conservador afirma que ‘tem de enviar os filhos para a escola’ (e sobretudo ‘para a faculdade’) para que possam ‘ter um bom emprego’, o que está a dizer é que a única coisa que antevê para os filhos é que se tornem escravos do sistema, no mínimo, e escravos felizes na maior parte das vezes. Por isso em vez de garantir que filhos e filhas estão orientados para casar e formar família, garante que estejam orientados para cumprir uma função económica que seja adequada ao sistema (‘a empregabilidade’) e em vez de poupar para ajudar os jovens filhos nos primeiros anos de casamento, para que possam ir formando as suas próprias famílias enquanto não têm estabilidade e maturidade, poupa para os mandar para as faculdades onde irão receber uma lavagem cerebral contra os pais, e contra a própria instituição da família – se não directamente, sob as disciplinas pseudo-sociológicas, pelo menos colateralmente através da orientação da vida para a função económica. A esta forma de escravatura e alienação, o conservador chama sem ironia de educação, e pior, considera-a ‘necessária’. E bom, será necessária para algumas coisas, mas não para qualquer um dos putativos propósitos conservadores.

O conservador pensa, sem qualquer base na realidade, que consegue impingir valores tradicionais em estruturas necessariamente progressistas, seja a escola, o mercado, as redes sociais ou qualquer outra estrutura do nosso mundo fundada no mito do progresso. Da mesma forma que a quinta familiar funcionava organicamente (e não pode funcionar de outra forma sob pena de deixar de o ser), a família tradicional, a coesão étnica e cultural, o papel das mulheres e dos homens na sociedade, a sexualidade e tudo o resto de que os conservadores se queixam no mundo moderno dependem desse mesmo funcionamento orgânico, dependem de um mundo necessariamente pré-moderno. Não há uma possibilidade intermédia de manter as estruturas do mundo moderno e ter valores tradicionais. O mito do progresso é a antítese do mito de estabilidade que o precedeu, e que é a base de todas as sociedades tradicionais. Todas as sociedades pré-industriais têm valores tradicionais e todas as sociedades industriais sofrem da perda desses mesmos valores, independentemente da geografia, da genética e da cultura. Isto é tão observável que só mesmo o poder de um mito pode cegar o observador.

É por tudo isto que o conservadorismo, do mais moderado ao mais extremo, é incapaz de conservar seja o que for.

Existe sistema ‘pós-industrial’?

Recebi um comentário no texto anterior em que era utilizada a expressão ‘pós-industrial’. A expressão é usada, sobretudo na disciplina de sociologia, para designar um sistema em que o sector terciário suplanta (em riqueza produzida e em proeminência) o secundário.

A meu ver esta expressão, e o que designa, induz em erro qualquer investigação sobre a natureza do sistema em que vivemos. Será que vivemos de facto num sistema ‘pós-industrial’? Eu penso que o termo foi inventado para aliviar as consciências do Ocidente, para nos permitir a ilusão de que o sistema agora é diferente, e que os altos custos para a vida e dignidade humana, bem como para a natureza, foram superados.

A primeira observação é a seguinte: hoje já não temos fábricas, temos escritórios e lojas, mas será que os escritórios e as lojas, a realidade que servem, a economia de que fazem parte, os serviços que produzem, não são também indústrias? A mentalidade de racionalização, uniformização e exploração é a mesma. A criação de relações puramente mercantis, bem como a orientação da vida social em volta do consumo e desperdício, continua exactamente a mesma.  O escritório e a loja operam sob a mesma ideologia que a fábrica, só se altera o objecto da exploração. Por isso a economia de serviços não é pós-industrial. É apenas outra industria.

Mas mais importante ainda é que só superficialmente nos livrámos da fábrica. Longe vão os tempos no Ocidente dos exércitos fabris e das horríveis condições de trabalho e da enorme quantidade de poluição, porque a nossa economia é hoje quase exclusivamente dominada pelos serviços. No entanto, isto não quer dizer que superámos a necessidade do sistema desumano da fábrica. Pelo contrário.

As economias Ocidentais podem ser movidas por serviços, mas ninguém come serviços, ninguém constrói casas feitas de serviços, e mesmo os próprios serviços precisam de infraestrutura e maquinaria produzida pelo sector secundário. Até a agricultura depende sobretudo do sector secundário, porque os modos de produção tradicionais foram abandonados pela produção que utiliza, quase exclusivamente, meios mecânicos – meios que não só têm custos para o ambiente na sua utilização, mas que além disso, e o que nos importa neste texto, são produzidos em fábricas. Por isso, hoje como no Século XIX, o sistema não é pós-industrial, está apenas organizado de forma a que o sector secundário, e certamente aquele que sustenta a grande maioria da produção necessária, esteja fora do Ocidente. Longe da vista e logo longe do coração. As consciências do Ocidente são assim apaziguadas – nada no seu modo de vida precisa de mudar, porque não vêem os seus efeitos, sentidos do outro lado do mundo.

O sistema industrial hoje ainda existe e não muito diferente do que era no Século XIX. As condições, a alienação e os danos (para a vida humana como para a natureza) continuam os mesmos, só estão do outro lado do mundo. Em alguns aspectos, o sistema industrial do nosso tempo é ainda mais desumano. Nem mesmo no auge da revolução industrial, com todos os horrores que perpetraram, ocorreu aos donos das fábricas colocarem redes por baixo das janelas para que os seus trabalhadores não se pudessem suicidar, tal é a miséria da realidade em que são forçados a trabalhar que a morte pela própria mão é preferível – mas nem esse pequeno gesto de autonomia lhes é permitido. Aparentemente as condições na Inglaterra do Século XIX não eram tão más como são na China no Século XXI. É o progresso. Abolimos ou não abolimos a escravatura? Será por isso que tanto falam em reparações pela escravatura do passado, para que ambos os lados, perdidos nesse argumento irrelevante, não se apercebam de que ela existe hoje, e infinitamente mais brutal? E que compactuamos com ela sem nos apercebermos? Que a nossa sobrevivência depende dessa escravatura?

Toda a riqueza do Ocidente continua dependente dessa pobreza, escravatura e destruição – só que ela já não sucede aqui, mas no ‘terceiro mundo’.  A nossa economia terciária ajuda a mascarar o problema, e continuamos a consumir os produtos sem ter à nossa frente os custos humanos e naturais desse modo de produção, mas os custos permanecem os mesmos.

Uma nação moderna (isto é, tecnologicamente avançada) pode tanto ser pós-industrial como um homem pode ser pós-comida e pós-roupa. A única questão é se a comida e a roupa que necessariamente consome é produzida por si ou pelo vizinho ao fundo da rua.

É importante perceber que não vivemos num mundo pós-industrial, mas que por um lado a indústria dominante no Ocidente passou a ser outra, e que por outro simplesmente exportámos as indústrias clássicas, e o sofrimento e destruição inerente a elas, para partes longínquas.

Os Cristãos em particular deviam levar esta realidade a sério, pois a nossa forma de vida e consumo é inerentemente baseada na violência e na exploração, bem como na destruição de modos de vida tradicionais – que no Ocidente já foram destruídos pelo industrialismo há muito, mas continuam a ser no resto do mundo. Criticar somente o conteúdo da nossa sociedade (o ‘marxismo cultural’ e as suas manifestações) não chega: mesmo que o conteúdo fosse puramente de acordo com a moralidade Cristã, o veículo pelo qual é apresentado é inerentemente incompatível com a dignidade humana que os Cristãos têm o dever de defender.

Não podemos cair na armadilha, posta especialmente para nós, de que a distância da vista seja distância do coração. O sistema continua tão desumano e destrutivo como sempre foi.

Resta, por fim, antecipar uma objecção e proposta que vai sendo avançada, aqui e ali, tanto pela direita como pela esquerda: a de trazer de volta o sector secundário para o Ocidente. Muito bem. Mas o Ocidental não aceitará as mesmas condições de trabalho que o terceiro mundo aceita. E se eliminarmos os seus aspectos mais extremos e destrutivos, pagando salários condizentes com o que estamos habituados (como ainda existem, embora numa escala muito reduzida), a capacidade produção será muito menor, os preços muito mais altos, e os produtos, por consequência, largamente inacessíveis à grande maioria. Isto quer dizer que, tais indústrias irão à falência pela competição internacional, ou o modelo de produção e consumo irá alterar-se radicalmente. A conclusão é que o sistema industrial, na sua totalidade e nas suas aplicações particulares, na produção como no consumo que necessita para se perpetuar, é e será sempre insustentável. Não há varinha mágica que dê a volta a este destino. Sobra apenas tomar a decisão de aceitamos as implicações do sistema ou não. E em geral, exceptuando certos excêntricos e idealistas como o presente escriba, tanto à direita como à esquerda, são aceites. É o preço do progresso.

Religiões Seculares

No Séxulo XX o Comunismo e o Fascismo (e as suas variantes menos proeminentes) substituiram a fé Cristã. Com a morte de Deus no Ocidente às mãos da máquina industrial, o vácuo religioso foi rapidamente substituído pelas religiões seculares e políticas. Note-se a rapidez surpreendente com que o racionalismo e o secularismo morreram, dando à luz as religiões do Proletariado e da Nação/Raça. Recapitulemos as características dessas religiões seculares, e como imitam a fé Cristã: fundadas num livro cujas páginas e afirmações são tomadas como divinas e proféticas (O Capital, Mein Kampf), apresentando uma visão total da história da origem à escatologia, postulando a descida até à escuridão para a subida depois até à luz como o sofrimento que precede o triunfo final (do proletariado ou da raça/nação), formando um clero no Partido, tendo um ou vários profetas/messias e o seu culto de personalidade (Marx, Engels, Lenine, Hitler, Mussolini, etc). Isto é o básico. Encontramos nestas religiões também a componente festival, de comunhão, de união e de libertação.

Tudo isto já foi dito e repetido, e é em geral aceite. E essa é a prova de que estas religiões, apesar de ainda terem aderentes, já estão, de facto, mortas.

Estas religiões seculares dominaram o Século XX como a religião Cristã havia dominado antes delas – naturalmente, sendo falsas, a sua permanência, longevidade e estabilidade não se compara à original e verdadeira. E apesar de ainda se encontrar por aí religiosos deste tipo, ambas as religiões morreram de vez. Mas se ambas haviam substituído o Cristianismo, o que as veio substituir a elas?

Para o entender, temos de entender que quanto mais avançamos em termos científicos e tecnológicos, mais os homens regridem mental e espiritualmente, e perceber também aquilo que o Cristianismo substituiu e elevou. No nosso tempo, o caminho é exactamente o contrário por consequência da regressão mental e espiritual resultante do avanço tecnológico. Se as religiões seculares foram uma imitação do Cristianismo, o que se seguiu e vivemos agora é uma regressão às formas pré-Cristãs. O Cristianismo substituiu os inúmeros credos pagãos, com as suas superstições e miríade de divindades, e é isso que vemos hoje também – embora distorcido, pois o substrato é distinto. Da fé única e concentrada do Comunismo ou do Fascismo, com objectivos singulares e definidos, com unidade e propósito, passámos às fés desregradas e à multiplicidade de deuses. A revolução proletária ou o triunfo da nação já não são os propósitos singulares e monolíticos que antes foram, e no seu lugar temos uma colecção que, embora associada, não partilha de verdades últimas, nem de objectivos particularmente consonantes – excepto um, de ambos os lados, que revelaremos mais à frente. Nem o racismo nem a libertação sexual, nem os seus opositores do outro lado, cujas bandeiras se poderiam dizer formarem pelo menos dois sistemas totalizantes e unificados, o são de facto. Dentro dessas caixas, há uma multiplicidade de divindades e objectivos, isto é, uma multiplicidade de cultos: das várias identidades raciais, das várias identidades sexuais e das várias identidades de consumo (desde a comida até ao entretenimento).

Apesar do sincretismo formal entre os vários cultos pagãos, as suas manifestações e realizações continuavam a ser extremamente individuais e particulares. Havia, no entanto, algo de verdadeiramente comum a todos eles, que era a devoção e temor pelo sagrado último, o substrato da realidade: e no mundo da antiguidade, esse substrato era a natureza. A natureza era o inescapável, o indomável. Os seus desígnios eram últimos, e contra eles as forças humanas eram impotentes. E quaisquer que fossem os nomes dos deuses, ou das forças, o mundo natural no seu todo permanecia no topo da hierarquia.

Como se traduz isto nos credos pagãos do Século XXI? Qual é o substrato inescapável, indomável, cujas forças e desígnios são absolutos, no nosso tempo? A natureza foi conquistada pelo homem, e como tal já não é a ela que estamos ultimamente sujeitos. Onde antes o homem se acomodava às condições naturais, agora são as condições naturais que se acomodam. A natureza já não oferece qualquer oposição ou disciplina, e a posição suprema que ocupava nos paganismos antigos é nos nossos tempos ocupada pelo sistema industrial. É esse o substrato inescapável, a força à mercê da qual os homens têm de viver, e cujos desígnios têm de obedecer, o poder último do qual a sua sobrevivência e continuidade dependem. Resistir ao avanço tecnológico nos nossos dias é o equivalente à resistência contra uma cheia, um terremoto ou um incêndio nos tempos antigos: aquele que desafia o último sagrado, em vez de respeitar os seus desígnios, paga o preço da destruição. Mas o seu poder é tão inescapável que a submissão acaba por ser inevitável. O homem nada podia fazer contra a cheia e o terremoto, tal como agora nada pode fazer contra o smartphone ou a bomba atómica. Do outro lado da moeda, a natureza providenciava sustento em todas as áreas da vida, e como tal, exigia o respeito máximo e o temor resultante que as suas bênçãos sejam interrompidas por ofensa ao seu supremo. Onde antes havia a seca ou a praga, agora há o corte da electricidade ou a disrupção do abastecimento dos supermercados. À mercê do sistema, e sem um Deus acima desse sistema, o homem moderno não tem como senão prostrar-se em reverência.

Os cultos pagãos do nosso tempo reconhecem esse sagrado último, essa força inescapável, que é o sistema industrial, tanto na sua vertente destrutiva como na sua vertente salvífica. E é nesse ponto que todos convergem: definidos por raça ou por sexo ou por qualquer outro identificador, todos os grupos almejam simplesmente estar dentro das bênçãos do sistema industrial. Os grupos são marginais na medida em que não participam, ou que não os deixam participar, no frenesim de consumo, nas bênçãos providenciadas pelo sistema industrial. Estes cultos, sejam pelo lado direito ou pelo lado esquerdo, têm como mal último a exclusão desse sistema. E se do lado esquerdo querem incluir o Africano ou o Transsexual, do lado direito querem evitar a exclusão do Europeu e o Heterossexual. Daí que da esquerda queiram trazer todos os povos fora do sistema para dentro dele, seja pelo ‘desenvolvimento’ do terceiro mundo ou pela imigração em massa; e da direita queiram assegurar a manutenção do sistema com o mínimo de atrito, e assim emular por exemplo as sociedades distópicas mas estáveis do Este Asiático. Para a direita é uma luta de manutenção: vêem o homem Europeu a perder as bênçãos do sistema industrial, e pretendem mais uma vez cair nas suas graças; para a esquerda é uma luta de acesso: vêem todos os grupos marginais excluídos do festival orgiástico de consumo e querem incluí-lo, mesmo que isso signifique aboli-los como grupos distintos.

E naturalmente, como corolário, ambos têm como oposição um mal supremo que ameaça essa inclusão, essa comunhão com o divino industrial e as suas bênçãos de consumo: por um lado, os homens Europeus e heterossexuais; e pelo outro, os ‘globalistas’, os Judeus ou os Muçulmanos. O bode expiatório funciona da mesma forma para os dois lados, e o seu objectivo último é, na verdade, o mesmo. Em ambos os casos, o mal supremo é a exclusão do sistema industrial, do sustento que ele providencia, do conforto que facilita. Mesmo que oferecessem a oportunidade aos cultistas de salvarem o seu grupo através da rejeição do supremo tecnológico, não o fariam, porque o seu culto final não é o grupo, mas o acesso do grupo ao divino da máquina.

Só Cristo oferece um caminho diferente, como ofereceu aos pagãos de há dois mil anos, libertando-os de viver no medo do supremo da natureza. Mas a nossa situação é mais grave, e mais difícil, pois o mundo natural foi uma criação divina e acima dele sempre esteve Deus, enquanto que o supremo dos nossos tempos é uma criação nossa – e mais grave ainda, uma criação com origem na rebelião contra Deus, tal como a Torre de Babel. Que Deus tenha piedade dos homens, e a destrua mais uma vez, é a nossa única esperança.

Da ignorância

Diz o nosso primeiro ministro, a propósito de uma app de espionagem que, por agora, é opcional: «Um dos elementos mais perigosos é que a generalidade das pessoas que estiveram contaminadas não tiveram sintomas.»

Traduzindo por miúdos, o Covid é tão perigoso que a maioria das pessoas nem sabe que o tem. E no entanto, a mesma «generalidade das pessoas» acredita em toda esta patranha, e nas medidas draconianas e insanas aplicadas para combater esta ameaça tão feroz que só afecta quem vê notícias. Lêem ou ouvem tal estupidez, e nem por um momento questionam o que significa.

Um dos efeitos mais ignorados, e no entanto óbvios, de um povo e sociedade que abandonaram o conhecimento de Deus, é que esse povo se torna incapaz de pensamento racional e de qualquer forma de sabedoria – e assim, torna-se vulnerável às mais óbvias mentiras e às mais torpes manipulações.

Como nos diz o primeiro Provérbio, verso 7: «O temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Os insensatos desprezam a sabedoria e a instrução

Ou como escreveu Chesterton: «Quando os homens escolhem não acreditar em Deus, não passam a partir daí a acreditar em nada, mas tornam-se capazes de acreditar em tudo».

Prisioneiros de Guerra

Há um sinal claro e inequívoco de que uma guerra está perdida mesmo antes de acabar oficialmente: quando se concede ao adversário a validade das suas premissas. Este padrão surge em várias manifestações. Por exemplo, quando os combatentes já não acreditam na razão que os leva a combater: a Guerra do Ultramar acabou, oficialmente, em 1974, mas o Estado Português já tinha perdido anos antes, sem se aperceber, nas inúmeras concessões que fez, tanto nos esforços directos da guerra como no plano indirecto da opinião pública. Outro exemplo é uma simples discussão entre duas partes: se uma das partes conceder validade às premissas da outra parte, a discussão pode durar horas, mas está perdida desde que as premissas do opositor foram validadas. Por isso quando o nosso lado tinha poder dizia: ‘não discutimos’ Deus e a virtude, a pátria e a sua história, e por aí fora. O outro lado tem agora o poder, e Deus, virtude, pátria e história são infinitamente discutidas. Os interditos agora são outros. O importante aqui perceber é que quem dita a discussão não somos nós.

Há muita gente convencida que estamos a lutar uma ‘guerra cultural’, mas estão errados, porque a guerra já foi perdida há muitos anos, quando as premissas foram concedidas ao adversário: as premissas da igualdade e do progresso. Numa tal situação, até as contraofensivas do lado derrotado sublinham a sua derrota – e das mais variadas formas, o lado derrotado insiste em sublinhar a sua derrota tentando argumentar contra o poder, como se o poder ouvisse argumentos, em vez de a reconhecer e andar em frente.

Imaginem a seguinte conversa entre um casal: a mulher, histriónica e desvairada, acusa o marido de ser o líder da família. E o homem reage agressivamente dizendo que não senhor, na verdade eles são em tudo iguais, ele não é líder de coisa nenhuma nem quer ser, e ai de quem disser que é ao homem que cabe essa função. É nesta fase da ‘guerra cultural’ que nós estamos: na humilhação que segue a derrota.

Outro exemplo hipotético: imagine-se que todas as instituições de um país acusam a população nativa de considerar que a sua terra é a sua terra, e que estrangeiros são estrangeiros e serão sempre, no melhor dos casos, meros convidados. Numa guerra cultural que ainda pudesse ser ganha, teríamos várias vozes públicas proeminentes a rejeitar a premissa do ataque: que manter uma diferenciação entre o nativo e o estrangeiro é algo de natural e saudável, e que quem acha isso negativo tem sérios problemas psicológicos. Mas numa guerra perdida, porém, a premissa é concedida: a oposição aberta apenas pode dizer que não é aquilo de que a acusam, mesmo que aquilo de que a acusam seja uma coisa natural e saudável. E assim, no preciso momento em que protesta a ordem vigente, fá-lo de forma que confirma a validade dessa ordem.

Quanto mais cedo os dissidentes perceberem que a guerra acabou, e que fomos derrotados, mais cedo poderão fazer aquilo que todos as forças derrotadas fazem: bater em retirada e dispersar. Somos ‘ovelhas entre os lobos’ e esta é a hora de ser ‘astutos como serpentes e inofensivos como as pombas’.

O aparecimento de uma ou outra voz pública que pareçam chocar com o status quo ilude alguns de que ainda existe forma de ganhar a guerra, mas uma análise racional e sóbria da situação desvenda que o choque já é feito nos termos do inimigo – isto é, que a guerra já está perdida. A grande maioria da população, mesmo os que criticam a vanguarda do sistema, aceita as premissas do sistema, não apesar das críticas, mas através das mesmas. Em vários graus, a oposição, o lado derrotado da guerra cultural, aceita uma ou várias premissas do inimigo, e não apenas no domínio do exemplo explorado acima, mas em todas as áreas: o opositor comum aceita, voluntaria ou coercivamente, que a distinção entre o nativo e o estrangeiro seja anátema, tal como aceita que todos os estilos de vida são válidos e com o mesmo valor, tal como aceita que a existência e virtude desses estilos (alternativos mas ao mesmo tempo totalmente normais) sejam propagandeados nos meios de comunicação, tal como aceita que estas e outras ideias, do inimigo, sejam ensinadas às suas crianças nas escolas. E por aí fora. E não importa que seja aceite por fé nesses dogmas, ou por medo de represálias. Se for por fé, é um convertido; se for por medo, é um conquistado. E todos estamos, numa parte ou noutra, numa medida ou noutra, convertidos ou conquistados.

E isto sem falar nas outras questões em que os dissidentes se alinham directamente com o inimigo, como no apoio ao capitalismo e à sociedade industrial, defendendo condições e estruturas que impossibilitam a realização ou sequer sobrevivência dos seus outros valores. É devido a este último ponto que é mais difícil entenderem a derrota e assumir que só uma estratégia de retirada, dispersão e reconstrução por baixo oferece alguma possibilidade de sucesso, que será sempre, dada a guerra perdida, a longo prazo. Mas é, ao menos, possível. A corrente estratégia é de garantido falhanço. E infelizmente, dado o custo de oportunidade, não é possível dividir o nosso tempo e o nosso espírito entre uma e outra estratégia. O tempo e vontade gastos na guerra perdida não podem ser gastos na reconstrução.

Ao leitor céptico, que ainda mantem a fé em algumas partes do sistema (e como tal pensa que pode capturá-lo para o seu lado), peço que se coloque a seguinte série de perguntas: tem cuidado ao expressar certas opiniões em público, com colegas de trabalho, na vida real ou sob o seu nome civil na internet? Se tais opiniões fossem públicas, perderia o seu emprego, ou perderia clientes e colaboradores? Seria ostracizado por vizinhos, conhecidos, amigos e até família? Será que sofreria represálias e ataques da comunicação social e veria o seu nome vilificado nas redes sociais? Seria atacado na rua por populares, organizados ou não, sem qualquer esperança de recurso ou simpatia pública?  Será que o Estado o protegeria dos populares, da difamação e ostracismo? Será que o perseguiria através do aparelho burocrático? Seria condenado em praça pública pelas mais altas figuras do Estado?

Se tudo isto e mais acontece todos os dias a quem se desvia do status quo, por muito pouco que seja e até por acaso, que conclusão se pode tirar, a não ser a de que somos prisoneiros de guerra, de uma guerra que já se perdeu. Não é possível acreditar que estamos em pé de igualdade e que qualquer um dos lados ainda pode vencer, que tenhamos qualquer poder ou sequer influência nas instituições que governam a sociedade: o inimigo governa, com punho de ferro, e nós acatamos. Num tal cenário, a única possibilidade de influência encontra-se nas instituições locais e descentralizadas, que em grande parte morreram ou estão em fase de decomposição.

Mas é da decomposição do presente que vem a fertilidade do futuro, numa metáfora agrícola escolhida propositadamente. As metáforas em que vivemos alteram completamente não só o nosso pensamento, mas a nossa acção. Neste momento, os dissidentes vivem ainda sob a metáfora da máquina: é preciso consertar ou substituir as partes que funcionam mal (as escolas, as redes sociais, o governo, etc) e olear as que funcionam bem; se não houver conserto, então substitui-se a máquina por outra. Mas a máquina pertence ao inimigo, só funciona para os objectivos do inimigo. Esta é uma metáfora de soberba, de imediatismo e revolução, do poder do homem sobre o seu próprio futuro, do seu desejo de supremacia sobre a ordem natural e, em última instância, sobre Deus. É, na verdade, a metáfora do inimigo, mas aplicada selectivamente a uma ou outra dimensão da vida. Mas a consistência ganha e o inimigo é consistente: se a metáfora e a premissa são aptas para uma dimensão, são aptas para todas.

Em vez disso, os dissidentes precisam da metáfora da árvore: é preciso preparar a terra, plantar a semente, ser paciente e dedicado, e rezar para que um dia venha a dar fruto. Esta é uma metáfora de humildade, de aceitação da ordem natural, de continuação e estabilidade. Não é possível defender a tradição de um lado e a revolução do outro, não é possível viver na metáfora da árvore e da máquina ao mesmo tempo. Ambas existiram, existem e existirão sempre em oposição absoluta. A tradição vem sempre do campo, a revolução sempre da cidade. E se queremos rejeitar a revolução, sobretudo quando está consumada, então só nos resta rejeitar a cidade e abraçar a ruralidade, onde as virtudes defendidas pela dissidência podem florescer, porque é aí que são cultivadas.

Esta posição é muitas vezes descrita com desdém como ‘fugir para o campo’, e de facto não é menos que isso. ‘Fugir para o campo’ é o que todas as forças derrotadas fazem. O que os desdenhosos não entendem é que são uma força derrotada. Quanto mais rápido o entenderem, mais chances terão de ser bem-sucedidos na fuga e subsequente reconstrução. A única outra alternativa é viver como prisoneiro de guerra, em terra ocupada pelo inimigo, até ao fim.

Juventude

De vez em quando, por azar, damos por nós a ler as notícias. E se por acaso lermos histórias sobre crimes, em particular crimes violentos e de caracter delinquente, reparamos que são na sua maioria cometidos por ‘jovens’. A palavra ‘juventude’ nas secções criminais tornou-se quase sinónimo de ‘delinquência’, e além disso é particularmente usada para delinquentes de origem estrangeira, sobretudo quando essa origem é não-Europeia. O padrão é tão comum que quando nos deparamos com a palavra ‘jovem’ sem qualificativos de nacionalidade, o mais provável é que se trate de um jovem de origem não-Europeia.

É inegável que a juventude é sempre, mesmo nas eras mais sãs que a encurtam, uma estação da vida tumultuosa e explosiva, por ser dedicada, sobretudo, às paixões, aos desejos, aos apetites. É também inegável que a cultura dos nossos dias é estupidamente violenta, expondo crianças cada vez mais novas a realidades e ficções cada vez mais agressivas e inapropriadas. E é também inegável que a cultura é, em si mesma, agressivamente direcionada aos jovens, definidos muito liberalmente. As crianças mal podem esperar para ser jovens, e ainda antes da adolescência já participam na mesma cultura, partilham dos mesmos interesses, e consequentemente, senão na lei pelo menos na sociedade, detêm as mesmas capacidades e possibilidades que aqueles com o dobro da sua idade. Após entrar na juventude, esta pode durar dez, vinte, trinta anos. A juventude, com a sua tempestuosidade e ausência de compromissos, é para a nossa cultura o estado ideal, e como tal, muitos se recusam a sair dessa fase, ou saem só quando os seus corpos e mentes são já incompatíveis com a cultura da ‘juventude’ – as suas almas, porém, lá permanecem, para sempre, aprisionadas.

A cultura da juventude, que é permeada por violência, pornografia e desordem, é também a cultura considerada ideal. As modas, a linguagem, a atitude dos jovens é alvo e origem de marketing. Àqueles que o são pede-se que sejam mais ainda, e os que não são que se convertam. O mito da juventude é uma das distinções entre a nossa civilização e as civilizações tradicionais em que a sabedoria experienciada dos velhos é mais valorizada do que a pujança e idealismo dos jovens.

E é importante perceber o porquê de assim ser. Eu vejo duas explicações, relacionadas: sendo que o nosso sistema é predicado no progresso tecnológico e na expansão económica, os jovens são naturalmente o seu motor, tanto na produção como no consumo. Só os jovens são capazes de se adaptar ao passo acelerado de mudanças tão radicais (que significa ‘ao nível da raíz’, nunca esqueçamos) que ocorrem no ambiente tecnológico. Os últimos trinta anos foram uma revolução nas condições tecnológicas tão grande como nos 200 anos que os haviam antecedido, e a reviravolta desses 200 havia sido maior do que todas as outras que a precederam juntas. O peso psicológico e a curva de aprendizagem destas mudanças radicais só pode ser absorvida pela juventude. Os velhos ainda vêem televisão e os jovens já passaram do myspace para o facebook, para o youtube, para o instagram, para o tik tok. E pela mesma razão, para poder vender lucrativamente estas inovações, só os jovens para os consumir, e portanto o público alvo do marketing é também naturalmente direcionado para os jovens.

O uso de ‘jovens’ nos crimes de delinquência é, pois, significativo. Este uso diz-nos que esta delinquência é um ‘excesso’ da juventude, um excesso insalubre, sim, mas desculpável. Que faz parte desta estação da vida, tal como o consumo, as identidades mercantis e a procura sempre pelo novo, pelo progresso, pelo desenvolvimento e a revolução. E ao usar o termo desproporcionalmente para delinquentes de origem estrangeira, os jornalistas dizem-nos que a cultura da juventude tem a mesma origem.

Mas há um significado mais profundo, que não sou de longe o primeiro a notar, a dos jovens contra os velhos, não só em idade, mas historicamente. Já vimos essa designação usada vezes suficientes para perceber o padrão: os novos Suecos, os novos Alemães, os novos Italianos, os novos Portugueses – no fundo, os novos Europeus. A importação de ‘jovens’ é essencial para a manutenção do sistema, em parte porque a mesma cultura que leva os Europeus a iniciarem a sua juventude cedo demais e a prolongá-la até muito tarde, também leva a que haja cada vez menos jovens para consumir e manter o fluxo da sociedade. Para que hajam jovens é preciso que antes hajam crianças. Os velhos Europeus, em geral, evitam-nas ainda antes da concepção. Os novos Europeus, em geral, evitam-nas depois do nascimento, e fazendo isso contribuem com um público cativo, 6 ou 7 anos após o nascimento nas melhores previsões dos profissionais de marketing, que não só é cativo por defeito dada a sua idade, como tem já de si uma propensão para procurar identidade e estabilidade no consumo. Crianças de famílias intactas e saudáveis são menos permeáveis à cultura, entrando nela mais tarde e saindo dela mais cedo, do que aqueles que têm de procurar na cultura um pai ou uma mãe, ou ambos. E sendo menos permeáveis à cultura, que lembremos é extremamente violenta, são menos permeáveis à delinquência promovida e requerida por essa mesma cultura.

E é por tudo isto que é tão estranho dar de caras com uma notícia de um velho a matar um jovem, em todas as dimensões da palavra que mencionámos acima. Há qualquer coisa de bizarro. Se o contrário seria banal, assim é surreal. Como se o mundo virado do avesso começasse a dar uma nova volta.

O Novo Sagrado

O secularismo morreu. Temos pessoas a ajoelhar-se pela diversidade, pessoas a usar máscaras sem justificação médica, pessoas na rua a dizer que Portugal é racista, outras para dizer que não é. Tudo isto, e muito mais que podemos encontrar nas notícias mas também no dia a dia, são práticas profundamente religiosas, simbólicas e rituais. O homem moderno não é menos religioso, não tem menos necessidade de ritual e devoção, do que o homem medieval ou que o homem primitivo. E se por momentos se pode acreditar que fosse, o estado da sociedade em que vivemos demonstra-nos, todos os dias, o ímpeto religioso a manifestar-se profundamente. De forma caótica e descontrolada, sem razão nem intuição, sem rumo e sem destino, sem equilíbrio e sem ponto focal. Mas ímpeto religioso ainda assim. O secularismo, a sua ideia e doutrina, morreu. Celebremos, mas não muito: porque isto é o inevitável, mas não podemos esquecer que as religiões e os cultos, as práticas e os símbolos, os credos e as fés, não são todos iguais. E no Ocidente temos um problema especial.

Chesterton avisou: quando os homens deixam de acreditar em Deus, não passam a acreditar em nada, mas sim em tudo. O tudo aqui refere-se à multiplicidade que flui necessariamente da ausência do Deus único. Se Cristo é unidade, a sua ausência é fragmentação. ‘Legião é o meu nome, porque somos muitos’, dizem os demónios. Não consigo pensar numa melhor descrição para a nossa era.

O Ocidente é pós-Cristão. Desde que abandonou Cristo, o Ocidente nunca foi, nem nunca poderá ser, apenas secular, ou apenas pagão. Nunca mais. Cristo refez-nos, e depois nós rejeitámo-lo. Não podemos alegar ignorância, ou inocência: todos os ídolos do Ocidente são, necessariamente, rejeições de Cristo. Todas as ideologias e doutrinas, bem sucedidas ou não, são meras tentativas de oferecer uma explicação e um significado à existência humana; uma tentativa de cobrir o buraco deixado por Cristo no coração do Ocidente. Mas o buraco é tão largo, tão profundo, que não há penso grande o suficiente, nem em número que baste, para o tapar. E é óbvio que a opção do buraco pode ficar destapado é impossível. O impulso religioso é inerente ao homem, é uma memória distante e genética da nossa origem, a vontade inescapável de nos redimirmos do pecado de Adão e Eva e voltar ao Jardim. Mas visto que rejeitámos o Deus verdadeiro, só podemos por consequência adorar falsos.

É um padrão comum na história humana que o agente dessacralizador torna-se, ele mesmo, sagrado e cumprindo a mesma função. A Igreja dessacralizou o paganismo e o tribalismo, tornando-se ela mesma o símbolo do sagrado e tornando-se ela mesma a tribo. Depois a ‘reforma’ Protestante dessacralizou a Igreja tendo a Bíblia como base, e nesse preciso instante tornou a Bíblia o objecto e símbolo último do sagrado, e a autoridade que antes pertencia à Igreja passou a estar puramente nas Escrituras. A Ciência dessacralizou a Bíblia e tornou-se ela mesma sagrada e o lugar onde se procura o significado da vida e do mundo; e a tecnologia, ao dessacralizar a natureza, elevou-se ao estatuto de sagrado e substituiu a natureza como o substrato da existência, aquela a que o homem tem de se adaptar para sobreviver e cujos desígnios o homem é impotente para mudar.

No Ocidente montou-se um ataque durante séculos contra a ideia do sagrado, tudo o que pertencia a essa ordem nas nossas sociedades foi dessacralizado. E por uns instantes julgou-se que tínhamos, finalmente, chegado a uma sociedade acima de tais considerações. Agora, só a prática, a técnica, a eficiência e a ciência importavam. Mas nesse exacto momento, tornaram-se sagradas. Quem ousa contrariar o progresso, medido exactamente pelos mecanismos por nós criados? O último sagrado da nossa época é a técnica.

Nenhum dos cultos modernos, nem mesmo o ambientalismo, ousa de facto contrariar o substrato da nossa sociedade: a técnica. A técnica é o sagrado ao qual o homem tem de se adaptar como antes se adaptava às condições naturais; é o sagrado que providencia significado à vida, e também o que promete transcendência. Nenhum dos cultos modernos concebe um mundo sem os avanços técnicos dos últimos 200 anos, apesar da humanidade ter vivido sem eles durante a grande maioria da sua história. Não só não concebem, como se confrontados com tal possibilidade reagem da mesma forma que um  qualquer outro religioso reagiria à proposta de um mundo sem a sua forma de sagrado: escândalo e ofensa. Perguntem a um libertário ou a um fascista, a um comunista ou a um social democrata, a um Cristão ou um ateu, a um nacionalista ou a um imigracionista, e por aí fora. Todos reagiriam da mesma forma, instintivamente. E é apenas natural, pois essa é a fé do nosso tempo. A fé última sobre a qual todas as outras fés modernas assentam.

Sem compreender isto, não se compreende o mundo insano em que vivemos, nem como curar a insanidade.

Uma Fábula

H e M conheceram-se por ter um objectivo em comum. Cada um deles podia perseguir o objectivo sozinho, mas em conjunto, não só o atingiriam mais rápido, também o fariam mais perfeitamente. H era criativo, ambicioso e algo utópico. M era calculista, metódica, jovem, atraente e cheia de potencial.

Rapidamente descobriram que a sua parceria poderia estender-se a outras áreas. Assim, cada vez mais, H & M andam de mãos dadas. Partilham a vida laboral, mas também o lazer. H convida M para a sua casa. Primeiro para a sala e cozinha, eventualmente para as outras divisões também.

E em breve, também nas idas e nas vindas, nas férias, nas obrigações legais. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. Inseparáveis.

Mas a pouco e pouco a lua de mel esmorece, as idiossincrasias que pareciam encantadoras são agora irritantes, e as personalidades começam a chocar. H, o criativo e sonhador, versus M, metódica e pragmática.

M torna-se mais e mais exigente, sufocante, tem de levar sempre a sua avante, quer controlar todos os aspectos da vida de H, que começa a ponderar se a sua união total com M foi uma boa ideia. Mas é tarde demais: H está isolado, toda a sua vida está, de uma forma ou de outra, ligada a M, pois M só lhe permite uma vida na medida em que é ligada a si. M alienou todos os seus amigos, alguns até ao ponto de apagar os seus contactos. H já não pode dar a sua opinião sem temer atiçar a ira de M.

Um dia, em relação a um ou outro pormenor, H decide impor-se e dizer ‘chega’. Mas a resolução dura pouco. Em breve, numa outra circunstancia, cederá. Já não sabe viver sem M. Abdicar dela nos seus dias maus levaria a ter de abdicar dela nos bons. As suas qualidades são inseparáveis dos seus defeitos. Está refém da relação, e no máximo pode negociar as condições da captura, mudar um ou outro termo do contrato, temporariamente, mas a sua prisão permanece, e H definha – toda a sua criatividade e entusiasmo perdidos. H é anulado como ser independente. Toda a sua existência é definida por M.

Até que a morte os separe.

***

O leitor foi levado a pensar que a história acima é sobre um homem e uma mulher. Mas está errado: é sobre o Homem e a Máquina.

O Trigo e o Joio

As minhas divergências com os nacionalistas, nas suas várias estirpes, não são novas. Tanto na vertente política (isto é, nas medidas que consideram vitais), como na vertente filosófica (por reconhecer que o Nacionalismo é uma ideologia, e como tal um produto do materialismo Iluminista, incompatível com um entendimento natural da natureza humana, das divisões naturais entre os povos e da correcta organização social daí resultante), como na vertente moral (para os que se lembram dos podcasts que gravei, os exemplos eram variados).

Isto não quer dizer que não considere alguns deles aliados, ou até que não concorde em grande parte com o que dizem. Concordo. No entanto, aqueles com quem concordo mais frequentemente do que discordo, têm-se eles mesmos afastado, voluntaria ou involuntariamente, do movimento Nacionalista mais geral. Os mais recentes desenvolvimentos no movimento têm sido, a meu ver, todos extremamente insalubres, e cada vez mais avessos àquilo que considero salutar. Em geral, há cada vez mais uma ênfase no Darwinismo, no Arqueofuturismo, no Autoritarismo, no pseudo-Paganismo e no determinismo (primeiramente biológico, mas que descamba em muitas outras formas).

Os eventos recentes relacionados com o Coronavírus só têm aberto mais este fosso, para o bem ou para o mal. No meu entender, o pior daquilo que estava latente no movimento Nacionalista está a vir ao de cima, em particular a exultação da Ciência, da Tecnocracia e do Autoritarismo (que, num contexto de tecnologia moderna, é Totalitarismo).

Observemos por exemplo este tweet, de uma conta proeminente no movimento:

O autoritarismo pseudo-científico, a abertura da porta (já de si escancarada) para a tirania médica, o totalitarismo latente sem justificação que não a da reverência aos ‘especialistas’, não poderia estar mais às avessas com a minha mundividência.

Como objecções, podemos começar pelo facto de vivermos num mundo submerso em informação em que é impossível a qualquer indivíduo computar todos os dados, pelo que a natureza humana acaba por nos fazer aceitar este ou aquele ponto, não por ser o produto de uma avaliação racional de todos os dados (impossível pela quantidade), mas por concordar com a nossa mundividência. Ou seja, a aceitação de estudos, dados, testes é feita com base na fé: na Ciência (com C grande), nos cientistas e, por consequência, naqueles que os financiam. Ora, é óbvio que tais testes e estudos, pelos recursos que são necessários, são financiados por organizações com grande poder económico, as mesmas organizações que trabalham incessantemente, por outros ou os mesmos meios, para destruir a Europa e os Europeus. Seria expectável que houvesse um pouco de cepticismo nem que fosse por este mero facto. Mas não há porque, como Chesterton o disse uma vez, quem não acredita em Deus acaba por acreditar em tudo. E no caso do movimento nacionalista, essa fé é colocada na Ciência (C grande), como se fosse uma entidade independente, que não é, pelas razões apontadas acima.

Mas indo além da ignorância disfarçada do cientismo é o declarado totalitarismo que mais vai de encontro à minha própria mundividência. Embora, diga-se em abono dos autores e dos que concordam com eles, o totalitarismo seja precisamente a consequência lógica e necessária do mundo tecnológico que professam. E nisto, não estão sozinhos, são apenas mais consistentes. Sem rejeitar o nexo tecnológico nascido na revolução industrial o resultado será sempre o totalitarismo científico, sempre à mercê de quem o financia.

E aqui está a mais deprimente conclusão: que embora a minha mundividência esteja às avessas com os nacionalistas, posso ao menos dizer que são logicamente consistentes. Eles não recusam o totalitarismo científico, eles abraçam-no e julgam (correcta ou incorrectamente não é do nosso interesse, por rejeitarmo-lo explicitamente) que podem, um dia, controlá-lo e fazer uso dele para recuperar e garantir a herança étnica Europeia. Daí também o seu apoio à União Europeia. A conclusão deprimente é que, precisamente os que concordam comigo sobre as fundações, isto é, o Cristianismo, ou pelo menos um entendimento moral do ser humano como base, são absolutamente cegos em relação à incompatibilidade dessa fundação com o mundo tecnológico e o sistema industrial. Esse sistema irá sempre navegar numa única direcção, que é a abolição do ser humano à imagem de Deus, resultará sempre na subjugação do espírito humano à necessidade técnica, e o seu potencial destrutivo só pode ser, temporariamente, minimizado através de regulação da liberdade humana – e quanto mais complexa a rede de tecnologia, mais controlo é necessário, seja da parte do Estado ou de outras organizações vastas, às actividades humanas. Para um exemplo concreto, olhemos para as medidas draconianas aplicadas pelos putativos Estados ‘Cristãos’ na Europa da Hungria e da Polónia, tão frequentemente apontados como os raios de luz modernos contra a degeneração étnica e moral, mas que, para mal dos nossos pecados, não passam de meros espantalhos, e agora completamente vergados à ditadura ‘científica’, e em breve, como já previmos aqui, completamente subjugados ao mesmo globalismo que os hipócritas ou enganados Cristãos que nos juraram ser neles que se encontrava a resistência ao sistema. Seria risível, se não fosse triste, censurável e absolutamente fantasioso.

Repita-se: este totalitarismo, cujo jugo está prestes a tornar-se ainda mais pesado, é a consequência natural do sistema industrial. E não há salvaguardas políticas que o possam atenuar. Os Cristãos, em particular, serão em breve confrontados com uma escolha que adiaram há pelo menos dois séculos: entre rejeitar o mundo moderno, incluindo as “benesses” tecnológicas, ou ser fiéis ao Deus que professam. Até agora pudemos viver na Torre de Babel figurativa do sistema industrial, fingindo que rejeitávamos a sua fundação, sem nunca rejeitarmos as várias camaddas erigidas sobre ela. Esta hipocrisia será, finalmente, desmascarada. No fundo, e finalmente, os Cristãos serão obrigados a escolher, explicitamente, entre os confortos terrenos ou a sua fé em Cristo. E não é particularmente surpreendente, tendo em conta que desde a fundação do sistema industrial foram muito poucos os Cristãos (incluindo as suas instituições) que se insurgiram contra a sua implementação violenta, opressiva e coerciva; também nada disseram quando essa mesma violência, opressão e coerção foi exportada para fora da Europa, quando o seu conforto passou a depender de trabalho escravo, e muitas vezes infantil, no terceiro mundo. Poucas vozes Cristãs se levantaram contra isto. E as que se levantaram preferiram viver na ilusão de que se podia reformar o sistema, o mesmo sistema que subjugou e destruiu as formas de vida ancestrais e tradicionais do mundo inteiro.

Era uma ilusão voluntária, saída do desejo de conforto. Essa ilusão está prestes a ser impossível.

Aquele que ama a sua vida, a perderá; aquele que odeia sua vida neste mundo, a preservará para a vida eterna.’

Finalmente, o trigo será separado do joio.