O Trigo e o Joio

As minhas divergências com os nacionalistas, nas suas várias estirpes, não são novas. Tanto na vertente política (isto é, nas medidas que consideram vitais), como na vertente filosófica (por reconhecer que o Nacionalismo é uma ideologia, e como tal um produto do materialismo Iluminista, incompatível com um entendimento natural da natureza humana, das divisões naturais entre os povos e da correcta organização social daí resultante), como na vertente moral (para os que se lembram dos podcasts que gravei, os exemplos eram variados).

Isto não quer dizer que não considere alguns deles aliados, ou até que não concorde em grande parte com o que dizem. Concordo. No entanto, aqueles com quem concordo mais frequentemente do que discordo, têm-se eles mesmos afastado, voluntaria ou involuntariamente, do movimento Nacionalista mais geral. Os mais recentes desenvolvimentos no movimento têm sido, a meu ver, todos extremamente insalubres, e cada vez mais avessos àquilo que considero salutar. Em geral, há cada vez mais uma ênfase no Darwinismo, no Arqueofuturismo, no Autoritarismo, no pseudo-Paganismo e no determinismo (primeiramente biológico, mas que descamba em muitas outras formas).

Os eventos recentes relacionados com o Coronavírus só têm aberto mais este fosso, para o bem ou para o mal. No meu entender, o pior daquilo que estava latente no movimento Nacionalista está a vir ao de cima, em particular a exultação da Ciência, da Tecnocracia e do Autoritarismo (que, num contexto de tecnologia moderna, é Totalitarismo).

Observemos por exemplo este tweet, de uma conta proeminente no movimento:

O autoritarismo pseudo-científico, a abertura da porta (já de si escancarada) para a tirania médica, o totalitarismo latente sem justificação que não a da reverência aos ‘especialistas’, não poderia estar mais às avessas com a minha mundividência.

Como objecções, podemos começar pelo facto de vivermos num mundo submerso em informação em que é impossível a qualquer indivíduo computar todos os dados, pelo que a natureza humana acaba por nos fazer aceitar este ou aquele ponto, não por ser o produto de uma avaliação racional de todos os dados (impossível pela quantidade), mas por concordar com a nossa mundividência. Ou seja, a aceitação de estudos, dados, testes é feita com base na fé: na Ciência (com C grande), nos cientistas e, por consequência, naqueles que os financiam. Ora, é óbvio que tais testes e estudos, pelos recursos que são necessários, são financiados por organizações com grande poder económico, as mesmas organizações que trabalham incessantemente, por outros ou os mesmos meios, para destruir a Europa e os Europeus. Seria expectável que houvesse um pouco de cepticismo nem que fosse por este mero facto. Mas não há porque, como Chesterton o disse uma vez, quem não acredita em Deus acaba por acreditar em tudo. E no caso do movimento nacionalista, essa fé é colocada na Ciência (C grande), como se fosse uma entidade independente, que não é, pelas razões apontadas acima.

Mas indo além da ignorância disfarçada do cientismo é o declarado totalitarismo que mais vai de encontro à minha própria mundividência. Embora, diga-se em abono dos autores e dos que concordam com eles, o totalitarismo seja precisamente a consequência lógica e necessária do mundo tecnológico que professam. E nisto, não estão sozinhos, são apenas mais consistentes. Sem rejeitar o nexo tecnológico nascido na revolução industrial o resultado será sempre o totalitarismo científico, sempre à mercê de quem o financia.

E aqui está a mais deprimente conclusão: que embora a minha mundividência esteja às avessas com os nacionalistas, posso ao menos dizer que são logicamente consistentes. Eles não recusam o totalitarismo científico, eles abraçam-no e julgam (correcta ou incorrectamente não é do nosso interesse, por rejeitarmo-lo explicitamente) que podem, um dia, controlá-lo e fazer uso dele para recuperar e garantir a herança étnica Europeia. Daí também o seu apoio à União Europeia. A conclusão deprimente é que, precisamente os que concordam comigo sobre as fundações, isto é, o Cristianismo, ou pelo menos um entendimento moral do ser humano como base, são absolutamente cegos em relação à incompatibilidade dessa fundação com o mundo tecnológico e o sistema industrial. Esse sistema irá sempre navegar numa única direcção, que é a abolição do ser humano à imagem de Deus, resultará sempre na subjugação do espírito humano à necessidade técnica, e o seu potencial destrutivo só pode ser, temporariamente, minimizado através de regulação da liberdade humana – e quanto mais complexa a rede de tecnologia, mais controlo é necessário, seja da parte do Estado ou de outras organizações vastas, às actividades humanas. Para um exemplo concreto, olhemos para as medidas draconianas aplicadas pelos putativos Estados ‘Cristãos’ na Europa da Hungria e da Polónia, tão frequentemente apontados como os raios de luz modernos contra a degeneração étnica e moral, mas que, para mal dos nossos pecados, não passam de meros espantalhos, e agora completamente vergados à ditadura ‘científica’, e em breve, como já previmos aqui, completamente subjugados ao mesmo globalismo que os hipócritas ou enganados Cristãos que nos juraram ser neles que se encontrava a resistência ao sistema. Seria risível, se não fosse triste, censurável e absolutamente fantasioso.

Repita-se: este totalitarismo, cujo jugo está prestes a tornar-se ainda mais pesado, é a consequência natural do sistema industrial. E não há salvaguardas políticas que o possam atenuar. Os Cristãos, em particular, serão em breve confrontados com uma escolha que adiaram há pelo menos dois séculos: entre rejeitar o mundo moderno, incluindo as “benesses” tecnológicas, ou ser fiéis ao Deus que professam. Até agora pudemos viver na Torre de Babel figurativa do sistema industrial, fingindo que rejeitávamos a sua fundação, sem nunca rejeitarmos as várias camaddas erigidas sobre ela. Esta hipocrisia será, finalmente, desmascarada. No fundo, e finalmente, os Cristãos serão obrigados a escolher, explicitamente, entre os confortos terrenos ou a sua fé em Cristo. E não é particularmente surpreendente, tendo em conta que desde a fundação do sistema industrial foram muito poucos os Cristãos (incluindo as suas instituições) que se insurgiram contra a sua implementação violenta, opressiva e coerciva; também nada disseram quando essa mesma violência, opressão e coerção foi exportada para fora da Europa, quando o seu conforto passou a depender de trabalho escravo, e muitas vezes infantil, no terceiro mundo. Poucas vozes Cristãs se levantaram contra isto. E as que se levantaram preferiram viver na ilusão de que se podia reformar o sistema, o mesmo sistema que subjugou e destruiu as formas de vida ancestrais e tradicionais do mundo inteiro.

Era uma ilusão voluntária, saída do desejo de conforto. Essa ilusão está prestes a ser impossível.

Aquele que ama a sua vida, a perderá; aquele que odeia sua vida neste mundo, a preservará para a vida eterna.’

Finalmente, o trigo será separado do joio.

Novo blog

Para os que estiverem interessados, criei um novo blog onde colocarei textos em inglês, em formato mais longo, maioritariamente sobre tecnologia e as suas implicações sociais, políticas e morais. Originalmente planeava publicá-los em formato de livro, mas por várias razões, primeiramente a minha incapacidade pós-moderna de organização, penso que tal nunca virá a suceder. E, caso suceda, penso que o formato de blog poderá contribuir para a organização. Além disso, este formato oferece a possibilidade de comentar os textos, o que pode contribuir para o desenvolvimento ou correcção de algumas ideias, gralhas ou ausências.

A razão para estar em inglês é a de ter escrito os textos originalmente nessa língua, e apesar de por vezes tentar traduzi-los ou adaptá-los para a língua portuguesa para os publicar aqui, é um exercício que não aprecio particularmente e, pior, não tenho grande capacidade, pelo que se perde muito do que tentei originalmente escrever.

Back to Basics

É impressão minha ou cheira a esturro?

O PS e o PSD chumbam a partilha de dados sobre o virus.

Uma feira de produtores independentes em Famalicão ao ar livre com medidas higiénicas (máscaras e desinfecção) é um escândalo e um perigo para a saúde pública, mas hipermercados em espaços fechados e sem essas medidas não são.

Pequenas empresas e lojas de bairro são levadas a fechar ou abertas com grandes limitações, mas grandes superfícies são permitidas.

Limitações de circulação com critérios aleatórios e especialmente durante o período mais importante do calendário Católico.

Deslocações para trabalho requerem agora declaração.

Sem falar nas ideias que já flutuam sobre vigilância perpétua, certificados de imunidade e vacinações forçadas – sem as quais ‘não se poderá voltar ao normal’.

Tudo isto e muito mais, implicando uma crise económica de proporções épicas, para proteger os velhotes que ainda há uns meses encorajavam a suicidar-se?

O que aí vem

Não há qualquer dúvida que vêm aí tempos difíceis.

Seja qual for a verdade sobre a situação, que nunca viremos a saber, o que nos espera é uma vida pautada por uma dureza que no Ocidente não experienciamos há muitas décadas, e potencialmente pior, tendo em conta o aumento do poder dos oligarcas pelos meios técnicos à sua disposição. É extremamente provável que a perseguição dos Cristãos se inicie num futuro próximo. Quer este seja planeado ou não, os oligarcas usá-lo-ão (como já estão a usar), para nos tirar mais direitos, para nos oprimir mais, para nos fazer sofrer.

Mas precisamente aí está a oportunidade para que muita gente se vire para Deus. É precisamente porque os nossos confortos mundanos estão prestes a ser abolidos que um grande véu de decepção e doença espiritual será levantado dos nossos olhos. Como muitos Cristãos antes de nós, temos de enfrentar a perseguição e o sofrimento com fé e alegria, finalmente percebendo que os nossos destinos estão na mão Dele, e nunca estiveram nas nossas.

Há décadas, possivelmente há séculos, que no Ocidente vivemos num sono profundo de facilidade, conforto e distracção. O que se avizinha é um verdadeiro acordar que só tempos negros podem concretizar. A dor focará os nossos corações no que realmente importa. Lembrem-se que são os tempos difíceis que criam homens fortes.

Esses tempos estão a chegar, e haverá homens capazes da força necessária para os enfrentar, homens cuja fé nos falsos ídolos criados pelas nossas mãos irá morrer, e em que só a fé em Cristo permanecerá.

Uma derrota concedida

Parece que ontem foi o ‘dia internacional da visibilidade trans’. Sim, no meio de uma pandemia que ameaça não deixar pedra sobre pedra do edifício moderno, esse mesmo edifício demonstra nas suas prioridades que não merece que fique dele nem pó.

Mas não são as prioridades do sistema, mas sim do povo, que mais provam o quanto o edifício precisa de ruir.

Por ocasião do tal ‘dia internacional’, a parada de congratulações torpes da parte de corporações desenrolou-se, incluindo, como se vê abaixo, canais de televisão destinados a crianças.

O que salta à vista, pelo menos a mim, não é o apoio corporativo à disforia sexual: como já explicámos neste espaço e é bastante fácil de perceber, é do interesse do capitalismo e dos seus braços armados que as pessoas sejam destruídas como pessoas e reerguidas como autómatos com identidades mercantis, dependentes dos produtos oferecidos pelo aparato capitalista.

O que salta à vista, no post e nos comentários, são as assumpções silenciosas dos pais, demonstrando que estes abandonaram definitivamente a ideia de que devem ser eles, e não corporações através de meios tecnológicos, que devem educar os seus filhos.

O problema dos pais não é, pois, que os filhos passem uma maioria das suas vidas sentados em frente a um ecrã, e não consideram que a responsabilidade sobre o que os filhos vêem ou deixam de ver é sua, mas pelo contrário, externalizam essa responsabilidade nas corporações, e a sua indignação é que as corporações não ofereçam o conteúdo que consideram adequado. No fundo, querem que as corporações não actuem no seu interesse (que é, naturalmente, criar um novo modelo de humanidade puramente mercantil), porque eles, os pais, não concebem sequer que possam agir por si mesmos no interesse das suas crianças.

O mesmo se pode observar neste outro post, e nos comentários:

Deduz-se que se os canais de televisão e o youtube providenciassem conteúdo que os pais consideram adequado, seria benéfico ou aceitável que os miúdos tivessem acesso sem supervisão a estas tecnologias.

É simplesmente assumido que a responsibilidade é do youtube, ou da internet, ou das televisões, controlar e filtrar o entretenimento a que os miúdos têm acesso. No fundo, estes pais abdicaram completamente da ideia de que têm qualquer responsabilidade no crescimento psicologicamente saudável dos seus filhos.

Mesmo os pais que perdem tempo a criar um perfil de youtube para os filhos, e filtrar as sugestões que não aprovam, a criança ainda é livre de navegar e muito rapidamente aprende como retirar os filtros. E os pais sabem isto, tal como os meus pais sabiam que eu sabia como desbloquear os canais bloqueados. Esta é uma consequência inevitável de qualquer avanço tecnológico: as precauções tomadas para meios prévios são notavelmente insuficientes – como estes pais que tentam filtrar o youtube, como se estivessem a escolher que livros a criança pode ler e colocar os livros inadequados numa prateleira à qual os miúdos não conseguem chegar. Mas na internet, e na televisão, não há prateleiras fora do alcance.

A menos que se limite ou proiba o acesso (físico) à televisão e à internet, todas as medidas são ultimamente fúteis. Mas ao sugerir esta ideia, como eu já sugeri, recebem-se olhares de incredulidade, como se estivesse a propôr amputar um dos membros da criança, como se o acesso a estas tecnologias fosse o estado natural da humanidade e a regulação do seu conteúdo, não do seu uso, fosse a única medida à disposição que não viole os direitos naturais da criança.

E lembremos que estamos a falar de um dos mais importantes pilares de uma sociedade, a instrução infantil. Que os pais abandonem assim a sua responsabilidade não é novo, mas é uma boa ilustração de como, na nossa era materialista, a vitória já foi concedida antes da batalha começar. Qualquer inovação tecnológica é imediatamente aceite sem protesto, e qualquer negociação da nossa liberdade é feita nos termos propostos por ela. E pior, os pais que tentam esta negociação fútil e impotente, são uma pequena minoria. Para a maioria, é aceitar e calar. Ou, muitas vezes, celebrar.

Não vale a pena bater com as mãos na mesa contra o conteúdo do youtube ou das televisões, mas também não vale a pena, do nosso lado, bater com as mãos na mesa contra a attitude da maioria dos pais. As pessoas não mudam. E por isso observamos esta adaptação continua, e cada vez mais rápida, às novas condições tecnológicas. Conclui-se daqui que não há qualquer solução para este problema da parte humana, e que a única solução é a destruição destes meios tecnológicos: os tweets acima demonstram sem a sombra de uma dúvida que mesmo os pais mais atentos se resignam à perda de liberdade e à corrupção dos seus filhos, ficando-se pela luta vã e fútil de que sejam corrompidos apenas aos poucos.

Sobre uma recente preocupação com liberdades

Vamos tirar isto do caminho: é óbvio que esta crise será usada para avançar os planos do sistema, para nos tirar mais direitos, para regimentar mais a nossa vida. Os “donos disto tudo” usariam qualquer crise (ou nenhuma) para o fazer. Faz parte dos seus planos há muito tempo implantar chips nas pessoas, forçar vacinações, ou acabar com qualquer transacção em dinheiro físico e tudo o resto que quem não anda a dormir já sabe.

Mas não vamos fingir que a sociedade não estava a ir por esse caminho, com ou sem coronavirus. Todas as outras erosões dos nossos direitos, limitações da nossa autonomia, liberdade de pensamento e acção que ficaram para trás foram engolidas sem problema, e não será agora que se está a chegar ao culminar da sociedade tecnológica, que sempre foi, desde o início, a escravatura e abolição do homem como ser criado à imagem de Deus, que a tendência será quebrada – pelo menos não por mão humana. Porque se podemos observar alguma coisa é que, a cada fase, não houve grande resistência. Em troca de conforto, segurança ou por mera pressão social, todos nós aceitámos a escravatura.

É suposto eu ficar triste porque viciados em turismo já não podem obter a sua dose e ir destruir economias locais e sociedades tradicionais? Quando durante anos se submeteram sem protesto às medidas anti-terrorismo que invadiam a sua privacidade e até a sua intimidade? Porque não conseguiam estar quietos e ir dar um passeio até à floresta mais próxima, em vez de uma no outro lado do mundo? É suposto eu ficar incensado porque agora estão (de forma aberta) a monitorizar os movimentos dos cidadãos, quando toda a gente que queria saber já sabia que o faziam de forma secreta?

Toda a gente que usa um smartphone, eu incluído, já abdicou da sua liberdade e privacidade há muito. Todas as pequenas concessões que fizemos durante o século passado nos trouxeram aqui. Esse é o preço, e já o é há muito, para participar na sociedade. É uma sociedade destrutiva, anti-humana e alienante. Mas já o é há muito tempo. E até agora não ouvia grandes coros contra essas invasões da nossa humanidade. Não vamos fingir que esse preço só agora está a ser pago.

Não é voltando ao mundo pré-Corona, ou ao mundo pré-11 de Setembro, que vamos recuperar a nossa liberdade, autonomia e humanidade. O problema é muito anterior – é estrutural. Se querem ter uma discussão sobre liberdade, então têm de deitar o ‘bebé’ tecnológico com a ‘água do banho’ da última década. Porque é um bebé demónio.

Se não estão dispostos a fazer isso, então perdoem-me não ter paciência para os recentes clamores sobre liberdade. Se o problema não fosse muito mais antigo que este virus e as medidas que o seguem, não teriamos o virus em primeiro lugar. Sinceramente, não quero saber que não possam mais ir beber mojitos para as Caraíbas, ou abanar o rabo para as discotecas, ou ver o último vómito da Marvel a um cinema.

Éramos escravos antes, continuamos escravos agora: este é só mais um aperto na trela.

A ilusão do sistema industrial autárquico

A direita tem falado muito no fecho de fronteiras como medida de contenção do virus, e também na necessidade de voltar a ter indústrias nacionais, independentes do sistema global. Tal só revela a sua imensa ingenuidade, voluntária ou não.

Para se perceber o porquê de tal sistema industrial autárquico ser absolutamente impossível, vejam este video:

Nele explica-se que para fazer algo tão básico como um lápis é necessária uma rede global em perfeita coordenação. É um video celebratório, claro, porque se foca apenas nos benefícios de tal sistema. Os prejuízos desse sistema estão a tornar-se, pelo menos em parte, mais aparentes.

Mas se tal sistema é necessário para fazer um lápis, imaginem para telemóveis, computadores e carros – e tudo o resto a que nos habituámos no mundo moderno.

Talvez daqui a cinquenta anos um avô esteja sentado à lareira com o seu neto ao colo, a contar-lhe histórias sobre quão estranho o mundo costumava ser, em que em vez das pessoas cultivarem a sua própria comida e dependerem das suas famílias e vizinhos iam a um edifício gigante do outro lado da cidade, e trocavam pedaços de papel por couves e batatas que vinham do mundo inteiro, e como as suas vidas dependiam de pessoas que nunca iriam conhecer e com as quais não tinham nada em comum do outro lado do planeta. E ainda mais estranho, nem sequer conheciam os seus vizinhos.

O neto não acreditará. É demasiado surreal e insano. O avô concorda e diz à criança que as pessoas só se começaram a aperceber quão insano era quando um virus mortífero vindo da China lhes bateu à porta. ‘Da China, avô?’. O avô mostrar-lhe-á a localizaçáo no mapa e a criança ficará de olhos esbugalhados, incrédula.

‘Estranho, não é? E tudo começou com um morcego’.

Antes e Depois

Antes do virus: O mundo está do avesso, as coisas não podem continuar assim!

Depois do virus: O mundo não pode parar, temos de voltar ao normal!

Espero que não deixe uma única pedra intacta deste edifício maléfico e satânico que é o mundo moderno.

Deus ri-se por último.

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Pandemias são “parte e parcela” de viver num sistema industrial.

E já agora, fechar as fronteiras é apenas uma medida temporária. Se as fecharem só a pessoas, é insuficiente. Se as fecharem a tudo, é um desastre.

Só comunidades agrárias autónomas e tribos primitivas são capazes de sobreviver isto sem serem afectadas, precisamente porque a sua sobrevivência não depende do que se passa do outro lado do mundo. Nenhum outro grupo pode dizer o mesmo.

Três hipóteses

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A lição real é a seguinte: a liberdade não é compatível com o poder destrutivo e expansivo da tecnologia moderna. Para controlar as externalidades negativas dos meios modernos é necessário limitar a liberdade.

Três hipóteses: abolição da tecnologia moderna, regimentação da vida comum, ou o caos.

Para uma ilustração simples imaginem a desordem que seria o trânsito automóvel sem leis que o regulassem, e comparem com o facto de não ser necessário regular o trânsito pedestre. Mais: com a introdução dos automóveis, não é apenas necessário regular o trânsito automóvel, mas também o pedestre, demonstrando que a tecnologia requer necessariamente limitação das liberdades, mesmo daquelas que não estão directamente ligadas à inovação tecnológica em causa.