RE: Protestar

O Kal-El deixou-nos o seguinte comentário:

O que eu posso dizer sobre esse fenômeno [dos anti-Cristãos], é que para mim não é mais uma surpresa.

É sabido entre os crentes e os fieis que o mal sempre tentará afastar a humanidade da Verdade. Eu sou um exemplo disso, nascido e criado numa cultura tradicionalmente católica, foi a falta de respostas que me levaram a confiar mais no sistema do que na dita “igreja”, levando-me à descrença e ao agnosticismo ou de certa forma ao ateísmo desde cedo. Foram precisos alguns tropeços na minha vida (e aqui acho que é a forma misteriosa como Deus age) que me levaram a focar na procura do conhecimento, e a procura do conhecimento me levou até à Palavra.

A busca pelo conhecimento me levou a entender como personalidades como Freud, Lemaítre, Newton, Rosseau, Nietzsche, Marx, Darwin, etc nos moldaram a forma de pensar, levando-nos aos pensamentos hediondos que hoje existem na sociedade desde o liberalismo até ao comunismo, do evolucionismo ao Big Bang. E todos estes homens eram na sua gênese anti-cristãos, alguns supostamente católicos, mas mais adeptos do ocultismo do que da Palavra.

E foi precisamente a Palavra e a inspiração da vida de Cristo que me levaram a perceber que fazia parte de grandes enganos, um deles era mesmo a religião. E aqui é preciso entender a história e juntar as peças que os próprios conspiradores deixaram escapar para entender a diferença entre o Catolicismo e o verdadeiro Cristianismo. Acredito veemente que o Catolicismo Romano não passou de um engano para prender os fiéis aos seus falsos ensinamentos. Como está escrito em apocalipse, a prostituta e mãe de todas as abominações está fadado ao falhanço.

Não digo que o Protestantismo esteja mais correto, porque como disse o Ilo, em resposta a um email que lhe enviei à dias, “Falta-lhes tradição e conhecimento”. Mas é preciso estar atento e procurar bem no fundo do baú, para percebermos todas estas coisas, desde as raízes pagãs do Catolicismo à infiltração Judaica nos primeiros séculos, das infiltrações maçônicas/druidas às infiltrações Jesuítas no Vaticano.

É notório este movimento Zeitgeist mundial rumo às doutrinas demoníacas da Nova Era. O que posso dizer é que tudo isto fez parte de um grande complô, e a igreja católica e suas “filhas” tiveram um papel importante na descrença religiosa.

Deixo aqui este pequeno video que pode ajudar a entender este meu comentário..
https://www.youtube.com/watch?v=DeuYasuIT6c

Kal-El

Quando nos apercebemos que o mundo está virado do avesso, é útil olhar para o que é vilificado, pois muitas vezes é aí que se encontra a Verdade. Penso ter sido assim que, pelo menos em parte, tenhamos chegado às conclusões a que chegámos. Observando que nenhuma religião é tão criticada como o Cristianismo, concluímos que alguma coisa de bom se há-de encontrar nela. É pois também necessário fazer o mesmo em relação à Igreja Católica, e perceber que nenhuma outra instituição é tão vilificada pelo sistema e pelos que se dizem contra ele, e que há aí uma lição. Isso não quer dizer que todas as críticas estejam erradas, mas que a avalanche de críticas vindas de todos os lados ou quase, deveria pôr-nos a pulga atrás da orelha.

Mas é um facto que não há nenhuma instituição, grande ou pequena, que não tenha sido corrompida pelo modernismo, e nisso incluiu-se a Igreja Católica Romana, mas também a Ortodoxa, as igrejas protestantes, as nações e os povos, e por aí fora. Também é importante dizer que a era moderna começou no século XV, não no século XX. A corrupção não é nova. Se o que vemos hoje é uma extrema corrupção que nos parece recente, ela é apenas a realização de uma corrupção começada há muito tempo, como quando se toma uma estrada errada, não é imediatamente aparente que o seja, mas só depois de a percorrer um bocado, ou até mesmo só depois de chegar ao destino errado se percebe. E depois o retorno é igualmente demorado, tem de se percorrer a estrada toda até ao cruzamento onde se tomou a esquerda, em vez da direita (metáfora usada não aleatoriamente, claro).

Por isso quando dizemos, por exemplo, que nascemos e crescemos numa cultura Católica, é tanto verídico como falso, depende do termo de comparação: Portugal dos anos noventa é certamente uma cultura mais Católica do que a Alemanha dos anos noventa, mas muito menos do que a Alemanha de 1200. O que quero dizer pode ser entendido desta forma: não é tanto que a cultura em que crescemos fosse Católica e nos desse poucas respostas, é que era pouco Católica, e por isso deu-nos respostas sem se colocar as perguntas. Daí que tenha afastado quase todos os jovens de tendência intelectual: não há nada mais anti-intelectual do que responder a uma pergunta que não se ousa colocar.

Mas mais importante do que identificar o que foi corrompido, e quando começou a corrupção, é qual a forma que essa corrupção tomou. E isso é mais fácil de identificar do que parece: a corrupção efectuada foi a perda (ou desvalorização, e em alguns casos diabolização) do pensamento místico e uma aderência fanática ao pensamento puramente materialista.

Antes de continuar, devo dizer que não aprecio antagonizar Cristãos protestantes, não os considero menos Cristãos por isso, e que se critico é por amor, e por achar que é absolutamente necessária – mas não me é agradável. Mas o facto é que vejo o erro dos nossos tempos como um resultado directo do Protestantismo, que é em si um resultado do materialismo –  um obstáculo que se coloca sobre os olhos, mas que em vez de atenuar a luz para não sermos cegados, se assemelha mais a um telescópio ou microscópio, que assegura a cegueira. É o erro da extrema proximidade bem como da extrema distância. De uma forma ou de outra, não se vê o que está à frente dos olhos.

Pegando no exemplo da Igreja: em diferentes graus e em diferentes manifestações a Igreja Católica foi ‘protestantizada’ – isto é, despida da sua componente mística (muito mais na Romana do que na Ortodoxa, por várias razões que terão de ser abordadas noutro texto). E antes de explicar porque é um erro, preciso de explicar em que consiste.

O Protestantismo, sendo fundado unicamente na Bíblia e dizendo descartar a Tradição, tem logo três problemas insolúveis. Primeiro, que a própria Bíblia foi compilada pela Igreja Católica (na altura sem a separação entre Ocidente e Oriente) – ou seja, a própria Bíblia é um produto da Tradição, que existia antes do Cânone a que os Protestantes aderem. Aderindo ao Novo Testamento, aderem já à Tradição, dizendo rejeitá-la. Mas sem a orientação da hierarquia, o que sucede é que se utiliza o microscópio ou o telescópio, e focando-se num ponto mais longínquo ou num ponto mais próximo, se é incapaz de ver o todo. Daí que do Protestantismo tenha nascido o Capitalismo e o Comunismo. Aqueles focam-se na parábola dos talentos esquecendo-se que Jesus nos diz quão difícil é a um rico entrar no Reino de Deus; os outros focam-se exactamente no contrário. Ambos estão certos em relação aos particulares, mas errados em relação ao todo.

Segundo, que o próprio Protestantismo forma uma tradição (ou, na verdade, sendo que quebram o elo de ligação com a Tradição e a hierarquia, várias), e essa fragmentação não é uma coincidência. Deus é unidade com variedade, não variedade sem unidade (o seu exacto oposto, na verdade): quando Jesus pergunta à criança possuída (Marcos 5) como se chama, os demónios respondem: “legião, porque somos muitos”.

Terceiro, que essa aderência única à Bíblia necessita de meios técnicos específicos para ser realizada – daí que a revolução protestante, como todas as outras revoluções, veio na sequência de um desenvolvimento tecnológico particular e à permissão de que essa tecnologia fosse usada sem limites (isto é, fora da Tradição): a prensa móvel. Sem esse meio técnico que permitiu a reprodução simples de Bíblias em várias línguas, a fé Cristã só poderia ser transmitida por meio da Tradição e das hierarquias estabelecidas, como até aí tinha sido feito.

Quando os Protestantes olham para o Catolicismo e os seus rituais, olham-nos com olhos modernos, materialistas, e como tal não conseguem conceber mais do que superstição (no melhor dos casos) ou conspirações ocultistas. Da mesma forma, quando olham para a Bíblia, só a conseguem entender de forma materialista, o que leva a que estejam constantemente em desacordo sobre interpretações – em comparação, e mesmo em cisma, as Igrejas Católicas (Romana, Ortodoxa ou Oriental) têm muito poucas divergências (à parte as corrupções, protestantes, do Concílio Vaticano II). E também quando olham para as similitudes entre celebrações ou práticas Católicas e práticas pagãs, em vez de tentarem entender a forma como Cristo transformou essas práticas, lhes deu novo significado, só conseguem ver ocultismo e conspiração.

O Protestante observa que certas tradições Católicas têm origens, similitudes ou contornos pagãos, e decide descartar tal facto como heresia, em vez de pensar no porquê de se ter mantido essas práticas e não outras, já que muitas não foram mantidas. A ideia de Jesus como revolucionário só podia, pois, ter vindo do Protestantismo: a rejeição radical de tudo o que veio antes.

É essa mesma mentalidade que leva outros críticos a dizer que o Cristianismo, sendo a realização da Tradição judaica, é incompatível ou externo aos Europeus. E por isso uns e outros pecam pelos extremos: há aqueles que se focam na tradição judaica, e os que se focam na tradição europeia. Em vez de se focarem em Cristo e na sua Igreja, separar o trigo do joio e viver numa sociedade equilibrada.

De certa forma ambos estão certos, mas igualmente errados, e pela mesma razão: estão certos porque, de uma certa perspectiva materialista, as suas críticas são factuais, mas errados por ser uma análise incompleta. Como se olhassem para um copo, e descrevendo todos os seus componentes físicos, não o identificassem como um recipiente para líquidos. E de facto, não há nada nesses componentes em si mesmos, nem na sua unificação em si mesma, que faça deles um copo. Mas tal consideração é completamente irrelevante para se perceber o que é um copo e para que serve. Da mesma forma, os materialistas não entendem o que é nem para que serve a Igreja (e a religião em geral).

A própria estrutura da palavra original (do latim, religare) nos diz para que serve: para nos voltar a ligar ao Divino. Se essa ligação pudesse ser directa, como pensam todos os materialistas (incluindo os que colocam a ciência ou os seus produtos como objecto de culto) não precisaríamos de religião. Por vezes penso que os Protestantes nem sequer entendem que a nossa natureza caída significa que fomos desligados do Divino e precisamos que nos voltem a ligar, e que portanto o sufixo ‘re’ em religar para um Protestante não está lá a fazer nada.

Um exemplo: a visão materialista leva automaticamente a considerar o pecado ancestral de uma certa perspectiva, de que o conhecimento é inerentemente mau, o que quereria dizer que Deus teria criado algo mau. E o ateísmo resultante deste desentendimento leva ao contrário, que se preste culto ao conhecimento sem se considerar que há formas boas e más de o obter.

A visão correcta é-nos explicada por vários Pais da Igreja, de que a Árvore era meramente um teste, e que o conhecimento em si não era mau, mas apenas a forma de o obter. Obtido em desobediência, sem preparação, o homem seria corrompido, não pelo conhecimento, mas pela desobediência – como alguém que tendo os olhos fechados os abre directamente para uma luz fortíssima, e assim permanece incapaz de ver. Pelo contrário, Deus queria que o homem fosse digno desse conhecimento, se aproximasse aos poucos, e assim não fosse cegado pela luz. Se Adão e Eva tivessem obedecido ao mandamento, Deus ter-lhes-ia em tempo dado o conhecimento. É até possível especular que tivessem eles se aproximado pela sua simples experiência. Sem ter caído na primeira tentação do demónio, eventualmente seriam levados ao conhecimento do bem e do mal, pelo simples facto de que o raio da serpente estava sempre a tentá-los – veriam claramente que existia o mal, e que consistia na desobediência ao mandamento divino e à vontade de sermos iguais a Deus, sem nos juntarmos a Ele. Mas Adão e Eva caíram, e sendo confrontados com esse conhecimento impreparados, ficaram aterrorizados. A razão porque não se mostram certas imagens a crianças de certa idade, e eventualmente se lhas revelam, é a mesma. O Protestante diz: mostremos tudo de uma vez, ou nunca mostremos. Este padrão do tudo e nada, dos extremos sem o equilíbrio do meio, é o que o define – e essa sua influência é a que define os nossos tempos como resultado da mentalidade protestante.

Outro exemplo: a cronologia da Crucificação de Cristo é diferente entre os Evangelhos, o de João coloca-a antes do festival judeu Pessach e os outros depois. Será que se enganaram? Sem um entendimento não-materialista, e sem uma interpretação exterior à própria Bíblia, o Protestante cai no desespero, porque é suposto encontrar na Bíblia toda a Verdade independente da História, mas ao mesmo tempo um documento histórico semelhante a um manual de História. Mas a Bíblia é mais do que história, e é mais do que a lei, e é mais do que sabedoria. Há uma componente mágica, no sentido estrito, em que os eventos, sendo reais, são apresentados de forma não-linear, para atingir um determinado significado – e esse significado tem de vir de fora – e ou vem assente na hierarquia e na Tradição, ou leva às heresias do Comunismo, do Capitalismo, do Anarquismo, e todos os outros ismos. Não é por acaso que todas essas ideologias revolucionárias nasceram no Ocidente. O Zen Budista ou o misticismo Hindu são menos distantes de Cristo do que os proto-comunistas de Munster. Os dois primeiros são meramente incompletos, o segundo uma inversão.

No caso da discrepância entre a descrição em João e os outros, ela tem que ver com o objectivo do Evangelho, e o contexto. No primeiro capítulo do Evangelho é dito ‘ali está o Carneiro de Deus’ (a única instância em que é proferida tal frase), e quando a sua crucificação é apresentada durante (e não depois) do Pessach, é para salientar este facto – sendo que neste festival se sacrificavam carneiros, João quer mostrar que o sacrifício de Jesus Cristo é o derradeiro, o fechar deste ciclo. O Carneiro de Deus é sacrificado, e daí em diante, não será necessário sacrificar mais nenhum. Uma visão puramente materialista não nos permite compreender a profundidade dos versos, e muito menos a profundidade da discrepância – porque ela não é um erro, mas uma impressão de significado maior.

Por causa desta lacuna, o próprio entendimento histórico é perdido. Por exemplo quando se fala de ‘verdadeiro Cristianismo’ dos primeiros anos e das diferenças entre este e o Catolicismo organizado dos anos posteriores, não se percebe o carácter histórico do próprio Cristianismo. É óbvio que o Cristianismo dos primeiros séculos não foi igual aos seguintes, mas da mesma forma que a fundação de uma casa é diferente da casa depois de ter sido completa, não faz da casa outra coisa que não uma casa, nem da fundação algo para ser usado em si mesmo, mas uma mera fase na construção da casa.

O que nos leva ao ocultismo, aos símbolos e aos rituais. É absolutamente verdade que seitas maléficas se apoderaram de vários símbolos e os usam para maus fins. Mas na grande maioria esses símbolos foram apropriados, não originais. O seu poder como símbolo não desaparece, nem aquilo que nos quer ensinar. Veja-se por exemplo a frase, muitas vezes usadas pelos ocultistas: ‘as above so below’. Já vi muitos protestantes alarmados por esta frase, pensando em conotações satânicas, quando basta pensar um pouco para perceber que Cristo é a verdadeira realização dele e Ele mesmo o diz de outra forma, na oração que nos legou nas Escrituras: ‘assim na terra como no céu’. O importante é não deixar de lado que é a vontade de Deus, não a nossa, que deve ser ‘na terra como no céu’. Abandonar esse símbolo aos satânicos, no entanto, é o mesmo que abandonar o Pai Nosso – daí que o credo principal de tanta gente hoje seja ‘a minha vontade assim na terra como no céu’.

O problema é precisamente que os Ocidentais abandonaram o pensamento místico, e deixaram-no ser tomado pelos inimigos do Bem. Se queremos derrotá-los, temos de o reincorporar na nossa mundivisão – ou melhor, voltarmos a perceber como é impossível separá-lo. Tentei explicar anteriormente, por exemplo, que o pôr-do-sol, entendido literalmente, não existe – e mostrar com isso que o literalismo é uma parvoice. Talvez seja essa realização inconsciente que leve ao abuso da palavra ‘literalmente’ na língua inglesa. O literal é muito menos importante do que o figurativo. É no figurativo que nós existimos a maior parte do tempo. Mas a única forma de o fazer sem cair em distorções, sem achar que é a nossa vontade em vez da Sua, a ser realizada na terra e no céu, é através da Tradição, as práticas, a sua arte e as suas formas, para que possamos compreender e recuperar esse mundo perdido das mãos daqueles que o usam apenas para o subverter.

O simbolismo apresentado nos filmes de hollywood, que é muitas vezes orientado para uma interpretação satânica, é tão apelativo porque é verdadeiro, mas apresentado do avesso – a Crucificação e Ressureição fazem parte de quase todos os filmes de super-heróis, e é por isso que são tão apelativos; em contraste com a arte nominalmente Cristã que só apela aos convertidos, porque é tristemente literal. No fundo, estamos a deixar o inimigo usar o poder das nossas histórias para as desconstruir – enquanto nós abandonamos as histórias, os símbolos, e como tal, legamos o seu poder elucidativo ao inimigo.

Por fim, lembremos que em todas as eras houve quem achasse que vivíamos no fim dos tempos. Em parte, porque os padrões da realidade se repetem, e como tal o que vem no Antigo Testamento repete-se uma e outra vez e também o que vem no Apocalipse. Mas não é bom vivermos sob essa presunção – é melhor viver sob a presunção de que podemos ainda construir algo de bom e salvar alguma coisa, tanto para a nossa saúde espiritual, como para a dos que nos rodeiam e como tal, do mundo inteiro.

RE: Paradoxos

O Afonso deixou-nos este comentário há umas semanas atrás:

Caro Ilo,

Peço desculpa por “desconversar” mas, ultimamente, tenho notado um agravamento da hostilidade, por parte dos nazionaliztaz, para com o Cristianismo. A ideia básica deles é que o Cristianismo seria uma invenção judaica destinada a controlar as mentes dos ‘goyim‘. Não sei a que se deve este fenómeno, mas julgo ser importante que o sigamos de perto. Por exemplo:

http://www. renegadetribune.com/the-bible-a-jewish-conspiracy-and-hoax/

Os nazionaliztaz são tão monumentalmente estúpidos que não compreendem que os cristãos constituem a maior parte do seu potencial eleitorado. Há lugar para a crítica ao Cristianismo, mas não desta forma. Isto é uma imbecilidade de todo o tamanho!

Um abraço,
AdP

Respondi ao Afonso na altura dizendo que estava a par, que já me tinha debruçado sobre o fenómeno no passado, e que não estava preocupado: enquanto negarem a Verdade, estão votados ao fracasso, de uma forma ou de outra. Mas devia estar preocupado, pelo menos com um aspecto, que é a saúde das almas dessas pessoas, pelas quais deviamos rezar.

Também não considero salubre nem honesto que se diga a essa audiência para serem simpáticos para com os Cristãos só porque podem fazer uso deles para ganhar eleições ou atingir os seus objectivos. Embora entenda que certas batalhas têm de ser por vezes adiadas em nome de outras maiores, prefiro a honestidade brutal e intransigente a uma trégua utilitarista.

A primeira coisa a ter em conta quando um Cristão se depara com qualquer oposição, é que é tão possível negar a Verdade em todas as suas manifestações como é possível parar de respirar – eventualmente, por muito que se tente, desmaia-se e a respiração é reiniciada. A única forma eficaz é utilizar uma corda bem apertada à volta do pescoço – e por vezes, de facto, os não-Cristãos tendo uma visão enviesada, confundem a corda que os pendura pelo pescoço com aquela que lhes ata os sapatos.

Mas como a respiração, também com a Verdade. Ela permeia tudo, e como tal, mesmo entre os erros e os preconceitos, surge lá no meio, guiando as mentes que pensam e os corações que sentem. Todas as estradas lá vão dar, e a única forma de não chegar lá, ou pelo menos aproximar-se, é parar de andar.

Daí que tenha sido possível trazer o Cristianismo aos quatro cantos do mundo – porque a Verdade está escrita nos corações de todos os seres humanos e é preciso muito esforço para a ignorar.

Como é costume, prefiro olhar para dentro para encontrar o que está errado, antes de apontar o dedo aos outros. E é necessário admitir que é aos Cristãos que cabe o trabalho de pregar decente e adequadamente; e que essa tarefa foi negligenciada durante séculos, em particular aos Europeus, por se julgar que o trabalho estava feito. A verdade é que os Cristãos se demitiram de pregar aos convertidos, como quem se esquece de pôr mais lenha na fogueira – e eventualmente ela apaga-se, ou fica tão fraca que é preciso muito trabalho para a reacender.

Em particular, houve um erro táctico enorme, o erro do general quando ganha a batalha e pensa que a guerra também está ganha. E assim, marchando depois pelas terras do que se pretende conquistar, encontra-se uma oposição que se pensava já não existir. E assim os Cristãos, em vez de converter repetidamente, limitaram-se a repetir a conversão. Em vez de explicar, reiteraram. Em vez de persuadir, impingir. Antes da queda vem o orgulho, e como tal, reiterar e impingir acabam eventualmente na retirada táctica, perdendo terreno sem saber muito bem para quem o tinham perdido, nem porquê.

A meu ver o porquê deve-se à abordagem. O Cristianismo não suprimiu os antigos pagãos: incorporou o que havia de bom e descartou o que havia de mau. Se foi uma conquista, não foi pela força, mas pela sedução. Viu que a fruta estava a apodrecer, mas guardou as partes ainda saudáveis.

Quando São Paulo foi pregar aos Atenienses não começou por dizer-lhes o quão errados estavam, que eram burros, que a sua religião ancestral era uma falsidade e apresentado Cristo como uma novidade e uma ruptura. Não quis deitar tudo abaixo e construir sobre os escombros – construiu sobre as pedras firmes que já estavam lançadas, e deixou cair as que tinham fundação duvidosa. Pegou no que de bom havia neles, e partiu daí. Vendo que os Atenienses eram religiosos e observando os seus objectos de culto, encontrou um altar que dizia ‘ao Deus desconhecido’ e, em vez de lhes dizer que vinha pregar um Deus novo, disse-lhes que lhes vinha dar a conhecer Aquele que até então lhes era desconhecido.

O mesmo tem de ser feito com os Ateus, os Agnósticos, os New Agers e os anti-Cristãos. Há muitos objectos de culto e toda a gente os tem. Não é preciso colocar a pachamama no Altar, mas sim encontrar o pouco de bom que ela representa, e clarificar que o que tem de bom vem de Deus, e o que tem de mau vem de nós. Nesse caso particular a que aludi, há quem não compreenda as razões para o caso surgir, mas a verdade é que há uma ausência e rejeição gritante do feminino no mundo moderno (um tema para outro texto), e é apenas natural que seja procurado. Cabe aos Cristãos apontar o sítio onde se o deve procurar – a Mãe de Deus, não a mãe natureza.

***

Virando-me agora para outro lado, o mais curioso nas oposições ao Cristianismo, é que elas são paradoxais, por vezes vindas de lados opostos, mas até do mesmo lado.

Por um lado critica-se o Cristianismo por ter destruído violentamente os paganismos Europeus, por outro diz-se que é demasiado dócil e ensinou aos Europeus uma mentalidade de escravo. De um lado dizem que é uma invenção judaica para subjugar os gentios, do outro que é anti-semita. De um lado criticam-no por ser demasiado repressivo da sexualidade, por outro que os Cristãos fazem muitos filhos. De um lado diz-se que os Cristãos só vêem no mundo escuridão e perversidade, e por outro que têm uma atitude de alegria infantil perante ele. De um lado diz-se que oprime a mulher, de outro que a põe num pedestal. Por um lado que exalta a pobreza e a modéstia, e por outro que adorna os seus templos de ouro e os seus sacerdotes de vestes exuberantes. Por um lado que suprimiu as práticas pagãs, por outro que as incorporou nas suas. Por um lado que considera o suicídio como o maior dos pecados, e por outro que encoraja os fiéis a serem mártires pela fé. Que Cristo nos dizia para amar os inimigos, e depois que eles eram os da nossa própria casa. Que Cristo disse a Pedro para arranjar uma espada, e depois o repreendeu quando este a usou. Que Cristo é o Príncipe de Paz, mas que veio deitar fogo ao mundo e gostava que ele já estivesse a arder.

Os críticos têm alguma razão. As acusações são verdadeiras, até certo ponto. O Cristianismo é, de facto, paradoxal. E é aí que reside a sua veracidade. Porque o Homem é paradoxal. Não é pois o Cristianismo que acusam, mas a própria natureza humana. Não é num extremo nem no outro que se encontra a virtude, mas no meio. E Cristo veio apontar-nos esse caminho, para que não pecássemos por um lado nem pelo outro, como tinha sucedido com todas as culturas e religiões até à sua vinda.

Mas não é apenas um compromisso entre extremos, mas a existência dos extremos simultaneamente. O pacifismo do mosteiro e a violência da cruzada, ambos ao mesmo tempo, e na sua plenitude. Cristo morreu para nos libertar da morte. Uma união de opostos, sem anular nenhum deles. Pois Cristo não era meio-Deus e meio-Homem, mas totalmente Deus e totalmente Homem.

E assim se entende que enquanto a Igreja foi intacta na Europa, outras manifestações paradoxais existiram que talvez os críticos (ou alguns deles) possam apreciar: a Europa estava, ao mesmo tempo, unida, mas dividida em múltiplas entidades, sem nenhuma suprimir as outras; sublinhando sempre a irmandade entre os povos, manteve-os separados; insistindo na primazia da cultura Cristã, preservou as culturas nacionais, regionais e locais; insistindo no Latim ou no Eslavónico, manteve as centenas de línguas existentes no continente. E quando essa primazia dos opostos começou a ser quebrada, não foi só a primazia que se destruiu, mas os próprios opostos morreram uniformizados.

Numa metáfora que alguns críticos podem certamente apreciar, o Cristianismo insistia no preto e no branco, em absoluto. Ao destruir-se essa insistência radical, criou-se o cinzento que permeia o mundo moderno, o mundo pardo que a todos parece ao mesmo tempo sufocante e insuficiente.

Limites

assessor-696x464Isto é um teste, tal como aquela manifestação em frente ao parlamento. Uma afronta, pura e simples, para gerar uma reacção. A afronta atinge o seu objectivo qualquer que seja o resultado: se for criticada, ou reprimida, prova-se que há uma ditadura do tabu; se não for criticada ou reprimida, coloca-se a bandeira nesse patamar e considera-se conquistado. Win, win.

A esquerda é como uma criança a testar os limites dos pais, é a sua função. O problema Ocidental foi abolir a figura do Pai, depois de a ter extremado de tal forma que estrangulava a criança. Não é um mero acaso que o extremismo das margens tenha surgido nos mesmos sítios onde antes havia o extremismo do centro (Puritanismo Protestante).

Agora que o Bloco é o sistema, o Livre (tal como o PAN antes deles) é o novo teste dos limites. A sociedade portuguesa, dominada pela esquerda há meio século, está a rebentar pelas costuras, de tanto limite que se erradica: financeiro, económico, fiscal, burocrático, mas também cultural, artístico, social e moral.

Não é lucrativo agir sob a presunção de que o mundo vai acabar, tal como não o é viver pensando que se morre amanhã. Nenhuma sociedade vive sem limites, eventualmente haverá quem os imponha.

Ser Humano

O sol não se põe. A terra roda, sobre si mesma, e à volta do sol, dando a impressão de que este nasce numa extremidade da terra, e se põe na outra. Mas é apenas uma impressão. Por sinal, a terra também não tem extremidades.

Sabendo isto, quantos de nós se lembram destes factos quando vemos o sol a viajar no céu, a surgir e a desaparecer de vista?

A realidade do pôr-do-sol, que serviu como orientação vital para os nossos antepassados e para ainda alguns de nós, é observada por todos. A descrição científica do mesmo fenómeno, por muito correcta que possa ser, pode apenas ser observada por uma minoria de seres humanos, e através de sofisticados meios técnicos – e a orientação que oferece é igualmente limitada.

Nenhum materialista, querendo descrever um pôr-do-sol, colocará a questão nos termos científicos que considera descreverem a realidade. Em vez disso dirá ‘que belo pôr-do-sol’. Quão anti-científico da sua parte.

Da mesma forma, aquilo que entendemos por ‘ser humano’, é igualmente afectado por esta contradição. Por um lado, dizem-nos que somos mera carne, talvez mente, mas só na medida em que a mente é o software a correr no hardware do cérebro. E por outro, sabemos que têm um conceito do que é agir ‘humanamente’. Mas que é isso, numa visão materialista?

Se um homem é um mero conjunto de características, qualquer das suas acções é necessariamente humana. Agir de forma humana é então uma mera tautologia, uma categoria falsa, não-científica, e como tal, inexistente ou, na melhor das hipóteses, irrelevante.

Mas quantos materialistas realmente agem baseados nessa premissa? Na verdade muitos dos seus argumentos fundam-se na extinção ou aliviamento do sofrimento humano – com que justificação, exactamente?

Porque reconhecem, suponho eu, uma humanidade ‘ideal’, além da mera carne.

Ao viver em sociedade, o materialista implicitamente reconhece que, para se ser verdadeiramente humano, há que suprimir desejos, retardar gratificações, evitar confortos, em prol do futuro. Mas um mero calculista também pode retardar a sua gratificação no momento, mas meramente em benefício próprio, e sem qualquer pudor em destruir o próximo para obter aquilo que deseja. Será que isso é, enfim, agir humanamente?

Continuo a achar que até o mais convicto ateu diria que não – se fosse rigoroso, diria que sim, mas só dentro dos parâmetros estabelecidos, que não incluem a compaixão pelo outro como critério. Será que essa definição tão limitada nos serve? Talvez para a medicina, para a química e outras ciências naturais. E se a mantivermos nesse domínio, sem querer daí extrapolar uma visão completa do mundo, tudo está bem.

Infelizmente, o materialista insiste na primazia dessa limitação.

Que definição devemos então usar de humanidade, da visão ideal do que seria ‘agir humanamente’? É, tão simplesmente, sacrificar a própria vida pelo outro.

Quando nascemos somos um poço de exigências, e quando estas não são atendidas imediatamente fazemos birras. Com o tempo, e com sorte, aprendemos a ter compaixão com as nossas mães e pais, compreender o seu sacrifício por nós, e assim também começamos a sacrificar-nos por eles, a pôr as suas necessidades antes das nossas, e eventualmente aprendermos a fazê-lo com outros, mais afastados de nós, e até com aqueles que nos odeiam e nos desejam o mal.

Se a essência do que é ‘agir humanamente’ é o sacrifício pelo próximo, então Jesus Cristo é o seu máximo exemplo. Deus mostra-nos o que é ser humano na crucificação.

No primeiro capítulo do primeiro livro das escrituras, Deus cria o mundo pela Palavra. Diz: haja Luz, e haja animais, e por aí fora. Mas na criação da humanidade, Deus diz: Façamos. E toda a gente se foca no plural, mas não no verbo.

Nós, ao contrário do resto da criação, somos um projecto Divino. Nós não surgimos apenas pela palavra na nossa forma final, connosco é preciso amassar e esculpir o barro até que seja, verdadeiramente, um homem. E esse projecto é completado em Cristo. Somos humanos quando imitamos a Cristo, e somo-lo mais na medida em que o imitamos mais fielmente.

No Evangelho de João, Pilatos declara ‘ecce homo’, aqui está o Homem, querendo com isso dizer que era ‘meramente’ um homem. Mas ao morrer na cruz Deus mostra-nos não só o que é ser humano, mas o que é ser Divino. Pois é ao morrer como humano que Cristo prova a sua divindade. A imagem de Deus à qual nós fomos feitos é Cristo. E é através Dele que nos tornamos humanos. Por isso, uns versos mais tarde no mesmo capítulo, Cristo diz, antes de morrer: ‘Está consumado’.

O que está consumado é o projecto humano. Cabe a cada um de nós tornarmo-nos humanos, através de Cristo, ao sacrificarmos a nossa vida pelo próximo, tal como ele o fez por todos nós.

Feira

Numa feira local, com carrosseis, algodão doce, farturas e jogos de precisão impossíveis de ganhar, havia também bancas de produtos regionais de negócios familiares e um rancho folclórico, tocando e cantando temas tradicionais. Ao lado do palco, num placard fora da feira, estava um anúncio a uma marca de preservativos.

Não foi só o contraste do mundo tradicional do folclore e das chouriças com o mundo moderno que me atingiu, foi onde ambos se manifestavam.

Sempre achei que as feiras, com as suas ‘diversões’ e guloseimas tinha algo de grotesco e de aterrorizante. Depois vim a descobrir que nos nossos tempos já tinham, afinal perdido grande parte daquilo que as caracterizava, precisamente o grotesco, o bizarro, o invertido, o excesso – não porque se quisesse extinguir ali o seu espaço, mas porque todos os espaços se tornaram adequados para a sua manifestação.

As feiras populares, como o Carnaval e outras celebrações do género, serviam como válvula de escape: a Margem tinha finalmente o seu momento, o excesso, o bizarro e o invertido ocorrem num ambiente controlado, participa-se até certo ponto, satisfazem-se os demónios mais fracos, para no resto do tempo se evitarem os mais fortes. A vida depois volta ao normal.

No mundo moderno, a Margem e a Excepção tomaram mais e mais espaço, dizendo abolir o Centro, mas na prática relegando-o para a Margem.

Na sociedade medieval o Centro e a Margem, a Regra e a Excepção coexistiam, mantendo os seus lugares e as suas correctas proporções. Na nossa, a inversão é absoluta. Vemos Igrejas conspurcadas por sacrilégio, instituições de educação submetidas à ignorância e ao obscurantismo, forças de ordem fomentando o caos e por aí fora.

Não é absurdo pois esperar que se encontrem sinais de vida, de esperança, de tradição e de ordem em sítios inesperados, já que os seus lugares naturais foram destruídos. Por muito que se queira tapar a luz, algumas frestas acabam sempre por permitir a sua passagem.

Ao lado de um anúncio de preservativos, o rancho folclórico, composto por várias gerações, todos vestidos a rigor, canta sobre um mundo onde eles não são necessários.

RE: a supremacia da excepção

O Bruno D. deixou-nos o seguinte comentário:

Conheci há uns tempos a série Portugal Desintegrado, e já ouvi 34 episodios. Concordo com muita coisa que o caro Ilo diz. Aliás, até fiquei chocado com alguns episódios, pois na minha ingenuidade nem fazia ideia que o nosso povo já tivesse caído tão baixo.

Que os Americanos e outros povos tivessem abraçado a degenerencia isso eu já sabia, agora haver grupos portugueses no Faceborg dedicados a coisas como “sexo em grupo” entre outras coisas..

Repito, fui apanhado desprevenido.

Embora depois tenha pensado bem e recordei-me de um episódio da minha vida que ocorreu em 2017. Aqui em Coimbra conheci um tipo mulçumano que estava cá a estudar na Faculdade de Economia. Ele vinha daquelas ex republicas sovieticas ( não me lembro o nome), e falavamos bastante acerca da religião. Ele andava chocado com o comportamento das nossas raparigas, pela forma como elas se vestiam, enfim chocado com aquilo que eu chamo “atitude “.

Ficou mais chocado quando eu lhe disse que antigamente não era assim. Que antigamente as raparigas não bebiam daquela maneira (mesmo em festas académicas) e sim, no tempos dos meus avos, as mulheres vestiam-se de forma pudica. Um dia chocado disse-me que os companheiros de casa dele o tinham convidado para uma orgia na casa de umas raparigas, coisa que ele rejeitou, porque já era casado e não andava ali para fornicações. Ele era tentado, mas rejeitava sempre, pela sua mulher que estava no país dele como pela religiosidade dele.

O facto de haver orgias desse tipo em Coimbra deixou-me desgostoso com toda esta sociedade e deixou-me mais que decidido a que se um dia tiver uma filha ela jamais irá para a Universidade. Como os Romanos há 2000 anos, o nosso povo perdeu a vontade de viver, entregou-se de todo ao hedonismo e ao materialismo, numa tentativa de preencherem o vazio que sentem na alma.

Para os Romanos na altura a coisa não acabou bem.

Bruno D.

***

Olá Bruno,

Muito obrigado pelo seu comentário.

Eu também não fazia ideia que esse mundo existia de forma tão prevalente: à medida que fui fazendo o podcast fui encontrando mais e mais exemplos. Ainda me faz confusão a forma como as pessoas comuns não notam a degradação nos costumes, ou não se importam.

Eu diria que somos menos parecidos com os Romanos, e mais com os Cartaginenses, que sacrificavam os seus filhos a um ‘deus’ touro – é praticamente o mesmo que nós fazemos no Ocidente, só que escondido por detrás de jargão médico e considerações ditas de ‘saúde’. Quer queiramos quer não, as nossas sociedades praticam sacrifício humano em larga escala, em que jovens (e não tão jovens) mães sacrificam a vida dos seus filhos para poderem viver as suas de uma determinada forma – trocam a vida do bebé pelas suas. O império Romano caiu porque se tornou grande demais, mas foi mais uma transição do que uma queda: o que de bom havia (e era muito) foi guardado até hoje, prova que as ‘noticias da sua morte foram muito exageradas’, e simplesmente foi expurgado das partes insalubres por muitos homens Europeus de qualidade, que ajudaram nessa transição de vários séculos. A nossa queda assemelha-se mais à dos Incas ou dos supracitados de Cartago, do que à de Roma, a meu ver. Se a longo prazo seremos de um tipo ou outro, não sei.

Hoje em dia, não sei se diria algumas das coisas que disse no podcast, num sentido: os meus valores não mudaram, e embora ache importante que as pessoas entendam que a libertação sexual é uma forma de escravatura e que todo o aparelho politico-social-economico existe para garantir essa escravatura, penso que estava errado sobre um ponto fundamental, relacionado com a ideia de pureza – e de como uma sociedade a deve procurar.

Se estudarmos a estrutura da sociedade medieval, que é a meu ver o periodo histórico mais elevado da civilização Cristã Europeia, vemos por exemplo coisas como estas:

Tais vulgares imagens eram pintadas nas margens de livros, objectos altamente prezados na época pela dificuldade e labor envolvidos em os fabricar, e tanto mais que as palavras que continham eram quase sempre ligadas ao Divino de uma forma ou de outra, fosse por divagações teológicas, orações e canções litúrgicas ou a própria Sagrada Escritura.

Nos seus livros estava contido o seu mundo, um mundo em que o centro é claramente o centro, e a margem é a margem – mas ambos existem nos seus lugares, sem nunca se confundirem. Há dias específicos para celebrar a margem, e depois volta-se ao normal (como o Carnaval). O que a modernidade fez foi, sucessivamente, afirmar o absolutismo do centro, ou da margem, rotativamente.

Nos nossos dias a margem substituiu o centro, e até há poucos meses eu ainda estava preso numa visão moderna do mundo e achava que as margens tinham de ser, não só impedidas de se tornar o centro, mas retiradas da página.

O mundo não funciona assim. É necessário que estejamos conscientes dos ‘monstros’ existentes na alma humana, na nossa e na do próximo, para que os possamos manter à margem – porque nunca nos poderemos ver livres deles inteiramente.

Precisamos de humildade, uma humildade que os nossos antepassados não tiveram. O meu orgulho, o meu próprio zelo em manter os meus valores, impedia-me de perguntar de onde vinha toda esta inversão, toda esta teoria e prática virada do avesso para destruir as mais elementares bases da sociedade. Pela graça de Deus coloquei a pergunta, e a resposta não deixava o nosso lado impune. Estas pessoas e movimentos não surgem do nada – surgiram de uma procura de pureza absoluta do centro expurgando as margens, mas por sua vez essa procura por pureza surgiu de uma erupção das margens, e por aí adiante, numa questão que acaba por ser como a da galinha e do ovo.

É importante quebrar este ciclo de violência e instabilidade. Não precisamos de viver em anarquia, nem em ditadura, nem numa estranha mistura das duas (como nos nossos tempos). Há um caminho intermédio, de verdadeira estabilidade, com monstros nas margens, mas Jesus Cristo no centro.

Ventura

ventura (nome)
acaso, casualidade, coberta, destino, sorte

Acabado o circo, é bom poder voltar à realidade e perceber que nenhum dos nossos problemas pode ser resolvido pela técnica, categoria em que se inserem a política, a economia, as forças armadas e por aí fora.

Temos inúmeras experiências desde o ‘renascimento’, nome assim dado sem qualquer preconceito obviamente, e nenhuma particularmente recomendável.

Por um lado temos a anarquia, a tirania do caos e da licenciosidade, e por outro, geralmente em resposta, temos o totalitarismo, a regulação de todas as esferas da vida.

Como dizia o Arcebispo Fulton Sheen, no capitalismo liberal temos Cristo sem a Cruz; no Absolutismo, no Comunismo e no Fascismo, a Cruz sem Cristo. Estas magníficas formas de ‘renascença’ são o produto da crença na capacidade redentora da técnica, da visão materialista do mundo. Os resultados, como se sabe, não foram os melhores.

Mas não devemos resignar-nos porque existem alternativas a esta dialéctica, só que implicam um abandono da concepção moderna da realidade, da redução do mundo ao material e ao mesurável (e com isso, o abandono de outros maus hábitos).

Na ‘idade das trevas’, também assim designada sem qualquer preconceito, naturalmente, há um estranho fenómeno, pelo menos aos olhos toldados pelo materialismo dos engenheiros sociais de todas as inclinações políticas: o povo tinha simultaneamente mais liberdade e mais ordem – sem que fossem necessárias considerações de ordem técnica. Como é possível?

Tome-se a prostituição como exemplo. A mais velha profissão do mundo. O materialista não aceita coisas velhas. O materialista caótico quer a prostituição não só legalizada como promovida e normalizada. O materialista autoritário quer a prostituição proibida, perseguida ou pelo menos altamente regulada por órgãos oficiais.

A alternativa é simples, para mentes que o não sejam.

Quando os fariseus trouxeram Maria Madalena a Jesus Cristo, sendo essencialmente materialistas, deram-lhe duas opções: punir a mulher como mandava a Lei sem demonstrar a misericórdia que tanto apregoava, ou não a punir em misericórdia, mas quebrando assim a Lei da qual dizia ser representante.

Cristo respondeu-lhes, mantendo a Lei e a misericórdia: quem nunca pecou que atire a primeira pedra.

Depois limitou-se a esperar, enquanto fazia rabiscos no chão poeirento, até que os fariseus, sabendo que Cristo conhecia os seus pecados, desistiram do caso, ficando apenas Maria Madalena, a quem Cristo disse apenas ‘vai, e não peques mais’.

Simples.

Uma sociedade é mais do que as leis que a regulam, e mais do que a composição genética dos seus componentes. É mais do que as idiossincrasias de cada um, e mais do que o todo unificado. Não está no cérebro, mas na mente e na alma. Mas quem ainda acredita nestes conceitos antiquados e não científicos?

A mente, talvez – mas só se assumirmos que o seu conteúdo é unicamente produto de componentes físicos dentro da cabeça de cada um.

Eu não decidi escrever a frase anterior – o que aconteceu foi que um conjunto de químicos e impulsos eléctricos nos meus neurónios geraram uma ideia verbal e accionaram a minha mão para a registar – ou algo igualmente irrelevante para a vida da maioria das pessoas. Duvido que alguém pense nos termos científicos que tanto prezam no seu dia a dia, mostrando a sua enorme limitação. Em vez disso, pensam como as pessoas normais, pensam na realidade de uma forma inteligível, que tenha significado, não só em si, mas para si. Nas nossas vidas não reduzimos a realidade ao material, então porque o fazemos na nossa mundividência?

É esse patamar de consciência que é preciso redescobrir, retirar a venda do materialismo e agir.

Há muito a fazer, sim, mas o essencial é fazer a coisa certa, quando há séculos que nos focamos na errada. É preciso mudar o foco.

A Caverna

O Afonso deixou uma nota, que considero acertada, na caixa de comentários do seu blog, que diz o seguinte:

«um dos melhores locais para se avistar casais mistos são precisamente os centros comerciais.»

Tendo participado activamente no levantamento que o Afonso está a levar a cabo, também eu pude observar o mesmo em vários. É importante perceber o porquê deste fenómeno, que não é uma mera coincidência, mas aponta sim para uma realidade muito mais profunda que é necessário confrontar.

A miscigenação (sobretudo em massa como vemos acontecer hoje) é um sintoma, não a doença – e quanto mais tempo confundirmos um com o outro, mais adiaremos a cura.

Qual é a então a ligação entre miscigenação e centros comerciais? Qual é a doença que produz este, entre outros, sintomas?

Primeiro temos de entender o que é um centro comercial, e o que veio substituir. O centro comercial é o símbolo do desligamento entre produção e consumo, e também entre comunidade e economia. É o símbolo por excelência do capitalismo global, onde produtos do mundo inteiro, fabricados pelo mundo inteiro, vendidos por multinacionais são comprados por um grupo heterogéneo de pessoas, que nada têm em comum a não ser o consumo.

Contrastemos isto com a realidade pré-centro comercial. Eu ainda lembro um mundo diferente da minha infância dos anos noventa, e não foi numa terriola, mas num bairro lisboeta – que mesmo nessa época tardia de perdição ainda mantinha a mesma configuração, embora as brechas estivessem prestes a ser abertas definitivamente e o dique permanentemente destruído, levando à inundação do capitalismo global e da destruição de todas as raízes locais.

A identidade nacional não é construída directamente entre o Eu e o País, mas requer inúmeros passos intermédios: do Eu para a Família, da Família para o Bairro, do Bairro para a Localidade, da Localidade para Região e da Região para o País. Todos estes degraus, começando na família directa e acabando na família nacional, são necessários. Do Eu para o País sem intermediários, não há familiaridade. E tendo destruído estes degraus não admira que o Português médio não tenha qualquer apreço pela sua Portugalidade – porque sem a familiaridade intermédia, essa Portugalidade não existe – é um produto de propaganda estatal, de eventos históricos com o qual não tem qualquer ligação e de artefactos que, desligados da sua origem e contexto, tornam-se meramente objectos de consumo.

A identidade nacional não pode ser construída pelo topo, e como tal não foi destruída pelo topo, mas pela base.

No pequeno bairro da minha infância, toda a gente se conhecia. Os homens casavam com mulheres que conheciam desde pequenos, e as famílias dos noivos conheciam-se há gerações, tendo vivido lado a lado e partilhado um espaço público que hoje é difícil de conceptualizar, sobretudo para quem o não viveu. O grosso do consumo era não só feito dentro do bairro, mas entre pessoas que partilhavam mais do que uma relação comercial. Eu comprava gomas no quiosque do senhor Zé que tinha ficado viuvo muito novo e por isso almoçava muitas vezes na casa dos meus avós; ouvia repreensões da costureira permanentemente à janela que ameaçava ir contar as minhas diabruras à minha avó; ou ia comprar bagaço ou tabaco ao meu avô no café do Sr. Lopes, que sabia muito bem que o bagaço e o tabaco não eram para mim e mos dava sem eu ter de pagar porque depois acertava contas. E se por acaso me visse a beber ou a fumar, eu já sabia que ia logo descer a rua ou telefonar aos meus avós. As velhotas juntavam-se na praça central para conversar enquanto faziam tricot, os velhotes jogavam domino ou conversavam sobre futebol. Os meus pais, os adultos nascidos no fim do antigo regime ou pouco depois, que cresceram com a televisão e com a promessa do mundo global que esta trazia, começavam já a sonhar com o mundo do Centro Comercial, sem saber aquilo que estavam a deitar fora.

Primeiro foi o carro, que nos levou do bairro familiar onde toda a gente se conhecia para o bairro dormitório em que ninguém se conhecia apesar de todos virem de sítios e situações semelhantes. O próprio bairro dormitório não tem zonas comunitárias que não estejam ligadas ao consumo, e assim que as lojas fecham, as praças ficam desertas, ficando só os adolescentes a fumar charros – até isso ligado ao consumo. Na praça do bairro velho, as pessoas juntavam-se para falar umas com as outras sem precisar de um objecto de consumo que as ligasse dada a rede complexa de outras ligações que ali existiam; as velhotas ficavam o dia todo à janela, a fazer conversa ou a vender os seus serviços dos mais variados tipos, mas todos com o propósito de reparação. O Centro Comercial, pelo contrário, representa a mudança deste modo de pensar as coisas: nada se repara, tudo se substitui. Por novo, maior, mais vistoso. Até as igrejas destes bairros dormitórios não oferecem na maioria um local de confraternização exterior à liturgia, algo que era dado como garantido, e em vez disso servem um propósito único e que, sem o que o rodeia, perde uma grande parte do seu sentido e apelo.

Os bairros tradicionais foram sendo abandonados pelos adultos, munidos de carros e centros comerciais, e vendidos a compradores de luxo (muitas vezes estrangeiros), dada a sua localização na cidade. As lojas das pessoas que lá viviam foram substituídas por cadeias comerciais, as pessoas que lá trabalham moram a horas de distância e não vão manter esses trabalhos muitpo tempo. Já não há velhotas às janelas, só estabelecimentos comerciais, esplanadas, e lojas de ‘artesanato’ português, vindas do Norte e do Sul e do Centro, completamente desligados do seu contexto. O bairro antigo já não é um bairro, é a unidade comercial número X, e o bairro dormitório não é um bairro, é a unidade habitacional número Y. Se mudassem as pessoas e os estabelecimentos, como mudam frequentemente, não se mudava nada. A sua verdadeira identidade é a ausência de identidade. E como tal, que diferença faz para o habitante do dormitório se no apartamento ao lado está um português ou um angolano: a um como a outro só vai dizer bom dia, se disser, e nada vai saber da sua vida, nem ele da dele. Ambos se poderão encontrar no centro comercial, com os mesmos objectivos de consumo, e igualmente desligados de qualquer ligação profunda.

Tudo foi orientado para a utilidade e como tal a própria identidade das pessoas se torna utilitária – daí a proliferação das amizades e relações à volta de ‘interesses comuns’, seja a devoção por uma série de filmes ou por uma banda qualquer, ou até por ideologia política. É uma identidade mercantil, um pobre substituto da verdadeira.

Este mundo, de comercialismo e utilitarismo, cujo emblema maior é o Centro Comercial, não pode nunca sustentar qualquer identidade nacional, a não ser de uma narrativa fictícia ligada a eventos histórios longínquos (e mesmo isso está a ser apagado, porque não tem mais razão de ser mantido) ou a representações fúteis (como o futebol).

O que muitos vêem como solução, é parte do problema. O Nacionalismo postula a ligação directa entre o Eu e a Nação, sem intermédios. Foi um produto do iluminismo, do liberalismo, e é apenas o passo anterior ao globalismo que postula a identidade do Eu como cidadão do mundo, ligado directamente ao todo global. Ambos são ausentes de raízes. E um leva ao outro. Não posso salientar o quão importante é entender esta dinâmica, pois caso contrário os meus correligionários andarão a lutar por uma mera encarnação prévia do mesmo problema, em vez de lutar por uma solução.

O Centro Comercial, emblema e veículo físico da destruição das identidades intermédias, é pois naturalmente o lugar das pessoas desafectadas, daquelas cuja identidade é pessoal e global, sem nunca ser outra coisa. Pelo que a miscigenação, um produto desta desafecção, se mostre tão claramente nestes estabelecimentos. No bairro antigo, o casal miscigenado contrastaria violentamente com o mundo ordeiro e natural, de proximidade a todos os níveis. No Centro Comercial, o casal miscigenado é o resultado natural e expoente máximo da primazia da técnica, da utilidade e do comercialismo global, primazia que levou à destruição das identidades que sustentavam a identidade étnica.

A mistura de raças e a destruição da etnia é um resultado natural da mistura de populações internas e da destruição de identidades locais. Uma deriva da outra. Sem rejeitar uma não se rejeita a outra.

Por outras palavras, o Centro Comercial (e sobretudo o que ele representa), é incompatível com a sociedade que os nacionalistas desejam. Espero que não seja tarde demais quando entenderem isto.

Se a direita alternativa existisse no tempo da torre de babel iria opor-se aos objectivos estabelecidos para a sua construção, mas não removeria um único tijolo, pensando que podia usar a estrutura para se manter junto ao chão.