A Civilização e as suas consequências

A história é escrita pelos vencedores. Este truísmo é famoso, e com boa razão. É inevitável que os vencedores se pintem a eles mesmos como virtuosos, e aos vencidos como perversos. Não é incomum que os vencedores, os que ficaram e escreveram a história, atribuam títulos que justifiquem a sua salvífica intervenção à era que a precedeu, como por exemplo, a ‘idade das trevas’; e igualmente, à era nascida da sua intervenção, um nome glorioso, como ‘renascença’. Clarificar, ou dar nuance, a estas eras torna-se então muito complicado. Se a certa altura ‘renascemos’ é porque estávamos antes mortos. E se antes estávamos nas trevas, é porque agora estamos iluminados. A narrativa justifica-se a si mesma pelos próprios nomes.

Não pretendo discordar dessa sabedoria ancestral, pois é obviamente verdadeira, mas apenas adicionar ao seu entendimento. A meu ver, a frase é demasiado limitada e tem uma sabedoria muito mais profunda, e a sua aplicação mais vasta. Pois se encurtarmos a frase diz-nos muito mais: a história é escrita. E logo, seguindo a lógica da que é escrita pelos vencedores, torna-se óbvio que quem a escreve vai sempre ser a favor dos mecanismos que permitem que seja escrita. Porque razão iriam os Romanos, que se dedicaram tanto a escrever como a conquistar, não glorificar as suas conquistas, e denegrir os conquistados? Dos conquistados não reza a história, sobretudo dos que não se dedicaram também eles a escrevê-la, mas apenas a vivê-la, como pobres selvagens. Nada, ou quase nada, saberíamos dos Lusitanos, fora os artefactos que sobreviveram, se os Romanos não nos tivessem dito quão pobres e selváticos eram (e, sejamos justos para os Romanos, quão corajosos e hábeis eram os seus opositores na arte da guerrilha). E, naturalmente, podemos confiar totalmente nas suas descrições pois nunca se lembrariam de mentir ou exagerar, por mais absurdas e impensáveis que sejam as descrições, como aquelas que dizem que os nossos antepassados arremessavam os seus bebés contra os soldados Romanos. Estes selvagens não só não tinham qualquer respeito pela sua descendência, como não eram sequer espertos o suficiente para entender que bebés são armas fracas contra exércitos organizados. Ou assim nos conta a história – escrita, por alguém, e neste caso foi pelos Romanos, contra os que a não escreveram, os Lusitanos.

E porque não haveriam os conquistadores de denegrir os conquistados como amputados, insuficientes, primitivos – especialmente se estes não fossem dar contas contrárias às dos conquistadores, por não se dedicarem à escrita? Porque não justificar a sua violência desta forma? Porque não os pintar, a eles e a outros, como bárbaros a precisar de ser civilizados?

Aí está a palavra: civilizados. Civilização. Hoje, e há muito tempo, civilização tornou-se sinónimo de bom. E como não? Os civilizados dedicam-se à escrita, e como tal, escrevem que ser civilizado é bom. Porque haveria a civilização de argumentar contra si mesma?

E quem, no seu perfeito juízo, iria questionar a sabedoria dos civilizados? Afinal de contas, não temos dedos para contar as suas glórias: da Arte à Literatura, da Arquitectura à Lei, da Ciência à Tecnologia. As partes menos boas varrem-se para debaixo do tapete – afinal, todos os meios são bons quando os fins são nobres. E se se atingir os fins, então os meios justificam-se a si mesmos. Não vêem os maravilhosos produtos da Civilização? Para quê falar no preço dos mesmos. Olhem, e maravilhem-se.

Como civilizados que somos, no entanto, temos de insistir numa definição. Encontrar uma que seja precisa é mais complicado do que pensávamos. A maioria dos dicionários Portugueses definem ‘civilização’ tão largamente que a definição é inútil, ou então tão parcialmente que voltamos à situação descrita acima, em que civilizado é sinónimo de bom. Por exemplo, um dos dicionários oferece estas definições:

1. conjunto das instituições, técnicas, costumes, crenças, etc., que caracterizam uma sociedade ou um grupo de sociedades determinadas
2. conjunto dos conhecimentos e realizações das sociedades humanas mais evoluídas, marcadas pelo desenvolvimento intelectual, económico e tecnológico

A primeira definição é tão vaga que não se distingue uma civilização de qualquer cultura não-civilizada. Todas as sociedades têm instituições, técnicas, costumes e crenças – e se essa é a definição de civilização, então todas as sociedades são civilizadas, da vila tribal ao gigante império. Claramente, não é uma definição útil. Isto é, sobre as estruturas e implicações especificas da Civilização, o que a distingue de outros tipos de sociedade, não nos diz nada.

A segunda definição oferece uma nova categoria, de sociedades ‘mais evoluídas’, marcadas por ‘desenvolvimento’. Mas isto, apesar de mais específico, continua a ser terrivelmente vago, pois somos levados a questionar aí as definições de ‘evoluído’ e ‘desenvolvimento’. Pesquisando em Inglês, conseguimos encontrar um pouco mais de especificidade, ajudando também a definir o que se entende por essas outras palavras auxiliares.

A definição, com tradução minha, é a seguinte: um estado de desenvolvimento intelectual, cultural e material avançado numa sociedade humana, marcado por progresso nas artes e nas ciências, pelo uso extensivo de registos, incluindo a escrita, e o aparecimento de instituições sociais e políticas complexas.

Claro que continuamos com o grave problema, pois somos atirados de volta para as definições de ‘avançado’, ‘desenvolvimento’, ‘progresso’ e ‘complexidade’. Mas, ali no meio, encontramos pelo menos uma coisa verdadeiramente específica – o uso extensivo de registos, incluindo a escrita. Assim já podemos distinguir entre as sociedades civilizadas e as outras. E voltamos ao problema inicial, de que a história é escrita por quem a escreve, registada por quem a regista. E como tal, há uma parcialidade inescapável nos próprios registos.

Através desta definição podemos então começar a pensar nas implicações da civilização. Pensemos, por exemplo, naquilo que é necessário para que uma parte da população se dedique a registar, extensivamente, os feitos, eventos, leis e regulações da sua sociedade. Em culturas não-Civilizadas que tinham escrita, ela era usada sobretudo, ou exclusivamente, para codificar mitos e histórias, ou seja, o seu uso era extremamente limitado e finito. Mas para uma actividade especializada, e ainda para mais extensiva, as pessoas que se dedicam a ela não podem, pelo menos na maioria do tempo, dedicar-se a outra. É por isso necessário que outros lhes providenciem alimento, roupa e habitação. E é deduzível que os que providenciam o alimento não providenciam a roupa e a habitação, e vice-versa, tendo em conta que estão a produzir para outrem, e não apenas para si e a sua família, é expectável que se dediquem exclusivamente a ela, isto é, se especializem na produção de um produto, em vez de vários necessários à sobrevivência. Como tal, cada um destes necessita também que lhe providenciem as outras coisas que ele próprio não produz. É também deduzível que os que providenciam os materiais necessários para fazer roupa e habitação, também tenham eles de ser providenciados com alimento, roupa e habitação. Quem diria que para rabiscar umas simples linhas a favor do império, fosse necessária tanta complexidade e organização?

Mas não ficamos por aqui. Porque os registos não se fazem do ar, e por isso é também necessário providenciar materiais em quantidades suficientes que permitam tais registos, e cada um desses materiais é diferente (fazer tinta é completamente distinto de fazer papel ou pergaminho), e como tal, a própria produção desses materiais é conseguida pela alocação de trabalho para essas actividades (trabalhadores que também precisam de comida, roupa e casa). E tal como acima, a produção desses produtos, que não são obtidos, sobretudo em larga escala, directamente a partir de matérias primas, mas de transformação, precisa de outros materiais e outras pessoas que os providenciem. E também eles precisam de comida, roupa e casa.

Convém aqui relembrar que, por um lado, não é a escrita em si (ou a música, ou a arquitectura, ou qualquer outra das coisas boas que são associadas com a civilização) que determina a existência de civilização, mas o seu uso extensivo, a sua sistematização, um nível de complexidade e especialização que requer uma organização social, económica e política que desliga uma grande parte da população das necessidades básicas da vida humana. As tribos Germânicas (os bárbaros assim designados pelos civilizados Romanos), por exemplo, tinham escrita, simplesmente não a usavam extensivamente – usavam-na, como referido acima, sobretudo para registar os seus mitos, e como os mitos não mudam, a sua actividade escrita não era extensiva. E não a usando extensivamente, a organização e complexidade descrita acima é desnecessária e o nível de especialização requerido muito menor – isto é, não estamos na presença de uma Civilização, mas simplesmente de uma sociedade. A sua divisão em tribos, em vez de uma entidade política unificada, aponta para a mesma conclusão.

A palavra Civilização tem origem no latim Civitas, que significa Cidade. E a Cidade, vista de um ponto de vista puramente materialista, tem as suas próprias implicações. A primeira, e mais profunda, é a de se definir por densidade populacional – e em especial, uma densidade que necessite a importação das necessidades básicas da vida, isto é, comida, roupa e habitação. Não é difícil então ver a conexão: a Cidade é onde as pessoas que não produzem as necessidades básicas da vida se dedicam a outras actividades. Como as suas actividades (não só a escrita, mas também o comércio e a política, que se tornam necessários quando as necessidades básicas são importadas) são, num sentido muito estrito, nem produtivas nem transformativas, mas ‘intelectuais’, não requerem o espaço físico necessário para a transformação, e ainda menos para a produção, que as necessidades básicas requerem. E como tal, a Cidade é sempre um amontoado de gentes, vivendo umas sobre as outras, e todas elas dependentes desse sistema chamado Civilização.

Embora a nossa civilização tenha levado todas estas tendências a um extremo, elas existem em todas as civilizações dignas desse nome desde que elas existem. Este modo de vida citadino, necessário para sustentar as actividades dignas de uma civilização, é, pois, indissociável da própria civilização. Mas se a Civilização precisa das cidades, e as cidades precisam de importar as necessidades básicas da vida, então é fácil de ver como a Civilização é, em si mesma, insustentável. Os recursos necessários à sua existência estão fora de si, e como tal é necessário pôr as populações não-citadinas (não-civilizadas) a trabalhar para a Civilização, a produzir aquilo que a Civilização não produz para que ela possa produzir aquilo que é desenhada para produzir. Isto nem sempre, ou quase nunca, é um processo pacífico. Em primeiro lugar, não é pacífico para o mundo natural, entendido como o mundo que não é humano ou directamente ligado ao bem-estar humano. O surgimento de todas as Cidades implica a desflorestação e, pelo menos, a conversão de algumas das terras circundantes em quintas de agricultura e pecuária intensiva – actividades em si mesmas destrutivas da terra e que não seriam necessárias caso não houvesse uma população citadina para alimentar e vestir. E em segundo lugar, o processo não é pacífico para todas as pessoas que têm o azar de viver nas imediações da Cidade, pois em vez de trabalharem para a sua sobrevivência, serão recrutadas, em geral pela força, para o sustento dos urbanos.

O que significa que a Cidade está sempre em expansão, e que essa expansão é dupla: por um lado a população urbana cresce, e como tal requer mais e mais recursos vindos de fora; e como requer mais recursos vindos de fora, subjuga mais populações e mais floresta, colocando-as ao seu serviço e criando mais potenciais urbanos que depois necessitarão de mais expansão, num ciclo vicioso. Quando os Europeus chegaram ao que, 500 anos antes, haviam sido cidades Maya, encontraram enormes estruturas rodeadas, ou até trespassadas, por floresta densa. Tal floresta, no auge da Civilização Maya, havia sido dizimada, e se os Europeus encontraram floresta densa e fértil é simplesmente porque a Civilização já tinha caído há cinco séculos. E uma das causas da sua queda foi, precisamente, a desflorestação progressiva que a expansão das Cidades tornou necessária para a sua continuação. No Médio Oriente, pela escala e número das civilizações que lá surgiram, a desertificação persiste até hoje – e na Europa começa a sentir-se.

É, pois, ponto assente que a Cidade e a Civilização, fenómenos indissociáveis, são insustentáveis e dependem da violência para a sua perpetuação. Essa violência pode ser directa, como era em larga medida na Antiguidade, subjugando populações através de exércitos; ou então é violência indirecta, sob a forma de pressão legal ou económica sobre o campo, integrando o campo e os campestres no sistema, e tornando as suas actividades inseparáveis do processo civilizacional. No nosso tempo, e desde a Revolução Industrial, este processo foi aperfeiçoado e retirando a independência do campo, não só política ou administrativamente, mas pela técnica. A técnica, mais do que a lei ou o sistema económico, tornou o campo escravo da Civilização. Introduzindo os desenvolvimentos civilizacionais – como a electricidade, os motores, a canalização, mas também a sua cultura e entretenimento – a Cidade subjugou o campo como nunca antes tinha feito, e tornou-o por sua vez, e pela primeira vez, dependente da Cidade. O camponês antes era coagido pela força das armas a providenciar comida aos urbanos, agora é coagido pelo mercado a vender o seu produto para poder comprar os materiais necessários para que possa continuar a produzir. A violência não só é ainda uma parte indispensável do sistema, mas tornou-se inescapável, ao mesmo tempo que é mais escondida e disfarçada, mais complexa e elegante – será que podemos dizer, uma violência mais civilizada?

E assim o nosso sistema, a Civilização Industrial, que é hoje global, é não só a mais violenta e mais expansiva Civilização que já existiu, certamente no seu alcance, mas precisamente por isso, também a mais insustentável. E o seu colapso, inevitável, será o mais cataclísmico colapso da história humana. Pois apesar da nossa civilização ter conseguido, através da tecnologia industrial e por enquanto, fugir às pressões naturais que levaram as civilizações antigas à sua natural destruição, não é certo (ou expectável) que consiga fugir para sempre, e por outro lado, quanto mais longa e profunda é essa fuga, mais inevitável e profundo será o seu colapso.

Investigando as várias Civilizações que existiram e colapsaram (pois, sendo insustentáveis, esse é o seu destino natural), descobrimos o mesmo padrão em todas: por muito díspares que fossem as suas culturas, por mais distintas as suas geografias, os seus climas e as suas gentes, as histórias das suas quedas são incrivelmente semelhantes, e se naturalmente as quedas são devidas a combinações de factores dada a complexidade das sociedades, esses factores acabam por ser sempre os mesmos.

O primeiro factor, e possivelmente o principal, que põe em moção todos os outros é a devastação do meio natural, que sustenta a vida não só da Civilização, mas também a vida da qual a Civilização depende. Quando essa devastação atinge um determinado nível, resultante da expansão urbana, os sistemas naturais que permitem a manutenção da vida começam a desaparecer, a integridade (e com ela a fertilidade) do solo diminui ou extingue-se, dada a ausência de floresta a seca ou as cheias (e em geral ambas em épocas diferentes) começam a ser frequentes, afectando a produção de alimentos pois torna a agricultura e pecuária intensiva mais difícil ou impossível e como tal colocando ainda mais pressão para expandir essas actividades ainda mais para áreas ainda florestadas, aumentando o impacto. Outro ciclo vicioso: a exploração desregrada do meio natural torna necessária ainda mais exploração para manter a população corrente. O resultado é a fome e a doença – e com a fome e a doença vem o conflicto e a desintegração dos sistemas sociais e hierarquias. Com a disrupção do abastecimento alimentar, todas as profissões e especializações urbanas se tornam supérfluas, e a sua manutenção impossível – palácios deixam de ser construídos, estátuas deixam de ser esculpidas, registos deixam de ser feitos e leis deixam de ser aplicadas. Por sua vez essa desintegração coloca todos os que dependiam para o seu sustento desses sistemas e hierarquias numa posição em que a sua lealdade ao sistema já não traz qualquer benefício, dando-lhe mais um golpe e acelerando ainda mais o colapso da ordem que reinara outrora, pondo a nu a insustentabilidade do sistema e sublinhando, por fim, que toda a sofisticação civilizacional era afinal mantida através do trabalho dos bárbaros campestres.

Dada a dependência da Civilização de estruturas e produção exterior a si, e em larga medida dependente de trocas, e logo de moeda, o papel das classes mercantes e monetárias, torna-se maior. O uso de moeda torna-se indispensável à vida citadina, e com isso a usura torna-se parte integrante e indispensável do sistema civilizacional. A depreciação da moeda, também, leva a uma cada vez maior pressão sobre o mercado que sustenta a Civilização, e eventualmente, são as classes mercantes e monetárias que na realidade a controlam. Segue-se uma inevitável corrupção e burocratização dos sistemas legais e políticos.

Falando de mercados, a agricultura e sobretudo a pecuária intensiva são notórias por gerarem doenças contagiosas, seja pela contaminação de recursos hídricos ou pela simples sobrelotação animal necessária. A sobrelotação humana e a acumulação de lixo encontrada nas cidades contribuem também para o surgimento do mesmo tipo de doenças. As complexas rotas de comércio que alimentam uma ou várias Civilizações tornam-se vectores perfeitos para a transmissão das mesmas a várias populações – pelo que não é incomum que quando o processo de colapso se inicia, não seja apenas uma civilização, mas várias que estavam interligadas, que caem em catadupa (como no colapso da Idade do Bronze, ou a queda do Império Romano).

É importante salientar que a sobrevivência (sempre temporária) da Civilização não é sinónimo da sobrevivência da população original que lhe deu origem, nem da que a sustenta. Na verdade, uma das tendências sempre repetida na história das civilizações é, num grau maior ou menor, a substituição da sua população por estrangeiros, que permitam a sua constante expansão e perpetuação depois de esgotada a população original. Isto porque uma das também sempre observadas consequências da Civilização é, primeiro, um aumento das taxas de fertilidade no período de expansão inicial, seguida de uma descida abrupta das mesmas depois de atingido um certo nível civilizacional. Graças aos registos mantidos por civilizações como a Grega e a Romana, sabemos que a população das cidades, os civilizados, começam a certa altura a estar mais interessados na ostentação e nos prazeres da vida, e menos na procriação e manutenção de famílias. Sabemos também que a promoção de ‘estilos de vida’ alternativos e sexualidade desregrada pautam os inícios dos fins das suas respectivas civilizações, e com eles, a importação de estrangeiros para manter a máquina a funcionar, pelo menos por um tempo. Mas se a Civilização pensasse em sustentabilidade, não seria uma Civilização digna desse nome.

Se tudo isto soa familiar podemos pelo menos consolar-nos com o facto de não termos de imaginar como se sentiria um Ateniense, um Romano, um Egípcio ou um Maya, aquando da queda das suas respectivas civilizações. Tudo o que temos de fazer é olhar em volta.

Todas as Civilizações caídas no passado seguem um padrão: ou desaparecem do mapa completamente por extinção (geralmente reservado a lugares remotos), ou revertem a formas pre-civilizacionais de pequenos grupos (como após a queda do Império Romano) ou são absorvidas por outras civilizações (geralmente aquelas que estavam em ascenção e no processo de transição para se tornarem civilizações propriamente ditas aquando da queda de uma mais antiga – como é o caso do Egipto antigo, absorvido por várias outras civilizações, mais notoriamente pela de Roma). No nosso caso presente, duas das soluções estão, à partida fora de questão: a extinção é improvável, mesmo na eventualidade de uma guerra nuclear; a absorção é impossível porque a civilização industrial é, na verdade, a única que existe, e cobre todo o globo. Se cair, não restará nenhuma outra civilização para a absorver e integrar. Pelo que resta a reversão a formas de vida pre-civilizacionais.

Claro que é discutível se um colapso acontecerá. Há quem acredite que a nossa civilização conseguiu, através da tecnologia, superar a insustentabilidade natural que acompanha todas as civilizações e assim será capaz de se perpetuar indefinidamente. Eu sou da opinião contrária. Todas as civilizações se consideram acima dessa possibilidade, e é precisamente no auge da sua arrogância que começam a cair. Como nos diz famosamente o livro dos Provérbios ‘a soberba precede a ruína’. E a nossa é uma civilização soberba, palavra que curiosamente designa ao mesmo tempo orgulho e grandiosidade. Ambas as coisas estão inexoravelmente ligadas.

A civilização continuará a expandir, a subjugar e a destruir, pois é o seu curso natural. E dada a dimensão da nossa, nunca antes vista, o jugo totalitário sobre tudo e todos é o seu destino, pelo menos até ao seu colapso. Não há uma via intermédia, há apenas duas opções: o totalitarismo, sobre os homens e sobre a terra, colocando-os ambos em perfeito e total serviço da máquina civilizacional; ou o colapso. Ambas as opções absolutas nas suas implicações.

Resta-nos então uma decisão sobre o que fazer em relação a esta conclusão. Para este escriba, a rejeição da Civilização, e da Cidade que a simboliza e anima, é a única que faz sentido. Um amigo mencionou recentemente uma analogia com a qual gostaria de fechar estas reflexões: existe uma frase famosa segundo a qual a melhor altura para plantar uma árvore foi há vinte anos, a segunda melhor é agora; o mesmo se aplica ao acto de rejeitar a Civilização e a Cidade, viver uma vida mais simples, em harmonia com a natureza, a humana e a outra. O ganho de um ponto de vista materialista (já que o ponto de vista espiritual abordámos no texto anterior) é garantido seja qual for o futuro que se realize: se o sistema implementar o totalitarismo absoluto, ao menos durante algum tempo, por mais mínimo que seja, aquele que viver fora ou o mais fora possível do sistema, será o último a ser integrado, escravizado e aniquilado – é melhor ser livre por pouco tempo do que por tempo nenhum, afinal de contas; e se o sistema colapsar, serão as pessoas fora das cidades, a viver uma vida mais simples e mais autónoma, que melhores chances terão de sobreviver e continuar.

***

«Procurai viver tranquilamente, tratando dos vossos assuntos e trabalhando com as vossas próprias mãos como vos recomendámos»

I Tessalonicenses, 4:11.

A Cidade nas Escrituras

No nosso mundo desencantado e materialista, a Cidade é apenas uma povoação que atingiu um determinado número de ocupantes, sobretudo em relação ao terreno ocupado, e assim distingue-se de uma vila ou de uma aldeia. Escapa-nos qualquer sentido maior da palavra, qualquer significado transcendente do fenómeno. Os dicionários e enciclopédias também não conseguem oferecer uma definição particularmente precisa além da já mencionada densidade populacional. Tal como muitos outros conceitos na modernidade e pós-modernidade, a Cidade não só perdeu qualquer significado e simbolismo transcendente, como adquiriu um carácter difuso e confuso. Se falarmos em Lisboa, falamos apenas do centro administrativo? Aquilo que se entende por Lisboa (ou qualquer outra cidade) depende muito do contexto – e assim, uma pessoa que viva ou trabalhe nos arredores da Lisboa administrativa, também é um citadino, também faz parte de uma Lisboa quase mítica. Isto porque a Cidade tem e sempre teve um carácter expansionista, não só material, mas espiritual. As povoações que circundam a cidade vão sendo engolidas, por assim dizer, pelo poder e importância da cidade mais próxima. Alguém que viva na Amadora, ou em Oeiras, ou em Sintra – e cada vez mais a influência vai alastrando – vive sob a influência, na órbita, dessa criatura chamada Lisboa. Esses concelhos, ainda há cem anos largamente campestres, são agora dormitórios, centros industriais e comerciais, parques de estacionamento. Lugares onde as pessoas se amontoam umas por cima das outras, e cuja vida é quase completamente dependente do centro, da Lisboa – material, cultural e espiritualmente. Como um cancro que vai infectando mais e mais partes do corpo, a Cidade vai conquistando mais e mais território e colocando-o ao seu serviço. E tal como nivela montanhas e abate florestas no seu caminho expansionista, fá-lo igualmente com as almas humanas que encontra no seu caminho. Através de ferramentas cada vez mais sofisticadas, de comunicação e transporte, a Cidade consegue inclusive infectar a mente e a alma dos que estão longe dela, criando urbanos de espírito, mesmo sem o serem fisicamente. Afinal, quem hoje em dia consegue fugir à cultura, que é sempre criada na Cidade?

Historicamente, a Cidade é o lugar e a origem de todas as grandes obras humanas. Da Arte à Tecnologia, do Pensamento à Arquitectura. E, claro, é o lugar por excelência do poder político. A Cidade é a Civilização em si mesma – ou não viessem ambas da mesma raiz, Civitas. Fora dela estão os bárbaros, os primitivos, os camponeses, os ignorantes – e os pagãos. Originalmente, na língua latina, a palavra ‘pagão’ não tinha um carácter religioso e significava meramente camponês, habitante do campo, o que vivia fora das cidades – a sua adopção para designar o ‘outro’ religioso demonstra uma certa atitude da parte da Igreja Romana, algo que será interessante manter em mente para o resto deste texto.

Dado este carácter mítico da Cidade, não é surpreendente que a Cidade nas Escrituras tenha um significado e um simbolismo definido, e a sua existência esteja para além do material. Na Cidade Bíblica encontra-se o mito do progresso e a sua inerente rejeição de Deus. Segundo as Escrituras, este espírito demoníaco é parte da ideia e do significado da Cidade desde a sua primeira fundação. É útil investigarmos a revelação Divina a este respeito, e sabermos o que defendemos e porquê, reavaliarmos aquilo que valorizamos e saber se é aquilo que Deus valoriza, sobretudo quando tanto se fala do fim da civilização ou da necessidade de salvar a mesma, é essencial saber o que está a cair e o que se pretende salvar. E ainda mais importante, pois como já se disse anteriormente, conhecimento que não nos leve a agir é fútil, entender a perspectiva de Deus é essencial para que possamos saber como agir nas presentes circunstâncias. A meu ver a única acção sã é deixar a Cidade.

O que se segue é uma exegese amadora, não particularmente original ou intensiva, de textos Bíblicos. O leitor terá de julgar por si mesmo a veracidade e exactidão da análise e das conclusões tiradas.

A primeira cidade é construída por Caim em oposição directa a Deus – e esta estabelece o precedente para todas as cidades (na Escritura, e se formos crentes, fora dela também). Depois de matar o seu irmão, Caim recebe uma maldição, mas também lhe é oferecida protecção por Deus. Mas num momento decisivo, ele rejeita a protecção divina, e a sua rejeição toma a forma da construção de uma cidade. A cidade que ele constrói chama-se Enoque – o mesmo nome do seu filho primogénito – nome que significa “inauguração”. Isto é significativo por duas razões: primeiro, Caim considera a cidade como o seu legado, comparável ao seu filho primogénito, e note-se que a importância do filho primogénito era incomparavelmente maior do que é presentemente; e segundo, o que Caim inaugura é um mundo à parte de Deus, uma protecção feita por ele próprio para rivalizar com a protecção de Deus, um lugar à parte que pode sobreviver por si só sem a necessidade de Deus – a inauguração em oposição à Criação, a oposição artificial ao natural.

A sua fundação da cidade leva à expansão: numerosas outras cidades são construídas pelos seus descendentes, todas centradas no mito do progresso, na invenção e no desenvolvimento, para se afastarem de Deus – para escapar à maldição de Deus, mas mais importante ainda, para escapar à misericórdia e protecção Divina. Eles podem proteger-se a si próprios. Esta espiral é ao mesmo tempo ascendente e descendente, muito semelhante à nossa: ascendente para mais e mais invenção, maravilha, capacidade técnica e força; e descendente em termos de iniquidade, imoralidade, pecado. E, em particular, violência. Devido a esta espiral descontrolada de iniquidade, Deus envia o dilúvio, salvando Noé e a sua família.

A próxima paragem lógica na nossa investigação é naturalmente Ninrode (nome que significa ‘rebelião’) e a Torre de Babel, mas antes disso há algo bastante significativo que se enquadra, uma vez mais, no padrão estabelecido por Caim. Noé tem três filhos, Sem, Cam e Jafé, e há um episódio em que ele se embebeda e Cam o vê bêbado e nu, e em vez de o ajudar, vai e conta aos seus irmãos. Os seus irmãos vêm então com um manto, andando para trás para não verem o seu pai nu, e cobrem-no. Depois de dormir, Noé amaldiçoa então a descendência de Cam por sua causa, por não prestar o devido respeito ao seu pai, e por expor a sua nudez, em vez de a cobrir. E a maldição é que a descendência de Noé será escrava da descendência dos outros irmãos.

Isto é interessante porque Ninrode vem da descendência de Cam, e está assim sob a maldição. Mas é-nos dito que Ninrode «começou a ser poderoso na terra» e é numa província dentro do seu reino (Sinar) que decidem construir a Torre de Babel. Não era suposto, sendo descendente de Cam, ser escravo? Não se pode ser escravo e poderoso ao mesmo tempo. Aqui vemos de novo o padrão iniciado por Caim, de escapar à maldição através da construção de cidades, e uma afronta directa ao decreto paternal.

Decidem então construir a Torre, mas como? «”Vinde, façamos tijolos, e cozamo-los com fogo”, e eles tinham tijolos em vez de pedras, e betume em vez de argamassa“». Note-se o contraste dado: tijolos em vez de pedras, e betume em vez de argamassa. Em vez do natural, o fabricado, em vez da singularidade dada por Deus (cada pedra é diferente), a uniformidade feita pelo homem (cada tijolo é como todos os outros tijolos). Não só o seu próprio edifício é uma afronta a Deus, mas os próprios blocos de construção indicam a mentalidade dos construtores. E é um facto que tal edifício, tal feito, não pode ser alcançado com as pedras irregulares e a argamassa comparativamente mais fraca – precisa da eficiência da tecnologia, do fácil e igualmente reprodutível.

Todos se concentram na própria torre, mas a torre é apenas um pormenor, um corolário: «”Vinde, vamos construir uma cidade, e uma torre cujo topo esteja nos céus; façamos um nome para nós próprios, para que não nos dispersemos pela face de toda a terra“». Primeiro vem a cidade, o meio através do qual eles podem então construir a torre e fazer um nome para si próprios. E o seu objectivo declarado é evitar serem “dispersos”, ou seja, rejeitam o campo, querem a concentração, o mundo autónomo da cidade, onde podem confiar nos seus próprios esforços, em vez de terem de depositar a sua confiança em Deus.

O padrão continua na história de Sodoma e Gomorra: a cidade como um lugar de iniquidade, tão desprovido de caridade e bondade que o único destino aceitável é a destruição. E Ló, a quem é permitido escapar, não era da cidade, é um estrangeiro, um recém-chegado – e é considerado como tal pelos habitantes da cidade («como se atreve este estrangeiro a julgar as nossas acções?» – e nos nossos tempos não ouvimos o mesmo coro sob uma forma diferente: como é que o Cristão se atreve a julgar o cosmopolita?). Ló acaba por oferecer as suas próprias filhas virgens aos sodomitas, para que não corrompessem os anjos (o primeiro de uma série de más decisões), mas mesmo assim, ao contrário dos restantes habitantes, ele não é irreversivelmente corrompido pela cidade. Mas ele deve fugir, deve deixar a cidade à sua destruição, e nunca olhar para trás. Quando Ló diz à família (aos genros) que Deus destruirá a cidade pela sua iniquidade irrepreensível e irredimível, a família pensa que ele está a gozar. Quem já teve uma conversa parecida com a sua própria família, reconhecerá a reacção.

Os anjos forçam então a sua mão, deixando os genros para trás, e dizendo «“Salva a tua vida”. Não olhes para trás. Nem deves permanecer em toda a região circundante. Mas salva-te na montanha, para que não pereças também”». No entanto, como muitos de nós, Ló ainda se agarra à cidade. Ele não quer a montanha, tem medo, apesar da protecção declarada de Deus: «”Não posso ser salvo na montanha, talvez algum infortúnio se apodere de mim e eu morra. Há uma certa cidade próxima, para a qual posso fugir; é uma cidade pequena, e serei salvo nela. Não será uma cidade modesta, e a minha alma não viverá?”». Não conseguimos ouvir os pedidos semelhantes nos nossos próprios tempos? “Vamos desligar-nos do sistema… mas só um bocadinho”.

Deus concede-lhe este desejo, mas apenas como solução temporária. A sua libertação do pecado, o seu desapego da cidade, só se pode realizar na montanha. E isto é importante de compreender: o nosso desapego da cidade tem de ser não apenas geográfico, mas espiritual, e no nosso tempo a cidade, a sua existência espiritual, estendeu-se muito para além das fronteiras geográficas. A cidade infecta até os lugares mais remotos: através da cultura que é proporcionada instantaneamente através da Internet, das cadeias de supermercados e das marcas multinacionais, das autoestradas e dos comboios. A cidade estende os seus tentáculos, e a nossa remoção, embora possa ter passos intermédios, tem de se esforçar pelo desprendimento total, para subir a montanha e quebrar o elo de ligação com o sistema, tanto espiritual como fisicamente – desprendimento dos limites da cidade, mas também dos tentáculos da cidade, das ‘regiões circundantes’ de Sodoma e Gomorra. A esposa de Ló é a representação do que acontece se o nosso desapego não for total, mesmo nas etapas intermédias, se nos tornarmos confortáveis nessas etapas, como que olhando para trás para a cidade com nostalgia, e assim nos tornássemos uma pilha de sal. Mas também não devemos cometer o erro contrário, de levar as coisas demasiado longe demasiado cedo, de pecar pelo lado do orgulho e pensar que não fomos permanentemente afectados pela Cidade e que podemos girar sem esforço 180 graus. Apesar de Deus lhe garantir que a cidade mais pequena (Zoar) seria segura por enquanto, Ló decide abandoná-la por medo (e contra a garantia Divina) de que também ela seja destruída, e em vez disso vai imediatamente com as suas duas filhas para uma caverna, impreparado. Neste caso, a sua impreparação é, em particular, não encontrar novos maridos para as filhas, e elas, invertendo o padrão dado antes em que Ló as ofereceu para serem violadas pelos sodomitas, agora acreditando erroneamente que são as únicas pessoas que restam, embebedam-no e violam-no para procriar, o que por sua vez resultará na fundação de dois reinos vindos da descendência de cada uma das filhas. Reinos, que, como sempre, são centrados em cidades.

Ao longo das Escrituras o padrão é sempre o mesmo, como o é em toda a história humana. Moisés conduz os Israelitas do Egipto avançado para o deserto. Todas as cidades do Antigo Testamento ou são irredimíveis, cheias de iniquidade desde o início, ou, apesar da sua iniquidade, recebem a graça de Deus – e depois esquecem-na, e são aniquiladas e os Israelitas novamente dispersos: de Caim à era dourada de Israel antes da vinda de Cristo, na qual não havia mais Revelação ou Profecia, e que poderíamos dizer que os tornou orgulhosos e os levou a rejeitar o Messias, há uma linha que liga todos estes eventos, todas estas manifestações de rebelião contra Deus. E essa linha é a Cidade.

O que é escrito, por exemplo, em Jeremias 19:4-15, aparece repetidamente, em formas diferentes e com personagens diferentes, mas o padrão é exactamente o mesmo. É o mesmo quando Cristo fala contra as cidades, e é o mesmo no nosso próprio tempo, quase palavra a palavra: “Pois abandonaram-me, e tornaram este lugar estrangeiro, e ofereceram libações nele a deuses estrangeiros, que nem eles, nem os seus pais, nem os reis de Judá conheceram. E encheram este lugar com o sangue dos inocentes. E construíram os lugares exaltados de Baal, para queimar os seus filhos com fogo como holocausto a Baal, algo que eu não instruí, nem entrou no meu pensamento. (…)”Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel”: Eis que conduzirei sobre esta comunidade, e sobre todas as suas cidades, todos os males que falei contra ela. Pois endureceram os seus pescoços, para não darem ouvidos às minhas palavras”».

Podemos não viver na Babilónia física, mas vivemos na Babilónia espiritual, a derradeira cidade, aquilo que todas as cidades se esforçam por ser: forte, bela, orgulhosa – mas também decadente, pecadora, violenta.

Todas as palavras de Deus para as cidades do Antigo Testamento são extremamente duras. A cidade na Escritura é o exemplo primordial da rebelião do homem – por orgulho, claro – e também o lugar do avanço tecnológico, tal como sempre foi e ainda é. A única forma de compreender as duras palavras de Deus contra as cidades naqueles tempos antigos, onde as cidades ainda eram uma mera extensão do campo, é que Deus está a avisar não contra o que elas eram, porque eram apenas um início, mas contra aquilo em que a cidade plenamente desenvolvida se tornaria – aquilo que vemos agora. Multidões, ruído, poluição, distracção, degradação, imoralidade, alienação, violência. Deus estava a dar-nos uma profecia sobre o produto final das nossas mãos: a metrópole, no seu culminar satânico.

E este julgamento não termina com a vinda de Cristo. Ele continua a falar duramente, não das cidades, mas directamente às cidades, não às pessoas que nelas vivem, sublinhando assim o facto de que a Cidade tem um significado e uma existência espiritual própria, como exemplo supremo da separação do homem de Deus através dos produtos das suas próprias mãos – o homem à sua própria imagem, em vez do homem à imagem de Deus.

“Então Jesus começou a repreender as cidades em que a maioria das Suas obras poderosas tinham sido feitas, porque elas não se arrependeram: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Pois se as obras poderosas que foram feitas em ti tivessem sido feitas em Tiro e Sidon, já se teriam arrependido há muito tempo com roupas de saco e cobrindo-se com cinzas. Mas digo-vos que será mais tolerável para Tiro e Sidon no dia do juízo do que para vós. E vós, Cafarnaum, que arrogas subir aos céus, sereis levados para o inferno; porque se as obras poderosas que foram feitas em vós tivessem sido feitas em Sodoma, teria ela permanecido até este dia. Mas eu digo-vos que será mais tolerável para a terra de Sodoma no dia do juízo do que para vós. ”»

Parece claro nas palavras de Cristo que já no Seu tempo houve uma intensificação da influência corruptora da cidade, que esta já tinha evoluído para além do que era no Antigo Testamento. Se Ele tivesse feito os milagres nessas cidades mais antigas, elas teriam sido salvas. Mas no tempo de Cristo a cidade tinha-se desenvolvido demasiado, nem mesmo os milagres de Deus funcionam para persuadir os seus habitantes. E se isto se deu há 2000 anos atrás, quanto mais agora, quando temos comunicação instantânea e vídeo de alta definição nos nossos bolsos, explosões, máquinas poderosas, maravilhas técnicas para todos os gostos e para todas as ocasiões? Agora que a cidade contra a qual Deus falou está perto de se realizar plenamente, tanto na sua grandeza como na sua loucura, vemos que a única solução é seguir Cristo para fora delas, para que possamos ouvir as Suas palavras.

Pois as duras palavras de Cristo para a cidade só são proferidas fora dela. Cristo fez as multidões segui-lo para fora das cidades para oferecer os Seus ensinamentos – porque dentro do mundo da técnica que a cidade representa, só as maravilhas, isto é, os milagres, podem rivalizar com as maravilhas técnicas. Assim, dentro da cidade, Cristo faz todos os seus milagres. Não fala. Deus criou o mundo através da Palavra, mas na cidade, criação do homem para ser separado de Deus, a Palavra feita carne não pode proferir quaisquer palavras, pois elas são inúteis. Apenas milagres – porque o homem foi sempre mesmerizado pela magia, e no mundo de hoje é mesmerizado pela tecnologia, porque não sabe como ela funciona, e como tal ela é, de certa forma, mágica. O homem comum dos nossos dias olha para o smartphone da forma como o homem antigo olhava para os feitiços. E, no entanto, Cristo não tem sucesso contra a cidade nos seus próprios termos, ele deve levar as pessoas para fora da cidade para lhes poder falar. É notável que tantas pessoas ainda pensem que podem ter sucesso onde Cristo falhou, que pensem que possamos usar a Cidade e as suas estruturas para os propósitos de Deus, que podemos domar este monstro. Não, a única opção apontada pelas Escrituras é seguir Cristo para fora da Cidade.

É importante mencionar que o demónio tenta Cristo precisamente com as tentações do mundo moderno –o que ele deve oferecer às pessoas para que elas O sigam: Conforto, Espectáculo e Poder. Mas Cristo rejeita a tentação – ainda que (ou precisamente porque) ele sabe que terá êxito através das maravilhas oferecidas pelo demónio. Mas se Ele usasse estes meios para levar as pessoas até Ele, elas não adorariam a Ele, mas às coisas em si – tal como o “evangelho da prosperidade” faz no nosso tempo, mas também a adoração da ciência e da tecnologia, e todos os benefícios terrenos que trazem, apesar do seu custo espiritual. Não, Cristo deve sofrer e morrer, e vencer o mundo através do sofrimento e da morte. Qualquer outra coisa, o paraíso na terra, é obra de forças malignas.

E aqui devemos voltar a Caim, ao seu objectivo inicial na construção da primeira cidade, de prover à sua própria segurança. Deus plantou um Jardim, não construiu uma cidade. A cidade é a resposta do homem ao jardim de Deus. Cada religião, desde a mais primitiva até à mais complexa, tem uma concepção desta origem e do regresso a esse paraíso original, ao jardim original, um regresso à natureza pura. O Cristianismo, no entanto, não nos fala de um regresso. Chegamos ao Apocalipse e vemos como Deus através do Seu amor irá rever os Seus próprios planos para nós, e incorporar a nossa criação da cidade no Seu reino – não será apenas um Jardim como era no início, Deus tomará para si a nossa criação da cidade, transformando a Babilónia em Jerusalém.

Mas só depois da sua destruição terrena, e apenas nos Seus termos. E essa é a chave. Qualquer tentativa de redenção da Cidade pela mão humana, quando ela é um produto da rebelião humana contra Deus, é fútil e votada ao fracasso. Os reformadores acabarão corrompidos ou destruídos, como a história do Ocidente desde a queda do Império Romano demonstra. Nenhuma das estruturas da Cidade existe para servir o Bem, e quando assim o parece estamos na melhor das hipóteses num período transitório, em que as trevas se reorganizam pela calada – e na pior, é precisamente nesse momento, que acabamos por corromper e trair os princípios que tentámos defender. E por isso de certa forma é extremamente benéfico que as forças do mal se revelem tão claramente, pois assim já não é possível manter a ilusão. Se na Idade Média era possível achar que a Cidade podia estar do lado de Deus, os séculos mostraram-nos quão errónea era essa consideração, e quão corruptora é a sua influência mesmo, ou especialmente, para os defensores do Bem. Será por isso assim tão estranho que a Igreja Romana, tendo tomado as rédeas do que restava do Império, tenha usado a palavra pagão (cujo significado original, como vimos, era camponês) para designar os seus inimigos? Um detalhe significativo na história do seu erro fatal – o erro de querer tomar a Cidade para servir a Deus, quando Cristo nos havia mostrado que tal caminho era votado ao fracasso, até para Ele, e quanto mais para nós.

Até ao triunfo Divino final, rejeitar a Cidade, física e espiritualmente, deve ser o objectivo de todos os Cristãos, não apenas para a nossa segurança física, mas sobretudo para a nossa saúde espiritual.

***

«Desejo que, nestes tempos conturbados, nesta atmosfera deletéria em que vivemos nas cidades, vós retorneis à terra assim que possível. A terra é saudável, a terra ensina a conhecer Deus, a terra reaproxima de Deus, ela equilibra os temperamentos, os caracteres, ela incentiva as crianças ao trabalho. E se necessário, vós próprios fareis a escola dos vossos filhos. Se as escolas corrompem os vossos filhos, o que vão fazer? Entregá-los aos corruptores? Àqueles que ensinam práticas sexuais abomináveis na escola? Às escolas “católicas” de religiosos e religiosas onde o pecado é ensinado, sem mais nem menos? Na prática, ao ensinar isso às crianças, eles corrompem-nas desde cedo. E vós aceitais isso? É impossível! Melhor será que os vossos filhos sejam pobres, melhor será que os vossos filhos vivam longe de toda esta ciência aparente do mundo, mas que sejam bons filhos, filhos cristãos, filhos católicos, filhos que amem a sua santa religião, que amem rezar e que amem trabalhar, que amem a natureza que o bom Deus fez

Arcebispo Marcel Lefebvre.

A Abordagem Conspiratória

Muitos críticos da modernidade gostam de tomar uma abordagem conspiratória e usar o seu tempo e intelecto para descobrir e apontar quem são as personagens dominantes e quais são as suas intenções. Eu gostaria de explorar o porquê desta abordagem ser não só inadequada, mas em última instância, perniciosa.

O termo “teoria da conspiração” é usado pelo mainstream como forma de denegrir ou desacreditar uma certa pessoa ou narrativa, e não é de todo essa a forma como estou a usar o termo. Não tenho dúvidas de que algumas teorias da conspiração são parcialmente verdadeiras, e outras são mesmo completamente verdadeiras. Não são tanto teorias, mas sim factos. Mas mesmo sendo verdadeiras as conspirações, focarmo-nos nelas como críticas daquilo que vemos de errado na sociedade é inadequado e pernicioso porque, por necessidade, leva-nos a concentramo-nos em personagens e intenções, e não em causas e efeitos. E isto é particularmente verdade na questão tecnológica, e leva a uma análise superficial e errónea sobre o papel e o impacto desta questão, e das suas origens, no nosso tempo.

Tal como podemos encontrar inúmeras declarações sobre os objectivos da classe dominante nos nossos dias, podemos encontrar vários exemplos de industrialistas do século XVII e XVIII a declararem claramente as suas intenções maliciosas na implementação do sistema industrial. Mas o argumento contra esse sistema – que é, na verdade, a origem do que existe hoje – não pode nem deve fundar-se nessas intenções, nem mesmo parcialmente. A abordagem conspiratória acaba por não ser de todo uma crítica, já que pelo seu próprio foco em personagens e intenções leva à conclusão, explícita ou implícita, que com diferentes personagens e melhores intenções o mesmo conjunto de circunstâncias e pressões conduziria a diferentes, e bons, resultados.

Embora as intenções sejam certamente importantes para o julgamento de Deus, elas são irrelevantes para avaliar os resultados terrestres das acções humanas. Conhecê-los-emos “pelos seus frutos”, não pelas suas intenções declaradas, diz-nos Cristo.

Uma observação importante a fazer, sobretudo para os Católicos que defendem a Igreja como uma fonte de progresso tecnológico, é que as instituições Cristãs que produziram avanços técnicos na Idade Média, alguns deles bastante complexos e especializados, não tiveram esta atitude de neutralidade em relação ao desenvolvimento tecnológico que os seus modernos apologistas têm. Todas as invenções que produziram foram sujeitas a considerações éticas e teológicas e só quando consideradas benéficas a partir destas perspectivas, e não a partir da perspectiva da técnica em si, é que prosseguiram com a realização das suas invenções. Em alguns casos a sua produção era permitida, mas não a sua difusão fora dos mosteiros, devido às mesmas preocupações. No entanto, e em última análise, as suas boas intenções não impediram que algumas das suas invenções causassem danos irreparáveis na sociedade e mudassem a perspectiva e o foco do homem de Deus e da ordem natural para o mundano e o artificial, do eterno para o temporal, e do ético e teológico para o puramente técnico.

O exemplo mais óbvio deste efeito é a invenção do relógio mecânico. Quando os monges Beneditinos o inventaram para rezar com maior precisão ao longo do dia, tinham uma intenção puramente pia, mas o resultado desta invenção foi exactamente o oposto. O relógio mecânico libertou os homens da ordem divina da natureza e subjugou-os a uma ordem mecânica, suprimindo o ritmo natural regulado pelo dia e a noite criadas por Deus para que o homem trabalhasse e descansasse respectivamente, e dando origem ao ritmo artificial que hoje nos rege a todos, facilitando a produção racionalizada que se rege somente pelo lucro imediato dos donos dos meios de produção. E não só mudou as relações e vagares laborais, mas ao fazê-lo mudou inevitavelmente a visão do homem sobre o próprio tempo e removeu o seu olhar da eternidade para a existência mundana.

Dentro de um século o relógio tinha saído do mosteiro para tornar possível as práticas de produção regular, horas de trabalho regulares e um produto homogeneizado (e um povo homogeneizado). Esta mudança cumpriu um papel extremamente importante na destruição da concepção do sagrado. De um instrumento para a busca de Deus o relógio foi muito rapidamente transformado num instrumento para a busca de dinheiro. Esta grande invenção realizada com a melhor das intenções acabou por servir não a Deus, mas sim a Mamon.

Outro exemplo semelhante de como as intenções e os efeitos são por vezes radicalmente díspares é a imprensa móvel. Sendo Gutenberg um Católico devoto, não pretendia certamente que a sua invenção fosse o gatilho e o principal veículo para a Reforma, o Iluminismo e a revolução científica que deu uma série de golpes graves à Igreja Romana e à sua influência na sociedade, para não falar das mudanças na concepção humana do universo, cujos resultados vemos ainda hoje desenrolar-se com consequências desastrosas. Mas as suas intenções não conseguiram travar as consequências da sua invenção.

Vários outros exemplos poderiam ser dados da mesma dinâmica. E, claro, múltiplos exemplos de más intenções que conduzem a resultados igualmente maus, como os proponentes e financiadores da revolução industrial. Mas mesmo as suas más intenções foram ajudadas e permitidas pelas invenções de pessoas bem-intencionadas que vieram antes deles, sem que essas pessoas tivessem qualquer poder contra as implicações do que criaram. Portanto, não nos ajuda muito, ou de todo, investigar as motivações e personagens no que diz respeito ao desenvolvimento tecnológico e às suas implicações morais, sociais, económicas e políticas. Tal como não nos diz nada sobre a engenharia social que é um tema tão falado nos nossos dias. A verdade que passa por entre os pingos da chuva é que essa engenharia é o produto de meios técnicos cujas implicações são largamente independentes das intenções e personagens que estão por detrás delas.

A abordagem conspiratória pode satisfazer a nossa curiosidade, mas não nos diz nada acerca da natureza da realidade em que vivemos ou dos seus efeitos. Além disso, só Deus conhece as verdadeiras intenções no coração dos homens, por isso qualquer investigação sobre motivos deve ser sempre temperada com um cepticismo saudável em relação à nossa capacidade de os conhecer e transmitir, bem como à dos próprios os conhecerem e transmitirem.

Tal como os Comunistas que dizem que o ‘verdadeiro comunismo’ nunca foi tentado, os conspiracionistas tiram no fundo a mesma conclusão, mas em relação a outras coisas, como por exemplo o sistema tecnológico. Pois a abordagem conspiratória leva-os a concluir que o problema é a má utilização ou má gestão e que o sistema tecnológico não constitui um problema em si mesmo. O que por sua vez leva também a vias de pensamento muito perigosas, sobretudo para os Cristãos. Se se considerar realmente que o desenvolvimento tecnológico é neutro, e que apresenta um problema de má utilização ou gestão e não em si mesmo, para permanecer consistente, é preciso aceitar que existe algo como um uso apropriado de contraceptivos, fertilização in-vitro ou a bomba atómica. E sem dúvida que algumas seitas ‘cristãs’ modernas aceitam e apoiam parte ou a totalidade do edifício moderno – mas a ênfase dessas seitas está na modernidade, não em Cristo.

Por último, a abordagem conspiratória tem necessariamente de rejeitar o que as Escrituras nos dizem sobre o tema, desde o primeiro até ao último livro. Nas Escrituras encontramos a perspectiva de Deus sobre a técnica e, mais importante para este ponto em particular, encontramos também as intenções (que só Deus conhece) das pessoas que originaram o desenvolvimento tecnológico, que é explicitamente declarado nas Escrituras como rebelião contra Deus – seja na queda de Adão e Eva em busca de conhecimento, em todos os construtores de cidades a começar por Caim, todas as palavras de Deus contra as cidades e os seus representantes no Antigo Testamento, o tratamento de Cristo das cidades no Novo e a rejeição de Cristo pelos fariseus – uma vez que o legalismo é apenas mais uma manifestação do culto da técnica.

Tudo isto, a meu ver, é ignorado mas não desconhecido, e assim continua a ênfase na investigação das intenções e personagens, e pouca ou nenhuma na análise das estruturas do nosso mundo e nas suas implicações. Porque reconhecê-lo leva a conclusões extremamente desconfortáveis, que exigem introspecção em relação às nossas próprias acções, e em última instância a mudanças no modo de vida da parte de quem as reconhece.

Mas se as nossas investigações não servem para mudar a nossa conduta, então não servem para nada a não ser para satisfazer a nossa curiosidade mórbida, um propósito meramente masturbatório.

A Política à luz da Técnica

A ideologia é um fenómeno puramente moderno, contemporâneo com a ascensão do sistema industrial. Embora existam antigas distinções entre os caminhos de mão esquerda e mão direita, não há nada no mundo tradicional, pré-industrial que transforme as inclinações inerentes à nossa natureza caída em ideologias e movimentos políticos. Não é um acaso que os termos direita e esquerda tenham surgido com a Revolução Francesa. Como em tudo o resto que toca, a técnica toma o natural e sistematiza-o – e no domínio do discurso político, dá origem a ideologias, à política tal como a conhecemos, à luta de grupos políticos para que os seus interesses sejam representados e as suas queixas sejam ouvidas.

Compreendendo isto, não devemos cair no erro cometido por muitos de ambos os lados de desprezar as queixas e as causas do outro lado do espectro. Quase todos os grupos políticos têm, pelo menos algumas, queixas legítimas e tentam resolver problemas verdadeiros. Isto não quer dizer que os líderes de tais movimentos sejam sinceros, ou que a sua defesa de certas causas seja por convicção na justiça dessas causas (em geral, os líderes de todos os movimentos, da extrema esquerda à extrema direita, são oportunistas psicopáticos). Mas a razão porque os líderes podem agitar certas bandeiras e ter apoiantes (por vezes, fervorosos) é porque as causas não são totalmente espúrias, mesmo que as soluções que propõem sejam ou insuficientes ou absolutamente contraproducentes (como veremos mais à frente).

Vejamos alguns exemplos de causas justas.

Os Comunistas e Socialistas têm razão em preocupar-se com a exploração económica. Os Conservadores têm razão sobre o declínio da decência pública e de uma cultura bastardizada e degenerada. Os Ambientalistas têm razão em preocupar-se com a destruição dos ecossistemas, o abuso do mundo natural e a crueldade para com os animais na agricultura industrial. Os Identitários têm razão sobre a imigração e a limpeza étnica das suas pátrias. Os Libertários têm razão em preocupar-se com a perda de liberdade e autonomia, com a intrusão política nas decisões económicas das pessoas, com a burocracia maciça e com a arregimentação social. A Esquerda tem razão sobre o papel do Ocidente na conquista e subjugação de outros povos, apesar da sua visão muitas vezes míope que exonera outros povos de fazerem o mesmo, ainda que não tão sistematicamente, colocando assim inadvertidamente o dedo no verdadeiro e particular problema (a sistematização da conquista e da exploração). Os Tradicionalistas têm razão acerca da natureza destrutiva da libertação sexual. E assim por diante.

O entendimento político comum, tanto à esquerda como à direita, considera os grupos acima referidos e as suas causas como sendo, em grande parte, impossíveis de reconciliar. Mas isto não é verdade. Todas estas queixas, e outras igualmente legítimas, têm uma coisa em comum, que é o seguinte: os grupos que se preocupam com elas rejeitam, ou nem sequer consideram, a origem dos problemas que querem solucionar e, portanto, não consideram também a eliminação dessa causa original como a única solução para os seus problemas: o sistema industrial. Cada grupo considera cada problema de forma isolada. Podem resolver o seu problema sem se verem livres das fundações industriais do nosso mundo, ou mais frequentemente, utilizando o poder do próprio sistema, que depois causam outros problemas, mas geralmente de outro lado da cerca, com algum outro grupo a ser vitimizado, algo que o originador e defensor da solução não vê, ou não se importa.

Mas o facto é que todas as queixas destes movimentos políticos são queixas totalmente modernas, e não podem ser compreendidas ou resolvidas sem a rejeição da modernidade – em particular, o industrialismo, que ou acentua velhos problemas como o equilíbrio sempre frágil entre o uso e o abuso da natureza pelo homem, ou cria novos problemas, como a migração em massa ou a desordem sexual generalizada. Especificamente, a sociedade industrial transforma estes problemas em problemas de massa e onde quer que os seus tentáculos alcancem, e quanto mais território conquista, seja ele físico ou mental, mais graves se tornam.

Tendo enumerado as queixas dos vários grupos e visto como elas são legítimas e os problemas que levantam reais, temos agora de explorar como esses problemas são produto, e não podem ser resolvidos permanentemente dentro, do sistema industrial.

A exploração económica de que os Comunistas e Socialistas se queixam nasce com o sistema industrial – o próprio Marx observa isto no seu tomo famoso O Capital, concluindo (sem qualquer base racional) que o problema não é o sistema, mas apenas a sua gestão, cometendo novamente o mesmo erro que a maioria (‘a tecnologia é neutra, tem bons e maus usos’ diz o Japonês iludido enquanto leva com a bomba atómica). Até ao século XVII, o homem comum (incluindo o camponês) tinha muito mais autonomia e poder económico (já para não falar de tempo livre) do que o trabalhador fabril ou de escritório. Apesar das diferenças de classe, quer na agricultura quer nos ofícios, o homem comum não estava à mercê das flutuações do mercado ou dos investimentos de capital. Ele estava apenas à mercê da natureza, tal como o resto da sociedade, incluindo o Rei. Embora os inícios do sistema mercantil capitalista estejam na ‘renascença’, foi o sistema industrial que criou a concentração bruta da riqueza, a rápida deterioração da independência económica do homem comum e os exércitos em massa de trabalhadores, incluindo mulheres e crianças, cuja única opção de sobrevivência era trabalhar nas fábricas, e que opção horrível e empobrecida era. Foi também o industrialismo que criou efectivamente um mercado internacional totalmente interdependente, e subjugou todos os povos à especulação monetária. Enquanto o trabalhador de escritório moderno no mundo “desenvolvido” não sofre os efeitos fisicamente destrutivos das fábricas do século XIX, ele está sob uma série de outros efeitos físicos e psicológicos. A única solução para a queixa comunista de exploração económica é rejeitar o sistema industrial, sob o qual esta exploração é inevitável, independentemente da gestão – como a União Soviética ou a China Maoista atestam.

A queixa conservadora de uma cultura degenerada, um debate público empobrecido e a simples decadência da decência, também é um produto inevitável do industrialismo capitalista. Embora possa ser resolvido com uma tremenda arregimentação e ditadura, como por exemplo na Alemanha de Hitler ou na Rússia de Estaline, é duvidoso que os conservadores apreciassem tais medidas, a fim de manterem o que consideram ser naturalmente bom. A resposta é, evidentemente, que o que é naturalmente bom só pode florescer em situações naturais – e a sociedade industrial é tudo menos natural, é a própria rejeição de tudo o que é natural. A decência pública, o debate educado, uma cultura saudável não pode ser mantida, ou originada, num sistema industrial liberal. As externalidades negativas das ideias e imagens perturbadoras têm uma capacidade exponencial de propagação e crescimento, deixando assim ao conservador a escolha entre a censura ou a aceitação dos efeitos degenerativos destas ideias ou imagens. Por outro lado, a natureza mercantilista do capitalismo liberal tem uma tendência natural para a vulgaridade e para a homogeneização da cultura para o menor denominador comum – a sensualidade vende, e se vende, será vendida. Assim, as operações naturais do mercado, e o poder expansivo da produção industrial, provocam necessariamente uma decadência na moral pública, decência e debate.

A destruição ambiental é a preocupação mais fácil de explicar e compreender à luz da civilização industrial. Todas as sociedades anteriores à nossa, e especialmente aquelas centradas nas cidades e acima de um certo nível civilizacional, tiveram de lidar, nunca satisfatoriamente, com o seu lugar na natureza, como a natureza deve ser utilizada para a sobrevivência e conforto humanos e até que ponto pode ser manipulada ou destruída em nosso benefício. Antes do industrialismo, porém, os homens não podiam escapar à natureza ou controlá-la completamente – estavam sempre, de alguma forma, em dívida para com ela e à mercê dos seus poderes. A queda de todas as civilizações tem, como um factor perene, a destruição da natureza que sustenta a vida. Mas as civilizações pré-industriais tinham muito menos oportunidade para escapar, e durante tanto tempo, às consequências naturais da sua exploração. O motor a vapor libertou pela primeira vez a humanidade desta dinâmica disciplinadora natural ao fornecer uma fonte de poder independente e impermeável à estação do ano, ao clima e à geografia. O que se seguiu à racionalização e aplicação da máquina a vapor (não realmente da sua invenção em si mesma, já que isto se deu no Egipto Romano no século I depois de Cristo) foi uma capacidade cada vez maior de subjugar e explorar processos naturais, invadindo cada vez mais a natureza selvagem e permitindo que quase nenhuma parte dela permanecesse selvagem, mas sim trabalhar para benefício imediato do homem, e para o lucro imediato, sem quaisquer preocupações de conservação e sem as pressões naturais a que a ausência dessas preocupações levaria. Para usar a expressão angla, o sistema industrial permitiu e permite chutar a lata ao longo da rua. Como a nível individual é possível, por causa da medicina moderna, sobreviver muito mais tempo do que seria natural a alguém que se auto-destrua, a sociedade industrial pode sobreviver muito mais tempo às consequências da sua destruição da natureza. A história da sociedade industrial é, em grande medida, uma história de destruição ambiental sem as consequências que, em tempos pré-industriais, equilibravam essa destruição, sem a disciplina que essas consequências trazem, não deixando nenhum lugar intocado, nenhuma margem por conquistar, destruindo para sempre a natureza selvagem tal como era entendida por todos os nossos antepassados antes de o malabarismo industrial a destruir para a eficiência e para o lucro. E, note-se, esta destruição na Europa é praticamente total (não admira que a Europa seja vista como ‘aborrecida’ de um ponto de vista de beleza natural, em contraste com outras partes do mundo onde a natureza selvagem ainda existe), mas a destruição pelo mundo fora continua – e só parará quando o sistema colapsar ou quando não houver mais nada para destruir e o mundo todo for um parque de estacionamento. A preocupação com a natureza selvagem, com a sustentabilidade das actividades humanas em termos naturais, com a proporção correcta do uso humano da natureza, não são causas inerentemente esquerdistas – e é de uma tristeza enorme que a direita as tenha abandonado. O Cristão em particular deve lembrar-se que a natureza, tal como nós, é criação de Deus, enquanto que as obras das nossas mãos não são, e que foi-nos ordenado que sejamos cuidadores e não exploradores. E enquanto a nível individual podemos fazer esforços para reduzir a nossa participação na exploração, quer beneficiemos dela directa ou indirectamente, também não devemos ser cegos ao carácter destrutivo do próprio sistema, tentar convencer os outros da sua iniquidade e rezar pelo seu desaparecimento.

Da mesma forma que a sociedade industrial destrói a biodiversidade e os ecossistemas não humanos, também destrói a biodiversidade e os ecossistemas humanos. Embora as migrações de povos, e por vezes povos muito díspares, tenham ocorrido ao longo de toda a história, o seu alcance, dimensão e velocidade não foram nada em comparação com as migrações modernas, mesmo se excluirmos o tipo de migração intermédia da era colonial. As migrações de massa do mundo pós-moderno são um fenómeno único e particular. A sociedade industrial, com o seu foco único na eficiência, faz uso dos seres humanos como qualquer outro recurso e, assim, deslocará populações para realizar uma miríade de objectivos, e devido às suas capacidades técnicas, pode permitir a migração humana sem quaisquer barreiras naturais. Um bom exemplo disto é a importação de Africanos para a Escandinávia, que depois necessitam de suplementos de vitamina D para sobreviver à baixa quantidade de luz solar numa latitude tão elevada à qual não estão adaptados. Os objectivos não são apenas económicos, mas também militares, culturais e sociais. A sociedade industrial de uma inclinação liberal – que é o seu viés natural – beneficiará se as populações e culturas homogéneas forem desfeitas, se as alianças etno-religiosas forem destruídas e substituídas por uma cultura mercantil comum. Mais uma vez, se se quiser manter o sistema industrial e evitar a perda da pátria e a migração em massa, é necessário um controlo ditatorial sobre os meios industriais e uma perda de produtividade e de competitividade, permitindo assim que o resto do mundo industrial liberal acabe por conquistar os países cuja indústria foi regimentada para fins fora da própria eficiência – tal como as ditaduras de Hitler e Estaline foram conquistadas pelo mundo liberal.

Esta linha de raciocínio também nos ajuda a ver como o anseio libertário pela liberdade é incompatível com o sistema industrial. Devido ao poder expansivo das tecnologias e técnicas modernas, a liberdade dentro deste sistema significa caos que, por sua vez, destruirá a liberdade. A fim de evitar o resultado caótico de todas as técnicas interligadas, têm de ser criadas burocracias para regular todos os aspectos da vida, uma vez que todos os aspectos da vida de uma pessoa estão agora ligados ao sistema, e cada participante individual tem ao seu alcance uma vasta quantidade de poder que, se não for regulado, pode criar enormes quantidades de sofrimento para os outros, e, em última análise, infringir as suas próprias liberdades, e isto sem qualquer má intenção. As leis de trânsito são um bom exemplo. A primeira instância de regulamentação de trânsito, embora não fosse para automóveis, foi introduzida durante os primeiros dias do industrialismo e para servir a produção industrial, dado o aglomerado de carruagens com matérias primas e produtos acabados. Para o trânsito comum, no entanto, as limitações naturais dos cavalos e das carruagens garantiam a sua própria regulamentação, sem necessidade de invadir a liberdade dos seus utilizadores – não havia necessidade de regular o seu movimento. O trânsito automóvel, no entanto, ou é regulamentado ou resulta num cenário caótico e destrutivo – não só pelo seu movimento, mas pela sua poluição do ar e sonora. Esta mesma dinâmica pode e aplica-se a todas as áreas da vida, ligada a todas as diferentes tecnologias, tal como acontece no mundo moderno. Pode ser resumida da seguinte forma: quanto mais complexo for o nexo económico e tecnológico, quanto mais dependência houver de grandes sistemas de sobrevivência, menos liberdade cada indivíduo tem no seu interior, menos autonomia tem para decidir o que fazer com a sua propriedade – ou, caso a liberdade e a autonomia lhe seja permitida, uma enorme quantidade de externalidades negativas as seguem, prejudicando a vida e a liberdade de outrem.

A civilização ocidental tem uma má reputação no mundo pós-moderno, em grande parte devido aos ideólogos de esquerda que a culpam por todos os males do mundo como únicos perpetradores. Embora a análise seja, se não incorrecta, muito incompleta (e sem falar nas motivações duvidosas dos seus defensores) existe nela um grão de verdade significativo. A Civilização Ocidental não foi a primeira a explorar, expandir, escravizar, destruir e colonizar outros povos. No caso da escravatura, por exemplo, o Ocidente liderou a sua abolição – pelo menos de um tipo tradicional. Porque aquilo que a substituiu foi uma forma de escravatura muito mais dura, muito maior, muito mais degradante e perigosa. Em primeiro lugar, é de notar que as condições de um operário fabril no início da era industrial eram de longe mais degradantes, destrutivas, insalubres e antinaturais do que a maioria dos escravos ao longo da história tinham vivido, incluindo os Africanos escravizados nas plantações do continente Americano. Uma análise da ingestão calórica e da saúde geral dos pobres industriais e dos escravos americanos e revelou que, em comparação com os pobres industriais, os escravos tinham uma vida significativamente melhor – mesmo no domínio da liberdade e autonomia, os pobres industriais eram pelo menos tão vinculados e sem opções como o escravo oficial. Mas a escravatura do sistema criado pelo mundo ocidental vai muito mais além desta mera comparação, e de facto faz parte da sua concepção escravizar a todos em todos os aspectos – e a verdadeira razão para abolir a escravatura ‘tradicional’ não foram sensibilidades morais (pois essas já eram argumentadas há vários séculos), mas sim a observação de que a escravatura ‘tradicional’ era menos eficiente que esta nova forma de escravatura industrial. Hoje já não é um grupo de pessoas a escravizar outro, ou a cultura de um grupo a dominar a de outro: é a própria sociedade técnica e as suas estruturas, que se forçam sobre todos os povos, escravizando-os a todos na sua maquinaria, não só no corpo, mas também na mente e no espírito, criando uma cultura que separa cada pessoa individualmente e cada grupo colectivamente de qualquer forma natural de comunidade e identidade, conforme necessário para a sua própria continuação e avanço. Os Europeus podem ter sido os iniciadores deste processo, mas foram também as suas primeiras vítimas (os pobres industriais), e continuaram a sê-lo de outras formas, tal como o resto da humanidade. Assim, a Esquerda tem a intuição certa quando sente repulsa perante a visão da modernidade, perante a sua sistematização prepotente e a sua exploração e regimentação de povos “subdesenvolvidos”. Apenas a percebem erroneamente em termos pré-industriais, como um grupo definido explorando e destruindo outro, enquanto que a exploração actual não é particularmente sobre uma ou outra etnia, ou sobre um ou outro grupo económico (embora também o seja), mas sobre todo o edifício do industrialismo consumindo a humanidade no seu avanço.

Enquanto que a direita está absolutamente certa ao identificar a natureza caótica da modernidade, a esquerda está certa ao identificar o outro extremo: o controlo excessivo. Pois a sociedade industrial extingue o meio, trata apenas de dois extremos: o controlo extremo e o caos extremo. A intrusão em cada vida e cada interesse, o mapeamento de cada centímetro de espaço, o cálculo de cada cenário, a sistematização de qualquer tarefa, a integração tecnológica em cada esfera, e assim por diante. Mas também a dispersão dos povos, o caos sexual, a mistura ou invenção de identidades, a vulgaridade da cultura, a falta de regras e hierarquias, a redefinição da comunidade ao interesse comum mundano (bandas, séries, etc) e um tipo específico de violência observada particularmente nos centros urbanos (que são a vanguarda do sistema).

A libertação sexual cai no lado do caos, servindo ao mesmo tempo uma função para o lado do controlo. Os Tradicionalistas têm razão ao salientarem a natureza destrutiva do caos sexual. No entanto, estão desesperadamente concentrados nas motivações das pessoas que promovem esta cultura degenerada, ao mesmo tempo que ignoram quase completamente o papel determinante da técnica. A promiscuidade, a contracepção, a pornografia, o aborto, a homossexualidade e a confusão sexual sempre existiram. E tais actos foram combatidos e condenados ao longo dos séculos, com métodos diferentes e resultados diferentes, mas nunca foram batalhas perdidas desde o início. Mas ao fim de uma década após a conclusão da imprensa de Gutenberg, a pornografia e todo o tipo de blasfémia era publicada e divulgada. Era o início de uma batalha perdida. Será que a máquina criou os desejos das pessoas por pornografia e blasfémia? Ou será que simplesmente ofereceu um veículo mais poderoso, capaz de atingir mais pessoas e, portanto, de causar mais estragos?

A história não mudou na batalha perdida sobre a moralidade das pessoas desde então, e com meios cada vez mais tecnicamente poderosos. A tendência natural desses meios não é a moralidade, nem sequer a imoralidade, mas sim a amoralidade. A técnica não tenta quebrar as normas morais, mas acontece que quebrá-las é benéfico para o seu funcionamento eficiente, e como tal é isso que sucede. E a única forma de, pelo menos temporariamente, controlar essa natureza caótica, é implementar uma arregimentação extrema de todos os aspectos da comunicação e da vida comunitária. Mas mesmo isso é uma batalha perdida no contexto da sociedade industrial: quanto mais fácil e expansiva for a tecnologia de comunicação, mais dura e menos capaz será a censura. E assim, o tradicionalista moral está numa batalha perdida contra a natureza dos próprios meios técnicos. Há uma razão pela qual todas as sociedades tradicionais pré-industriais têm normas morais sexuais muito semelhantes – há alguns pormenores, e alguns exemplos individuais de contradição e mesmo de inversão, mas poucos e de longe. E sabemos que são sempre minoritários pois caso contrário a sociedade teria colapsado – sem medicina e tecnologia moderna, as consequências naturais desses comportamentos desviantes mantêm-nos em cheque. A sociedade industrial não elimina as normas morais, apenas torna inútil a sua razão prática, a sua necessidade para a sobrevivência. Numa sociedade em que apenas o quantificável é valorizado, em que considerações não técnicas são ignoradas e em que o homem é libertado das pressões naturais, com múltiplos suplementos para evitar consequências para os seus actos, a moralidade tradicional deixa de ter qualquer coisa a oferecer. Não tem uma aplicação prática na sociedade industrial, na qual apenas as aplicações práticas são motivo de preocupação.

Uma frase que se tornou muito popular nos últimos anos é que a política está sempre a jusante da cultura. É muito mais importante entender, no entanto, que tanto a política como a cultura estão a jusante do nível de desenvolvimento técnico de cada sociedade.

O Culto do Microscópio

É difícil encontrar uma palavra que detenha mais poder nos nossos dias do que ‘ciência’. O apelo à ‘ciência’ é imbuído de um tal espírito de sacralidade que quem levanta alguma objecção é apelidado de ‘negacionista’; os políticos, sempre oportunistas, usam-na como antes usavam o nome de Cristo, ou como imperadores Romanos usavam nomes de divindades – isto é, para se glorificarem a si mesmos, não aos deuses; o público apela à ‘ciência’ como antes se apelava à providência. A ‘ciência’ é, como já explicámos, parte do novo sagrado – e de nada importa que não tenha, neste caso, nada que ver com o método em que é suposto fundar-se e em que deve findar-se.

Mas é também curioso que se de um lado temos uma reverência religiosa à ‘ciência’, temos do outro um apelo à mesma, mas na sua forma pura. Uma pretensão de racionalidade, um sentimento salvífico de procura da ‘verdadeira’, da ‘pura’ ciência. Quando, no alinhamento político dos nossos dias, a ‘direita’ acusa a ‘esquerda’ de usar a ciência como um martelo que só vê pregos, não é, infelizmente, por reconhecer os limites intrínsecos à tal coisa que designam como ciência, é por serem verdadeiros crentes – e isso é mais triste. Contra os que pervertem a ‘pura ciência’ do método para os seus objetivos políticos, os seus defensores pretendem restaurá-la à sua condição imaculada, puramente racional, objectiva – isto é, científica. E, deduz-se, com tal propósito, não a retirar do comando das decisões, mas mantê-la lá – só que pura. Se a ciência, a verdadeira, a pura, extraída como néctar da prodigiosa fruta que é o método também ele sagrado, nos conduz a alguma conclusão, então há que restruturar a sociedade segundo a mesma. O uso aqui da metáfora da fruta não é um acaso, tal como não foi um acaso que Adão tenha dado a primeira dentada. O apelo é e sempre foi grande. O conhecimento é poder, e se acedermos a ele, acedemos ao poder, tornamo-nos como deuses, senhores do destino, capazes de tudo. Orgulhosos como o demónio.

É tudo um pouco triste e patético, como é em geral o mundo humano (especialmente o moderno) no seu todo e nas suas particularidades, mas vale a pena explorar a questão, precisamente para demonstrar o quão patética esta atitude é realmente e assim maltratar o hubris que quanto mais nos faz procurar o conhecimento humano mais nos afasta do conhecimento de Deus – como fez pela primeira vez naquele fatídico evento no Jardim.

Por isso não é a aura religiosa na sua manifestação moderna que nos interessa, isto é, a reverência bajuladora que se encontra na ‘esquerda’ pela palavra ‘ciência’ – isso é o menos, isso é o expectável, e se nos permitem dizê-lo, é menos perigoso, por ser tão natural. E é natural porque, tendo a ciência, a verdadeira, a pura, posto em causa e desvirtuando tudo o que era antes sagrado, que mais colocar no lugar mais alto senão o martelo que destruiu as fundações do anterior edifício?

O que nos interessa é a fé inabalável da ‘direita’ na mesma, na sua forma pura, no imaculado método, para nos dar todas as respostas e nos apontar um caminho – o caminho, seja ele qual for, só pode ser sempre um que nos permita mais ‘ciência’, mais poder aos seus ditames e mais progresso pela sua realização. Interessa-nos por isso muito mais desfazer o seu mito, não entre os crentes místicos mas entre os crentes que se dizem objectivos.  Afinal, quando alguém funda a sua mundividência na ‘ciência’, não estamos perante um método que nos permite aprender detalhes sobre o mundo, mas perante uma verdade última a que se adere para se entender o todo.

Começemos por uma proposição, que possivelmente até será aceite pelos crentes no método: os testes experimentais, nos quais o método científico é fundado, só nos podem esclarecer sobre pormenores, não podem ser extrapolados para nos fornecer uma visão coerente do mundo. Que teste podemos fazer para averiguar quem somos, porque estamos aqui, e qual é o propósito da vida? Existem apenas duas formas de obter conhecimento sobre estas questões, sobre as causas últimas, que têm de ser combinadas: primeiro, é através da revelação; e segundo, através da razão intuída sobre essa revelação. O primeiro ponto pode parecer aplicar-se apenas à Bíblia como a palavra revelada de Deus, mas aplica-se também às teorias científicas e de muitas outras formas.

Isto está bem documentado num breve artigo de George Orwell (tão mencionado nos nossos dias como mal entendido), “Como Sabes que a Terra é Redonda? ‘. Escreve ele:

Bernard Shaw observa que somos hoje mais crédulos e supersticiosos do que éramos na Idade Média, e como exemplo de credulidade moderna cita a crença generalizada de que a terra é redonda.  O homem médio, diz Shaw, não pode avançar uma única razão para pensar que a terra é redonda.  Ele apenas engole esta teoria porque há algo nela que apela à mentalidade do século XX“.

Ou seja, a maioria das pessoas que não se encontram num determinado campo de estudo, apenas acreditam no que acreditam devido à revelação – e tal como o homem medieval acreditava na revelação de Deus na Bíblia mediada através da classe sacerdotal, o homem moderno acredita na revelação do método científico através da classe sacerdotal científica resumida nos jornais pela classe sacerdotal de nível inferior de jornalistas, que por sua vez acreditam na descrição do perito da revelação detalhada nas revistas científicas. Este é o melhor cenário. Pois a credulidade não acaba aí, pois também se deve acreditar – sem qualquer prova – no conhecimento e infalibilidade (ou próximo dele) das pessoas que pertencem a essas classes. E, em adição, acreditar na idoneidade e neutralidade dos financiadores de ambas as operações. Por outras palavras, a maior parte do que sabemos sobre o mundo baseia-se, unicamente, na autoridade.

Como Orwell conclui, depois de perceber que não tem uma base racional para a sua crença numa terra redonda: “Ver-se-á que as minhas razões para pensar que a terra é redonda são bastante precárias.  No entanto, esta é uma informação excepcionalmente elementar.  Na maioria das outras questões, teria de recorrer ao perito muito mais cedo, e seria menos capaz de testar os seus pronunciamentos.  E a maior parte do nosso conhecimento está a este nível.  Não repousa no raciocínio ou na experiência, mas na autoridade.  E como pode ser de outra forma, quando a gama de conhecimentos é tão vasta que o próprio perito é um ignorante assim que se afasta da sua própria especialidade?  A maioria das pessoas, se lhe pedissem para provar que a terra é redonda, nem sequer se dariam ao trabalho de produzir os argumentos bastante fracos que descrevi acima.  Começariam por dizer que “toda a gente sabe” que a terra é redonda, e se fosse mais pressionada, ficaria furiosa.  De certo modo, Shaw tem razão.  Esta é uma era crédula, e o fardo do conhecimento que agora temos de carregar é parcialmente responsável“.

Embora este não seja um ponto de vista contraditório para os Cristãos, que não colocam a fé no método científico como meio de obtenção de uma verdade última, é extremamente contraditório para as pessoas que elevam a Ciência (aquela com o sinistro C maiúsculo) à fonte última da verdade tal como revelada pelo método científico. Em primeiro lugar porque as suas críticas e descrenças da história Cristã vão todas dar ao mesmo argumento, de ausência de ‘provas’ e de confiança na narrativa dada por outrem. Mas é, pelo menos no vácuo, uma crítica válida. Pelo menos até os confrontarmos com a areia movediça das suas próprias crenças.

Pois se levassem realmente a sério e rigorosamente a sua perspectiva científica, não acreditariam na grande maioria daquilo em que acreditam, uma vez que não têm nem o conhecimento, nem os meios, nem o tempo para testar todas as teorias que acreditam serem verdadeiras. Seriam cépticos radicais, o que é o ponto final verdadeiro e consistente da visão de mundo puramente científica. Mas são verdadeiros crentes, sem qualquer investigação racional: confiam na validade da proposição de que o método científico é a forma de descobrir tal conhecimento, confiam que os peritos se empenharam nele e aplicaram fidedignamente, que os seus testes foram correctamente realizados, e por último acreditam que os peritos e os jornalistas de nível inferior estão a transmitir com precisão e honestidade o que encontraram ao público. Em suma, são tão crédulos como um homem que confia na revelação de Deus, mas menos honestos a esse respeito, e a sua posição requer uma fé muito mais cega.

Assim, estabelecemos que a refutação comum de um entendimento Bíblico é absurda, e poderia mais facilmente ser aplicada para refutar as crenças amplamente difundidas do homem moderno, precisamente porque estas se baseiam numa crença dogmática no método científico, nos peritos que o utilizam correctamente, e nos peritos e jornalistas que relatam as suas ‘descobertas’ – e uma crença dogmática naquilo que é suposto ser contra as crenças dogmáticas é um oximoro cómico. Portanto, o nível de fé cega é triplicado, enquanto que o Cristão só precisa de acreditar que o relato Bíblico é a revelação de Deus a determinados homens ao longo da história e que esses homens a relataram com precisão. Para comparação, crenças em tempos anteriores que imitariam a fé do cientismo seriam como uma crença de que quem tem acesso a um dispositivo ou fórmula especial, como as conchas e os feitiços mágicos, e no nosso tempo acesso ao laboratório e ao método científico, tem uma percepção perfeita do funcionamento do mundo. Daí que as crenças generalizadas da nossa época sejam essencialmente as mesmas que as crenças em feitiçaria das sociedades primitivas, excepto pela pretensão da racionalidade que as sociedades primitivas tinham a decência de deixar de fora da sua visão do mundo.

Por isso é necessária a segunda parte: razão intuída. Devemos aplicá-la a todas as revelações, para não sermos tão ingénuos e perdidos como o homem moderno. Agora, vale a pena notar que muitos Cristãos parecem depositar mais fé nas autoridades científicas do que na revelação de Deus. Isso apenas confirma que os Cristãos modernos sofrem dos mesmos condicionamentos que a maioria dos moderados, não significa que, ao nível da mundividência, esses dois paradigmas sejam reconciliáveis. Embora a aplicação do método científico a pormenores seja perfeitamente compatível com ser Cristão e, portanto, acreditar na revelação de Deus, a crença dogmática na força omnisciente e omnipotente do método para fornecer uma cosmologia, e a autoridade e revelação dos seus praticantes não o é. Assim, para o Cristão, as descrições científicas, teorias e “provas” (colocadas entre aspas porque a mesma estrutura de crença explicada acima se lhes aplica, ou seja, a sua classificação como aceitável, prova objectiva pelo público é baseada na autoridade) devem ser consideradas à luz da revelação Bíblica e dos Santos e Pais da Igreja, e não o contrário, como parece ser tão comum para os Cristãos fazer hoje em dia.

Há uma diferença final entre a cosmovisão Cristã e a cosmovisão moderna do cientismo, que é que a primeira é uma base imutável, enquanto a segunda é uma premissa em constante mudança, cuja única oferta estável é que mudará, quanto mais não seja através da expansão. A narrativa Bíblica não muda, mas a científica deve, por necessidade, ser pelo menos possível de mudar. Por esta razão, o cientismo é uma falsa doutrina, uma vez que a ciência, embora útil, nunca pode ser a base para uma visão coerente do mundo e da vida.

Resta uma última consideração sobre a narrativa Bíblica (ou qualquer texto, na realidade), pois é uma consideração que, por mal entendida, previne muita gente de sequer tentar entender a revelação. Trata-se da questão de interpretação e de como as palavras se relacionam com a realidade. Este é o eterno debate sobre leituras literais e figurativas da Bíblia. Consideramos essas distinções artificiais. Não existe uma descrição literal do mundo, uma vez que as descrições são feitas com palavras, e as palavras são símbolos destinados a representar a realidade, mas não são a realidade. As palavras são como um mapa, apontam para a realidade, representam a realidade, mas não são a própria realidade: são por necessidade uma redução do real. Assim, não existe tal coisa como uma descrição literal de nada. Isso não torna a descrição menos verdadeira, nem os acontecimentos e as coisas que está a descrever menos verdadeiros. Significa apenas que, tal como com a ciência e a tecnologia, o homem moderno é novamente levado a sobrestimar o poder da sua própria invenção, neste caso, a linguagem. O homem medieval não acreditava em leituras literais, é o homem moderno que acredita. É por esta razão que ele não consegue compreender sequer a distinção mais básica entre mapa e realidade – e isto aplica-se tanto à sua leitura da Bíblia como às descrições científicas, com a excepção de que ele tende a pensar que as palavras na Bíblia não descrevem nada de real, enquanto que as palavras dos jornalistas e dos cientistas são as mesmas que a realidade que estão a tentar descrever.

Deus tem a vista de cima, a vista completa, mas escolheu dar-nos um mapa usando uma ferramenta humana, a linguagem. Isto não significa, contudo, que o mapa possa ser confundido com a vista de cima. E assim, quando lemos a Bíblia, por exemplo Génesis 1:1 “No princípio Deus criou o céu e a terra“, podemos ter apenas uma ideia aproximada do seu significado. Embora algumas descrições na Bíblia, especialmente no que diz respeito às idas e vindas históricas de Israel e das nações com as quais entram em contacto tanto no Antigo como no Novo Testamento, sejam precisas e fáceis de compreender, eventos tão monumentais e sobrenaturais como a Criação, a Queda, a Encarnação ou a Ressurreição de Cristo devem necessariamente permanecer misteriosos, porque falam de eventos que nunca podem ser compreendidos puramente a partir de uma visão humana, e portanto uma construção puramente humana como a linguagem nunca pode fornecer uma descrição inteiramente satisfatória e deve recorrer, por necessidade, a uma linguagem poética.

O mesmo, na verdade, se aplica às descrições científicas do mundo e sobretudo de eventos de enorme magnitude e profundidade – mas infelizmente, nunca veremos os crentes na ciência colocarem a sua racionalidade a funcionar e colocar o proverbial grão de sal nas descrições que lêem dos seus sacerdotes de microscópio e telescópio.

O universo surgiu sozinho e os homens vêm dos macacos. Não é preciso nenhuma interpretação, tudo isto é claro como a manhã – se vier de uma bata branca.

O espírito Lusitano

Será que os Lusitanos se agitavam com a política Romana?

A pergunta tem-me vindo à cabeça ultimamente, mas hoje ainda mais. Eu imagino que esta seja uma doença moderna, derivada da comunicação instantânea. O inventor do telégrafo foi certamente impelido por demónios – como todos os inventores, na verdade. Para nos perturbar a paz com notícias distantes, informação que não nos serve para nada, que não nos impele a agir, mas apenas a definhar, a sublinhar a nossa insignificância e dar-nos ansiedade. E para quê? Para nada, isso mesmo.

Imagino o Lusitano a mandar às favas figurativas o seu colega preocupado com a política Romana enquanto ele vai às favas literais pois está ocupado com algo relevante, isto é, o almoço. Ocupado, não PRE-ocupado – tome-se nota pois vem ao caso mais à frente. Enquanto isto colegas mandam-me mensagens preocupadas com uma eleição na capital do império. Vai ser o fim dos tempos se o homem laranja ganhar!

Do outro lado não é melhor – também pensam que faz alguma diferença. Não importa salientar as ligações altamente duvidosas do putativo salvador às outras faces plutocratas (escrevo Xabad, para evitar problemas, mas é com CH) e os planos das mesmas (igualmente perigosos e diabólicos), mas nada disso importa para gente obcecada com a política. Tal como de nada serve lembrar que passaram quatro anos, e o mundo ficou pior e todas as más tendências se agravaram – como se esperava que ficasse e se agravassem, ganhasse quem ganhasse o concurso de popularidade. ‘Mas a culpa é dos outros’. Sendo ou não, o putativo salvador foi e é impotente, ou nunca foi suposto mudar o curso da história e pela primeira vez pôr o mundo no caminho certo. Como dizia o outro: se as eleições pudessem mudar alguma coisa não eram permitidas.

Eu ainda me lembro, há duas décadas, quando as pessoas sabiam todas, intuitivamente, que a política e os políticos (especialmente em democracia e quando era suposto representarem o povo) eram, na melhor das hipóteses, irrelevantes e que quem realmente mandava nisto tudo era de outra estirpe. E ainda me lembro de na semana passada pessoas que ainda hoje deviam saber melhor (como dizem os burgers) expressarem como a política é um mero teatro plutocrático, mas que com a badalada da meia noite esqueceram-se, e se o deus-imperador não ganhar cai o carmo e a trindade, o céu e a terra, e os pólos vão mais uma vez dar a volta.

Aqui convém lembrarmo-nos do que uma certa passagem Bíblica (Lucas 4:5-8) nos diz sobre como a política realmente funciona, quem realmente manda nela, e qual deve ser a nossa atitude perante a mesma:

Então o Diabo levou-o para mais alto e mostrou-lhe num momento todos os países do mundo. Depois disse-lhe: «Posso dar-te todo este poder e a sua glória, porque tudo isto me foi entregue a mim e eu dou-o a quem eu quiser.
Tudo será teu, se me adorares.»
Mas Jesus respondeu-lhe: «A Escritura diz: Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele prestarás culto.»

Reparem como Jesus não desmente o diabo. Jesus não lhe diz que está errado, que os países e os seus governos afinal não lhe foram entregues e que o poder político não é seu para dar. Jesus, como o hipotético lusitano de há pouco, dá o ponto como assente, mas manda-o à fava pois há coisas mais importantes. O poder político pertence ao demónio e quem quer servir Deus deve mandar o demónio e a sua política dar uma volta.

Mas, se tudo isto é verdade, não devíamos ficar ainda mais preocupados?

«Ninguém pode servir a dois patrões: ou não gosta de um deles e estima o outro, ou há de ser leal para um e desprezar o outro. Não podem servir a Deus e ao dinheiro.
É por isso que eu vos digo: Não andem preocupados com o que hão de comer ou beber, nem com a roupa de que precisam para vestir. Não será que a vida vale mais do que a comida e o corpo mais do que a roupa?
Olhem para as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem amontoam grão nos celeiros. E no entanto, o vosso Pai dá-lhes de comer. Não valem vocês muito mais do que as aves?
Qual de vós, por mais que se preocupe, poderá prolongar um pouco o tempo da sua vida?
»

Jesus reitera a necessidade de servir apenas a Deus e em apenas três versos (Mateus 6:24-27) contradiz aquilo que as notícias nos dizem todos os dias, já que também elas servem não a Deus, mas ao mafarrico e os seus interesses.

Um general Romano disse uma vez (ou diz-se que disse, mas vai dar ao mesmo): “Há, na parte mais ocidental da Ibéria, um povo muito estranho: não se governa nem se deixa governar!”

Talvez não seja tarde para recuperarmos o nosso espírito ancestral. Rejeitemos a modernidade, e abracemos a tradição, como diz o meme. A nossa tradição, como explicada por aqueles que nos queriam dominar, era pelos vistos seguir o conselho de Jesus Cristo, mesmo sem ter ouvido falar dele. Afinal de contas, o certo e o errado está escrito nos corações de todos. E neste capítulo, parece que estava escrito e sublinhado nos corações dos portugueses mesmo antes de o serem. Oxalá ainda possamos recuperar essa sabedoria dos antigos.

Filho: Mãe, vou injectar heroína.
Mãe: Estás doido?! Alguma vez te ia deixar injectar heroína?!
Filho: Ok, então vou beber um whisky.
Mãe: Está bem, vai lá buscar a garrafa.

***

Primeiro ministro hipotético: Instalem esta aplicação ou levam multa.
Povo hipotético: Está doido?! Isso é um atentado à dignidade!
Primeiro ministro hipotético: Ok, então andem sempre com uma mordaça ou levam multa!
Povo hipotético: Está bem, vamos já colocar.

Bolas e Doces

Eu adoro analogias e gostaria de usar uma para explorar a ideia de hierarquia de objectivos, e de como muitas vezes dizendo que temos um objectivo, na verdade temos outro que é prioritário, e só atingindo esse ficamos satisfeito com o outro. Estão a ver como é confuso? Vamos à analogia.

Dois miúdos têm como objectivo declarado comprar uma bola de futebol – os pais dizem-lhes que não lhes vão comprar a bola, mas que têm eles de as comprar com dinheiro que recebem de mesada. O primeiro miúdo decide poupar a sua mesada durante três meses e comprar a bola de futebol. O segundo miúdo continua a gastar a sua mesada em doces e ao fim de um ano ainda não tem a bola (mas tem cáries, felizmente os pais não o fazem pagar o dentista). O segundo miúdo continua a dizer que o seu objectivo é a bola de futebol, mas as suas acções demonstram que, embora a bola esteja teoricamente nos seus objectivos, não é o objectivo principal. Logicamente, o miúdo valoriza mais os doces do que a bola – caso contrário sacrificaria os doces pela bola, quando na verdade faz o contrário, e sacrifica a bola pelos doces.

Poderíamos dizer que o segundo miúdo não conhece o primeiro, e que como tal não tem um exemplo a seguir para obter a bola, e não consegue raciocinar quais os passos a seguir para concretizar o objectivo. Mas hipoteticamente digamos que os miúdos se conhecem na escola, e que o primeiro partilha a sua estratégia com o segundo, mas este continua a comprar doces, em vez de poupar a mesada para comprar a bola.

A situação do segundo miúdo é, a meu ver, análoga (com as devidas distâncias de complexidade) à situação dos nacionalistas, entendidos muito largamente.

Quais são os principais objectivos desse grupo? Eu consigo encontrar quatro (a ordem de prioridade depende de cada sub-grupo):

  1. Coesão e manutenção étnica
  2. Taxa de Natalidade superior a 2 filhos por mulher
  3. Manutenção e continuidade cultural
  4. Moralidade tradicional

Estes parecem-me ser os objectivos transversais a todos os grupos e opiniões debaixo da designação ‘nacionalista’, e todos os objectivos secundários (como segurança pública ou saúde física e mental) advêm em larga medida da implementação dos objectivos principais.

Se discordarem destes objectivos (como representativos do nacionalismo) agradecia aos leitores que especificassem as discórdias num comentário. Em todo o caso, penso não alterar muito o sentido do texto.

E se eu vos dissesse que existe, hoje, um grupo (composto por vários sub-grupos relacionados) de Europeus que, ao contrário de todos os outros grupos Europeus, conseguem consistentemente alcançar os quatro objectivos principais? E ainda mais surpreendente, conseguem alcançá-los sem os terem como objectivo primário – eles surgem quase como consequência colateral. Talvez não acreditem, mas a verdade é que existe. Antes de revelarmos o seu nome, vamos explorar os factos concretos sobre este grupo e a sua relação com os quatro objectivos nacionalistas.

Em relação ao ponto 1, este grupo mantêm a mesma composição étnica desde a sua origem há vários séculos. Embora em teoria seja possível juntar-se a tal grupo sem partilhar a mesma herança étnica, tal é tão raro ao ponto de ser estatisticamente irrelevante – algo que liga com o ponto 2: a taxa de natalidade.

Este grupo tem uma das mais altas taxas de crescimento populacional do mundo, duplicando os seus números em menos de 20 anos. A taxa da natalidade deste grupo é, neste momento, de 5.3 filhos por mulher. É o único grupo Europeu que mantêm uma taxa de natalidade acima do necessário para a substituição populacional (se descontarmos a contabilidade enviesada pelos imigrantes em países Europeus), e rivaliza com as mais altas taxas no mundo (todas elas, com esta excepção, em países de ‘terceiro mundo’).

No ponto 3, este grupo mantem e continua a sua cultura largamente inalterada desde a sua incepção. Este ponto pode ser ilustrado especialmente pelo facto de continuarem a falar a mesma língua que os seus antepassados, mas não só: embora vivendo numa área geográfica que não a de origem, mantêm um dialecto que no lugar original já está extinto, ou seja, são um testamento vivo de continuidade e manutenção cultural. Esta língua é uma das poucas línguas minoritárias no país em que se encontra (e a única de origem Europeia) que não está em vias de extinção pela chegada de imigrantes. A mesma dinâmica se encontra nas formas musicais tradicionais que ainda praticam, que entretanto estão extintas na geografia e grupo étnico original.

No ponto 4 basta dizer que o grupo adere a normas de moralidade tradicional, dando ênfase à família, ao casamento e à educação dos filhos para manter essas normas. O grupo considera a sua unidade mais básica a família, em vez do indivíduo, e é pelo número de famílias (e não de indivíduos) que contabilizam os números da comunidade (a contabilização da taxa de natalidade é feita pelo governo através dos métodos comuns). O homem é o líder da família e os sexos têm obrigações diferentes – e tradicionais. A maioria dos filhos continua a profissão dos pais e a maioria das filhas tem como actividade principal o cuido da casa e dos filhos. Divórcio, homossexualidade, estilos de vida ‘alternativos’, drogas e suicídio são inexistentes.

O grupo (ou colecção de grupos) em questão dá pelo nome de Amish. São descendentes de Alemães e Suiços, vivem maioritariamente na América do Norte (mas também do Sul), e avaliando os putativos objectivos dos nacionalistas, deveriam ser um exemplo a seguir, ou pelo menos a emular. Deveriam figurar permanentemente na sua propaganda e constituir um exemplo aspiracional.

Mas este cenário idílico tem custos e é quando consideramos esses custos e os sacríficos requiridos que surgem dúvidas sobre os objectivos principais dos nacionalistas: serão assim tão prioritários? Ou como o segundo miúdo do exemplo inicial, não preferem certos outros objectivos a estes? Tal como o miúdo que não quer sacrificar os doces pela bola, e como tal quer mais os doces do que a bola, os nacionalistas não parecem estar dispostos a sacrificar os confortos do mundo moderno pelos objectivos que os Amish, sacrificando-os, cumprem sem qualquer dificuldade.

Os Amish, ou os seus líderes, rejeitam o uso de uma grande quantidade de ‘benesses’ do mundo moderno. O nível de rejeição destes confortos é variado, havendo os que rejeitam totalmente a electricidade, veículos motorizados ou água canalizada, e os que os utilizam em aplicações específicas (mesmo assim uma minoria). Nenhum dos sub-grupos permite televisões ou computadores – alguns permitem telefones (antigos) em contexto de trabalho, mas não de lazer. Em última instância, cada tecnologia, a sua introdução e o seu uso são decididos pela liderança de cada grupo – geralmente um conselho de anciãos – e são avaliadas pela perspectiva única de ajudar ou prejudicar a estabilidade da comunidade e dos seus valores, e a manutenção dos mesmos. Em geral, a avaliação é que as tecnologias modernas não só não são propícias à saúde dos valores da comunidade, como são em geral detrimentais. E claro, as comunidades obedecem sem questionar as decisões dos seus líderes sobre estas questões.

Seja como for, aqui está, em pleno Século XXI, um exemplo a seguir do ponto de vista nacionalista, um grupo que cumpre todos os requisitos e atinge todos os objectivos. Mesmo concedendo algumas dificuldades logísticas em pôr em prática uma versão adaptada deste grupo, esta não é de todo uma missão impossível. E no entanto, não é costume ver propostas nesse sentido, pelo contrário. Será por falta de conhecimento? Talvez, mas tendo lido este texto – e podendo agora fazer mais pesquisa para aprofundar o conhecimento – poderão espalhar a mensagem e começar a preparação. Ou no mínimo, começar a falar da condição principal que faz com que os Amish sejam capazes de cumprir os tais objectivos.

A pergunta que se impõe aos nacionalistas, e à qual é impossível fugir, é se valorizam mais os objectivos expressos ou os confortos modernos cuja abdicação é requerida para os alcançar. Se estão dispostos aos sacrifícios necessários para atingir os seus objectivos, ou se só aceitam esses objectivos dentro de certas outras condições – condições essas que se tornam, na verdade, os objectivos principais. Por outras palavras, se preferem a bola ou os doces. E a mim parece-me que mesmo dizendo que preferem a bola, preferem ter os doces e queixar-se das cáries.

Comida para o pensamento, como se costuma dizer.

Progressistas somos nós todos, desde pequenos*

*o título é uma alusão ao verso do poema ‘Litania Para Os Tempos de Revolução’ de Mário Cesarini, ‘burgueses somos nós todos, desde pequenos’.

Já ouvimos dizer, e porventura já dissemos, vendo a impotência da direita no mundo moderno, que ‘os conservadores não conservam nada’. E é absolutamente verdade, mas convém perceber porquê, para que os críticos (a ‘extrema-direita’) entendam que na sua esmagadora maioria, ao ignorarem a natureza profunda do sistema em que vivem e na sua indisponibilidade de o rejeitar, as críticas que fazem são nulas e igualmente impotentes. E quanto mais extremos os seus valores, mais impotentes são as suas críticas, porque mais desligadas da realidade – como alguém que se queixa de estar permanentemente molhado mas que se recusa a sair da chuva.

Já vimos como o sagrado da máquina subjaz todo o pensamento moral, social e político dos nossos tempos, fora das distinções largamente artificiais de esquerda e direita. Ora, todo o sagrado é fundado num mito, numa narrativa que dá forma e direcção às nossas acções e à sociedade em que vivemos. E o mito em que o sagrado da máquina é fundado é o mito do progresso.

Se o sagrado é intocável por definição, o mito é inquestionável por definição. Na nossa sociedade questionar o mito do progresso está fora do reino das possibilidades, o mito é impermeável à realidade. E se um problema surge dentro do sistema, a solução progressista nunca é voltar atrás, mas ‘resolver’ o problema. Isto é a atitude esquerdista por natureza. Por exemplo, quando Marx observou a decadência e desumanização causada pelo sistema fabril, não rejeitou o sistema, mas propôs em vez disso controlá-lo, dar-lhe uma direcção diferente. O resultado, como se sabe, foi terrível.

Mas eu não falo para os esquerdistas, pois a sua filosofia é perfeitamente concordante com o mito do progresso. Eu falo para os conservadores, cuja filosofia é profundamente contraditória. E quando uso a palavra conservadores não me refiro apenas aos moderados que dão por esse nome na gíria comum, e que em quase nada se distinguem dos outros moderados todos, refiro-me a todos os homens que discordam do software de esquerda, veementemente até, mas que se recusam a mudar o hardware – um hardware construído, mantido e feito à medida do software que lá corre.

Comecemos com um exemplo patentemente ignorado pelos conservadores: a exploração dos combustíveis fósseis. O sistema industrial fundado pelo mito do progresso extraiu já o suficiente destes combustíveis para alterar para sempre a composição geológica do planeta. Haverá algum conservador que se pergunte se isto é bom ou mau? Segundo o mito do progresso, que o conservador subscreve, a natureza existe como recurso para ser explorado. Como já explicámos, antes do mito do progresso se tornar o mito definitivo da nossa civilização, a natureza era o substrato e a técnica o recurso. Mas o mito do progresso alterou a dinâmica: a natureza é o recurso, e a técnica o substrato. Tudo o que pode ser feito, deve ser feito – e a única coisa inquestionável é a técnica. A técnica tem de ser obedecida, a natureza subjugada em nome dela. A própria designação de ‘combustíveis fósseis’ nos diz o que a nossa civilização pensa sobre o assunto: exploração. É esta a nossa relação com a natureza: consumir. Porque precisamos de carros, e de máquinas, de motores. E claro, nunca sequer nos perguntámos que outras coisas destruíamos com a utilização destas máquinas. Nem demos meia volta quando começámos a ver os efeitos: quando vimos o carro destruir comunidades, afastando famílias, criando bairros dormitórios; ou quando vimos as máquinas destruírem a capacidade de homens sustentarem as suas famílias e destruir o equilíbrio entre os sexos; ou quando vimos os motores encherem as nossas ruas de poluição dos mais variados tipos. Nada disto foi reconsiderado, porque o progresso não é negociável. Não podemos parar, muito menos voltar atrás. As famílias e comunidades destruídas pelo progresso terão de se adaptar, porque o progresso é o mais importante. Tudo o resto que se quilhe. E surpreendentemente, o conservador concorda. Só quer ir mais devagar, por contraste ao esquerdista, que quer ir em força e rápido.

E assim, também, quando nos deparamos com um problema, nunca o solucionamos, mas simplesmente criamos outro. Os combustíveis fósseis estão a acabar, ou a poluir demais? Será que devíamos repensar o carro, a máquina, o motor? Claro que não, a solução é pensar num motor que funcione por outros meios. Certamente não terá outras consequências que não previmos, nem confirmará e aprofundará as consequências que já observámos. E se tiver, lidaremos com elas quando chegarem. Será que o conservador, e em especial o Católico, sabe que todos os industrialistas faziam parte da maçonaria? Será que alguma vez estudou a resposta da Inquisição nos países Católicos ao avanço do industrialismo? Será que alguma vez ouviu falar de Bento de Moura, e o que lhe aconteceu e porquê?

Outro exemplo: a agricultura. A quinta de família foi substituída pela agricultura industrial (como tudo, na nossa civilização, se tornou indústria). Os bois substituídos por tractores, e o estrume substituído por fertilizantes químicos. Onde antes havia uma organização orgânica e um ciclo vital, agora existe um sistema de uso e desperdício. O boi era alimentado pela quinta, e em seu turno alimentava a quinta, formando um ciclo natural e ancestral. Em vez disso, o mito do progresso dita que façamos mais, mais rápido, mesmo sob pena de destruir o ciclo natural e ancestral, e de criar um beco sem saída de desperdício. Hoje sabe-se que os tractores (para além dos altíssimos custos humanos e sociais da sua produção e da produção do seu combustível) compactam o solo de forma a exterminarem a vida que lá existe e que é necessária para as plantações; sabe-se também que aos fertilizantes químicos faltam micronutrientes importantes (para além dos custos humanos e sociais da sua produção) e que deixam vestígios nas colheitas que depois afectam a saúde humana. Mas nada disto importa, porque é preciso mais, mais rápido, mesmo sob pena da própria saúde das pessoas e do meio natural. E quando as consequências surgirem, logo inventamos novas soluções. Voltar atrás é que não, nunca. Porque o progresso não pode parar, é inquestionável.

É impensável hoje ao conservador viver sem auto-estradas e sem supermercados, sem electricidade e sem telemóveis, sem universidades e sem redes sociais. Se por acaso pensar nos seus antepassados, sem tais ‘benesses’, mas com família, comunidade e um propósito de vida, continua a considerá-los amputados. Eram tristes e não sabiam – não se podiam queixar na internet das consequências sociais da internet, não podiam ir de carro ao supermercado comprar alface e em vez disso iam a pé ao quintal. O absurdo patente na visão do conservador moderno é-lhe invisível, porque o mito do progresso cega os seus acólitos. Até entre Católicos – outrora dos maiores críticos da revolução industrial – as estruturas modernas são inegociáveis.

A mesma dinâmica que existe com o petróleo ou a agricultura, se encontra nas discussões sobre escolaridade ou sobre as redes sociais. O esquerdista tenta controlar as instituições, e o conservador chora sobre o controlo das instituições e recusa-se a admitir os danos (sociais, psicológicos e morais) da escolaridade ou das redes sociais, e ainda mais que esses danos são combustível para criar esquerdistas, isto é, progressistas convictos, em vez dos progressistas apologéticos do conservadorismo. Tudo porque “não podemos voltar atrás”. Esta é a oração do progressismo. Mas se tomámos um caminho errado, que outra solução senão dar meia volta e começar o caminho para trás?

O conservador não é menos convicto do progressismo do que o esquerdista, mas o esquerdista é consistente – está na vanguarda da vanguarda. O conservador está sempre na retaguarda da vanguarda. Como por exemplo se vê quando se depara com uma crítica do Estado Novo. O esquerdista critica o Estado Novo precisamente pelo prisma do progressismo, como não poderia deixar de ser: sob o Estado Novo, diz o esquerdista, o país regrediu, ou estagnou. Não há pecado maior na religião do progresso do que estagnar, exceptuando regredir, um pecado ainda maior. E não importa aqui se isso é verdade ou não – a verdade é que, apesar do ritmo mais lento do que Inglaterra ou França, o Estado Novo não regrediu, nem estagnou, pelo contrário. E talvez aí esteja, da perspectiva anti-progressista, o seu maior erro. Salazar, em particular, era muito consciente dos perigos do avanço tecnológico, especialmente dos perigos para a estabilidade social, para a moralidade, para a coesão da família e a manutenção da comunidade. Mas não era, infelizmente, totalmente anti-progresso. Mas a única coisa que ocorre ao conservador dizer quando um esquerdista critica Salazar é que é mentira, Salazar na realidade avançou muito o país, escolarizou muita gente, pavimentou muitas estradas e criou muitas centrais eléctricas. É a tristeza de acreditar no mito do progresso, mas sem o saber ou admitir. O único erro do Salazar foi não ser ainda mais progressista, diz o moderno conservador.

A mesma coisa quando o esquerdista ataca a Igreja medieval por ter atrasado o progresso, por ter impedido que o conhecimento se democratizasse, por ter proibido invenções de serem realizadas, por ter controlado o fluxo e a prática da ciência. O conservador contrapõe que não senhor, que a Igreja era como que um departmento do MIT, que criou universidades, e que a própria revolução científica veio das suas entranhas. E está certo, claro, mas avalia tais sinais de decadência da Igreja como sinais da sua prosperidade, quando foram as sementes do mundo caótico cuja colheita estamos agora a provar. O mérito da Igreja medieval foi precisamente atrasar o progresso, não foi ajudá-lo; foi impedir que certos desenvolvimentos se dessem, não foi dar-lhes a sua bênção mais tarde. Foi desse esforço hercúleo de estabilidade que nasceram nações e sociedades equilibradas. E foi do seu desleixo nessa tarefa fundamental que nasceram os monstros que hoje conhecemos tão bem.

A diferença entre progressistas e conservadores não é de natureza, mas de grau: o progressista defende o progresso acelerado em todas as frentes, o conservador defende o progresso com uns anos ou décadas de atraso – mas a aderência ao mito do progresso é a mesma. Tal como o esquerdista, acredita na primazia da técnica, e isto vê-se particularmente na sua fé inabalável no processo político, contra toda as evidências da sua impotência. A política não pode mudar as implicações do smartphone, pode apenas (e se tanto) condicionar o seu uso. Mas é uma batalha perdida a longo prazo – como até os regimes conservadores do início do Século XX provaram mesmo perante uma tecnologia muito menos poderosa como o cinema, a imprensa ou a televisão. O conservador sabe que os seu filho pré-adolescente vê pornografia no telemóvel, mas só se preocupa com o conteúdo do currículo escolar. Currículo esse que o miúdo vai ignorar em grande parte, porque vai estar agarrado ao telemóvel.

Já ouvimos muitas vezes dizer que os progressistas de hoje são os conservadores de amanhã. Mas é irónico que esta acusação venha dos conservadores mais ‘extremos’, acusando os conservadores mais moderados de, no futuro, irem defender qualquer dos progressismos esquerdistas (como hoje vemo-los defender a ‘liberdade’ de auto-destruição sexual, por exemplo), quando os conservadores mais extremos defendem hoje as estruturas (como o mercado, o governo republicano e democrático, ou o sistema industrial) que foram promovidos pelos inimigos da sociedade tradicional precisamente para a destruir.

Porque vivendo ambos no mito do progresso, a diferença entre conservadores e progressistas resume-se à rapidez, não à direcção geral da sociedade. O progressista de hoje que quer abolir a família tradicional, ou promover uma identidade sexual artificial, não está a ser radical, mas simplesmente a levar o mito do progresso às suas consequências naturais. Se é possível ao homem destruir culturas e modos de vida ancestrais, mudar os seus hábitos de trabalho e os seus hábitos de consumo, porque não lhe é possível alterar a identidade sexual? Se é possível libertar a mulher do trabalho doméstico através da máquina de lavar loiça, porque não é possível fazer o mesmo através do seu ingresso numa empresa de marketing? Se é possível ao homem libertar-se da responsabilidade sexual através da contracepção, porque não o é através do divórcio? Partindo da premissa errada, os progressistas de esquerda estão logicamente correctos. O grosso do que constituía um homem e uma mulher no passado já foi alterado. Não há qualquer razão lógica para não aprofundar essa mudança, essa redefinição, dentro da premissa do mito do progresso. O credo de hoje na auto-determinação do “género” é apenas a vanguarda da autodeterminação da carreira ou do consumo que os conservadores hoje abraçam de forma impensada como uma das posições inalteráveis do seu conservadorismo. O abolicionismo da normatividade sexual da feminista universitária de cabelo azul tem origem no seu pai conservador consentir que ingresse na faculdade.

É o conservador que está errado sobre as identidades tradicionais, quando as circunstâncias materiais em que vivemos são em tudo incompatíveis com essas identidades. E todas as suas queixas são em vão, e patéticas, enquanto se recusar a rejeitar os meios que tornam essas identidades obsoletas. Por muito que chore a ausência de masculinidade não exige o retorno do trabalho físico, por muito que chore a perda da nação não exige a extinção do mercado internacional, por muito que chore a desintegração da família não exige a extinção dos meios que promovem essa desintegração, por muito que chore a propaganda da vanguarda não exige a exinção dos meios pelos quais a propaganda é veiculada. Mas é pior que isto, porque na vasta maioria, nem sequer extingue esses estímulos dentro da sua própria casa. Porque no fundo da sua mundivisão não está a tradição, e não está preparado para, nem consciente da, necessidade de a aplicar na prática. No fundo da sua mundivisão está o progresso, e “voltar atrás” é para si um pecado tão grande como é para o mais convicto esquerdista.

Um conservador que se queixa da disciplina de ‘desenvolvimento social’ mas não tira os filhos da escola não é um conservador, é um esquerdista com atraso. O problema para um verdadeiro conservador não é o conteúdo da disciplina, mas o facto de existir tal disciplina em primeiro lugar, seja qual for o conteúdo. Mas o mito do progresso diz que os miúdos têm de viver numa prisão durante doze anos, e isto é inquestionável. O conservador acredita piamente que uma professora formada pela mesma máquina e doutrinada pelo mesmo mito do progresso, com uma conta de instagram onde posta fotos semi-nua e apoio à causa LGBT é capaz de ensinar os seus filhos desde que o ministério da educação designe um programa ‘conservador’. É de uma burocratização e formalismo que faria um soviético corar.

O conservador vê os delinquentes na América a destruir um restaurante de uma cadeia de fast food ou uma loja de uma marca qualquer e exclama indignado que a sociedade se está a desintegrar, ao mesmo tempo que ignora a desintegração a todos os níveis que o fast food e as marcas promoveram e continuam a promover.

Ao conservador só lhe ocorre apelar à liderança que imponha padrões de moral, sem compreender que a moral nunca foi imposta pela liderança. A liderança das sociedades tradicionais impõe as condições para que a moral floresça naturalmente. Sem essas condições, todas as imposições das mais altas autoridades são em vão. Daí a sua obsessão em ‘recapturar as instituições’. Será que ocorre ao conservador o porquê de as ter perdido? Claro que não, porque se ocorresse percebia que nunca foram suas, que nunca estiveram de acordo com os valores que pretende conservar.

Que instituições quer o conservador ‘recapturar’? O governo republicano e democrático? Será que sabe a origem, e a mundividência inerente, desse tipo de governo, que desde o início foi inimigo da moralidade e organização social tradicional? Será que entende que a sua própria existência é uma negação da hierarquia a nível nacional da mesma hierarquia que se pretende conservar a nível familiar e comunitário?

Ou será que quer recapturar as escolas? Será que entende que a escolaridade foi desde o início um instrumento de propaganda contra a sociedade tradicional e que nunca pode ser outra coisa? Será que entende que educação e escolaridade são duas coisas completamente distintas? Não me parece. As escolas existem para dois propósitos, que coincidem na perpetuação do mito do progresso: para inculcar nas mentes jovens a propaganda do sistema e perpetuarem-no como indispensável para uma vida salúbre e feliz; e para treinar as novas gerações para acatar as necessidades técnicas do sistema. Quando o conservador afirma que ‘tem de enviar os filhos para a escola’ (e sobretudo ‘para a faculdade’) para que possam ‘ter um bom emprego’, o que está a dizer é que a única coisa que antevê para os filhos é que se tornem escravos do sistema, no mínimo, e escravos felizes na maior parte das vezes. Por isso em vez de garantir que filhos e filhas estão orientados para casar e formar família, garante que estejam orientados para cumprir uma função económica que seja adequada ao sistema (‘a empregabilidade’) e em vez de poupar para ajudar os jovens filhos nos primeiros anos de casamento, para que possam ir formando as suas próprias famílias enquanto não têm estabilidade e maturidade, poupa para os mandar para as faculdades onde irão receber uma lavagem cerebral contra os pais, e contra a própria instituição da família – se não directamente, sob as disciplinas pseudo-sociológicas, pelo menos colateralmente através da orientação da vida para a função económica. A esta forma de escravatura e alienação, o conservador chama sem ironia de educação, e pior, considera-a ‘necessária’. E bom, será necessária para algumas coisas, mas não para qualquer um dos putativos propósitos conservadores.

O conservador pensa, sem qualquer base na realidade, que consegue impingir valores tradicionais em estruturas necessariamente progressistas, seja a escola, o mercado, as redes sociais ou qualquer outra estrutura do nosso mundo fundada no mito do progresso. Da mesma forma que a quinta familiar funcionava organicamente (e não pode funcionar de outra forma sob pena de deixar de o ser), a família tradicional, a coesão étnica e cultural, o papel das mulheres e dos homens na sociedade, a sexualidade e tudo o resto de que os conservadores se queixam no mundo moderno dependem desse mesmo funcionamento orgânico, dependem de um mundo necessariamente pré-moderno. Não há uma possibilidade intermédia de manter as estruturas do mundo moderno e ter valores tradicionais. O mito do progresso é a antítese do mito de estabilidade que o precedeu, e que é a base de todas as sociedades tradicionais. Todas as sociedades pré-industriais têm valores tradicionais e todas as sociedades industriais sofrem da perda desses mesmos valores, independentemente da geografia, da genética e da cultura. Isto é tão observável que só mesmo o poder de um mito pode cegar o observador.

É por tudo isto que o conservadorismo, do mais moderado ao mais extremo, é incapaz de conservar seja o que for.

Existe sistema ‘pós-industrial’?

Recebi um comentário no texto anterior em que era utilizada a expressão ‘pós-industrial’. A expressão é usada, sobretudo na disciplina de sociologia, para designar um sistema em que o sector terciário suplanta (em riqueza produzida e em proeminência) o secundário.

A meu ver esta expressão, e o que designa, induz em erro qualquer investigação sobre a natureza do sistema em que vivemos. Será que vivemos de facto num sistema ‘pós-industrial’? Eu penso que o termo foi inventado para aliviar as consciências do Ocidente, para nos permitir a ilusão de que o sistema agora é diferente, e que os altos custos para a vida e dignidade humana, bem como para a natureza, foram superados.

A primeira observação é a seguinte: hoje já não temos fábricas, temos escritórios e lojas, mas será que os escritórios e as lojas, a realidade que servem, a economia de que fazem parte, os serviços que produzem, não são também indústrias? A mentalidade de racionalização, uniformização e exploração é a mesma. A criação de relações puramente mercantis, bem como a orientação da vida social em volta do consumo e desperdício, continua exactamente a mesma.  O escritório e a loja operam sob a mesma ideologia que a fábrica, só se altera o objecto da exploração. Por isso a economia de serviços não é pós-industrial. É apenas outra industria.

Mas mais importante ainda é que só superficialmente nos livrámos da fábrica. Longe vão os tempos no Ocidente dos exércitos fabris e das horríveis condições de trabalho e da enorme quantidade de poluição, porque a nossa economia é hoje quase exclusivamente dominada pelos serviços. No entanto, isto não quer dizer que superámos a necessidade do sistema desumano da fábrica. Pelo contrário.

As economias Ocidentais podem ser movidas por serviços, mas ninguém come serviços, ninguém constrói casas feitas de serviços, e mesmo os próprios serviços precisam de infraestrutura e maquinaria produzida pelo sector secundário. Até a agricultura depende sobretudo do sector secundário, porque os modos de produção tradicionais foram abandonados pela produção que utiliza, quase exclusivamente, meios mecânicos – meios que não só têm custos para o ambiente na sua utilização, mas que além disso, e o que nos importa neste texto, são produzidos em fábricas. Por isso, hoje como no Século XIX, o sistema não é pós-industrial, está apenas organizado de forma a que o sector secundário, e certamente aquele que sustenta a grande maioria da produção necessária, esteja fora do Ocidente. Longe da vista e logo longe do coração. As consciências do Ocidente são assim apaziguadas – nada no seu modo de vida precisa de mudar, porque não vêem os seus efeitos, sentidos do outro lado do mundo.

O sistema industrial hoje ainda existe e não muito diferente do que era no Século XIX. As condições, a alienação e os danos (para a vida humana como para a natureza) continuam os mesmos, só estão do outro lado do mundo. Em alguns aspectos, o sistema industrial do nosso tempo é ainda mais desumano. Nem mesmo no auge da revolução industrial, com todos os horrores que perpetraram, ocorreu aos donos das fábricas colocarem redes por baixo das janelas para que os seus trabalhadores não se pudessem suicidar, tal é a miséria da realidade em que são forçados a trabalhar que a morte pela própria mão é preferível – mas nem esse pequeno gesto de autonomia lhes é permitido. Aparentemente as condições na Inglaterra do Século XIX não eram tão más como são na China no Século XXI. É o progresso. Abolimos ou não abolimos a escravatura? Será por isso que tanto falam em reparações pela escravatura do passado, para que ambos os lados, perdidos nesse argumento irrelevante, não se apercebam de que ela existe hoje, e infinitamente mais brutal? E que compactuamos com ela sem nos apercebermos? Que a nossa sobrevivência depende dessa escravatura?

Toda a riqueza do Ocidente continua dependente dessa pobreza, escravatura e destruição – só que ela já não sucede aqui, mas no ‘terceiro mundo’.  A nossa economia terciária ajuda a mascarar o problema, e continuamos a consumir os produtos sem ter à nossa frente os custos humanos e naturais desse modo de produção, mas os custos permanecem os mesmos.

Uma nação moderna (isto é, tecnologicamente avançada) pode tanto ser pós-industrial como um homem pode ser pós-comida e pós-roupa. A única questão é se a comida e a roupa que necessariamente consome é produzida por si ou pelo vizinho ao fundo da rua.

É importante perceber que não vivemos num mundo pós-industrial, mas que por um lado a indústria dominante no Ocidente passou a ser outra, e que por outro simplesmente exportámos as indústrias clássicas, e o sofrimento e destruição inerente a elas, para partes longínquas.

Os Cristãos em particular deviam levar esta realidade a sério, pois a nossa forma de vida e consumo é inerentemente baseada na violência e na exploração, bem como na destruição de modos de vida tradicionais – que no Ocidente já foram destruídos pelo industrialismo há muito, mas continuam a ser no resto do mundo. Criticar somente o conteúdo da nossa sociedade (o ‘marxismo cultural’ e as suas manifestações) não chega: mesmo que o conteúdo fosse puramente de acordo com a moralidade Cristã, o veículo pelo qual é apresentado é inerentemente incompatível com a dignidade humana que os Cristãos têm o dever de defender.

Não podemos cair na armadilha, posta especialmente para nós, de que a distância da vista seja distância do coração. O sistema continua tão desumano e destrutivo como sempre foi.

Resta, por fim, antecipar uma objecção e proposta que vai sendo avançada, aqui e ali, tanto pela direita como pela esquerda: a de trazer de volta o sector secundário para o Ocidente. Muito bem. Mas o Ocidental não aceitará as mesmas condições de trabalho que o terceiro mundo aceita. E se eliminarmos os seus aspectos mais extremos e destrutivos, pagando salários condizentes com o que estamos habituados (como ainda existem, embora numa escala muito reduzida), a capacidade produção será muito menor, os preços muito mais altos, e os produtos, por consequência, largamente inacessíveis à grande maioria. Isto quer dizer que, tais indústrias irão à falência pela competição internacional, ou o modelo de produção e consumo irá alterar-se radicalmente. A conclusão é que o sistema industrial, na sua totalidade e nas suas aplicações particulares, na produção como no consumo que necessita para se perpetuar, é e será sempre insustentável. Não há varinha mágica que dê a volta a este destino. Sobra apenas tomar a decisão de aceitamos as implicações do sistema ou não. E em geral, exceptuando certos excêntricos e idealistas como o presente escriba, tanto à direita como à esquerda, são aceites. É o preço do progresso.