Mais umas considerações sobre comunismo e capitalismo

Continuando no tema do comunismo e do capitalismo, que me tem ocupado o pensamento ultimamente, concluo que o assunto vai muito mais fundo do que meras ideologias políticas. Antes de lá chegar, no entanto, queria deixar uma observação curiosa e explicar a relevância de ir mais fundo, para esta e qualquer discussão sobre política.

Quando escrevo directamente sobre política, ou sobre um assunto político do dia, recebo comentários, e quando escrevo sobre temas mais obscuros, ouvem-se os grilos. As regras básicas do marketing ditam que para ter mais ‘engagement’ pare de escrever sobre coisas impopulares como as paredes que erguemos no nosso coração e aquilo que nos separa de Deus, e em vez disso escreva sobre as paredes que o governo ergue em frente ao parlamento e o que separa o Rui Tavares da Joacine. O mero facto de que são palavras inglesas como marketing e engagement a sugerirem este caminho indispõem-me a segui-lo. Mas isso não exclui uma investigação sobre as razões desse facto, indiscutível, que os meus leitores querem saber mais do parlamento do que do paraíso, ou pelo menos, querem saber mais das minhas impressões sobre um do que sobre o outro.

Uma das razões pode ser que não me consideram apto para falar de coisas tão importantes como o paraíso, e apenas de coisas menos importantes como o parlamento – uma justa avaliação da situação. Mas se isso é verdade, confesso que a minha aptidão para falar sobre política também não é digna de recomendação. Só nos últimos três ou quatro anos mudei várias vezes de opinião, ou refinei opiniões, sobre esse tema e todos os que andam à sua volta. Pelo que as minhas palavras devem ser vistas como um ‘crescer em público’, como se usa dizer.

No entanto, é possível que os meus leitores me concedam alguma autoridade sobre assuntos políticos, e por isso me ofereçam mais atenção nesses. Só que não me parece que seja essa a razão, mas sim por estarem mais interessados nos ‘temas do dia’. Eu tento manter-me fora dos temas do dia, preferindo falar dos temas do século, ou melhor ainda, de temas sem dia nem século. Esses são os importantes. Os temas do dia desaparecem como a espuma das ondas – vem outra e lá se vai o tema. Mas nem sempre consigo manter-me fiel às regras auto-impostas, aliás, geralmente não consigo.

Quando escrevo textos sobre homens de saias quebro uma regra que impus a mim mesmo: de não comentar o ciclo (e circo) mediático, pois daí vem muito pouco, ou mesmo nada, de útil ao mundo ou a mim mesmo. Pelo contrário, está estudado e documentado o efeito que este envolvimento tem na saúde mental e até física de quem nele se deixa capturar. Parte da razão para o ter deixado de fazer foi precisamente essa – porque a minha sanidade, e a vossa, estava em jogo, ao falar constantemente da última manifestação de decadência da nossa civilização.

Quem olha para o abismo acaba também a ser olhado por ele, já dizia o outro, que de tanto olhar ficou maluco – não que já o não fosse, mas talvez por isso também tenha sido incapaz de lá tirar os olhos.

Mas como dizia, quebrei esta regra. Antes de quebrá-la, tinha quebrado outra: a de não seguir estes acontecimentos. E como a quebrei, acabei a escrever sobre o assunto. Um erro compreensível, pois é este o destino dos limites auto-impostos. E é esse o problema.

A nossa sociedade não aceita outros. O único barómetro aceitável é o que nos dá na gana. O assistente acha que pode usar saias no parlamento, e quem lhe pode dizer que não? Como se costumava dizer, é proibido proibir, mas aí mesmo há uma proibição. E da mesma forma, a única limitação que existe na nossa sociedade é a aplicação de limites exteriores.

Por vezes fico surpreendido com a forma como os temas e os eventos se interligam.

Antes de ter escrito sobre homens de saias, tinha escrito sobre as ocasiões e locais na sociedade tradicional onde o invertido se podia manifestar – sem represálias, até encorajado, mas sempre com o entendimento que era uma inversão. A Câmara Municipal lançou um tweet em que dizia que homens de saias não eram novidade, usando D. Afonso Henriques como exemplo. Um mau exemplo. Mas podia ter usado o bom exemplo das feiras medievais, porque de facto aí se permitiam os homens de saias. A diferença é que se permitia também que nos ríssemos dos mesmos, por se entender que se tratava de uma inversão. Hoje não se entende, nem se permite – muitos observam já que a comédia está a morrer por esta mesma razão. Quando todos os lugares se tornam palco do invertido, o invertido deixa de ter palco. Como uma piada sobre cancro num hospital. Por alguma razão a ‘comunidade’ LGBT se apropriou da palavra ‘queer’ (estranho). Ora, não se pode ser estranho e normal ao mesmo tempo. Para haver uma excepção tem de haver uma regra.

Voltando ao início, é sem surpresa que observo que tinha muito mais visitas quando perdia o meu tempo a criticar e dissecar cada manifestação de inversão na nossa sociedade, sem perceber que esta atenção e análise é em si mesmo parte do problema. Se como expliquei o homem de saias e a mulher gaga queriam uma reacção, e qualquer reacção é uma vitória, então a única forma de vencer é não reagir. Mas a imersão no degredo do ciclo noticioso é uma espécie de vício, e somos puxados para ele para nos sentirmos melhor connosco mesmos. Ao vermos o degredo, lembramo-nos de quão melhores nós somos.

Todas estas coisas estão ligadas ao assunto do comunismo e capitalismo, eu juro, mas temos de ir lentamente. Recapitulemos: limites auto-impostos não resultam e a nossa ânsia de nos sentirmos melhores que os outros é prejudicial, mesmo que sejamos melhores, ou especialmente se formos. Daí podemos expandir para a sociedade em geral: limites meramente humanos não resultam, e a ânsia de uma sociedade se considerar ‘superior’ é prejudicial.

Essa sociedade que todos inconsciente ou conscientemente consideram superior é a sociedade capitalista e tecnológica. A esquerda, inconscientemente, porque desdenhando esta sociedade pretende importar os povos que a não têm para onde ela existe e, ao mesmo tempo, consideram que a única forma de emancipar esses povos é transformar os seus países de forma a que se assemelhem ao nosso, seja isso possível ou não. A direita é mais consciente deste facto, e talvez por isso não queira importar povos que considera atrasados para a sua sociedade avançada, mantendo no entanto o objectivo de elevar esses povos do seu ‘atraso’. Penso já ter falado dessa curiosa definição de avanço: uma sociedade tão avançada que uma larga fatia da sua população não se quer reproduzir ou não se importa com os produtos da sua reprodução, que mata uma enorme quantidade dos seus filhos no ventre e dos seus pais nas camas de hospital, com altas taxas de suicídio, de uso de drogas, entretenimento e qualquer outra distração que lhes permita alienar-se do mundo – ou seja, que directa ou indirectamente, rápida ou lentamente, se mata a si mesma. Mas por muitas críticas que a esquerda ou a direita façam ao mundo moderno do capitalismo tecnocrático, não conseguem conceber um melhor sistema. E esse sistema, que consideram superior, é aquele que eleva a capacidade humana de se levantar a si mesma pelas suas próprias mãos. Mas se observamos alguma coisa na sociedade moderna é que a capacidade humana levanta muitas coisas, mas não se levanta certamente a si mesma, pelas razões apontadas acima, e onde quer que essa concepção de sociedade se estabeleça, no Ocidente ou no Oriente, a Norte ou a Sul, nesta ou naquela cultura, os mesmos fenómenos são observados. Afinal, se fosse capaz de se levantar a si mesma, não teria necessidade de levantar todas as outras coisas, de perseguir melhorias materiais com a voracidade com que o faz. Estaria em paz, não em constante revolução. Se Deus no comunismo é agressivamente negado, no capitalismo é um pensamento secundário – os seus sucessos são precisamente os meios pelos quais começamos a pensar que não precisamos de Deus.

E que outro nome podemos dar a essa propensão para a independência, a essa convicção de que o homem se pode levantar a si mesmo, sem Deus? Satânico. É importante pois clarificar o que esta palavra realmente significa, de onde vem, e como se manifesta – pois também aí a nossa percepção foi distorcida.

Quando se fala em satanismo, uma série de imagens vêm à cabeça, geralmente associadas com o heavy metal. Devido à influência evangélica americana tivemos o ‘pânico satânico’, que não só fez um diagnóstico errado, como confirmou esse erro entre aqueles que originalmente o fizeram.

Assim, inúmeras bandas de heavy metal, com imagética de escuridão, morte, destruição, tortura, etc, apelidavam-se e foram apelidadas de satânicas. Ao mesmo tempo, a extrema sensualização e celebração da vida terrena na música popular era normalizada. Um entendimento básico do que é o satanismo levar-nos-ia a perceber que o segundo exemplo é uma muito melhor representação do que o primeiro.

Olhando para as capas destes dois discos, ambos de 1986, qual diriam ser mais satânico? Se responderam o da esquerda, estão errados (escolhi o álbum dos Candlemass especificamente porque, além do nome da banda ser explícito, a capa mostra uma caveira demoníaca a ser perfurada por uma cruz – imagética mais clara era impossível). O álbum da Madonna teve inclusivamente um dos seus maiores sucessos, intitulado ‘Papa don’t preach’, cuja letra é sobre uma adolescente a contemplar abortar o seu filho e, segundo Madonna, sobre rejeitar a autoridade patriarcal, seja do Pai ou do Papa. Enquanto que no álbum dos Candlemass temos letras sobre pecadores e o destino que os espera no inferno e no single, ‘Solitude’, uma letra sobre o desespero e o desejo de morrer em paz, longe da falsidade do mundo moderno, e cujo refrão é uma paráfrase bíblica: ‘Earth to earth, ashes to ashes, and dust to dust’.

Muitos críticos do Cristianismo gostam de apontar a sua aparente atracção pela morte, pelo sofrimento e mortificação, em oposição a vários paganismos que exultam a luz, o prazer e a sensualidade – é uma crítica válida. Se virmos a imagética do Cristianismo dos primeiros séculos, com as suas catacumbas, os seus mártires e as suas histórias de sofrimento, e obviamente a propria história de Jesus Cristo, vemos que essa imagética é semelhante à das bandas metaleiras. Em contraste, a Bíblia diz-nos que o demónio se manifesta frequentemente como um ‘anjo de luz’, que é um sedutor, e que Lucifer era precisamente o mais belo ser criado por Deus – e talvez por isso tenha ficado tão enamorado por si mesmo e concluído que podia ele mesmo ser deus.

Satanás, e o seu número 666, é o símbolo da exaltação do humano, ou melhor, da autossuficiência, do triunfo independente de Deus, 6 sendo o número do Homem, feito no sexto dia, e todos os produtos das suas mãos – é, pois, primeiramente um número de glória, mas uma glória incompleta. Convém neste ponto lembrar que é da linhagem de Caim que nascem as cidades, a tecnologia e o domínio da natureza. Há, portanto, algo de inerentemente corrupto nessas empresas, e devemos sempre ser cuidadosos no seu uso, individual e colectivamente. Daí que antes do Dilúvio, a sociedade estivesse a avançar rapidamente nos seus desenvolvimentos tecnológicos e na quantidade de entretenimento, e ao mesmo tempo a cair também rapidamente na depravação – soa familiar?

O exemplo mais óbvio deste ponto, do demoníaco como a independência de Deus, é a torre de babel, que não difere em nada do objectivo de todo o humanismo de criar o paraíso na terra, sem Deus. Tanto o comunismo como o capitalismo procuram esse fim, e são por isso, manifestações do satanismo. O que distingue o comunismo é que é um rotundo falhanço, reconhecido por todos mas sobretudo pelos que o vivem, uma clara prova de que as forças humanas não se valem a si mesmas, que um paraíso na terra sem Deus é, na verdade, o inferno. Só mesmo em países capitalistas é que tanta gente se poderia enganar sobre o inferno do comunismo – em si mesmo, uma bela ilustração do problema, não do comunismo, mas do capitalismo. E daí não ser particularmente surpreendente que a ideologia do comunismo tenha nascido no Ocidente, da filosofia alemã, da sociologia francesa e da economia inglesa. É uma ideologia que nasce de sociedades corruptas, e a corrupção que a gera é a corrupção da autossuficiência.

Nos nossos dias a batalha foi claramente ganha pelo capitalismo, que como vimos acima, é consciente ou inconscientemente considerado como a forma de atingir esse paraíso na terra. A economia e a tecnologia vão retirar-nos todas as nossas lacunas, tapar todos os buracos, satisfazer todas as nossas necessidades. Excepto que, como observamos, é incapaz de nos satisfazer a um nível mais profundo. Mantendo-nos o corpo coberto, a barriga cheia, a cabeça entretida, não só nos engana fazendo pensar que isso é suficiente, como nos distrai da procura do que nos pode salvar e realmente tornar completos.

Tendo dito isto de que sociedade é mais provável vir o anticristo? Da miséria e escuridão do comunismo, ou da abundância e espalhafato do capitalismo? Vemos então porque Dostoievsky conseguiu encontrar Deus numa prisão na Sibéria, mas não o encontraria num centro comercial.

Repetindo uma frase do venerável arcebispo Fulton Sheen, o Comunismo é a Cruz sem Cristo, e o Capitalismo é Cristo sem a Cruz. Para sabermos qual deles é pior, lembremo-nos de uma situação única, em que Cristo acusou alguém, não de fazer o trabalho do demónio ou ser filho do demónio, mas de ser o próprio (Mateus 16:13-23):

«Quando chegou a Cesareia de Filipe, Jesus perguntou aos discípulos: “Quem diz o povo que é o Filho do Homem?” “Bem, alguns dizem que és João Batista, outros que és Elias, outros ainda que és Jeremias ou um dos outros profetas.” Então perguntou-lhes: “E vocês, quem pensam que eu sou?” Simão Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!” “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque quem te revelou isso foi o meu Pai que está nos céus; não é pensamento humano. Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja; as forças todas do inferno nada poderão fazer contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; tudo o que proibires na Terra será proibido no céu e tudo o que permitires na Terra será permitido nos céus.” Então avisou os discípulos de que não deveriam divulgar ainda que ele era o Cristo. A partir daí, começou a explicar aos discípulos que estava destinado a ir para Jerusalém e a passar por muitos sofrimentos, ser rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos especialistas na Lei e ser morto, mas três dias depois ressuscitaria. Pedro chamou-o à parte e começou a repreendê-lo: “Deus o não permita, Senhor! Isso não te há de acontecer!” Mas Jesus, voltando-se para ele, respondeu: “Vai para trás de mim, Satanás! És um motivo de escândalo para mim. Vês as coisas do ponto de vista humano e não do ponto de vista de Deus.»

Incluí todos estes versos porque é importante reparar no seguinte: Pedro afirma a divindade de Jesus, algo que leva Jesus a edificar a sua Igreja sobre ele e a dizer-lhe que ele terá as chaves do paraíso. Pouco depois chama-lhe Satanás. É difícil imaginar uma reversão mais radical, e convém então entendermos porquê. Pedro reconhece a divindade de Jesus e depois tenta afastá-lo da cruz, da morte necessária para o mundo. Jesus não chamou Satanás a nenhum dos outros que se enganaram sobre a sua pessoa, mas só àquele que, estando certo, o tentou afastar do sofrimento terreno necessário para a glória divina, o sacrifício necessário da morte para o mundo e o nascimento para Deus, dizendo-lhe que ele vê as coisas do ponto de vista humano (mais uma vez, a exaltação do humano independente do Divino). Não é pois surpreendente que, negando a cruz, Pedro viesse eventualmente a negar o conhecimento de Cristo. Melhor descrição da evolução tecnocrática ocidental não poderia ser feita. Se alguma vez se questionarem a razão para a irreligiosidade do mundo moderno, é esta: erradicamos a necessidade da cruz, da mortificação, da negação das nossas paixões, do sofrimento. Sem isso, a nossa afirmação de Cristo vai ao sabor da conveniência e quando encostados entre a espada e a parede, vamos negá-lo. Ou como o monge Seraphim Rose o colocou uma vez: “o anticristo não é encontrado nos que negam a Cristo, mas nos que o afirmam timidamente e apenas com os lábios”.

Uma última alegoria: se vos perguntarem qual destas duas drogas é mais perigosa, a canábis ou a heroína, o mais provável é responderem a segunda. Afinal de contas, a heroína é claramente destrutiva para o corpo e a mente, os sinais da destruição são óbvios e rápidos, e por isso rapidamente um heroinómano se torna incapaz de funcionar em sociedade, tendo de ser internado para se curar. Eu diria que essa característica de extrema potência é a sua condição mais salvífica. Um utilizador regular de canábis pode atravessar a vida com relativa facilidade sem nunca ter consequências tão graves e tão súbitas que o façam reavaliar o seu uso, e é aí que está o seu maior potencial destrutivo.

Essa mesma dinâmica encontra-se na questão do comunismo e do capitalismo. O comunismo mata rápido, o seu potencial destrutivo é óbvio, e por isso não nos ilude sobre a capacidade das construções humanas poderem responder às suas ânsias mais profundas – a conclusão de que só Deus pode respondê-las é de uma relativa facilidade, o que explica que a Igreja não tenha apenas sobrevivido, mas saído mais forte, da experiência – um fenómeno observado um pouco por todo o Leste. O capitalismo, pelo contrário, ilude-nos continuamente sobre a humanidade se poder salvar a si mesma – e aí reside o seu enorme potencial destrutivo.

A rã cozinhada em lume brando é aquela que nunca salta da panela.

Conta-me como teria sido

Por causa do alarido, que sinceramente não imaginei, sobre a morte de um cantautor ocorreram-me dois pensamentos.

O primeiro é: porque não conseguem separar a música da política? Com as devidas distâncias, não se ouve Mozart porque era maçon? Ou Católicos são incapazes de ouvir Bach porque era um apoiante da reforma Protestante? Eu consigo separar as duas coisas, mas claramente há quem o não consiga, à direita e à esquerda – embora Mozart não me agrade, mas não tem nada a ver com a sua convicta militância na maçonaria e sim com a linguagem simplística do periodo clássico. Um julgamento estético, não ético. E talvez por isso consigo ouvir JMB, ou Pink Floyd, sem ficar a pensar em campos de concentração.

Mas concedo que os tempos são mais próximos. Talvez isso explique e, até certo ponto, justifique.

Pensamento mais relevante, sobretudo para a direita: se José Mário Branco e os seus amigos tivessem sido bem sucedidos em implementar uma ditadura comunista em Portugal depois da queda do Estado Novo, será que tínhamos sofrido a progressiva invasão das ex-colónias (e agora de outros sítios também)? Será que tínhamos o país vendido à especulação estrangeira como temos? Será que a nossa Igreja era como vemos hoje, ou mais parecida com a da Polónia? Será que tínhamos a prevalência da mentalidade neo-esquerdista do género, dos sodomitas e das raças que temos? Será que tínhamos a população mais esquerdista (no sentido clássico) do Ocidente? Será que tínhamos BEs, PCPs, PANs e LIVREs na assembleia? Será que havia UMAR e SOS Racismo e outras parvoices do género? Será que as universidades estavam completamente dominadas pela nova esquerda como estão? Será que havia o horror a qualquer coisa de direita que existe ainda na nossa sociedade, de forma que até os partidos do centro e centro-direita se dizem de esquerda?

Podia continuar, mas o argumento está feito. As coisas não são tão simples como parecem. Agora deixem lá o homem em paz para Deus fazer com ele o que achar justo.

Contar a história certa

O trabalho de um escritor é contar histórias. Para ser coerente as suas histórias têm necessariamente de discriminar que detalhes serão contados. Há muitas formas de contar a história da queda do Império Romano mas é duvidoso que uma história bem contada desse período perca tempo a descrever as espécies de peixe mais consumidas pelas populações envolvidas (posso estar errado, no entanto, e o consumo de peixe ser extremamente relevante para a história – não sou um especialista, é apenas um exemplo).

Se o escritor for bom contará a sua história excluindo os detalhes irrelevantes e incluindo os que são relevantes para a história e para as conclusões ou perguntas que se quer suscitar nos leitores. O problema é, pois, determinar quais são relevantes e quais são irrelevantes. Isso não implica que o que se deixa de fora da história é falso, mas simplesmente que não tem importância (ou pelo menos tanta) para a história que se quer contar.

E essa importância não é fixa: detalhes que possam ter sido extremamente relevantes, podem deixar de o ser, e vice-versa. Por exemplo, se a um miúdo de 8 anos se diz para não comer os chocolates todos da caixa, dez anos depois talvez seja mais relevante dizer-lhe para não comer as miúdas todas da turma. Adapta-se a história ao contexto, às necessidades de compreensão e acção do contexto presente. O escritor político e social tem pois de analisar a sociedade em que vive, e determinar que detalhes são relevantes para contar a história do seu tempo, para convidar os seus leitores a pensar, mas sobretudo convidá-los a pensar sobre os temas relevantes.

Durante muitos anos, foi extremamente relevante falar dos perigos do comunismo, da sua natureza destrutiva, das atrocidades que os seus regimes perpetraram e perpetravam, e por aí fora. Em escribas que viveram essa época é compreensível que seja complicado desligarem-se dessa realidade. Mas acontece que ela mudou. E falar de comunismo hoje, condená-lo com a veemência que era salutar outrora, é como descrever as espécies de peixe consumidas por Romanos e Góticos e esperar que daí se retire qualquer conclusão sobre a queda do Império Romano do Ocidente. O nosso império do Ocidente também está a cair, e não é por causa do comunismo.

Hoje, os comunistas clássicos são tão poucos, e com tão pouca influência, que são irrelevantes. Dão mais pena do que metem medo. Os militantes e activistas de extrema-esquerda com influência não pretendem colectivizar os meios de produção, nem abolir a propriedade privada, nem sequer acreditam que a história é movida pela luta de classes e que o proletariado vai, inexoravelmente, tomar o poder, abolir as classes e depois o Estado. O mais provável é não só ignorarem Marx, mas ignorarem-no por nunca o terem lido. Pelo contrário, a extrema-esquerda é pós-Marxista da mesma forma que o Ocidente é pós-Cristão. E a extrema-esquerda é hoje conivente (e a maior defensora) do capitalismo monopolista, por este avançar as suas novas causas de libertinismo sexual e criação de identidades mercantis, que por sua vez contribuem para o lucro e consolidação da classe monopolista – num círculo e ciclo vicioso. Se a nova esquerda presta homenagem e usa os símbolos da velha esquerda, é por mera conveniência, estilo e anacronismo – da mesma forma que a direita homenageia e enaltece figuras e ideias das quais deveria ter vergonha (como Thatcher e o ‘conservadorismo’ que nada conserva). E é extremamente cómico quando os vejo lembrar a putos com camisetas do Che Guevara que o velho comunista odiava pretos e executava sodomitas com prazer – cómico porque o Che é um símbolo, não uma tese, e só a mente materialista da direita moderna pode pensar que vai chegar a algum lado lembrando esse facto à nova esquerda – que para o nosso mal ainda é capaz de pensar, e usar, símbolos eficientemente.

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No nosso mundo, é praticamente irrelevante falar de comunismo – e se talvez se possa conceder que falar dele na América do Sul seja relevante (e mesmo aí, é discutível se o problema será exactamente esse). Na Europa, e sobretudo na Europa Ocidental, é uma perda de tempo e de energia. Toda a gente passível de ser instruída sobre esse particular problema já o foi – e o problema hoje é manifestamente outro. Ninguém, a não ser os velhos apoiantes e os velhos detractores, se animam com o assunto.

Muitos já falaram e continuam a falar das vidas que se perderam por causa do comunismo, mas comparativamente muito poucos falam das almas que se perderam e perdem, a ritmo cada vez mais acelerado e em idades cada vez mais precoces, por causa do liberalismo. Esse é o grande flagelo da nossa era, mas aqui também os críticos do marxismo demonstram que as suas mentes foram capturadas pelo mesmo materialismo que o originou e que continuam a criticar, quase em contradição. Alguns deles são Católicos mas agem como se a vida terrena fosse a única, e portanto perdem-se em críticas espúrias a um inimigo material que já não existe ou cujo impacto é nulo, esquecendo ou menorizando o inimigo imaterial que devora a nossa sociedade – porque, lembremos, “não é contra a carne e sangue que temos que lutar, mas sim contra os principados, contra as potestades, conta os príncipes do mundo destas trevas, contra as hostes espirituais da iniquidade nas regiões celestes.”

A verdade é que os maiores atentados à dignidade humana do nosso tempo não vêm do aparelho estatal como antes vieram, nem de qualquer teoria de supremacia do Estado, mas dos monopólios de capital multinacional, dos seus inúmeros tentáculos ‘não-lucrativos’, de concepções individualistas e não colectivistas, da extrema licenciosidade e não da extrema repressão: isto é, vêm do liberalismo, não do comunismo.

Por exemplo, podemos e com razão rejeitar e lutar contra a implementação da ‘ideologia de género’ e absurdos relacionados nos currículos escolares, mas não podemos fingir que o problema começa ou acaba aí. Deveria ser óbvio a todos os que se opõem a tais ideias que elas são tornadas disponíveis às crianças muito antes da escola, através da internet, das televisões, dos produtos culturais, dos anúncios e marcas de produtos de consumo, incluindo aqueles directamente destinados ao público infantil. A sua implementação a nível estatal é muito posteriore, e só se torna parte das reivindicações institucionais depois de ter sido disseminada pela cultura e pelos meios tecnológicos que lhe servem de veículo. Até uma série sobre desviantes que passa na RTP, que é paga com os nossos impostos, é claramente um produto tardio de uma cultura que fomenta tais ideias, e que eventualmente acabam espelhadas também pelo Estado. Ou seja, os problemas são resultado dos desenvolvimentos tecnológicos e económicos do liberalismo e da mundividência daí resultante, desenvolvimentos que seriam na verdade impossíveis em regimes comunistas – facto que explica o relativo ‘atraso’ dos países da antiga esfera soviética em relação às questões sociais que envenenam as sociedades do Ocidente, e ainda assim, com a sua abertura e incorporação na esfera liberal e no capitalismo mundial, esse atraso está a ser rapidamente aniquilado, com as consequências que já conhecemos, porque as vivemos aqui no Ocidente há várias décadas.

O mesmo que se disse sobre a confusão sexual se poderia dizer do divórcio, do aborto, da desintegração da família, da contracepção, da alienação social, da inundação em entretenimento, da invasão do terceiro mundo e de muitos outros problemas tipicamente de ‘primeiro mundo’ – o mundo da democracia capitalista e liberal.

E da mesma forma que temos de apontar os canhões às antigas vacas sagradas de alguma direita, temos de abraçar algumas das causas da velha esquerda. É absurdo ignorar, por mero preconceito ideológico, que a riqueza é cada vez mais concentrada num número cada vez menor de pessoas e continuar a considerar isso uma consequência não só natural, mas inócua, do mercado e da propriedade privada. Porque mesmo que seja natural nesse sistema, não é saudável, e devem ser colocados entraves a tais desenvolvimentos. Apontar este facto não é inerentemente de esquerda, é inerentemente moral e salutar. Ser contra a extrema desigualdade económica, contra a exploração do ‘terceiro mundo’, contra a destruição da natureza, não são causas de esquerda – são causas que qualquer Cristão devia ter e levar a sério, e não só isso, estar na vanguarda da sua defesa, porque a sua centralidade para as questões morais é impossível de ignorar.

Um exemplo para ilustrar este ponto é a incapacidade de uma família sobreviver dignamente apenas com um salário, para que a mãe possa ficar em casa a tratar das crianças nos seus primeiros e mais importantes anos de vida. Isto que é do mais básico e importante, a formação das crianças, é completamente impossível pelas condições económicas, e completamente ignorado pela direita. Se a direita fosse realmente de direita pegaria nesta bandeira e agitá-la-ia com a máxima força e do mais alto dos montes e deveria estar a marimbar-se se é considerado de esquerda ou não. A verdade é que isso não importa: importa ter uma sociedade digna, moral e em que a dignidade e a moral sejam possíveis. E para isso é preciso colocar entraves ao liberalismo, económico, social e político. A mera aderência histórica a certas ideias ou causas por ‘uma’ esquerda é irrelevante, tal como é irrelevante os chocolates ao miúdo de 18 anos, ou as miúdas ao de 8, para voltar ao exemplo usado no início.

Durante muitos anos eu fui um liberal radical, e como já expliquei, está na minha natureza olhar primeiro para dentro, tirar primeiro a farpa do meu próprio olho antes de a tirar do próximo – queira isso dizer a minha pessoa, a minha família, o meu povo ou a minha ideologia. Daí que tenha olhado para o liberalismo que proclamava, e que aí tivesse encontrado não só problemas, mas sobretudo os problemas mais prementes do nosso tempo. Espero que os velhos escribas que lutaram contra o comunismo consigam perceber que o inimigo foi vencido, e que agora temos outro, igualmente perigoso ou, pela sua natureza camaleónica e gradual, talvez até mais perigoso – e apontar para aí as suas críticas, com a mesma ferocidade e clareza com que o fizeram outrora contra o comunismo.

José Mário

Morreu hoje José Mário Branco, paz à sua alma.

Sou um grande apreciador da sua música, desde o início da minha adolescência, e com os anos fui solidificando a minha convicção de que nele se encontrava o melhor ‘cantor de intervenção’ da sua geração, e não apenas isso, mas como todos os grandes artistas, não só bebeu da inevitável influência de Zeca Afonso, como ele mesmo acabou por influenciar o mestre, ajudando-o a produzir alguns dos seus melhores discos.

Pode parecer estranho, à primeira vista, que um escriba como eu tenha tamanha admiração por um artista como José Mário Branco, um feroz opositor do antigo regime, um desertor do exército, um comunista. Mas o mundo é muito mais complicado do que parece, e os artistas não são necessariamente da mesma qualidade que as suas opiniões. Um pouco como nos melhores livros de Saramago, em que o mundo e as ideias apresentadas chegam a ser contraditórias com o que o autor proclamava fora da sua capacidade de autor, José Mário Branco produz o mesmo fenómeno: não só nas suas letras, mas nas formas que utilizava para as apresentar, sempre me pareceu que o mundo que sugeria era muito mais coerente do que a incoerência da sua ideologia política, que hoje é manifesta para quase todos os seres pensantes. O conteúdo segue a forma, o meio é a mensagem, e uma canção medieval sobre o proletariado é menos de esquerda do que um rap sobre Deus. Até mesmo numa peça de cariz eminentemente político e social, como o icónico FMI, que ainda hoje me arrepia em certos momentos de cada vez que a oiço, consegue-se descobrir uma complexidade e honestidade que não se limita aos lugares comuns do marxismo.

Não é minha intenção aqui analisar a carreira nem a produção artística de José Mário Branco, é muito melhor ouvi-la do que ler sobre ela, até porque como Frank Zappa o colocou uma vez ‘escrever sobre música é como dançar sobre arquitectura’, um absurdo. Mas a sua morte, além de me pôr taciturno, lançou-me numa reflexão sobre a pessoa, o artista, e de onde surgem estas contradições vivas. Convém entrarmos um pouco na biografia, outro exercício que o modernismo desaconselha na apreciação de uma obra e de um autor, e como tal sabemos que é um exercício da mais basilar importância.

Os dados mais importantes da sua biografia são os seguintes: filho de professores primários, que certamente lhe incutiram o valor da educação (não confundir com escolaridade), Católico extremamente envolvido na vida da Igreja, cursou História em duas universidades nunca tendo terminado o curso. A certa altura na sua vida, substituiu a Igreja pelo Partido Comunista – um fenómeno que Vasco Pulido Valente escarnece com desdém, mas que nos diz muito mais do que o velho cínico sugere, nem que seja pela enorme quantidade de gente que fez o mesmo percurso.

Como já aludi noutros textos, a Igreja deixou de pregar aos convertidos. O mundo tecnológico e científico avançava para os seus domínios e a Igreja retraia-se, guardava um bocado cada vez mais pequeno da cabeça das pessoas. Foi incapaz de lhes explicar as implicações, e mais importante, incapaz de lutar contra a ideia tecnocrática de que só o que é mesurável e quantificável é importante. Manteve meramente o qualitativo, mas sem valorizar essa qualificação. E assim, claro, perdiam qualquer força de acção na sociedade: a Igreja deixou de ser deste mundo e como tal, de nos ajudar a chegar ao outro. Vários Católicos fizeram então esta conversão para o Comunismo. O Comunismo descartava o imaterial, mas não se demitia da luta metafísica: oferecia uma narrativa completa sobre o homem, o mundo, de onde vínhamos e, igualmente importante e basilar, para onde íamos. A Igreja esqueceu-se desta última parte e perdeu os fiéis para uma nova igreja fundada na Alemanha e com patriarcado oficial em Moscovo. O mesmo aconteceu com o Fascismo, ou o Nacional Socialismo Alemão, e todas as outras ‘grandes narrativas’. Ninguém se perguntou porquê, sobretudo as mentes bem-pensantes do Ocidente, que consideravam o homem moderno acima de tais limitações: o homem não precisa de uma grande narrativa para a sua vida, precisa de pão e liberdade para perseguir os seus interesses. O agnosticismo sobre que interesses seguir, é o vazio de onde depois surgem tiranias, às quais os niilistas liberais e democráticos reagem com cara de Pikachu surpreendido. Quem poderia ter previsto que a visão tecnocrática do homem, sem passado nem futuro, poderia ter gerado todos os ismos? Quem poderia imaginar que a incapacidade ou indisponibilidade do mundo tecnológico e científico em colocar perguntas de ordem maior, não iria impedir que elas se pusessem na mesma, sob formas distorcidas e perniciosas?

Muitos intelectuais a partir dos anos 80 gozavam com a afirmação, antes sincera e bem vista, de que o Comunismo oferecia um ‘aparelho para pensar’. Muitos deles tinham sido comunistas, mas tal como tinham rejeitado a Igreja, convertiam-se agora a uma nova fé: a democracia liberal, ou o que quiserem chamar àquilo em que vivemos. Mas não deixaram de ter um ‘aparelho para pensar’, pelo menos não imediatamente: é mais seguro e produtivo saber que se o tem, do que fingir que ele não existe. Mas com o tempo, de facto, a civilização ocidental passou da fé Católica, para a fé Comunista para eventualmente se converter na negação de que a fé é necessária de todo: o niilismo mercantil puro e duro do consumismo.

E essa ausência de uma grande narrativa gerou o mundo em que vivemos hoje: uma ausência de propósito que está a ser preenchida por uma ou várias novas ideologias violentas e destrutivas como o Comunismo. Hoje vemos a cara de Pikachu surpreendido perante o avanço do absolutismo da ideologia de género, dos identitarismos (de um lado e de outro), e todos os outros ‘aparelhos para pensar’ que oferecem uma narrativa, ainda que incompleta, ou mesmo completamente idiota. Mas aparentemente é preferível uma narrativa idiota ou incompleta à ausência de narrativa, que só produz suicídio, infantilização, demissão.

Pura e simplesmente, o mundo moderno engoliu-se a si mesmo, não é possível continuar uma civilização sem uma grande narrativa, e assim vemo-lo colapsar. O Ocidente está a morrer, mas visto que o Ocidente impingiu a sua visão tecnocrática ao mundo inteiro, não é apenas o Ocidente mas a própria visão tecnocrática. Pelo mundo inteiro se protesta, e os gatilhos são variados, mas na génese está essa grande ausência de narrativa: e os povos que ainda a têm, são precisamente aqueles em que ainda há vitalidade e que invadem aqueles que já não têm nenhuma para além do dinheiro, do conforto e do entretenimento.

O vácuo não permanece por muito tempo, e não há talvez nada mais repugnante do que um homem sem convicções: é esse o resultado do absolutismo materialista. Mas a sua insuficiência é hoje óbvia para uma boa parte da população que nasceu no seu seio. Temos pois uma oportunidade para substituir a ausência de narrativa por uma que seja acertada: a Cristã, do Homem feito à imagem de Deus, e da inerente dignidade e propósito dessa realidade. Essa narrativa que nos fundou e que conhecemos apenas porque a sua abolição deixou explícito o vazio da sua ausência.

Se José Mário Branco tivesse nascido nos anos noventa do Século XX não seria comunista, mas poderia ser um activista ambiental, ou um racialista, ou até um tradicionalista Católico. Não seria certamente um ser desengajado da realidade, um mero consumista cujo único propósito na vida é a obtenção do lucro. Na sua arte, podemos ver laivos da luz, que mesmo apontando para o lado errado, ao menos aponta para algum lado, uma vida com propósito para além da satisfação pessoal. Essa arte permanecerá. Ainda tem algo que nos ensinar. Em comparação os artistas de hoje, meros burgueses, agnósticos e liberais, não deixarão nada digno de lembrança. Ninguém, aquando da sua morte, ficará taciturno, pensará no valor da música que produziram, nem será acometido por pensamentos sobre o estado do mundo.

Que Deus tenha piedade da sua alma.

 

RE: Protestar

O Kal-El deixou-nos o seguinte comentário:

O que eu posso dizer sobre esse fenômeno [dos anti-Cristãos], é que para mim não é mais uma surpresa.

É sabido entre os crentes e os fieis que o mal sempre tentará afastar a humanidade da Verdade. Eu sou um exemplo disso, nascido e criado numa cultura tradicionalmente católica, foi a falta de respostas que me levaram a confiar mais no sistema do que na dita “igreja”, levando-me à descrença e ao agnosticismo ou de certa forma ao ateísmo desde cedo. Foram precisos alguns tropeços na minha vida (e aqui acho que é a forma misteriosa como Deus age) que me levaram a focar na procura do conhecimento, e a procura do conhecimento me levou até à Palavra.

A busca pelo conhecimento me levou a entender como personalidades como Freud, Lemaítre, Newton, Rosseau, Nietzsche, Marx, Darwin, etc nos moldaram a forma de pensar, levando-nos aos pensamentos hediondos que hoje existem na sociedade desde o liberalismo até ao comunismo, do evolucionismo ao Big Bang. E todos estes homens eram na sua gênese anti-cristãos, alguns supostamente católicos, mas mais adeptos do ocultismo do que da Palavra.

E foi precisamente a Palavra e a inspiração da vida de Cristo que me levaram a perceber que fazia parte de grandes enganos, um deles era mesmo a religião. E aqui é preciso entender a história e juntar as peças que os próprios conspiradores deixaram escapar para entender a diferença entre o Catolicismo e o verdadeiro Cristianismo. Acredito veemente que o Catolicismo Romano não passou de um engano para prender os fiéis aos seus falsos ensinamentos. Como está escrito em apocalipse, a prostituta e mãe de todas as abominações está fadado ao falhanço.

Não digo que o Protestantismo esteja mais correto, porque como disse o Ilo, em resposta a um email que lhe enviei à dias, “Falta-lhes tradição e conhecimento”. Mas é preciso estar atento e procurar bem no fundo do baú, para percebermos todas estas coisas, desde as raízes pagãs do Catolicismo à infiltração Judaica nos primeiros séculos, das infiltrações maçônicas/druidas às infiltrações Jesuítas no Vaticano.

É notório este movimento Zeitgeist mundial rumo às doutrinas demoníacas da Nova Era. O que posso dizer é que tudo isto fez parte de um grande complô, e a igreja católica e suas “filhas” tiveram um papel importante na descrença religiosa.

Deixo aqui este pequeno video que pode ajudar a entender este meu comentário..
https://www.youtube.com/watch?v=DeuYasuIT6c

Kal-El

Quando nos apercebemos que o mundo está virado do avesso, é útil olhar para o que é vilificado, pois muitas vezes é aí que se encontra a Verdade. Penso ter sido assim que, pelo menos em parte, tenhamos chegado às conclusões a que chegámos. Observando que nenhuma religião é tão criticada como o Cristianismo, concluímos que alguma coisa de bom se há-de encontrar nela. É pois também necessário fazer o mesmo em relação à Igreja Católica, e perceber que nenhuma outra instituição é tão vilificada pelo sistema e pelos que se dizem contra ele, e que há aí uma lição. Isso não quer dizer que todas as críticas estejam erradas, mas que a avalanche de críticas vindas de todos os lados ou quase, deveria pôr-nos a pulga atrás da orelha.

Mas é um facto que não há nenhuma instituição, grande ou pequena, que não tenha sido corrompida pelo modernismo, e nisso incluiu-se a Igreja Católica Romana, mas também a Ortodoxa, as igrejas protestantes, as nações e os povos, e por aí fora. Também é importante dizer que a era moderna começou no século XV, não no século XX. A corrupção não é nova. Se o que vemos hoje é uma extrema corrupção que nos parece recente, ela é apenas a realização de uma corrupção começada há muito tempo, como quando se toma uma estrada errada, não é imediatamente aparente que o seja, mas só depois de a percorrer um bocado, ou até mesmo só depois de chegar ao destino errado se percebe. E depois o retorno é igualmente demorado, tem de se percorrer a estrada toda até ao cruzamento onde se tomou a esquerda, em vez da direita (metáfora usada não aleatoriamente, claro).

Por isso quando dizemos, por exemplo, que nascemos e crescemos numa cultura Católica, é tanto verídico como falso, depende do termo de comparação: Portugal dos anos noventa é certamente uma cultura mais Católica do que a Alemanha dos anos noventa, mas muito menos do que a Alemanha de 1200. O que quero dizer pode ser entendido desta forma: não é tanto que a cultura em que crescemos fosse Católica e nos desse poucas respostas, é que era pouco Católica, e por isso deu-nos respostas sem se colocar as perguntas. Daí que tenha afastado quase todos os jovens de tendência intelectual: não há nada mais anti-intelectual do que responder a uma pergunta que não se ousa colocar.

Mas mais importante do que identificar o que foi corrompido, e quando começou a corrupção, é qual a forma que essa corrupção tomou. E isso é mais fácil de identificar do que parece: a corrupção efectuada foi a perda (ou desvalorização, e em alguns casos diabolização) do pensamento místico e uma aderência fanática ao pensamento puramente materialista.

Antes de continuar, devo dizer que não aprecio antagonizar Cristãos protestantes, não os considero menos Cristãos por isso, e que se critico é por amor, e por achar que é absolutamente necessária – mas não me é agradável. Mas o facto é que vejo o erro dos nossos tempos como um resultado directo do Protestantismo, que é em si um resultado do materialismo –  um obstáculo que se coloca sobre os olhos, mas que em vez de atenuar a luz para não sermos cegados, se assemelha mais a um telescópio ou microscópio, que assegura a cegueira. É o erro da extrema proximidade bem como da extrema distância. De uma forma ou de outra, não se vê o que está à frente dos olhos.

Pegando no exemplo da Igreja: em diferentes graus e em diferentes manifestações a Igreja Católica foi ‘protestantizada’ – isto é, despida da sua componente mística (muito mais na Romana do que na Ortodoxa, por várias razões que terão de ser abordadas noutro texto). E antes de explicar porque é um erro, preciso de explicar em que consiste.

O Protestantismo, sendo fundado unicamente na Bíblia e dizendo descartar a Tradição, tem logo três problemas insolúveis. Primeiro, que a própria Bíblia foi compilada pela Igreja Católica (na altura sem a separação entre Ocidente e Oriente) – ou seja, a própria Bíblia é um produto da Tradição, que existia antes do Cânone a que os Protestantes aderem. Aderindo ao Novo Testamento, aderem já à Tradição, dizendo rejeitá-la. Mas sem a orientação da hierarquia, o que sucede é que se utiliza o microscópio ou o telescópio, e focando-se num ponto mais longínquo ou num ponto mais próximo, se é incapaz de ver o todo. Daí que do Protestantismo tenha nascido o Capitalismo e o Comunismo. Aqueles focam-se na parábola dos talentos esquecendo-se que Jesus nos diz quão difícil é a um rico entrar no Reino de Deus; os outros focam-se exactamente no contrário. Ambos estão certos em relação aos particulares, mas errados em relação ao todo.

Segundo, que o próprio Protestantismo forma uma tradição (ou, na verdade, sendo que quebram o elo de ligação com a Tradição e a hierarquia, várias), e essa fragmentação não é uma coincidência. Deus é unidade com variedade, não variedade sem unidade (o seu exacto oposto, na verdade): quando Jesus pergunta à criança possuída (Marcos 5) como se chama, os demónios respondem: “legião, porque somos muitos”.

Terceiro, que essa aderência única à Bíblia necessita de meios técnicos específicos para ser realizada – daí que a revolução protestante, como todas as outras revoluções, veio na sequência de um desenvolvimento tecnológico particular e à permissão de que essa tecnologia fosse usada sem limites (isto é, fora da Tradição): a prensa móvel. Sem esse meio técnico que permitiu a reprodução simples de Bíblias em várias línguas, a fé Cristã só poderia ser transmitida por meio da Tradição e das hierarquias estabelecidas, como até aí tinha sido feito.

Quando os Protestantes olham para o Catolicismo e os seus rituais, olham-nos com olhos modernos, materialistas, e como tal não conseguem conceber mais do que superstição (no melhor dos casos) ou conspirações ocultistas. Da mesma forma, quando olham para a Bíblia, só a conseguem entender de forma materialista, o que leva a que estejam constantemente em desacordo sobre interpretações – em comparação, e mesmo em cisma, as Igrejas Católicas (Romana, Ortodoxa ou Oriental) têm muito poucas divergências (à parte as corrupções, protestantes, do Concílio Vaticano II). E também quando olham para as similitudes entre celebrações ou práticas Católicas e práticas pagãs, em vez de tentarem entender a forma como Cristo transformou essas práticas, lhes deu novo significado, só conseguem ver ocultismo e conspiração.

O Protestante observa que certas tradições Católicas têm origens, similitudes ou contornos pagãos, e decide descartar tal facto como heresia, em vez de pensar no porquê de se ter mantido essas práticas e não outras, já que muitas não foram mantidas. A ideia de Jesus como revolucionário só podia, pois, ter vindo do Protestantismo: a rejeição radical de tudo o que veio antes.

É essa mesma mentalidade que leva outros críticos a dizer que o Cristianismo, sendo a realização da Tradição judaica, é incompatível ou externo aos Europeus. E por isso uns e outros pecam pelos extremos: há aqueles que se focam na tradição judaica, e os que se focam na tradição europeia. Em vez de se focarem em Cristo e na sua Igreja, separar o trigo do joio e viver numa sociedade equilibrada.

De certa forma ambos estão certos, mas igualmente errados, e pela mesma razão: estão certos porque, de uma certa perspectiva materialista, as suas críticas são factuais, mas errados por ser uma análise incompleta. Como se olhassem para um copo, e descrevendo todos os seus componentes físicos, não o identificassem como um recipiente para líquidos. E de facto, não há nada nesses componentes em si mesmos, nem na sua unificação em si mesma, que faça deles um copo. Mas tal consideração é completamente irrelevante para se perceber o que é um copo e para que serve. Da mesma forma, os materialistas não entendem o que é nem para que serve a Igreja (e a religião em geral).

A própria estrutura da palavra original (do latim, religare) nos diz para que serve: para nos voltar a ligar ao Divino. Se essa ligação pudesse ser directa, como pensam todos os materialistas (incluindo os que colocam a ciência ou os seus produtos como objecto de culto) não precisaríamos de religião. Por vezes penso que os Protestantes nem sequer entendem que a nossa natureza caída significa que fomos desligados do Divino e precisamos que nos voltem a ligar, e que portanto o sufixo ‘re’ em religar para um Protestante não está lá a fazer nada.

Um exemplo: a visão materialista leva automaticamente a considerar o pecado ancestral de uma certa perspectiva, de que o conhecimento é inerentemente mau, o que quereria dizer que Deus teria criado algo mau. E o ateísmo resultante deste desentendimento leva ao contrário, que se preste culto ao conhecimento sem se considerar que há formas boas e más de o obter.

A visão correcta é-nos explicada por vários Pais da Igreja, de que a Árvore era meramente um teste, e que o conhecimento em si não era mau, mas apenas a forma de o obter. Obtido em desobediência, sem preparação, o homem seria corrompido, não pelo conhecimento, mas pela desobediência – como alguém que tendo os olhos fechados os abre directamente para uma luz fortíssima, e assim permanece incapaz de ver. Pelo contrário, Deus queria que o homem fosse digno desse conhecimento, se aproximasse aos poucos, e assim não fosse cegado pela luz. Se Adão e Eva tivessem obedecido ao mandamento, Deus ter-lhes-ia em tempo dado o conhecimento. É até possível especular que tivessem eles se aproximado pela sua simples experiência. Sem ter caído na primeira tentação do demónio, eventualmente seriam levados ao conhecimento do bem e do mal, pelo simples facto de que o raio da serpente estava sempre a tentá-los – veriam claramente que existia o mal, e que consistia na desobediência ao mandamento divino e à vontade de sermos iguais a Deus, sem nos juntarmos a Ele. Mas Adão e Eva caíram, e sendo confrontados com esse conhecimento impreparados, ficaram aterrorizados. A razão porque não se mostram certas imagens a crianças de certa idade, e eventualmente se lhas revelam, é a mesma. O Protestante diz: mostremos tudo de uma vez, ou nunca mostremos. Este padrão do tudo e nada, dos extremos sem o equilíbrio do meio, é o que o define – e essa sua influência é a que define os nossos tempos como resultado da mentalidade protestante.

Outro exemplo: a cronologia da Crucificação de Cristo é diferente entre os Evangelhos, o de João coloca-a antes do festival judeu Pessach e os outros depois. Será que se enganaram? Sem um entendimento não-materialista, e sem uma interpretação exterior à própria Bíblia, o Protestante cai no desespero, porque é suposto encontrar na Bíblia toda a Verdade independente da História, mas ao mesmo tempo um documento histórico semelhante a um manual de História. Mas a Bíblia é mais do que história, e é mais do que a lei, e é mais do que sabedoria. Há uma componente mágica, no sentido estrito, em que os eventos, sendo reais, são apresentados de forma não-linear, para atingir um determinado significado – e esse significado tem de vir de fora – e ou vem assente na hierarquia e na Tradição, ou leva às heresias do Comunismo, do Capitalismo, do Anarquismo, e todos os outros ismos. Não é por acaso que todas essas ideologias revolucionárias nasceram no Ocidente. O Zen Budista ou o misticismo Hindu são menos distantes de Cristo do que os proto-comunistas de Munster. Os dois primeiros são meramente incompletos, o segundo uma inversão.

No caso da discrepância entre a descrição em João e os outros, ela tem que ver com o objectivo do Evangelho, e o contexto. No primeiro capítulo do Evangelho é dito ‘ali está o Carneiro de Deus’ (a única instância em que é proferida tal frase), e quando a sua crucificação é apresentada durante (e não depois) do Pessach, é para salientar este facto – sendo que neste festival se sacrificavam carneiros, João quer mostrar que o sacrifício de Jesus Cristo é o derradeiro, o fechar deste ciclo. O Carneiro de Deus é sacrificado, e daí em diante, não será necessário sacrificar mais nenhum. Uma visão puramente materialista não nos permite compreender a profundidade dos versos, e muito menos a profundidade da discrepância – porque ela não é um erro, mas uma impressão de significado maior.

Por causa desta lacuna, o próprio entendimento histórico é perdido. Por exemplo quando se fala de ‘verdadeiro Cristianismo’ dos primeiros anos e das diferenças entre este e o Catolicismo organizado dos anos posteriores, não se percebe o carácter histórico do próprio Cristianismo. É óbvio que o Cristianismo dos primeiros séculos não foi igual aos seguintes, mas da mesma forma que a fundação de uma casa é diferente da casa depois de ter sido completa, não faz da casa outra coisa que não uma casa, nem da fundação algo para ser usado em si mesmo, mas uma mera fase na construção da casa.

O que nos leva ao ocultismo, aos símbolos e aos rituais. É absolutamente verdade que seitas maléficas se apoderaram de vários símbolos e os usam para maus fins. Mas na grande maioria esses símbolos foram apropriados, não originais. O seu poder como símbolo não desaparece, nem aquilo que nos quer ensinar. Veja-se por exemplo a frase, muitas vezes usadas pelos ocultistas: ‘as above so below’. Já vi muitos protestantes alarmados por esta frase, pensando em conotações satânicas, quando basta pensar um pouco para perceber que Cristo é a verdadeira realização dele e Ele mesmo o diz de outra forma, na oração que nos legou nas Escrituras: ‘assim na terra como no céu’. O importante é não deixar de lado que é a vontade de Deus, não a nossa, que deve ser ‘na terra como no céu’. Abandonar esse símbolo aos satânicos, no entanto, é o mesmo que abandonar o Pai Nosso – daí que o credo principal de tanta gente hoje seja ‘a minha vontade assim na terra como no céu’.

O problema é precisamente que os Ocidentais abandonaram o pensamento místico, e deixaram-no ser tomado pelos inimigos do Bem. Se queremos derrotá-los, temos de o reincorporar na nossa mundivisão – ou melhor, voltarmos a perceber como é impossível separá-lo. Tentei explicar anteriormente, por exemplo, que o pôr-do-sol, entendido literalmente, não existe – e mostrar com isso que o literalismo é uma parvoice. Talvez seja essa realização inconsciente que leve ao abuso da palavra ‘literalmente’ na língua inglesa. O literal é muito menos importante do que o figurativo. É no figurativo que nós existimos a maior parte do tempo. Mas a única forma de o fazer sem cair em distorções, sem achar que é a nossa vontade em vez da Sua, a ser realizada na terra e no céu, é através da Tradição, as práticas, a sua arte e as suas formas, para que possamos compreender e recuperar esse mundo perdido das mãos daqueles que o usam apenas para o subverter.

O simbolismo apresentado nos filmes de hollywood, que é muitas vezes orientado para uma interpretação satânica, é tão apelativo porque é verdadeiro, mas apresentado do avesso – a Crucificação e Ressureição fazem parte de quase todos os filmes de super-heróis, e é por isso que são tão apelativos; em contraste com a arte nominalmente Cristã que só apela aos convertidos, porque é tristemente literal. No fundo, estamos a deixar o inimigo usar o poder das nossas histórias para as desconstruir – enquanto nós abandonamos as histórias, os símbolos, e como tal, legamos o seu poder elucidativo ao inimigo.

Por fim, lembremos que em todas as eras houve quem achasse que vivíamos no fim dos tempos. Em parte, porque os padrões da realidade se repetem, e como tal o que vem no Antigo Testamento repete-se uma e outra vez e também o que vem no Apocalipse. Mas não é bom vivermos sob essa presunção – é melhor viver sob a presunção de que podemos ainda construir algo de bom e salvar alguma coisa, tanto para a nossa saúde espiritual, como para a dos que nos rodeiam e como tal, do mundo inteiro.

RE: Paradoxos

O Afonso deixou-nos este comentário há umas semanas atrás:

Caro Ilo,

Peço desculpa por “desconversar” mas, ultimamente, tenho notado um agravamento da hostilidade, por parte dos nazionaliztaz, para com o Cristianismo. A ideia básica deles é que o Cristianismo seria uma invenção judaica destinada a controlar as mentes dos ‘goyim‘. Não sei a que se deve este fenómeno, mas julgo ser importante que o sigamos de perto. Por exemplo:

http://www. renegadetribune.com/the-bible-a-jewish-conspiracy-and-hoax/

Os nazionaliztaz são tão monumentalmente estúpidos que não compreendem que os cristãos constituem a maior parte do seu potencial eleitorado. Há lugar para a crítica ao Cristianismo, mas não desta forma. Isto é uma imbecilidade de todo o tamanho!

Um abraço,
AdP

Respondi ao Afonso na altura dizendo que estava a par, que já me tinha debruçado sobre o fenómeno no passado, e que não estava preocupado: enquanto negarem a Verdade, estão votados ao fracasso, de uma forma ou de outra. Mas devia estar preocupado, pelo menos com um aspecto, que é a saúde das almas dessas pessoas, pelas quais deviamos rezar.

Também não considero salubre nem honesto que se diga a essa audiência para serem simpáticos para com os Cristãos só porque podem fazer uso deles para ganhar eleições ou atingir os seus objectivos. Embora entenda que certas batalhas têm de ser por vezes adiadas em nome de outras maiores, prefiro a honestidade brutal e intransigente a uma trégua utilitarista.

A primeira coisa a ter em conta quando um Cristão se depara com qualquer oposição, é que é tão possível negar a Verdade em todas as suas manifestações como é possível parar de respirar – eventualmente, por muito que se tente, desmaia-se e a respiração é reiniciada. A única forma eficaz é utilizar uma corda bem apertada à volta do pescoço – e por vezes, de facto, os não-Cristãos tendo uma visão enviesada, confundem a corda que os pendura pelo pescoço com aquela que lhes ata os sapatos.

Mas como a respiração, também com a Verdade. Ela permeia tudo, e como tal, mesmo entre os erros e os preconceitos, surge lá no meio, guiando as mentes que pensam e os corações que sentem. Todas as estradas lá vão dar, e a única forma de não chegar lá, ou pelo menos aproximar-se, é parar de andar.

Daí que tenha sido possível trazer o Cristianismo aos quatro cantos do mundo – porque a Verdade está escrita nos corações de todos os seres humanos e é preciso muito esforço para a ignorar.

Como é costume, prefiro olhar para dentro para encontrar o que está errado, antes de apontar o dedo aos outros. E é necessário admitir que é aos Cristãos que cabe o trabalho de pregar decente e adequadamente; e que essa tarefa foi negligenciada durante séculos, em particular aos Europeus, por se julgar que o trabalho estava feito. A verdade é que os Cristãos se demitiram de pregar aos convertidos, como quem se esquece de pôr mais lenha na fogueira – e eventualmente ela apaga-se, ou fica tão fraca que é preciso muito trabalho para a reacender.

Em particular, houve um erro táctico enorme, o erro do general quando ganha a batalha e pensa que a guerra também está ganha. E assim, marchando depois pelas terras do que se pretende conquistar, encontra-se uma oposição que se pensava já não existir. E assim os Cristãos, em vez de converter repetidamente, limitaram-se a repetir a conversão. Em vez de explicar, reiteraram. Em vez de persuadir, impingir. Antes da queda vem o orgulho, e como tal, reiterar e impingir acabam eventualmente na retirada táctica, perdendo terreno sem saber muito bem para quem o tinham perdido, nem porquê.

A meu ver o porquê deve-se à abordagem. O Cristianismo não suprimiu os antigos pagãos: incorporou o que havia de bom e descartou o que havia de mau. Se foi uma conquista, não foi pela força, mas pela sedução. Viu que a fruta estava a apodrecer, mas guardou as partes ainda saudáveis.

Quando São Paulo foi pregar aos Atenienses não começou por dizer-lhes o quão errados estavam, que eram burros, que a sua religião ancestral era uma falsidade e apresentado Cristo como uma novidade e uma ruptura. Não quis deitar tudo abaixo e construir sobre os escombros – construiu sobre as pedras firmes que já estavam lançadas, e deixou cair as que tinham fundação duvidosa. Pegou no que de bom havia neles, e partiu daí. Vendo que os Atenienses eram religiosos e observando os seus objectos de culto, encontrou um altar que dizia ‘ao Deus desconhecido’ e, em vez de lhes dizer que vinha pregar um Deus novo, disse-lhes que lhes vinha dar a conhecer Aquele que até então lhes era desconhecido.

O mesmo tem de ser feito com os Ateus, os Agnósticos, os New Agers e os anti-Cristãos. Há muitos objectos de culto e toda a gente os tem. Não é preciso colocar a pachamama no Altar, mas sim encontrar o pouco de bom que ela representa, e clarificar que o que tem de bom vem de Deus, e o que tem de mau vem de nós. Nesse caso particular a que aludi, há quem não compreenda as razões para o caso surgir, mas a verdade é que há uma ausência e rejeição gritante do feminino no mundo moderno (um tema para outro texto), e é apenas natural que seja procurado. Cabe aos Cristãos apontar o sítio onde se o deve procurar – a Mãe de Deus, não a mãe natureza.

***

Virando-me agora para outro lado, o mais curioso nas oposições ao Cristianismo, é que elas são paradoxais, por vezes vindas de lados opostos, mas até do mesmo lado.

Por um lado critica-se o Cristianismo por ter destruído violentamente os paganismos Europeus, por outro diz-se que é demasiado dócil e ensinou aos Europeus uma mentalidade de escravo. De um lado dizem que é uma invenção judaica para subjugar os gentios, do outro que é anti-semita. De um lado criticam-no por ser demasiado repressivo da sexualidade, por outro que os Cristãos fazem muitos filhos. De um lado diz-se que os Cristãos só vêem no mundo escuridão e perversidade, e por outro que têm uma atitude de alegria infantil perante ele. De um lado diz-se que oprime a mulher, de outro que a põe num pedestal. Por um lado que exalta a pobreza e a modéstia, e por outro que adorna os seus templos de ouro e os seus sacerdotes de vestes exuberantes. Por um lado que suprimiu as práticas pagãs, por outro que as incorporou nas suas. Por um lado que considera o suicídio como o maior dos pecados, e por outro que encoraja os fiéis a serem mártires pela fé. Que Cristo nos dizia para amar os inimigos, e depois que eles eram os da nossa própria casa. Que Cristo disse a Pedro para arranjar uma espada, e depois o repreendeu quando este a usou. Que Cristo é o Príncipe de Paz, mas que veio deitar fogo ao mundo e gostava que ele já estivesse a arder.

Os críticos têm alguma razão. As acusações são verdadeiras, até certo ponto. O Cristianismo é, de facto, paradoxal. E é aí que reside a sua veracidade. Porque o Homem é paradoxal. Não é pois o Cristianismo que acusam, mas a própria natureza humana. Não é num extremo nem no outro que se encontra a virtude, mas no meio. E Cristo veio apontar-nos esse caminho, para que não pecássemos por um lado nem pelo outro, como tinha sucedido com todas as culturas e religiões até à sua vinda.

Mas não é apenas um compromisso entre extremos, mas a existência dos extremos simultaneamente. O pacifismo do mosteiro e a violência da cruzada, ambos ao mesmo tempo, e na sua plenitude. Cristo morreu para nos libertar da morte. Uma união de opostos, sem anular nenhum deles. Pois Cristo não era meio-Deus e meio-Homem, mas totalmente Deus e totalmente Homem.

E assim se entende que enquanto a Igreja foi intacta na Europa, outras manifestações paradoxais existiram que talvez os críticos (ou alguns deles) possam apreciar: a Europa estava, ao mesmo tempo, unida, mas dividida em múltiplas entidades, sem nenhuma suprimir as outras; sublinhando sempre a irmandade entre os povos, manteve-os separados; insistindo na primazia da cultura Cristã, preservou as culturas nacionais, regionais e locais; insistindo no Latim ou no Eslavónico, manteve as centenas de línguas existentes no continente. E quando essa primazia dos opostos começou a ser quebrada, não foi só a primazia que se destruiu, mas os próprios opostos morreram uniformizados.

Numa metáfora que alguns críticos podem certamente apreciar, o Cristianismo insistia no preto e no branco, em absoluto. Ao destruir-se essa insistência radical, criou-se o cinzento que permeia o mundo moderno, o mundo pardo que a todos parece ao mesmo tempo sufocante e insuficiente.

Limites

assessor-696x464Isto é um teste, tal como aquela manifestação em frente ao parlamento. Uma afronta, pura e simples, para gerar uma reacção. A afronta atinge o seu objectivo qualquer que seja o resultado: se for criticada, ou reprimida, prova-se que há uma ditadura do tabu; se não for criticada ou reprimida, coloca-se a bandeira nesse patamar e considera-se conquistado. Win, win.

A esquerda é como uma criança a testar os limites dos pais, é a sua função. O problema Ocidental foi abolir a figura do Pai, depois de a ter extremado de tal forma que estrangulava a criança. Não é um mero acaso que o extremismo das margens tenha surgido nos mesmos sítios onde antes havia o extremismo do centro (Puritanismo Protestante).

Agora que o Bloco é o sistema, o Livre (tal como o PAN antes deles) é o novo teste dos limites. A sociedade portuguesa, dominada pela esquerda há meio século, está a rebentar pelas costuras, de tanto limite que se erradica: financeiro, económico, fiscal, burocrático, mas também cultural, artístico, social e moral.

Não é lucrativo agir sob a presunção de que o mundo vai acabar, tal como não o é viver pensando que se morre amanhã. Nenhuma sociedade vive sem limites, eventualmente haverá quem os imponha.

Ser Humano

O sol não se põe. A terra roda, sobre si mesma, e à volta do sol, dando a impressão de que este nasce numa extremidade da terra, e se põe na outra. Mas é apenas uma impressão. Por sinal, a terra também não tem extremidades.

Sabendo isto, quantos de nós se lembram destes factos quando vemos o sol a viajar no céu, a surgir e a desaparecer de vista?

A realidade do pôr-do-sol, que serviu como orientação vital para os nossos antepassados e para ainda alguns de nós, é observada por todos. A descrição científica do mesmo fenómeno, por muito correcta que possa ser, pode apenas ser observada por uma minoria de seres humanos, e através de sofisticados meios técnicos – e a orientação que oferece é igualmente limitada.

Nenhum materialista, querendo descrever um pôr-do-sol, colocará a questão nos termos científicos que considera descreverem a realidade. Em vez disso dirá ‘que belo pôr-do-sol’. Quão anti-científico da sua parte.

Da mesma forma, aquilo que entendemos por ‘ser humano’, é igualmente afectado por esta contradição. Por um lado, dizem-nos que somos mera carne, talvez mente, mas só na medida em que a mente é o software a correr no hardware do cérebro. E por outro, sabemos que têm um conceito do que é agir ‘humanamente’. Mas que é isso, numa visão materialista?

Se um homem é um mero conjunto de características, qualquer das suas acções é necessariamente humana. Agir de forma humana é então uma mera tautologia, uma categoria falsa, não-científica, e como tal, inexistente ou, na melhor das hipóteses, irrelevante.

Mas quantos materialistas realmente agem baseados nessa premissa? Na verdade muitos dos seus argumentos fundam-se na extinção ou aliviamento do sofrimento humano – com que justificação, exactamente?

Porque reconhecem, suponho eu, uma humanidade ‘ideal’, além da mera carne.

Ao viver em sociedade, o materialista implicitamente reconhece que, para se ser verdadeiramente humano, há que suprimir desejos, retardar gratificações, evitar confortos, em prol do futuro. Mas um mero calculista também pode retardar a sua gratificação no momento, mas meramente em benefício próprio, e sem qualquer pudor em destruir o próximo para obter aquilo que deseja. Será que isso é, enfim, agir humanamente?

Continuo a achar que até o mais convicto ateu diria que não – se fosse rigoroso, diria que sim, mas só dentro dos parâmetros estabelecidos, que não incluem a compaixão pelo outro como critério. Será que essa definição tão limitada nos serve? Talvez para a medicina, para a química e outras ciências naturais. E se a mantivermos nesse domínio, sem querer daí extrapolar uma visão completa do mundo, tudo está bem.

Infelizmente, o materialista insiste na primazia dessa limitação.

Que definição devemos então usar de humanidade, da visão ideal do que seria ‘agir humanamente’? É, tão simplesmente, sacrificar a própria vida pelo outro.

Quando nascemos somos um poço de exigências, e quando estas não são atendidas imediatamente fazemos birras. Com o tempo, e com sorte, aprendemos a ter compaixão com as nossas mães e pais, compreender o seu sacrifício por nós, e assim também começamos a sacrificar-nos por eles, a pôr as suas necessidades antes das nossas, e eventualmente aprendermos a fazê-lo com outros, mais afastados de nós, e até com aqueles que nos odeiam e nos desejam o mal.

Se a essência do que é ‘agir humanamente’ é o sacrifício pelo próximo, então Jesus Cristo é o seu máximo exemplo. Deus mostra-nos o que é ser humano na crucificação.

No primeiro capítulo do primeiro livro das escrituras, Deus cria o mundo pela Palavra. Diz: haja Luz, e haja animais, e por aí fora. Mas na criação da humanidade, Deus diz: Façamos. E toda a gente se foca no plural, mas não no verbo.

Nós, ao contrário do resto da criação, somos um projecto Divino. Nós não surgimos apenas pela palavra na nossa forma final, connosco é preciso amassar e esculpir o barro até que seja, verdadeiramente, um homem. E esse projecto é completado em Cristo. Somos humanos quando imitamos a Cristo, e somo-lo mais na medida em que o imitamos mais fielmente.

No Evangelho de João, Pilatos declara ‘ecce homo’, aqui está o Homem, querendo com isso dizer que era ‘meramente’ um homem. Mas ao morrer na cruz Deus mostra-nos não só o que é ser humano, mas o que é ser Divino. Pois é ao morrer como humano que Cristo prova a sua divindade. A imagem de Deus à qual nós fomos feitos é Cristo. E é através Dele que nos tornamos humanos. Por isso, uns versos mais tarde no mesmo capítulo, Cristo diz, antes de morrer: ‘Está consumado’.

O que está consumado é o projecto humano. Cabe a cada um de nós tornarmo-nos humanos, através de Cristo, ao sacrificarmos a nossa vida pelo próximo, tal como ele o fez por todos nós.

Feira

Numa feira local, com carrosseis, algodão doce, farturas e jogos de precisão impossíveis de ganhar, havia também bancas de produtos regionais de negócios familiares e um rancho folclórico, tocando e cantando temas tradicionais. Ao lado do palco, num placard fora da feira, estava um anúncio a uma marca de preservativos.

Não foi só o contraste do mundo tradicional do folclore e das chouriças com o mundo moderno que me atingiu, foi onde ambos se manifestavam.

Sempre achei que as feiras, com as suas ‘diversões’ e guloseimas tinha algo de grotesco e de aterrorizante. Depois vim a descobrir que nos nossos tempos já tinham, afinal perdido grande parte daquilo que as caracterizava, precisamente o grotesco, o bizarro, o invertido, o excesso – não porque se quisesse extinguir ali o seu espaço, mas porque todos os espaços se tornaram adequados para a sua manifestação.

As feiras populares, como o Carnaval e outras celebrações do género, serviam como válvula de escape: a Margem tinha finalmente o seu momento, o excesso, o bizarro e o invertido ocorrem num ambiente controlado, participa-se até certo ponto, satisfazem-se os demónios mais fracos, para no resto do tempo se evitarem os mais fortes. A vida depois volta ao normal.

No mundo moderno, a Margem e a Excepção tomaram mais e mais espaço, dizendo abolir o Centro, mas na prática relegando-o para a Margem.

Na sociedade medieval o Centro e a Margem, a Regra e a Excepção coexistiam, mantendo os seus lugares e as suas correctas proporções. Na nossa, a inversão é absoluta. Vemos Igrejas conspurcadas por sacrilégio, instituições de educação submetidas à ignorância e ao obscurantismo, forças de ordem fomentando o caos e por aí fora.

Não é absurdo pois esperar que se encontrem sinais de vida, de esperança, de tradição e de ordem em sítios inesperados, já que os seus lugares naturais foram destruídos. Por muito que se queira tapar a luz, algumas frestas acabam sempre por permitir a sua passagem.

Ao lado de um anúncio de preservativos, o rancho folclórico, composto por várias gerações, todos vestidos a rigor, canta sobre um mundo onde eles não são necessários.