Uma Pausa

Um dia depois de ter publicado o último episódio da série Verbos Malditos (#4, sobre a palavra ‘Semita’), o vídeo foi posto em modo restricto (não aparece em pesquisas, não tem links para o canal ou outros vídeos, não tem likes, dislikes ou comentários, não pode ser visualizado se for incorporado noutras páginas, entre outras coisas – ou seja, é quase como se não existisse). Recebi também um par de emails do Youtube a informar-me das razões para tal: entre insinuações de que o vídeo constituía ‘incitamento’ à violência contra uma minoria étnico-religiosa (todos sabemos qual), potencial ‘branqueamento’ de ‘eventos históricos’ (todos sabemos qual) e menções ao facto de que em alguns países (como em Portugal) pode ser considerado crime este tipo de ‘discurso’. Não sabia o que vinha depois disto, se alguma coisa, por isso decidi colocar todos os vídeos do canal em modo privado e ver se a tempestade passava. Entretanto voltei a colocar online o último episódio do podcast, bem como os vídeos musicais. Até agora, não se passou mais nada, por isso penso que o pior já passou.

Na segunda-feira estava preparado para fazer um vídeo a falar sobre isto, para ventilar a raiva e frustração, apontando o dedo a isto e aquilo e blá blá blá. Mas antes de começar a gravar vi a notícia sobre a Catedral de Notre Dame e de repente estas preocupações pareceram-me fúteis e desapareceram por completo da minha cabeça.

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Ver as imagens da Catedral a arder pôs-me numa disposição sombria – eu e a minha mulher ficámos horas a saltar de transmissão em transmissão, em silêncio absoluto ou quase. Nunca vi a Catedral a não ser em fotografias, e no entanto vê-la ser consumida pelas chamas entristeceu-me como se se tratasse de uma perda pessoal. Imaginei imediatamente o que seria se os Jerónimos ou a Sé do Porto ardessem – mas o simbolismo deste evento era ainda mais potente. No início da Semana Santa, a ilustração perfeita do nosso declínio, transmitida em directo. Um símbolo (ou talvez mesmo O símbolo) da civilização Cristã Europeia a desintegrar-se, a ilustração poética do nosso suicídio. O edifício, despido da sua tradição, já não tem razão de existir; também nós, sem essa mesma tradição, não temos. Nós não merecemos aquilo que a Catedral representa, nem a Catedral merece sofrer aquilo em que a transformaram: um lugar de passagem para turistas, um mausoléu de uma civilização que já não existe.

Muitas razões foram apontadas, desde a ‘oficial’ de ter sido um acidente, até terrorismo islâmico ou vandalismo satânico. Apesar de sabermos das propensões dos muçulmanos, ao investigar os vários ataques que têm sucedido, sobretudo em França, a centenas de Igrejas, notamos um padrão de vandalismo cheio de simbologia ocultista/satânica. Sabendo que os governos europeus são dominados por um cabal de inversão do Divino, e vendo que para além destes ataques, milhares de outras igrejas foram destruídas ou transformadas, geralmente em monumentos ao feio e ao disforme, isto é, à inversão do Divino, é fácil para mim ver que, de um lado e do outro, no topo da pirâmide bem como no fundo, a mesma ideologia satânica prevalece, destruindo igrejas legal ou ilegalmente, o resultado acaba por ser o mesmo. Tendo em conta a natureza dos meios de comunicação, jamais poderemos estar certos da razão física por detrás do incêndio.

Mas seja qual for o catalisador físico para o fogo, o significado deste evento não me passou ao lado – e julgo que mesmo para alguns ateus e agnósticos o simbolismo foi tão óbvio e imponente que não o puderam ignorar, como me confessou um amigo. Aquilo a que se referem mas não sabem o nome ou não o querem dizer, é a Providência Divina. E perante as imagens de Notre Dame a ser consumida pelo fogo e os esforços humanos espúrios perante o inferno, só uma cegueira voluntária levaria a que não a observássemos.

Quando comecei o blog achei que estava a tratar de questões sociais e políticas, depois apercebi-me que na génese estava a moralidade e conduta individual e que era isso o mais importante de tratar, e comecei a abordar os temas por esse prisma. Mas a pouco e pouco fui chegando à realização de que na base de tudo isto há algo de transcendente, espiritual, e que é aí que a batalha é travada. E é cada vez mais difícil ignorar esta dimensão quando olhamos para o mundo. Se há uma consequência benéfica do estado lastimável a que as nossas sociedades chegaram, em que todo o mal é promovido e celebrado, e o Bem é esquecido e atacado, é lembrar-nos que «não lutamos contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e potestades, contra os príncipes das trevas, contra as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais.» (Efésios 6:12). O incêndio de Notre Dame voltou a gravar este verso na minha cabeça.

Nessa noite custou-me a adormecer, acossado por pensamentos apocalípticos e vendo ainda as chamas sempre que fechava os olhos. Assim que acordei das poucas horas de sono fui ver o que se havia passado durante a noite. O fogo tinha sido travado e, tão simbólico como as chamas, a Cruz permanecia intacta no meio dos escombros.

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Rapidamente se falou em reconstrução, e rapidamente Macron e outros lacaios dos oligarcas vieram sugerir que se reconstruísse de acordo com a nova ‘França’ multicultural, numa mostra de como todo o pudor já foi abandonado e agora as forças satânicas estão abertamente em guerra contra tudo o que é Bom. Não duvido que a reconstrução inclua minaretes para apaziguar os muçulmanos, ou pior ainda, que se torne um monumento de fealdade demónica típico da arquitectura moderna.  Mas a verdade é que, mesmo que houvesse vontade política de reconstruir Notre Dame tal como ela era, não haveria homens capazes de o fazer, nem razão para o empreender. O brutalismo não é apenas o que se aprende nas escolas de arquitectura, é a representação do estado de espírito e do modo de ser ocidental moderno, em que nada é sagrado e em que somos meros humanos, impermeáveis ao Divino, e portanto incapazes de grandezas que só em nome Dele podem ser erguidas.

A visão da Cruz sobrevivente do fogo resgatou-me do pessimismo. Não porque tivesse deixado de saber que vamos ver mais ícones da civilização Cristã a desaparecer, seja pelo fogo, pela substituição ou pelo simples abandono; não porque ache que o nosso declínio vai agora magicamente ser revertido – não, só um milagre poderia solucionar os nossos problemas, e nós não merecemos essa bênção. O que me resgatou do pessimismo foi constatar que Deus escreve direito por linhas tortas, e o que a nós nos parece pura escuridão é muitas vezes o prelúdio de uma luz ao fundo do túnel. Lembrei-me, e como não lembrar em plena Semana Santa, que a redenção da humanidade e a derrota do pecado e da morte foi conseguida não por confortos e suavidades, mas pela tortura e morte de Jesus Cristo – sem a qual não haveria ressurreição. E posteriormente, inspirados pelo triunfo sobre a morte, milhares de Cristãos sofreram martírios (literais) em nome da Verdade. Ou seja, sem sofrimento não há redenção.

Entre as lágrimas choradas por Notre Dame quase por certo que muita gente esqueceu o fundamental, lamentando a perda da estrutura, quando o espírito que a ergueu e lhe dava razão já ardeu há muito. Esqueceram que os homens que a construíram tinham tamanha fé que trabalharam toda a sua vida num projecto cuja conclusão não estariam vivos para ver – mas tinham confiança no eterno, e como tal, tinham confiança na sua continuação. Como eles, muitos outros em muitas outras construções pela Europa fora, nossos antepassados. Eles passaram-nos este legado não para que o trabalho das suas mãos fosse aplaudido, mas para que Deus fosse glorificado; para que pudéssemos olhar para estas estruturas em veneração do Deus que as inspirou.

Será que Notre Dame, antes de arder, inspirava ainda estes sentimentos em quem a visitava? Será que lembrava aos visitantes a glória de Jesus Cristo? Será que ainda cumpria a sua função? Ou será que se transformara em mais uma atracção turística sem significado? Todos sabemos a resposta. Mas Deus escreve certo por linhas tortas. Sem morte não há ressurreição.

Tenho pensado sobre isto intensamente na última semana, e podia escrever muitas mais linhas sobre o assunto, mas não vale a pena. A verdade é que colocou o incidente com o vídeo em perspectiva. A raiva e frustração que senti na altura parece cómica uma semana depois. Mas pôs igualmente tudo o que tenho vindo a publicar aqui em perspectiva.

Será que o que tenho feito aqui glorifica Deus, ou é apenas uma manifestação de orgulho e vaidade? Será que estou a inspirar coragem e fé, ou a contribuir para um maior pessimismo e desespero? Será que consegui mudar alguma coisa para melhor desde que comecei este projecto? Apesar das mensagens de apoio e agradecimento que recebi não estou certo de ter mudado realmente algo para melhor. E continuar a fazer a mesma coisa esperando um resultado diferente é a definição de insanidade, já dizia não sei quem ao certo.

Como não estou insano, talvez seja o momento para uma pausa. Longa ou curta, veremos. A minha caixa de email continuará aberta para quem quiser falar comigo.

Obrigado a todos os que leram, ouviram e participaram. Foi um prazer crescer convosco durante estes anos.

Até à próxima, se Deus quiser.

***

Portugal Desintegrado : EP 54

Neste episódio lemos comentários e damos a nossa perspectiva sobre escolaridade, moralidade, globalismo, alimentação e depois lemos um exemplo perfeito da direita seropositiva e explicamos porque é necessário rejeitá-la.

Ouvir no Youtube ou sacar aqui.

Verbos Malditos EP 3 / Correio

O episódio 3 da série Verbos Malditos, em que analisamos a palavra ‘escravatura’, está no ar:

E também um video de uma nova série, Correio, em que respondemos a comentários/questões de ouvintes/leitores:

Espero que gostem.

PS:
Analisando as estatísticas dos novos videos em comparação com os podcasts, torna-se claro que o algoritmo do Youtube relega videos mais pequenos para segundo plano. Se gostarem, partilhem.

Obrigado a todos.

Videos, Podcast e Comentários

Para aqueles que ainda não estão subscritos no canal de Youtube e seguem o conteúdo a partir daqui, quero partilhar o novo episódio do Portugal Desintegrado (#53) bem como dois novos videos de uma nova série (Verbos Malditos). Ficam abaixo.

Queria também agradecer a todos os que deixaram comentários, sejam de simples encorajamento ou com mais elaboração ou perguntas. Não gosto de dar respostas genéricas ou impensadas, e não tenho tido muito tempo para dedicar a estas lides, daí não ter respondido ainda. Os comentários mais elaborados serão lidos e respondidos no próximo episódio do podcast, como de costume. Espero que não levem a mal. Muito obrigado a todos.

Verbos Malditos: Episódio 0

Verbos Malditos: Episódio 1

Portugal Desintegrado: Episódio 53

O Elefante Tecnológico

A ortodoxia do nosso tempo assegura-nos que vivemos numa era sem tabus. Na verdade, a nossa era é não só fértil em tabus, como tem neles a sua fundação, meras inversões dos tabus antigos. O consenso social é, em qualquer era, um que requer certas verdades inquestionáveis. O processo de questioná-las e da dissolução do consenso social é uma bola de neve. Quanto mais o consenso é discutido, mais os tabus que o mantêm são destruídos, e mais a sociedade se transforma noutra direcção, com os seus próprios tabus.

É observável nas sociedades modernas que vivemos o fim de uma era, que certos tabus que reinaram desde que os antigos foram destruídos, estão a ser questionados, pelo menos por uma minoria. Todos nós sabemos quais são: a questão da imigração, provavelmente a mais proeminente, mas nas franjas também a questão racial, o liberalismo social, a teoria da evolução, o materialismo, o igualitarismo e até a democracia de massas.

No entanto há um tabu (e, por conseguinte, um consenso) que persiste, entre Esquerda e Direita, entre Progressistas e Tradicionalistas, que é raramente questionado e, pelo contrário, é defendido e proposto, não só como acompanhamento inevitavelmente elephant-in-room-800x634.jpgbenéfico, mas como panaceia para os problemas criados pelos outros tabus – e ainda mais estranhamente, esta visão salvífica é principalmente mantida pelo lado direito da barricada.

O tabu, e consenso, em questão é o progresso tecnológico – e quão estranho e irónico é que tal tabu seja uma precondição, uma necessidade para a manutenção de todos os outros. Nem o anti-imigracionista, nem o racialista, nem o tradicionalista se referem a ele. Preferem ignorá-lo e focar-se nos tabus e consensos permitidos pelo progresso tecnológico, ou pior, exaltá-lo como mágica solução para a destruição desses tabus e consensos. Como um médico diligentemente dedicado a tratar os sintomas, ignorando ou comicamente promovendo a doença que os causa. O progresso tecnológico tornou-se o elefante na sala que a direita insiste em ignorar, enquanto este destrói a mobília.

O anti-imigracionista vocifera contra a imigração de massas, vendo os navios e aviões que trazem milhões de pessoas vindas de longínquas paragens, sem nunca ligar os dois pontos. Diz ele que trazer pessoas de culturas completamente distintas, com padrões civilizacionais completamente díspares, evoluções históricas e padrões sociais avessos, é uma receita para o desastre. Mas não só ignora ou aplaude o mecanismo que torna essa integração forçada possível, como nem contempla as origens de tais distinções e disparidades e portanto é incapaz de entender a génese do problema.

O carácter de cada cultura tem obviamente raízes religiosas, raciais e ideológicas. Mas têm igualmente um carácter geográfico, delimitado. A única cultura que não é geograficamente delimitada é a cultura global, contra a qual se insurgem, pelo menos em parte. As distinções entre as várias culturas derivam do facto de não terem tido uma evolução em comum, de estarem, mais ou menos, isoladas umas das outras, desenvolvendo os seus próprios padrões, costumes e normas. Até à Revolução Industrial, as distinções culturais entre vários países, regiões e localidades Europeias eram certamente menores do que as distinções entre culturas Europeias e Africanas – mas as distinções existiam, e eram parte fundamental da identidade de cada povo, região e localidade. Apesar das raízes religiosas e raciais comuns, havia diversidade entre elas. Com o progresso tecnológico, veio a possibilidade de unificar culturas intra-nacionais, como em Itália, França ou Alemanha, e eventualmente fazê-lo num panorama multi-nacional. O paradigma e objectivo presente é fazê-lo à escala global, mas a natureza do problema é a mesma.

Existem ainda distinções entre a cultura de Portugal e da Alemanha, mas em larga medida, muitas das que existiam e caracterizavam estes povos como distintos um do outro deixaram de existir. Não vêem todos os mesmos programas de televisão, usam os mesmos smartphones com as mesmas aplicações, conduzem os mesmos carros, praticam as mesmas profissões seguindo os mesmos métodos, bebem as mesmas bebidas, comem nos mesmos restaurantes, partilham da mesma ideologia? E qual é o instrumento que, africanão só lhes permite fazê-lo hoje, mas que destruiu as suas prévias ligações nacionais, locais, comunitárias? Só há uma resposta válida: o progresso tecnológico.

A verdade é que cada cultura distinta que existe e existiu na terra, era circunscrita por um determinado contexto geográfico que era, por sua vez, condicionado pelo desenvolvimento tecnológico, que não lhe permitia estender as suas fronteiras e entrar em contacto continuado e massivo com outras culturas. O progresso tecnológico leva, então, inevitavelmente à contaminação e unificação das culturas, primeiro locais, depois regionais, depois nacionais e, agora, globais.

E é importante notar que a possibilidade de integração com outras culturas torna-se uma eventualidade pois é uma necessidade do próprio sistema tecnológico – tal como todas as outras inovações trazidas por ele. Não só o progresso tecnológico traz facilidades e confortos que são atractivos para o cidadão comum, como eventualmente a sua rejeição torna-se impossível para qualquer um que queira participar na sociedade. Isto acontece no plano individual como no plano comunitário, local, regional e nacional. O rebelde que em meados do Século XX dizia que nunca iria conduzir ou utilizar meios de transporte automatizados, torna-se obrigado a usá-los quando todos à sua volta e a própria organização do seu meio envolvente o obriga a tal, se quiser ter uma participação ainda que ínfima na sociedade e obter o seu próprio sustento. Ou o empresário que pretende manter os seus empregados pois é ideologicamente contra a automatização ou simplesmente porque tem uma relação extra-económica com eles, eventualmente terá de automatizar os seus processos, cada vez mais, para acompanhar as outras empresas e manter a sua rentável. Em alternativa, declara falência, despede os seus funcionários e torna-se ele mesmo um funcionário de outrem, sempre com o cutelo da automatização a pairar sobre a sua cabeça, ameaçando o seu posto de trabalho e a sua capacidade de se sustentar. E também o país que rejeita os avanços tecnológicos que vão ocorrendo noutras paragens torna-se vulnerável à conquista por países tecnologicamente mais avançados, e sofre pelo menos a pressão do seu próprio povo para emular estes países pela informação que chega de fora sobre as maravilhas trazidas pelos desenvolvimentos tecnológicos.

Ou seja, o progresso tecnológico é primeiro introduzido como uma opção, mas, eventualmente, e cada vez mais rapidamente, se torna uma necessidade. A adesão aos seus serviços deixa de ser uma escolha e passa a ser uma obrigação para todos – e o preço a pagar pela não-adesão cada vez maior quanto maior o desfasamento entre um e outro grupo. E claro que este processo sempre ocorreu, mesmo em sociedades primitivas, mas sempre de forma muito limitada. Com a Revolução Industrial o espectro de influência e a velocidade com que sucede, tornou-se inescapável para qualquer povo, em qualquer parte do mundo.

O racialista encontra-se na mesma posição. Ele sabe que a integração de raças diferentes, não só de culturas, é em geral uma fonte de conflicto e, excepto em casos históricos pontuais com a combinação perfeita de outros factores, degenera no caos social. Ele sabe que a miscigenação entre raças díspares é uma fonte de fraqueza, não só genética como cultural, e uma destruição da herança deixada pelos 18i2cwilgs7n4jpgnossos antepassados. E, no entanto, ignora ou promove o progresso tecnológico através do qual é possível a importação de outras raças, a convivência continuada e a atenuação das consequências directas da miscigenação. Os problemas e perigos da endogamia são bem conhecidos, sendo que confirmam os tabus modernos, mas os perigos da exogamia são largamente ignorados. No entanto os estudos apontam que, entre membros de raças díspares, existe uma depressão exogâmica, uma degeneração que enfraquece os seus frutos, e quanto mais díspares as combinações, mais geneticamente fraco será o produto. No entanto, através do progresso tecnológico, estas fraquezas são atenuadas – e, eventualmente, resolvidas. Qual é, nesse caso, o argumento contra, se a tecnologia nos permite solucionar os problemas causados pela exogamia? Torna-se num argumento meramente cultural e sentimental. E aí voltamos aos parágrafos anteriores sobre a contaminação e unificação cultural levada a cabo pelo progresso tecnológico.

Mais, numa era em que as culturas se unificam e homogeneízam, o argumento de que importar outras raças e culturas é disruptivo torna-se ele mesmo espúrio, pois até que ponto podemos falar de culturas diferentes num mundo globalizado? O Africano tribal é certamente inassimilável à cultura tradicional Portuguesa, mas o Africano que ouve música popular americana, come McDonalds, bebe Coca-Cola e vê Netflix é culturalmente semelhante ao Português que faz exactamente o mesmo. A cultura é a suma das acções e atitudes de um grupo humano – se as acções e atitudes são as mesmas, os grupos, para todos os efeitos, são os mesmos e podem misturar-se à vontade, pois já não há praticamente nada a separá-los.

Da mesma forma, o tradicionalista queixa-se do declínio moral observado na sociedade, da destruição da família e da comunidade, da atomização e do individualismo, sem nunca apontar a mira ao mecanismo que não só possibilitou a destruição de toda a ordem social que considera valiosa, mas tornou essa destruição uma inevitabilidade.

Na sociedade tradicional, a família e a comunidade não eram uma escolha, nem uma convenção, mas uma necessidade de sobrevivência. O indivíduo precisava de uma rede de apoios familiares e comunitários para existir e persistir. A tradição era, ao mesmo tempo, uma ferramenta para as novas gerações, que tinham um ponto de partida, e um Waltons_on_porchobjectivo que significava a sua perpetuação, porque ao perpetuá-la cada família e comunidade assegurava o seu futuro. Coisas tão simples como os filhos continuarem os misteres dos pais, ao invés de perseguirem outras ocupações, assegurava a continuação e manutenção da comunidade. A introdução de automatismos retira esta necessidade, e promove a dispersão e dissolução da comunidade. A invenção da fábrica moderna destruiu, para todos os efeitos, esta forma de vida – ou seja, destruiu a comunidade e a família tal como foi entendida durante milénios. Hordas de rurais abandonaram as suas comunidades porque as suas actividades económicas já não eram rentáveis face às capacidades tecnológicas das fábricas; substituíram a sua comunidade particular pelos habitáculos indistintos e estranhos da cidade onde não conheciam os vizinhos, nem tinham com eles nada em comum, a não ser a desgraça de terem sido empurrados para aquela situação; as suas culturas comunitárias, por sua vez, desapareceram, visto que o ciclo de continuação foi abruptamente parado; nas cidades, bayard-st-5-cent-lodgingos indivíduos atomizados aderem, pois, necessariamente à cultura urbana, cosmopolita e desligada de qualquer raiz, pois é a única que existe e que pode existir.

A moralidade tradicional perde toda a sua força quando é desligada da sua razão objectiva, de sobrevivência. A castidade e a monogamia deixam de ser ferramentas necessárias para uma vida salubre, e tornam-se opções – opções morais, mas cuja não-adesão deixa de ter penas concretas na vida terrena. Onde antes a libertinagem sexual trazia graves consequências para o indivíduo (e, visto que este estava inserido numa comunidade, também para todos à sua volta), com a introdução de métodos contraceptivos modernos, de métodos abortivos mais seguros, até da facilidade de providenciar sustento sendo mãe solteira, as consequências são atenuadas, quando não removidas, e a regra moral deixa de ter uma aplicação clara e objectiva na vida comum. O mesmo para a monogamia heterossexual, que numa sociedade tradicional é a única forma de produzir progenitura e assegurar que esta tenha possibilidade, não só de estabilidade psicológica, mas de sustento e fhhsobrevivência, através da introdução tecnológica torna-se uma escolha – e todo o tipo de arranjos alternativos se auto-justificam.

E reparem que não referimos as consequências dos malefícios do progresso tecnológico, que em geral só são descobertos tarde demais, como por exemplo a destruição do meio natural pela poluição industrial ou a contaminação dos nossos corpos por partículas tóxicas, como comprovadas regularmente em estudos que chegam à conclusão de que os avanços tecnológicos têm, afinal, também prejuízos. Estamos a falar das consequências, não dos malefícios, mas dos benefícios do progresso tecnológico. Estes benefícios, que são inegáveis, como o aumento da esperança de vida ou a relativa facilidade na produção de alimentos, têm em si mesmos contrapartidas nefastas, sobretudo de um ponto de vista de direita. Que os vários avanços tecnológicos tenham algumas consequências materiais negativas é óbvio para todos com o passar do tempo, mas que as consequências materiais positivas trazem os seus próprios problemas – e que não são problemas pontuais e circunscritos, mas problemas civilizacionais, de paradigma – não é tão fácil de ver, ou de admitir. Se o fosse teriamos muito mais vozes na direita a expressar preocupações com este fenómeno, e a verdade é que não temos.

Inúmeros outros exemplos podem ser dados daquilo que era natural e necessário numa sociedade tradicional, mono-cultural e mono-racial, e que se torna acessório, opcional ou até desvantajoso com a introdução de tecnologia moderna. Aqueles que lutam a favor de um retorno sem criticar o sistema tecnológico, estão a lutar contra uma sombra numa parede – e quem dá murros contra paredes, não só magoa a mão, como não fere o DSC00494PS21.jpginimigo. A modernidade pode ser uma doença espiritual, mas é enquadrada em parâmetros físicos. Todas as sociedades Europeias, no continente ou na diáspora, estão afectadas e infectadas por esta doença. Será que o problema é, então, especificamente Europeu? Não, a razão para as sociedades Europeias (e logo a seguir as do extremo Oriente) serem as mais afectadas é que são as que há mais tempo convivem com a tecnologia moderna, que lideram os seus avanços e sofrem primeiro as consequências da sua introdução. A existência de grupos como os Quakers, os Amish ou os Menonitas, que rejeitam a tecnologia moderna e, não por acaso, mantêm comunidades tradicionais, mono-culturais e mono-raciais, prova a origem do problema.

O Globalismo, em todos os seus aspectos culturais, raciais e morais, não é na sua génese uma simples ideologia, que pode ou não ser promovida e pode ou não ser combatida em si mesma. O Globalismo é a mera racionalização do sistema tecnológico, a moldura necessária para o quadro pintado pelo progresso tecnológico. A história da Torre de Babel é muitas vezes trazida à discussão para ilustrar o Globalismo, tanto da parte dos eu-tower-of-babel-poster.jpgseus opositores como dos seus proponentes. Mas os seus opositores falham em ver que há uma lição tecnológica na história: a construção não seria possível sem os materiais, o conhecimento e a linguagem comum. Quando Deus dispersa as nações, não as separa simplesmente em termos geográficos, mas retira-lhes a ferramenta, a linguagem comum, que era a condição principal para a sua afronta a Deus. A mesma lição existe na história da desobediência humana no Jardim do Éden, em que o novo conhecimento precipita a decadência de toda a criação. Aqueles que encolhem os ombros e vêem esta admonição como irrelevante ou até contraproducente, estão presos numa visão progressista do mundo, a mesma da Esquerda, de que o progresso é um bem em si mesmo, trazendo novos amanhãs que cantam, e que a estabilidade é uma anomalia. Daí verem o progresso tecnológico, não como destrutivo, mas como libertador. Mas piores são aqueles que, entendendo a lição Bíblica, ainda assim fecham os olhos à sua manifesta e óbvia encenação contemporânea, o progresso tecnológico e as suas consequências para a saúde moral dos homens e das suas sociedades. Ambos, porém, ao ignorarem ou apoiarem o progresso tecnológico, passado, presente e futuro, estão a lutar sem saberem contra si mesmos, em contradição absoluta.

Este parece ser o comprimido mais difícil de engolir para os meus correligionários: o progresso tecnológico é inerentemente disruptivo de tudo aquilo que a direita diz querer preservar, seja de natureza cultural, racial ou moral. Ou seja, é necessariamente uma ferramenta da esquerda, que só pode avançar os objectivos da esquerda. Se a direita quiser lutar de forma séria e eficaz contra os males que correctamente identifica no mundo, tem de ser necessariamente céptica de avanços tecnológicos e favorecer um retorno, não só aos aspectos exteriores da sociedade tradicional, mas às condições tecnológicas que as tornavam possíveis e salutares.