A Caverna

O Afonso deixou uma nota, que considero acertada, na caixa de comentários do seu blog, que diz o seguinte:

«um dos melhores locais para se avistar casais mistos são precisamente os centros comerciais.»

Tendo participado activamente no levantamento que o Afonso está a levar a cabo, também eu pude observar o mesmo em vários. É importante perceber o porquê deste fenómeno, que não é uma mera coincidência, mas aponta sim para uma realidade muito mais profunda que é necessário confrontar.

A miscigenação (sobretudo em massa como vemos acontecer hoje) é um sintoma, não a doença – e quanto mais tempo confundirmos um com o outro, mais adiaremos a cura.

Qual é a então a ligação entre miscigenação e centros comerciais? Qual é a doença que produz este, entre outros, sintomas?

Primeiro temos de entender o que é um centro comercial, e o que veio substituir. O centro comercial é o símbolo do desligamento entre produção e consumo, e também entre comunidade e economia. É o símbolo por excelência do capitalismo global, onde produtos do mundo inteiro, fabricados pelo mundo inteiro, vendidos por multinacionais são comprados por um grupo heterogéneo de pessoas, que nada têm em comum a não ser o consumo.

Contrastemos isto com a realidade pré-centro comercial. Eu ainda lembro um mundo diferente da minha infância dos anos noventa, e não foi numa terriola, mas num bairro lisboeta – que mesmo nessa época tardia de perdição ainda mantinha a mesma configuração, embora as brechas estivessem prestes a ser abertas definitivamente e o dique permanentemente destruído, levando à inundação do capitalismo global e da destruição de todas as raízes locais.

A identidade nacional não é construída directamente entre o Eu e o País, mas requer inúmeros passos intermédios: do Eu para a Família, da Família para o Bairro, do Bairro para a Localidade, da Localidade para Região e da Região para o País. Todos estes degraus, começando na família directa e acabando na família nacional, são necessários. Do Eu para o País sem intermediários, não há familiaridade. E tendo destruído estes degraus não admira que o Português médio não tenha qualquer apreço pela sua Portugalidade – porque sem a familiaridade intermédia, essa Portugalidade não existe – é um produto de propaganda estatal, de eventos históricos com o qual não tem qualquer ligação e de artefactos que, desligados da sua origem e contexto, tornam-se meramente objectos de consumo.

A identidade nacional não pode ser construída pelo topo, e como tal não foi destruída pelo topo, mas pela base.

No pequeno bairro da minha infância, toda a gente se conhecia. Os homens casavam com mulheres que conheciam desde pequenos, e as famílias dos noivos conheciam-se há gerações, tendo vivido lado a lado e partilhado um espaço público que hoje é difícil de conceptualizar, sobretudo para quem o não viveu. O grosso do consumo era não só feito dentro do bairro, mas entre pessoas que partilhavam mais do que uma relação comercial. Eu comprava gomas no quiosque do senhor Zé que tinha ficado viuvo muito novo e por isso almoçava muitas vezes na casa dos meus avós; ouvia repreensões da costureira permanentemente à janela que ameaçava ir contar as minhas diabruras à minha avó; ou ia comprar bagaço ou tabaco ao meu avô no café do Sr. Lopes, que sabia muito bem que o bagaço e o tabaco não eram para mim e mos dava sem eu ter de pagar porque depois acertava contas. E se por acaso me visse a beber ou a fumar, eu já sabia que ia logo descer a rua ou telefonar aos meus avós. As velhotas juntavam-se na praça central para conversar enquanto faziam tricot, os velhotes jogavam domino ou conversavam sobre futebol. Os meus pais, os adultos nascidos no fim do antigo regime ou pouco depois, que cresceram com a televisão e com a promessa do mundo global que esta trazia, começavam já a sonhar com o mundo do Centro Comercial, sem saber aquilo que estavam a deitar fora.

Primeiro foi o carro, que nos levou do bairro familiar onde toda a gente se conhecia para o bairro dormitório em que ninguém se conhecia apesar de todos virem de sítios e situações semelhantes. O próprio bairro dormitório não tem zonas comunitárias que não estejam ligadas ao consumo, e assim que as lojas fecham, as praças ficam desertas, ficando só os adolescentes a fumar charros – até isso ligado ao consumo. Na praça do bairro velho, as pessoas juntavam-se para falar umas com as outras sem precisar de um objecto de consumo que as ligasse dada a rede complexa de outras ligações que ali existiam; as velhotas ficavam o dia todo à janela, a fazer conversa ou a vender os seus serviços dos mais variados tipos, mas todos com o propósito de reparação. O Centro Comercial, pelo contrário, representa a mudança deste modo de pensar as coisas: nada se repara, tudo se substitui. Por novo, maior, mais vistoso. Até as igrejas destes bairros dormitórios não oferecem na maioria um local de confraternização exterior à liturgia, algo que era dado como garantido, e em vez disso servem um propósito único e que, sem o que o rodeia, perde uma grande parte do seu sentido e apelo.

Os bairros tradicionais foram sendo abandonados pelos adultos, munidos de carros e centros comerciais, e vendidos a compradores de luxo (muitas vezes estrangeiros), dada a sua localização na cidade. As lojas das pessoas que lá viviam foram substituídas por cadeias comerciais, as pessoas que lá trabalham moram a horas de distância e não vão manter esses trabalhos muitpo tempo. Já não há velhotas às janelas, só estabelecimentos comerciais, esplanadas, e lojas de ‘artesanato’ português, vindas do Norte e do Sul e do Centro, completamente desligados do seu contexto. O bairro antigo já não é um bairro, é a unidade comercial número X, e o bairro dormitório não é um bairro, é a unidade habitacional número Y. Se mudassem as pessoas e os estabelecimentos, como mudam frequentemente, não se mudava nada. A sua verdadeira identidade é a ausência de identidade. E como tal, que diferença faz para o habitante do dormitório se no apartamento ao lado está um português ou um angolano: a um como a outro só vai dizer bom dia, se disser, e nada vai saber da sua vida, nem ele da dele. Ambos se poderão encontrar no centro comercial, com os mesmos objectivos de consumo, e igualmente desligados de qualquer ligação profunda.

Tudo foi orientado para a utilidade e como tal a própria identidade das pessoas se torna utilitária – daí a proliferação das amizades e relações à volta de ‘interesses comuns’, seja a devoção por uma série de filmes ou por uma banda qualquer, ou até por ideologia política. É uma identidade mercantil, um pobre substituto da verdadeira.

Este mundo, de comercialismo e utilitarismo, cujo emblema maior é o Centro Comercial, não pode nunca sustentar qualquer identidade nacional, a não ser de uma narrativa fictícia ligada a eventos histórios longínquos (e mesmo isso está a ser apagado, porque não tem mais razão de ser mantido) ou a representações fúteis (como o futebol).

O que muitos vêem como solução, é parte do problema. O Nacionalismo postula a ligação directa entre o Eu e a Nação, sem intermédios. Foi um produto do iluminismo, do liberalismo, e é apenas o passo anterior ao globalismo que postula a identidade do Eu como cidadão do mundo, ligado directamente ao todo global. Ambos são ausentes de raízes. E um leva ao outro. Não posso salientar o quão importante é entender esta dinâmica, pois caso contrário os meus correligionários andarão a lutar por uma mera encarnação prévia do mesmo problema, em vez de lutar por uma solução.

O Centro Comercial, emblema e veículo físico da destruição das identidades intermédias, é pois naturalmente o lugar das pessoas desafectadas, daquelas cuja identidade é pessoal e global, sem nunca ser outra coisa. Pelo que a miscigenação, um produto desta desafecção, se mostre tão claramente nestes estabelecimentos. No bairro antigo, o casal miscigenado contrastaria violentamente com o mundo ordeiro e natural, de proximidade a todos os níveis. No Centro Comercial, o casal miscigenado é o resultado natural e expoente máximo da primazia da técnica, da utilidade e do comercialismo global, primazia que levou à destruição das identidades que sustentavam a identidade étnica.

A mistura de raças e a destruição da etnia é um resultado natural da mistura de populações internas e da destruição de identidades locais. Uma deriva da outra. Sem rejeitar uma não se rejeita a outra.

Por outras palavras, o Centro Comercial (e sobretudo o que ele representa), é incompatível com a sociedade que os nacionalistas desejam. Espero que não seja tarde demais quando entenderem isto.

Se a direita alternativa existisse no tempo da torre de babel iria opor-se aos objectivos estabelecidos para a sua construção, mas não removeria um único tijolo, pensando que podia usar a estrutura para se manter junto ao chão.

Quase todos os problemas politicos e sociais levantados pela direita alternativa estão ligados a uma ou várias inovações tecnológicas – na maioria dos casos não porque falharam, mas porque foram bem sucedidos – criando novos problemas a ser resolvidos por novas inovações.

Tal como a remoção do açúcar refinado e comida processada industrialmente da dieta resolvem a maioria dos problemas de saúde modernos, a solução para os problemas políticos e sociais que nos afectam podem ser resolvidos com uma dieta de meios técnicos.

RE: Estratégia

A partir de agora, quando assim se justificar, vou publicar os comentários bem como a minha resposta a eles num post separado para o benefício dos outros leitores. 

O Afonso deixou-nos o seguinte comentário: 

Excelente texto, mas tenho de confessar ao caro Ilo Stabet que continuo sem perceber exactamente o que pretende, i.e. que estratégia de actuação é que o caro Ilo Stabet defende. A re-cristianização do Ocidente? Não fazer nada e deixar o Ocidente abandalhar por completo? Isolarmo-nos do resto da sociedade e deixá-la afundar-se nos seus vícios e perversões?

P.S. Bem-vindo de volta. A sua mensagem faz muita falta!

O Kal El deixou, a seguir, este:

Boas Ilo.
Calculo que estejas a falar do caso Epstein, é realmente impressionante como as pessoas esquecem esse tipo de notícias ou apenas as ignoram. A falta de ação por parte da sociedade só demonstra o quão adormecidos e domesticados estamos. É por estas razões que acredito que o filme Matrix é mesmo um documentário, e eu nem sou um grande fã de ficção. A estratégia do inimigo está tão bem montada que nem nos apercebemos como somos facilmente manipulados, seja através dos media, seja através do entretenimento, ou por parte das celebridades/monarcas que nos influenciam a toda a hora, Veja-se o caso da floresta Amazônia, as pessoas limitaram-se a correr para as suas redes sociais e a partilhar #PrayforAmazon e imagens que não retratavam a realidade actual sem saberem o que realmente estava por trás, tudo graças a esses monarcas tagarelas, fantoches usados por essa elite psicopata para nos entreter.
Caro Afonso, creio que a melhor resposta está em Mateus 24. Aqueles que já despertaram e apercebem-se da iniquidade e de todas as desolações que ocorrem questionam-se o porquê de todas estas coisas. Procuram esperança em homens, na política, na justiça, ou nos valores de outrora, mas a resposta encontra-se na bíblia. O governante deste mundo já nos engana há muito tempo, ele nos divide e nos afasta da verdade. É necessário compreendermos em que tempo bíblico nos encontramos e depositarmos fé nAquele que nos pode salvar.

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Olá Afonso, Kal-El,

Obrigado pelos comentários e pelas palavras de encorajamento.

Eu já escrevi sobre estratégia no passado e não mudei muito nas minhas ideias, excepto que me tornei mais consciente dos perigos inerentes ao torpor tecnológico em que vivemos e da importância da produção, difusão e arquivo de uma cultura alternativa.

Aqui está uma lista, incompleta certamente, de acções importantes. Cada ponto pode vir a dar um texto próprio no futuro, à medida que vou pensando e agindo, sobre conselhos mais concretos, ou talvez nas razões para o fazer.

Hão-de notar uma ausência fulcral, que é a de qualquer ideia ou menção política. Isto não é um acaso. A política nunca foi mais irrelevante, e ao mesmo tempo as nossas ideias sobre ela nunca foram tão perigosas para quem as defende. Estaremos sempre a lutar contra uma força demasiado grande para ganharmos essa guerra, mesmo que ganhemos uma ou outra batalha. E como disse, penso que não há pessoas suficientes para influenciar ao ponto de podermos ganhar eleições mesmo que pudéssemos chegar a elas. E esperar que o Youtube ou outra plataforma do sistema nos dê abrigo é o mesmo que esperar que o Pravda desse voz a ideias anti-soviéticas.

Todos os pontos devem ser lidos como o ideal, e o propósito é o de nos aproximarmos o mais possível dele.

– Sair dos centros urbanos e estabelecermo-nos no campo. Capturar / recolonizar o país real é muito importante. Há todo um mundo perdido que temos de reconstruir. E só há uma forma de fazê-lo – que é lá estar.

– Viver da terra ou trabalhar com as mãos. Autosuficiência comunitária é o objectivo. Além da agricultura, as “profissões” também são importantes – tudo o que envolva trabalhar com as mãos e desenvolver conhecimento especifico que se possa aplicar individualmente ou comunitariamente (electricistas, canalizadores, pedreiros, carpinteiros, etc).

– Usar o mínimo possível de dinheiro (moeda); e em vez dele, fazer troca directa. Isto limitar-nos-á bastante a coisas locais, próximas. Temos de nos desligar o máximo possível do globalismo, não só na teoria, mas na prática – muito mais importante.

– Reduzir drasticamente a nossa dependência de tecnologia moderna (não falo apenas da internet, mas de tudo o resto): o nexo tecnológico é controlado pelo inimigo. Tal como esperar guarida do Youtube, esperar que toda esta interconexão tecnológica jogue a nosso favor quando são eles que controlam o sistema e ditam as regras, é ingénuo.

Eu bem sei que a maioria dos meus leitores, bem como eu, são da cidade. Mas se o que está acima vos soa alienígena, posso dizer-vos que há muita gente, não só em Portugal, mas no mundo a fazê-lo – em vários graus de profundidade. Não é uma questão de ser possível, é uma questão de exigir sacrifícios, compromissos. Mas se não estamos dispostos a trocar uber eats pela carrinha do pão que passa uma vez por semana, a sacrificar certos confortos artificiais pelos nossos ideais, será que realmente os temos?

Esta próxima parte é muito importante, e é muito menos praticada ou atentada – mesmo pelas pessoas que já vivem uma vida rural: A educação das novas gerações. Esta questão é para mim a melhor ilustração dos dois tipos diferentes de estratégia:

– Por um lado, temos a estratégia ‘política’: tentar alterar o sistema educativo – por exemplo falando contra a ideologia de género nas escolas. Um tema importantíssimo – mas que somos absolutamente impotentes para resolver em tempo útil. Os nossos filhos serão doutrinados contra nós e contra si mesmos enquanto andamos a tentar alterar a situação politicamente (sem sucesso, a não ser o de potencialmente tornarmo-nos persona non grata).

– Por outro, temos a estratégia ‘simples’: procurar alternativas ao sistema educativo – em geral, escolaridade em casa. Isto pode ser feito com os pais, ou com tutores, ou formando associações, há muitas opções e combinações. E qualquer uma delas mais saudável do que colocar os nossos filhos numa escola pública, ou mesmo privada.

Mais uma vez, embora em número menor, já existem alternativas e pessoas que as utilizam e dinamizam. Por isso, não é impossível.

É importantíssimo, em adição à escolaridade propriamente dita, que os pais eduquem os seus filhos, não apenas em virtudes morais, mas na apreciação da arte, no pensamento crítico e nos trabalhos manuais. As crianças são o barro mais maleável à face da terra, deixarmos essa fase extremamente curta ser dominada por entretenimento básico e fútil, é destruirmos todo um potencial. É a obrigação dos pais expor os filhos desde pequenos aos mais variados tipos de literatura, música, arte e filosofia, discuti-la e reproduzi-la. Os miúdos são esponjas, não deixem que absorvam o veneno e o açúcar que há por aí, em vez disso é nossa obrigação dar-lhes uma dieta saudável, variada e com substância. Sublinho por fim, que neste ponto, é da maior importância limitar drasticamente o consumo de conteúdo audiovisual – vídeos, filmes, televisão, etc. Uma boa regra é a de limitar o consumo para metade do que se consome de outros meios – para cada hora de leitura, meia hora de televisão, por exemplo. E isto aplica-se aos adultos, mas aplica-se muito mais às crianças e adolescentes.

Por fim há o trabalho cultural, que é onde podemos fazer uso das plataformas do inimigo ou fundar as nossas, online e offline: produzir, difundir e apoiar arte e cultura não-degenerada. É importante fazer-se coisas novas mas igualmente importante recuperar muito do que ficou para trás. Seja qual for o meio, é importante que os artistas, empreendedores, comunicadores, organizadores, arquivistas, etc, entre nós se dediquem a produzir e difundir uma cultura alternativa – que seja radicalmente oposta ao mainstream, mas ao mesmo tempo que não está associada a um movimento político. Como já disse várias vezes, a Verdade, a Ordem, a Justiça, a Beleza, etc, não são conceitos políticos. Limitá-los a isso foi o que nos levou ao estado em que estamos. Tanto a Igreja como os intelectuais como as pessoas comuns que viviam e acreditavam no Bem se demitiram e passaram a importar-se com duas coisas: política e economia. E no entretanto as forças satânicas (e é isso que elas são, não tenham dúvidas) tomaram conta de todas essas esferas de influência.

Inicialmente, cada um destes esforços vai parecer isolado, mas se começarmos sozinhos e continuarmos não vamos acabar sozinhos, visto que este modo de vida, sendo natural, gera naturalmente laços comunitários onde eles forem possíveis. E à medida que formamos novos núcleos, será possível atrair o tipo de pessoa que devemos aceitar.

E não é preciso falar de política – a política é o vinagre com o qual não se apanham moscas. Ainda hoje me surpreendo com a quantidade de gente (homens e mulheres) que vou conhecendo, que apesar de cair nas armadilhas e clichés do mundo moderno, sente no âmago que algo está mal, que não é assim que deviam viver, e que há algo melhor. Essas pessoas, se lhes falarmos das nossas ideias políticas, perde-se imediatamente, porque foi programada para isso – mas algo mais importante que muitos ainda não compreendem: só uma pequena percentagem de seres humanos tem capacidade e disposição para pensar no abstracto, incluindo questões de organização política e social. Mas se lhe dissermos que o trabalho que têm não é natural, que viver em labirintos metropolitanos com milhões de outros ratos, para trás e para a frente, para ter dinheiro para pagar uma renda para ter um sítio para o sofá onde vai ver netflix ou o futebol ao fim de semana porque está cansado de ter trabalhado para ter dinheiro… enfim, é fácil explicar o absurdo, e o vazio existencial é palpável se a pessoa a expô-lo for suficientemente eloquente. Essas pessoas podem ser salvas, apenas não da forma que nós temos tentado.

Adenda: este excelente texto.

Informar o Público

Nada sublinha a irrelevância de informar o público sobre as forças que o controlam e moldam do que a existência, documentada e comprovada, uma e outra vez, de redes de tráfico humano e pedofilia com pendor ocultista, que operam ao mais alto nível das nossas sociedades e o absoluto nada que resulta sempre que este facto se torna público.

Sempre que uma tal notícia, como aconteceu recentemente, é demasiado grande para ser simplesmente silenciada, ela lá passa nos meios de comunicação oficiais, filtrada como sempre, mas passa.

E depois de passar, desaparece. Casos semelhantes e com implicações igualmente globais aconteceram em inúmeros países, incluíndo o nosso rectângulo atlântico, sem que o castelo de areia que é o sistema de poder moderno fosse derrubado, sem que as pessoas exigissem justiça, sem que houvessem visíveis consequências, culpados e sentenças que mudassem o paradigma.

Como explicar esta situação? Se perguntarmos individualmente aos nossos conhecidos, obviamente que nos expressarão o seu pesar pelo sofrimento das crianças, a sua preocupação com a corrupção dos oligarcas psicopáticos a que insistem em chamar de elites e algum temor com os elementos ocultistas e satânicos envolvidos – se chegarem até essa camada da informação disponível, algo que em si já é duvidoso.

Será pela censura, pela ausência de meios oficiais e de massas para veicular esta informação? Há quem acredite que sim, mas eu acredito que não. Penso até que os nossos mestres sobrestimam a disposição da pessoa comum para se preocupar com estes assuntos.

Se por acaso o cidadão comum se deparasse, como eventualmente se depara, com a realidade dos oligarcas, consciente ou inconscientemente, será levado a concluir que condená-los seria condenar-se a si próprio. E o mesmo poderia ser dito da questão migratória, da influência da cultura de libertinagem sexual e os seus tentáculos, ou qualquer outra questão cultural de peso no nosso tempo.

Porque iria o cidadão comum exprimir, ou sequer sentir, consternação com redes pedófilas quando ele mesmo vê miúdas menores em trajes menores a exibirem-se no Instagram, quando a sua filha adolescente anda na rua vestida como as prostitutas de há 20 anos e o seu filho vê pornografia no telemóvel? Porque iria ele condenar a imigração em massa quando, para o seu Benfica, ela até significa mais vitórias? Porque irá ele criticar a cultura de libertinagem sexual quando tira proveito dela?

É irrelevante informar as pessoas sobre a toxicidade da cultura, quando são viciadas no veneno que as está a matar. A educação de que as pessoas precisam é muito mais profunda do que a mera informação sobre o clima político e social. E pelas minhas observações, são os que mais precisam dessa educação, que mais avessos são a ela, pois é o antídoto para a desordem na qual estão viciados.

Cristo veio trazer a divisão – e os nossos inimigos serão aqueles da nossa própria casa. Se por conveniência, comodismo ou sentimentalismo nos negarmos a expurgar quem se recusa a fazer a coisa certa, quem se recusa a dar uma orientação moral e cultural aos próprios filhos, quem tira partido sem pudor da desagregação social para fins de entretenimento e lucro, lembremo-nos que estamos a negar o Bem. Só porque a lista é longa, não nos devia demover do nosso dever de estabelecer limites e princípios, segundo os quais vivemos, e que não sacrificamos por vantagens de networking ou pela dor da perda de laços de sangue. Se não rejeitamos o mal, e as pessoas que o fazem, por mais banal, ou por omissão, estamos implicitamente a rejeitar o Bem. A hora de ser morno está a chegar ao fim. E podemos pelo menos atentar a sabedoria dos nossos antepassados, que nos explicaram, de forma sucinta e clara, que mais vale só do que mal acompanhado.

É preciso que percebam que há por aí muitas más companhias e que a tentativa de as reformar acaba, quase sempre, na corrupção do reformador.

Sementes

Júlio Verne é um dos meus autores favoritos e sem qualquer dúvida aquele cujos livros mais vezes reli. Se nos últimos dez anos o meu consumo de ficção diminuiu significativamente e foi substituído pelo consumo de não-ficção, Verne é único autor que escapou a esta mudança, acabando por ser revisitado quando quero ‘descansar a cabeça’ de não-ficção. Tudo começou com uma colecção de capa dura, em fascículos, com gravuras a preto e branco, à antiga, comprada pela minha avó. Lembro-me de já a ter há alguns anos quando a comecei a explorar, já depois da minha avó morrer, e só aí apreciar a intenção e o esforço da minha avó em ma oferecer. Até hoje há um ou outro livro da colecção que nunca li, inclusive o famoso Da Terra à Lua (pois nunca tive interesse pelo espaço). Mas em geral fascinavam-me não só as aventuras, mas o mundo de possibilidades aberto pelo triunfo da técnica, da ciência e da tecnologia – e em que este tipo de progresso acompanhava, em vez de suplantar, as formas de ser tradicionais. Os personagens de Verne, apesar de cientificamente interessados e sempre dispostos a abraçar os desenvolvimentos tecnológicos, são em geral exemplos de humildade, coragem, cavalheirismo, honra, erudição (nas artes e letras, não só nas ciências duras) e todas as outras virtudes tão difíceis de encontrar no nosso mundo – o mundo que realizou os sonhos tecnológicos de que Verne falava.

Só muitos anos depois descobri que a colecção, apesar de muito grande e de alguns volumes partilharem dois ou mais títulos, não estava completa. Havia um título em particular que estava em falta: ‘Paris no Século XXI’. O livro é incaracterístico para o autor, pois ao contrário dos seus outros livros, tem uma visão largamente negativa do futuro, um pessimismo sombrio em relação ao domínio da tecnologia na sociedade e sublinha os perigos de uma sociedade obcecada com a técnica depois da lua-de-mel inicial.

Mesmo para aficionados de Júlio Verne, o livro é largamente desconhecido, visto que só foi publicado 131 anos após ser escrito, e a sua publicação não foi permitida na época, porque o tom pessimista do livro, segundo o editor de Verne, ia contra a ‘marca’ que ele havia estabelecido e porque o livro ia contra o consenso optimista sobre o destino da sociedade tecnológica. Não é difícil imaginar que o mesmo tenha sucedido a muitos outros títulos e suponho ser uma grande razão de haver tantos exemplos de futuros optimistas no século XIX e início do XX, e que a ‘distopia’ na literatura só se tenha tornado popular quando o vazio existencial e social do mundo moderno veiculado pela ubiquidade tecnológica se tornou óbvio e inegável.

O livro é incrivelmente presciente, não apenas prevendo várias tecnologias que só existiriam cem ou mais anos depois como automóveis, metropolitano, elevadores ou (uma forma primitiva de) computadores, mas sobretudo nas suas previsões sobre os efeitos dessas tecnologias na sociedade. A mais assustadora dessas previsões é a de um mundo em que os únicos valores são o progresso tecnológico e o desenvolvimento económico, e em que o progresso moral, cultural e artístico são completamente menosprezados e a transformação do indivíduo numa mera engrenagem da grande máquina social.

Esta obsessão com a técnica lembra a frase de G.K. Chesterton: “A reforma política ou económica não nos tornará boas pessoas ou nos fará felizes, mas até esta estranha era ninguém achava que o faria”. Hoje é difícil encontrar alguém que não aceite, na teoria ou na prática, que a reforma política ou económica têm tamanho poder, e é sob esse jugo que as nossas sociedades são governadas e que as pessoas se governam. A expediência, o utilitarismo e a economia são os barómetros únicos das decisões, individuais e colectivas.

Tal como no livro, a Arte, num mundo de técnica, tornou-se algo de revolucionário e produzir ou apreciar algo Belo, sem outra função, um atentado contra a ordem vigente. A Beleza, ou melhor, a nossa capacidade de a apreciar, é uma dádiva divina. Os nossos antepassados esqueceram-se deste truísmo, e menosprezaram o seu peso, deixando que a técnica dominasse, desvirtuasse e eventualmente destruísse esta importante componente da existência humana. Nenhum progresso social, cultural e moral pode vir da política ou da economia, pelo que os meus correligionários fariam melhor em substituir o seu consumo e produção de artefactos imediatistas cuja relevância a longo prazo é incógnita, e em vez disso se focassem na produção e consumo de cultura, de arte, de algo que penetre mais fundo do que um vídeo de Youtube sobre a última vaga de imigração ou um podcast sobre os mais recentes exemplos da degradação sexual no Ocidente. Até porque os inimigos do Bem, tomando este vácuo, fizeram questão de o invadir com a sua antítese. Cabe-nos a nós recaptura-lo e devolver-lhe a sua honra.

A minha avó tinha a ideia certa, e sempre que olho para a colecção na estante, penso nessa obrigação que é a educação artística e cultural das novas gerações (e das velhas, tal é o nosso estado), votada ao abandono pela nossa confiança nos ‘especialistas’, educadores, curadores, etc – mais um sinal da obsessão técnica que, neste caso, resulta na oferta da nossa cultura àqueles que apenas a pretendem denegrir e destruir. É preciso que aqueles que estão do nosso lado comecem a participar menos em guerras de bitaites nas caixas de comentários dos jornais e nas redes sociais que passadas 24 horas já nada significam, e em vez disso apreciar, produzir e difundir algo de mais duradouro, arte que não esteja vergada ao vácuo obsceno e violento do pós-modernismo.

Está ao alcance de todos nós mudar esta realidade, ainda que o seu impacto seja inicialmente limitado. Temos de estar preparados para empreender esforços sem ver os seus resultados imediatos. Uma coisa é certa, nenhuma civilização Europeia vai sobreviver se os seus supostos salvadores ouvirem rap, lerem harry potter e virem filmes da marvel – ou pior, permitirem que os seus filhos o façam. Para aqueles que acreditam que se pode alterar o rumo geral da sociedade ainda durante a nossa vida, suponho que tal exortação soe a imbecilidade poética (exactamente de acordo com a obsessão técnica que caracteriza a nossa era); mas para os que abandonaram essa ingénua concepção, estas são as sementes que podemos lançar à terra, para que possam ser cobertas pelos nossos filhos, regadas pelos nossos netos, de forma a que, com sorte, talvez os nossos bisnetos tenham algo de bom para colher.

O Elefante Tecnológico

A ortodoxia do nosso tempo assegura-nos que vivemos numa era sem tabus. Na verdade, a nossa era é não só fértil em tabus, como tem neles a sua fundação, meras inversões dos tabus antigos. O consenso social é, em qualquer era, um que requer certas verdades inquestionáveis. O processo de questioná-las e da dissolução do consenso social é uma bola de neve. Quanto mais o consenso é discutido, mais os tabus que o mantêm são destruídos, e mais a sociedade se transforma noutra direcção, com os seus próprios tabus.

É observável nas sociedades modernas que vivemos o fim de uma era, que certos tabus que reinaram desde que os antigos foram destruídos, estão a ser questionados, pelo menos por uma minoria. Todos nós sabemos quais são: a questão da imigração, provavelmente a mais proeminente, mas nas franjas também a questão racial, o liberalismo social, a teoria da evolução, o materialismo, o igualitarismo e até a democracia de massas.

No entanto há um tabu (e, por conseguinte, um consenso) que persiste, entre Esquerda e Direita, entre Progressistas e Tradicionalistas, que é raramente questionado e, pelo contrário, é defendido e proposto, não só como acompanhamento inevitavelmente elephant-in-room-800x634.jpgbenéfico, mas como panaceia para os problemas criados pelos outros tabus – e ainda mais estranhamente, esta visão salvífica é principalmente mantida pelo lado direito da barricada.

O tabu, e consenso, em questão é o progresso tecnológico – e quão estranho e irónico é que tal tabu seja uma precondição, uma necessidade para a manutenção de todos os outros. Nem o anti-imigracionista, nem o racialista, nem o tradicionalista se referem a ele. Preferem ignorá-lo e focar-se nos tabus e consensos permitidos pelo progresso tecnológico, ou pior, exaltá-lo como mágica solução para a destruição desses tabus e consensos. Como um médico diligentemente dedicado a tratar os sintomas, ignorando ou comicamente promovendo a doença que os causa. O progresso tecnológico tornou-se o elefante na sala que a direita insiste em ignorar, enquanto este destrói a mobília.

O anti-imigracionista vocifera contra a imigração de massas, vendo os navios e aviões que trazem milhões de pessoas vindas de longínquas paragens, sem nunca ligar os dois pontos. Diz ele que trazer pessoas de culturas completamente distintas, com padrões civilizacionais completamente díspares, evoluções históricas e padrões sociais avessos, é uma receita para o desastre. Mas não só ignora ou aplaude o mecanismo que torna essa integração forçada possível, como nem contempla as origens de tais distinções e disparidades e portanto é incapaz de entender a génese do problema.

O carácter de cada cultura tem obviamente raízes religiosas, raciais e ideológicas. Mas têm igualmente um carácter geográfico, delimitado. A única cultura que não é geograficamente delimitada é a cultura global, contra a qual se insurgem, pelo menos em parte. As distinções entre as várias culturas derivam do facto de não terem tido uma evolução em comum, de estarem, mais ou menos, isoladas umas das outras, desenvolvendo os seus próprios padrões, costumes e normas. Até à Revolução Industrial, as distinções culturais entre vários países, regiões e localidades Europeias eram certamente menores do que as distinções entre culturas Europeias e Africanas – mas as distinções existiam, e eram parte fundamental da identidade de cada povo, região e localidade. Apesar das raízes religiosas e raciais comuns, havia diversidade entre elas. Com o progresso tecnológico, veio a possibilidade de unificar culturas intra-nacionais, como em Itália, França ou Alemanha, e eventualmente fazê-lo num panorama multi-nacional. O paradigma e objectivo presente é fazê-lo à escala global, mas a natureza do problema é a mesma.

Existem ainda distinções entre a cultura de Portugal e da Alemanha, mas em larga medida, muitas das que existiam e caracterizavam estes povos como distintos um do outro deixaram de existir. Não vêem todos os mesmos programas de televisão, usam os mesmos smartphones com as mesmas aplicações, conduzem os mesmos carros, praticam as mesmas profissões seguindo os mesmos métodos, bebem as mesmas bebidas, comem nos mesmos restaurantes, partilham da mesma ideologia? E qual é o instrumento que, africanão só lhes permite fazê-lo hoje, mas que destruiu as suas prévias ligações nacionais, locais, comunitárias? Só há uma resposta válida: o progresso tecnológico.

A verdade é que cada cultura distinta que existe e existiu na terra, era circunscrita por um determinado contexto geográfico que era, por sua vez, condicionado pelo desenvolvimento tecnológico, que não lhe permitia estender as suas fronteiras e entrar em contacto continuado e massivo com outras culturas. O progresso tecnológico leva, então, inevitavelmente à contaminação e unificação das culturas, primeiro locais, depois regionais, depois nacionais e, agora, globais.

E é importante notar que a possibilidade de integração com outras culturas torna-se uma eventualidade pois é uma necessidade do próprio sistema tecnológico – tal como todas as outras inovações trazidas por ele. Não só o progresso tecnológico traz facilidades e confortos que são atractivos para o cidadão comum, como eventualmente a sua rejeição torna-se impossível para qualquer um que queira participar na sociedade. Isto acontece no plano individual como no plano comunitário, local, regional e nacional. O rebelde que em meados do Século XX dizia que nunca iria conduzir ou utilizar meios de transporte automatizados, torna-se obrigado a usá-los quando todos à sua volta e a própria organização do seu meio envolvente o obriga a tal, se quiser ter uma participação ainda que ínfima na sociedade e obter o seu próprio sustento. Ou o empresário que pretende manter os seus empregados pois é ideologicamente contra a automatização ou simplesmente porque tem uma relação extra-económica com eles, eventualmente terá de automatizar os seus processos, cada vez mais, para acompanhar as outras empresas e manter a sua rentável. Em alternativa, declara falência, despede os seus funcionários e torna-se ele mesmo um funcionário de outrem, sempre com o cutelo da automatização a pairar sobre a sua cabeça, ameaçando o seu posto de trabalho e a sua capacidade de se sustentar. E também o país que rejeita os avanços tecnológicos que vão ocorrendo noutras paragens torna-se vulnerável à conquista por países tecnologicamente mais avançados, e sofre pelo menos a pressão do seu próprio povo para emular estes países pela informação que chega de fora sobre as maravilhas trazidas pelos desenvolvimentos tecnológicos.

Ou seja, o progresso tecnológico é primeiro introduzido como uma opção, mas, eventualmente, e cada vez mais rapidamente, se torna uma necessidade. A adesão aos seus serviços deixa de ser uma escolha e passa a ser uma obrigação para todos – e o preço a pagar pela não-adesão cada vez maior quanto maior o desfasamento entre um e outro grupo. E claro que este processo sempre ocorreu, mesmo em sociedades primitivas, mas sempre de forma muito limitada. Com a Revolução Industrial o espectro de influência e a velocidade com que sucede, tornou-se inescapável para qualquer povo, em qualquer parte do mundo.

O racialista encontra-se na mesma posição. Ele sabe que a integração de raças diferentes, não só de culturas, é em geral uma fonte de conflicto e, excepto em casos históricos pontuais com a combinação perfeita de outros factores, degenera no caos social. Ele sabe que a miscigenação entre raças díspares é uma fonte de fraqueza, não só genética como cultural, e uma destruição da herança deixada pelos 18i2cwilgs7n4jpgnossos antepassados. E, no entanto, ignora ou promove o progresso tecnológico através do qual é possível a importação de outras raças, a convivência continuada e a atenuação das consequências directas da miscigenação. Os problemas e perigos da endogamia são bem conhecidos, sendo que confirmam os tabus modernos, mas os perigos da exogamia são largamente ignorados. No entanto os estudos apontam que, entre membros de raças díspares, existe uma depressão exogâmica, uma degeneração que enfraquece os seus frutos, e quanto mais díspares as combinações, mais geneticamente fraco será o produto. No entanto, através do progresso tecnológico, estas fraquezas são atenuadas – e, eventualmente, resolvidas. Qual é, nesse caso, o argumento contra, se a tecnologia nos permite solucionar os problemas causados pela exogamia? Torna-se num argumento meramente cultural e sentimental. E aí voltamos aos parágrafos anteriores sobre a contaminação e unificação cultural levada a cabo pelo progresso tecnológico.

Mais, numa era em que as culturas se unificam e homogeneízam, o argumento de que importar outras raças e culturas é disruptivo torna-se ele mesmo espúrio, pois até que ponto podemos falar de culturas diferentes num mundo globalizado? O Africano tribal é certamente inassimilável à cultura tradicional Portuguesa, mas o Africano que ouve música popular americana, come McDonalds, bebe Coca-Cola e vê Netflix é culturalmente semelhante ao Português que faz exactamente o mesmo. A cultura é a suma das acções e atitudes de um grupo humano – se as acções e atitudes são as mesmas, os grupos, para todos os efeitos, são os mesmos e podem misturar-se à vontade, pois já não há praticamente nada a separá-los.

Da mesma forma, o tradicionalista queixa-se do declínio moral observado na sociedade, da destruição da família e da comunidade, da atomização e do individualismo, sem nunca apontar a mira ao mecanismo que não só possibilitou a destruição de toda a ordem social que considera valiosa, mas tornou essa destruição uma inevitabilidade.

Na sociedade tradicional, a família e a comunidade não eram uma escolha, nem uma convenção, mas uma necessidade de sobrevivência. O indivíduo precisava de uma rede de apoios familiares e comunitários para existir e persistir. A tradição era, ao mesmo tempo, uma ferramenta para as novas gerações, que tinham um ponto de partida, e um Waltons_on_porchobjectivo que significava a sua perpetuação, porque ao perpetuá-la cada família e comunidade assegurava o seu futuro. Coisas tão simples como os filhos continuarem os misteres dos pais, ao invés de perseguirem outras ocupações, assegurava a continuação e manutenção da comunidade. A introdução de automatismos retira esta necessidade, e promove a dispersão e dissolução da comunidade. A invenção da fábrica moderna destruiu, para todos os efeitos, esta forma de vida – ou seja, destruiu a comunidade e a família tal como foi entendida durante milénios. Hordas de rurais abandonaram as suas comunidades porque as suas actividades económicas já não eram rentáveis face às capacidades tecnológicas das fábricas; substituíram a sua comunidade particular pelos habitáculos indistintos e estranhos da cidade onde não conheciam os vizinhos, nem tinham com eles nada em comum, a não ser a desgraça de terem sido empurrados para aquela situação; as suas culturas comunitárias, por sua vez, desapareceram, visto que o ciclo de continuação foi abruptamente parado; nas cidades, bayard-st-5-cent-lodgingos indivíduos atomizados aderem, pois, necessariamente à cultura urbana, cosmopolita e desligada de qualquer raiz, pois é a única que existe e que pode existir.

A moralidade tradicional perde toda a sua força quando é desligada da sua razão objectiva, de sobrevivência. A castidade e a monogamia deixam de ser ferramentas necessárias para uma vida salubre, e tornam-se opções – opções morais, mas cuja não-adesão deixa de ter penas concretas na vida terrena. Onde antes a libertinagem sexual trazia graves consequências para o indivíduo (e, visto que este estava inserido numa comunidade, também para todos à sua volta), com a introdução de métodos contraceptivos modernos, de métodos abortivos mais seguros, até da facilidade de providenciar sustento sendo mãe solteira, as consequências são atenuadas, quando não removidas, e a regra moral deixa de ter uma aplicação clara e objectiva na vida comum. O mesmo para a monogamia heterossexual, que numa sociedade tradicional é a única forma de produzir progenitura e assegurar que esta tenha possibilidade, não só de estabilidade psicológica, mas de sustento e fhhsobrevivência, através da introdução tecnológica torna-se uma escolha – e todo o tipo de arranjos alternativos se auto-justificam.

E reparem que não referimos as consequências dos malefícios do progresso tecnológico, que em geral só são descobertos tarde demais, como por exemplo a destruição do meio natural pela poluição industrial ou a contaminação dos nossos corpos por partículas tóxicas, como comprovadas regularmente em estudos que chegam à conclusão de que os avanços tecnológicos têm, afinal, também prejuízos. Estamos a falar das consequências, não dos malefícios, mas dos benefícios do progresso tecnológico. Estes benefícios, que são inegáveis, como o aumento da esperança de vida ou a relativa facilidade na produção de alimentos, têm em si mesmos contrapartidas nefastas, sobretudo de um ponto de vista de direita. Que os vários avanços tecnológicos tenham algumas consequências materiais negativas é óbvio para todos com o passar do tempo, mas que as consequências materiais positivas trazem os seus próprios problemas – e que não são problemas pontuais e circunscritos, mas problemas civilizacionais, de paradigma – não é tão fácil de ver, ou de admitir. Se o fosse teriamos muito mais vozes na direita a expressar preocupações com este fenómeno, e a verdade é que não temos.

Inúmeros outros exemplos podem ser dados daquilo que era natural e necessário numa sociedade tradicional, mono-cultural e mono-racial, e que se torna acessório, opcional ou até desvantajoso com a introdução de tecnologia moderna. Aqueles que lutam a favor de um retorno sem criticar o sistema tecnológico, estão a lutar contra uma sombra numa parede – e quem dá murros contra paredes, não só magoa a mão, como não fere o DSC00494PS21.jpginimigo. A modernidade pode ser uma doença espiritual, mas é enquadrada em parâmetros físicos. Todas as sociedades Europeias, no continente ou na diáspora, estão afectadas e infectadas por esta doença. Será que o problema é, então, especificamente Europeu? Não, a razão para as sociedades Europeias (e logo a seguir as do extremo Oriente) serem as mais afectadas é que são as que há mais tempo convivem com a tecnologia moderna, que lideram os seus avanços e sofrem primeiro as consequências da sua introdução. A existência de grupos como os Quakers, os Amish ou os Menonitas, que rejeitam a tecnologia moderna e, não por acaso, mantêm comunidades tradicionais, mono-culturais e mono-raciais, prova a origem do problema.

O Globalismo, em todos os seus aspectos culturais, raciais e morais, não é na sua génese uma simples ideologia, que pode ou não ser promovida e pode ou não ser combatida em si mesma. O Globalismo é a mera racionalização do sistema tecnológico, a moldura necessária para o quadro pintado pelo progresso tecnológico. A história da Torre de Babel é muitas vezes trazida à discussão para ilustrar o Globalismo, tanto da parte dos eu-tower-of-babel-poster.jpgseus opositores como dos seus proponentes. Mas os seus opositores falham em ver que há uma lição tecnológica na história: a construção não seria possível sem os materiais, o conhecimento e a linguagem comum. Quando Deus dispersa as nações, não as separa simplesmente em termos geográficos, mas retira-lhes a ferramenta, a linguagem comum, que era a condição principal para a sua afronta a Deus. A mesma lição existe na história da desobediência humana no Jardim do Éden, em que o novo conhecimento precipita a decadência de toda a criação. Aqueles que encolhem os ombros e vêem esta admonição como irrelevante ou até contraproducente, estão presos numa visão progressista do mundo, a mesma da Esquerda, de que o progresso é um bem em si mesmo, trazendo novos amanhãs que cantam, e que a estabilidade é uma anomalia. Daí verem o progresso tecnológico, não como destrutivo, mas como libertador. Mas piores são aqueles que, entendendo a lição Bíblica, ainda assim fecham os olhos à sua manifesta e óbvia encenação contemporânea, o progresso tecnológico e as suas consequências para a saúde moral dos homens e das suas sociedades. Ambos, porém, ao ignorarem ou apoiarem o progresso tecnológico, passado, presente e futuro, estão a lutar sem saberem contra si mesmos, em contradição absoluta.

Este parece ser o comprimido mais difícil de engolir para os meus correligionários: o progresso tecnológico é inerentemente disruptivo de tudo aquilo que a direita diz querer preservar, seja de natureza cultural, racial ou moral. Ou seja, é necessariamente uma ferramenta da esquerda, que só pode avançar os objectivos da esquerda. Se a direita quiser lutar de forma séria e eficaz contra os males que correctamente identifica no mundo, tem de ser necessariamente céptica de avanços tecnológicos e favorecer um retorno, não só aos aspectos exteriores da sociedade tradicional, mas às condições tecnológicas que as tornavam possíveis e salutares.