Porque todos os partidos em Portugal são de Esquerda

Para começar a entender o título deste texto, é preciso compreender que em democracia a Direita não tem direito a existir. Na medida em que existem partidos nominalmente de Direita, que são identificados como de Direita pelas elites e que se identificam como de Direita perante o povo, eles existem apenas dentro de um espectro de opinião aceitável que é determinado pela Esquerda.

A opinião aceitável em democracia é determinada pela Esquerda porque a democracia é uma ideia de Esquerda e não permite que se pense fora da sua caixa. Se analisarmos as prescrições políticas dos vários partidos, verificamos que elas não diferem em substância. O espectro de opinião, de resto, é o mesmo que se ensina nas escolas – e que vai da Extrema-Esquerda até ao Centro, e relega a verdadeira Direita para o reino da imaginação. Se existe, é apenas num plano histórico. E mesmo nesse plano histórico, qualquer menção é uma crítica e qualquer julgamento vem com um premeditado veredicto. A democracia admite tudo o que é a seu favor, e nada do que é contra si.

Quem questiona a democracia não vai preso, porque não é necessário. Essencialmente não existe órgão oficial que a questione. Através da doutrinação política suave das escolas, das televisões, das rádios e dos jornais, não há necessidade de suprimir tais ideias. Matam-se à nascença ou ainda antes de nascer (uma ideia que a Esquerda aplica também aos seres humanos). Se porventura surgir uma criatura que dispute o consenso democrático, é ignorar. E se porventura o silêncio não funcionar, é ridicularizar a criatura como digna de internamento num manicómio.

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Legenda: à esquerda encontramos os Partidos democráticos. À direita temos, por ordem, Marcelo Caetano (que provavelmente deveria aparecer mais ao meio), António de Oliveira Salazar, António Sardinha (em cima) e Henrique Paiva Couceiro (em baixo). Inclui-os mais pela piada. Para o objectivo do texto, dado que é sobre o momento actual, podem imaginar a parte da Direita vazia.

Da economia à integração na União Europeia, os partidos democráticos não se distinguem particularmente uns dos outros. Se alguém conseguir ler os programas eleitorais e não morrer de tédio (confesso que tresli apenas, e sem muita atenção), poderá verificar que isto é essencialmente um truísmo.

Embora seja claro que o MRPP está mais à esquerda que o PNR, as diferenças não são muitas, nem fáceis de identificar. Por exemplo, no programa do PNR consta muita renegociação e reimaginação, mas não há nada que indique a saída da União Europeia (embora queiram sair do espaço Schengen), ou a saída da zona Euro. Já o MRPP, que não tem um programa eleitoral que se possa encontrar, provavelmente porque a sua existência é cosmética apenas – e devemos dar crédito à sanidade dos seus líderes por omitirem um documento que certamente ninguém iria ler – tem um manifesto onde entre outras coisas propõe a saída do Euro e a introdução de um novo escudo. Esse escudo, claro, não seria baseado no padrão ouro, e seria imediatamente inflacionado até valer exactamente zero – mas ao menos reconhecem parte do problema. Tendo em conta de quem estamos a falar, já não é mau.

Isto para demonstrar que da extrema-esquerda à ‘extrema-direita’ não vai muito. Dos partidos do centro nem vale a pena falar. Mas falemos brevemente. Distinguem-se uns dos outros apenas no seguinte: há os que são orgulhosamente herdeiros de Marx, Lenine, Trotsky e Estaline (entre outras encarnações menos emblemáticas e mais recentes) e os que são acólitos modernos da Catedral, e que apesar de na sua génese terem o mesmo marxismo, têm pudor em revelá-lo (possivelmente porque, tendo em conta o nível intelectual das suas figuras, também não sabem). Em alguns casos particulares, já de si raros, incluem uma tímida alusão ao Cristianismo, sem que daí tirem qualquer conclusão política. O CDS, por exemplo, fala no seu programa eleitoral no capítulo dos ‘princípios éticos’ em ser, moralmente, contra o aborto. E no entanto, nos capítulos sobre políticas concretas, não fala na sua proibição, ou nem sequer de um referendo específico sobre o assunto (embora uma das suas posições base seja fazer referendos por tudo e mais alguma coisa). O CDS tem pontos extra por iniciar o seu programa em forma de poesia, que é sempre bonito. Para terminar, menciono o PPM, que declara num acesso de radicalismo querer substituir a III República por uma Monarquia Constitucional. Que arrojado.

Isto, meus caros, é um inventário da miséria. E se por um momento se pensar que algum destes partidos, tendo ganho eleições e enchido as sinecuras com as suas cabeças, vai cumprir alguma alínea dos seus programas eleitorais, não há caso para pânico. É ciência certa que tal não vai suceder. Podemos dormir descansados.

Esta situação não é uma surpresa. A abolição da Direita é uma consequência inevitável do sistema democrático. Vários factores, que começaram a surgir ainda no Estado Novo, em particular quando Marcelo Caetano tomou o poder, podem ser apontados mas é mais importante perceber o cerne da questão: em Democracia o discurso político ou é de Esquerda, ou não existe. Na marcha imparável para o progresso, os postes da baliza política movem-se constantemente para a Esquerda. E os partidos e movimentos de ‘Direita’ ou aceitam o novo consenso, ou arriscam-se a ser apelidados de extremistas. O PNR pretende ser uma versão lusitana e sanitizada do NSDAP, sem racismo e sem violência. Por isto, é apelidado de extrema-direita. E no entanto, o NSDAP era de Esquerda. Acho que posso considerar o meu argumento adequadamente ilustrado.

Agora que definimos o problema, convém ir mais fundo para se perceber, afinal, o porquê de não existir Direita verdadeira. A Direita verdadeira é antidemocrática, tradicionalista, de preferência monárquica, descentralizadora. Pode dizer-se que quer um Estado pequeno, mas forte. Ou seja, é o exacto oposto da Esquerda, que é democrática, intransigentemente republicana, centralizadora, progressista – o que resulta num Estado enorme, mas fraco.

Há uma frase de Salazar que é icónica, que descreve a solução para o problema e identifica a origem do mesmo:

Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a Pátria e a sua história. Não discutimos a autoridade e o seu prestígio. Não discutimos a família e a sua moral. Não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.

Na prática, isto pressupõe suprimir essas mesmas discussões na esfera pública em geral e em órgãos oficiais em particular – que era de facto o que sucedia durante Salazar. Antes de se horrorizarem com a proposta de suprimir alguma coisa (porque em democracia é impensável suprimir opiniões políticas da vida pública – a menos, claro, que sejam opiniões de Direita), convém perceber que existem razões para o que acima vem descrito não ser discutido.

É óbvio que a discussão de Deus e da virtude, degenera no relativismo moral. Que a discussão da Pátria e da sua história degenera no fim da autonomia nacional e na entrega da soberania a entidades exteriores. Que a discussão da autoridade ameaça todas as relações hierárquicas e põe todos os que devem obedecer contra todos os que devem mandar (mulheres contra maridos, filhos contra pais, alunos contra professores, etc e tal). Que se discutirmos a família e a sua moral, aceitamos a promoção de estilos de vida alternativos (sejam eles homossexuais ou a simples assistência à filiação ilegítima e às mães solteiras). Que quando se discute a glória do trabalho e o seu dever, abrimos a porta aos subsídios que destroem comunidades e os indivíduos que delas fazem parte.

A partir do momento em que estas coisas se começam a discutir, quer dizer que não são absolutas. e a partir do momento em que não são absolutas, podem ser substituídas. Para uma ilustração prática, é olhar para Portugal – ou, se insistirmos em estrangeirismos, para a civilização ocidental desde a Revolução Francesa.

O que se observa em paralelo, e que arranca acelerando em direcção ao extremismo, é o avançar da discussão e da substituição desses valores (por outros, de Esquerda). Mais uma vez, isto não é só um problema português. Em Portugal começou nos anos 60, mas em muitos outros países, com uma tradição democrática mais antiga, começou antes. A verdade é que a viragem à esquerda é hoje em dia, em quase todo o mundo civilizado, praticamente total.

Mas não só os valores tradicionais se tornaram discutíveis, primeiro, e depois descartáveis, agora são intocáveis: é na prática, mesmo que não na lei, proibido advogar as posições tradicionais pelo preço social, económico e político que fazê-lo tem para qualquer indivíduo ou organização. Daí que um partido de centro esquerda como o PNR seja um pária no panorama político – mesmo sem defender na realidade nada que se distinga do consenso democrático da Catedral. E de qualquer das formas, atrai maioritariamente pessoas com pouca capacidade intelectual e que não têm nada a perder – e que por isso mesmo, ainda acabam por denegrir mais perante o cidadão comum a ideia de Direita.

E para as pessoas que se identificam como de Direita, e que no fundo só clamam pelo direito à existência, mesmo que seja uma existência limitada pelo consenso democrático, é importante que entendam que essa existência não é estática. Ontem podiam acreditar em coisas que hoje já não podem. Amanhã, sabe-se lá em quê é que poderão acreditar. Como dissemos, os postes continuam a ser movidos: há uns meses uma conferência inócua que Jaime Nogueira Pinto quis fazer sobre temas absolutamente não controversos (no fundo, sobre a eleição de partidos democráticos mais ou menos nacionalistas) foi cancelada por cobardia face à intimidação de ‘alunos’ e professores de extrema-esquerda e com a indiferença da maioria.

Depois não digam que não vos avisei.

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