O Liberalismo do presente é o Socialismo do futuro

Willis+from+Tunis,+Vivre+Libre+ou+Mourir+small.jpg

Antes de começar a expor os problemas da ideologia Liberal e evidenciar o porquê de ser necessário a Direita rejeitá-la, quero admitir (como um alcoólico em recuperação) que customava ser um ideólogo do Liberalismo e que a crítica abaixo se aplicaria em grande parte à minha visão do mundo ainda há uns anos atrás. Mas mais pertinentemente vou começar por salientar um facto que ilustra a minha tese central de forma caricata.

O facto é o seguinte. Nas sociedades em que o Liberalismo foi implementado (as anglo-saxónicas, e em especial, nos Estados Unidos da América), o significado do Liberalismo mudou radicalmente até passar a significar o seu contrário. Enquanto que na Europa continental o Liberalismo mantém, pelo menos em teoria, a liberdade individual (e subsequente defesa do mercado livre) como seu valor central, nas sociedades anglo-saxónicas o Liberalismo significa algo completamente diferente e quase totalmente oposto – que nas nossas sociedades continentais, que nunca tiveram Liberalismo, se designa como Social-Democracia. Resumindo: o Liberalismo é no mundo anglo-saxónico a ala moderada do Socialismo.

Por isso os liberais no mundo anglo-saxónico tiveram de encontrar uma nova forma de se designar. A designação escolhida foi Libertarianismo – curiosamente um termo que era originalmente usado para a vertente pacifista do Socialismo, talvez numa tentativa de vingança ou justiça poética pelo facto da Esquerda lhes ter roubado a palavra Liberalismo. Outras designações não tiveram uma aderência significativa, e apesar de manterem o seu nicho militante (como outras designações de Comunismo), os liberais passaram maioritariamente a designar-se a eles mesmos como Libertários.

Não surpreendentemente, e sem ser necessário terem chegado ao poder (algo impossível, dado que uma sociedade de origem liberal passadas várias décadas não volta às suas origens – veremos já porquê), os libertários já começaram a ter a sua nova designação infiltrada e, em breve, redefinida. O processo está em marcha para tornar o Libertarianismo no novo Liberalismo, ou seja, noutra ideologia inteiramente de Esquerda que representa algo diferente daquilo que era suposto representar. Poderia dar vários exemplos desta redefinição, mas tornar-se-ia aborrecido, por isso vou apenas deixar um nome: Gary Johnson.

Esta redefinição não é uma coincidência, mas um resultado inevitável do ethos do Estado Liberal. Alguns liberais poderão argumentar, como muitos comunistas argumentam desavergonhadamente, que o ‘Verdadeiro Liberalismo’ (com letras maiúsculas) nunca foi tentado – e só lhes dou razão se esses liberais estiverem a falar de anarco-capitalismo, mas geralmente não estão. Pelo que é, em ambos os casos (e como os liberais identificam no caso dos comunistas) apenas retórica para evitarem a realidade.

O Liberalismo é a verdadeira via do meio: nem de Direita, nem de Esquerda. A lula política por excelência. Da Direita retira o respeito pela propriedade privada – e daí extrai uma concepção secular de Livre Arbítrio (LA) – um tema que quero abordar em particular noutra altura; da Esquerda retira o igualitarismo (resultado da tal interpretação secular do LA).

O problema do Liberalismo é precisamente ser uma ideologia igualitária, e portanto indiscriminadamente tolerante. O ethos Liberal não diz nada sobre valores fundamentais, mas sim sobre liberdades fundamentais. É um ethos negativo, não positivo. Por ser igualitário, o Liberalismo é inapelavelmente Democrata. E por esta razão, degenera com a passagem do tempo e progressivamente na sua face de Esquerda, perdendo totalmente a sua parte de Direita.

O Liberalismo é uma óptima ideia para a elite, mas um desastre para a plebe. Antes de explicar porquê, uma palavra sobre as classes.

As diferenças entre classes podem essencialmente ser explicadas pela alta ou baixa preferência temporal – a plebe tem uma alta preferência temporal, vive obcecada com o presente e com a satisfacção dos seus desejos imediatos em detrimento da sua existência futura, enquanto que a elite tem uma baixa preferência temporal e é capaz de controlar os seus desejos presentes em prole da sua existência futura. Em geral, a alta ou baixa preferência temporal está ligada ao QI. Algures no meio, está a classe média.Um homem nascido na plebe com um QI acima da média, e se o nível de socialismo na sua sociedade for tolerável, não fará para sempre parte dessa classe. Um homem nascido na elite mas com um QI abaixo da média, tenderá a esbanjar a herança que lhe deixaram e a abandonar a elite.

A razão porque o Liberalismo é destrutivo para a plebe é porque assume que todos os seres humanos devem ter a possibilidade de escolher os seus próprios valores (o Secularismo é outra parte do igualitarismo que os Liberais fundamentalmente aprovam). Na prática, o Liberalismo não tem problemas com qualquer tipo de imoralidade, nem com a destruição pessoal através da mesma. Afinal, somos todos individuos e todos devemos ter a liberdade de nos auto-destruirmos. O problema é que a permissão da imoralidade e da auto-destruição não tem o mesmo resultado entre a elite que tem entre a plebe. Homens da elite saberão na maioria dos casos manter a sua imoralidade e auto-destruição a um nível moderado, não pondo em causa a sua existência futura, e por isso contendo-as essencialmente a si. Homens da plebe, pelo contrário, destruirão a sua vida, a dos filhos e a da comunidade. E, através da Democracia, destruirão também o país.

A plebe não tem a capacidade de se auto-moderar para salvar a própria vida. E o Estado Liberal, mantendo o seu ethos negativo, não tem meios, nem vontade, de evitar este desastre. Dito de outra forma, o Liberalismo é incapaz de formar cidadãos Liberais, acabando por formar cidadãos libertinos que, através da democracia, acabarão por destruir não só o Liberalismo mas também todas as liberdades.

comment_AiSfsyu6AAwkYIG4A3OeKeBgjdiqaXuM.jpg

Isto porque o Estado Liberal não é apenas incapaz de evitar o naufrágio moral da plebe, mas igualmente incapaz de eliminar ideias e movimentos políticos que pretendam usar a plebe para destruir o seu ethos negativo – isto é, ideias e movimentos que propõem a violação dos seus princípios básicos, ou até que proponham abertamente a insurreição, o caos e o totalitarismo. Tanto o hedonismo e o niilismo como os vários tipos de socialismo, incluindo os revolucionários, são vistos pelo Estado Liberal, apesar das suas óbvias consequências de barbárie e miséria para a sociedade, como legítimos – pelo menos de um ponto de vista teórico. Se o Estado Liberal trata a incitação individual à violência com a força da Lei, trata a incitação colectiva a uma forma massiva de violência e subversão com diálogo e posições nas universidades e nos meios de comunicação.

Pelo que a plebe, vergada pela sua incapacidade de auto-moderação, votará em respostas iatrogénicas (socialismo) para adereçar os resultados da ausência de valores fundamentais a que foi entregue. E com o tempo, o Estado Liberal transforma-se, pela rotatividade das eleições de sufrágio universal, numa sistematica e virulenta rejeição da ideia de propriedade privada. De Direita, nada restará.

Eis a história do Liberalismo realizado na prática: uma transição, mais lenta ou mais acelerada, para o socialismo e o relativismo moral. O resultado é observável na política, na economia e na cultura. E por isso é necessário que a Direita, se não quiser acabar transformada em Esquerda, rejeite o Liberalismo.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s