O Meio é a Mensagem

Daily news and sugar confuse our system in the same manner.
Nassim Nicholas Taleb

A citação acima aparece no livro Antifragile (altamente recomendado, como os outros do autor) e vem na sequência de uma explicação do fenómeno de iatrogenia quando aplicado ao consumo regular de notícias. Em resumo, o que Taleb argumenta é que os jornalistas precisam de encher chouriços para vender jornais (e mais importante, anúncios), todos os dias. A atitude adequada seria ter jornais de várias páginas quando há notícias relevantes que o justifiquem, e jornais com poucas ou nenhumas quando não as há. Visto que isto não acontece, ler jornais é essencialmente consumir fast food – o pouco de nutritivo encontrado na refeição, é soterrado em, e anulado pela, enorme quantidade de porcaria.

Não é por isso de admirar que o consumo de notícias no mundo moderno, das notícias ao minuto, seja essencialmente um exercício plebeu. Uma forma perversa de entretenimento, a institucionalização do mexerico, a veia respeitável da intriga – ou a simples e c350px-Nompleta irrelevância. Comentar notícias é portanto uma actividade direccionada à plebe. Se Marshall Mcluhan estava certo, então os comentadores de notícias são a diabetes resultante do consumo do McDonalds dos media. Por vezes é difícil dizer se os blogs têm alguma mensagem independente do que aconteceu no próprio dia.

Os jornais são portanto, e no melhor dos casos, irrelevantes. Os blogs, no entanto, podem ter utilidade. Só que a maior parte deles está focada em reagir aos jornais – como se estes ainda fossem relevantes. Não é pois surpreendente, tendo em conta que o público alvo é a plebe, que os comentadores de notícias não se distingam em geral pela sua perspicácia, pertinência ou inteligência. Nos blogs o público alvo não é a plebe – a plebe, em geral, não lê – mas sim a classe média. Essa fraquíssima classe média que é essencialmente uma plebe com mais algum dinheiro para consumir a cultura plebeia. O resultado dos blogs cuja principal função é comentar notícias, para os quais não vou providenciar links, pois toda a gente sabe quem são – e que não estão na lista aqui ao lado por esta razão – é a perpetuação da plebeização da classe média.

Não temos um equivalente decente, na língua portuguesa, da expressão anglo-saxónica knee-jerk, mas assumo que os meus leitores, não fazendo parte da plebe, conheçam a expressão e saibam o que significa. Muitos blogs políticos, incluindo infelizmente os que se situam à direita, que são os que me interessam adereçar, existem para este exercício de knee-jerk. O governo faz ou diz qualquer coisa, um evento internacional ocorre, e lá vão eles comentar. Na grande maioria dos casos, é irrelevante. É apenas a saciação do instinto primitivo e plebeu para o mexerico. A maioria dos eventos ou das acções do governo encaixam em meia dúzia de categorias, pelo que o teor dos comentários é sempre o mesmo.

Quando a maioria do produto dos blogs é determinado pela reacção imediata a eventos recentes, o produto não pode distinguir-se pela clareza da reflexão. Muitas vezes não sabemos porque tomámos certa decisão, nem os seus efeitos a longo prazo, até muito tempo depois da decisão em si mesma. Se isto acontece a um nível pessoal, quanto mais acontecerá se estivermos a reagir a estímulos exteriores. Pelo que, tal como nos jornais, quando há de facto notícias relevantes, como vamos saber se o comentário é relevante?

Não é difícil entender que este meio, esta fórmula, é simplesmente um facilitismo. É mais fácil reagir às notícias diariamente do que encontrar algo diferente para dizer. Até porque já tudo foi dito uma e outra vez. Duvido que este texto tenha alguma coisa de original. Mas ao menos reajam à haute cuisine do pensamento político, não à fast food dos jornais. Ou tentem. Tentar já é meio caminho andado.

Quantas vezes é preciso dizer que o Presidente da República é inepto e movido pelo apelo popular e que o Primeiro Ministro é um arrivista, que muda o discurso conforme a plateia? Quantas vezes é necessário informar que as acções do governo são contraproducentes (como se em geral houvessem acções governamentais em democracia que sejam produtivas, e ainda por cima publicitadas nos jornais)? Quantas vezes é preciso apontar que o Bloco de Esquerda, o PCP e a Esquerda em geral são um cancro para a sociedade e a exemplificação da doença mental em forma política? Quantos posts são necessários para condenar a barbárie do Islão?

O ataque de Manchester, o mais recente exemplo da consequência lógica da Democracia, gerou inúmeros posts. E não era de esperar menos. O público assim o exige. No entanto, a Direita devia perguntar-se se a sua estratégia devia ser a mesma da Esquerda, isto é, apelar ao público. O apelo ao público, à plebe e à classe média plebeizada, que tem como resultado, e em alguns casos como objectivo, plebeizar ainda mais essa mesma classe média, é talvez o exemplo mais óbvio de que a Esquerda domina o discurso.

Isto sublinha a necessidade de novas elites de Direita, que em vez de apelarem ao público, o instruam. Que não se deixem arrastar para o mínimo denominador comum, mas pelo contrário tentem elevar a discussão. Que não corram em direcção ao vazio numa tentativa de reformar um sistema perverso por dentro, mas sim retornem a um modo de sanidade do discurso e se dediquem a discutir como sair do paradigma presente.

Agora, para ilustrar o meu argumento, vou ter de efectuar um comentário sobre o atentado de Manchester. O que salta à vista sobre o atentado em primeiro lugar é o seu carácter banal. Não há nada de excepcionalmente surpreendente no acontecimento, nem nas reacções à direita ou à esquerda. O barbarismo do Islão não é notícia, é rotina. O autismo da Esquerda não é só expectável como natural. A reacção ambígua e amoral das falsas elites políticas também é par for the course.

A verdadeira notícia sobre o atentado Manchester não é pois a violência, mas o relativismo moral do Ocidente. Essa deveria ser a preocupação da Direita.

Num “concerto” de uma stripper cantante, cujos cartazes que promovem o evento fazem alusão às coelhinhas da Playboy e ao sado-masoquismo, cujo “espectáculo” consiste em agitar-se semi-nua ao som de cacofonia sem qualquer redenção musical, com acompanhamento dançante de homens e mulheres que simulam actos sexuais (hetero e homo), cujo conteúdo lírico é essencialmente pornografia (pesquisem as letras se não acreditam), o que choca é a presença de crianças no evento. Que este facto não seja discutido, é preocupante. Eu tentei em vão procurar essa mesma discussão nos blogs de Direita, e não a encontrei.

As crianças morreram às mãos dos bárbaros porque a Democracia permitiu que eles entrassem nas nossas sociedades. Mas, mesmo que não se tivesse permitido a sua entrada, a cultura moderna no Ocidente continuaria a ser moral e intelectualmente degenerada. As vidas das crianças que morreram teriam sido salvas, mas não as suas almas. Porque as elites modernas continuariam na sua demissão, na sua cobardia, abandonando qualquer insistência em padrões artísticos e morais – ou sequer na simples rejeição da sexualização das crianças. A degeneração continuaria a ser promovida pela Esquerda, e à direita continuaria o silêncio gritante de quem não os tem no sítio para chamar os bois pelos nomes.

Este é o verdadeiro tema porque se a degeneração moral e intelectual do Ocidente não for resolvida, então o que resta para se salvar da nossa civilização? Porquê rejeitar os bárbaros? Essa é aliás uma das razões pelas quais os bárbaros nos vêem como presa fácil: uma civilização sem valores não dura muito mesmo sem invasão. A razão porque estamos abertos a essa invasão é precisamente por essa ausência de valores.

A Direita esqueceu-se que deveria ser moralista, e moralizante. Quer ser como a Esquerda. Para angariarem meia dúzia de plebeus, preferem mover-se intelectualmente na Overton Window, no discurso aceitável pelo consenso de Esquerda. Em suma, ao aderir ao meio da Esquerda (apelar ao público) a Direita transforma-se na Esquerda.

Por isso não é surpreendente que a Direita tenha tão pouca influência. Os seus comentários são o espelho da Esquerda, não uma interpretação independente. As suas reacções aos eventos são apenas sinalizações da sua posição no espectro político. Um espectro que é definido pela Esquerda. O seu meio é o mesmo, ou seja, a sua mensagem é a mesma.

2 overton usDaqui a dez anos, esta ‘Direita’ terá a mesma opinião que a Esquerda tem hoje – tal como essencialmente tem hoje a mesma opinião que a Esquerda tinha há dez anos (excepto talvez na Economia – é um tema difícil de desaprender). Um episódio caricato que ilustra bem a situação: há uns bons anos presenciei uma cena em que um padre se recusou a deixar entrar na igreja uma rapariga porque tinha os ombros destapados, e só  deixou quando ela, contrariada, os tapou. Hoje raparigas entram na igreja como se fossem à caça para o Intendente e ninguém diz nada. Provavelmente para não ferir as susceptibilidades progressistas dos pais, que deviam ter mais noção do que deixar a miúda vestir-se assim.

Com esta atitude, é impossível evitar que os postes da baliza se movam constantemente. O que é preciso é que a Direita saia de campo e jogue outro jogo.

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6 thoughts on “O Meio é a Mensagem

  1. Caro autor de Portugal Integral,

    Pedia-lhe por favor que retirasse o meu blogue da sua lista, visto que o Portugal Integral está numa linha ideológica contrária ao Veritatis (ao qual insistem chamar Acção Integral). Obrigado.

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    • Caro José,

      Peço desculpa por ter atribuído o nome baseado no URL, em vez do nome do blog em si.
      Também não é a minha intenção sugerir que os blogs que estão na lista subscrevem aquilo que eu escrevo, ou que eu subscrevo tudo o que se escreve neles. Julguei que essa premissa não precisava de ser abertamente declarada.

      De qualquer das formas, e como pedido, retirei o link da lista.

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  2. Essa questão aqui levantada é interessante. Uma das coisas que me espantou no atentado de Manchester foi saber que uma das vítimas mortais tinha oito anos, o que me levou a perguntar que raio de mundo é este em que vivemos onde uma criança de oito anos vai ver um concerto daqueles. Que pais são estes, de hoje, que consentem em que as filhas de 8, 10, 12 anos tomem rameiras como modelos de vida?
    E uma dúvida: tentei colocar o link do Portugal Integral na minha lista de blogues mas não consegui. Falha minha?

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  3. Caro João,
    Foi exactamente o que eu pensei também. Depois comecei a pensar em todas as crianças que são sujeitas a esta forma de abuso, e em que não se repara porque acontece em casa, ou nos smartphones, ou em concertos onde não há ataques terroristas. Enfim, estes pais são produtos de um sistema de governo que não reconhece valores absolutos, e como tal subsidia todo o tipo de comportamentos desviantes e anti-sociais.
    Quanto ao link, não sei bem qual será o problema. Será que estou a ser censurado pelo Google? ahaha

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