A Revolução Reaccionária no Século XXI

novabandeiraPorquê ter uma bandeira azul e branca sem a coroa? O que é que significa? Vou explicar no fim. Para chegarmos ao destino, primeiro temos de percorrer o caminho. Por isso, façamo-nos à estrada.

Suponho ser inevitável que um reaccionário dê consigo a sonhar com alguma espécie de restauração, ou seja, uma revolução; um corte com a elite política do momento e, no caso da revolução reaccionária, a sua substituição pela elite passada ou pela elite presente que representa esse passado. E sendo reaccionária, esta revolução, seria no sentido de uma sociedade recta e ordeira.

Só por ler a frase se nota o quão difícil será efectuar na prática uma tal contradição teórica. As revoluções são sempre violentas, caóticas – o contrário do que se pretende. Os golpes palacianos são mais elegantes, menos primitivos, menos desmiolados. Por isso a Direita, em geral, prefere-os às revoluções puras e duras.

A única forma de a Direita fazer um golpe palaciano é através das instituições: infiltrando, influenciando, convertendo. Com instituições queremos dizer os centros de influência política, religiosa, militar, económica, cultural, legal – que em democracia fazem todos parte do mesmo bolo, e que em Portugal significa também, centralizar tudo em Lisboa, e deixar ao resto do país as migalhas.

Só que os golpes palacianos apenas funcionam quando as instituições foram infiltradas. A formalidade do golpe na transferência de poder quando é dita em voz alta, é apenas isso: uma formalidade. O verdadeiro golpe acontece aos poucos, devagar, por baixo – muito antes de chegar ao palácio. Mas a eficiência de uma tal revolução pressupõe que as instituições estejam num estado em que é possível e desejável recuperá-las. Gostaria que me apontassem uma que não esteja podre dos pés à cabeça e cujo resgate valha a pena, para não falar da possibilidade de a resgatar. E, para não nos perdermos muito cedo em deambulações teóricas, convém lembrar que as ‘instituições’ são simplesmente as pessoas que populam e agitam as tais. Não há um espírito mágico a correr pelos corredores, a não ser possivelmente um ou outro demónio, mas esses são também o resultado da presença humana.

Pelo que a conclusão é que as instituições estão podres, porque as pessoas estão podres. Triste realização. O clássico golpe palaciano parece improvável. Mas vamos esquecer o caminho para lá, e imaginar que está feito, por milagre. O golpe monárquico e o golpe ‘Faxista’, chamemos-lhe assim, são cenários diferentes, por isso vamos separá-los.

Imaginando a eventualidade de Portugal voltar a ser monárquico, devolvendo o trono ao seu herdeiro, a ideia de que cortará com a modernidade – não só politica mas culturalmente – já me parece demasiada suspensão da incredulidade para que os espectadores continuem a ver o filme. Não me parece igualmente que dure muito, mesmo que dê de início todos os passos certos. Só não argumento contra aqueles que acreditam na restauração por razões de fé – honestamente, apenas um milagre pode efectuar essa restauração, não só em nome, como em espírito. E a verdade é que ter fé em Deus é preferível a ter fé nos homens, em todas as ocasiões e circunstâncias.

Quanto aos monárquicos que acreditam, ou fingem acreditar, numa restauração por vias democráticas, rio-me da vossa ingenuidade e censuro a vossa malícia ou tolice.

Se sairmos do campo da monarquia, temos o ‘Faxismo’, as ditaturas populares de Direita (Salazarismo, Franquismo) ou com tiques de Direita (Fascismo, Nacional Socialismo). Imaginar uma restauração do Estado Novo, por exemplo, actualizado para o Portugal no Século XXI não deixa de ter o seu apelo nostálgico mas parece igualmente improvável, senão ainda mais. Aqui, nem o apelo ao Divino o pode fazer acreditar.

O problema das ditaduras populares é que são populares. Em última instância o poder está na figura carismática do líder. O Salazarismo era óptimo, mas morreu com Salazar – com ele era o que era, sem ele não era nada. Caetano não era terrível (era certamente melhor que qualquer político da I ou da III República), mas não tinha o carisma – e portanto não tinha a autoridade.

Na política, as massas são movidas por caras, símbolos, slogans – mas não são, nem nunca serão, actores políticos. Não o são em Monarquias Aristocráticas, como o não são em ‘Faxismo’, Comunismo ou Social-Democracia. Mas nestes últimos, mantém-se a fachada de que são (quer seja pela identificação do líder carismático ou do Estado com o povo, ou pelo sufrágio universal). Grande parte da propaganda do Fascismo Italiano e do Nacional-Socialismo Alemão propõe-se a afirmar que o Estado, o Líder, ou o Partido, agem em benefício do povo, através do povo: pelo povo e para o povo. Nessa pedra basilar está a fundação ideológica dos regimes autoritários de Direita. Ao contrário de uma ordem aristocrática, o poder está sempre na rua; a política faz parte da vida dos comuns mortais.

Pelo que para edificar uma ditadura popular de Direita, é preciso um povo em concordância. O povo português de hoje não é o povo português de 1926 ou até de 1945 – ou, sequer, de 1965. A consistente e insistente destruição e implosão do casamento, da família, da comunidade, da Igreja, etc etc etc, tem os seus efeitos inevitáveis. O povo é de Esquerda. O povo até pode querer mais autoritarismo, mas é de Esquerda. Imaginem um Estado mais agressivo no combate ao crime, na protecção das fronteiras, na punição da delinquência; imaginem um Estado que banisse a pornografia, ou proibisse as relações homossexuais. Imaginem um Estado que ilegalize o aborto. A reacção popular seria de rir se não fosse de chorar. Isto mesmo sem contar com o dinheiro estrangeiro que geralmente acaba no meio destas causas. Mas mesmo sem esse dinheiro, quer-me parecer que a probabilidade do regime durar é pequena.

Abrir a política ao povo é convidar e promover o elemento mercenário e o elemento parasítico numa ordem social, qualquer que seja. De repente, o exercício do poder, a garantia de uma ordem, não é um dever de homens capazes e dispostos, mas uma carreira com promessas de subir na vida. Os piores são atraídos para o topo, seja com partidos ou com o partido. Voltamos a repetir: o povo de hoje não é o povo de Salazar. É o povo de Mário Soares e Cavaco Silva. Uma importante diferença. Uma diferença que inviabiliza a restauração.

Pelo que a restauração monárquica ou ‘faxista’ é, na minha perspectiva, um sonho idílico de quem não costuma privar com o cidadão comum.

E aqui chegamos à questão da bandeira. “Se não acreditas na restauração, porquê a bandeira azul e branca?” “E porquê apropriar as cores sem a coroa?” O que a bandeira significa é que, apesar da nossa história e da tradição monárquica em Portugal, me interessam pouco os aspectos cosméticos da Monarquia. Sou monárquico porque acredito que o governo privado e hereditário é a forma natural de governo, porque considero que essa é a forma recta e desejável do exercício do poder, não porque nutra qualquer simpatia ou reverência pelos nossos membros da aristocracia, ou pelas qualidades estéticas da história da monarquia portuguesa. A aristocracia moderna é o produto do seu tempo e, admita-se, não serve. Uma nova aristocracia terá de nascer para que um regime monárquico exista. Uma aristocracia nascida do mérito, da honra e do sentido de justiça, ou seja, da verdadeira autoridade, na qual o exercício recto do poder se funda. Tal como surgiu aquela depois da queda do Império Romano, nascerá esta depois da queda do Império Americano.

Por isso, não desanimem. A batalha não está perdida. É simplesmente longa e nós estamos na fase de transição. Para fundar uma nova aristocracia é preciso fundar um novo povo que reconheça a sua autoridade natural. Não existem soluções fáceis e rápidas. Não existe revolução reaccionária que, numa manhã de nevoeiro, traga o almejado regime e o permita governar em paz. Para o regime mudar as pessoas têm de mudar. E isso leva tempo.

Por isso escolhi uma bandeira que não é a presente, nem a passada, mas uma que signifique a aspiração a um Portugal futuro. É a minha convicção que a “ordem” (e ponho aspas porque é mais uma desordem) presente está para lá da salvação e com a sua desintegração, as estruturas de poder vão desaparecer e a realidade será reduzida à sua base natural: a família. Depois, a comunidade. A nós, e provavelmente aos nossos filhos, netos e bisnetos, resta-nos continuar. Os nossos números vão descer. O nosso conforto vai diminuir, as adversidades aumentar. Mas pela persistência no esforço da continuação nascerá uma nova ordem.

A resposta simples, mas não fácil, é que para fundar uma nova monarquia, é simplesmente preciso ser um Homem. Ser um Homem nas acções e nas palavras. Ser honrado e não apologético. Fazer o bem e evitar o mal. Planear e construir. Ter uma família e liderá-la. Fazer filhos e educá-los, para que eles possam fazer o mesmo quando crescerem. Continuar, indiferente às modas e às obsessões do mundo iníquo que nos rodeia. E um dia, mais cedo ou mais tarde, os nossos netos ou bisnetos poderão hastear uma nova bandeira e proclamar Portugal uma pátria, novamente, integral.

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9 thoughts on “A Revolução Reaccionária no Século XXI

  1. Parabéns pelo artigo. Concordo quase inteiramente, com algumas reservas no último parágrafo relativamente ao facto da obrigação de constituir família como condição para uma futura restauração – vê que no mundo actual a influência da educação familiar é mínima com todas as influências globais que moldam os jovens. Apesar de isto ser uma opção temos que abrir as opcções a outros modos de influenciar o universo.

    Abraço,
    João

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  2. Olá João,
    Obrigado pelas palavras.
    Concordo completamente que as influências exteriores têm uma enorme e perniciosa influência, e incrivelmente forte nas crianças. Mas não diria que a influência familiar é mínima. Pode sê-lo e muitas vezes acaba por ser mas também diria que na maioria dos casos os pais não estão totalmente investidos. Cabe aos pais investir. Criar filhos é um trabalho e uma arte, e muito mais numa sociedade como a nossa, em que não podemos propriamente confiar na comunidade para ajudar. Se falarmos nas grandes cidades, ainda menos. Mas por outro lado não vejo grande alternativa. Claro que tenho um blog e tento influenciar as pessoas assim, mas deve haver poucas pessoas que o leiam que não tenham tido um bom acompanhamento familiar para estarem dispostas e interessadas em temas assim.
    Que outras opções vês como viáveis para os homens com boas ideias sem a vertente de ser fértil e multiplicar? Não que seja para todos, claro, mas eu vejo-o como um ideal a almejar.

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  3. Olá,

    Concordo com a opção acima descrita, embora tenhamos que reconhecer que, a fazer, terá de ser num regime cada vez mais duro e de rejeição da sociedade em geral.

    Quanto a outras opções viáveis, penso que menos que pensar em fazer parte de organizações, grupos, movimentos, etc., o que verdadeiramente conta é a atitude interior de se manter fiel à Tradição, seja numa grande cidade, no campo, organização monástica ou vivendo isoladamente.

    Acredito que nestes tempos finais desagregação, a reclusão religiosa ou o seguir um caminho ascético são opções cada vez mais naturais para todos aqueles que percebem a realidade actual e que optam por deixar de “actuar”.

    Cumprimentos,
    João.

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  4. Eu percebo a tentação da atitude MGTOW de ascetismo. Mas por outro lado, essa atitude apenas assegura salvação pessoal, digamos. Não contribui para a regeneração da população, e ainda menos da população que interessa. A meu ver é uma versão melhorada do que já acontece: pessoas com bons genes a reproduzirem-se cada vez menos, e pessoas com maus genes a reproduzirem-se como coelhos. Se a situação já é terrível agora, se homens como nós tomarem essa atitude voluntariamente (em vez de, como vai certamente acontecer a muitos de nós, por uma questão de resignação depois de ter tentado constituir família e construir uma comunidade mas falhar), torna-se absolutamente incomportável.
    Além disso, creio que o ascetismo é um caminho reservado a uma ínfima minoria, no sentido em que muito poucos homens têm uma tendência natural para ela – a maioria dos homens tem a tendência contrária para perpetuar o seu legado através de progenia.

    Suponho que a minha posição é a mesma que a tua, mas em vez de isolamento individual, aumentar o isolamento comunitário face à sociedade mainstream. A família e a comunidade são a única possibilidade de uma semente da nova ordem.

    O único outro caminho é o transhumanismo ou técnicas científicas de perpetuação da espécie, mas sou completamente oposto a isso e penso que, uma vez dado esse passo (que possivelmente estamos como espécie muito perto de dar), não haverá forma de voltar a meter o coelho na cartola.

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  5. Não penso que discordamos assim tanto, apenas gostaria de deixar um reparo relativo ao caminho ascético e seus efeitos: como o Mestre Julius Evola menciona (aqui aconselho a leitura de 2 livros fundamentais dele – Revolta contra o Mundo Moderno e a Teoria do Despertar), uma das causas de o mundo atual ainda não ter caído na completa e total escuridão deve-se não tanto a esforços políticos e materiais do que a realizações espirituais de homens que, seguindo diferentes caminhos ascéticos, mantém-se como focos de luminosidade num mundo cada vez mais negro.

    Não é por acaso que a secularização e a materialização do mundo foram acompanhadas (se não causadas!) pelo desaparecimento dos caminhos de verdadeira iniciação e/ou realização espiritual que existiam em todas as sociedades da Antiguidade.

    Não será a assunção que o mundo material e respetivas mudanças no mesmo nada dependem de proezas espirituais de alguns uma das ilusões modernas?

    Abraço,
    Joao.

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  6. À partida concordo completamente que é uma ilusão e que o desparecimento da via ascética é um sinal óbvio de que algo se perdeu. Mas não o poria no centro da questão.

    Devo dizer que falo sem conhecimento de causa. A vertente esotérica e mística do Evola deixam-me sempre de pé atrás, pelo que ainda não o li – está na lista.

    Hei-de ouvir a tua leitura da conclusão do seu livro, talvez me abra o apetite.

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  7. Na publicação anterior disse-lhe que ia no bom caminho, mas depois desta publicação já não posso dizer o mesmo. Esta publicação contém erros graves, fruto de Modernismo.

    Repare: Portugal não é um espaço que pode ser preenchido com qualquer coisa. Portugal tem uma essência própria, uma natureza própria. Portugal é uma entidade (ser) que por definição é católica e monárquica. Não se pode escolher regimes, nem bandeiras, sem trair e deformar Portugal. Portugal é um Reino Católico (não-constitucional) e cuja bandeira tem coroa e fundo branco.

    A respeito do Estado Novo, é importante que se note que este não surgiu fruto de uma elaboração metafísica prévia. Não se quis dar um outro regime a Portugal, mas sim arranjar uma solução para aquela situação concreta. E a solução foi de facto boa e inteligente. Ou seja, primeiro que tudo quis dar-se um fim à República e depois arranjar uma forma de pôr a Casa em ordem. E para isso, quis a Divina Providência que os militares chamassem Salazar para o Governo. Contudo, não podemos fazer do Estado Novo um modelo, ele foi mais uma excepção do que um exemplo a seguir.

    Sobre os golpes palacianos de infiltração, etc. não posso concordar com isso. Porque haveria eu, católico e monárquico, de querer governar uma República Laica? A República é ilegítima. A nossa obrigação é de não colaborar com ela, e de fazer oposição a ela. O 4º Mandamento manda-nos “honrar Pai e Mãe, e outros legítimos superiores”. Daqui, somos obrigados a honrar os nossos Reis, que são os nossos Pais comuns.

    Só Deus é capaz de tirar de um mal, um bem. Nós não.
    O católico rege-se por princípios, e não por efeitos. Donde se vê que essa ideia de negar princípios para causar determinados efeitos, não é querida por Deus. Deus manda-nos fazer o bem e evitar o mal. Cabe a Ele dar, ou não, a vitória.

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    • Sobre o Estado Novo, concordo com tudo o que escreveu sem tirar nem pôr. Se pareceu dizer algo contrário no texto, foi falha minha.
      Sobre os golpes palacianos, estava precisamente a rejeitar a ideia de que os podiamos ou deviamos fazer.
      Não pretendo negar princípios para gerar efeitos, era aliás esse o meu ponto no texto.
      A única coisa sobre a qual não concordo é sobre a visão mística de Portugal. Portugal foi de facto um reino católico, mas infelizmente já o não é e a minha contenção no texto (e na qual ainda acredito) é que para o voltar a ser (que é o que considero desejável e acertado), não será uma restauração da antiga aristocracia, mas de um renascimento das cinzas. Mas como disse, os únicos restauracionistas com os quais não argumento são precisamente os místicos, porque é uma questão de fé – uma fé que neste momento não consigo ter. Não que não a queira ter, mas estaria a mentir se disesse que sim.

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