Mário Manchado

O episódio é relatado por Vasco Pulido Valente no seu livro ‘Retratos e Auto-Retratos’ (p. 122 da edição da Assírio e Alvim, 1997):

 

«A meio da conversa, na conferência de imprensa que fechou o Congresso [XIII do PCP em Maio de 1990], Cunhal saiu-se de repente com uma extraordinária observação. Estavam a atazaná-lo com Lenine e ele respondeu que o mal não vinha de Lenine, vinha de que os comunistas deste ‘fim de século’ não tinham encontrado as ‘respostas adequadas’ para os problemas de hoje, como Lenine as encontrara para os problemas do ‘fim do século passado’. Nem mais, nem menos»

 

Vem isto a propósito de Mário Machado, da sua ridícula participação em programas da TVI para se fazer de vítima, debitar inanidades ou truísmos e oferecer, mais uma vez, ao sistema um pincel depreciativo com que pintar qualquer alternativa ao status quo. Diz o homem que precisamos de um novo Salazar. Já vamos discutir se precisamos ou não, mas podemos começar por dizer que de Mário Machado definitivamente não precisamos. O sistema precisa, nós dispensamos.

 

Qualquer ser com a cabeça bem assente nos ombros e dois dedos de testa consegue perceber que a maior contribuição que Mário Machado poderia fazer para o Nacionalismo Português, seja ele de que estirpe for, e para toda a gente que não se revê na ‘direita’ que ocupa o parlamento, seria afastar-se, definitivamente, de qualquer activismo blood-stain-e1346706098953.jpgpolítico e qualquer aparição mediática. Mesmo ignorando o seu passado de violência, barbarismo e estupidez, ou acedendo que uma pessoa pode mudar, há coisas que não mudam: e a sua imagem é uma delas. É injusto que erros (mesmo que graves) de juventude manchem para sempre a percepção alheia sobre uma pessoa? Talvez. Mas sucede que mancham. E há manchas que não saem, por mais sabão mediático que se aplique. Além de que o sistema não tem qualquer desejo (ou, admita-se, obrigação) de aplicar sabão algum – pelo contrário, usará sempre o seu passado contra si e, pior, contra nós, exagerando, mesmo que não seja necessário, os seus pecados passados e desprezando qualquer futura conversão aos bons sentimentos. E não falo apenas da imagem que estará para sempre marcada na cabeça do cidadão comum sobre quem o homem é e o que representa, mas também da sua imagem propriamente dita. Uma simples pesquisa pelo seu nome revela dezenas de fotografias em que aparece pejado de tatuagens, em si mesmas preocupantes em qualquer líder que se queira sério e são, algumas delas de cruzes suásticas e outros símbolos associados ao Nazismo, rodeado de outros grunhos do mesmo género e de bandeiras, posters e todo o tipo de simbologia insalubre. Só outros grunhos se podem identificar com esta imagética, e ninguém minimamente são lhe ficará indiferente: pelo contrário, terá uma aversão imediata e profunda a toda a empresa.

 

Não importa se há razão ou não nessa aversão, se o revisionismo é salutar ou se se exagera na condenação, nem adianta mencionar que a mesma aversão seria devida a símbolos comunistas se atendêssemos à brutalidade dos regimes. O facto, puro e simples, é que na cabeça do cidadão comum o Nazismo representa o mal na terra, o ódio puro ng7158955.jpgsem justificação, e qualquer associação a ele é uma sentença de iniquidade e más intenções. Deixando de lado a parvoíce histórica e ideológica que é ser adepto do Nazismo sendo Português, mesmo que o não fosse a estratégia de usar a sua imagética – ou simplesmente estar associado a ela – é uma estratégia votada à derrota. Por isso uma personagem como Mário Machado é, e será sempre, um trunfo do sistema contra qualquer putativo movimento de direita não-liberal e servirá, não para angariar seguidores e simpatizantes, mas para afastar qualquer pessoa normal. Confrontado com uma fotografia do Mário Machado a fazer uma saudação romana com a suástica tatuada no braço, um homem normal, por mais desiludido e farto que esteja do status quo, pensa ‘se este gajo é a alternativa ao sistema, então fico-me pelo sistema porque do mal o menos’. Não sei se o Mário percebe o dano que causou ao aparecer na televisão, se continua a procurar mediatismo por vaidade, se é pago para ser uma marioneta ou se tem boas intenções. Na verdade não importa. O que importa é que, ao fazê-lo, o Mário deu inadvertidamente mais outra machadada brutal na percepção pública dos nacionalistas, oferecendo assim uma prenda de Natal atrasada a todos aqueles que supostamente quer derrotar.

 

Estas lições não são difíceis de aprender. Sabem quem as aprendeu? O PNR. E mesmo assim, passados tantos anos, ainda sobre ele paira o espectro, a suspeita de que na realidade é um grupelho de cripto-nazis que simplesmente mandaram cobrir as tatuagens de suásticas para consumo generalizado. É possível que paire para sempre. Esta é a medida da toxicidade desta imagética e não pode ser ignorada, nem tolerada.

 

Agora voltamos ao início. Citei o episódio com Cunhal porque a nova ‘iniciativa’ do Mário, que aparentemente conseguiu compreender, nem que seja em parte, o que se disse acima, é apelar, não ao passado do nacional-socialismo alemão, mas ao passado salazarista. Diz ele que precisamos de um novo Salazar. Infelizmente, demonstra também aqui a sua irremediável ignorância e inabilidade táctica, para além da sua falta de humildade. O povo que se lembra de Salazar tem sentimentos mistos. O que não se lembra conhece-o pela propaganda sancionada pela Esquerda. A imagem de Salazar e do salazarismo não é nem de longe tão tóxica como o Nazismo, nem se justificaria que fosse, mas o regime continua a ser o produto do seu tempo, e o povo até pode querer um homem forte, honrado e com visão como Salazar foi, mas não quer um novo Salazar, até porque isso não faz sentido nenhum.

 

Como sucedia a Álvaro Cunhal, também do nosso lado e do lado oposto, nos atazanam a cabeça constantemente com fantasmas do passado. O dele era Lenine, o nosso é Salazar. Precisamos de um novo, precisamos do antigo; ou então, acusam-nos de querer trazê-lo de volta ou reinventá-lo. Devemos rejeitar esta matriz. Cabe-nos a nós, no início deste século, encontrar as respostas adequadas para os problemas de hoje, como Salazar as encontrou para os problemas do início do século passado. Salazar e os homens que o salazarrodearam não andavam preocupados a dizer que precisavam de um novo D. Dinis ou de um novo Marquês do Pombal. Andavam preocupados em tomar o poder pelos meios possíveis e em efectuar as mudanças necessárias para equilibrar as contas do estado, restabelecer a moral pública e a ordem social. Não achavam que o necessário era ressuscitar velhas ideias ou passadas ideologias, mas sim organizar a sociedade conforme princípios universais e intemporais.

 

O que nos falta não é um novo Salazar, mas algo mais importante: homens que, em vez de estar presos ao passado, consigam antever o futuro e trabalhar para o construir; que reconheçam um líder digno quando este surgir e o ajudem a concretizar a sua visão; e um povo que esteja disposto ao sacrifício necessário para a tarefa hercúlea de salvar Portugal da falência, da degeneração e do caos em que se está a afundar desde que se fundou a Terceira República. Apelar ao passado é manter a conversa onde o sistema a quer: no plano do imaginário. E como não há regimes perfeitos, invocar qualquer um que já tenha existido é dar munições ao inimigo e pedir que disparem sobre nós. O saudosismo pode ser o desporto nacional, mas quem o pratica sai sempre vencido. Enquanto os líricos se enternecem de nostalgia pelo passado, os poderosos destroem o país impunes.

2 opiniões sobre “Mário Manchado

  1. Este tipo conseguiu apelar ao sentimento dos mais nacionalistas.
    Mas este senhor é uma raposa com pele de cordeiro. Em nada representa a direita e a extrema direita. Nacional socialismo e Internacional socialismo fazem parte do mesmo saco de lixo mas em escalas diferentes. Eu vi a entrevista de Mario M. no “você na tv” e no tvi 24 e tenho a dizer que em certos pontos até concordo com o individuo, principalmente quando ele diz que ” o comunismo matou mais de 100M de pessoas no mundo todo e não é proíbido, já o nazismo é”.
    Mais um grande artigo da tua parte Ilo, um bem haja.
    “É preciso enterrar os mortos e tratar dos vivos”

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    1. Olá Tiago,

      Concordo que ele disse várias acertadas, que em tempos menos negros e perdidos seriam apenas senso comum. Ninguém intelectualmente honesto ou são duvida, por exemplo, da sobre-representação de africanos e afro-descendentes nas nossas prisões (ou nas prisões de todos os países de matriz europeia que têm uma percentagem grande de africanos e afro-descendentes). A minha mãe sabe isto, mesmo que o não diga – mas em certos momentos consigo que ela conceda esta realidade. Mas por mais afirmações de senso comum que o Mário diga, e por mais óbvias e necessárias que eles sejam, pessoas normais como a minha mãe vão continuar a olhar para ele com suspeição. Porque as mesmas pessoas que, sendo intelectualmente honestas e sãs, sabem a verdade, também sabem quem é o Mário Machado, o que fez e aquilo em que realmente acredita. Ninguém quer um acólito de Hitler como oposição ao sistema. Mal por mal, fica o sistema.

      Para nós, que estamos um pouco mais desligados do zeitgeist, o perigo de seguir pessoas como o MM é maior. A mim, no entanto, bastou-me ir à página do Nova Ordem Social e ler sobre como consideram que vivemos numa sociedade patriarcal – e que isso, a ser verdade, é mau. Fiquei logo vacinado.

      Um abraço,
      Ilo

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