A revolução reaccionária no século XXI

novabandeiraPorquê ter uma bandeira azul e branca sem a coroa? O que é que significa? Vou explicar no fim. Para chegarmos ao destino, primeiro temos de percorrer o caminho. Por isso, façamo-nos à estrada.

Suponho ser inevitável que um reaccionário dê consigo a sonhar com alguma espécie de restauração, ou seja, uma revolução; um corte com a elite política do momento e, no caso da revolução reaccionária, a sua substituição pela elite passada ou pela elite presente que representa esse passado. E sendo reaccionária, esta revolução, seria no sentido de uma sociedade recta e ordeira.

Só por ler a frase se nota o quão difícil será efectuar na prática uma tal contradição teórica. As revoluções são sempre violentas, caóticas – o contrário do que se pretende. Os golpes palacianos são mais elegantes, menos primitivos, menos desmiolados. Por isso a Direita, em geral, prefere-os às revoluções puras e duras.

A única forma de a Direita fazer um golpe palaciano é através das instituições: infiltrando, influenciando, convertendo. Com instituições queremos dizer os centros de influência política, religiosa, militar, económica, cultural, legal – que em democracia fazem todos parte do mesmo bolo, e que em Portugal significa também, centralizar tudo em Lisboa, e deixar ao resto do país as migalhas.

Só que os golpes palacianos apenas funcionam quando as instituições foram infiltradas. A formalidade do golpe na transferência de poder quando é dita em voz alta, é apenas isso: uma formalidade. O verdadeiro golpe acontece aos poucos, devagar, por baixo – muito antes de chegar ao palácio. Mas a eficiência de uma tal revolução pressupõe que as instituições estejam num estado em que é possível e desejável recuperá-las. Gostaria que me apontassem uma que não esteja podre dos pés à cabeça e cujo resgate valha a pena, para não falar da possibilidade de a resgatar. E, para não nos perdermos muito cedo em deambulações teóricas, convém lembrar que as ‘instituições’ são simplesmente as pessoas que populam e agitam as tais. Não há um espírito mágico a correr pelos corredores, a não ser possivelmente um ou outro demónio, mas esses são também o resultado da presença humana.

Pelo que a conclusão é que as instituições estão podres, porque as pessoas estão podres. Triste realização. O clássico golpe palaciano parece improvável. Mas vamos esquecer o caminho para lá, e imaginar que está feito, por milagre. O golpe monárquico e o golpe ‘Faxista’, chamemos-lhe assim, são cenários diferentes, por isso vamos separá-los.

Imaginando a eventualidade de Portugal voltar a ser monárquico, devolvendo o trono ao seu herdeiro, a ideia de que cortará com a modernidade – não só politica mas culturalmente – já me parece demasiada suspensão da incredulidade para que os espectadores continuem a ver o filme. Não me parece igualmente que dure muito, mesmo que dê de início todos os passos certos. Só não argumento contra aqueles que acreditam na restauração por razões de fé – honestamente, apenas um milagre pode efectuar essa restauração, não só em nome, como em espírito. E a verdade é que ter fé em Deus é preferível a ter fé nos homens, em todas as ocasiões e circunstâncias.

Quanto aos monárquicos que acreditam, ou fingem acreditar, numa restauração por vias democráticas, rio-me da vossa ingenuidade e censuro a vossa malícia ou tolice.

Se sairmos do campo da monarquia, temos o ‘Faxismo’, as ditaturas populares de Direita (Salazarismo, Franquismo) ou com tiques de Direita (Fascismo, Nacional Socialismo). Imaginar uma restauração do Estado Novo, por exemplo, actualizado para o Portugal no Século XXI não deixa de ter o seu apelo nostálgico mas parece igualmente improvável, senão ainda mais. Aqui, nem o apelo ao Divino o pode fazer acreditar.

O problema das ditaduras populares é que são populares. Em última instância o poder está na figura carismática do líder. O Salazarismo era óptimo, mas morreu com Salazar – com ele era o que era, sem ele não era nada. Caetano não era terrível (era certamente melhor que qualquer político da I ou da III República), mas não tinha o carisma – e portanto não tinha a autoridade.

Na política, as massas são movidas por caras, símbolos, slogans – mas não são, nem nunca serão, actores políticos. Não o são em Monarquias Aristocráticas, como o não são em ‘Faxismo’, Comunismo ou Social-Democracia. Mas nestes últimos, mantém-se a fachada de que são (quer seja pela identificação do líder carismático ou do Estado com o povo, ou pelo sufrágio universal). Grande parte da propaganda do Fascismo Italiano e do Nacional-Socialismo Alemão propõe-se a afirmar que o Estado, o Líder, ou o Partido, agem em benefício do povo, através do povo: pelo povo e para o povo. Nessa pedra basilar está a fundação ideológica dos regimes autoritários de Direita. Ao contrário de uma ordem aristocrática, o poder está sempre na rua; a política faz parte da vida dos comuns mortais.

Pelo que para edificar uma ditadura popular de Direita, é preciso um povo em concordância. O povo português de hoje não é o povo português de 1926 ou até de 1945 – ou, sequer, de 1965. A consistente e insistente destruição e implosão do casamento, da família, da comunidade, da Igreja, etc etc etc, tem os seus efeitos inevitáveis. O povo é de Esquerda. O povo até pode querer mais autoritarismo, mas é de Esquerda. Imaginem um Estado mais agressivo no combate ao crime, na protecção das fronteiras, na punição da delinquência; imaginem um Estado que banisse a pornografia, ou proibisse as relações homossexuais. Imaginem um Estado que ilegalize o aborto. A reacção popular seria de rir se não fosse de chorar. Isto mesmo sem contar com o dinheiro estrangeiro que geralmente acaba no meio destas causas. Mas mesmo sem esse dinheiro, quer-me parecer que a probabilidade do regime durar é pequena.

Abrir a política ao povo é convidar e promover o elemento mercenário e o elemento parasítico numa ordem social, qualquer que seja. De repente, o exercício do poder, a garantia de uma ordem, não é um dever de homens capazes e dispostos, mas uma carreira com promessas de subir na vida. Os piores são atraídos para o topo, seja com partidos ou com o partido. Voltamos a repetir: o povo de hoje não é o povo de Salazar. É o povo de Mário Soares e Cavaco Silva. Uma importante diferença. Uma diferença que inviabiliza a restauração.

Pelo que a restauração monárquica ou ‘faxista’ é, na minha perspectiva, um sonho idílico de quem não costuma privar com o cidadão comum.

E aqui chegamos à questão da bandeira. “Se não acreditas na restauração, porquê a bandeira azul e branca?” “E porquê apropriar as cores sem a coroa?” O que a bandeira significa é que, apesar da nossa história e da tradição monárquica em Portugal, me interessam pouco os aspectos cosméticos da Monarquia. Sou monárquico porque acredito que o governo privado e hereditário é a forma natural de governo, porque considero que essa é a forma recta e desejável do exercício do poder, não porque nutra qualquer simpatia ou reverência pelos nossos membros da aristocracia, ou pelas qualidades estéticas da história da monarquia portuguesa. A aristocracia moderna é o produto do seu tempo e, admita-se, não serve. Uma nova aristocracia terá de nascer para que um regime monárquico exista. Uma aristocracia nascida do mérito, da honra e do sentido de justiça, ou seja, da verdadeira autoridade, na qual o exercício recto do poder se funda. Tal como surgiu aquela depois da queda do Império Romano, nascerá esta depois da queda do Império Americano.

Por isso, não desanimem. A batalha não está perdida. É simplesmente longa e nós estamos na fase de transição. Para fundar uma nova aristocracia é preciso fundar um novo povo que reconheça a sua autoridade natural. Não existem soluções fáceis e rápidas. Não existe revolução reaccionária que, numa manhã de nevoeiro, traga o almejado regime e o permita governar em paz. Para o regime mudar as pessoas têm de mudar. E isso leva tempo.

Por isso escolhi uma bandeira que não é a presente, nem a passada, mas uma que signifique a aspiração a um Portugal futuro. É a minha convicção que a “ordem” (e ponho aspas porque é mais uma desordem) presente está para lá da salvação e com a sua desintegração, as estruturas de poder vão desaparecer e a realidade será reduzida à sua base natural: a família. Depois, a comunidade. A nós, e provavelmente aos nossos filhos, netos e bisnetos, resta-nos continuar. Os nossos números vão descer. O nosso conforto vai diminuir, as adversidades aumentar. Mas pela persistência no esforço da continuação nascerá uma nova ordem.

A resposta simples, mas não fácil, é que para fundar uma nova monarquia, é simplesmente preciso ser um Homem. Ser um Homem nas acções e nas palavras. Ser honrado e não apologético. Fazer o bem e evitar o mal. Planear e construir. Ter uma família e liderá-la. Fazer filhos e educá-los, para que eles possam fazer o mesmo quando crescerem. Continuar, indiferente às modas e às obsessões do mundo iníquo que nos rodeia. E um dia, mais cedo ou mais tarde, os nossos netos ou bisnetos poderão hastear uma nova bandeira e proclamar Portugal uma pátria, novamente, integral.

Portugal Desintegrado : EP 2 : O Deus da Sodomia

No dia a seguir a gravar este episódio, o Dr. Gentil Martins  meteu-se em sarilhos por dizer o óbvio.

O timing não podia ser melhor. Serve de mote para o segundo episódio do Portugal Desintegrado, intitulado ‘O Deus da Sodomia‘.

Como sempre, o download é gratuíto mas as doações são apreciadas. Bom para ouvir no carro ou nos transportes públicos, enquanto se observa a decadência moderna.

O enigma dos Liberais

«Academia is to knowledge what prostitution is to love»
Nassim Nicholas Taleb

Depois de termos falado dos problemas do liberalismo, vamos falar dos problemas dos Liberais. Isto, admita-se, é mais fácil: existem muitas, muitas obras do pensamento liberal e nem todo esse pensamento é de deitar para o lixo (em alguns casos, como Mises, é absolutamente essencial). Os Liberais antigos, ao contrário dos modernos, ainda tinham algo que um reaccionário podia aproveitar.

Em especial, pode aproveitar-se a Escola Austríaca (ou pelo menos, as obras principais). Esta escola de pensamento é a única escola económica que não foi cooptada pelo materialismo (tanto o antigo, de Smith e Ricardo, como o moderno, de Fisher e Keynes) – e como tal é também a única que consegue apresentar uma teoria que represente a realidade económica e a explique de forma satisfatória.

Não será de surpreender, no entanto, que os escritos puramente económicos da Escola Austríaca (que não contêm necessariamente prescrições políticas) tenham com o tempo servido de base, e justificação, para prescrições políticas. Prescrições liberais.

Mises, a figura principal e certamente a mais interessante, fez sempre questão de distinguir entre os seus escritos puramente económicos e os seus escritos políticos. E por fazer essa distinção, ambos mantiveram a sua relevância. Theory of Money and Credit, por exemplo, continua a ser a obra essencial para explicar o clusterfuck que é a política monetária democrática, sem no entanto advogar contra ou a favor: limita-se a chamar os bois pelos nomes. Um retrato mais largo da teoria e realidade económica pode ser encontrado em Human Action. Ambos os livros são peças necessárias para entender o mundo em que vivemos.

Nos seus escritos puramente políticos (como o Nation, State and Economy) Mises observa o mundo com uma clareza que faria corar reaccionários modernos – como observámos aqui, em Democracia, o caminho é sempre para a Esquerda, o que faz de um liberal há cem anos um terrível reaccionário contemporâneo. No entanto aqui já podemos observar, no meio da sua enorme erudição, a tendência (talvez inevitável) de ver o mundo somente pela esfera económica, e cair na armadilha liberal, whig, progressista. Esta crença de que o mundo está em constante progresso (em vez de degeneração) era um conceito que Mises terminantemente rejeitou toda a vida na sua teoria económica (pois era inegável a degeneração da disciplina), e no entanto, na sua vertente puramente política Mises continuava a cair na patranha, e acreditar que a passagem das entidades políticas aristocráticas para as democráticas tinha sido um progresso. A obsessão económica tinha levado a melhor.

E aqui entramos especificamente no tema deste texto. Tal como Mises, os Liberais portugueses deixaram o seu conhecimento de teoria económica levar a melhor e enformar todo o seu pensamento político. Ao contrário de Mises, não o fazem com especial erudição (mas não os vamos censurar por isso – podem acusar-me do mesmo e com razão). Os principais sítios da blogosfera portuguesa liberal são o Blasfémias e o Insurgente e é neles que se encontra esta obsessão, à superfície incompreensível. Ambos são, supostamente, de Direita. E apesar de se aproveitar um ou outro indivíduo em particular (e de vez em quando), a verdade é que a maioria revela um autismo estonteante e tem um único barómetro político: a economia.

Os Liberais portugueses são democratas. Sendo democratas são obrigados a mover-se intelectualmente na Janela de Overton, por auto-censura inconsciente e por auto-censura PwnedCatconsciente. Por causa dessa auto-censura, os Liberais estão obcecados com reformas dentro do sistema. Nunca sequer lhes ocorre que o sistema deva morrer, que o sistema seja iníquo, que o sistema seja podre de raiz. E se ocorre, não o dizem. Pelo contrário. E há uma razão para isto, mas já lá vamos. Por agora convém salientar que a obsessão económica não é defeito, é feitio.

Como explicar que um liberal não queira sair da UE? A UE é essencialmente a versão moderna da União Soviética: um organismo insonso de burocratas cinzentos que ditam a vida de milhões de pessoas sem qualquer representatividade. Não são os Liberais a favor da representatividade?

A explicação é que os Liberais temem que haverá menos liberalismo económico nas nações europeias sem a alçada benévola da União Europeia. Temem em especial que haja menos em Portugal. E sendo essa a única métrica para a sua visão política, são contra. E é inegável que isto sucederia, a curto prazo. O que levaria a um colapso, a médio prazo.

E aí voltamos à mesma questão: os Liberais temem o colapso do sistema, por mais iníquo que o sistema seja, por mais antitética ao Liberalismo que a própria fundação monetária desse sistema 839d3c15540b493f867668a0ca132551.jpgseja, por mais iliberal que o sistema seja. Os Liberais lutarão incansavelmente (na esfera intelectual) para evitar descartar a constituição comunista que rege o país. Há anos que os Liberais andam a anunciar a falência da Segurança Social, há anos que falam da fundação fraudulenta do sistema monetário, há anos que apontam a ignomínia da dívida pública. E no entanto as suas prescrições são sempre no sentido de evitar o colapso inevitável. Em vez de matar o dragão, os Liberais querem domesticá-lo.

Eles sabem, no entanto, que o colapso é inevitável. Mas ao que parece os Liberais têm um enorme medo do sofrimento, mesmo do sofrimento salutar. Só que é inegável que, de uma forma ou outra, haverá sofrimento. Muito especificamente, sofrimento económico. Haverá tumultos por causa desse sofrimento. Para usar a analogia preferida dos Liberais, a desintoxicação não é agradável para o drogado. Mas estar constantemente na corda bamba dos paliativos não é uma solução. É uma cobardia.

O que escapa aos Liberais obcecados com as consequências económicas imediatas, ou que insistem em não ver, é que para uma boa parte da população (e muito em especial daquela população que vive à conta do Estado – em que muitos deles se incluem, quer gostem disso ou não), é necessário sofrimento. Cristo também teve de sofrer na cruz antes de ressuscitar.

É preciso que as pessoas vejam o que é viver sem subsídios. É preciso que vejam o que significa uma dívida impagável e as consequências de dizer, firmemente, que não a vamos pagar. É preciso que voltem a depender das famílias, dos amigos, dos vizinhos, da comunidade. É preciso que encarem a realidade de ter trabalhos duros e desagradáveis. É preciso que sejam obrigadas a não gastar tudo o que ganham, a viver com menos do que precisam, a poupar. A maioria das pessoas tem conforto a mais para o seu próprio bem. Tal como os Liberais, perderam a noção do que é importante. Não sabem distinguir o eterno do transiente.

A grande maioria dos nossos defensores do mercado, são defensores apenas do seu esqueleto, sem entenderem (ou não querendo entender) que a alma e a carne que enformam esse esqueleto são mais importantes para que o sistema funcione do que a formalidade desse sistema. Neste momento, a alma do povo é o Estado Social, é a dependência, é a morosidade, a preguiça, a vaidade e a gula. O liberal não diz ‘vamos acabar com o sistema para erigir sobre as ruínas uma fundação sólida‘. Diz ‘vamos adiar o seu colapso, e acentuar as consequências desse colapso‘. Porque, como Keynes dizia, a longo prazo estamos todos mortos. Os Liberais esperam honestamente estar mortos quando o colapso acontecer. E trabalham para adiar esse colapso de forma a garantir esse destino.

Assim se explica, em parte, o porquê de os Liberais acreditarem na democracia: é uma forma voluntária de cegueira. Acreditam que elegendo o PSD (ou, vá lá, a ala Liberal do PSD, que é a ala moderada da moderação deles mesmos) vamos caminhar para mercados mais abertos e atenuar o Estado Social (não se riam). Tentam vender o seu peixe a pessoas que só comem carne e cover26defendem eurodeputados porque disseram uma vez uma frase liberal (enquanto fazem parte do conselho cosmético da União das Repúblicas Socialistas Europeias). Acreditam que as pessoas comuns (o maior entrave ao liberalismo), pessoas que não poupam, que vivem do Estado Social, cujos únicos interesses são o futebol e a novela, que papam tudo o que lhes dizem na televisão, cuja única cultura é o consumismo, estas mesmas pessoas que nem cuidar de si e dos seus conseguem ou pretendem fazer, podem e devem votar em representantes. Representantes esses que não representam ninguém a não ser a si mesmos e aos interesses que os compram. Este retrato da Democracia e da população em Democracia não é um exagero, é observável. E mesmo que não fosse, é intuitivo. E se a intuição não fosse o seu forte, podiam sempre ler Hans Hermann Hoppe. Mas não. Estão presos numa visão whig da história em que à frente está sempre o progresso.

Mas existe uma peça do puzzle em falta. Acima dissemos que se trata de cegueira, mas é uma cegueira voluntária. A maioria dos Liberais são inteligentes e certamente tiveram tempo e oportunidade de se deparar com a contradição em que se encontram, certamente que leram os livros certos e reflectiram sobre o que leram. Da própria perspectiva do liberalismo, a sua defesa do status quo é inexplicável.

Mas explica-se perfeitamente quando se percebe que escrevem em nome próprio e que têm empregos e reputações a defender. Que quase todos são beneficiários do sistema falido das stock-vector-scale-favoring-self-interest-rather-than-personal-values-108478289universidades. São professores, ou consultores, ou comentadores especialistas. Pagam a renda a girar a alavanca das ciências sociais nas fábricas de mentecaptos. Ser liberal é alternativo, mas é trendy. Um liberal pode ir às festas e às conferências, pode fazer parte das instituições, pode viver em paz sendo o enfant terrible que o consenso de Esquerda tolera, porque não ameaça.

Não se espere, pois, que rejeitem o seu modo de vida em nome de ideais maiores, ou sequer de consistência ideológica. Não se morde a mão que dá de comer.

Portugal Desintegrado

Decidi criar um podcast para complementar o trabalho no blog. Nos textos debruçamo-nos sobre questões de filosofia política, e no podcast vamos falar de questões mais mundanas. A ideia surgiu porque os problemas do país não são apenas de organização política mas também de degradação moral entre as pessoas comuns. No programa vamos documentar esta descida aos infernos e mostrar como o nosso Portugal está desintegrado.

Podem fazer download gratuitamente ou dar uma gorjeta. É conforme a vontade do freguês. Todos os episódios vão estar no separador acima ‘Portugal Desintegrado’ e disponíveis no Bandcamp.

E sem mais demoras, aqui está o primeiro episódio, ‘A Mulher Moderna’.

Teocracia e Escravatura

Não existem homens sem Religião, existem apenas homens que não sabem que Religião seguem. Visto que o Estado é operado por homens, baseado em constituições feitas por homens, que aplica leis escritas por homens, segue que o Estado também não existe sem uma Religião. Tal como o indivíduo, o Estado pode não saber, ou não declarar, que Religião de facto o enforma –

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história da Igreja em Democracia

mas ignorar ou esconder este facto não o torna menos verdade. O status quo da modernidade, porém, é fundado precisamente nessa falsa premissa de que o Estado e a Religião estão, e devem estar, separados. A premissa só será verdadeira se por Religião se designar as fés ancestrais, pois o Estado democrático é o principal veículo das fés modernas, promovendo-as através de todos os seus tentáculos. Qualquer regime de duração média, passado ou presente, funda-se em última instância nas ideias que o enformam, ou seja, numa Religião.

Por isso, a verdade é que vivemos numa Teocracia. Vou repetir, para o caso de ter atordoado o leitor: vivemos numa Teocracia. A asserção pode parecer absurda, mas isso deve-se à natureza desonesta da propaganda da era em que vivemos, que é um produto da classe teocrática dominante. Por isso, deixem que me explique.

Bem sei que a origem da palavra é grega, e que o original theos significa Deus. Mas visto que não distingue entre falsos e verdadeiro, a palavra aplica-se: a história moderna (democrática) é nada mais nada menos que a incessante adoração de falsos deuses, promovidos pela classe teocrática através do Estado. A Teocracia em que vivemos é baseada em falsos deuses (o poder popular, a igualdade, o hedonismo e por aí for a), e promove esses falsos deuses com a mesma assertividade com que teocracias passadas afirmavam e promoviam outros, ou Aquele.

Se isto não chega, e de facto convém ir mais longe, vamos mais longe. O dicionário define sucintamente a Teocracia como um ‘Estado em que o poder está na mão do clero‘. Mas quem é o clero moderno? Quem tem de facto poder no Estado Democrático?

A pergunta é mais difícil do que parece. Um dos principais problemas da Democracia é precisamente que o poder está incrivelmente disperso, sem no entanto estar descentralizado. Por disperso entende-se o carácter inerentemente obstruccionista das instituições democráticas, em que uma (por exemplo, o Governo) não pode dar um passo sem que outra (por exemplo, o Parlamento) o permita – além das outras todas que também lá estão pelo meio a obstruir. Os magníficos checks and balances são na verdade uma forma de não se conseguir fazer nada de bom, sem se impedir que se faça todo o tipo de mal (ver a teoria da Captura Regulatória). A captura, no entanto, aplica-se a exemplos concretos e económicos, não à natureza religiosa do poder do Estado. As empresas de facto infiltram-se no Estado Democrático para retirar dele benefícios (que surpresa!), mas não são as empresas que definem, por exemplo, os currículos escolares, as leis anti-discriminação ou a posição do Estado em relação ao aborto – ou seja, os elementos religiosos. Curiosamente, e em grande parte por causa da captura, as empresas acabam, sem serem necessariamente obrigadas, a criar e aplicar dentro das suas próprias estruturas as mesmas regras religiosas (quem já trabalhou numa empresa de tamanho relativamente apreciável, pense, por exemplo, em todas as campanhas internas pela diversidade, inclusão, apoio aos refugiados, protecção do ambiente, etc). Por isso temos de procurar o nosso clero noutro sítio. As empresas são os aristocratas modernos, mas não são eles quem detém o verdadeiro, e último, poder.

De onde vêm então estas ideias que enformam o Estado e que eventualmente chegam até às leis e às instituições (mesmo àquelas que não são, nominalmente, estatais)? Se o leitor respondeu “das scientismUniversidades”, acertou. Se respondeu outra coisa, não se aflija: a resposta não é óbvia, até porque não existe qualquer incentivo para que os carrascos retirem o capuz e revelem a sua identidade. O facto é este: o clero moderno, o poder no Estado Democrático, está nas Universidades. Se se quiser saber que legislação religiosa será passada nos próximos quinze anos, procure-se que obsessões se promoveram nas Universidades nos últimos quinze. Da próxima vez que vir um professor catedrático, faça-lhe uma vénia. Está perante um soberano.

Não se pode descontar os incentivos económicos, claro. As universidades (e em menor grau, as escolas) são um dos maiores e mais perversos esquemas de lavagem de dinheiro do mundo moderno (dos cursos às bolsas, dos professores às publicações, passando pelos inúmeros institutos e grupos de investigação – todos pagos, e eventualmente engolidos, pelo cidadão comum). Mas adivinhe-se de onde surgiu o esqueleto, a ideia, deste sistema em que as Universidades gozam de prestígio e privilégio (totalmente indevido), antes de ter sido efectivado na lei? Nas universidades. O lema oficial da Educação “Superior” devia ser ‘damos vida ao termo circle jerk‘. A lavagem de dinheiro é, no entanto, menos importante e vem na sequência da lavagem cerebral.

O que distingue o clero moderno dos cleros passados, é que a Academia não ensina ou promove a verdade, nem conserva ou dissemina o conhecimento (de vez em quando fá-lo por acaso, e sem intenção – e na grande maioria dos casos esses acasos são ignorados ou punidos). A razão para isto é não ter uma base teológica para além da sua própria perpetuação.

Por isso, e para concluir: vivemos numa Teocracia em que o clero é a Academia. E isso, caso ainda não seja claro, é mau. Não por causa do sistema, que é inevitável (e o que não tem remédio, remediado está), mas por quem o dirige: o nosso clero educativo além de prepotente (o que, admita-se, vem um pouco com a função), não é lá muito educado – o que acaba por se notar na sociedade que produz e dirige.

Julgo ter ilustrado suficientemente o meu argumento, pelo que vou passar à segunda parte do texto.

Não só vivemos numa Teocracia Académica, como vivemos em Escravatura. E tal como no caso da Teocracia, não houve nenhuma sociedade até hoje em que o homem não vivesse em Escravatura – em vários graus, certo, mas Escravatura ainda assim. Voltemos ao Dicionário: A Escravatura é a ‘Condição do indivíduo privado da sua liberdade e submetido à vontade de outrem, que o considera sua propriedade‘. Perante a definição, não é difícil aferir a veracidade da proposição.

O leitor sente-se totalmente livre? Acha que é proprietário de si mesmo? Acha que pode contestar as leis feitas pelo parlamento? Acha que pode não pagar impostos? Pense outra vez. A diferença entre um servo no Século XIV, um escravo no Século XVI e um cidadão no Século XXI é uma diferença de grau, não de natureza.

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Antes de entrar em pânico e procurar soltar os grilhões (metafóricos) que tem à volta dos tornozelos, convém não esquecer que a Escravatura não é uma estrada de sentido único. A escravidão tem obrigações, mas também tem contrapartidas. O lorde oferecia ao servo terra e materiais para trabalhá-la, oferecia-lhe protecção e ordem, não o podia vender a outro lorde – embora pudesse libertá-lo ou vender-lhe a sua liberdade – e não o podia agredir indiscriminadamente – embora pudesse puni-lo no caso de cometer um crime. O dono do escravo oferecia-lhe casa, comida, saúde e instrução básica (e ao contrário do que é popularmente acreditado, a violência indiscriminada era usada muito raramente – e por razões óbvias, afinal, só um idiota destrói a sua propriedade, e só um idiota maior destrói a sua propriedade quando a sua riqueza depende dela). Em alguns casos, o escravo era formalmente libertado e ascendia à condição de assalariado. E não podemos deixar de mencionar que o lorde e o dono de escravos, também eles, eram sujeitos a submissão (ao Rei ou ao Parlamento), e também eles tinham as suas obrigações e contrapartidas – as Teocracias que se sobrepunham a um e a outro eram, no entanto, bem menos destrutivas que a presente.

Nós, cidadãos, os escravos do século XXI, temos um “acordo” menos parecido com os servos e mais parecido com o dos escravos. Se há coisa que o Estado Democrático não oferece é protecção e ordem, e também não podemos comprar a nossa liberdade – pelo menos não oficialmente (o suborno e o lobbying são indissociáveis da democracia). A principal diferença entre o cidadão e o escravo é que, ao contrário dos donos de escravos de outrora, o nosso dono (o Estado) não tem grande incentivo em manter-nos saudáveis, ou em instruir-nos de forma a aumentar a nossa capacidade de trabalho, e além disso é precisamente os que menos contribuem que recebem a maior quantidade de regalias. Apesar de tudo, podia ser pior. Mas como dizia o velho anarquista, um homem não é menos escravo por poder escolher o seu dono de tantos em tantos anos.

Convém igualmente desconfiar sempre que alguém promete libertações (as libertações resultam precisamente nos exemplos acima). Quase todos os terroristas se chamam a si mesmo libertadores. E as consequências, mesmo quando se considera o ideal como moralmente indiscutível, nem sempre são as mais desejadas. A história está cheia de exemplos, da Revolução Francesa à descolonização, em que a libertação acabou por ser pior (no momento e no futuro) que a servidão que se aboliu. Pior a emenda que o soneto, como se diz. Às vezes parece que a iatrogenia é a constante na história política humana. O que só torna mais trágico o facto de quase ninguém saber do que se trata.

Outra diferença é que o cidadão tem um papel (embora mínimo e em última instância insignificante) na escolha do seu dono temporário, através do voto, e pode aspirar e concretizar a sua ascensão (temporária) à condição de dono, ou pelo menos a parte da classe dos donos (seja na condição executiva ou de teocrata). À superfície, isto pode parecer uma vantagem. Mas, analisando a questão em teoria como na prática, o resultado não se recomenda mais do que a Escravatura clássica, e menos ainda que a servidão feudal.

Apesar de ser perene e existente em todas as sociedades, a Escravatura não provém de nenhum contrato social. O servo nasce servo, o escravo nasce escravo, o cidadão nasce cidadão. O que keep-calm-and-love-democracydistingue o cidadão do Estado Democrático acima de tudo é que o cidadão não tem qualquer noção da sua condição de escravo.

E, não tendo essa noção, o seu dono nunca lhe virá a oferecer a oportunidade de se libertar mas pelo contrário, a sua viagem é para baixo, o seu nível de servidão vai aumentando, sem influência apreciável no processo, com umas migalhas atiradas para o chão em forma de recompensa – ignorando o que as migalhas representam. O facto de o seu dono mudar a cada quatro ou cinco anos, só acelera e aprofunda o processo – o dono temporário, ao contrário do dono permanente, não tem qualquer interesse em manter a qualidade da sua propriedade (o cidadão). Pelo que a qualidade de vida, estabilidade e segurança do cidadão (e por consequência da sociedade em geral) vão se deteriorando. Ao mesmo tempo, o seu dono continua a assegurar-lhe que é livre através da instrução, cada vez menos relevante e construtiva, que lhe oferece. E, para confundir ainda mais o pobre escravo e atissando a natureza ínvia do homem, apresenta-lhe a possibilidade de subir à posição temporária de dono, apaziguando a sua tendência para se rebelar se, por acaso, notar que as condições de submissão estão cada vez piores para si, e melhores para o dono.

A Democracia é, pois, uma Teocracia de falsos e etéreos deuses e uma Escravatura rotativa em espiral descendente. Da próxima vez que entregar o IRS ou colocar o boletim de voto na caixa, pense na sua condição, porque como lembra o poeta o melhor escravo é o que acredita ser livre. E se há fantasia que os nossos teocratas têm necessidade de perpetuar, é essa.

Não lhes faça esse favor.