O Papel das Mulheres

A ideia para este texto surgiu de um comentário de uma leitora, Ana Maria, a quem agradeço dar o mote para esta discussão que, tendo em conta a oposição que vou recebendo sobre este tema, já vem tardia.

O ditado popular sobre a mulher ser quem usa as calças em casa é bem conhecido de todo o povo português e aponta para o facto de, contrário à natureza humana, ser a mulher quem lidera o lar. Este ditado providencia um mote perfeito para a discussão que pretendemos efectuar aqui, que é o do papel da mulher no movimento dissidente. men9Analisando a expressão, o que podemos concluir? Primeiro, a supracitada artificialidade da liderança feminina, tão artificial que é necessário criar um ditado jocoso para ilustrar a situação. Segundo, que essa artificialidade é demonstrada não apenas no interior (liderança) mas no exterior (calças), sendo que o exterior é simbólico de algo maior, e mais pernicioso. Ao imitar os homens, as mulheres perdem as suas qualidades femininas, sem ganhar nenhuma das masculinas: tornam-se meramente homens de segunda. Por isso, não exagero quando digo que a decadência da nossa civilização se deve, em grande parte, ao facto das mulheres terem começado a usar calças. Pode parecer apenas um pormenor, mas é um símbolo da deriva maior da nossa civilização, da corrente igualitária que a inundou e virou do avesso, do caos identitário em que nos encontramos. Toda esta tragédia começou, não pela raça, não pela imigração, mas pela confusão do papel da mulher na sociedade. E tão importante é a concepção correcta dos papéis adequados de cada sexo, que todas as sociedades que foram além do mais básico primitivismo a reconheceram e aplicaram. Excepções sempre as houve, mas como se costuma dizer, servem apenas para confirmar a regra. E a regra existe com razão. Uma mulher como a Ayn Rand, por exemplo, fez muitíssimo bem em nunca ter tido filhos e ser dona de casa e, em vez disso, dedicar-se ao trabalho intelectual, produzindo ideias de indiscutível valor e originalidade (a avaliação última dessas ideias é uma questão demasiado complexa para discutirmos aqui). Mas também por essa razão, uma vez chamaram-lhe ‘o homem mais corajoso na América’. Por certo que os que pretendem que as mulheres tenham a liberdade de participar no movimento no mesmo patamar que os homens não quererão que elas se transformem em meras imitações dos homens. E no entanto, quando o fazem, é precisamente nisso que se transformam.

Não é ao acaso que a Bíblia menciona a indumentária especificamente: «Uma mulher não poderá usar coisas de homem e um homem não poderá vestir-se com roupas de mulher, porque o SENHOR, teu Deus, abomina quem assim procede.» (Deuteronómio 22:5). Especula-se que a razão para que tal viesse especificamente mencionado na Bíblia se encontra na proximidade das sociedades pagãs que rodeavam os hebreus na época, e que possivelmente não observariam estas distinções. Ora, tal razão aplica-se também à nossa moribunda civilização, que dedicada hoje a variadíssimos deuses pagãos, se acaba por esquecer até do mais fundamental da organização humana: das diferenças salutares entre homens e mulheres.

É fácil antecipar as objecções: que é um anacronismo extremista, que a sociedade mudou, que ‘evoluímos’, que tais concepções são resquícios antiquados de uma era primitiva, ou no mínimo, menos ‘iluminada’. Estas objecções são, em grande parte, feitas por companheiros dissidentes, a quem só podemos apontar que com essas mesmas objecções a Esquerda defende todo o seu programa – desde a imigração até à aceitação dos ‘estilos de vida alternativos’. Pelo que podemos concluir que tais argumentos são inválidos – ou, caso concluamos que são válidos para uma coisa, são igualmente válidos para outra. Por outras palavras, das mulheres usarem calças à abolição da identidade nacional, vai um tirinho.

Neste canto da Internet, ter opiniões impopulares e consideradas radicais pela maioria é uma inevitabilidade. No entanto, a visão tradicional da Mulher é impopular e considerada radical mesmo no seio do movimento dissidente, mesmo entre homens e mulheres que reconhecem as diferenças físicas, mentais e espirituais entre os sexos, que reconhecem o papel de ambos na ordem tradicional. Para eles, a ideia de que as mulheres devem ter uma função fundamentalmente distinta da dos homens no movimento ainda é tabu, senão mesmo anátema. Pelo contrário, o consenso parece ser 5a610cb01e000028005adbd4que as mulheres podem (e em alguns casos devem) ter um papel semelhante ao dos homens na produção e distribuição de ideias, na participação em demonstrações e debates e, deduz-se, nas batalhas campais em que muitos dos eventos se transformam e eventualmente nas trincheiras de uma potencial guerra civil.

Recentemente o Youtube lançou uma sequela do Karate Kid em forma de série que é surpreendentemente contrária ao politicamente correcto. A série chama-se Cobra Kai (o nome do dojo dos antagonistas no original), e uma das cenas mais hilariantes é quando uma preta gorda com cabelo de lésbica se tenta juntar ao dojo e o sensei lhe diz que não se aceitam mulheres no karaté pela mesma razão que não se aceitam no exército: porque é estúpido. Numa civilização em ordem, eu não necessitaria de justificar o porquê do papel das mulheres no movimento dever ser o de esposas e mães, de aliadas domésticas dos homens que efectuam o principal do trabalho (intelectual e físico) requerido para o triunfo das nossas ideias. Numa civilização em ordem, bastaria simplesmente repetir o truísmo da série e dizer que qualquer outra abordagem é estúpida. Mas infelizmente a nossa civilização não está em ordem, e até os truísmos têm de ser explicados, justificados e argumentados, uma e outra vez.

Já mencionámos a Bíblia, mas convém voltar a mencioná-la e lembrar que as prescrições sobre o papel feminino não se limitam à advertência contra o seu uso de indumentária masculina. Pelo contrário, a mulher é distinta do homem, e deve a ele ser submissa. Repare-se nas seguintes passagens:

«Como acontece em todas as assembleias de santos, as mulheres estejam caladas nas assembleias, porque não lhes é permitido tomar a palavra e, como diz também a Lei, devem ser submissas. Se quiserem saber alguma coisa, perguntem em casa aos maridos, porque não é conveniente para uma mulher falar na assembleia.» (1 Coríntios 14:33-35)

«Submetei-vos uns aos outros, no respeito que tendes a Cristo: as mulheres, aos seus maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da Igreja – Ele, o salvador do Corpo. Ora, como a Igreja se submete a Cristo, assim as mulheres, aos maridos, em tudo.» (Efésios 5:21-24)

«A mulher receba a instrução em silêncio, com toda a submissão. Não permito à mulher que ensine, nem que exerça domínio sobre o homem, mas que se mantenha em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzido mas a mulher que, deixando-se seduzir, incorreu na transgressão. Contudo, será salva pela sua maternidade, desde que persevere na fé, no amor e na santidade, com recato.» (1 Timóteo 2:11-15)

«Do mesmo modo, as anciãs tenham um comportamento reverente, não sejam caluniadoras nem escravas do vinho, mas mestras de virtude, a fim de ensinarem as jovens a amar os maridos e os filhos, a serem prudentes, castas, boas donas de casa e dóceis aos maridos, de modo que a palavra de Deus não seja difamada.» (Tito 2:3-5)

Saliento estas passagens porque elas não existiram no vácuo. Pelo contrário, elas foram a base da civilização que, de uma forma ou de outra, todo o movimento dissidente respeita como o auge da Europa e quer ressuscitar. A identidade nacional nasce primeiro na família, e a família nasce do homem e da mulher. Quão importante é, pois, que tenhamos a concepção correcta do relacionamento entre os dois? E quão destrutivo é que tenhamos uma errada? Basta observar a sociedade presente, que é predicada, não na distinção entre homem e mulher, e na submissão da mulher ao homem, mas pelo contrário, numa absoluta igualdade e individualismo que permite, a homens e a mulheres, fazerem o que bem lhes apetece, mesmo que o que lhes apeteça semeie a destruição da ordem social.

Mas toda esta conversa de religião e civilizações antigas diz muito pouco a um grande número de pessoas no nosso movimento, e apesar das evidências sobre a importância destas considerações, elas são maioritariamente relegadas para o plano da fantasia, pois a questão fundacional é muitas vezes esquecida ou abertamente ignorada (como já apontámos). Por isso avancemos para considerações mais terrenas.

Quando se advoga a participação das mulheres no movimento, não como esposas, mães e companheiras, mas como equivalentes intelectuais e físicas dos homens, obviamente que se tem em mente muitos casos recentes que, admita-se, angariaram indiscutivelmente um grande número de novos convertidos à causa identitária, à defesa do Ocidente e à tentativa de o ressuscitar do torpor terminal em que se encontra depois de ter sido vergado às forças igualitárias e relativistas do Iluminismo.

Consideremos o caso Lauren Southern. Com 23 anos, a menina Southern é não só a fêmea mais famosa no movimento, mas uma das figuras mais proeminentes mesmo descontando o seu cromossoma identificador. Qual é a razão para esta popularidade? Lauren_Southern_OKSerá a originalidade das suas ideias ou da apresentação dessas ideias? Ou será por ser uma jovem rapariga que, no decorrer do seu trabalho, vai mostrando as pernas e os ombros, e por vezes um pouco mais que isso? Não se pode subestimar o poder da libido masculina, que mesmo em assuntos em que deve ser posta de parte acaba por dominar as prioridades. Como podemos ver ilustrado nesta review do seu livro, a menina Southern não é nem original nas ideias, nem na apresentação – pelo contrário, nem sequer se eleva acima do mais básico em ambas as categorias. Nesse livro, inclusivamente, encontra-se esta pérola de intelectualidade e bom gosto: «If there was a moment in the 2016 U.S. election that epitomized this newfound hate for the young on the right, it was Republican consultant Rick Wilson’s infamous… declaration that Trump supporters were “childless, single losers who masturbate to anime.” Guilty as charged. Well, except I don’t masturbate to anime characters. I dress up like them and guys masturbate to meSe isto não demonstra que a menina Southern sabe perfeitamente qual é o seu papel – uma softcore camwhore para nerds políticos – não sei o que demonstra.

Convém neste momento fazer um reparo: não estamos a argumentar que a rapariga não produz nada de qualidade, pelo contrário. Um exemplo recente de algo de qualidade que produziu foi o documentário Farmlands, publicitado aqui com legendas em português do Brasil, que chama a atenção devida para a horrível e ignorada situação dos brancos na África do Sul. Mas há perguntas importantíssimas que se devem colocar: será que este documentário, ou as outras obras de qualidade feitas pela menina Southern, só poderiam ser feitas por ela ou, pelo contrário, um jornalista masculino poderia ter feito o mesmo, com pelo menos a mesma qualidade (note-se que as únicas partes más do filme são precisamente quando ela faz monólogos em voz off enquanto se pavoneia em frente da câmara)? E, sendo que um homem poderia fazer o mesmo trabalho, e potencialmente mais bem feito, haverá algo que só a menina Southern possa fazer, uma categoria de actividades em que um homem a não possa substituir? A resposta é igualmente afirmativa. E essas actividades são aquelas que coincidem com o papel tradicional da mulher na sociedade: ser uma esposa, uma mãe, providenciar acompanhamento emocional e intelectual nos primeiros anos de vida das crianças, manter um lar estável e saudável para a sua progenitura.

Nunca me deixa de surpreender que tantos anti-feministas queiram para as suas mulheres o mesmo que as feministas querem para todas as mulheres: que sejam imitações de segunda dos homens. Que em vez de se dedicarem àquilo que a sua biologia e seu espírito lhes lega como natural e que só mesmo elas podem concretizar, queiram que elas se dediquem a produzir frutos que os homens também podem produzir, e em geral melhor. Esta é uma das falhas primordiais da nossa civilização: esquecer as divisões naturais, os papéis naturais, e transformamos as mulheres em homens de segunda. Não observamos nós o vácuo criado por esta ideia de igualdade, em que as mulheres da nossa raça desperdiçam a sua fertilidade, os seus dons naturais, na perseguição do hedonismo, por um lado, mas por outro lado igualmente destrutivo, na perseguição de carreiras, na imitação do papel masculino? Não reconhecemos as consequências destrutivas para a civilização dessa nova ordem? Não as observamos todos os dias, quer em estatísticas, quer no dia-a-dia? E se sim, porque queremos nós que as nossas mulheres, participando num movimento que fundamentalmente rejeita as consequências dessa ordem social, funcionem da mesma forma e concretizem os mesmos erros?

Depois é preciso considerar algo que já foi mencionado noutros textos: primeiro, que o meio é a mensagem. E depois que atrair as pessoas erradas, e sobretudo os homens errados, é contraproducente. Neste caso, o meio é muitas vezes o de ter mulheres a ditar a homens aquilo em que devem acreditar e porquê. Psicologicamente, isto resulta em kjaskjshomens castrados. A verdade é que a popularidade de Lauren Southern, bem como de raparigas semelhantes, vem da percepção óbvia, mas perniciosa, de que o mesmo tema quando apresentado em conjunção com um decote ou uma carinha laroca tem automaticamente mais audiência. E note-se que a menina Lauren, em termos de beleza, será no máximo um 6.5. Tire-se a maquilhagem e desconfio que se encontra um 4 ou no máximo um 5. Será que queremos conquistar uma audiência de homens sexualmente frustrados que se perdem de amores por uma rapariga de aspecto banal com quem concordam politicamente?

Uma boa ilustração do tipo de homem que estas raparigas atraem para um movimento que se quer sério e que precisa, definitivamente, de homens com espinha, encontra-se quando se ‘segue’ o dinheiro. Antes de ser banida do Patreon, por exemplo, a Lauren estava a receber quase quatro mil dólares por mês e, além de mostrar um decote lauren patreon.pngproeminente na sua foto, referia-se jocosamente ao facto de uma doação dar o direito ao dador de dizer que era seu ‘namorado’ e que ela não confirmaria nem desmentiria. Outro exemplo, entretanto desaparecido da sua página, encontrava-se na possibilidade de pagar duzentos e cinquenta dólares por 15 minutos (!) de sessão de Skype privada com a menina Southern. Não sei de ciência certa, mas apostaria que uma prostituta de luxo levaria menos de mil dólares à hora – em carne e osso, não por sessão de Skype. Isto ilustra tanto o empreendedorismo (por assim dizer) da menina Southern, como a sede de atenção feminina e a total efeminação dos homens brancos modernos, obcecados com a sua ‘namorada virtual’ ao ponto de pagarem a peso de ouro a oportunidade de fazerem parte do seu ‘círculo íntimo’ (quão grande é esse círculo, nunca saberemos). Entretanto a menina Southern apagou esta opção do seu site (depois de algumas críticas) e ficou apenas a opção ‘Exclusive’, em que pagando cem dólares por mês, obtêm um livestream particular entre os subscritores dessa opção e, cereja no topo do bolo, ela segue-os no Twitter (não estou a gozar!). Não só não queremos estes homens ao nosso lado numa batalha, mas perpetuar este tipo de atitude é absolutamente contraproducente. Podemos ter um exército de milhões, mas se forem milhões como os que dão dinheiro à menina Southern, seremos derrotados por trezentos inimigos duros, como na mítica história.

Vários outros exemplos existem destas raparigas, também chamadas de trad thots (ou putéfias tradicionalistas), e das suas legiões de seguidores que comem demasiada soja. Nenhuma delas é casada, ou tem filhos. As únicas mulheres do movimento que os têm são muito mais recatadas, trabalham com os seus maridos e, por essa razão, não obtêm o mesmo nível de atenção masculina (nem é esse o seu objectivo). Mas não podemos culpar apenas as raparigas. Quem devemos culpar são os homens fracos que as promovem e lhes sustentam o estilo de vida. Espero estar enganado, mas suspeito que nenhuma dessas raparigas vai casar e ter filhos enquanto a sua beleza relativa e juventude lhes permitirem ter hordas de frustrados a patrocinar as suas viagens e ‘aventuras’. Para quê dedicarem-se a um homem, quando podem ter a atenção de milhares, senão milhões?

Começámos com um ditado popular, e acabamos com uma história que ilustra a importância, e a força imparável, que é viver e agir conforme a ordem divina, e como isso é espelhado pelos papéis, absolutamente distintos, dos homens e das mulheres.

Com a subida ao poder dos bolcheviques na Rússia, várias leis contra a religião foram passadas, impedindo os padres de evangelizar, incluindo ensinar o Cristianismo às novas gerações. O objectivo, claro, era destruir a prazo toda a religião visto que esta era um obstáculo, senão o maior obstáculo, à criação do paraíso socialista na terra. Estas leis mantiveram-se até praticamente ao final do regime soviético, quase 80 anos. Conta-se que um líder Soviético, pouco depois da revolução e tendo em conta as leis estabelecidas contra a religião, perguntou ao Patriarca de Moscovo o que iria acontecer à Igreja quando a última avó morresse. O Patriarca respondeu-lhe que haveria outra geração de avós para as substituir. Palavras proféticas, sobretudo se se considerar que a maioria das avós russas de hoje eram apenas crianças ou nem sequer nascidas quando estas palavras foram proferidas, e que a Igreja manteve-se ao longo de toda a animosidade comunista e retomou o seu lugar (e continuou a crescer) logo após a queda do regime.

21d602d5ff237aaa874221c992c8797f.jpgO que a história ilustra é que a Igreja salvou-se pelo facto das mulheres agirem como mulheres, cumprindo o seu papel natural, ensinando os mais novos, passando as tradições. Repare-se que não foi através da ordenação de mulheres para o sacerdócio que a Igreja continuou, mas pelo contrário, precisamente por manter essa restrição, cada sexo ter a sua função, permitiu que mesmo sob condições incrivelmente adversas encontrasse uma continuação. Há uma lição aqui para os homens e mulheres ocidentais dos nossos dias. Ao invés de aceitar a senda igualitarista e querer transformar as mulheres em homens de segunda, que invariavelmente transforma os homens em seres efeminados, devemos respeitar a ordem e separação natural de funções, cada um apelando às suas forças, em cooperação, em vez de competição.

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O Nacionalismo não é necessário, nem suficiente

Este texto serve de adição ao que se escreveu aqui sobre o identitarismo. O objectivo não é alienar aqueles que considero aliados e que professam o Nacionalismo como a sua ideologia, mas unicamente apontar uma falha que considero ser incompatível com o seu objectivo principal, analisar as suas origens históricas e as suas manifestações modernas, e argumentar uma alternativa.

 

«Quem dentre vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro para calcular a despesa e ver se tem com que a concluir? Não suceda que, depois de assentar os alicerces, não a podendo acabar, todos os que virem comecem a troçar dele, dizendo: ‘Este homem começou a construir e não pôde acabar’. Ou qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro para examinar se lhe é possível com dez mil homens opor-se àquele que vem contra ele com vinte mil? Se não pode, estando o outro ainda longe, manda-lhe embaixadores a pedir a paz

Lucas 14:28-32

O principal problema de qualquer putativo movimento dissidente é a sua sobrevalorização daquilo que pode ser quantificado, aquilo que é visível a olho nu, aquilo que é imediatamente palpável, em detrimento das questões filosóficas, metafísicas e espirituais que são muitas vezes consideradas espúrias. Como o construtor da torre e o rei que parte para a guerra nas palavras de Jesus, muitos não consideram o invisível que subjaz às realidades visíveis. Como um médico que toma os sintomas pela doença e se oferece para os tratar julgando tratar a doença, o Nacionalismo opera da mesma forma no plano político. É desta mentalidade que surge a defesa do Nacionalismo.

Pretendemos aqui argumentar que o Nacionalismo não pode constituir a base para o movimento, pois mesmo para os objectivos que pretende concretizar não é necessário, nem suficiente. Para isso temos primeiro de o definir, para que se saiba aquilo a que apontamos a nossa crítica. Como todas as ideologias, pode dizer-se que é tudo e mais french-nationalismalguma coisa, por isso tentaremos cingir-nos a uma definição que tenha em conta, ao mesmo tempo, a História da ideologia e a sua presente manifestação. O Nacionalismo é uma ideologia política Republicana e Democrática saída da Revolução Francesa, que postula a preservação da Nação enquanto entidade política (o Estado-Nação), a defesa de território delineado por fronteiras terrestres, da tradição e coesão linguística, cultural e étnica contra processos de destruição identitária ou transformação. Quando digo que o Nacionalismo não pode constituir a base, quererá isto dizer que sou contra os seus objectivos individuais postulados acima? Não. Mas quer dizer que estas ideias em si mesmas não garantem aquilo que pretendem garantir, e em particular a formalidade da ideologia (a identificação da nacionalidade com o estado-nação) não é necessária, nem suficiente.

Com a ameaça presente e tangível da imigração de massas, é compreensível que a ideologia do Nacionalismo se tenha tornado a bandeira em torno da qual os dissidentes maioritariamente se agitam, mas esse foco único confunde as árvores pela floresta, e a45210707118b976f894dcb852f4cdb5esquece que há factores metafísicos que o Nacionalismo por si mesmo não contradiz, que não só permitem mas promovem esta situação. Sendo uma invenção moderna saída do próprio Liberalismo, o Nacionalismo tem a mesma fundação no Materialismo Iluminista e sofre dos mesmos problemas insolúveis. O Nacionalismo, por mais benéficas que sejam as suas intenções, acaba a longo prazo na mesma situação que qualquer outra ideia democrática. Isto é, acaba na destruição daquilo que pretende defender. Tal como o Liberalismo é a longo prazo incapaz de defender a Liberdade, o Nacionalismo é incapaz de defender a Nação.

O caso Português, com as suas fronteiras e unidade política com quase mil anos, não é dos melhores exemplos para se perceber o argumento que fazemos aqui. Mas por outro lado, o facto de ser uma absoluta raridade na História Europeia, acaba por ilustrar ainda assim o ponto acima. As nacionalidades de Leste, por exemplo, oferecem um perfeito nationalismexemplo de como a coesão étnica e cultural de um povo não dependem de uma entidade política equivalente, ou seja, não precisam de Nacionalismo. E em alguns casos, observa-se que muitos grupos étnicos estavam mais bem servidos sob uma entidade política mais larga do que quando obtiveram os seus estados-nação. O Império Austro-Húngaro, a Jugoslávia de Tito, ou até a França pré-Revolucionária – onde, lembremos, existiam várias nacionalidades, entretanto extintas precisamente pelo Liberalismo – ou até a Rússia moderna, são bons exemplos de como o Nacionalismo não é necessário. Na maioria dos casos foram precisamente os poderes Liberais e a ideia da auto-determinação dos povos que desagregaram ou destruíram nacionalidades (como no caso Francês ou, em menor escala, na centralização nacionalista da Itália ou da Alemanha). Sob um ou outro império várias nacionalidades sobreviveram sem Nacionalismo, e com Nacionalismo destruíram-se várias nacionalidades e identidades.

Penso que isto prova que a questão da nacionalidade, da coesão étnica e cultural de um povo, é uma questão muito mais complexa do que a simples edificação política. Argumentar o contrário implica admitir, por exemplo, que os falsos estados-nação formados pelos poderes coloniais em África, na Ásia e nas Américas eram nações antes de serem estados, quando uma investigação simples da sua História demonstra que essa concepção é falsa. Obviamente que, com o tempo, outras nacionalidades (ou semi-nacionalidades) se formam a partir destes estados artificiais, mas esse mesmo facto confirma que nesses casos, antes de existir o estado, não existia a nacionalidade, mas uma colecção de grupos étnicos, culturais e linguísticos distintos.

O Nacionalismo não é, pois, necessário à manutenção daquilo que pretende defender. A verdade é que, paradoxalmente, sendo uma consequência da destruição da monarquia e da sociedade tradicional, o Nacionalismo é uma reacção inconsequente, desnorteada, um penso para uma ferida de bala, e sendo uma ideia em grande parte contraditória, como demonstrámos, acaba por ser utilizada amiúde pelas elites globalistas para fomentar o caos e destruir a sociedade tradicional. Obviamente, o Nacionalismo pode ser, sob determinadas circunstâncias, uma força contrária aos planos globalistas, sobretudo centenas de anos depois da destruição da ordem monárquica, mas é preciso nunca esquecer que o próprio Nacionalismo foi uma ideia promovida pelas elites maçónicas da época com o objectivo de destruir as sociedades que existiam, tal como hoje promovem o Globalismo para destruir as que existem. Como a História demonstra, o Nacionalismo não é uma condição necessária para a defesa da nacionalidade mas sobretudo não é suficiente – algo que é ilustrado perfeitamente no Nacionalismo dos nossos dias.

Se investigarmos seriamente os objectivos das elites globalistas percebemos que o seu plano não é somente de aniquilação da nacionalidade, mas aniquilação de qualquer tipo de identidade: étnica, cultural e linguística, mas também familiar, religiosa, sexual e, o plano final transhumanista, também da identidade humana. Quão fútil é pois que nos oponhamos a um dos seus objectivos mas descuremos a oposição aos outros? Ou pior, que se subscreva uma parte do seu programa? O Nacionalismo hoje pretende cortar uma das cabeças do monstro globalista, mas deixar as suas outras cabeças intactas. Isto é por MTG_Apocalypse-Hydra.jpgdemais óbvio olhando para os partidos nacionalistas que vão surgindo sob a bandeira da anti-imigração, e em particular anti-Islão, e que predicam a sua oposição na defesa de valores modernos completamente antagónicos à coesão nacional. Os exemplos são demasiado numerosos, tanto dos partidos e movimentos, como das ideias que partilham com os globalistas, para que se ignore esta tendência. A sua manifestação mais gritante é na oposição ao Islamismo. É um óbvio ululante que nos devemos opor ao Islamismo como ideologia, e ainda mais à imigração massiva de proponentes dessa ideologia para a Europa, mas há boas e más razões para o fazer. E, infelizmente, a maioria dos nacionalistas opõe-se ao Islamismo pelas razões erradas. A maioria das críticas feitas pelos nacionalistas são às ideias que caracterizam como ‘retrógradas’ e que contrastam com as ‘liberdades’ ocidentais: a submissão da mulher ao homem e a intolerância dos desviantes sexuais, em particular, comprazem a grande maioria das críticas. Nelas está subjacente a defesa da insubmissão e liberdade femininas e da tolerância dos desviantes sexuais. Ou seja, atacando o Islamismo por estas coisas, os Nacionalistas atacam igualmente qualquer sistema político e social que incorpore estes closet-rue-89.jpgprincípios. Isto demonstra que estes Nacionalistas são infelizmente ignorantes, tanto da História Ocidental como da História universal, pois todas as civilizações dignas desse nome impuseram regras sociais estritas, e em particular, a submissão da mulher ao homem e a remoção dos desviantes sexuais (aquelas que, com o tempo, deixaram de o fazer acabaram na mesma decadência em que a nossa se encontra hoje); e demonstra igualmente que são antagónicos à organização social Cristã que dominou a Europa durante pelo menos 1500 anos, e que foi paralela ao florescimento da Europa como força dominante em todos os aspectos em que normalmente se avaliam as civilizações. Ou seja, pretendendo defender o Ocidente, a maioria dos Nacionalistas defende as ideias que perverteram a nossa civilização e nos trouxeram ao ponto actual. O bem comum, a coesão social, a unidade nacional, requerem necessariamente determinados sacrifícios de liberdade individual. Ao elevarem essa liberdade ao princípio base da sua visão do Ocidente, estes Nacionalistas plantam a própria semente que germinará na disfunção política, social e económica que cria o problema migratório em primeiro lugar.

A base da Nação é a família e o individualismo primário que defendem é a antítese da família. Ao defenderem o individualismo contra o colectivismo dos Islamistas, os nacionalistas apenas escolhem uma forma de atentado contra a Nação em prol de outra. Esta defesa é emblemática da atitude que, na realidade, existe na génese do Nacionalismo: o Estado-Nação torna-se na única premissa, e a ordem social necessária à manutenção da nacionalidade é ignorada. Um movimento que defenda o Estado-Nação e se oponha à imigração, mas que aprove e permita todos os males da modernidade, que pretenda manter o status quo social de liberdade sexual, de supremacia feminina, de economia baseada na usura, de organização democrática, é incapaz de sequer manter aquilo que eleva como valor principal. E é a isto que nos referimos quando dizemos que o Nacionalismo descura o aspecto metafísico, pois é incapaz de perceber que a situação migratória é uma consequência da perda de valores tradicionais na sociedade, não é um assunto separado que possa ser resolvido sem se resolver este outro.

A identidade é feita de círculos concêntricos – o primeiro sendo a família nuclear, depois a família extensa, o bairro, a cidade, a região, a Nação (entendida como esfera partilhada de laços étnicos, linguísticos e culturais), a ligação regional (por exemplo, entre povos com línguas de origem latina ou de proximidade geográfica) e, por fim, a identidade geral europeia, que não pode ser entendida fora do domínio da Cristandade – pois hierocles-concentric-circles.jpgpreviamente os vários povos europeus não tinham língua, cultura ou logos em comum, mas eram sim uma colecção de povos com crenças, culturas e línguas distintas e rivais.

Os nacionalistas verdadeiros reconhecem que a Nação não é uma mera delineação geográfica e que o que a constitui não é meramente a terra onde se encontra (o ridículo conceito de ‘magic dirt’), mas sim as pessoas que a compõem, com uma etnia e cultura próprias. Reconhecem, logo, que não se pode substituir as pessoas sem aniquilar a Nação, ou sem a transformar em algo completamente distinto. No entanto, e infelizmente, muitos não prestam a devida atenção à conduta das pessoas que compõem a Nação, nem têm um entendimento de que o bem comum da Nação é muito mais do que o bem individual dos seus membros, e subscrevem assim uma forma ou outra de individualismo, que é radicalmente antagónico ao objectivo que pretendem alcançar.

Mesmo admitindo que o Nacionalismo consegue ganhar eleições e expulsar os alógenos, qual é o resultado? Ter paradas gay mais seguras? Um sistema de saúde a funcionar melhor para mais eficientemente abortar crianças? Jovens mulheres a embebedarem-se nas ruas das nossas cidades sem o receio de violação por parte de alógenos? O Nacionalismo hoje é análogo ao puxar um suicidário da beira da ponte, mas depois mandá-lo para casa onde tem cordas, armas e comprimidos. É a fantasia de achar que se não resolvermos o problema psicológico e espiritual ele vai deixar de ter tendências suicidas. A nossa civilização presente é patentemente suicidária, a vários níveis, e o Nacionalismo infelizmente apenas pretende criar as condições para que se suicide em paz.

double-headed-romanov-imperial-eagleComo expliquei anteriormente, o Ethnos tem de ser entendido e só pode ser defendido através do Ethos. Só o retorno a uma ordem tradicional, em todas as suas implicações, pode garantir a coesão étnica e cultural. Não podemos manter uma parte do edifício liberal e esperar que fique estanque e não volte a destruir aquilo que já destruiu uma vez. Aqueles que anseiam por uma sociedade etnicamente coesa mas que pretendem simultaneamente manter outros aspectos da sociedade moderna, estão a perseguir uma ilusão, mas ainda mais importante, não podem ser considerados como aliados. Pelo que é de extrema importância que se entenda que o movimento tem de rejeitar todos os pontos do liberalismo, e ser muito mais radical do que o simples Nacionalismo.

‘Pregar aos convertidos’ e algumas sugestões

UPDATE @ 18:57: um pouco depois de publicar o texto, encontrei isto que ilustra perfeitamente o meu argumento quanto ao problema de querer apelar às massas. No video vemos um dos ‘nacionalistas cívicos’ mais populares, Tommy Robinson, a chamar ao palco de um evento político um drag queen e a aplaudir-lhe a bravura. Isto é o que acontece quando se quer ser ‘big tent’.

A ideia para este texto surgiu de uma conversa que tive com o Afonso de Portugal, na caixa de comentários deste post.

A ideia de que ‘pregamos aos convertidos’ é algo que já terá ocorrido a todos os autores cujas ideias são diferentes do mainstream, sobretudo desde o advento da Internet. Com a possibilidade de chegar directamente a um vasto público vem a sensação de fracasso e o sentimento de frustração quando o não conseguimos concretizar, e em vez disso parece que escrevemos apenas para o pequeno grupo que já nos conhece. Talvez ainda mais descoroçoante seja realizar que nunca chegaremos a influenciar com os nossos escritos um número considerável de pessoas. Esta última asserção não é partilhada por todos. Pelo contrário, muitos dos meus pares têm ainda como objectivo alcançar as massas e convertê-las à causa. Aqui vou expor as razões porque acho que tal não é possível, nem desejável, no estágio presente do nosso movimento.

Como o Afonso aponta e bem a “blogosfera tem perdido muitos leitores nos últimos anos, em grande parte devido às redes sociais”. O imediatismo junta-se às injecções de dopamina por cada reacção nessas redes, algo que os blogs não podem replicar, e com o qual não podem portanto competir. Junte-se a isso o facto de os ‘nacionalistas’ e ‘tradicionalistas’ não terem conseguido ‘ter um impacto visível’ nas redes sociais. Penso que há formas de utilizar as redes sociais de forma benéfica a nosso favor, mas falarei mais à frente deste aspecto. O que não considero é que alguma vez consigamos ter o mesmo nível de impacto, ou sequer parecido, que personalidades e grupos do mainstream têm.

O Afonso compara, por exemplo, as audiências gigantescas de miúdos parvos no Youtube com o insucesso numérico dos nacionalistas, e conclui “Ou encontramos formas eficazes de seduzir os nossos potenciais eleitores ou estamos condenados a continuar a falar para meia-dúzia de pessoas que já pensam como nós. Isto é um problema muito sério, a que poucos no movimento nacionalista têm dado atenção. É preciso aprendermos a vender o nosso peixe, ou continuaremos a perder as batalhas e, no final, a guerra!“. Eu concordo, mas acho que o mais importante é saber o que estamos a vender. A publicidade direccionada gera muito mais frutos do que a indiscriminada: a BMW não vai fazer publicidade num bairro social, mas em bairros de classe média alta. Ou seja, temos de saber quem são os consumidores da nossa particular espécie de ‘peixe’. Para isso temos de saber que ‘peixe’ é (se queremos atrair as massas ou atrair um número mais reduzido de homens capazes e rectos) e tal como os publicitários da BMW sabem identificar quem tem meios financeiros de comprar BMWs, nós temos de saber quem tem meios intelectuais de ‘comprar’ as nossas ideias.

Considere-se o cidadão comum: aquele que obtém toda a sua informação de fontes oficiais e desconfia de tudo o que não venha com o selo dessas fontes; que papa novelas, reality shows ou filmes de superheróis; que ouve a música terrível e degradante que dá na rádio, etc. Ou considere-se até o intelectual comum (estudante universitário, professor, jornalista, etc), cujo bem estar e estabilidade financeira (para não falar da psicológica) dependem da sua aderência aos lugares comuns do nosso tempo. Consegue-se imaginar que as nossas ideias os convençam? Terão capacidade intelectual, ou honestidade moral, para sequer as entreterem seriamente?

Eu não concordo que se possa instruir as massas pois por definição estas são insusceptíveis de instrução. Isto pode soar excessivamente elitista mas não somos nós contra a ideia de igualdade? Não reconhecemos a naturalidade das hierarquias? Só porque a Internet oferece a possibilidade de se chegar a um número elevado de pessoas, não significa que todo o tipo de ideias possam ser adoptadas (ou sequer consideradas) pela maioria. A Internet mudou os meios de comunicação, mas não mudou a natureza humana. Esta incapacidade das massas de pensar em problemas sociais não existe apenas na nossa sociedade, existiu em todas as do passado e existirá em todas as do futuro. Simplesmente não é útil ou possível ao cidadão comum pensar sobre questões complexas de organização social ou teor moral. Vários psicólogos sugerem até aos seus pacientes que se deixem de preocupar com tais assuntos pois estão fora da sua esfera de influência e controlo e como tal tendem a gerar sentimentos de ansiedade e stress. Tudo indica que somos nós, os que pensamos a fundo e frequentemente sobre estes assuntos, e não eles, que os ignoram, os verdadeiros ‘malucos’, pois dedicamos o nosso tempo a assuntos que estão largamente fora da nossa esfera de influência directa. Ou seja e em suma: nunca chegaremos a 99% dos fãs dos miúdos parvos do Youtube.

Depois há a questão de que o nosso canto da Internet é considerado radical pois está fora do espectro do discurso aceitável. Tendo em conta a natureza das mulheres e a quantidade de homens efeminados para quem seguir a linha oficial em assuntos desta dont-think.jpgnatureza é absolutamente essencial para a sua estabilidade psicológica, para quem estar alinhado com as opiniões do zeitgeist constitui um selo de aprovação da sua existência, podemos descontar também estes – mesmo tendo QIs medianos ou até acima da média, a sua disposição psicológica não lhes permite entreter as nossas ideias, até que elas tenham algum peso e consequência fora dos meios intelectuais. Mesmo que o zeitgeist vá contra os seus interesses directos como sabemos ir, a panaceia do politicamente correcto é o ópio que lhes permite funcionar em sociedade e distraí-los da dissonância cognitiva. Para estes, e até sermos um exemplo a seguir, não na Internet mas na prática, continuaremos a ser uma ameaça à estabilidade mental destas pessoas e à estabilidade social que pensam depender da aderência ao zeitgeist. Mais uma vez somos nós os ‘malucos’, que rejeitamos o conforto psicológico que surge da aceitação da mundividência vigente.

É portanto duvidoso, no mínimo, que consigamos atrair um número considerável de pessoas para aquela que é uma esfera por enquanto puramente intelectual e, pior, das franjas. Mas será isto uma tragédia?

Não creio. Primeiro, como se costumava dizer, o que não tem remédio, remediado está. Não acho que alguma vez consigamos alterar a natureza humana que torna as considerações acima apresentadas uma realidade, e não penso que essas considerações possam ser disputadas. Mas se tentar apelar às massas é maioritariamente uma perda de tempo – pelas razões apresentadas acima – pode ser também potencialmente prejudicial. E passo a explicar porquê.

Desde 2016 que tenho observado a evolução de vários ‘movimentos’ que ganharam uma maior proeminência com o fenómeno Trump. De repente, estas franjas não eram tão minoritárias, apelavam a um número cada vez maior de pessoas, incluindo pessoas como as que descrevi anteriormente. O que sucedeu com esse alargamento, no entanto, foi que para o efectuar teve de se fazer um enorme número de concessões tácticas, como ClA8HJ2VEAA8oOwacrescentar água ao leite até ficar só um líquido nojento que não é nem uma coisa nem outra. Da mensagem nacionalista e tradicionalista, para apelar às massas, ficou só uma tímida e reduzida ideia de ‘nacionalismo cívico’ – a ideia de que podemos ter uma sociedade multiracial desde que os imigrantes se ‘integrem’ na nossa cultura presente – e o exacto progressismo que defende essa cultura presente contra o qual nos insurgimos. A única coisa que ficou entrincheirada foi a oposição ao Islão – mas há boas e más razões para se lhe opor, e esta estirpe (a popular), a que apela a um número considerável, opõe-se por más razões. Os seus argumentos vão todos no sentido de defender as ‘liberdades’ Ocidentais – aquelas que são a principal causa da degeneração moral e étnica da nossa civilização. Ou seja, para apelar às massas, foi preciso prestar tributo aos dogmas da nossa época, e fazê-lo inclusivamente através da estupidificação dos meios (alguns dos Youtubers mais populares desta estirpe são francamente embaraçosos, pois querem ser comentadores sérios e, ao mesmo tempo, editar os seus videos de forma a captar a atenção dos tais miúdos parvos que não conseguem prestar atenção a nada que seja sério e sóbrio).

Repare-se quem são as figuras mais populares desta estirpe mais mediática: sodomitas, mulheres, minorias étnicas, travestis. Não são os homens brancos heterossexuais que criaram e defenderam a doutrina original e não conspurcada, mas sim papagueadores imitativos Kanye-MAGApertencentes aos grupos que têm algumas medalhas nas Olimpiadas da Opressão e que portanto são passíveis de serem ouvidos pela populaça. Note-se um exemplo recente e hilariante: quando Kanye West (um homem desequilibrado e sem talento) decidiu que afinal Trump era do seu agrado, e foi ligeiramente contra o zeitgeist neste aspecto, a plebe que foi atraída pela versão ‘aguada’ do movimento entrou em euforia por ter a validação de uma das vacas sagradas do progressismo (alguém que não fosse branco), e também por ser alguém tão popular (por partilharem a opinião de que a popularidade é em si mesma uma coisa boa). O mesmo se observou amiúde com outras vacas sagradas: sodomitas como o Milo Yiannopoulos, trad thots (‘putéfias tradicionalistas’) como a Lauren Southern, ou 7efda4313127bb3389b11be36caa10d7-d596isxtravestis como o Blair White. Eu não quero estas pessoas no meu grupo, não só porque apresentam uma versão domesticada e bastardizada daquilo em que acredito, mas porque aquilo que são na prática contradiz a teoria. Não podemos promover um patriarcado tradicional etnicamente coeso através de mulheres, sodomitas e minorias étnicas. É um contrasenso. O próprio PNR, que muitos ainda consideram uma alternativa viável, já começou a desfilar afrodescendentes para se tornar mais moderno e acessível ao cidadão comum que grita de horror quando lhe dizem que Portugal devia ser dos Portugueses. Quanto tempo até o PNR ter o seu ‘nacionalista genderqueer’ para angariar votos entre desviantes e os seus defensores? Quanto tempo até ter a sua ‘putéfia tradicionalista’ para lucrar com a frustração sexual e a falta de masculinidade das novas gerações? Em suma, as pessoas que estes fantoches atraiem não são pessoas que queiramos atrair, nem são na sua maioria pessoas passíveis de serem convertidas. E as que forem passíveis de conversão não convém que o sejam à doutrina enfraquecida através de personagens semi-progressistas. Se o forem, devem ser à doutrina verdadeira, através de homens brancos heterossexuais, que representam na prática aquilo que advogam na teoria.

Resta o argumento do ‘stepping stone’, isto é, que estas personagens e as suas versões degeneradas da doutrina servem de porta de entrada para a versão dura, mas nunca observei nenhum participante sério ter sido trazido por este meio. O que observei foi uma catrefada de desviantes sexuais, minorias étnicas e homens sexualmente frustrados que enfraquecem o movimento e nunca chegam ao patamar superior. Os que por acaso se radicalizam contaminam com drama, e por vezes até doxing, porque cotinuam a ser os mesmos seres fracos e efeminados que ainda ontem acreditavam na cantilena progressista e que se juntaram ao movimento apenas por interesse, ou para satisfazer uma necessidade de pertença nascida da sua fraqueza.

Algo que já é vastamente reconhecido como necessário é a exclusão e condenação dos elementos violentos, ‘neonazis’, etc. Reconhece-se que para a percepção do homem comum ter ‘neonazis’ caricaturais a utilizar meios violentos só serve para descredibilizar e dar uma ideia errada das nossas intenções. Também eles pertencem ao grupo dos QIs baixos, mas por frustração, trauma ou disposição (ou uma combinação destes factores), são atraídos pelas franjas políticas. Mas é notório que não servem para dar uma ideia correcta daquilo que representamos, nem servem como aliados, pelo menos enquanto o movimento não existir com racionalidade e organização, e enquanto não existirem instituições próprias e liderança clara. As massas são seguidoras por natureza, mas por enquanto ainda não há nada que possam seguir, pois o movimento é ainda puramente intelectual e desorganizado.

Por todas estas razões, pregar aos convertidos é um fado inevitável, mas não é tão espúrio como se possa pensar. Há óptimas e importantes razões para se continuar a falar àqueles que já estão do nosso lado, sem moderar a mensagem. Fazê-lo endurece a convicção e assegura os participantes de que não estão sozinhos (também nós somos humanos e sofremos das mesmas disposições psicológicas que fazem com que necessitemos, até certo ponto, de saber que existe quem concorde connosco); clarifica a doutrina e expurga-a de degenerações, desvios e concessões. E através destas duas consequências da pregação aos convertidos pode chegar-se a um entendimento sobre os valores, causas e objectivos do movimento, sobre qual se pode erigir algo mais concreto. O facto de neste momento ser ainda difuso e disperso não implica que seja para sempre assim. E esta pregação não exclui a conversão de novos membros, pelo contrário, garante que se convertem os membros certos. O que é preciso ter em conta é que para se efectuar uma conversão o converso já tem de estar aberto a ser convertido. Homens curiosos e intelectualmente honestos procurar-nos-ão para essa conversão, se já estiverem abertos a ela. E para cumprir estes dois desígnios é preciso não nos deixarmos desencorajar e continuar a pregar.

Falarei noutro texto sobre um plano de acção que vá além dos esforços intelectuais, mas aqui quero deixar apenas algumas sugestões em relação a este aspecto e tendo em conta a situação presente, no sentido de atrair aqueles que já andam à procura de algo e que potencialmente o encontrarão entre nós:

1) Os blogs que tratem maioritariamente de notícias e ofereçam a nossa perspectiva dos eventos noticiados ganhavam bastante em manter uma presença regular nas redes sociais populares (sobretudo no Twitter), para publicitarem os posts e contactarem potenciais ‘conversos’. Usando os hashtags, categorias, etc, para ligar os posts aos assuntos do dia, e interagir com figuras da Direita moderada (‘Insurgentes’, ‘Blasfemos’, etc), não para os converter a eles, mas para ilustrar a alguns dos seus leitores potencialmente convertíveis que existem perspectivas diferentes sobre os assuntos.

2) Criar contas em redes sociais alternativas (Gab, Minds, etc), para direccionar a partir das contas nas redes populares e encorajar o maior número possível a migrar para estas plataformas alternativas.

3) Blogs que façam posts curtos podem converter uma boa parte do seu conteúdo em posts nas redes sociais. O conteúdo imediatista oferece-se a este tipo de plataforma bem mais do que ao formato blog, deixando este para conteúdos mais longos. Se esses posts curtos forem sobre notícias deixá-los nas caixas de comentários dos jornais (e também dos blogs da Direita moderada) com links para os blogs pode trazer alguns curiosos.

4) Uma última consideração sobre a importância que a questão estética tem para o primeiro contacto: muitos dos blogs deste canto da Internet têm infelizmente uma estética descuidada, por vezes kitsch ou até casos crassos de desformatação que causam uma aversão automática em qualquer novo leitor. A questão estética pode parecer supérflua ou mesquinha, mas a meu ver a aparência sinaliza algo sobre o conteúdo: da mesma forma que um homem deve apresentar-se em público lavado e vestido de forma civilizada para ser levado a sério, o mesmo pode ser dito sobre os blogs e a sua aparência. Pode não ser justo julgar-se um livro pela capa, mas a verdade é que sucede e provavelmente vai sempre suceder. Um pequeno esforço neste sentido faria uma diferença tremenda.

Automatizar a Alienação: progresso tecnológico e anti-globalismo

«The conservatives are fools: They whine about the decay of traditional values, yet they enthusiastically support technological progress and economic growth. Apparently it never occurs to them that you can’t make rapid, drastic changes in the technology and the economy of a society without causing rapid changes in all other aspects of the society as well, and that such rapid changes inevitably break down traditional values.»

Theodore Kaczynski, Industrial Society and Its Future, 1995

Um dos argumentos mais usados pela intelligentsia globalista para justificar a imigração de massas para o Ocidente é o baixíssimo índice de fertilidade observado entre as populações nativas e a necessidade de manter a população a um nível estável evitando, desta forma, uma descida nos níveis de produtividade e um colapso do sistema de pensões. Esquecendo a perspectiva ‘conspiratória’ de que existem motivos ulteriores social_problems_depicted_in_cool_cartoon_art_04para as elites globalistas quererem esta solução, o argumento que apresentam é puramente económico – e nessa sua miopia estão perfeitamente alinhados com a Direita moderada, para quem a economia é o único barómetro político, social e cultural.

Este argumento pode ser rejeitado por várias razões, algumas económicas e outras de cariz moral: a mais importante, a meu ver, não tem absolutamente nada que ver com economia, e baseia-se no princípio moral de que uma população deve manter a integridade étnica (e logo, cultural) da sua nação ancestral. Acontece que este princípio, embora moralmente justificado, para ser aplicável na realidade, obriga a que se façam considerações de ordem técnica. Podemos achar, e com razão, que os argumentos e intenções dos globalistas são iníquos, mas temos de concordar que o seu raciocínio não é totalmente disparatado, sobretudo se quisermos manter ou aumentar o nível de riqueza presentemente existente. Tendo em conta o índice de fertilidade dos nativos europeus, a Segurança Social e semelhantes sistemas de transferência de rendimentos de jovens para idosos é insustentável. Já o é há várias décadas, e a combinação de declínio populacional e políticas inflacionárias promete destruir o sistema por dentro, seja através da impossibilidade de o Estado cumprir com os compromissos para com os beneficiários ou de os cumprir para com os credores a quem se endividou para pagar aos beneficiários. É um problema inamovível e que exige uma solução.

A Direita moderada não tem preferência: desde que se resolva, não importam os meios – mesmo que esses meios sejam a substituição da população original por africanos, árabes e ameríndios. Tendo em conta que esta substituição não implica uma reposição qualitativa, mas sim quantitativa, que os imigrantes que invadem o Ocidente não têm a mesma capacidade intelectual e produtiva dos nativos, que uma boa parte deles adicionam custos em vez de benefícios ao sistema, e que a economia mundial necessita de cada vez menos mão de obra não-especializada dada a automatização e o avanço tecnológico (algo que já afecta as classes baixas e médias do Ocidente) as considerações conspiratórias ganham alguma validade. Pelo que a Direita identitária rejeita obviamente esta solução, tanto moral como economicamente, e em contraposição diz que não precisamos de imigrantes, precisamos somente de mais automatização e progresso tecnológico. Com a automatização e o progresso tecnológico vem racionalidade económica, maior produtividade e logo a libertação de recursos sem se sacrificar a produção de riqueza, permitindo, em princípio manter o sistema de pensões mesmo perante uma população envelhecida e uma diminuição da população activa. A automatização permite já, e permitirá cada vez mais, a realização de inúmeras tarefas de forma menos dispendiosa do que a prévia necessidade de se empregar as classes baixas e médias, aumentando o nível geral de riqueza. O argumento é ilustrado sucintamente neste video. Ao contrário da Direita moderada e dos globalistas, a Direita identitária pode apontar para sociedades onde a sua solução já está a ser praticada.

Para os identitários, o Japão funciona como o exemplo a seguir. Uma sociedade envelhecida, sim, mas que, apesar disso, continua a prosperar economicamente, cada vez mais tecnologicamente avançada e que se mantém ainda etnicamente homogénea, e logo largamente livre do crime violento ou de propriedade, ao ponto de a polícia não ter o que fazer. No entanto, penso que é algo ingénuo olhar para o Japão como uma história de social_problems_depicted_in_cool_cartoon_art_640_36.jpgsucesso, quando essa história pode ser mais correctamente descrita como uma tragédia. Se as afirmações acima sobre a sociedade Japonesa são verdadeiras, é preciso no entanto olhar para o abismo social e moral em que o país caiu – não apesar delas, mas por causa delas. Neste mini-documentário, vemos a profundidade da decadência para lá dos números, aquela que não podendo ser quantificada, pode ser observada e sentida. Esta é uma sociedade altamente disfuncional, um pesadelo kafkiano de hotéis capsula, de homens herbívoros, de hikikomoris, em que homens e mulheres não têm interesse no sexo oposto, em que a figura do funcionário ideal da corporação se realiza na sua mais assustadora representação – e mesmo isso não sendo suficiente para satisfazer as necessidades de uma sociedade altamente competitiva – em suma: o cúmulo da sociedade materialista. O desenvolvimento tecnológico que tornou o Japão numa história de sucesso económico foi art-emgn-7o mesmo que tornou os seus cidadãos meros autómatos ultra-materialistas, desligados da sua humanidade e, logo, do próximo. E, sem alógenos violentos que, pelo seu barbarismo, os lembrem da realidade pura e dura da vida, têm liberdade e paz para adormecer num torpor estéril de conforto. Não admira que uma tal sociedade não produza progenitura. Para quê trazer crianças ao mundo quando o mundo é um vazio absoluto? Os Japoneses são um retrato aterrador do futuro que a automatização trará ao resto do mundo – se o permitirmos. No fundo são uma ilustração humana da fossa comportamental observada por John B. Calhoun na sua experiência com roedores. E na verdade, mesmo em países relativamente atrasados (em comparação com o Japão), observamos já as mesmas consequências.

Mesmo deixando de lado considerações sobre a alienação social, o problema demográfico é, pelo menos em parte, um produto da sociedade pós-industrial. Tome-se, por exemplo, o declínio nas contagens de espermatozóides nos homens ocidentais, cujas origens particulares não são objecto de concordância nos estudiosos mas em que todas as hipóteses são produtos do estilo de vida permitido e apenas possível pelo rápido progresso tecnológico (a comida altamente processada, o excesso de toxinas no ar, os químicos na água, etc).

A solução para um problema não pode ter a mesma natureza que a origem desse problema. Aquilo que permitiu a baixa fertilidade e o envelhecimento nas nossas sociedades foi a automatização e o avanço tecnológico, a terciarização da economia, o desligar da actividade económica da capacidade de sobrevivência. Pelo que mais automatização, mais avanço tecnológico e mais terciarização não vão resolver o problema, mas sim complicá-lo. Quanto mais removidas as pessoas estiverem das realidades da natureza, quanto mais conforto e alienação, quanto mais artificiais forem as suas vidas, mais fácil será subverter os seus valores e destruir a sua humanidade.

É inegável que o relativismo moral propagado quer pelas universidades quer pela sociedade de consumo e pela Internet teve e tem um efeito devastador nas atitudes sociais, incluindo aquelas directamente relacionadas com a reprodução, a sexualidade e as relações entre os sexos. Mas estas razões culturais são inseparáveis dos avanços tecnológicos que as permitiram – e sem os quais a propaganda que as promoveu não teria tido efeito, pois os recursos materiais para os realizar não existiriam. Não só a tecnologia permite disseminar a propaganda, mas as próprias atitudes são possíveis apenas através dos meios tecnológicos. Imagine-se, por exemplo, sexualidade desligada da reprodução de forma generalizada sem contraceptivos, transsexualismo sem técnicas avançadas de cirurgia plástica, homossexualidade continuada sem medicamentos que mantenham as várias doenças propagadas pela actividade sob controlo ou, para usar um exemplo ainda mais simples, a própria medicina que permite que pessoas, por mais ineptas ou irresponsáveis, sobrevivam até uma idade extremamente avançada.

Eu costumava partilhar da ideia que a tecnologia era socialmente neutra, isto é, que eram os homens e as suas disposições que imprimiam a uma particular tecnologia uma faceta benéfica ou maléfica. E até certo ponto é verdade. Mas é preciso entender que a tendência natural no Homem é para o mal devido à sua natureza caída. Como diziam os texto technoantigos: a carne é fraca. E é igualmente importante compreender que não é tanto uma tecnologia em particular que constitui o problema, mas o rápido e exponencial avanço da mesma, que leva à introdução de uma ou outra ferramenta na sociedade sem que haja uma consideração prévia das suas consequências para a sociedade. Os últimos 250 anos no Ocidente, quase sem excepção, foram de ditadura científica e tecnológica – sob um ou outro sistema político, a constante foi a primazia deste progresso sobre todas as outras considerações e o concomitante desprezo por qualquer preocupação levantada em relação a essa primazia. Salazar não prezava o ‘imobilismo’ português, como os seus detractores o apelidavam, nem o protegeu institucionalmente por uma questão de pequenez provinciana, mas sim porque sabia que o progresso tecnológico veloz levava a uma igual revolução nas estruturas sociais.

É óbvio que muita gente utiliza a tecnologia para fins nobres, para procurar a verdade, para se tornar uma pessoa melhor e mais completa, para ajudar os outros, etc. Mas, pela própria natureza humana, esses serão sempre uma minoria. Esta realidade, no entanto, só tem consequências sociais graves quando a tecnologia atinge um ponto de sublimação – ou seja, quando se torna generalizada.

A melhoria das condições de vida desligada do esforço individual não é uma estrada de sentido único. Estas melhorias, sobretudo a partir de um certo ponto de desligamento completo entre produção e sobrevivência, de controlo e alienação quase absolutos da natureza, criam as suas próprias estruturas mentais e culturais. As normas tradicionais existem dentro de uma moldura civilizacional em que os homens têm de trabalhar para sobreviver, estão sujeitos e, até certo ponto, limitados pelas forças da natureza. Não admira pois que, quanto mais avançada a revolução industrial e mais removidos os homens estão destas condições naturais, menos as normas tradicionais sejam seguidas ou vistas como válidas, e mais a promoção dos estilos de vida alternativos se torne aceitável.

Veja-se algo tão simples como veículos motorizados. Estes permitem percorrer distâncias relativamente longas com facilidade, onde antes as mesmas distâncias eram muito mais dispendiosas e difíceis. Por um lado, admitimos todos os benefícios que trouxe, mas não nos podemos admirar que esta mobilidade facilitada tenha ajudado também a acabar com a proximidade comunitária, que tenha levado a que a família estendida se transformasse em família nuclear, que a educação das crianças deixasse de ser um trabalho do bairro, da vila ou da aldeia. Isto para ilustrar que até uma tecnologia que tomamos como garantida, tem implicações para a organização social e enfraquece normas tradicionais de comunidade.

Outro exemplo do dia-a-dia pode ser encontrado nos electrodomésticos. Tendo sido originalmente oferecidos às donas de casa, para as ajudar nas tarefas diárias que faziam parte dos deveres de uma mulher, rapidamente se transformaram numa forma de libertação, não só dos aspectos mais cansativos da lida da casa, mas eventualmente da própria casa. A mulher libertada pelos electrodomésticos que não tinha de despender tanto tempo nas tarefas domésticas criou a ‘dona de casa aborrecida’, sujeita a todo o tipo de propaganda da sociedade de consumo, até eventualmente criar a mulher que entra no mercado de trabalho, a mulher carreirista, as enormes taxas de divórcio e mães solteiras, e por aí adiante.

Estes exemplos, e milhares de outros, sugerem que o nível de crescimento tecnológico, que é exponencial, não linear, é rápido demais para que exista uma concordante adaptação mental nas pessoas, gerando a disfunção e alienação que caracterizam as nossas sociedades.

As pessoas gostam de imaginar, por exemplo, que os carros conduzidos automaticamente vão libertar tempo para as pessoas se instruírem, adquirirem novas capacidades, criarem novas obras de arte, etc. Na realidade, o que vai acontecer e acontece sempre é que as pessoas vão usar esse tempo para ver pornografia, reality shows, tirar selfies e jogar jogos de computador. Da mesma forma que gostavam de imaginar que a Internet seria usada para expandir o conhecimento e erudição do cidadão comum, quando na verdade a maioria usa-a para satisfazer impulsos primários e alienar-se do vácuo da vida moderna através de entretenimento.

E repare-se que nem mencionámos os perigos que a Inteligência Artificial e a modificação genética apresentam para a humanidade, problemas distintos em natureza daqueles que falámos acima, e que são o produto do progresso tecnológico exponencial quando não existem entraves institucionais, ou sequer considerações sérias sobre as consequências desse progresso.

Por isso a invasão imigrante é menos destrutiva a longo prazo do que a crescente automatização e progresso tecnológico, precisamente por gerar mais sofrimento físico e mais tensão – uma tensão e sofrimento que podem trazer-nos de volta a um reconhecimento das realidades base da vida e que são essenciais para acordar o homem moderno ocidental do seu torpor tecnologicamente induzido. Quando tudo arde art-emgn-3nenhuma mulher vai queixar-se do patriarcado, nenhum homossexual vai insistir na sua perversão. Se insistirem vão rapidamente perecer. Os identitários gostam muito de falar nas práticas disgénicas da nossa sociedade, mas nunca mencionam o factor que permite esta disgenia generalizada: o progresso tecnológico. Pelo contrário, paradoxalmente encontramos entre eles alguns dos seus mais ávidos defensores. Nenhuma outra força permite numa escala tão grande a sobrevivência dos fracos, nem promove com a mesma ferocidade a complacência dos fortes. O avanço tecnológico é um sedativo gradual que leva ao equivalente social de um corpo vegetativo ligado a uma máquina.

Muitas sociedades e povos sobreviveram a invasões, nenhuma sobreviveu à decadência do conforto. Foram precisamente as sociedades afluentes, confortáveis e decadentes (uma combinação que não é um acaso) que foram incapazes de resistir aos invasores. Pelo que a solução não pode ser uma insistência e intensificação dos meios que geraram os fins que queremos evitar, mas sim uma rejeição desses meios e um retorno a uma forma de organização económica e social que não só reflicta os valores que consideramos certos, mas garanta a manutenção da sociedade de acordo com esses valores.

Maio de 68

Prof.-João-Carlos-Espada-pbO João Carlos Espada (JCE) publicou um texto que ilustra a vacuidade moral, a obsessão economicista e, sobretudo, a incapacidade de observar o mundo à volta e admitir um erro que caracteriza a Direita moderada.

A mundividência do JCE, talvez pela idade, talvez por teimosia, ou talvez por ser um marxista arrependido daqueles que se converteu tarde ao anti-Comunismo, não consegue conciliar a ideia de que o Capitalismo sem entraves e o relativismo moral andam de mãos dadas. Ou se consegue, continua a achar que os benefícios do primeiro justificam a iniquidade do segundo. Mais: se tiver de escolher, e não está sozinho nessa escolha, prefere que o capitalismo liberal continue, mesmo que para isso se tenha de destruir toda a moral absoluta, toda a identidade nacional e substituir as populações nativas por alógenos.

Não estou a exagerar quanto às opiniões da personagem. O próprio não tem problemas em admitir a total falência da sua filosofia, ou aliás, em ver a falência como uma vitória: «a legalidade da “República burguesa” saiu vitoriosa; e isso permitiu a vitória pacífica de CAR6805-29May68-001.jpgmuitas das ideias de Maio de 68.» E que ideias eram essas? Não as económicas, não o anti-capitalismo, a rejeição do sistema usurário internacional ou a oposição à sociedade de consumo. As ideias que saíram vitoriosas, e que tomaram conta da sociedade, foram as culturais: o relativismo moral e a liberdade absoluta do hedonismo que o acompanha. O JCE considera isto uma vitória, sem ironia. Mais, ele próprio admite que, sem a democracia e o capitalismo, essas ideias teriam sido impedidas de medrar: «a verdade é que, devido a essa vitória da “oligarquia burguesa”, as ideias libertárias de Maio de 68 puderam continuar a ser livremente defendidas — o que evidentemente não teria acontecido se tivesse ocorrido a revolução comunista.»

Se acham que estamos a citar fora do contexto, oferecemos a palavra ao JCE num parágrafo inteiro que sumariza toda a tragédia da sua mundividência:

«Muitos comentadores discutem hoje que avaliação devemos fazer das ideias libertárias de Maio de 68. É certamente um tema importante. Mas não creio que seja o essencial. O essencial é que, contra os anseios revolucionários de Maio de 68, a França permaneceu “burguesa” — isto é, livre e democrática. Por essa razão, pôde absorver muitas ideias de Maio de 68. Pela mesma razão, pôde e continua a poder também contrariá-las.»

As ideias libertárias a que se refere são as do relativismo moral que conquistou o Ocidente, aquele que destrói as relações hierárquicas na sociedade, que despreza os valores tradicionais, que envenena as relações naturais entre homens e mulheres, que idolatra a sodomia e os sodomitas, que esbate a coesão e identidade nacionais, que importa milhares de alógenos do terceiro mundo, que eleva o hedonismo e a ‘realização pessoal’ à razão de viver e ao objectivo a que todos devemos almejar. O JCE considera as concessões feitas em 1968, e por consequência os seus resultados, como algo que devemos aplaudir. Salvámos a democracia e o liberalismo, salvámos a pureza ideológica, e o resto que se lixe. Aqui aproxima-se mais dos ideólogos dogmáticos do Comunismo original, indiferentes aos resultados que a sua ideologia produz, do que do pragmatismo racional que é suposto representar.

Na sua obsessão económica, o JCE esquece que o Maio de 68 começou, não com as greves, mas com a ocupação das universidades e que este foi um prenúncio da subsequente e gradual ocupação, muito mais radical, permitida pela sua querida democracia liberal burguesa e que hoje é, sem grande protesto da Direita, o status quo académico. Mas rey_jean-pierre_1143_2005.jpgolhando de momento para a questão puramente económica, convém pensar como se conseguiu mobilizar toda a classe trabalhadora industrial (poderíamos dizer, o proletariado) para um protesto de tão massiva escala. A intelligentsia moderna que explica o apoio aos Nacional-Socialistas na Alemanha de Weimar meramente pela malícia da propaganda e do populismo, como se não houvessem razões para a população procurar alternativas à decadência total da república em questão, explica com a mesma cegueira os distúrbios proletários de Maio de 1968. Num caso como no outro, a Direita ignora ou menospreza as origens do fenómeno com a iniquidade ou ineficiência das soluções promovidas, como se não houvessem razões profundas para a revolta. Em 68 tinham-se passado mais de 20 anos desde a grande reorganização ideológica da indústria no mundo moderno, em que a capacidade produtiva Europeia se começava a exportar para a Ásia e América do Sul, e em que a inflação usurária se fazia sentir sobre o poder de compra e sobre a qualidade de vida que os trabalhadores podiam dar às suas famílias. A sua estratégia era errada e as suas alianças ignorantes, mas as suas preocupações eram válidas.

Os trabalhadores juntaram-se aos estudantes porque julgaram que as suas preocupações eram aliadas naturais das causas libertárias dos relativistas morais. Estes trabalhadores, com famílias para alimentar, não tinham capacidade nem disposição para perceber que a Esquerda Radical que ocupara as universidades (e a que, diga-se, o Partido Comunista Francês da época se opôs), queria tanto saber das suas aspirações mesquinhas de estabilidade laboral e salários que lhes permitissem manter as suas estruturas familiares intactas como os capitalistas. A Esquerda Radical queria sexo, drogas e rock n’ roll, como hoje quer sodomia, imigração de massas e mutilação genital. Note-se que, passados 50 anos, a classe trabalhadora ainda não percebeu a grande traição daqueles que lhes prometeram protecção e que em vez disso lhes deram hedonismo. Na última década, as novas gerações das classes trabalhadoras, já sem nada que reivindicar, sem famílias para proteger, sem trabalhos para manter, juntaram-se a eles, preferindo o hedonismo. Mas não os censuremos demais, pois de um lado e do outro não houve quem lhes oferecesse nada de melhor e da plebe não se pode, nem deve, esperar mais. O trágico é que, defendendo o contrário, os Comunistas percebiam este truísmo. Os liberais acharam que, sem pressões sociais, os valores tradicionais da plebe se manteriam intactos perante a grande subversão relativista que o seu sistema permitia.

Em Maio de 1968 era talvez natural e compreensível achar-se que a maior ameaça aos valores tradicionais vinha do Comunismo, não só pela ideologia, como pelo poder político que representava e pelas alianças culturais que mantinha no Ocidente (isto é, os relativistas morais). Meio século depois, os opositores do Comunismo, se o eram por razões morais (e hoje é difícil dizer se de facto o eram ou não), deveriam admitir o erro que cometeram ao promoverem o Liberalismo como força de oposição. Afinal, os valores que se combatiam em 68 não eram apenas económicos, e foram esses outros que ganharam a batalha, não através do Comunismo, mas através do Capitalismo. Já aqui o dissemos e voltamos a repetir, a combinação de mercado livre internacional e relativismo moral é a força mais destrutiva dos valores tradicionais, sobretudo pelo seu carácter progressivo e gradual, que não facilita a identificação do fenómeno e que essa combinação é absolutamente inevitável. Mas nem precisamos de ficar presos à teoria. Observando o trajecto das democracias liberais, bem como o trajecto paralelo que os países comunistas efectuaram, só uma boa dose de vaidade e dissonância cognitiva podem fazer com que não se admita o erro.

Sorriso de Raposa

Malcolm X é uma daquelas figuras que o zeitgeist moderno prefere não mencionar. Ao contrário de Martin Luther King, sempre aplaudido por todos os quadrantes por se encaixar nos desígnios das elites e promover todos os lugares comuns da nossa era, Malcolm X não faz parte dos santos seculares da historiografia oficial, pois era primeiramente conhecido por ser um opositor da integração entre os pretos e os brancos na América e favorecer o separatismo radical, uma ideia que levou inclusivamente a que se sentasse à mesa com dirigentes do Ku Klux Klan para discutir esta solução, demonstrando que a História muita vezes não é tão simples como a narrativa oficial faz crer. O que me leva a mencioná-lo aqui, no entanto, não é a sua defesa do separatismo racial, mas a exposição de uma outra ideia que também desafia a narrativa oficial.

Neste video, Malcolm X explica que a Esquerda na América age como defensora dos pretos americanos sem ter no entanto qualquer intenção de os ajudar, em contraste com a Direita, que não finge ter os pretos nas suas preocupações nem tem a pretensão de avançar as suas causas. Nem a Esquerda nem a Direita têm os interesses dos pretos em conta, segundo ele, mas a Esquerda, como uma raposa, diz que sim, sorrindo. A Direita, como um lobo, mostra os dentes por outras razões. Tendo isto em conta, Malcolm X conclui que a Esquerda é muito mais perigosa para os negros do que a Direita.

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Eu penso que podemos e devemos aplicar a mesma analogia aos partidos e à intelligentsia de Direita em relação aos tradicionalistas. Os tradicionalistas sabem que a Esquerda não lhes tem qualquer simpatia e os antagoniza abertamente, mostrando-lhes os dentes com a intenção de atacar. A Direita mainstream, pelo contrário, como a raposa, pretende fingir-se amiga (ou pelo menos simpatizante) dos tradicionalistas, sorrindo, ao mesmo tempo que nas suas ideias e acções avança, premeditada ou ingenuamente, uma agenda completamente distinta, avessa e hostil à causa tradicionalista.

A Direita mainstream em Portugal (e no resto do Ocidente) tem essencialmente duas bandeiras: a liberdade individual e a eficiência económica. A “Direita dos costumes” como lhe chamaram outrora, para todos os efeitos, na esfera mediática e partidária, não existe. Este fenómeno encontra-se muito bem sumarizado num excerto deste texto:

«A dimensão [dos] costumes tem sido menosprezada desde que o marxismo impôs o primado da economia, e antes de Marx já os liberais e os utilitaristas também davam maior importância à economia. Essa primazia não diminuiu, pelo contrário, com o aumento do rendimento e do conforto dos povos. A economia passou a ser o terreno onde se confrontavam as propostas políticas. (…) À direita, o vazio ideológico e a fraqueza política, aceitou-se a ditadura do politicamente correto. novo paradigma de revolução social. (…) a direita, jótica ou degenerada, abandona o combate cultural e adopta o niilismo relativista da esquerda. A direita socializou-se. Os valores passaram a ser rodapés de discursos eleitorais. Os políticos de direita aplaudidos pelos média são os que defendem o liberalismo de costumes, ainda que militem num partido democrata-cristão…».

Os tradicionalistas observam esta capitulação da Direita mainstream àquilo que chamam de ‘marxismo cultural’ e, até certo ponto, apontam-na como uma traição, para a qual não existe grande explicação fora da respeitabilidade profissional e da promoção pessoal. Eu considero no entanto que há um mal de raiz na matriz bipolar da Direita moderna, e que, apoiando o liberalismo económico, é apenas lógico e natural que apoiem o liberalismo social. São os Liberais com visões sociais tradicionalistas que estão em grave contradição.

Parte do problema começa no termo com que se designa a ideologia que pretende destruir todas as relações hierárquicas da sociedade tradicional através da destruição da moral que as sustenta: ‘marxismo cultural’. O termo é mal empregado porque, na prática e na teoria, não há melhor veículo para o pro-gayrelativismo moral, para a destruição das estruturas tradicionais e da moralidade subjacente a esta do que o liberalismo económico – e que portanto, e apesar das origens intelectuais dos seus promotores originais, o termo deveria ser ‘liberalismo cultural’ (o termo que prefiro, no entanto, é simplesmente ‘relativismo’). ‘Marxismo cultural’, apontando o epíteto dos seus promotores originais, esconde o veículo pelo qual ele se perpetua com sucesso. É inegável que os revolucionários culturais que deram origem à teoria se designavam como marxistas, mas foi no país mais liberal do mundo e principal baluarte dessa ideologia económica que a semente encontrou terreno fértil.

De onde vêm as modas e tendências que, ano após ano, destroem o tecido social? De onde vem o entretenimento que serve de veículo à propaganda relativista e que é responsável pela disseminação destas ideias? Vem dos países marxistas ou dos países capitalistas liberais? Não são as multinacionais – representantes maiores do capitalismo DHgIEh4UwAAJ4BIliberal e da globalização – os principais motores e promotores da imigração de massas, da bastardização da cultura, da ausência de identidade nacional e comunitária, da criação do homem-novo consumista, dos desvios e desviantes sexuais, dos estilos de vida alternativos, da sobresexualização da sociedade e da sexualização precoce – em suma, de todos os cancros sociais a que nos opomos? E que, muito mais do que através da retórica política esquerdista e da propaganda a que são submetidos na escola, é através do progresso tecnológico e do capitalismo global que estas ideias demoníacas se inculcam nas mentes do povinho?

Não observamos também que, nas sociedades que estavam fechadas ao capitalismo global, as mesmas ideias, promovidas agressivamente pelo sistema político, não medraram ao longo de décadas da mesma forma que se infiltraram, pela calada, nos países liberais? Como explicamos que os países de Leste, sujeitos a ditaduras marxistas usury and sodomy.JPGagressivas, sejam hoje os únicos onde ainda existe alguma identidade nacional, rejeição da imigração de massas e dos ‘estilos de vida alternativos’ e onde o Cristianismo ainda é relevante, não só na vida comunitária, mas nos destinos nacionais? A explicação é simples: ao contrário do Ocidente, o Leste esteve insulado do capitalismo global e, portanto, da lenta subversão dos valores tradicionais, que só a riqueza e o conforto conseguem promover e enraizar com extrema facilidade. A tragédia para estes países é que caso não tomem medidas para limitar as consequências económicas da globalização, as suas sociedades, tornando-se mais prósperas, vão contrair o vírus do relativismo liberal e acabar por destruir aquilo que cem anos de comunismo não conseguiram destruir.

Tendo nós uma visão sã do Homem e da Sociedade Humana, e sabendo que a liberdade de escolha leva necessariamente, na maioria da população, a um nivelamento por baixo, podemos continuar a ignorar que é através do liberalismo económico que aquilo que consideramos sagrado vai sendo destruído, lentamente, contaminando os nossos compatriotas, as nossas famílias, os nossos filhos? Que muito antes de ser legalmente enquadrado pelo Estado, o relativismo moral e cultural foi propagado através da sociedade de consumo massificado e da globalização?

Há quem considere a promoção do liberalismo nos costumes pela Direita uma aberração, mas na verdade não há contradição: a sua defesa da economia liberal, do progresso tecnológico, da eficiência económica anda de mãos dadas com a destruição do tradicionalismo. Não é pois de estranhar que a Esquerda dite o discurso e a Direita o aceite, pois pela sua própria moldura ideológica, não tem meios de o rejeitar. Reparem que não estamos a argumentar que o capitalismo liberal não é o mecanismo mais adequado para melhorar o nível de vida dos cidadãos: é inegável a eficiência do sistema em produzir riqueza material. O que estamos a argumentar é que a forma radical com que remove a pobreza material promove, na mesma medida, a pobreza espiritual e moral.

Na busca da prosperidade e do progresso tecnológico, na procura de melhorar o bem estar económico dos cidadãos e de tornar eficientes os mecanismos para esse melhoramento, a Direita promove o veneno que infecta o espírito da nação. É ingénuo achar que as mudanças económicas radicais que o capitalismo opera podem deixar as workbuyconsumedieestruturas sociais intactas. O capitalismo procura consumidores (a única categoria que lhe interessa) e sendo que a eficiência na obtenção desses consumidores é de suprema importância para a maximização dos seus lucros, a promoção de valores anti-tradicionais é inevitável, mais, é uma necessidade: a uniformização cultural, nacional e racial (através da plebeização da cultura, da promoção do internacionalismo e da imigração de massas) e a atomização do indivíduo (através da promoção de ‘estilos de vida alternativos’) são os veículos pelos quais se obtém o consumidor perfeito, ou seja, que se maximiza o lucro. O sonho do Internacionalismo Comunista só é conseguido, paradoxalmente, através do capitalismo liberal.

A Direita Liberal que ainda vai mostrando, pouco e esporadicamente, algum interesse pelas questões culturais e morais, ignora este fenómeno e vive numa dissonância cognitiva. Eu ignorei-o durante vários anos apesar dessa dissonância. O Liberal vê a 635952276665246516-755625981_consumerliberdade como a ausência de coerção pelo Estado, mas não vê a servidão imposta pelo capitalismo liberal, em que o homem é desligado da sua nação, da sua comunidade e até da sua família, pela promoção de uma cultura uniformizadora, degenerativa e ultra-individualista, que mina as fundações dessas relações primordiais. O homem moderno é tão indefeso perante o capitalismo liberal como o era perante o comunismo, a diferença é que no primeiro está bem alimentado, em conforto, e as suas raízes vão sendo arrancadas lentamente, sem se aperceber, e portanto, muito menos susceptível de se revoltar.

Concluímos portanto que o facto da Direita moderna ser liberal nos costumes (como a Esquerda), mas também liberal na economia (ao contrário da Esquerda), faz com que a Direita seja na prática uma ameaça maior à sociedade tradicional, ou o que dela resta. A sua combinação de liberdade individual e eficiência económica é a receita perfeita para a realização prática do relativismo: a desagregação da família, a destruição das instituições intermédias, a atomização do indivíduo. Ou seja, um tradicionalista tem muito mais a temer da Direita mainstream do que da Esquerda. Até a Direita abandonar o liberalismo económico o tributo que presta aos valores tradicionais não passa de um sorriso da raposa.

A Apologia da Ignorância

«Ignorância é felicidade e eu quero que o meu povo seja feliz»

A frase, por vezes atribuída a Salazar, cuja veracidade da atribuição não conseguimos averiguar, é apontada, quando é, em modo de escárnio e nojo pelos seus inimigos – querendo com isso atacar o homem pela sua suposta vontade de manter o povo ignorante para poder, despoticamente, controlá-lo. Aqui não é tanto a veracidade histórica que pretendemos discutir, mas a sabedoria intrínseca da afirmação, defender a sua intenção e fazer uma apologia da ignorância – e explicaremos a seu tempo o que queremos dizer com isto. Ou seja, se Salazar a tivesse dito, teria o nosso apoio e compreensão: o povo será sempre ignorante, e mais vale que o seja em consciência, do que inconsciente, podendo assim ser feliz na sua condição, e a governação continuar sem impedimentos criados pela soberba dos ignorantes. Ou seja, o exacto contrário do que acontece com o regime presente.

Em jeito de introdução, convém apontar que a ideia de que o Estado Novo quis manter a população ignorante através do analfabetismo generalizado é em si mesma um produto da ignorância, um mito criado pelas cliques cosmopolitas que governam Portugal desde o 25 de Abril, e que através das suas estruturas propagam a sua estirpe especial de ignorância disfarçada de catastrophic-human-ignorance-kmhh-7-638.jpgsabedoria. Apenas mais uma das mentiras torpes que o regime novo, fundado na rejeição do antigo, é obrigado a perpetuar para se justificar. Consultando os dados sobre literacia e analfabetismo, tal como de investimento na educação, durante o Século XX em Portugal, vemos claramente um esforço e uma conquista da parte do governo do Estado Novo em remover o grosso do analfabetismo e em promover a educação básica aos seus cidadãos. E no entanto, apesar da descida do analfabetismo ter continuado até praticamente ser zero nos nossos dias, os mitos sobre o Estado Novo permanecem contra toda a evidência, fundados numa ignorância voluntária da maioria da população. Se pensarmos que esta ignorância não se encontra somente nas classes mais baixas, desinteressadas do estudo e das questões da governação, a quem não aquece nem arrefece questões abstractas e intelectuais como os destinos do país, mas também – e com grande ênfase – nas camadas intelectuais, naquelas cuja vocação é precisamente congeminar, analisar, escrever e propagar ideias, vemos ilustrado o abismo entre as pretensões democráticas do votante informado e a realidade crua da natureza humana.

Entreviste-se o estudante médio de Ciência Política, de Filosofia, de História, ou até o graduado, ou o professor, e observe-se a ignorância voluntária a que se acomoda, a ausência de capacidade crítica, a disposição para aceitar todos os lugares comuns do seu tempo sem nunca os questionar, e conclua-se que educação e ignorância não são mutuamente exclusivos. platonic_caveA ignorância é o estado natural do Homem. Independentemente das ferramentas que se lhe oferecem, o cidadão comum vai continuar agrilhoado na Caverna, interpretando as sombras como realidade, mesmo tendo as chaves dos grilhões na mão e um manual de fuga na outra. Isto sem se falar na outra fatia populacional de quem não se espera qualquer afrontamento teórico abstracto, mas a quem a doutrina democrática também atribui responsabilidade na sua libertação. Os democratas esperam que uma vaca toque piano e surpreendem-se quando ela é incapaz de sequer perceber para que servem as teclas – mas se por acaso produzir meia dúzia de sons desconexos, tomam-no como evidência de que as vacas, de facto, podem ser pianistas. A pouco mais que isto se resume o sistema eleitoral de sufrágio universal.

A doutrina democrática assume, porque tem de assumir, que o povo é capaz de escolher os seus representantes, assim decidindo por interposta pessoa, os destinos do país. Mas só uma ingenuidade mortal, ou uma malevolência premeditada, poderia levar a que proclamássemos tão clara mentira como sendo a verdade. Mas sendo o regime fundado nessa mentira, as estruturas exteriores têm de se conformar a ela, sob pena de todo o edifício ruir. Daí nasce a obrigatoriedade da escolaridade muito para além do necessário ao desempenho da maioria das funções requiridas para o funcionamento da sociedade, primeiro até ao nono ano, depois até ao décimo segundo, e eventualmente, dada a parvoice progressiva do nosso sistema, até à licenciatura. Este estado de coisas só pode advir das duas origens que mencionámos, pois é por demais óbvio que a extensão da obrigatoriedade, ao invés de elevar o conhecimento e o pensamento crítico dos cidadãos, rebaixa a relevância e profundidade do ensino, reduz a motivação e dedicação dos professores, forçados a lidar com miúdos sem interesse no que lhes estão a tentar ensinar, e necessariamente faz cair as exigências de conhecimento para que a promoção deste novo patamar não resulte em inúmeras desistências do salto, ou em saltos que não elevem o atleta à altura desejada. A isto se chama reduzir ao mínimo denominador comum, tarefa que nenhum outro sistema concretiza com tamanha mestria como o democrático.

Quando Eva e Adão comeram o fruto da Árvore da Sabedoria não souberam o que fazer com o seu novo conhecimento. Também a maioria da população não sabe o que fazer com o que lhe ensinam para além das artes de contar, ler e escrever. Não sabem porque não lhe vêem qualquer préstimo, não lhes dá mais oportunidades de serem homens produtivos e morais, não lhes permite uma mundividência mais completa, pois incompleta será sempre a mundividência dos simples. No entanto, em grande parte, convence-os de que têm agora capacidade para 121323.JPGcompreender e opinar sobre assuntos que de facto não compreendem e cujas opiniões não são, na verdade, suas, mas regurgitadas em segunda mão com origem em figuras de autoridade – para mais, em muitos casos, caracterizados por uma arrogância natural e uma aversão a trabalhos manuais para os quais serão, na verdade, mais dotados. Mostrem-nos um ignorante orgulhoso, e nós desvendamo-vos um universitário moderno. Mas o ignorante convencido da sua sabedoria continuará, na verdade, mais interessado na baixa cultura do seu tempo, crente sem crítica nas convenções que lhe colocam à frente dos olhos como verdadeiras, ingenuamente interpretando as notícias e os seus veículos como fidedignos, ouvindo os seus professores como autoridades, incapazes de entender que eles foram e são como eles – ignorantes que, na verdade, não dão para muito mais.

A maioria da população, agora como sempre, é atraída quase exclusivamente por pães e actividades circenses – sendo o tipo de pão e o tipo de circo as únicas variáveis. E isto não é uma crítica, é uma apologia. O que nos separa do pensamento vigente é, em primeiro lugar, reconhecer esta inevitabilidade, sejam quais forem os anos obrigatórios de escolaridade e as exigências cívicas dos cidadãos, e em segundo, não lamentarmos essa condição, pois fingir que se pode evitar o inevitável, como já dissemos, só pode ser produto de ingenuidade ou de malevolência. E como tal, prescrevemos um sistema que leve em conta esta realidade, um sistema que não finja que todos podem e devem ser filósofos-reis, quando a maioria não serve para bobo da corte. Consideramos uma aberração que se peça opiniões e se exijam decisões sobre o mundo real, a quem só o conhece pelas sombras reflectidas nas paredes.

Quando a Revolução Protestante declarou que o comum mortal podia, e devia, interpretar a Bíblia pelas suas próprias luzes, abriu-se a Caixa de Pandora das mais torpes e idióticas interpretações, tudo e o seu contrário podia ser encontrado nas media_propaganda_by_trosiousEscrituras a partir desse momento, e com efeito, encontrou-se – pois se há matéria infindável no universo é a da estupidez humana. Em vez de ser um veículo para procurar a Verdade única, foi o meio de a esconder e soterrar em mil mentiras. O mesmo se pode dizer do presente zeitgeist, em que perante a infindável biblioteca da Internet, o cidadão comum continua mais interessado na vida das celebridades, nas novelas e filmes e músicas da baixa cultura em que elas se distinguem sem distinção, no futebol e nas suas narrativas, exercendo a sua capacidade crítica em assuntos em que ela não tem préstimo, porque não dão para mais e simultaneamente aceitando sem crítica, sem a sombra de uma dúvida, o que um actor que se convencionou chamar de pivô lhe diz todas as noites ou todas as manhãs sobre o país e o mundo. Porque, repetimos, não é capaz de mais, e é um ultraje, uma irresponsabilidade e uma violência exigir-lhe mais. Mas exige-se, com resultados atrozes.

A diferença entre um electricista com a quarta classe durante o Estado Novo e um universitário dos nossos dias é que o electricista não tinha a soberba de achar que a sua opinião valia muito fora dos limites do seu mister; o antigo tinha a humildade de dizer ‘não sei’ e aquela ainda maior de dizer ‘não quero saber’. Isso, e provavelmente escrevia melhor o português. Por esta ignóbil situação temos de agradecer aos sucessivos aumentos da escolaridade obrigatória e à estupidez congénita de perguntar a todos aquilo que só alguns podem saber. Afinal, são aqueles que agitam os fantoches formando as sombras que iludem o cidadão comum, os mesmos que perpetuam a mentira de que este vê a realidade tal como ela é.

Por isso fazemos a apologia da ignorância, não porque gostemos dela mas precisamente por não gostarmos. Um sistema que finge que ela não é o destino da maioria, está condenado a generalizá-la e a dar-lhe poder, em vez de a limitar e a manter inofensiva. Devolvamos ao povo o privilégio de ser ignorante sem culpa, e devolvamos aos capazes o dever do governo sapiente.