RE: Estratégia

A partir de agora, quando assim se justificar, vou publicar os comentários bem como a minha resposta a eles num post separado para o benefício dos outros leitores. 

O Afonso deixou-nos o seguinte comentário: 

Excelente texto, mas tenho de confessar ao caro Ilo Stabet que continuo sem perceber exactamente o que pretende, i.e. que estratégia de actuação é que o caro Ilo Stabet defende. A re-cristianização do Ocidente? Não fazer nada e deixar o Ocidente abandalhar por completo? Isolarmo-nos do resto da sociedade e deixá-la afundar-se nos seus vícios e perversões?

P.S. Bem-vindo de volta. A sua mensagem faz muita falta!

O Kal El deixou, a seguir, este:

Boas Ilo.
Calculo que estejas a falar do caso Epstein, é realmente impressionante como as pessoas esquecem esse tipo de notícias ou apenas as ignoram. A falta de ação por parte da sociedade só demonstra o quão adormecidos e domesticados estamos. É por estas razões que acredito que o filme Matrix é mesmo um documentário, e eu nem sou um grande fã de ficção. A estratégia do inimigo está tão bem montada que nem nos apercebemos como somos facilmente manipulados, seja através dos media, seja através do entretenimento, ou por parte das celebridades/monarcas que nos influenciam a toda a hora, Veja-se o caso da floresta Amazônia, as pessoas limitaram-se a correr para as suas redes sociais e a partilhar #PrayforAmazon e imagens que não retratavam a realidade actual sem saberem o que realmente estava por trás, tudo graças a esses monarcas tagarelas, fantoches usados por essa elite psicopata para nos entreter.
Caro Afonso, creio que a melhor resposta está em Mateus 24. Aqueles que já despertaram e apercebem-se da iniquidade e de todas as desolações que ocorrem questionam-se o porquê de todas estas coisas. Procuram esperança em homens, na política, na justiça, ou nos valores de outrora, mas a resposta encontra-se na bíblia. O governante deste mundo já nos engana há muito tempo, ele nos divide e nos afasta da verdade. É necessário compreendermos em que tempo bíblico nos encontramos e depositarmos fé nAquele que nos pode salvar.

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Olá Afonso, Kal-El,

Obrigado pelos comentários e pelas palavras de encorajamento.

Eu já escrevi sobre estratégia no passado e não mudei muito nas minhas ideias, excepto que me tornei mais consciente dos perigos inerentes ao torpor tecnológico em que vivemos e da importância da produção, difusão e arquivo de uma cultura alternativa.

Aqui está uma lista, incompleta certamente, de acções importantes. Cada ponto pode vir a dar um texto próprio no futuro, à medida que vou pensando e agindo, sobre conselhos mais concretos, ou talvez nas razões para o fazer.

Hão-de notar uma ausência fulcral, que é a de qualquer ideia ou menção política. Isto não é um acaso. A política nunca foi mais irrelevante, e ao mesmo tempo as nossas ideias sobre ela nunca foram tão perigosas para quem as defende. Estaremos sempre a lutar contra uma força demasiado grande para ganharmos essa guerra, mesmo que ganhemos uma ou outra batalha. E como disse, penso que não há pessoas suficientes para influenciar ao ponto de podermos ganhar eleições mesmo que pudéssemos chegar a elas. E esperar que o Youtube ou outra plataforma do sistema nos dê abrigo é o mesmo que esperar que o Pravda desse voz a ideias anti-soviéticas.

Todos os pontos devem ser lidos como o ideal, e o propósito é o de nos aproximarmos o mais possível dele.

– Sair dos centros urbanos e estabelecermo-nos no campo. Capturar / recolonizar o país real é muito importante. Há todo um mundo perdido que temos de reconstruir. E só há uma forma de fazê-lo – que é lá estar.

– Viver da terra ou trabalhar com as mãos. Autosuficiência comunitária é o objectivo. Além da agricultura, as “profissões” também são importantes – tudo o que envolva trabalhar com as mãos e desenvolver conhecimento especifico que se possa aplicar individualmente ou comunitariamente (electricistas, canalizadores, pedreiros, carpinteiros, etc).

– Usar o mínimo possível de dinheiro (moeda); e em vez dele, fazer troca directa. Isto limitar-nos-á bastante a coisas locais, próximas. Temos de nos desligar o máximo possível do globalismo, não só na teoria, mas na prática – muito mais importante.

– Reduzir drasticamente a nossa dependência de tecnologia moderna (não falo apenas da internet, mas de tudo o resto): o nexo tecnológico é controlado pelo inimigo. Tal como esperar guarida do Youtube, esperar que toda esta interconexão tecnológica jogue a nosso favor quando são eles que controlam o sistema e ditam as regras, é ingénuo.

Eu bem sei que a maioria dos meus leitores, bem como eu, são da cidade. Mas se o que está acima vos soa alienígena, posso dizer-vos que há muita gente, não só em Portugal, mas no mundo a fazê-lo – em vários graus de profundidade. Não é uma questão de ser possível, é uma questão de exigir sacrifícios, compromissos. Mas se não estamos dispostos a trocar uber eats pela carrinha do pão que passa uma vez por semana, a sacrificar certos confortos artificiais pelos nossos ideais, será que realmente os temos?

Esta próxima parte é muito importante, e é muito menos praticada ou atentada – mesmo pelas pessoas que já vivem uma vida rural: A educação das novas gerações. Esta questão é para mim a melhor ilustração dos dois tipos diferentes de estratégia:

– Por um lado, temos a estratégia ‘política’: tentar alterar o sistema educativo – por exemplo falando contra a ideologia de género nas escolas. Um tema importantíssimo – mas que somos absolutamente impotentes para resolver em tempo útil. Os nossos filhos serão doutrinados contra nós e contra si mesmos enquanto andamos a tentar alterar a situação politicamente (sem sucesso, a não ser o de potencialmente tornarmo-nos persona non grata).

– Por outro, temos a estratégia ‘simples’: procurar alternativas ao sistema educativo – em geral, escolaridade em casa. Isto pode ser feito com os pais, ou com tutores, ou formando associações, há muitas opções e combinações. E qualquer uma delas mais saudável do que colocar os nossos filhos numa escola pública, ou mesmo privada.

Mais uma vez, embora em número menor, já existem alternativas e pessoas que as utilizam e dinamizam. Por isso, não é impossível.

É importantíssimo, em adição à escolaridade propriamente dita, que os pais eduquem os seus filhos, não apenas em virtudes morais, mas na apreciação da arte, no pensamento crítico e nos trabalhos manuais. As crianças são o barro mais maleável à face da terra, deixarmos essa fase extremamente curta ser dominada por entretenimento básico e fútil, é destruirmos todo um potencial. É a obrigação dos pais expor os filhos desde pequenos aos mais variados tipos de literatura, música, arte e filosofia, discuti-la e reproduzi-la. Os miúdos são esponjas, não deixem que absorvam o veneno e o açúcar que há por aí, em vez disso é nossa obrigação dar-lhes uma dieta saudável, variada e com substância. Sublinho por fim, que neste ponto, é da maior importância limitar drasticamente o consumo de conteúdo audiovisual – vídeos, filmes, televisão, etc. Uma boa regra é a de limitar o consumo para metade do que se consome de outros meios – para cada hora de leitura, meia hora de televisão, por exemplo. E isto aplica-se aos adultos, mas aplica-se muito mais às crianças e adolescentes.

Por fim há o trabalho cultural, que é onde podemos fazer uso das plataformas do inimigo ou fundar as nossas, online e offline: produzir, difundir e apoiar arte e cultura não-degenerada. É importante fazer-se coisas novas mas igualmente importante recuperar muito do que ficou para trás. Seja qual for o meio, é importante que os artistas, empreendedores, comunicadores, organizadores, arquivistas, etc, entre nós se dediquem a produzir e difundir uma cultura alternativa – que seja radicalmente oposta ao mainstream, mas ao mesmo tempo que não está associada a um movimento político. Como já disse várias vezes, a Verdade, a Ordem, a Justiça, a Beleza, etc, não são conceitos políticos. Limitá-los a isso foi o que nos levou ao estado em que estamos. Tanto a Igreja como os intelectuais como as pessoas comuns que viviam e acreditavam no Bem se demitiram e passaram a importar-se com duas coisas: política e economia. E no entretanto as forças satânicas (e é isso que elas são, não tenham dúvidas) tomaram conta de todas essas esferas de influência.

Inicialmente, cada um destes esforços vai parecer isolado, mas se começarmos sozinhos e continuarmos não vamos acabar sozinhos, visto que este modo de vida, sendo natural, gera naturalmente laços comunitários onde eles forem possíveis. E à medida que formamos novos núcleos, será possível atrair o tipo de pessoa que devemos aceitar.

E não é preciso falar de política – a política é o vinagre com o qual não se apanham moscas. Ainda hoje me surpreendo com a quantidade de gente (homens e mulheres) que vou conhecendo, que apesar de cair nas armadilhas e clichés do mundo moderno, sente no âmago que algo está mal, que não é assim que deviam viver, e que há algo melhor. Essas pessoas, se lhes falarmos das nossas ideias políticas, perde-se imediatamente, porque foi programada para isso – mas algo mais importante que muitos ainda não compreendem: só uma pequena percentagem de seres humanos tem capacidade e disposição para pensar no abstracto, incluindo questões de organização política e social. Mas se lhe dissermos que o trabalho que têm não é natural, que viver em labirintos metropolitanos com milhões de outros ratos, para trás e para a frente, para ter dinheiro para pagar uma renda para ter um sítio para o sofá onde vai ver netflix ou o futebol ao fim de semana porque está cansado de ter trabalhado para ter dinheiro… enfim, é fácil explicar o absurdo, e o vazio existencial é palpável se a pessoa a expô-lo for suficientemente eloquente. Essas pessoas podem ser salvas, apenas não da forma que nós temos tentado.

Adenda: este excelente texto.