O enigma dos Liberais

«Academia is to knowledge what prostitution is to love»
Nassim Nicholas Taleb

Depois de termos falado dos problemas do liberalismo, vamos falar dos problemas dos Liberais. Isto, admita-se, é mais fácil: existem muitas, muitas obras do pensamento liberal e nem todo esse pensamento é de deitar para o lixo (em alguns casos, como Mises, é absolutamente essencial). Os Liberais antigos, ao contrário dos modernos, ainda tinham algo que um reaccionário podia aproveitar.

Em especial, pode aproveitar-se a Escola Austríaca (ou pelo menos, as obras principais). Esta escola de pensamento é a única escola económica que não foi cooptada pelo materialismo (tanto o antigo, de Smith e Ricardo, como o moderno, de Fisher e Keynes) – e como tal é também a única que consegue apresentar uma teoria que represente a realidade económica e a explique de forma satisfatória.

Não será de surpreender, no entanto, que os escritos puramente económicos da Escola Austríaca (que não contêm necessariamente prescrições políticas) tenham com o tempo servido de base, e justificação, para prescrições políticas. Prescrições liberais.

Mises, a figura principal e certamente a mais interessante, fez sempre questão de distinguir entre os seus escritos puramente económicos e os seus escritos políticos. E por fazer essa distinção, ambos mantiveram a sua relevância. Theory of Money and Credit, por exemplo, continua a ser a obra essencial para explicar o clusterfuck que é a política monetária democrática, sem no entanto advogar contra ou a favor: limita-se a chamar os bois pelos nomes. Um retrato mais largo da teoria e realidade económica pode ser encontrado em Human Action. Ambos os livros são peças necessárias para entender o mundo em que vivemos.

Nos seus escritos puramente políticos (como o Nation, State and Economy) Mises observa o mundo com uma clareza que faria corar reaccionários modernos – como observámos aqui, em Democracia, o caminho é sempre para a Esquerda, o que faz de um liberal há cem anos um terrível reaccionário contemporâneo. No entanto aqui já podemos observar, no meio da sua enorme erudição, a tendência (talvez inevitável) de ver o mundo somente pela esfera económica, e cair na armadilha liberal, whig, progressista. Esta crença de que o mundo está em constante progresso (em vez de degeneração) era um conceito que Mises terminantemente rejeitou toda a vida na sua teoria económica (pois era inegável a degeneração da disciplina), e no entanto, na sua vertente puramente política Mises continuava a cair na patranha, e acreditar que a passagem das entidades políticas aristocráticas para as democráticas tinha sido um progresso. A obsessão económica tinha levado a melhor.

E aqui entramos especificamente no tema deste texto. Tal como Mises, os Liberais portugueses deixaram o seu conhecimento de teoria económica levar a melhor e enformar todo o seu pensamento político. Ao contrário de Mises, não o fazem com especial erudição (mas não os vamos censurar por isso – podem acusar-me do mesmo e com razão). Os principais sítios da blogosfera portuguesa liberal são o Blasfémias e o Insurgente e é neles que se encontra esta obsessão, à superfície incompreensível. Ambos são, supostamente, de Direita. E apesar de se aproveitar um ou outro indivíduo em particular (e de vez em quando), a verdade é que a maioria revela um autismo estonteante e tem um único barómetro político: a economia.

Os Liberais portugueses são democratas. Sendo democratas são obrigados a mover-se intelectualmente na Janela de Overton, por auto-censura inconsciente e por auto-censura PwnedCatconsciente. Por causa dessa auto-censura, os Liberais estão obcecados com reformas dentro do sistema. Nunca sequer lhes ocorre que o sistema deva morrer, que o sistema seja iníquo, que o sistema seja podre de raiz. E se ocorre, não o dizem. Pelo contrário. E há uma razão para isto, mas já lá vamos. Por agora convém salientar que a obsessão económica não é defeito, é feitio.

Como explicar que um liberal não queira sair da UE? A UE é essencialmente a versão moderna da União Soviética: um organismo insonso de burocratas cinzentos que ditam a vida de milhões de pessoas sem qualquer representatividade. Não são os Liberais a favor da representatividade?

A explicação é que os Liberais temem que haverá menos liberalismo económico nas nações europeias sem a alçada benévola da União Europeia. Temem em especial que haja menos em Portugal. E sendo essa a única métrica para a sua visão política, são contra. E é inegável que isto sucederia, a curto prazo. O que levaria a um colapso, a médio prazo.

E aí voltamos à mesma questão: os Liberais temem o colapso do sistema, por mais iníquo que o sistema seja, por mais antitética ao Liberalismo que a própria fundação monetária desse sistema 839d3c15540b493f867668a0ca132551.jpgseja, por mais iliberal que o sistema seja. Os Liberais lutarão incansavelmente (na esfera intelectual) para evitar descartar a constituição comunista que rege o país. Há anos que os Liberais andam a anunciar a falência da Segurança Social, há anos que falam da fundação fraudulenta do sistema monetário, há anos que apontam a ignomínia da dívida pública. E no entanto as suas prescrições são sempre no sentido de evitar o colapso inevitável. Em vez de matar o dragão, os Liberais querem domesticá-lo.

Eles sabem, no entanto, que o colapso é inevitável. Mas ao que parece os Liberais têm um enorme medo do sofrimento, mesmo do sofrimento salutar. Só que é inegável que, de uma forma ou outra, haverá sofrimento. Muito especificamente, sofrimento económico. Haverá tumultos por causa desse sofrimento. Para usar a analogia preferida dos Liberais, a desintoxicação não é agradável para o drogado. Mas estar constantemente na corda bamba dos paliativos não é uma solução. É uma cobardia.

O que escapa aos Liberais obcecados com as consequências económicas imediatas, ou que insistem em não ver, é que para uma boa parte da população (e muito em especial daquela população que vive à conta do Estado – em que muitos deles se incluem, quer gostem disso ou não), é necessário sofrimento. Cristo também teve de sofrer na cruz antes de ressuscitar.

É preciso que as pessoas vejam o que é viver sem subsídios. É preciso que vejam o que significa uma dívida impagável e as consequências de dizer, firmemente, que não a vamos pagar. É preciso que voltem a depender das famílias, dos amigos, dos vizinhos, da comunidade. É preciso que encarem a realidade de ter trabalhos duros e desagradáveis. É preciso que sejam obrigadas a não gastar tudo o que ganham, a viver com menos do que precisam, a poupar. A maioria das pessoas tem conforto a mais para o seu próprio bem. Tal como os Liberais, perderam a noção do que é importante. Não sabem distinguir o eterno do transiente.

A grande maioria dos nossos defensores do mercado, são defensores apenas do seu esqueleto, sem entenderem (ou não querendo entender) que a alma e a carne que enformam esse esqueleto são mais importantes para que o sistema funcione do que a formalidade desse sistema. Neste momento, a alma do povo é o Estado Social, é a dependência, é a morosidade, a preguiça, a vaidade e a gula. O liberal não diz ‘vamos acabar com o sistema para erigir sobre as ruínas uma fundação sólida‘. Diz ‘vamos adiar o seu colapso, e acentuar as consequências desse colapso‘. Porque, como Keynes dizia, a longo prazo estamos todos mortos. Os Liberais esperam honestamente estar mortos quando o colapso acontecer. E trabalham para adiar esse colapso de forma a garantir esse destino.

Assim se explica, em parte, o porquê de os Liberais acreditarem na democracia: é uma forma voluntária de cegueira. Acreditam que elegendo o PSD (ou, vá lá, a ala Liberal do PSD, que é a ala moderada da moderação deles mesmos) vamos caminhar para mercados mais abertos e atenuar o Estado Social (não se riam). Tentam vender o seu peixe a pessoas que só comem carne e cover26defendem eurodeputados porque disseram uma vez uma frase liberal (enquanto fazem parte do conselho cosmético da União das Repúblicas Socialistas Europeias). Acreditam que as pessoas comuns (o maior entrave ao liberalismo), pessoas que não poupam, que vivem do Estado Social, cujos únicos interesses são o futebol e a novela, que papam tudo o que lhes dizem na televisão, cuja única cultura é o consumismo, estas mesmas pessoas que nem cuidar de si e dos seus conseguem ou pretendem fazer, podem e devem votar em representantes. Representantes esses que não representam ninguém a não ser a si mesmos e aos interesses que os compram. Este retrato da Democracia e da população em Democracia não é um exagero, é observável. E mesmo que não fosse, é intuitivo. E se a intuição não fosse o seu forte, podiam sempre ler Hans Hermann Hoppe. Mas não. Estão presos numa visão whig da história em que à frente está sempre o progresso.

Mas existe uma peça do puzzle em falta. Acima dissemos que se trata de cegueira, mas é uma cegueira voluntária. A maioria dos Liberais são inteligentes e certamente tiveram tempo e oportunidade de se deparar com a contradição em que se encontram, certamente que leram os livros certos e reflectiram sobre o que leram. Da própria perspectiva do liberalismo, a sua defesa do status quo é inexplicável.

Mas explica-se perfeitamente quando se percebe que escrevem em nome próprio e que têm empregos e reputações a defender. Que quase todos são beneficiários do sistema falido das stock-vector-scale-favoring-self-interest-rather-than-personal-values-108478289universidades. São professores, ou consultores, ou comentadores especialistas. Pagam a renda a girar a alavanca das ciências sociais nas fábricas de mentecaptos. Ser liberal é alternativo, mas é trendy. Um liberal pode ir às festas e às conferências, pode fazer parte das instituições, pode viver em paz sendo o enfant terrible que o consenso de Esquerda tolera, porque não ameaça.

Não se espere, pois, que rejeitem o seu modo de vida em nome de ideais maiores, ou sequer de consistência ideológica. Não se morde a mão que dá de comer.

Teocracia e Escravatura

Não existem homens sem Religião, existem apenas homens que não sabem que Religião seguem. Visto que o Estado é operado por homens, baseado em constituições feitas por homens, que aplica leis escritas por homens, segue que o Estado também não existe sem uma Religião. Tal como o indivíduo, o Estado pode não saber, ou não declarar, que Religião de facto o enforma –

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história da Igreja em Democracia

mas ignorar ou esconder este facto não o torna menos verdade. O status quo da modernidade, porém, é fundado precisamente nessa falsa premissa de que o Estado e a Religião estão, e devem estar, separados. A premissa só será verdadeira se por Religião se designar as fés ancestrais, pois o Estado democrático é o principal veículo das fés modernas, promovendo-as através de todos os seus tentáculos. Qualquer regime de duração média, passado ou presente, funda-se em última instância nas ideias que o enformam, ou seja, numa Religião.

Por isso, a verdade é que vivemos numa Teocracia. Vou repetir, para o caso de ter atordoado o leitor: vivemos numa Teocracia. A asserção pode parecer absurda, mas isso deve-se à natureza desonesta da propaganda da era em que vivemos, que é um produto da classe teocrática dominante. Por isso, deixem que me explique.

Bem sei que a origem da palavra é grega, e que o original theos significa Deus. Mas visto que não distingue entre falsos e verdadeiro, a palavra aplica-se: a história moderna (democrática) é nada mais nada menos que a incessante adoração de falsos deuses, promovidos pela classe teocrática através do Estado. A Teocracia em que vivemos é baseada em falsos deuses (o poder popular, a igualdade, o hedonismo e por aí for a), e promove esses falsos deuses com a mesma assertividade com que teocracias passadas afirmavam e promoviam outros, ou Aquele.

Se isto não chega, e de facto convém ir mais longe, vamos mais longe. O dicionário define sucintamente a Teocracia como um ‘Estado em que o poder está na mão do clero‘. Mas quem é o clero moderno? Quem tem de facto poder no Estado Democrático?

A pergunta é mais difícil do que parece. Um dos principais problemas da Democracia é precisamente que o poder está incrivelmente disperso, sem no entanto estar descentralizado. Por disperso entende-se o carácter inerentemente obstruccionista das instituições democráticas, em que uma (por exemplo, o Governo) não pode dar um passo sem que outra (por exemplo, o Parlamento) o permita – além das outras todas que também lá estão pelo meio a obstruir. Os magníficos checks and balances são na verdade uma forma de não se conseguir fazer nada de bom, sem se impedir que se faça todo o tipo de mal (ver a teoria da Captura Regulatória). A captura, no entanto, aplica-se a exemplos concretos e económicos, não à natureza religiosa do poder do Estado. As empresas de facto infiltram-se no Estado Democrático para retirar dele benefícios (que surpresa!), mas não são as empresas que definem, por exemplo, os currículos escolares, as leis anti-discriminação ou a posição do Estado em relação ao aborto – ou seja, os elementos religiosos. Curiosamente, e em grande parte por causa da captura, as empresas acabam, sem serem necessariamente obrigadas, a criar e aplicar dentro das suas próprias estruturas as mesmas regras religiosas (quem já trabalhou numa empresa de tamanho relativamente apreciável, pense, por exemplo, em todas as campanhas internas pela diversidade, inclusão, apoio aos refugiados, protecção do ambiente, etc). Por isso temos de procurar o nosso clero noutro sítio. As empresas são os aristocratas modernos, mas não são eles quem detém o verdadeiro, e último, poder.

De onde vêm então estas ideias que enformam o Estado e que eventualmente chegam até às leis e às instituições (mesmo àquelas que não são, nominalmente, estatais)? Se o leitor respondeu “das scientismUniversidades”, acertou. Se respondeu outra coisa, não se aflija: a resposta não é óbvia, até porque não existe qualquer incentivo para que os carrascos retirem o capuz e revelem a sua identidade. O facto é este: o clero moderno, o poder no Estado Democrático, está nas Universidades. Se se quiser saber que legislação religiosa será passada nos próximos quinze anos, procure-se que obsessões se promoveram nas Universidades nos últimos quinze. Da próxima vez que vir um professor catedrático, faça-lhe uma vénia. Está perante um soberano.

Não se pode descontar os incentivos económicos, claro. As universidades (e em menor grau, as escolas) são um dos maiores e mais perversos esquemas de lavagem de dinheiro do mundo moderno (dos cursos às bolsas, dos professores às publicações, passando pelos inúmeros institutos e grupos de investigação – todos pagos, e eventualmente engolidos, pelo cidadão comum). Mas adivinhe-se de onde surgiu o esqueleto, a ideia, deste sistema em que as Universidades gozam de prestígio e privilégio (totalmente indevido), antes de ter sido efectivado na lei? Nas universidades. O lema oficial da Educação “Superior” devia ser ‘damos vida ao termo circle jerk‘. A lavagem de dinheiro é, no entanto, menos importante e vem na sequência da lavagem cerebral.

O que distingue o clero moderno dos cleros passados, é que a Academia não ensina ou promove a verdade, nem conserva ou dissemina o conhecimento (de vez em quando fá-lo por acaso, e sem intenção – e na grande maioria dos casos esses acasos são ignorados ou punidos). A razão para isto é não ter uma base teológica para além da sua própria perpetuação.

Por isso, e para concluir: vivemos numa Teocracia em que o clero é a Academia. E isso, caso ainda não seja claro, é mau. Não por causa do sistema, que é inevitável (e o que não tem remédio, remediado está), mas por quem o dirige: o nosso clero educativo além de prepotente (o que, admita-se, vem um pouco com a função), não é lá muito educado – o que acaba por se notar na sociedade que produz e dirige.

Julgo ter ilustrado suficientemente o meu argumento, pelo que vou passar à segunda parte do texto.

Não só vivemos numa Teocracia Académica, como vivemos em Escravatura. E tal como no caso da Teocracia, não houve nenhuma sociedade até hoje em que o homem não vivesse em Escravatura – em vários graus, certo, mas Escravatura ainda assim. Voltemos ao Dicionário: A Escravatura é a ‘Condição do indivíduo privado da sua liberdade e submetido à vontade de outrem, que o considera sua propriedade‘. Perante a definição, não é difícil aferir a veracidade da proposição.

O leitor sente-se totalmente livre? Acha que é proprietário de si mesmo? Acha que pode contestar as leis feitas pelo parlamento? Acha que pode não pagar impostos? Pense outra vez. A diferença entre um servo no Século XIV, um escravo no Século XVI e um cidadão no Século XXI é uma diferença de grau, não de natureza.

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Antes de entrar em pânico e procurar soltar os grilhões (metafóricos) que tem à volta dos tornozelos, convém não esquecer que a Escravatura não é uma estrada de sentido único. A escravidão tem obrigações, mas também tem contrapartidas. O lorde oferecia ao servo terra e materiais para trabalhá-la, oferecia-lhe protecção e ordem, não o podia vender a outro lorde – embora pudesse libertá-lo ou vender-lhe a sua liberdade – e não o podia agredir indiscriminadamente – embora pudesse puni-lo no caso de cometer um crime. O dono do escravo oferecia-lhe casa, comida, saúde e instrução básica (e ao contrário do que é popularmente acreditado, a violência indiscriminada era usada muito raramente – e por razões óbvias, afinal, só um idiota destrói a sua propriedade, e só um idiota maior destrói a sua propriedade quando a sua riqueza depende dela). Em alguns casos, o escravo era formalmente libertado e ascendia à condição de assalariado. E não podemos deixar de mencionar que o lorde e o dono de escravos, também eles, eram sujeitos a submissão (ao Rei ou ao Parlamento), e também eles tinham as suas obrigações e contrapartidas – as Teocracias que se sobrepunham a um e a outro eram, no entanto, bem menos destrutivas que a presente.

Nós, cidadãos, os escravos do século XXI, temos um “acordo” menos parecido com os servos e mais parecido com o dos escravos. Se há coisa que o Estado Democrático não oferece é protecção e ordem, e também não podemos comprar a nossa liberdade – pelo menos não oficialmente (o suborno e o lobbying são indissociáveis da democracia). A principal diferença entre o cidadão e o escravo é que, ao contrário dos donos de escravos de outrora, o nosso dono (o Estado) não tem grande incentivo em manter-nos saudáveis, ou em instruir-nos de forma a aumentar a nossa capacidade de trabalho, e além disso é precisamente os que menos contribuem que recebem a maior quantidade de regalias. Apesar de tudo, podia ser pior. Mas como dizia o velho anarquista, um homem não é menos escravo por poder escolher o seu dono de tantos em tantos anos.

Convém igualmente desconfiar sempre que alguém promete libertações (as libertações resultam precisamente nos exemplos acima). Quase todos os terroristas se chamam a si mesmo libertadores. E as consequências, mesmo quando se considera o ideal como moralmente indiscutível, nem sempre são as mais desejadas. A história está cheia de exemplos, da Revolução Francesa à descolonização, em que a libertação acabou por ser pior (no momento e no futuro) que a servidão que se aboliu. Pior a emenda que o soneto, como se diz. Às vezes parece que a iatrogenia é a constante na história política humana. O que só torna mais trágico o facto de quase ninguém saber do que se trata.

Outra diferença é que o cidadão tem um papel (embora mínimo e em última instância insignificante) na escolha do seu dono temporário, através do voto, e pode aspirar e concretizar a sua ascensão (temporária) à condição de dono, ou pelo menos a parte da classe dos donos (seja na condição executiva ou de teocrata). À superfície, isto pode parecer uma vantagem. Mas, analisando a questão em teoria como na prática, o resultado não se recomenda mais do que a Escravatura clássica, e menos ainda que a servidão feudal.

Apesar de ser perene e existente em todas as sociedades, a Escravatura não provém de nenhum contrato social. O servo nasce servo, o escravo nasce escravo, o cidadão nasce cidadão. O que keep-calm-and-love-democracydistingue o cidadão do Estado Democrático acima de tudo é que o cidadão não tem qualquer noção da sua condição de escravo.

E, não tendo essa noção, o seu dono nunca lhe virá a oferecer a oportunidade de se libertar mas pelo contrário, a sua viagem é para baixo, o seu nível de servidão vai aumentando, sem influência apreciável no processo, com umas migalhas atiradas para o chão em forma de recompensa – ignorando o que as migalhas representam. O facto de o seu dono mudar a cada quatro ou cinco anos, só acelera e aprofunda o processo – o dono temporário, ao contrário do dono permanente, não tem qualquer interesse em manter a qualidade da sua propriedade (o cidadão). Pelo que a qualidade de vida, estabilidade e segurança do cidadão (e por consequência da sociedade em geral) vão se deteriorando. Ao mesmo tempo, o seu dono continua a assegurar-lhe que é livre através da instrução, cada vez menos relevante e construtiva, que lhe oferece. E, para confundir ainda mais o pobre escravo e atissando a natureza ínvia do homem, apresenta-lhe a possibilidade de subir à posição temporária de dono, apaziguando a sua tendência para se rebelar se, por acaso, notar que as condições de submissão estão cada vez piores para si, e melhores para o dono.

A Democracia é, pois, uma Teocracia de falsos e etéreos deuses e uma Escravatura rotativa em espiral descendente. Da próxima vez que entregar o IRS ou colocar o boletim de voto na caixa, pense na sua condição, porque como lembra o poeta o melhor escravo é o que acredita ser livre. E se há fantasia que os nossos teocratas têm necessidade de perpetuar, é essa.

Não lhes faça esse favor.

O colapso de quê?

«This is the arresting and dominant fact about modern social discussion; that the quarrel is not merely about the difficulties, but about the aim. We agree about the evil; it is about the good that we should tear each other’s eyes out. (…) The social case is exactly the opposite of the medical case. We do not disagree, like doctors, about the precise nature of the illness, while agreeing about the nature of health. (…) I maintain, therefore, that the common sociological method is quite useless: that of first dissecting abject poverty or cataloguing prostitution. We all dislike abject poverty; but it might be another business if we began to discuss independent and dignified poverty. We all disapprove of prostitution; but we do not all approve of purity. The only way to discuss the social evil is to get at once to the social ideal

G. K. Chesterton, What is wrong with the world, 1910

Lendo o excerto acima (e, de preferência, o livro de onde é retirado e de que é só uma introdução), podemos observar que a situação do discurso político não se alterou em natureza, apenas em grau. Dizer, por exemplo, que hoje todos desaprovamos a prostituição é obviamente falso, quando a Esquerda decidiu abraçar todas as formas de degeneração possível – e a prostituição, comparada com algumas das novas causas da Esquerda, é um mal menor. E no entanto, continua a ser verdade que se concorda, mais ou menos, nos problemas sociais que existem, na medida em que se pode ter a discussão. Atingimos, porém, um ponto da discussão em que, dos partidos às escolas passando pelos meios de comunicação e pelas universidades (os vários tentáculos do mesmo monstro), não só não se concorda sobre as soluções, não se mantém sequer qualquer pretensão (em nenhuma das facções) de haver um ‘ideal’ social.

E no entanto, esse ideal existe. E não só existe como é a religião que enforma o mundo moderno há 300 anos (mais ou menos), a que podemos chamar Religião Salvacionista Democrática. Antes heres-what-donald-trump-supporters-really-believe.jpgde me aventurar nas consequências da RSD, vou explicar os três pilares da mesma: a RSD é uma Religião no sentido de um sistema cultural de práticas e comportamentos centrados numa colecção de valores e crenças (‘Liberdade, Fraternidade, Igualdade’ – ou LFI), com comemorações e instituições (escolas, universidades; dias internacionais; etc) e dogmas. Mesmo sem um ‘deus’ a RSD tem as suas premissas irredutíveis, e quando se investiga as suas origens descobre-se que só podem ter revelação divina, pois não são certamente susceptíveis de discussão racional. São crenças, no sentido básico do termo. Análogas à crença em Deus. A RSD é salvacionista porque acredita que todos os homens podem ser salvos, através da sua particular sopinha ética (a trindade da LFI), rejeitando qualquer ideia de pecado e punição (na essência, o único pecado é não acreditar e não agir em conformidade com a RSD-LFI). Por fim é Democrática porque é o único sistema político onde é possível pôr em prática a trindade da LFI, e a partir da qual se promovem as características salvíficas da mesma.

Existe uma frase célebre sobre o Demónio em que se afirma que o seu maior truque foi convencer as pessoas de que não existia. O mesmo pode ser dito da RSD. A RSD não se identifica como tal, nem clama existir – mas é indiscutível que existe, e que os seus tentáculos infiltraram o tecido social nas suas variadas camadas, incluindo as camadas do inimigo (as Igrejas Cristãs tradicionais). Em certa medida, o Protestantismo foi a primeira encarnação da RSD.

A RSD é, pois, uma rejeição do ideal de uma sociedade cristã, em que todos os seus conceitos – de autoridade, liberdade, propriedade e justiça – são reapropriados e virados do avesso e kitsappride2015HappyPride.jpgresultam na absoluta licensiosidade e defesa do abominável e na perseguição feroz a quem se atreve a julgar a abominação.

Visto que a RSD elevou a Ciência a um dos seus dogmas (essencialmente o que distingue a Ciência do Cientismo – se calhar deviamos mudar a sigla para LFIC), vamos analisar como a RSD se comporta de um ponto de vista evolucionário, isto é, se a RSD contribui para a perpetuação da espécie. Para isso, olhemos para o problema do declínio populacional.

Há anos que se sabe que as sociedades ‘civilizadas’ (as infectadas pela RSD) têm uma taxa de natalidade abaixo do necessário para manter a população presente. Simplesmente, não se produzem crianças suficientes. Se a tendência se mantiver, eventualmente o ‘homem europeu’ deixará de existir. As Nações Unidas, estando unicamente interessadas na sustentabilidade económica e na perpetuação da RSD (sendo a pedra ideológica em que se fundam), têm um plano para a sua resolução: Emigração de Substituição. O que isto significa é que a solução, do ponto de vista dos sacerdotes da RSD, é simplesmente importar pessoas de fora, de etnias e culturas distintas da população original, que se reproduzam e mantenham uma base tributária.

As razões para a solução proposta são discutíveis. A minha interpretação é que a liderança da RSD têm uma concepção (errónea, mas não ingénua) de igualdade entre os povos e as culturas; essa falta de ingenuidade baseia-se no facto de que os povos e culturas que querem importar são atrasadas (em comparação com as europeias) e que as populações associadas têm, em média, QIs mais baixos. Serão portanto, ou pelo menos imagina-se que sejam, mais fáceis de controlar. O objectivo de um mundo Orwelliano (o objectivo da RSD) é muito mais facilmente atingível com uma população intelectualmente diminuída, com nenhuma tradição de respeito pelo valor do

migrants
“aquilo são dois homens aos beijos? ó diacho!”

indivíduo. O objectivo é ter eleitores/consumidores ignorantes, que permitam a continuação do sistema, que mantenham uma situação de caos (que “requer” uma vigilância constante) na rua, mas não possuam a capacidade de abstracção e organização que os povos europeus possuiam (e, imagina-se, possuem ainda em potência) para contestar os planos dos líderes da RSD de controlo total. Embora, admita-se, haja algumas indicações de que a situação talvez não seja assim tão simples, e que dadas as décadas de propaganda da RSD-LFI a que o Ocidente foi sujeito, talvez seja mesmo entre as populações mais primitivas que se encontre alguma resistência. É possível que a esperança esteja mesmo nos proles, embora no panorama global os proles sejam, não o estrato mais baixo da sociedade, mas as culturas mais primitivas, precisamente por serem mais primitivas e, logo, menos susceptíveis de engolirem a propaganda da RSD.

Seja como for, é claro que este objectivo e esta solução devem ser rejeitadas por qualquer pessoa europeia interessada em resgatar a cultura europeia pré-RSD, mas servindo um pouco de advogado do Diabo, esta solução não é tão descabida como parece, no sentido de adereçar o problema de forma racional. Afinal, é um facto que as etnias e culturas europeias deixaram de ser capazes de se reproduzir. Do ponto de vista da RSD, são precisas pessoas, mas é irrelevante para eles que pessoas populam os países europeus (afinal, a Igualdade é um dos seus dogmas). Mas que cultura na realidade existe na Europa? O consumismo? A licensiosidade? A tolerância suicída? O poder popular? O que existe, então, de bom para conservar? E se não existe nada, como argumentar contra esta solução? Os que rejeitam a Islamização ou Africanização da Europa em defesa da cultura do presente (que é uma cultura da RSD) não estão a defender nada a não ser um suicídio lento. ‘Deixem-nos morrer em paz na nossa vacuidade; deixem-nos ir para o Inferno ao nosso ritmo‘ – é, na essência, a sua posição. Uma posição em concordância com os dogmas da RSD – a ‘oposição controlada’.

Ou seja, quer se aceite a solução das elites globais ou não, o problema continua a existir. Mesmo sem esta solução final que vemos todos os dias praticada, mesmo sem a importação em massa de estrangeiros do terceiro mundo, os europeus continuam escravos da cultura da RSD que conduz à sua própria aniquilação (só os acólitos da RSD acham que é um acaso que a aniquilação moral do homem europeu ande de mãos dadas com a aniquilação física). Neste momento, os governos europeus dividem-se entre os que não querem incentivar a população nativa à reprodução (mais a oeste), e os que querem e incentivam (mais a leste), para atenuar ou reverter esta situação aberrante. Mas o simples facto dos europeus precisarem de incentivos fiscais e financeiros para a sua própria renovação populacional mostra o quão a civilização europeia está perdida. Em termos evolucionários, é uma experiência falhada. Mas que experiência?

A experiência é a RSD-LFIC.

Como já referimos, vários eventos históricos podem ser apresentados como catalisadores da RSD (por exemplo, a substituição do Feudalismo pela Monarquia Absoluta ou a Reforma Protestante). Mas talvez seja mais adequado apontar as revoluções liberais como a origem desta experiência e que são, em última instância, as responsáveis por esta degeneração civilizacional – afinal, a RSD não existe sem o patrocínio do poder político e foram as revoluções liberais que lhe deram a hegemonia (a história, afinal, é escrita pelos vencedores e a RSD teve as suas grandes vitórias políticas nas revoluções liberais). Chamando Chesterton de volta à conversa: «We often read nowadays of the valor or audacity with which some rebel attacks a hoary tyranny or an antiquated superstition. There is not really any courage at all in attacking hoary or antiquated things, any more than in offering to fight one’s grandmother» As revoluções liberais foram muito simplesmente essa revolta torpe e fácil contra a avó civilizacional. Não deixa de ser curioso que os mais acérrimos e ortodoxos defensores da RSD, completamente dentro da doutrina, se considerem parte da resistência.

A civilização europeia deixou de acreditar em Deus para passar a acreditar no Homem. Por outras palavras, e para voltar ao início do texto, a RSD substituiu o ideal antigo pelo seu avesso. E as consequências eram previsíveis.

É por isso importante sublinhar uma vez mais que a RSD não é a ausência de religião, mas uma religião em si mesma. E que como não podia deixar de ser, é intolerante para com os heréticos que questionam os seus dogmas. Nunca nenhuma sociedade humana existiu sem um paradigma picture-pledge-of-allegiance-praying-to-the-statereligioso e sem a garantia legal dos seus dogmas, e a nossa não é excepção. A diferença é simplesmente no objecto de culto. O caso só não é claro porque a RSD tem uma tendência natural para a dissonância cognitiva (daí o efeito curioso exemplificado no video linkado acima), e postula a sua religião como a sua ausência. Mas não é possível substituir algo por nada. O motor humano pode ser abastecido com diferentes combustíveis, mas não anda se estiver vazio. A RSD, portanto, não aboliu a religião, apenas substituiu a antiga por uma nova – um espelho perverso onde tudo o que era bom e desejável é agora vil e execrável e vice versa. Para citar Chesterton novamente (ou talvez não): «When men choose not to believe in God, they do not thereafter believe in nothing, they then become capable of believing in anything.»

Acontece que esta particular religião é inerentemente auto-destrutiva. Todas as suas premissas resultaram em suicidárias consequências. O “poder do povo” não só nunca o foi como resultou nos sistemas mais opressivos, onde o homem comum é mais controlado e indefeso perante o poder, do que em qualquer regime aristocrático – onde a distinção entre governantes e governados é clara e largamente inalterável. O cientismo/secularismo, em vez de libertar o democracy_o_838073.jpghomem do fanatismo e promover o pensamento livre, construiu gerações e gerações de IYIs (Intellectual Yet Idiots), confundindo as sombras pela realidade; e, no panorama da plebe, criou uma intolerância perante qualquer crítica ou julgamento em que já não é possível inquirir se existe alguma diferença entre a sombra na parede e a realidade reflectida – em suma, numa aceitação sem escrutínio de todos os vícios e pecados, e com isso uma imparável tendência para degeneração moral e física. A igualdade e a fraternidade, em vez de harmonizarem as diferentes naturezas e capacidades, ao ignorá-las criaram antagonismos ferozes que resultam numa guerra de todos contra todos (filhos contra pais, mulheres contra maridos, alunos contra professores, funcionários públicos contra privados) e que em termos geopolíticos resulta na guerra total (lembrar que o único regime a lançar uma bomba atómica foi exactamente aquele que representa o auge e a consagração da RSD). Em nenhum outro tópico, no entanto, isto é tão óbvio como na relação entre os sexos. O pináculo da RSD é a incapacidade dos seus aderentes de se reproduzirem.

Por isso o pessimismo talvez seja inevitável, mas não totalmente justificado. O colapso é eminente, mas o colapso de quê? Da RSD – e dos seus dogmas LFIC. Os valores ancestrais da honra, da

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Capítulo importante na história LGBT

autoridade, da razão e da caridade são ancestrais por alguma razão. Não são arbitrários (apesar de, em certa medida, não serem naturais e requererem esforço e cuidado). A aberração da RSD é apenas uma pequena intermissão. Como na história de Sodoma e Gomorra, as sociedades controladas pela RSD serão destruídas por força maior (quer se ache que é justiça divina ou simples consequência da sua irracionalidade, ou como eu, se ache que ambas são essencialmente a mesma coisa).  Salvar-se-á quem repudiar e abandonar a RSD. Quem olhar para trás, porém, arrisca-se a transformar-se numa pilha de sal.