Em Busca de uma Identidade Impossível

No Jornal da História, edição Século XXI, na secção dos classificados, pode ler-se o seguinte anúncio: Homem Europeu procura Identidade. Assim, sem mais especificações. O homem europeu, como a rapariga gorda, não pode ser esquisito. Não há, simplesmente, muito por onde escolher. E assim, no capítulo da oferta de identidades, o homem europeu tem respostas, mas images.duckduckgonenhuma delas boa. Não o podemos censurar por escolher agarrar-se ao que existe. De um lado, as ideologias (igualitarismo, relativismo, etc); do outro, o mínimo denominador comum (a raça). Desesperado, sem rumo, escolhe uma delas. As ideologias oferecem-lhe um propósito, uma causa, por mais contraditória ou contraproducente; a raça oferece-lhe uma comunidade, por mais artificial que seja. Nenhuma das duas é uma identidade (identidades pré-fabricadas, prontas a usar na lapela, não existem) mas com uma dose razoável de cegueira auto-imposta, as lutas que não necessitam do seu esforço servem para disfarçar a sua verdadeira identidade: o consumismo cosmopolita.

Comecemos pelas ideologias. Nos bons velhos tempos em que ainda haviam identidades nacionais deste lado do mundo, as várias nuances marxistas eram puramente económicas. Eram o fruto de uma interpretação ignorante das acções humanas e de uma inveja mal escondida pelo sucesso. Hoje, ninguém adere a essas ideologias por razões económicas. Em 90% dos jovens, de um lado ou do outro da barricada, a ideologia económica é a mesma: uma economia mista, onde o pior do comunismo e o pior do capitalismo se encontram numa apoteose brilhante de mediocridade. Nenhum membro dos Antifas é animado realmente pela tomada dos meios de produção. Aliás, produzir é a última coisa que querem. Querem destruir. E esperam que a sua destruição criativa gere frutos. É uma identidade que procuram nessa destruição, iludidos de que ainda existe algo para destruir enquanto espezinham as ruínas do que foi a civilização.

Do outro lado, temos o homem europeu que, com um pouco mais de clareza, entende (consciente ou inconscientemente) os objectivos destrutivos do primeiro grupo, e procura algo mais construtivo. Mas estão mais ou menos iludidos sobre a mesma coisa: pretendem proteger um castelo cujas muralhas já foram destruídas, ou pretendem erigir muralhas para proteger um castelo que já é do inimigo. A comunidade não existe. A nação, por extensão, também não. Sobe-se um degrau. E acima está a raça. Às vezes é engraçado ver as discussões online nos fóruns photo_2017-11-14_21-49-20.jpgdedicados ao assunto: o Português é mesmo branco? Será que gostar disto ou daquilo me desqualifica como branco? Ou então ver o saudosismo de aspiração: éramos Gregos e Romanos e tal e coiso. É engraçado até ser deprimente. Tal como o primeiro grupo, procuram uma identidade onde ela não existe. Acabam a dar a volta ao círculo e, numa divina ironia, advogar algo semelhante ao pan-Africanismo. Ora, África nunca teve nações nem nacionalidades. Teve e tem grupos (muitos deles ainda lutando violentamente pelo controlo das entidades políticas criadas pelos europeus para exterminarem ou escravizarem os outros grupos dentro das suas fronteiras), mas nada que se assemelhe às nacionalidades que surgiram na Europa. Não por acaso, e tal como a Europa previamente com o Cristianismo, há outro verdadeiro unificador no horizonte para África: o Islão. Sendo um sistema total, de crenças ontológicas até às políticas, o Islão oferece um ponto de convergência que a raça, por si só, não oferece.

Não sou íntimo conhecedor das várias identidades africanas, mas tendo em conta que as entidades políticas africanas são artifícios, o pan-Africanismo, apesar de igualmente espúrio, continua a fazer mais sentido do que o chamado ‘nacionalismo branco’, que é nada mais do que pan-Europeísmo. Não há absolutamente nada em comum entre as várias etnias europeias. A Europa já esteve de facto unificada sob uma bandeira, Cristo, mas longe vão os tempos – e muitos dos defensores do Nacionalismo Branco consideram o Cristianismo uma conspiração judaica para subjugar a alma virtuosa, e pagã, dos Europeus. Onde podiam encontrar uma verdadeira identidade, rejeitam-na. Mas mesmo os que juntam a sua identidade racial à sua identidade religiosa, esquecem que essa identidade nunca esteve ligada a considerações étnicas e que não nasceu da procura de uma identidade – e que se a razão para aderirem é essa procura, nunca a vão concretizar. Há uma expressão para o fenómeno: LARPing, versão curta de Live Action Role Playing. Não digo que não sejam sinceros. Até podem ser. Mas os meios utilizados não vão gerar os efeitos desejados.

D. Afonso Henriques pode ter criado Portugal como entidade política, mas não foi ele que criou a identidade portuguesa. Como qualquer conceito nebuloso, não é sequer fácil apontar o que é ou não é uma identidade nacional. Mas podemos pelo menos concordar que ela não depende das acções de uma pessoa, mas dos hábitos e vidas dos habitantes da Nação. Olhando para os hábitos benficae vidas dos habitantes, conseguimos logo perceber porque é que não existe uma identidade especificamente nacional, nem aqui nem em qualquer outro país europeu. E se antes ao menos tínhamos um mito de fundação nas conquistas de D. Afonso, hoje o mito de fundação português é o 25 de Abril. Ou seja, é um mito de fundação que rejeita aquilo que era a identidade portuguesa, e pretende fundar uma nova. Meus caros, bem vindos ao vácuo que é a identidade portuguesa no Século XXI. O 25 de Abril como mito representa uma coisa: a abertura de Portugal ao mundo. Antes estávamos orgulhosamente sós, depois ficámos orgulhosamente acompanhados.

Admita-se que é difícil hoje imaginar um país fechado à cultura além das suas fronteiras. Não só a tecnologia permite o acesso a espaços e tempos distantes, mas o enquadramento político acompanhou a tecnologia e não oferece qualquer entrave a esse acesso – esse era um dos objectivos afinal de contas. O 25 de Abril foi feito para podermos beber Coca-ColaTM e ver o Marlon Brando sodomizar a rapariga com a ajuda da manteiga. Longe vão os tempos em que a música, os filmes, a culinária ou a religião de terras distantes era largamente inacessível, e em especial ao cidadão comum. A procura adapta-se tanto à oferta como a oferta se adapta à procura. Talvez na época fosse impossível de antever, mas hoje é possível observar, os efeitos dessa abertura.

As pessoas da minha geração (a Y, os millennials), cresceram tanto ou mais influenciados pela cultura anglo-saxónica, em especial americana, como por qualquer coisa feita em Portugal. Em boa verdade, e por causa dessa influência, não somos bem portugueses, mas um híbrido cosmopolita – e não somos um caso especial, as outras nações (sobretudo do lado ocidental) sofrem do mesmo. Esse híbrido cosmopolita é a verdadeira identidade europeia moderna. Se somos portugueses em algumas coisas (das castanhas ao bacalhau, do café ao futebol), a verdade é que somos menos portugueses do que os nossos pais, e que eles mesmos eram menos portugueses que os seus pais.

Antigamente, só as classes altas tinham acesso à cultura de outros países – isto é, a outras culturas das classes altas – enquanto que as classes médias e baixas eram fechadas entre si. Podia dizer-se que as classes altas eram cosmopolitas, e mais semelhantes culturalmente entre si do que às classes baixas dos seus respectivos países. É importante mencionar de passagem que as aristocracias europeias tinham laços de sangue partilhados, e eram igualmente mais próximas umas dos outras geneticamente do que das plebes nacionais. O nacionalismo clássico, de há cem anos atrás, provou ser um movimento democrático precisamente por isso: a identificação da classe governativa com a classe governada.

Mas o nacionalismo clássico falhou na prática, porque era na realidade uma contradição em termos. Durante Séculos a distinção entre governantes e governados manteve a identidade intacta. Outros factores determinaram a mudança mesmo com a alteração dessa circunstância. A tecnologia, e com ela a democratização da cultura plebeia, foi o que acabou com as identidades nacionais milenares. Não só acabou com a cultura aristocrática, como aproximou as culturas plebeias umas das outras. E embora seja notório que existem diferenças culturais entre os portugueses e os ingleses, ou entre os suecos e os alemães, a verdade é que essas diferenças são cada vez menos marcadas e cada vez mais irrelevantes. Geralmente, são ligadas a elementos que ainda estão condicionados por factores locais e que não podem tão facilmente ser democratizados como a informação. A culinária por exemplo é muito mais particularizada do que as opiniões políticas, pois está ainda até certo ponto ligada aos alimentos produzidos ou importados, que por sua vez ainda estão ligados à tradição do país. Mas estão apesar de tudo num estado retardado de actualização, e adivinha-se, tendo em conta que já há muito que todos os países têm acesso a alimentos de todo o mundo a qualquer momento, que também aí as diferenças continuem a esbater-se. Não me lembro da última vez que vi, numa carta de sobremesas, a expressão ‘fruta da época’. Porque a época já não importa para a disponibilidade da fruta.

A questão do nacionalismo já era complicada quando surgiu, tendo em conta a distinção entre a tradição política (aristocrática) e a sua distância cultural e genética da classe que governava. Mas hoje, é ainda mais complexa. Quando o PNR repete o seu slogan ‘Portugal aos Portugueses‘ (que sabemos não ser sério, pois o seu programa nem sequer postula sair da União Europeia), tomado do ponto de vista étnico é fácil identificar quem faz e não faz parte dos ‘portugueses’. Mas em termos culturais, e deixar-se de fora esse componente é impossível, qual é o ingrediente especial que nos distingue? Não só a ‘cultura portuguesa’ moderna é em muito img_0796.jpgindistinguível das outras culturas plebeias da Europa, como é transversal entre portugueses étnicos e africanos. Mais: uma boa parte da cultura que é mais ou menos exclusiva a Portugal é adoptada por portugueses étnicos, mas produzida pelos africanos. O mesmo se observa nos outros países europeus com as suas minorias étnicas. Um holandês dizia-me no outro dia que os putos holandeses agora falam todos com os maneirismos linguísticos adoptados dos árabes, uma forma de holandês degenerado. Se pessoas da minha geração disserem que nunca usam as palavras ‘bué‘ ou ‘ya‘, estão a mentir. Ou então essa abstenção é produto de uma auto-censura, de um esforço. Não só já não estamos orgulhosamente sós, não somos sequer nós, orgulhosa ou envergonhadamente.

Na questão religiosa, embora exista ainda imensos elementos da tradição Católica em Portugal, a verdade é que na prática a maioria dos Portugueses são quase tão Católicos como Hindus. Mesmo os que vão à Igreja não a ouvem, e aqui o dedo não pode ser somente apontado às pessoas, mas à Igreja que, por fariseismo, não só não responde aos problemas reais das pessoas modernas, mas ao mesmo tempo vai ao sabor da corrente progressista global – o pior dos dois mundos. O rio, em conclusão, desagua no mesmo mar.

O famoso (ou infame) discurso de Salazar sobre estarmos ‘orgulhosamente sós’ era especificamente sobre a política ultramarina, mas não é espúrio mencioná-lo neste contexto. Afinal de contas, o esforço em África, quer concordemos com ele ou não com o benefício da distância, dependia tanto das directivas políticas como da motivação dos combatentes – e esta provou ser, em última instância, incrivelmente afectada pelas opiniões internacionais. Muito para lá das limitações técnicas, a mundividência dos soldados, das famílias, do povo em geral, contribuíram para a derrota em África. Por outras palavras, o espírito do tempo impregnou a identidade nacional de dúvida sobre a aventura africana, e votou-a à derrota. Um exército que não acredita nas razões para lutar não vence guerras.

E assim, através da influência exterior, da ideologia da auto-determinação, do abandonar do ‘fardo do homem branco’, do papel civilizador europeu, do anticolonialismo e do movimento pacifista americano, a guerra ultramarina e, com ela, o regime, caíram. E para fechar o círculo com mais ironia divina, os portugueses são hoje mais influenciados pela cultura das colónias do que alguma vez as colónias foram influenciadas pela nossa.

Mas este não foi caso isolado. Outras influências exteriores contribuíram para a sua dissolução. Podemos perguntar se se a abertura do país à influência exterior foi um benefício ou um malefício, se melhorou a sociedade ou a piorou, se apurou as qualidades portuguesas ou as deteriorou. O que não podemos negar é que sucedeu.

Quando na Primavera Marcelista se começou a abrir fendas no dique que impedia a cultura estrangeira de entrar em Portugal, pôde observar-se que não tardou muito a que não houvessem suficientes meninos para meter os dedinhos nos buracos e impedir a enxurrada.

No outro dia estava a ver este documentário sobre o CascaisJazz, em 1971, que ilustra bem o argumento. Nele aprende-se que alguns dos músicos – e apesar da presença das polícias – fizeram homenagens aos movimentos de libertação africanos, saudados com grandes aplausos e cantos pela ‘liberdade’. As consequências não foram muitas, apesar da inicial ameaça de repercussões, o que provou a abertura do regime aos apoiantes, mas sobretudo provou aos detractores a sua fraqueza. Daí até à abertura completa, foi um piscar de olhos.

Em condições tecnológicas pós-industriais, e num mundo politicamente plebeu, quer se considere boa ou má, a abertura ao exterior é um processo contínuo, uma espécie de PREC, que uma vez começado não tem termo, e se alimenta a si mesmo num feedback loop.

Em menor ou maior grau, é por isso que vemos as identidades nacionais na Europa Ocidental se tornarem com o tempo versões diferentes da mesma cultura cosmopolita, obcecada pelas mesmas causas e guiada pelas mesmas ideias, enquanto que na Europa que esteve por detrás da Cortina, o processo está mais atrasado e a diferença é ainda visível. Mas infelizmente, sem que existam medidas que o contrariem, o processo vai continuar no Leste como continuou no Oeste.

E não parece haver grande diferença entre, por exemplo, cultura sancionada centralmente (como a MTV ou Hollywood), ou cultura descentralizada (como a Internet). A ausência de fronteiras culturais cria um mundo onde as fronteiras reais se tornam irrelevantes. Este argumento é frequentemente avançado pela Esquerda, para justificar a sua defesa de fronteiras abertas, e criticado pela Direita. Mas, mais uma vez, é a Direita quem não está a ser logicamente consistente.

A verdade é que a Direita pretende fronteiras fechadas na prática, mas fronteiras culturais completamente abertas, ignorando que a abertura cultural leva, inevitavelmente, à abertura real. O consenso geral de que devemos deixar entrar pessoas de todo o mundo para ‘enriquecerem’ a nossa cultura não nasceu do vácuo, foi um processo gradual, e não é produto de uma conspiração. É apenas o resultado natural da exposição continuada a culturas estrangeiras, que leva à perda de identidade e cultura nacional. O ‘enriquecimento’ só é possível, e só faz sentido, porque se perdeu a base. Se a própria cultura é uma mistura indiscriminada de influências, não há razão lógica para que a população o não seja. Em última instância, só encorajamos a entrada de outras culturas porque perdemos a nossa.

E não pensem que é possível impedir este processo. Ele já está demasiado avançado para se salvar alguma coisa. Qualquer ilusão sobre o assunto convém que seja abandonada. Os monárquicos e reaccionários autistas podem clamar e rezar todos os dias para a restauração da IMG_0486.jpgcultura portuguesa, mas o Portugal que existiu não volta a existir. O nacionalismo nos seus parâmetros clássicos é impossível e é difícil antever o que se segue. Mesmo que Portugal, como entidade política reganhe a soberania – algo bastante duvidoso quando nem o partido nacionalista, único, postula a possibilidade – não vem daí o regresso automático da identidade portuguesa perdida. Se D. Sebastião aparecer do nevoeiro, provavelmente volta para ele pois não reconhece as gentes e pensa que se enganou na saída. Mas não é caso para desespero porque, lembremos, a maioria das antigas nacionalidades europeias não era politicamente delineada. Viveu e sobreviveu sob jugo político externo. Portugal, com os seus 900 anos de independência política, é uma excepção nesse respeito. Nada indica que exista um Portugal politicamente unificado no futuro, mas isso não impede a criação de uma ou várias identidades.

Não ignoro a deliciosa ironia de que este texto contradiga a aspiração presente no título deste blog. Mas a verdade é que, como já se disse, não há restauração grandiosa possível. Temos de recomeçar do zero. É preciso repetir que a identidade nacional nasceu das acções individuais dos portugueses, e não porque estes estavam conscientes de que as suas acções levavam a esse fim. Aconteceu independentemente da sua vontade. Por isso qualquer futura identidade requer o nosso envolvimento, a nossa acção, o nosso investimento na nossa comunidade, não em aventuras identitárias que são, curiosamente, um fenómeno moderno global. A comunidade é o alicerce. Só o tempo dirá se é suficiente para suportar um edifício comum. O que é certo é que não se constroem casas a partir do telhado.

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Uma mera formalidade.

A barbárie Islâmica continua a assolar a Europa. Os detalhes são irrelevantes. Por muito que a imprensa queira ofuscar a origem dos ataques terroristas ou desculpabilizar os responsáveis, só behead-those-who-insult-islammesmo quem insiste em fechar os olhos não sabe. Quem é que, com dois dedos de testa, com o mínimo de atenção e o mínimo de honestidade acha que se deve continuar a importar hordas de árabes, magrebinos e africanos que professam o Islão? Quem é que, na posse das suas faculdades mentais, ainda acha que o Islão é uma religião de paz e que o elemento de conquista é a excepção e não a regra? Ninguém. Quem era passível de ser instruído já o foi. Pelo que é irrelevante para a Direita martelar mais uma vez o assunto.

No entanto, dada a frequência da barbárie, este martelar tornou-se uma fonte de popularidade, de rendimento e mediatismo. Da mesma forma que a Esquerda utiliza os eventos para pregar o seu demónico evangelho, o virtue-signaling da Direita é exclamar, uma e outra vez, o óbvio ululante. É pena porque é uma evidência que ofusca o verdadeiro problema.

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Wilders: “Basta de selvagens castanhos que violam miúdos“; Also Wilders: “Temos de defender os nossos pederastas da selvajaria Islâmica“. Hum… ?

De certa forma, é compreensível. A Direita já não ganha há muito: a sua existência é unicamente reactiva perante qualquer que seja a obsessão da Esquerda no momento – e a Esquerda, que é patrocinada pelas elites financeiras com os seus propósitos particulares completamente

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Espécimes da Raça Ariana.

desligados dos interesses dos nativos e dos imigrantes, está permanentemente investida num exercício de gaslighting da população sem precedentes. A cada atentado, a Esquerda (que inclui a imprensa, as universidades, o governo, os think thanks, etc.) jura-nos que o Islão é uma religião de paz, que os atentados nada têm a ver com a importação desta cultura para a Europa, que criticá-la é ser xenófobo e que, em última instância, encontrar um padrão em todos estes eventos apenas demonstra o quão odiosos são os críticos. Perante isto, a Direita arranca para a refutação de todas as permissas da Esquerda, e assim permite que ela dite o tom e o conteúdo do discurso.

A Esquerda sendo o que é, e patrocinada por quem é, vê apenas as consequências e causas materiais. Nem importa que minta. A refutação das suas mentiras não desliga a crítica da mundividência materialista. Além disso é muito mais fácil atacar os outros do que olhar para dentro, admitir as nossas falhas e superá-las. Se a Esquerda decidiu olhar para dentro e aceitar tudo o que há de mau como sendo bom, a oposição decidiu ignorar o pântano que é a alma europeia e apontar o foco para fora, como se fosse possível que os elementos exteriores nos afectassem como afectam sem que houvesse subversão interna.

É importante perceber a verdadeira origem do problema, que não são os bárbaros estrangeiros mas os nativos moralmente apáticos. Eu não vejo nenhuma outra civilização a convidar bárbaros para as suas nações, a dar-lhes casa, comida e abrigo. Nenhuma outra raça tão apática que após cada atentado defende as suas causas e que continua a insistir em convidá-los. Quantos dos que morreram em Espanha apoiavam os ‘refugiados’? Quantos não apoiando ficaram calados? Quantos permitiram ou estiveram-se a marimbar para o facto de as suas crianças sofrerem lavagens cerebrais na escola para que os aceitem?

Morreram 14 pessoas no atentado espanhol. Entretanto houve mais uns quantos, noutros sítios. Mas quantos abortos foram perpetrados nesse espaço de tempo? Quantas vidas pereceram às mãos dos próprios Europeus, com subsídio público e indiferença da população?

No Twitter alguém perguntava, perante a notícia de que o jihadista que cometeu o atentado já tinha anunciado o seu propósito, ‘como é que é possível continuarem a ignorar?‘. A resposta é simples: apatia. Se o jihadista tivesse dito que queria ilegalizar a pornografia tinham-lhe prestado atenção e feito protestos.

Se o problema fosse só um de invasão, era fácil de resolver. Infelizmente, o problema é muito mais profundo. A ameaça física que os bárbaros Islâmicos apresentam é insignificante comparada com

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Mais espécimes da Raça Ariana.

a aniquilação espiritual a que os europeus se votaram a si mesmos. O Homem Europeu tem como único deus o hedonismo. Enquanto lhe permitirem refastelar-se nos seus pecados, é-lhe completamente indiferente se bárbaros estrangeiros matam os seus compatriotas, violam as suas mulheres e crianças ou destroem as suas cidades. A sua lealdade é direccionada apenas para o seu prazer imediato. Pelo que até os críticos do Islão e da sua entrada na Europa estão simplesmente focados na sua remoção e julgam que, uma vez removido o elemento Islâmico, a Europa pode continuar na sua depravação hedonista e tudo correrá pelo melhor.

Os avisos foram-nos dados mas decidimos não os ouvir. Os antigos Israelitas cometeram o mesmo erro, tiveram a mesma presunção e sofreram as mesmas consequências:

«Todas estas maldições vos seguirão e vos alcançarão até que sejam destruídos — tudo por terem recusado ouvir o Senhor vosso Deus. Estes horrores cairão sobre vocês e os vossos descendentes como um sinal. Tornar-se-ão escravos dos vossos inimigos, por causa de não terem louvado o Senhor por tudo o que vos deu. O Senhor mandará os vossos inimigos contra vocês; vocês terão fome, sede, frio e necessidades em todos os domínios. Um jugo de ferro será posto no vosso pescoço, até que sejam destruídos.

O Senhor trará contra vocês uma nação distante que vos cairá em cima como uma ave de rapina; uma nação cuja língua não compreenderão — gente feroz e furiosa que não terá compaixão nem de velhos nem de novos. Eles comerão tudo o que é vosso em casa e nos campos; levar-vos-ão todo o gado e as colheitas; desaparecerão os cereais, o vinho novo, o azeite, as crias das vacas e das ovelhas. Essa nação sitiará as vossas cidades e derrubará as muralhas, por mais altas que sejam e por muito que pensem que vos protegem seguramente.» (Deuteronómio 28:45-52)

A história está a repetir-se porque os Europeus, tal como os antigos Israelitas, elevaram as suas invenções e prazeres terrenos acima de Deus e dos seus mandamentos. A incrível disfuncionalidade das nossas sociedades deriva deste facto, e faz-nos a cada dia mais fracos, mais solipsistas, menos humanos, e a nossa fraqueza torna-nos presas fáceis para os bárbaros. «Quem tem apego à sua vida vai perdê-la; quem despreza a sua vida neste mundo vai conservá-la para a vida eterna» (João 12:25). A alma do Europeu comum está perdida. A morte física trazida pelos bárbaros é uma mera formalidade.

A Revolução Reaccionária no Século XXI

novabandeiraPorquê ter uma bandeira azul e branca sem a coroa? O que é que significa? Vou explicar no fim. Para chegarmos ao destino, primeiro temos de percorrer o caminho. Por isso, façamo-nos à estrada.

Suponho ser inevitável que um reaccionário dê consigo a sonhar com alguma espécie de restauração, ou seja, uma revolução; um corte com a elite política do momento e, no caso da revolução reaccionária, a sua substituição pela elite passada ou pela elite presente que representa esse passado. E sendo reaccionária, esta revolução, seria no sentido de uma sociedade recta e ordeira.

Só por ler a frase se nota o quão difícil será efectuar na prática uma tal contradição teórica. As revoluções são sempre violentas, caóticas – o contrário do que se pretende. Os golpes palacianos são mais elegantes, menos primitivos, menos desmiolados. Por isso a Direita, em geral, prefere-os às revoluções puras e duras.

A única forma de a Direita fazer um golpe palaciano é através das instituições: infiltrando, influenciando, convertendo. Com instituições queremos dizer os centros de influência política, religiosa, militar, económica, cultural, legal – que em democracia fazem todos parte do mesmo bolo, e que em Portugal significa também, centralizar tudo em Lisboa, e deixar ao resto do país as migalhas.

Só que os golpes palacianos apenas funcionam quando as instituições foram infiltradas. A formalidade do golpe na transferência de poder quando é dita em voz alta, é apenas isso: uma formalidade. O verdadeiro golpe acontece aos poucos, devagar, por baixo – muito antes de chegar ao palácio. Mas a eficiência de uma tal revolução pressupõe que as instituições estejam num estado em que é possível e desejável recuperá-las. Gostaria que me apontassem uma que não esteja podre dos pés à cabeça e cujo resgate valha a pena, para não falar da possibilidade de a resgatar. E, para não nos perdermos muito cedo em deambulações teóricas, convém lembrar que as ‘instituições’ são simplesmente as pessoas que populam e agitam as tais. Não há um espírito mágico a correr pelos corredores, a não ser possivelmente um ou outro demónio, mas esses são também o resultado da presença humana.

Pelo que a conclusão é que as instituições estão podres, porque as pessoas estão podres. Triste realização. O clássico golpe palaciano parece improvável. Mas vamos esquecer o caminho para lá, e imaginar que está feito, por milagre. O golpe monárquico e o golpe ‘Faxista’, chamemos-lhe assim, são cenários diferentes, por isso vamos separá-los.

Imaginando a eventualidade de Portugal voltar a ser monárquico, devolvendo o trono ao seu herdeiro, a ideia de que cortará com a modernidade – não só politica mas culturalmente – já me parece demasiada suspensão da incredulidade para que os espectadores continuem a ver o filme. Não me parece igualmente que dure muito, mesmo que dê de início todos os passos certos. Só não argumento contra aqueles que acreditam na restauração por razões de fé – honestamente, apenas um milagre pode efectuar essa restauração, não só em nome, como em espírito. E a verdade é que ter fé em Deus é preferível a ter fé nos homens, em todas as ocasiões e circunstâncias.

Quanto aos monárquicos que acreditam, ou fingem acreditar, numa restauração por vias democráticas, rio-me da vossa ingenuidade e censuro a vossa malícia ou tolice.

Se sairmos do campo da monarquia, temos o ‘Faxismo’, as ditaturas populares de Direita (Salazarismo, Franquismo) ou com tiques de Direita (Fascismo, Nacional Socialismo). Imaginar uma restauração do Estado Novo, por exemplo, actualizado para o Portugal no Século XXI não deixa de ter o seu apelo nostálgico mas parece igualmente improvável, senão ainda mais. Aqui, nem o apelo ao Divino o pode fazer acreditar.

O problema das ditaduras populares é que são populares. Em última instância o poder está na figura carismática do líder. O Salazarismo era óptimo, mas morreu com Salazar – com ele era o que era, sem ele não era nada. Caetano não era terrível (era certamente melhor que qualquer político da I ou da III República), mas não tinha o carisma – e portanto não tinha a autoridade.

Na política, as massas são movidas por caras, símbolos, slogans – mas não são, nem nunca serão, actores políticos. Não o são em Monarquias Aristocráticas, como o não são em ‘Faxismo’, Comunismo ou Social-Democracia. Mas nestes últimos, mantém-se a fachada de que são (quer seja pela identificação do líder carismático ou do Estado com o povo, ou pelo sufrágio universal). Grande parte da propaganda do Fascismo Italiano e do Nacional-Socialismo Alemão propõe-se a afirmar que o Estado, o Líder, ou o Partido, agem em benefício do povo, através do povo: pelo povo e para o povo. Nessa pedra basilar está a fundação ideológica dos regimes autoritários de Direita. Ao contrário de uma ordem aristocrática, o poder está sempre na rua; a política faz parte da vida dos comuns mortais.

Pelo que para edificar uma ditadura popular de Direita, é preciso um povo em concordância. O povo português de hoje não é o povo português de 1926 ou até de 1945 – ou, sequer, de 1965. A consistente e insistente destruição e implosão do casamento, da família, da comunidade, da Igreja, etc etc etc, tem os seus efeitos inevitáveis. O povo é de Esquerda. O povo até pode querer mais autoritarismo, mas é de Esquerda. Imaginem um Estado mais agressivo no combate ao crime, na protecção das fronteiras, na punição da delinquência; imaginem um Estado que banisse a pornografia, ou proibisse as relações homossexuais. Imaginem um Estado que ilegalize o aborto. A reacção popular seria de rir se não fosse de chorar. Isto mesmo sem contar com o dinheiro estrangeiro que geralmente acaba no meio destas causas. Mas mesmo sem esse dinheiro, quer-me parecer que a probabilidade do regime durar é pequena.

Abrir a política ao povo é convidar e promover o elemento mercenário e o elemento parasítico numa ordem social, qualquer que seja. De repente, o exercício do poder, a garantia de uma ordem, não é um dever de homens capazes e dispostos, mas uma carreira com promessas de subir na vida. Os piores são atraídos para o topo, seja com partidos ou com o partido. Voltamos a repetir: o povo de hoje não é o povo de Salazar. É o povo de Mário Soares e Cavaco Silva. Uma importante diferença. Uma diferença que inviabiliza a restauração.

Pelo que a restauração monárquica ou ‘faxista’ é, na minha perspectiva, um sonho idílico de quem não costuma privar com o cidadão comum.

E aqui chegamos à questão da bandeira. “Se não acreditas na restauração, porquê a bandeira azul e branca?” “E porquê apropriar as cores sem a coroa?” O que a bandeira significa é que, apesar da nossa história e da tradição monárquica em Portugal, me interessam pouco os aspectos cosméticos da Monarquia. Sou monárquico porque acredito que o governo privado e hereditário é a forma natural de governo, porque considero que essa é a forma recta e desejável do exercício do poder, não porque nutra qualquer simpatia ou reverência pelos nossos membros da aristocracia, ou pelas qualidades estéticas da história da monarquia portuguesa. A aristocracia moderna é o produto do seu tempo e, admita-se, não serve. Uma nova aristocracia terá de nascer para que um regime monárquico exista. Uma aristocracia nascida do mérito, da honra e do sentido de justiça, ou seja, da verdadeira autoridade, na qual o exercício recto do poder se funda. Tal como surgiu aquela depois da queda do Império Romano, nascerá esta depois da queda do Império Americano.

Por isso, não desanimem. A batalha não está perdida. É simplesmente longa e nós estamos na fase de transição. Para fundar uma nova aristocracia é preciso fundar um novo povo que reconheça a sua autoridade natural. Não existem soluções fáceis e rápidas. Não existe revolução reaccionária que, numa manhã de nevoeiro, traga o almejado regime e o permita governar em paz. Para o regime mudar as pessoas têm de mudar. E isso leva tempo.

Por isso escolhi uma bandeira que não é a presente, nem a passada, mas uma que signifique a aspiração a um Portugal futuro. É a minha convicção que a “ordem” (e ponho aspas porque é mais uma desordem) presente está para lá da salvação e com a sua desintegração, as estruturas de poder vão desaparecer e a realidade será reduzida à sua base natural: a família. Depois, a comunidade. A nós, e provavelmente aos nossos filhos, netos e bisnetos, resta-nos continuar. Os nossos números vão descer. O nosso conforto vai diminuir, as adversidades aumentar. Mas pela persistência no esforço da continuação nascerá uma nova ordem.

A resposta simples, mas não fácil, é que para fundar uma nova monarquia, é simplesmente preciso ser um Homem. Ser um Homem nas acções e nas palavras. Ser honrado e não apologético. Fazer o bem e evitar o mal. Planear e construir. Ter uma família e liderá-la. Fazer filhos e educá-los, para que eles possam fazer o mesmo quando crescerem. Continuar, indiferente às modas e às obsessões do mundo iníquo que nos rodeia. E um dia, mais cedo ou mais tarde, os nossos netos ou bisnetos poderão hastear uma nova bandeira e proclamar Portugal uma pátria, novamente, integral.

O enigma dos Liberais

«Academia is to knowledge what prostitution is to love»
Nassim Nicholas Taleb

Depois de termos falado dos problemas do liberalismo, vamos falar dos problemas dos Liberais. Isto, admita-se, é mais fácil: existem muitas, muitas obras do pensamento liberal e nem todo esse pensamento é de deitar para o lixo (em alguns casos, como Mises, é absolutamente essencial). Os Liberais antigos, ao contrário dos modernos, ainda tinham algo que um reaccionário podia aproveitar.

Em especial, pode aproveitar-se a Escola Austríaca (ou pelo menos, as obras principais). Esta escola de pensamento é a única escola económica que não foi cooptada pelo materialismo (tanto o antigo, de Smith e Ricardo, como o moderno, de Fisher e Keynes) – e como tal é também a única que consegue apresentar uma teoria que represente a realidade económica e a explique de forma satisfatória.

Não será de surpreender, no entanto, que os escritos puramente económicos da Escola Austríaca (que não contêm necessariamente prescrições políticas) tenham com o tempo servido de base, e justificação, para prescrições políticas. Prescrições liberais.

Mises, a figura principal e certamente a mais interessante, fez sempre questão de distinguir entre os seus escritos puramente económicos e os seus escritos políticos. E por fazer essa distinção, ambos mantiveram a sua relevância. Theory of Money and Credit, por exemplo, continua a ser a obra essencial para explicar o clusterfuck que é a política monetária democrática, sem no entanto advogar contra ou a favor: limita-se a chamar os bois pelos nomes. Um retrato mais largo da teoria e realidade económica pode ser encontrado em Human Action. Ambos os livros são peças necessárias para entender o mundo em que vivemos.

Nos seus escritos puramente políticos (como o Nation, State and Economy) Mises observa o mundo com uma clareza que faria corar reaccionários modernos – como observámos aqui, em Democracia, o caminho é sempre para a Esquerda, o que faz de um liberal há cem anos um terrível reaccionário contemporâneo. No entanto aqui já podemos observar, no meio da sua enorme erudição, a tendência (talvez inevitável) de ver o mundo somente pela esfera económica, e cair na armadilha liberal, whig, progressista. Esta crença de que o mundo está em constante progresso (em vez de degeneração) era um conceito que Mises terminantemente rejeitou toda a vida na sua teoria económica (pois era inegável a degeneração da disciplina), e no entanto, na sua vertente puramente política Mises continuava a cair na patranha, e acreditar que a passagem das entidades políticas aristocráticas para as democráticas tinha sido um progresso. A obsessão económica tinha levado a melhor.

E aqui entramos especificamente no tema deste texto. Tal como Mises, os Liberais portugueses deixaram o seu conhecimento de teoria económica levar a melhor e enformar todo o seu pensamento político. Ao contrário de Mises, não o fazem com especial erudição (mas não os vamos censurar por isso – podem acusar-me do mesmo e com razão). Os principais sítios da blogosfera portuguesa liberal são o Blasfémias e o Insurgente e é neles que se encontra esta obsessão, à superfície incompreensível. Ambos são, supostamente, de Direita. E apesar de se aproveitar um ou outro indivíduo em particular (e de vez em quando), a verdade é que a maioria revela um autismo estonteante e tem um único barómetro político: a economia.

Os Liberais portugueses são democratas. Sendo democratas são obrigados a mover-se intelectualmente na Janela de Overton, por auto-censura inconsciente e por auto-censura PwnedCatconsciente. Por causa dessa auto-censura, os Liberais estão obcecados com reformas dentro do sistema. Nunca sequer lhes ocorre que o sistema deva morrer, que o sistema seja iníquo, que o sistema seja podre de raiz. E se ocorre, não o dizem. Pelo contrário. E há uma razão para isto, mas já lá vamos. Por agora convém salientar que a obsessão económica não é defeito, é feitio.

Como explicar que um liberal não queira sair da UE? A UE é essencialmente a versão moderna da União Soviética: um organismo insonso de burocratas cinzentos que ditam a vida de milhões de pessoas sem qualquer representatividade. Não são os Liberais a favor da representatividade?

A explicação é que os Liberais temem que haverá menos liberalismo económico nas nações europeias sem a alçada benévola da União Europeia. Temem em especial que haja menos em Portugal. E sendo essa a única métrica para a sua visão política, são contra. E é inegável que isto sucederia, a curto prazo. O que levaria a um colapso, a médio prazo.

E aí voltamos à mesma questão: os Liberais temem o colapso do sistema, por mais iníquo que o sistema seja, por mais antitética ao Liberalismo que a própria fundação monetária desse sistema 839d3c15540b493f867668a0ca132551.jpgseja, por mais iliberal que o sistema seja. Os Liberais lutarão incansavelmente (na esfera intelectual) para evitar descartar a constituição comunista que rege o país. Há anos que os Liberais andam a anunciar a falência da Segurança Social, há anos que falam da fundação fraudulenta do sistema monetário, há anos que apontam a ignomínia da dívida pública. E no entanto as suas prescrições são sempre no sentido de evitar o colapso inevitável. Em vez de matar o dragão, os Liberais querem domesticá-lo.

Eles sabem, no entanto, que o colapso é inevitável. Mas ao que parece os Liberais têm um enorme medo do sofrimento, mesmo do sofrimento salutar. Só que é inegável que, de uma forma ou outra, haverá sofrimento. Muito especificamente, sofrimento económico. Haverá tumultos por causa desse sofrimento. Para usar a analogia preferida dos Liberais, a desintoxicação não é agradável para o drogado. Mas estar constantemente na corda bamba dos paliativos não é uma solução. É uma cobardia.

O que escapa aos Liberais obcecados com as consequências económicas imediatas, ou que insistem em não ver, é que para uma boa parte da população (e muito em especial daquela população que vive à conta do Estado – em que muitos deles se incluem, quer gostem disso ou não), é necessário sofrimento. Cristo também teve de sofrer na cruz antes de ressuscitar.

É preciso que as pessoas vejam o que é viver sem subsídios. É preciso que vejam o que significa uma dívida impagável e as consequências de dizer, firmemente, que não a vamos pagar. É preciso que voltem a depender das famílias, dos amigos, dos vizinhos, da comunidade. É preciso que encarem a realidade de ter trabalhos duros e desagradáveis. É preciso que sejam obrigadas a não gastar tudo o que ganham, a viver com menos do que precisam, a poupar. A maioria das pessoas tem conforto a mais para o seu próprio bem. Tal como os Liberais, perderam a noção do que é importante. Não sabem distinguir o eterno do transiente.

A grande maioria dos nossos defensores do mercado, são defensores apenas do seu esqueleto, sem entenderem (ou não querendo entender) que a alma e a carne que enformam esse esqueleto são mais importantes para que o sistema funcione do que a formalidade desse sistema. Neste momento, a alma do povo é o Estado Social, é a dependência, é a morosidade, a preguiça, a vaidade e a gula. O liberal não diz ‘vamos acabar com o sistema para erigir sobre as ruínas uma fundação sólida‘. Diz ‘vamos adiar o seu colapso, e acentuar as consequências desse colapso‘. Porque, como Keynes dizia, a longo prazo estamos todos mortos. Os Liberais esperam honestamente estar mortos quando o colapso acontecer. E trabalham para adiar esse colapso de forma a garantir esse destino.

Assim se explica, em parte, o porquê de os Liberais acreditarem na democracia: é uma forma voluntária de cegueira. Acreditam que elegendo o PSD (ou, vá lá, a ala Liberal do PSD, que é a ala moderada da moderação deles mesmos) vamos caminhar para mercados mais abertos e atenuar o Estado Social (não se riam). Tentam vender o seu peixe a pessoas que só comem carne e cover26defendem eurodeputados porque disseram uma vez uma frase liberal (enquanto fazem parte do conselho cosmético da União das Repúblicas Socialistas Europeias). Acreditam que as pessoas comuns (o maior entrave ao liberalismo), pessoas que não poupam, que vivem do Estado Social, cujos únicos interesses são o futebol e a novela, que papam tudo o que lhes dizem na televisão, cuja única cultura é o consumismo, estas mesmas pessoas que nem cuidar de si e dos seus conseguem ou pretendem fazer, podem e devem votar em representantes. Representantes esses que não representam ninguém a não ser a si mesmos e aos interesses que os compram. Este retrato da Democracia e da população em Democracia não é um exagero, é observável. E mesmo que não fosse, é intuitivo. E se a intuição não fosse o seu forte, podiam sempre ler Hans Hermann Hoppe. Mas não. Estão presos numa visão whig da história em que à frente está sempre o progresso.

Mas existe uma peça do puzzle em falta. Acima dissemos que se trata de cegueira, mas é uma cegueira voluntária. A maioria dos Liberais é inteligente e certamente teve tempo e oportunidade de se deparar com a contradição em que se encontra, estes liberais certamente que leram os livros certos e reflectiram sobre o que leram. Da própria perspectiva do liberalismo, a sua defesa do status quo é inexplicável.

Mas explica-se perfeitamente quando se percebe que escrevem em nome próprio e que têm empregos e reputações a defender. Que quase todos são beneficiários do sistema falido das stock-vector-scale-favoring-self-interest-rather-than-personal-values-108478289universidades. São professores, ou consultores, ou comentadores especialistas. Pagam a renda a girar a alavanca das ciências sociais nas fábricas de mentecaptos. Ser liberal é alternativo, mas é trendy. Um liberal pode ir às festas e às conferências, pode fazer parte das instituições, pode viver em paz sendo o enfant terrible que o consenso de Esquerda tolera, porque não ameaça.

Não se espere, pois, que rejeitem o seu modo de vida em nome de ideais maiores, ou sequer de consistência ideológica. Não se morde a mão que dá de comer.

Teocracia e Escravatura

Não existem homens sem Religião, existem apenas homens que não sabem que Religião seguem. Visto que o Estado é operado por homens, baseado em constituições feitas por homens, que aplica leis escritas por homens, segue que o Estado também não existe sem uma Religião. Tal como o indivíduo, o Estado pode não saber, ou não declarar, que Religião de facto o enforma –

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história da Igreja em Democracia

mas ignorar ou esconder este facto não o torna menos verdade. O status quo da modernidade, porém, é fundado precisamente nessa falsa premissa de que o Estado e a Religião estão, e devem estar, separados. A premissa só será verdadeira se por Religião se designar as fés ancestrais, pois o Estado democrático é o principal veículo das fés modernas, promovendo-as através de todos os seus tentáculos. Qualquer regime de duração média, passado ou presente, funda-se em última instância nas ideias que o enformam, ou seja, numa Religião.

Por isso, a verdade é que vivemos numa Teocracia. Vou repetir, para o caso de ter atordoado o leitor: vivemos numa Teocracia. A asserção pode parecer absurda, mas isso deve-se à natureza desonesta da propaganda da era em que vivemos, que é um produto da classe teocrática dominante. Por isso, deixem que me explique.

Bem sei que a origem da palavra é grega, e que o original theos significa Deus. Mas visto que não distingue entre falsos e verdadeiro, a palavra aplica-se: a história moderna (democrática) é nada mais nada menos que a incessante adoração de falsos deuses, promovidos pela classe teocrática através do Estado. A Teocracia em que vivemos é baseada em falsos deuses (o poder popular, a igualdade, o hedonismo e por aí for a), e promove esses falsos deuses com a mesma assertividade com que teocracias passadas afirmavam e promoviam outros, ou Aquele.

Se isto não chega, e de facto convém ir mais longe, vamos mais longe. O dicionário define sucintamente a Teocracia como um ‘Estado em que o poder está na mão do clero‘. Mas quem é o clero moderno? Quem tem de facto poder no Estado Democrático?

A pergunta é mais difícil do que parece. Um dos principais problemas da Democracia é precisamente que o poder está incrivelmente disperso, sem no entanto estar descentralizado. Por disperso entende-se o carácter inerentemente obstruccionista das instituições democráticas, em que uma (por exemplo, o Governo) não pode dar um passo sem que outra (por exemplo, o Parlamento) o permita – além das outras todas que também lá estão pelo meio a obstruir. Os magníficos checks and balances são na verdade uma forma de não se conseguir fazer nada de bom, sem se impedir que se faça todo o tipo de mal (ver a teoria da Captura Regulatória). A captura, no entanto, aplica-se a exemplos concretos e económicos, não à natureza religiosa do poder do Estado. As empresas de facto infiltram-se no Estado Democrático para retirar dele benefícios (que surpresa!), mas não são as empresas que definem, por exemplo, os currículos escolares, as leis anti-discriminação ou a posição do Estado em relação ao aborto – ou seja, os elementos religiosos. Curiosamente, e em grande parte por causa da captura, as empresas acabam, sem serem necessariamente obrigadas, a criar e aplicar dentro das suas próprias estruturas as mesmas regras religiosas (quem já trabalhou numa empresa de tamanho relativamente apreciável, pense, por exemplo, em todas as campanhas internas pela diversidade, inclusão, apoio aos refugiados, protecção do ambiente, etc). Por isso temos de procurar o nosso clero noutro sítio. As empresas são os aristocratas modernos, mas não são eles quem detém o verdadeiro, e último, poder.

De onde vêm então estas ideias que enformam o Estado e que eventualmente chegam até às leis e às instituições (mesmo àquelas que não são, nominalmente, estatais)? Se o leitor respondeu “das scientismUniversidades”, acertou. Se respondeu outra coisa, não se aflija: a resposta não é óbvia, até porque não existe qualquer incentivo para que os carrascos retirem o capuz e revelem a sua identidade. O facto é este: o clero moderno, o poder no Estado Democrático, está nas Universidades. Se se quiser saber que legislação religiosa será passada nos próximos quinze anos, procure-se que obsessões se promoveram nas Universidades nos últimos quinze. Da próxima vez que vir um professor catedrático, faça-lhe uma vénia. Está perante um soberano.

Não se pode descontar os incentivos económicos, claro. As universidades (e em menor grau, as escolas) são um dos maiores e mais perversos esquemas de lavagem de dinheiro do mundo moderno (dos cursos às bolsas, dos professores às publicações, passando pelos inúmeros institutos e grupos de investigação – todos pagos, e eventualmente engolidos, pelo cidadão comum). Mas adivinhe-se de onde surgiu o esqueleto, a ideia, deste sistema em que as Universidades gozam de prestígio e privilégio (totalmente indevido), antes de ter sido efectivado na lei? Nas universidades. O lema oficial da Educação “Superior” devia ser ‘damos vida ao termo circle jerk‘. A lavagem de dinheiro é, no entanto, menos importante e vem na sequência da lavagem cerebral.

O que distingue o clero moderno dos cleros passados, é que a Academia não ensina ou promove a verdade, nem conserva ou dissemina o conhecimento (de vez em quando fá-lo por acaso, e sem intenção – e na grande maioria dos casos esses acasos são ignorados ou punidos). A razão para isto é não ter uma base teológica para além da sua própria perpetuação.

Por isso, e para concluir: vivemos numa Teocracia em que o clero é a Academia. E isso, caso ainda não seja claro, é mau. Não por causa do sistema, que é inevitável (e o que não tem remédio, remediado está), mas por quem o dirige: o nosso clero educativo além de prepotente (o que, admita-se, vem um pouco com a função), não é lá muito educado – o que acaba por se notar na sociedade que produz e dirige.

Julgo ter ilustrado suficientemente o meu argumento, pelo que vou passar à segunda parte do texto.

Não só vivemos numa Teocracia Académica, como vivemos em Escravatura. E tal como no caso da Teocracia, não houve nenhuma sociedade até hoje em que o homem não vivesse em Escravatura – em vários graus, certo, mas Escravatura ainda assim. Voltemos ao Dicionário: A Escravatura é a ‘Condição do indivíduo privado da sua liberdade e submetido à vontade de outrem, que o considera sua propriedade‘. Perante a definição, não é difícil aferir a veracidade da proposição.

O leitor sente-se totalmente livre? Acha que é proprietário de si mesmo? Acha que pode contestar as leis feitas pelo parlamento? Acha que pode não pagar impostos? Pense outra vez. A diferença entre um servo no Século XIV, um escravo no Século XVI e um cidadão no Século XXI é uma diferença de grau, não de natureza.

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Antes de entrar em pânico e procurar soltar os grilhões (metafóricos) que tem à volta dos tornozelos, convém não esquecer que a Escravatura não é uma estrada de sentido único. A escravidão tem obrigações, mas também tem contrapartidas. O lorde oferecia ao servo terra e materiais para trabalhá-la, oferecia-lhe protecção e ordem, não o podia vender a outro lorde – embora pudesse libertá-lo ou vender-lhe a sua liberdade – e não o podia agredir indiscriminadamente – embora pudesse puni-lo no caso de cometer um crime. O dono do escravo oferecia-lhe casa, comida, saúde e instrução básica (e ao contrário do que é popularmente acreditado, a violência indiscriminada era usada muito raramente – e por razões óbvias, afinal, só um idiota destrói a sua propriedade, e só um idiota maior destrói a sua propriedade quando a sua riqueza depende dela). Em alguns casos, o escravo era formalmente libertado e ascendia à condição de assalariado. E não podemos deixar de mencionar que o lorde e o dono de escravos, também eles, eram sujeitos a submissão (ao Rei ou ao Parlamento), e também eles tinham as suas obrigações e contrapartidas – as Teocracias que se sobrepunham a um e a outro eram, no entanto, bem menos destrutivas que a presente.

Nós, cidadãos, os escravos do século XXI, temos um “acordo” menos parecido com os servos e mais parecido com o dos escravos. Se há coisa que o Estado Democrático não oferece é protecção e ordem, e também não podemos comprar a nossa liberdade – pelo menos não oficialmente (o suborno e o lobbying são indissociáveis da democracia). A principal diferença entre o cidadão e o escravo é que, ao contrário dos donos de escravos de outrora, o nosso dono (o Estado) não tem grande incentivo em manter-nos saudáveis, ou em instruir-nos de forma a aumentar a nossa capacidade de trabalho, e além disso é precisamente os que menos contribuem que recebem a maior quantidade de regalias. Apesar de tudo, podia ser pior. Mas como dizia o velho anarquista, um homem não é menos escravo por poder escolher o seu dono de tantos em tantos anos.

Convém igualmente desconfiar sempre que alguém promete libertações (as libertações resultam precisamente nos exemplos acima). Quase todos os terroristas se chamam a si mesmo libertadores. E as consequências, mesmo quando se considera o ideal como moralmente indiscutível, nem sempre são as mais desejadas. A história está cheia de exemplos, da Revolução Francesa à descolonização, em que a libertação acabou por ser pior (no momento e no futuro) que a servidão que se aboliu. Pior a emenda que o soneto, como se diz. Às vezes parece que a iatrogenia é a constante na história política humana. O que só torna mais trágico o facto de quase ninguém saber do que se trata.

Outra diferença é que o cidadão tem um papel (embora mínimo e em última instância insignificante) na escolha do seu dono temporário, através do voto, e pode aspirar e concretizar a sua ascensão (temporária) à condição de dono, ou pelo menos a parte da classe dos donos (seja na condição executiva ou de teocrata). À superfície, isto pode parecer uma vantagem. Mas, analisando a questão em teoria como na prática, o resultado não se recomenda mais do que a Escravatura clássica, e menos ainda que a servidão feudal.

Apesar de ser perene e existente em todas as sociedades, a Escravatura não provém de nenhum contrato social. O servo nasce servo, o escravo nasce escravo, o cidadão nasce cidadão. O que keep-calm-and-love-democracydistingue o cidadão do Estado Democrático acima de tudo é que o cidadão não tem qualquer noção da sua condição de escravo.

E, não tendo essa noção, o seu dono nunca lhe virá a oferecer a oportunidade de se libertar mas pelo contrário, a sua viagem é para baixo, o seu nível de servidão vai aumentando, sem influência apreciável no processo, com umas migalhas atiradas para o chão em forma de recompensa – ignorando o que as migalhas representam. O facto de o seu dono mudar a cada quatro ou cinco anos, só acelera e aprofunda o processo – o dono temporário, ao contrário do dono permanente, não tem qualquer interesse em manter a qualidade da sua propriedade (o cidadão). Pelo que a qualidade de vida, estabilidade e segurança do cidadão (e por consequência da sociedade em geral) vão se deteriorando. Ao mesmo tempo, o seu dono continua a assegurar-lhe que é livre através da instrução, cada vez menos relevante e construtiva, que lhe oferece. E, para confundir ainda mais o pobre escravo e atissando a natureza ínvia do homem, apresenta-lhe a possibilidade de subir à posição temporária de dono, apaziguando a sua tendência para se rebelar se, por acaso, notar que as condições de submissão estão cada vez piores para si, e melhores para o dono.

A Democracia é, pois, uma Teocracia de falsos e etéreos deuses e uma Escravatura rotativa em espiral descendente. Da próxima vez que entregar o IRS ou colocar o boletim de voto na caixa, pense na sua condição, porque como lembra o poeta o melhor escravo é o que acredita ser livre. E se há fantasia que os nossos teocratas têm necessidade de perpetuar, é essa.

Não lhes faça esse favor.

O colapso de quê?

«This is the arresting and dominant fact about modern social discussion; that the quarrel is not merely about the difficulties, but about the aim. We agree about the evil; it is about the good that we should tear each other’s eyes out. (…) The social case is exactly the opposite of the medical case. We do not disagree, like doctors, about the precise nature of the illness, while agreeing about the nature of health. (…) I maintain, therefore, that the common sociological method is quite useless: that of first dissecting abject poverty or cataloguing prostitution. We all dislike abject poverty; but it might be another business if we began to discuss independent and dignified poverty. We all disapprove of prostitution; but we do not all approve of purity. The only way to discuss the social evil is to get at once to the social ideal

G. K. Chesterton, What is wrong with the world, 1910

Lendo o excerto acima (e, de preferência, o livro de onde é retirado e de que é só uma introdução), podemos observar que a situação do discurso político não se alterou em natureza, apenas em grau. Dizer, por exemplo, que hoje todos desaprovamos a prostituição é obviamente falso, quando a Esquerda decidiu abraçar todas as formas de degeneração possível – e a prostituição, comparada com algumas das novas causas da Esquerda, é um mal menor. E no entanto, continua a ser verdade que se concorda, mais ou menos, nos problemas sociais que existem, na medida em que se pode ter a discussão. Atingimos, porém, um ponto da discussão em que, dos partidos às escolas passando pelos meios de comunicação e pelas universidades (os vários tentáculos do mesmo monstro), não só não se concorda sobre as soluções, não se mantém sequer qualquer pretensão (em nenhuma das facções) de haver um ‘ideal’ social.

E no entanto, esse ideal existe. E não só existe como é a religião que enforma o mundo moderno há 300 anos (mais ou menos), a que podemos chamar Religião Salvacionista Democrática. Antes heres-what-donald-trump-supporters-really-believe.jpgde me aventurar nas consequências da RSD, vou explicar os três pilares da mesma: a RSD é uma Religião no sentido de um sistema cultural de práticas e comportamentos centrados numa colecção de valores e crenças (‘Liberdade, Fraternidade, Igualdade’ – ou LFI), com comemorações e instituições (escolas, universidades; dias internacionais; etc) e dogmas. Mesmo sem um ‘deus’ a RSD tem as suas premissas irredutíveis, e quando se investiga as suas origens descobre-se que só podem ter revelação divina, pois não são certamente susceptíveis de discussão racional. São crenças, no sentido básico do termo. Análogas à crença em Deus. A RSD é salvacionista porque acredita que todos os homens podem ser salvos, através da sua particular sopinha ética (a trindade da LFI), rejeitando qualquer ideia de pecado e punição (na essência, o único pecado é não acreditar e não agir em conformidade com a RSD-LFI). Por fim é Democrática porque é o único sistema político onde é possível pôr em prática a trindade da LFI, e a partir da qual se promovem as características salvíficas da mesma.

Existe uma frase célebre sobre o Demónio em que se afirma que o seu maior truque foi convencer as pessoas de que não existia. O mesmo pode ser dito da RSD. A RSD não se identifica como tal, nem clama existir – mas é indiscutível que existe, e que os seus tentáculos infiltraram o tecido social nas suas variadas camadas, incluindo as camadas do inimigo (as Igrejas Cristãs tradicionais). Em certa medida, o Protestantismo foi a primeira encarnação da RSD.

A RSD é, pois, uma rejeição do ideal de uma sociedade cristã, em que todos os seus conceitos – de autoridade, liberdade, propriedade e justiça – são reapropriados e virados do avesso e kitsappride2015HappyPride.jpgresultam na absoluta licensiosidade e defesa do abominável e na perseguição feroz a quem se atreve a julgar a abominação.

Visto que a RSD elevou a Ciência a um dos seus dogmas (essencialmente o que distingue a Ciência do Cientismo – se calhar deviamos mudar a sigla para LFIC), vamos analisar como a RSD se comporta de um ponto de vista evolucionário, isto é, se a RSD contribui para a perpetuação da espécie. Para isso, olhemos para o problema do declínio populacional.

Há anos que se sabe que as sociedades ‘civilizadas’ (as infectadas pela RSD) têm uma taxa de natalidade abaixo do necessário para manter a população presente. Simplesmente, não se produzem crianças suficientes. Se a tendência se mantiver, eventualmente o ‘homem europeu’ deixará de existir. As Nações Unidas, estando unicamente interessadas na sustentabilidade económica e na perpetuação da RSD (sendo a pedra ideológica em que se fundam), têm um plano para a sua resolução: Emigração de Substituição. O que isto significa é que a solução, do ponto de vista dos sacerdotes da RSD, é simplesmente importar pessoas de fora, de etnias e culturas distintas da população original, que se reproduzam e mantenham uma base tributária.

As razões para a solução proposta são discutíveis. A minha interpretação é que a liderança da RSD têm uma concepção (errónea, mas não ingénua) de igualdade entre os povos e as culturas; essa falta de ingenuidade baseia-se no facto de que os povos e culturas que querem importar são atrasadas (em comparação com as europeias) e que as populações associadas têm, em média, QIs mais baixos. Serão portanto, ou pelo menos imagina-se que sejam, mais fáceis de controlar. O objectivo de um mundo Orwelliano (o objectivo da RSD) é muito mais facilmente atingível com uma população intelectualmente diminuída, com nenhuma tradição de respeito pelo valor do

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“aquilo são dois homens aos beijos? ó diacho!”

indivíduo. O objectivo é ter eleitores/consumidores ignorantes, que permitam a continuação do sistema, que mantenham uma situação de caos (que “requer” uma vigilância constante) na rua, mas não possuam a capacidade de abstracção e organização que os povos europeus possuiam (e, imagina-se, possuem ainda em potência) para contestar os planos dos líderes da RSD de controlo total. Embora, admita-se, haja algumas indicações de que a situação talvez não seja assim tão simples, e que dadas as décadas de propaganda da RSD-LFI a que o Ocidente foi sujeito, talvez seja mesmo entre as populações mais primitivas que se encontre alguma resistência. É possível que a esperança esteja mesmo nos proles, embora no panorama global os proles sejam, não o estrato mais baixo da sociedade, mas as culturas mais primitivas, precisamente por serem mais primitivas e, logo, menos susceptíveis de engolirem a propaganda da RSD.

Seja como for, é claro que este objectivo e esta solução devem ser rejeitadas por qualquer pessoa europeia interessada em resgatar a cultura europeia pré-RSD, mas servindo um pouco de advogado do Diabo, esta solução não é tão descabida como parece, no sentido de adereçar o problema de forma racional. Afinal, é um facto que as etnias e culturas europeias deixaram de ser capazes de se reproduzir. Do ponto de vista da RSD, são precisas pessoas, mas é irrelevante para eles que pessoas populam os países europeus (afinal, a Igualdade é um dos seus dogmas). Mas que cultura na realidade existe na Europa? O consumismo? A licensiosidade? A tolerância suicída? O poder popular? O que existe, então, de bom para conservar? E se não existe nada, como argumentar contra esta solução? Os que rejeitam a Islamização ou Africanização da Europa em defesa da cultura do presente (que é uma cultura da RSD) não estão a defender nada a não ser um suicídio lento. ‘Deixem-nos morrer em paz na nossa vacuidade; deixem-nos ir para o Inferno ao nosso ritmo‘ – é, na essência, a sua posição. Uma posição em concordância com os dogmas da RSD – a ‘oposição controlada’.

Ou seja, quer se aceite a solução das elites globais ou não, o problema continua a existir. Mesmo sem esta solução final que vemos todos os dias praticada, mesmo sem a importação em massa de estrangeiros do terceiro mundo, os europeus continuam escravos da cultura da RSD que conduz à sua própria aniquilação (só os acólitos da RSD acham que é um acaso que a aniquilação moral do homem europeu ande de mãos dadas com a aniquilação física). Neste momento, os governos europeus dividem-se entre os que não querem incentivar a população nativa à reprodução (mais a oeste), e os que querem e incentivam (mais a leste), para atenuar ou reverter esta situação aberrante. Mas o simples facto dos europeus precisarem de incentivos fiscais e financeiros para a sua própria renovação populacional mostra o quão a civilização europeia está perdida. Em termos evolucionários, é uma experiência falhada. Mas que experiência?

A experiência é a RSD-LFIC.

Como já referimos, vários eventos históricos podem ser apresentados como catalisadores da RSD (por exemplo, a substituição do Feudalismo pela Monarquia Absoluta ou a Reforma Protestante). Mas talvez seja mais adequado apontar as revoluções liberais como a origem desta experiência e que são, em última instância, as responsáveis por esta degeneração civilizacional – afinal, a RSD não existe sem o patrocínio do poder político e foram as revoluções liberais que lhe deram a hegemonia (a história, afinal, é escrita pelos vencedores e a RSD teve as suas grandes vitórias políticas nas revoluções liberais). Chamando Chesterton de volta à conversa: «We often read nowadays of the valor or audacity with which some rebel attacks a hoary tyranny or an antiquated superstition. There is not really any courage at all in attacking hoary or antiquated things, any more than in offering to fight one’s grandmother» As revoluções liberais foram muito simplesmente essa revolta torpe e fácil contra a avó civilizacional. Não deixa de ser curioso que os mais acérrimos e ortodoxos defensores da RSD, completamente dentro da doutrina, se considerem parte da resistência.

A civilização europeia deixou de acreditar em Deus para passar a acreditar no Homem. Por outras palavras, e para voltar ao início do texto, a RSD substituiu o ideal antigo pelo seu avesso. E as consequências eram previsíveis.

É por isso importante sublinhar uma vez mais que a RSD não é a ausência de religião, mas uma religião em si mesma. E que como não podia deixar de ser, é intolerante para com os heréticos que questionam os seus dogmas. Nunca nenhuma sociedade humana existiu sem um paradigma picture-pledge-of-allegiance-praying-to-the-statereligioso e sem a garantia legal dos seus dogmas, e a nossa não é excepção. A diferença é simplesmente no objecto de culto. O caso só não é claro porque a RSD tem uma tendência natural para a dissonância cognitiva (daí o efeito curioso exemplificado no video linkado acima), e postula a sua religião como a sua ausência. Mas não é possível substituir algo por nada. O motor humano pode ser abastecido com diferentes combustíveis, mas não anda se estiver vazio. A RSD, portanto, não aboliu a religião, apenas substituiu a antiga por uma nova – um espelho perverso onde tudo o que era bom e desejável é agora vil e execrável e vice versa. Para citar Chesterton novamente (ou talvez não): «When men choose not to believe in God, they do not thereafter believe in nothing, they then become capable of believing in anything.»

Acontece que esta particular religião é inerentemente auto-destrutiva. Todas as suas premissas resultaram em suicidárias consequências. O “poder do povo” não só nunca o foi como resultou nos sistemas mais opressivos, onde o homem comum é mais controlado e indefeso perante o poder, do que em qualquer regime aristocrático – onde a distinção entre governantes e governados é clara e largamente inalterável. O cientismo/secularismo, em vez de libertar o democracy_o_838073.jpghomem do fanatismo e promover o pensamento livre, construiu gerações e gerações de IYIs (Intellectual Yet Idiots), confundindo as sombras pela realidade; e, no panorama da plebe, criou uma intolerância perante qualquer crítica ou julgamento em que já não é possível inquirir se existe alguma diferença entre a sombra na parede e a realidade reflectida – em suma, numa aceitação sem escrutínio de todos os vícios e pecados, e com isso uma imparável tendência para degeneração moral e física. A igualdade e a fraternidade, em vez de harmonizarem as diferentes naturezas e capacidades, ao ignorá-las criaram antagonismos ferozes que resultam numa guerra de todos contra todos (filhos contra pais, mulheres contra maridos, alunos contra professores, funcionários públicos contra privados) e que em termos geopolíticos resulta na guerra total (lembrar que o único regime a lançar uma bomba atómica foi exactamente aquele que representa o auge e a consagração da RSD). Em nenhum outro tópico, no entanto, isto é tão óbvio como na relação entre os sexos. O pináculo da RSD é a incapacidade dos seus aderentes de se reproduzirem.

Por isso o pessimismo talvez seja inevitável, mas não totalmente justificado. O colapso é eminente, mas o colapso de quê? Da RSD – e dos seus dogmas LFIC. Os valores ancestrais da honra, da

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Capítulo importante na história LGBT

autoridade, da razão e da caridade são ancestrais por alguma razão. Não são arbitrários (apesar de, em certa medida, não serem naturais e requererem esforço e cuidado). A aberração da RSD é apenas uma pequena intermissão. Como na história de Sodoma e Gomorra, as sociedades controladas pela RSD serão destruídas por força maior (quer se ache que é justiça divina ou simples consequência da sua irracionalidade, ou como eu, se ache que ambas são essencialmente a mesma coisa).  Salvar-se-á quem repudiar e abandonar a RSD. Quem olhar para trás, porém, arrisca-se a transformar-se numa pilha de sal.

Uma sociedade sem classe

Adenda (09/06/2017): Ler este post do João no Livro das Imagens, que complementa as ideias aqui descritas.

A Constituição da República Portuguesa foi originalmente escrita em 1976 por marxistas declarados que julgavam interpretar “os sentimento profundos” do povo português (sempre tão científicos estes comunistas) ao derrubar “o regime fascista” – mesmo que esses sentimentos fossem mistos e o regime nunca tivesse sido fascista – a não ser que se defina ‘fascismo‘ como um regime autoritário de Direita (e nesse caso, o Estado Novo era muito mais ‘fascista‘ do que o Fascismo original, visto que era um movimento verdadeiramente de Direita, isto é, antipopular).

Tendo em conta estas condições, é natural que o texto original designasse como objectivo expresso, logo no primeiro artigo, aspirar a uma “sociedade sem classes”, e no segundo artigo declarasse que o “Estado Democrático (…) tem por objectivo assegurar a transição para o socialismo”.

Entretanto a Constituição foi revista, se não me engano em 1989, e retirou alguns resquícios de verborreia marxista – em especial o objectivo do socialismo e da sociedade sem classes. E por retirar entenda-se substituir a linguagem aberta dos marxistas duros pela prosápia saneada dos marxistas suaves: substituir o comunismo pela social-democracia (essencialmente para nos integrar melhor no newspeak da nova ordem europeia e mascarar o facto de que o comunismo e a social democracia são apenas variações da mesma ideia). O peso da inclusão ou exclusão destes termos, ou até da importância efectiva de uma constituição numa República é discutível, mas efectivamente a referência aos termos originais foi retirada.

É preciso lembrar que na altura uma nova elite política surgia para dirigir o país, e quando digo nova quero dizer ‘renascida’: em paralelo com os velhos tecnocratas (e essencialmente membros da nobreza) que haviam colaborado com o fim do Estado Novo e que trabalharam

DuraoBarrosoMRPP
“Nessa altura ainda não sabia que tinha de usar gravata para ir a Bilderberg”

para o socialismo com tanto zelo e em tanto silêncio como o tinham feito para Marcello Caetano, existia a clique de extrema-esquerda, que entretanto crescera uma consciência e rejeitara as suas raízes, ao ver o fim da União Soviética no horizonte, confrontada com o óbvio ululante do homicídio em massa do Comunismo que já não era possível negar e aliciado pelas novas oportunidades de carreira oferecidas pela elite tecnocrata da União Europeia. Esta clique tornou-se de facto a elite governante do país nas décadas que se seguiram, alguns chegando mesmo ao cargo prestigiante de Primeiro Ministro. Só que já não eram do PCP, do MRPP ou de outros grupos esotéricos de Esquerda – eram do PSD e do CDS. O famoso livro de Zita Seabra (que devia ser incluído no género ‘prosa poética’) é o exemplo mais emblemático desta deriva. Um milagre de trazer lágrimas aos olhos.

É nesta milagrosa conversão que se funda a revisão constitucional e o abandono do objectivo da ‘sociedade sem classes‘. A partir daí, Portugal seria uma Democracia com D grande e concretizaria a ambição ocidental iniciada com as revoluções liberais de uma sociedade com classes, mas sem classe.

Na diatribe original do marxismo, a sociedade sem classes era especificamente apontada à natureza económica do fenómeno – ou não fosse o marxismo uma filosofia puramente materialista do Homem e da Sociedade. A Democracia Anglo-Saxónica, que é na verdade a versão designada com D grande, não aspira a apagar as diferenças económicas entre as classes. Originalmente não aspira sequer a atenuá-las. Mas também ela teve as suas subsequentes revisões e a Democracia 2.0 (também conhecida como Social Democracia), aspira a atenuar essas diferenças – sem na realidade o fazer.

A Democracia não manifesta qualquer parecer sobre a natureza extra-económica das classes. Só que manifesto ou não o desejo, o resultado é notório: a Democracia apaga as desigualdades morais, culturais e intelectuais entre classes sem ter de as apagar no plano financeiro.

Isto é uma consequência inevitável do seu ethos igualitário. Ao dizer que o povo é soberano e rejeitar a ideia de que certas pessoas são mais aptas a governar que outras; ao depositar, simbolicamente, o poder de decisão na plebe (a maioria), a Democracia constitui um passo para o abismo, uma descida ao mínimo denominador comum civilizacional – da mesma forma que o Comunismo (em si uma ideia democrática) constitui uma descida ao mínimo denominador comum económico.

Nos regimes monárquicos (em que não se inclui a fraude da ‘monarquia constitucional’) havia diferenças entre os nobres e a plebe, não só em poder económico, mas em instrução,

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direita: perdeu um olho a lutar contra os mouros; esquerda: auto-mutilado.

educação, higiene e erudição. De um membro da nobreza esperava-se que fosse fluente em várias línguas (incluindo línguas mortas); que fosse versado em estratégias militares e fisicamente capaz de as pôr em prática caso necessário; que soubesse manter uma conversa erudita sobre os mais variados assuntos, da ciência à literatura, da filosofia às artes plásticas; que tocasse as peças clássicas num instrumento (geralmente, piano) e que soubesse apreciar essas peças quando outros as tocavam; esperava-se que se comportasse com decoro e que evitasse os devaneios, excessos e obsessões dos plebeus. Por outras palavras, esperava-se que fosse nobre não só em título, mas nas suas acções.

A cultura dos nobres era nobre. A cultura dos plebeus era plebeia. A Igreja servia de intermediário entre as duas classes: trazendo algumas luzes à plebe; trazendo humildade à nobreza. A nobreza deveria servir como exemplo terreno aos plebeus, tal como os padres deveriam servir de exemplo divino (imitando Cristo). A nobreza, pela sua superioridade moral e cultural (não só pela sua capacidade monetária), deveria liderar.

Julgo não dar novidade a ninguém ao dizer que os ‘nobres’ de hoje só se distinguem dos plebeus pela quantidade de dinheiro que têm para gastar. E gastam-no não numa cultura elevada, mas na mesma cultura dos plebeus. Em muitos casos, não só consomem essa cultura como a produzem. E portanto, são incapazes de liderar coisa alguma.

Em paralelo, não só a nobreza desce constantemente aos níveis da plebe, como a própria plebe se torna menos recomendável. Compare-se os trovadores da idade medieval (a música popular) com as aberrações da música popular moderna. Afinal, se não há ninguém para dar o exemplo, não há exemplo a seguir. E se o impulso cultural é estritamente económico (e há mais plebe que nobres), então será a plebe a dirigir a cultura pelo seu consumo.

O caso de Salvador Sobral, o novo herói da pátria plebeia, ilustra bem a situação. Um rapaz de 27 anos, que noutra época já seria um homem (outro sinal da decadência democrática), que faz parte de uma família de origem nobre, não se distingue em quase nada de um membro da

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Membro da nobreza em Democracia

plebe. O aspecto descuidado, as opiniões, a falta de erudição. O que mais choca, tendo em conta as suas origens, é a sua gritante banalidade. Ou seja, o seu carácter plebeu.

E convém salientar que o menino Sobral não é dos casos mais aberrantes. Apesar da sua vulgaridade intelectual e da sua fraca figura, o rapaz até é simpático e relativamente educado. Já os inúmeros membros das classes altas (por família ou por ascensão social) que regularmente participam na cultura plebeia nos seus expoentes mais crassos e repugnantes, sem qualquer vergonha ou arrependimento, não têm qualquer característica que os redima. Abra-se uma revista ‘de sociedade‘ para confirmar.

Nos seus tempos de faculdade, o ex primeiro ministro Britânico David Cameron, bem como o ex Mayor de Londres Boris Johnson faziam parte de um clube aristocrático chamado Bullingdon Club. O clube foi fundado há mais de 200 anos e apesar de ser originalmente dedicado à caça e ao cricket (o desporto era nessa época ainda um actividade a que só os nobres se dedicavam), já nesta altura parece que os seus membros não se comportavam com as maneiras dignas da nobreza, bebendo demais e causando alguns distúrbios – afinal, convém lembrar que a transição das sociedades monárquicas para democracias já se tinha iniciado, e com ela a degeneração das elites.

Hoje, passados dois séculos, o clube já não se dedica à caça ou ao cricket, e é simplesmente famoso por organizar jantares e literalmente destruir os restaurantes onde eles tomam lugar, pagando imediatamente os estragos com desdém. A única coisa que distingue este clube de uma claque de futebol, é que os membros de Bullingdon têm dinheiro para não se meterem em sarilhos pela sua conduta boçal e selvática.

O Comunismo nunca conseguiu eliminar as diferenças entre classe, afinal existe sempre uma elite de governantes que vive como sultões e um círculo exterior limitado de membros do Partido que obtém algumas regalias pela sua posição, que distinguem, não só

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Sopinha democrática

economicamente mas também em termos culturais e intelectuais, estas duas classes da classe geral dos proles – a ironia suprema do Comunismo na prática – e que, sendo classes efectivamente separadas, exercem uma influência na classe abaixo de si. A Democracia, porém, conseguiu eliminar quase completamente as diferenças essenciais entre as elites e o povo, entre quem governa e quem é governado, entre quem deve dar o exemplo e quem o deve seguir. Como uma rã cozida lentamente, a população de um regime democrático morre lentamente sem dar por isso.

A natureza destrutiva do Comunismo é evidente e declarada; o carácter insidioso da Democracia é ignorado e invisível. O Comunismo exclama abertamente o seu objectivo de destruição, a Democracia destrói pela calada, sem nunca o declarar a ninguém – pelo contrário, fá-lo com a melhor das intenções, essas de que o Inferno está cheio.

O leitor que julgue qual das duas ideias é mais perniciosa a longo prazo.