Maio de 68

Prof.-João-Carlos-Espada-pbO João Carlos Espada (JCP) publicou um texto que ilustra a vacuidade moral, a obsessão economicista e, sobretudo, a incapacidade de observar o mundo à volta e admitir um erro que caracteriza a Direita moderada.

A mundividência do JCP, talvez pela idade, talvez por teimosia, ou talvez por ser um marxista arrependido daqueles que se converteu tarde ao anti-Comunismo, não consegue conciliar a ideia de que o Capitalismo sem entraves e o relativismo moral andam de mãos dadas. Ou se consegue, continua a achar que os benefícios do primeiro justificam a iniquidade do segundo. Mais: se tiver de escolher, e não está sozinho nessa escolha, prefere que o capitalismo liberal continue, mesmo que para isso se tenha de destruir toda a moral absoluta, toda a identidade nacional e substituir as populações nativas por alógenos.

Não estou a exagerar quanto às opiniões da personagem. O próprio não tem problemas em admitir a total falência da sua filosofia, ou aliás, em ver a falência como uma vitória: «a legalidade da “República burguesa” saiu vitoriosa; e isso permitiu a vitória pacífica de CAR6805-29May68-001.jpgmuitas das ideias de Maio de 68.» E que ideias eram essas? Não as económicas, não o anti-capitalismo, a rejeição do sistema usurário internacional ou a oposição à sociedade de consumo. As ideias que saíram vitoriosas, e que tomaram conta da sociedade, foram as culturais: o relativismo moral e a liberdade absoluta do hedonismo que o acompanha. O JCP considera isto uma vitória, sem ironia. Mais, ele próprio admite que, sem a democracia e o capitalismo, essas ideias teriam sido impedidas de medrar: «a verdade é que, devido a essa vitória da “oligarquia burguesa”, as ideias libertárias de Maio de 68 puderam continuar a ser livremente defendidas — o que evidentemente não teria acontecido se tivesse ocorrido a revolução comunista.»

Se acham que estamos a citar fora do contexto, oferecemos a palavra ao JCP num parágrafo inteiro que sumariza toda a tragédia da sua mundividência:

«Muitos comentadores discutem hoje que avaliação devemos fazer das ideias libertárias de Maio de 68. É certamente um tema importante. Mas não creio que seja o essencial. O essencial é que, contra os anseios revolucionários de Maio de 68, a França permaneceu “burguesa” — isto é, livre e democrática. Por essa razão, pôde absorver muitas ideias de Maio de 68. Pela mesma razão, pôde e continua a poder também contrariá-las.»

As ideias libertárias a que se refere são as do relativismo moral que conquistou o Ocidente, aquele que destrói as relações hierárquicas na sociedade, que despreza os valores tradicionais, que envenena as relações naturais entre homens e mulheres, que idolatra a sodomia e os sodomitas, que esbate a coesão e identidade nacionais, que importa milhares de alógenos do terceiro mundo, que eleva o hedonismo e a ‘realização pessoal’ à razão de viver e ao objectivo a que todos devemos almejar. O JCP considera as concessões feitas em 1968, e por consequência os seus resultados, como algo que devemos aplaudir. Salvámos a democracia e o liberalismo, salvámos a pureza ideológica, e o resto que se lixe. Aqui aproxima-se mais dos ideólogos dogmáticos do Comunismo original, indiferentes aos resultados que a sua ideologia produz, do que do pragmatismo racional que é suposto representar.

Na sua obsessão económica, o JCP esquece que o Maio de 68 começou, não com as greves, mas com a ocupação das universidades e que este foi um prenúncio da subsequente e gradual ocupação, muito mais radical, permitida pela sua querida democracia liberal burguesa e que hoje é, sem grande protesto da Direita, o status quo académico. Mas rey_jean-pierre_1143_2005.jpgolhando de momento para a questão puramente económica, convém pensar como se conseguiu mobilizar toda a classe trabalhadora industrial (poderíamos dizer, o proletariado) para um protesto de tão massiva escala. A intelligentsia moderna que explica o apoio aos Nacional-Socialistas na Alemanha de Weimar meramente pela malícia da propaganda e do populismo, como se não houvessem razões para a população procurar alternativas à decadência total da república em questão, explica com a mesma cegueira os distúrbios proletários de Maio de 1968. Num caso como no outro, a Direita ignora ou menospreza as origens do fenómeno com a iniquidade ou ineficiência das soluções promovidas, como se não houvessem razões profundas para a revolta. Em 68 tinham-se passado mais de 20 anos desde a grande reorganização ideológica da indústria no mundo moderno, em que a capacidade produtiva Europeia se começava a exportar para a Ásia e América do Sul, e em que a inflação usurária se fazia sentir sobre o poder de compra e sobre a qualidade de vida que os trabalhadores podiam dar às suas famílias. A sua estratégia era errada e as suas alianças ignorantes, mas as suas preocupações eram válidas.

Os trabalhadores juntaram-se aos estudantes porque julgaram que as suas preocupações eram aliadas naturais das causas libertárias dos relativistas morais. Estes trabalhadores, com famílias para alimentar, não tinham capacidade nem disposição para perceber que a Esquerda Radical que ocupara as universidades (e a que, diga-se, o Partido Comunista Francês da época se opôs), queria tanto saber das suas aspirações mesquinhas de estabilidade laboral e salários que lhes permitissem manter as suas estruturas familiares intactas como os capitalistas. A Esquerda Radical queria sexo, drogas e rock n’ roll, como hoje quer sodomia, imigração de massas e mutilação genital. Note-se que, passados 50 anos, a classe trabalhadora ainda não percebeu a grande traição daqueles que lhes prometeram protecção e que em vez disso lhes deram hedonismo. Na última década, as novas gerações das classes trabalhadoras, já sem nada que reivindicar, sem famílias para proteger, sem trabalhos para manter, juntaram-se a eles, preferindo o hedonismo. Mas não os censuremos demais, pois de um lado e do outro não houve quem lhes oferecesse nada de melhor e da plebe não se pode, nem deve, esperar mais. O trágico é que, defendendo o contrário, os Comunistas percebiam este truísmo. Os liberais acharam que, sem pressões sociais, os valores tradicionais da plebe se manteriam intactos perante a grande subversão relativista que o seu sistema permitia.

Em Maio de 1968 era talvez natural e compreensível achar-se que a maior ameaça aos valores tradicionais vinha do Comunismo, não só pela ideologia, como pelo poder político que representava e pelas alianças culturais que mantinha no Ocidente (isto é, os relativistas morais). Meio século depois, os opositores do Comunismo, se o eram por razões morais (e hoje é difícil dizer se de facto o eram ou não), deveriam admitir o erro que cometeram ao promoverem o Liberalismo como força de oposição. Afinal, os valores que se combatiam em 68 não eram apenas económicos, e foram esses outros que ganharam a batalha, não através do Comunismo, mas através do Capitalismo. Já aqui o dissemos e voltamos a repetir, a combinação de mercado livre internacional e relativismo moral é a força mais destrutiva dos valores tradicionais, sobretudo pelo seu carácter progressivo e gradual, que não facilita a identificação do fenómeno e que essa combinação é absolutamente inevitável. Mas nem precisamos de ficar presos à teoria. Observando o trajecto das democracias liberais, bem como o trajecto paralelo que os países comunistas efectuaram, só uma boa dose de vaidade e dissonância cognitiva podem fazer com que não se admita o erro.

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Sorriso de Raposa

Malcolm X é uma daquelas figuras que o zeitgeist moderno prefere não mencionar. Ao contrário de Martin Luther King, sempre aplaudido por todos os quadrantes por se encaixar nos desígnios das elites e promover todos os lugares comuns da nossa era, Malcolm X não faz parte dos santos seculares da historiografia oficial, pois era primeiramente conhecido por ser um opositor da integração entre os pretos e os brancos na América e favorecer o separatismo radical, uma ideia que levou inclusivamente a que se sentasse à mesa com dirigentes do Ku Klux Klan para discutir esta solução, demonstrando que a História muita vezes não é tão simples como a narrativa oficial faz crer. O que me leva a mencioná-lo aqui, no entanto, não é a sua defesa do separatismo racial, mas a exposição de uma outra ideia que também desafia a narrativa oficial.

Neste video, Malcolm X explica que a Esquerda na América age como defensora dos pretos americanos sem ter no entanto qualquer intenção de os ajudar, em contraste com a Direita, que não finge ter os pretos nas suas preocupações nem tem a pretensão de avançar as suas causas. Nem a Esquerda nem a Direita têm os interesses dos pretos em conta, segundo ele, mas a Esquerda, como uma raposa, diz que sim, sorrindo. A Direita, como um lobo, mostra os dentes por outras razões. Tendo isto em conta, Malcolm X conclui que a Esquerda é muito mais perigosa para os negros do que a Direita.

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Eu penso que podemos e devemos aplicar a mesma analogia aos partidos e à intelligentsia de Direita em relação aos tradicionalistas. Os tradicionalistas sabem que a Esquerda não lhes tem qualquer simpatia e os antagoniza abertamente, mostrando-lhes os dentes com a intenção de atacar. A Direita mainstream, pelo contrário, como a raposa, pretende fingir-se amiga (ou pelo menos simpatizante) dos tradicionalistas, sorrindo, ao mesmo tempo que nas suas ideias e acções avança, premeditada ou ingenuamente, uma agenda completamente distinta, avessa e hostil à causa tradicionalista.

A Direita mainstream em Portugal (e no resto do Ocidente) tem essencialmente duas bandeiras: a liberdade individual e a eficiência económica. A “Direita dos costumes” como lhe chamaram outrora, para todos os efeitos, na esfera mediática e partidária, não existe. Este fenómeno encontra-se muito bem sumarizado num excerto deste texto:

«A dimensão [dos] costumes tem sido menosprezada desde que o marxismo impôs o primado da economia, e antes de Marx já os liberais e os utilitaristas também davam maior importância à economia. Essa primazia não diminuiu, pelo contrário, com o aumento do rendimento e do conforto dos povos. A economia passou a ser o terreno onde se confrontavam as propostas políticas. (…) À direita, o vazio ideológico e a fraqueza política, aceitou-se a ditadura do politicamente correto. novo paradigma de revolução social. (…) a direita, jótica ou degenerada, abandona o combate cultural e adopta o niilismo relativista da esquerda. A direita socializou-se. Os valores passaram a ser rodapés de discursos eleitorais. Os políticos de direita aplaudidos pelos média são os que defendem o liberalismo de costumes, ainda que militem num partido democrata-cristão…».

Os tradicionalistas observam esta capitulação da Direita mainstream àquilo que chamam de ‘marxismo cultural’ e, até certo ponto, apontam-na como uma traição, para a qual não existe grande explicação fora da respeitabilidade profissional e da promoção pessoal. Eu considero no entanto que há um mal de raiz na matriz bipolar da Direita moderna, e que, apoiando o liberalismo económico, é apenas lógico e natural que apoiem o liberalismo social. São os Liberais com visões sociais tradicionalistas que estão em grave contradição.

Parte do problema começa no termo com que se designa a ideologia que pretende destruir todas as relações hierárquicas da sociedade tradicional através da destruição da moral que as sustenta: ‘marxismo cultural’. O termo é mal empregado porque, na prática e na teoria, não há melhor veículo para o pro-gayrelativismo moral, para a destruição das estruturas tradicionais e da moralidade subjacente a esta do que o liberalismo económico – e que portanto, e apesar das origens intelectuais dos seus promotores originais, o termo deveria ser ‘liberalismo cultural’ (o termo que prefiro, no entanto, é simplesmente ‘relativismo’). ‘Marxismo cultural’, apontando o epíteto dos seus promotores originais, esconde o veículo pelo qual ele se perpetua com sucesso. É inegável que os revolucionários culturais que deram origem à teoria se designavam como marxistas, mas foi no país mais liberal do mundo e principal baluarte dessa ideologia económica que a semente encontrou terreno fértil.

De onde vêm as modas e tendências que, ano após ano, destroem o tecido social? De onde vem o entretenimento que serve de veículo à propaganda relativista e que é responsável pela disseminação destas ideias? Vem dos países marxistas ou dos países capitalistas liberais? Não são as multinacionais – representantes maiores do capitalismo DHgIEh4UwAAJ4BIliberal e da globalização – os principais motores e promotores da imigração de massas, da bastardização da cultura, da ausência de identidade nacional e comunitária, da criação do homem-novo consumista, dos desvios e desviantes sexuais, dos estilos de vida alternativos, da sobresexualização da sociedade e da sexualização precoce – em suma, de todos os cancros sociais a que nos opomos? E que, muito mais do que através da retórica política esquerdista e da propaganda a que são submetidos na escola, é através do progresso tecnológico e do capitalismo global que estas ideias demoníacas se inculcam nas mentes do povinho?

Não observamos também que, nas sociedades que estavam fechadas ao capitalismo global, as mesmas ideias, promovidas agressivamente pelo sistema político, não medraram ao longo de décadas da mesma forma que se infiltraram, pela calada, nos países liberais? Como explicamos que os países de Leste, sujeitos a ditaduras marxistas usury and sodomy.JPGagressivas, sejam hoje os únicos onde ainda existe alguma identidade nacional, rejeição da imigração de massas e dos ‘estilos de vida alternativos’ e onde o Cristianismo ainda é relevante, não só na vida comunitária, mas nos destinos nacionais? A explicação é simples: ao contrário do Ocidente, o Leste esteve insulado do capitalismo global e, portanto, da lenta subversão dos valores tradicionais, que só a riqueza e o conforto conseguem promover e enraizar com extrema facilidade. A tragédia para estes países é que caso não tomem medidas para limitar as consequências económicas da globalização, as suas sociedades, tornando-se mais prósperas, vão contrair o vírus do relativismo liberal e acabar por destruir aquilo que cem anos de comunismo não conseguiram destruir.

Tendo nós uma visão sã do Homem e da Sociedade Humana, e sabendo que a liberdade de escolha leva necessariamente, na maioria da população, a um nivelamento por baixo, podemos continuar a ignorar que é através do liberalismo económico que aquilo que consideramos sagrado vai sendo destruído, lentamente, contaminando os nossos compatriotas, as nossas famílias, os nossos filhos? Que muito antes de ser legalmente enquadrado pelo Estado, o relativismo moral e cultural foi propagado através da sociedade de consumo massificado e da globalização?

Há quem considere a promoção do liberalismo nos costumes pela Direita uma aberração, mas na verdade não há contradição: a sua defesa da economia liberal, do progresso tecnológico, da eficiência económica anda de mãos dadas com a destruição do tradicionalismo. Não é pois de estranhar que a Esquerda dite o discurso e a Direita o aceite, pois pela sua própria moldura ideológica, não tem meios de o rejeitar. Reparem que não estamos a argumentar que o capitalismo liberal não é o mecanismo mais adequado para melhorar o nível de vida dos cidadãos: é inegável a eficiência do sistema em produzir riqueza material. O que estamos a argumentar é que a forma radical com que remove a pobreza material promove, na mesma medida, a pobreza espiritual e moral.

Na busca da prosperidade e do progresso tecnológico, na procura de melhorar o bem estar económico dos cidadãos e de tornar eficientes os mecanismos para esse melhoramento, a Direita promove o veneno que infecta o espírito da nação. É ingénuo achar que as mudanças económicas radicais que o capitalismo opera podem deixar as workbuyconsumedieestruturas sociais intactas. O capitalismo procura consumidores (a única categoria que lhe interessa) e sendo que a eficiência na obtenção desses consumidores é de suprema importância para a maximização dos seus lucros, a promoção de valores anti-tradicionais é inevitável, mais, é uma necessidade: a uniformização cultural, nacional e racial (através da plebeização da cultura, da promoção do internacionalismo e da imigração de massas) e a atomização do indivíduo (através da promoção de ‘estilos de vida alternativos’) são os veículos pelos quais se obtém o consumidor perfeito, ou seja, que se maximiza o lucro. O sonho do Internacionalismo Comunista só é conseguido, paradoxalmente, através do capitalismo liberal.

A Direita Liberal que ainda vai mostrando, pouco e esporadicamente, algum interesse pelas questões culturais e morais, ignora este fenómeno e vive numa dissonância cognitiva. Eu ignorei-o durante vários anos apesar dessa dissonância. O Liberal vê a 635952276665246516-755625981_consumerliberdade como a ausência de coerção pelo Estado, mas não vê a servidão imposta pelo capitalismo liberal, em que o homem é desligado da sua nação, da sua comunidade e até da sua família, pela promoção de uma cultura uniformizadora, degenerativa e ultra-individualista, que mina as fundações dessas relações primordiais. O homem moderno é tão indefeso perante o capitalismo liberal como o era perante o comunismo, a diferença é que no primeiro está bem alimentado, em conforto, e as suas raízes vão sendo arrancadas lentamente, sem se aperceber, e portanto, muito menos susceptível de se revoltar.

Concluímos portanto que o facto da Direita moderna ser liberal nos costumes (como a Esquerda), mas também liberal na economia (ao contrário da Esquerda), faz com que a Direita seja na prática uma ameaça maior à sociedade tradicional, ou o que dela resta. A sua combinação de liberdade individual e eficiência económica é a receita perfeita para a realização prática do relativismo: a desagregação da família, a destruição das instituições intermédias, a atomização do indivíduo. Ou seja, um tradicionalista tem muito mais a temer da Direita mainstream do que da Esquerda. Até a Direita abandonar o liberalismo económico o tributo que presta aos valores tradicionais não passa de um sorriso da raposa.

A Apologia da Ignorância

«Ignorância é felicidade e eu quero que o meu povo seja feliz»

A frase, por vezes atribuída a Salazar, cuja veracidade da atribuição não conseguimos averiguar, é apontada, quando é, em modo de escárnio e nojo pelos seus inimigos – querendo com isso atacar o homem pela sua suposta vontade de manter o povo ignorante para poder, despoticamente, controlá-lo. Aqui não é tanto a veracidade histórica que pretendemos discutir, mas a sabedoria intrínseca da afirmação, defender a sua intenção e fazer uma apologia da ignorância – e explicaremos a seu tempo o que queremos dizer com isto. Ou seja, se Salazar a tivesse dito, teria o nosso apoio e compreensão: o povo será sempre ignorante, e mais vale que o seja em consciência, do que inconsciente, podendo assim ser feliz na sua condição, e a governação continuar sem impedimentos criados pela soberba dos ignorantes. Ou seja, o exacto contrário do que acontece com o regime presente.

Em jeito de introdução, convém apontar que a ideia de que o Estado Novo quis manter a população ignorante através do analfabetismo generalizado é em si mesma um produto da ignorância, um mito criado pelas cliques cosmopolitas que governam Portugal desde o 25 de Abril, e que através das suas estruturas propagam a sua estirpe especial de ignorância disfarçada de catastrophic-human-ignorance-kmhh-7-638.jpgsabedoria. Apenas mais uma das mentiras torpes que o regime novo, fundado na rejeição do antigo, é obrigado a perpetuar para se justificar. Consultando os dados sobre literacia e analfabetismo, tal como de investimento na educação, durante o Século XX em Portugal, vemos claramente um esforço e uma conquista da parte do governo do Estado Novo em remover o grosso do analfabetismo e em promover a educação básica aos seus cidadãos. E no entanto, apesar da descida do analfabetismo ter continuado até praticamente ser zero nos nossos dias, os mitos sobre o Estado Novo permanecem contra toda a evidência, fundados numa ignorância voluntária da maioria da população. Se pensarmos que esta ignorância não se encontra somente nas classes mais baixas, desinteressadas do estudo e das questões da governação, a quem não aquece nem arrefece questões abstractas e intelectuais como os destinos do país, mas também – e com grande ênfase – nas camadas intelectuais, naquelas cuja vocação é precisamente congeminar, analisar, escrever e propagar ideias, vemos ilustrado o abismo entre as pretensões democráticas do votante informado e a realidade crua da natureza humana.

Entreviste-se o estudante médio de Ciência Política, de Filosofia, de História, ou até o graduado, ou o professor, e observe-se a ignorância voluntária a que se acomoda, a ausência de capacidade crítica, a disposição para aceitar todos os lugares comuns do seu tempo sem nunca os questionar, e conclua-se que educação e ignorância não são mutuamente exclusivos. platonic_caveA ignorância é o estado natural do Homem. Independentemente das ferramentas que se lhe oferecem, o cidadão comum vai continuar agrilhoado na Caverna, interpretando as sombras como realidade, mesmo tendo as chaves dos grilhões na mão e um manual de fuga na outra. Isto sem se falar na outra fatia populacional de quem não se espera qualquer afrontamento teórico abstracto, mas a quem a doutrina democrática também atribui responsabilidade na sua libertação. Os democratas esperam que uma vaca toque piano e surpreendem-se quando ela é incapaz de sequer perceber para que servem as teclas – mas se por acaso produzir meia dúzia de sons desconexos, tomam-no como evidência de que as vacas, de facto, podem ser pianistas. A pouco mais que isto se resume o sistema eleitoral de sufrágio universal.

A doutrina democrática assume, porque tem de assumir, que o povo é capaz de escolher os seus representantes, assim decidindo por interposta pessoa, os destinos do país. Mas só uma ingenuidade mortal, ou uma malevolência premeditada, poderia levar a que proclamássemos tão clara mentira como sendo a verdade. Mas sendo o regime fundado nessa mentira, as estruturas exteriores têm de se conformar a ela, sob pena de todo o edifício ruir. Daí nasce a obrigatoriedade da escolaridade muito para além do necessário ao desempenho da maioria das funções requiridas para o funcionamento da sociedade, primeiro até ao nono ano, depois até ao décimo segundo, e eventualmente, dada a parvoice progressiva do nosso sistema, até à licenciatura. Este estado de coisas só pode advir das duas origens que mencionámos, pois é por demais óbvio que a extensão da obrigatoriedade, ao invés de elevar o conhecimento e o pensamento crítico dos cidadãos, rebaixa a relevância e profundidade do ensino, reduz a motivação e dedicação dos professores, forçados a lidar com miúdos sem interesse no que lhes estão a tentar ensinar, e necessariamente faz cair as exigências de conhecimento para que a promoção deste novo patamar não resulte em inúmeras desistências do salto, ou em saltos que não elevem o atleta à altura desejada. A isto se chama reduzir ao mínimo denominador comum, tarefa que nenhum outro sistema concretiza com tamanha mestria como o democrático.

Quando Eva e Adão comeram o fruto da Árvore da Sabedoria não souberam o que fazer com o seu novo conhecimento. Também a maioria da população não sabe o que fazer com o que lhe ensinam para além das artes de contar, ler e escrever. Não sabem porque não lhe vêem qualquer préstimo, não lhes dá mais oportunidades de serem homens produtivos e morais, não lhes permite uma mundividência mais completa, pois incompleta será sempre a mundividência dos simples. No entanto, em grande parte, convence-os de que têm agora capacidade para 121323.JPGcompreender e opinar sobre assuntos que de facto não compreendem e cujas opiniões não são, na verdade, suas, mas regurgitadas em segunda mão com origem em figuras de autoridade – para mais, em muitos casos, caracterizados por uma arrogância natural e uma aversão a trabalhos manuais para os quais serão, na verdade, mais dotados. Mostrem-nos um ignorante orgulhoso, e nós desvendamo-vos um universitário moderno. Mas o ignorante convencido da sua sabedoria continuará, na verdade, mais interessado na baixa cultura do seu tempo, crente sem crítica nas convenções que lhe colocam à frente dos olhos como verdadeiras, ingenuamente interpretando as notícias e os seus veículos como fidedignos, ouvindo os seus professores como autoridades, incapazes de entender que eles foram e são como eles – ignorantes que, na verdade, não dão para muito mais.

A maioria da população, agora como sempre, é atraída quase exclusivamente por pães e actividades circenses – sendo o tipo de pão e o tipo de circo as únicas variáveis. E isto não é uma crítica, é uma apologia. O que nos separa do pensamento vigente é, em primeiro lugar, reconhecer esta inevitabilidade, sejam quais forem os anos obrigatórios de escolaridade e as exigências cívicas dos cidadãos, e em segundo, não lamentarmos essa condição, pois fingir que se pode evitar o inevitável, como já dissemos, só pode ser produto de ingenuidade ou de malevolência. E como tal, prescrevemos um sistema que leve em conta esta realidade, um sistema que não finja que todos podem e devem ser filósofos-reis, quando a maioria não serve para bobo da corte. Consideramos uma aberração que se peça opiniões e se exijam decisões sobre o mundo real, a quem só o conhece pelas sombras reflectidas nas paredes.

Quando a Revolução Protestante declarou que o comum mortal podia, e devia, interpretar a Bíblia pelas suas próprias luzes, abriu-se a Caixa de Pandora das mais torpes e idióticas interpretações, tudo e o seu contrário podia ser encontrado nas media_propaganda_by_trosiousEscrituras a partir desse momento, e com efeito, encontrou-se – pois se há matéria infindável no universo é a da estupidez humana. Em vez de ser um veículo para procurar a Verdade única, foi o meio de a esconder e soterrar em mil mentiras. O mesmo se pode dizer do presente zeitgeist, em que perante a infindável biblioteca da Internet, o cidadão comum continua mais interessado na vida das celebridades, nas novelas e filmes e músicas da baixa cultura em que elas se distinguem sem distinção, no futebol e nas suas narrativas, exercendo a sua capacidade crítica em assuntos em que ela não tem préstimo, porque não dão para mais e simultaneamente aceitando sem crítica, sem a sombra de uma dúvida, o que um actor que se convencionou chamar de pivô lhe diz todas as noites ou todas as manhãs sobre o país e o mundo. Porque, repetimos, não é capaz de mais, e é um ultraje, uma irresponsabilidade e uma violência exigir-lhe mais. Mas exige-se, com resultados atrozes.

A diferença entre um electricista com a quarta classe durante o Estado Novo e um universitário dos nossos dias é que o electricista não tinha a soberba de achar que a sua opinião valia muito fora dos limites do seu mister; o antigo tinha a humildade de dizer ‘não sei’ e aquela ainda maior de dizer ‘não quero saber’. Isso, e provavelmente escrevia melhor o português. Por esta ignóbil situação temos de agradecer aos sucessivos aumentos da escolaridade obrigatória e à estupidez congénita de perguntar a todos aquilo que só alguns podem saber. Afinal, são aqueles que agitam os fantoches formando as sombras que iludem o cidadão comum, os mesmos que perpetuam a mentira de que este vê a realidade tal como ela é.

Por isso fazemos a apologia da ignorância, não porque gostemos dela mas precisamente por não gostarmos. Um sistema que finge que ela não é o destino da maioria, está condenado a generalizá-la e a dar-lhe poder, em vez de a limitar e a manter inofensiva. Devolvamos ao povo o privilégio de ser ignorante sem culpa, e devolvamos aos capazes o dever do governo sapiente.

Em Busca de uma Identidade Impossível

No Jornal da História, edição Século XXI, na secção dos classificados, pode ler-se o seguinte anúncio: Homem Europeu procura Identidade. Assim, sem mais especificações. O homem europeu, como a rapariga gorda, não pode ser esquisito. Não há, simplesmente, muito por onde escolher. E assim, no capítulo da oferta de identidades, o homem europeu tem respostas, mas images.duckduckgonenhuma delas boa. Não o podemos censurar por escolher agarrar-se ao que existe. De um lado, as ideologias (igualitarismo, relativismo, etc); do outro, o mínimo denominador comum (a raça). Desesperado, sem rumo, escolhe uma delas. As ideologias oferecem-lhe um propósito, uma causa, por mais contraditória ou contraproducente; a raça oferece-lhe uma comunidade, por mais artificial que seja. Nenhuma das duas é uma identidade (identidades pré-fabricadas, prontas a usar na lapela, não existem) mas com uma dose razoável de cegueira auto-imposta, as lutas que não necessitam do seu esforço servem para disfarçar a sua verdadeira identidade: o consumismo cosmopolita.

Comecemos pelas ideologias. Nos bons velhos tempos em que ainda haviam identidades nacionais deste lado do mundo, as várias nuances marxistas eram puramente económicas. Eram o fruto de uma interpretação ignorante das acções humanas e de uma inveja mal escondida pelo sucesso. Hoje, ninguém adere a essas ideologias por razões económicas. Em 90% dos jovens, de um lado ou do outro da barricada, a ideologia económica é a mesma: uma economia mista, onde o pior do comunismo e o pior do capitalismo se encontram numa apoteose brilhante de mediocridade. Nenhum membro dos Antifas é animado realmente pela tomada dos meios de produção. Aliás, produzir é a última coisa que querem. Querem destruir. E esperam que a sua destruição criativa gere frutos. É uma identidade que procuram nessa destruição, iludidos de que ainda existe algo para destruir enquanto espezinham as ruínas do que foi a civilização.

Do outro lado, temos o homem europeu que, com um pouco mais de clareza, entende (consciente ou inconscientemente) os objectivos destrutivos do primeiro grupo, e procura algo mais construtivo. Mas estão mais ou menos iludidos sobre a mesma coisa: pretendem proteger um castelo cujas muralhas já foram destruídas, ou pretendem erigir muralhas para proteger um castelo que já é do inimigo. A comunidade não existe. A nação, por extensão, também não. Sobe-se um degrau. E acima está a raça. Às vezes é engraçado ver as discussões online nos fóruns photo_2017-11-14_21-49-20.jpgdedicados ao assunto: o Português é mesmo branco? Será que gostar disto ou daquilo me desqualifica como branco? Ou então ver o saudosismo de aspiração: éramos Gregos e Romanos e tal e coiso. É engraçado até ser deprimente. Tal como o primeiro grupo, procuram uma identidade onde ela não existe. Acabam a dar a volta ao círculo e, numa divina ironia, advogar algo semelhante ao pan-Africanismo. Ora, África nunca teve nações nem nacionalidades. Teve e tem grupos (muitos deles ainda lutando violentamente pelo controlo das entidades políticas criadas pelos europeus para exterminarem ou escravizarem os outros grupos dentro das suas fronteiras), mas nada que se assemelhe às nacionalidades que surgiram na Europa. Não por acaso, e tal como a Europa previamente com o Cristianismo, há outro verdadeiro unificador no horizonte para África: o Islão. Sendo um sistema total, de crenças ontológicas até às políticas, o Islão oferece um ponto de convergência que a raça, por si só, não oferece.

Não sou íntimo conhecedor das várias identidades africanas, mas tendo em conta que as entidades políticas africanas são artifícios, o pan-Africanismo, apesar de igualmente espúrio, continua a fazer mais sentido do que o chamado ‘nacionalismo branco’, que é nada mais do que pan-Europeísmo. Não há absolutamente nada em comum entre as várias etnias europeias. A Europa já esteve de facto unificada sob uma bandeira, Cristo, mas longe vão os tempos – e muitos dos defensores do Nacionalismo Branco consideram o Cristianismo uma conspiração judaica para subjugar a alma virtuosa, e pagã, dos Europeus. Onde podiam encontrar uma verdadeira identidade, rejeitam-na. Mas mesmo os que juntam a sua identidade racial à sua identidade religiosa, esquecem que essa identidade nunca esteve ligada a considerações étnicas e que não nasceu da procura de uma identidade – e que se a razão para aderirem é essa procura, nunca a vão concretizar. Há uma expressão para o fenómeno: LARPing, versão curta de Live Action Role Playing. Não digo que não sejam sinceros. Até podem ser. Mas os meios utilizados não vão gerar os efeitos desejados.

D. Afonso Henriques pode ter criado Portugal como entidade política, mas não foi ele que criou a identidade portuguesa. Como qualquer conceito nebuloso, não é sequer fácil apontar o que é ou não é uma identidade nacional. Mas podemos pelo menos concordar que ela não depende das acções de uma pessoa, mas dos hábitos e vidas dos habitantes da Nação. Olhando para os hábitos benficae vidas dos habitantes, conseguimos logo perceber porque é que não existe uma identidade especificamente nacional, nem aqui nem em qualquer outro país europeu. E se antes ao menos tínhamos um mito de fundação nas conquistas de D. Afonso, hoje o mito de fundação português é o 25 de Abril. Ou seja, é um mito de fundação que rejeita aquilo que era a identidade portuguesa, e pretende fundar uma nova. Meus caros, bem vindos ao vácuo que é a identidade portuguesa no Século XXI. O 25 de Abril como mito representa uma coisa: a abertura de Portugal ao mundo. Antes estávamos orgulhosamente sós, depois ficámos orgulhosamente acompanhados.

Admita-se que é difícil hoje imaginar um país fechado à cultura além das suas fronteiras. Não só a tecnologia permite o acesso a espaços e tempos distantes, mas o enquadramento político acompanhou a tecnologia e não oferece qualquer entrave a esse acesso – esse era um dos objectivos afinal de contas. O 25 de Abril foi feito para podermos beber Coca-ColaTM e ver o Marlon Brando sodomizar a rapariga com a ajuda da manteiga. Longe vão os tempos em que a música, os filmes, a culinária ou a religião de terras distantes era largamente inacessível, e em especial ao cidadão comum. A procura adapta-se tanto à oferta como a oferta se adapta à procura. Talvez na época fosse impossível de antever, mas hoje é possível observar, os efeitos dessa abertura.

As pessoas da minha geração (a Y, os millennials), cresceram tanto ou mais influenciados pela cultura anglo-saxónica, em especial americana, como por qualquer coisa feita em Portugal. Em boa verdade, e por causa dessa influência, não somos bem portugueses, mas um híbrido cosmopolita – e não somos um caso especial, as outras nações (sobretudo do lado ocidental) sofrem do mesmo. Esse híbrido cosmopolita é a verdadeira identidade europeia moderna. Se somos portugueses em algumas coisas (das castanhas ao bacalhau, do café ao futebol), a verdade é que somos menos portugueses do que os nossos pais, e que eles mesmos eram menos portugueses que os seus pais.

Antigamente, só as classes altas tinham acesso à cultura de outros países – isto é, a outras culturas das classes altas – enquanto que as classes médias e baixas eram fechadas entre si. Podia dizer-se que as classes altas eram cosmopolitas, e mais semelhantes culturalmente entre si do que às classes baixas dos seus respectivos países. É importante mencionar de passagem que as aristocracias europeias tinham laços de sangue partilhados, e eram igualmente mais próximas umas dos outras geneticamente do que das plebes nacionais. O nacionalismo clássico, de há cem anos atrás, provou ser um movimento democrático precisamente por isso: a identificação da classe governativa com a classe governada.

Mas o nacionalismo clássico falhou na prática, porque era na realidade uma contradição em termos. Durante Séculos a distinção entre governantes e governados manteve a identidade intacta. Outros factores determinaram a mudança mesmo com a alteração dessa circunstância. A tecnologia, e com ela a democratização da cultura plebeia, foi o que acabou com as identidades nacionais milenares. Não só acabou com a cultura aristocrática, como aproximou as culturas plebeias umas das outras. E embora seja notório que existem diferenças culturais entre os portugueses e os ingleses, ou entre os suecos e os alemães, a verdade é que essas diferenças são cada vez menos marcadas e cada vez mais irrelevantes. Geralmente, são ligadas a elementos que ainda estão condicionados por factores locais e que não podem tão facilmente ser democratizados como a informação. A culinária por exemplo é muito mais particularizada do que as opiniões políticas, pois está ainda até certo ponto ligada aos alimentos produzidos ou importados, que por sua vez ainda estão ligados à tradição do país. Mas estão apesar de tudo num estado retardado de actualização, e adivinha-se, tendo em conta que já há muito que todos os países têm acesso a alimentos de todo o mundo a qualquer momento, que também aí as diferenças continuem a esbater-se. Não me lembro da última vez que vi, numa carta de sobremesas, a expressão ‘fruta da época’. Porque a época já não importa para a disponibilidade da fruta.

A questão do nacionalismo já era complicada quando surgiu, tendo em conta a distinção entre a tradição política (aristocrática) e a sua distância cultural e genética da classe que governava. Mas hoje, é ainda mais complexa. Quando o PNR repete o seu slogan ‘Portugal aos Portugueses‘ (que sabemos não ser sério, pois o seu programa nem sequer postula sair da União Europeia), tomado do ponto de vista étnico é fácil identificar quem faz e não faz parte dos ‘portugueses’. Mas em termos culturais, e deixar-se de fora esse componente é impossível, qual é o ingrediente especial que nos distingue? Não só a ‘cultura portuguesa’ moderna é em muito img_0796.jpgindistinguível das outras culturas plebeias da Europa, como é transversal entre portugueses étnicos e africanos. Mais: uma boa parte da cultura que é mais ou menos exclusiva a Portugal é adoptada por portugueses étnicos, mas produzida pelos africanos. O mesmo se observa nos outros países europeus com as suas minorias étnicas. Um holandês dizia-me no outro dia que os putos holandeses agora falam todos com os maneirismos linguísticos adoptados dos árabes, uma forma de holandês degenerado. Se pessoas da minha geração disserem que nunca usam as palavras ‘bué‘ ou ‘ya‘, estão a mentir. Ou então essa abstenção é produto de uma auto-censura, de um esforço. Não só já não estamos orgulhosamente sós, não somos sequer nós, orgulhosa ou envergonhadamente.

Na questão religiosa, embora exista ainda imensos elementos da tradição Católica em Portugal, a verdade é que na prática a maioria dos Portugueses são quase tão Católicos como Hindus. Mesmo os que vão à Igreja não a ouvem, e aqui o dedo não pode ser somente apontado às pessoas, mas à Igreja que, por fariseismo, não só não responde aos problemas reais das pessoas modernas, mas ao mesmo tempo vai ao sabor da corrente progressista global – o pior dos dois mundos. O rio, em conclusão, desagua no mesmo mar.

O famoso (ou infame) discurso de Salazar sobre estarmos ‘orgulhosamente sós’ era especificamente sobre a política ultramarina, mas não é espúrio mencioná-lo neste contexto. Afinal de contas, o esforço em África, quer concordemos com ele ou não com o benefício da distância, dependia tanto das directivas políticas como da motivação dos combatentes – e esta provou ser, em última instância, incrivelmente afectada pelas opiniões internacionais. Muito para lá das limitações técnicas, a mundividência dos soldados, das famílias, do povo em geral, contribuíram para a derrota em África. Por outras palavras, o espírito do tempo impregnou a identidade nacional de dúvida sobre a aventura africana, e votou-a à derrota. Um exército que não acredita nas razões para lutar não vence guerras.

E assim, através da influência exterior, da ideologia da auto-determinação, do abandonar do ‘fardo do homem branco’, do papel civilizador europeu, do anticolonialismo e do movimento pacifista americano, a guerra ultramarina e, com ela, o regime, caíram. E para fechar o círculo com mais ironia divina, os portugueses são hoje mais influenciados pela cultura das colónias do que alguma vez as colónias foram influenciadas pela nossa.

Mas este não foi caso isolado. Outras influências exteriores contribuíram para a sua dissolução. Podemos perguntar se se a abertura do país à influência exterior foi um benefício ou um malefício, se melhorou a sociedade ou a piorou, se apurou as qualidades portuguesas ou as deteriorou. O que não podemos negar é que sucedeu.

Quando na Primavera Marcelista se começou a abrir fendas no dique que impedia a cultura estrangeira de entrar em Portugal, pôde observar-se que não tardou muito a que não houvessem suficientes meninos para meter os dedinhos nos buracos e impedir a enxurrada.

No outro dia estava a ver este documentário sobre o CascaisJazz, em 1971, que ilustra bem o argumento. Nele aprende-se que alguns dos músicos – e apesar da presença das polícias – fizeram homenagens aos movimentos de libertação africanos, saudados com grandes aplausos e cantos pela ‘liberdade’. As consequências não foram muitas, apesar da inicial ameaça de repercussões, o que provou a abertura do regime aos apoiantes, mas sobretudo provou aos detractores a sua fraqueza. Daí até à abertura completa, foi um piscar de olhos.

Em condições tecnológicas pós-industriais, e num mundo politicamente plebeu, quer se considere boa ou má, a abertura ao exterior é um processo contínuo, uma espécie de PREC, que uma vez começado não tem termo, e se alimenta a si mesmo num feedback loop.

Em menor ou maior grau, é por isso que vemos as identidades nacionais na Europa Ocidental se tornarem com o tempo versões diferentes da mesma cultura cosmopolita, obcecada pelas mesmas causas e guiada pelas mesmas ideias, enquanto que na Europa que esteve por detrás da Cortina, o processo está mais atrasado e a diferença é ainda visível. Mas infelizmente, sem que existam medidas que o contrariem, o processo vai continuar no Leste como continuou no Oeste.

E não parece haver grande diferença entre, por exemplo, cultura sancionada centralmente (como a MTV ou Hollywood), ou cultura descentralizada (como a Internet). A ausência de fronteiras culturais cria um mundo onde as fronteiras reais se tornam irrelevantes. Este argumento é frequentemente avançado pela Esquerda, para justificar a sua defesa de fronteiras abertas, e criticado pela Direita. Mas, mais uma vez, é a Direita quem não está a ser logicamente consistente.

A verdade é que a Direita pretende fronteiras fechadas na prática, mas fronteiras culturais completamente abertas, ignorando que a abertura cultural leva, inevitavelmente, à abertura real. O consenso geral de que devemos deixar entrar pessoas de todo o mundo para ‘enriquecerem’ a nossa cultura não nasceu do vácuo, foi um processo gradual, e não é produto de uma conspiração. É apenas o resultado natural da exposição continuada a culturas estrangeiras, que leva à perda de identidade e cultura nacional. O ‘enriquecimento’ só é possível, e só faz sentido, porque se perdeu a base. Se a própria cultura é uma mistura indiscriminada de influências, não há razão lógica para que a população o não seja. Em última instância, só encorajamos a entrada de outras culturas porque perdemos a nossa.

E não pensem que é possível impedir este processo. Ele já está demasiado avançado para se salvar alguma coisa. Qualquer ilusão sobre o assunto convém que seja abandonada. Os monárquicos e reaccionários autistas podem clamar e rezar todos os dias para a restauração da IMG_0486.jpgcultura portuguesa, mas o Portugal que existiu não volta a existir. O nacionalismo nos seus parâmetros clássicos é impossível e é difícil antever o que se segue. Mesmo que Portugal, como entidade política reganhe a soberania – algo bastante duvidoso quando nem o partido nacionalista, único, postula a possibilidade – não vem daí o regresso automático da identidade portuguesa perdida. Se D. Sebastião aparecer do nevoeiro, provavelmente volta para ele pois não reconhece as gentes e pensa que se enganou na saída. Mas não é caso para desespero porque, lembremos, a maioria das antigas nacionalidades europeias não era politicamente delineada. Viveu e sobreviveu sob jugo político externo. Portugal, com os seus 900 anos de independência política, é uma excepção nesse respeito. Nada indica que exista um Portugal politicamente unificado no futuro, mas isso não impede a criação de uma ou várias identidades.

Não ignoro a deliciosa ironia de que este texto contradiga a aspiração presente no título deste blog. Mas a verdade é que, como já se disse, não há restauração grandiosa possível. Temos de recomeçar do zero. É preciso repetir que a identidade nacional nasceu das acções individuais dos portugueses, e não porque estes estavam conscientes de que as suas acções levavam a esse fim. Aconteceu independentemente da sua vontade. Por isso qualquer futura identidade requer o nosso envolvimento, a nossa acção, o nosso investimento na nossa comunidade, não em aventuras identitárias que são, curiosamente, um fenómeno moderno global. A comunidade é o alicerce. Só o tempo dirá se é suficiente para suportar um edifício comum. O que é certo é que não se constroem casas a partir do telhado.

Uma mera formalidade

A barbárie Islâmica continua a assolar a Europa. Os detalhes são irrelevantes. Por muito que a imprensa queira ofuscar a origem dos ataques terroristas ou desculpabilizar os responsáveis, só behead-those-who-insult-islammesmo quem insiste em fechar os olhos não sabe. Quem é que, com dois dedos de testa, com o mínimo de atenção e o mínimo de honestidade acha que se deve continuar a importar hordas de árabes, magrebinos e africanos que professam o Islão? Quem é que, na posse das suas faculdades mentais, ainda acha que o Islão é uma religião de paz e que o elemento de conquista é a excepção e não a regra? Ninguém. Quem era passível de ser instruído já o foi. Pelo que é irrelevante para a Direita martelar mais uma vez o assunto.

No entanto, dada a frequência da barbárie, este martelar tornou-se uma fonte de popularidade, de rendimento e mediatismo. Da mesma forma que a Esquerda utiliza os eventos para pregar o seu demónico evangelho, o virtue-signaling da Direita é exclamar, uma e outra vez, o óbvio ululante. É pena porque é uma evidência que ofusca o verdadeiro problema.

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Wilders: “Basta de selvagens castanhos que violam miúdos“; Also Wilders: “Temos de defender os nossos pederastas da selvajaria Islâmica“. Hum… ?

De certa forma, é compreensível. A Direita já não ganha há muito: a sua existência é unicamente reactiva perante qualquer que seja a obsessão da Esquerda no momento – e a Esquerda, que é patrocinada pelas elites financeiras com os seus propósitos particulares completamente

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Espécimes da Raça Ariana.

desligados dos interesses dos nativos e dos imigrantes, está permanentemente investida num exercício de gaslighting da população sem precedentes. A cada atentado, a Esquerda (que inclui a imprensa, as universidades, o governo, os think thanks, etc.) jura-nos que o Islão é uma religião de paz, que os atentados nada têm a ver com a importação desta cultura para a Europa, que criticá-la é ser xenófobo e que, em última instância, encontrar um padrão em todos estes eventos apenas demonstra o quão odiosos são os críticos. Perante isto, a Direita arranca para a refutação de todas as permissas da Esquerda, e assim permite que ela dite o tom e o conteúdo do discurso.

A Esquerda sendo o que é, e patrocinada por quem é, vê apenas as consequências e causas materiais. Nem importa que minta. A refutação das suas mentiras não desliga a crítica da mundividência materialista. Além disso é muito mais fácil atacar os outros do que olhar para dentro, admitir as nossas falhas e superá-las. Se a Esquerda decidiu olhar para dentro e aceitar tudo o que há de mau como sendo bom, a oposição decidiu ignorar o pântano que é a alma europeia e apontar o foco para fora, como se fosse possível que os elementos exteriores nos afectassem como afectam sem que houvesse subversão interna.

É importante perceber a verdadeira origem do problema, que não são os bárbaros estrangeiros mas os nativos moralmente apáticos. Eu não vejo nenhuma outra civilização a convidar bárbaros para as suas nações, a dar-lhes casa, comida e abrigo. Nenhuma outra raça tão apática que após cada atentado defende as suas causas e que continua a insistir em convidá-los. Quantos dos que morreram em Espanha apoiavam os ‘refugiados’? Quantos não apoiando ficaram calados? Quantos permitiram ou estiveram-se a marimbar para o facto de as suas crianças sofrerem lavagens cerebrais na escola para que os aceitem?

Morreram 14 pessoas no atentado espanhol. Entretanto houve mais uns quantos, noutros sítios. Mas quantos abortos foram perpetrados nesse espaço de tempo? Quantas vidas pereceram às mãos dos próprios Europeus, com subsídio público e indiferença da população?

No Twitter alguém perguntava, perante a notícia de que o jihadista que cometeu o atentado já tinha anunciado o seu propósito, ‘como é que é possível continuarem a ignorar?‘. A resposta é simples: apatia. Se o jihadista tivesse dito que queria ilegalizar a pornografia tinham-lhe prestado atenção e feito protestos.

Se o problema fosse só um de invasão, era fácil de resolver. Infelizmente, o problema é muito mais profundo. A ameaça física que os bárbaros Islâmicos apresentam é insignificante comparada com

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Mais espécimes da Raça Ariana.

a aniquilação espiritual a que os europeus se votaram a si mesmos. O Homem Europeu tem como único deus o hedonismo. Enquanto lhe permitirem refastelar-se nos seus pecados, é-lhe completamente indiferente se bárbaros estrangeiros matam os seus compatriotas, violam as suas mulheres e crianças ou destroem as suas cidades. A sua lealdade é direccionada apenas para o seu prazer imediato. Pelo que até os críticos do Islão e da sua entrada na Europa estão simplesmente focados na sua remoção e julgam que, uma vez removido o elemento Islâmico, a Europa pode continuar na sua depravação hedonista e tudo correrá pelo melhor.

Os avisos foram-nos dados mas decidimos não os ouvir. Os antigos Israelitas cometeram o mesmo erro, tiveram a mesma presunção e sofreram as mesmas consequências:

«Todas estas maldições vos seguirão e vos alcançarão até que sejam destruídos — tudo por terem recusado ouvir o Senhor vosso Deus. Estes horrores cairão sobre vocês e os vossos descendentes como um sinal. Tornar-se-ão escravos dos vossos inimigos, por causa de não terem louvado o Senhor por tudo o que vos deu. O Senhor mandará os vossos inimigos contra vocês; vocês terão fome, sede, frio e necessidades em todos os domínios. Um jugo de ferro será posto no vosso pescoço, até que sejam destruídos.

O Senhor trará contra vocês uma nação distante que vos cairá em cima como uma ave de rapina; uma nação cuja língua não compreenderão — gente feroz e furiosa que não terá compaixão nem de velhos nem de novos. Eles comerão tudo o que é vosso em casa e nos campos; levar-vos-ão todo o gado e as colheitas; desaparecerão os cereais, o vinho novo, o azeite, as crias das vacas e das ovelhas. Essa nação sitiará as vossas cidades e derrubará as muralhas, por mais altas que sejam e por muito que pensem que vos protegem seguramente.» (Deuteronómio 28:45-52)

A história está a repetir-se porque os Europeus, tal como os antigos Israelitas, elevaram as suas invenções e prazeres terrenos acima de Deus e dos seus mandamentos. A incrível disfuncionalidade das nossas sociedades deriva deste facto, e faz-nos a cada dia mais fracos, mais solipsistas, menos humanos, e a nossa fraqueza torna-nos presas fáceis para os bárbaros. «Quem tem apego à sua vida vai perdê-la; quem despreza a sua vida neste mundo vai conservá-la para a vida eterna» (João 12:25). A alma do Europeu comum está perdida. A morte física trazida pelos bárbaros é uma mera formalidade.

A Revolução Reaccionária no Século XXI

novabandeiraPorquê ter uma bandeira azul e branca sem a coroa? O que é que significa? Vou explicar no fim. Para chegarmos ao destino, primeiro temos de percorrer o caminho. Por isso, façamo-nos à estrada.

Suponho ser inevitável que um reaccionário dê consigo a sonhar com alguma espécie de restauração, ou seja, uma revolução; um corte com a elite política do momento e, no caso da revolução reaccionária, a sua substituição pela elite passada ou pela elite presente que representa esse passado. E sendo reaccionária, esta revolução, seria no sentido de uma sociedade recta e ordeira.

Só por ler a frase se nota o quão difícil será efectuar na prática uma tal contradição teórica. As revoluções são sempre violentas, caóticas – o contrário do que se pretende. Os golpes palacianos são mais elegantes, menos primitivos, menos desmiolados. Por isso a Direita, em geral, prefere-os às revoluções puras e duras.

A única forma de a Direita fazer um golpe palaciano é através das instituições: infiltrando, influenciando, convertendo. Com instituições queremos dizer os centros de influência política, religiosa, militar, económica, cultural, legal – que em democracia fazem todos parte do mesmo bolo, e que em Portugal significa também, centralizar tudo em Lisboa, e deixar ao resto do país as migalhas.

Só que os golpes palacianos apenas funcionam quando as instituições foram infiltradas. A formalidade do golpe na transferência de poder quando é dita em voz alta, é apenas isso: uma formalidade. O verdadeiro golpe acontece aos poucos, devagar, por baixo – muito antes de chegar ao palácio. Mas a eficiência de uma tal revolução pressupõe que as instituições estejam num estado em que é possível e desejável recuperá-las. Gostaria que me apontassem uma que não esteja podre dos pés à cabeça e cujo resgate valha a pena, para não falar da possibilidade de a resgatar. E, para não nos perdermos muito cedo em deambulações teóricas, convém lembrar que as ‘instituições’ são simplesmente as pessoas que populam e agitam as tais. Não há um espírito mágico a correr pelos corredores, a não ser possivelmente um ou outro demónio, mas esses são também o resultado da presença humana.

Pelo que a conclusão é que as instituições estão podres, porque as pessoas estão podres. Triste realização. O clássico golpe palaciano parece improvável. Mas vamos esquecer o caminho para lá, e imaginar que está feito, por milagre. O golpe monárquico e o golpe ‘Faxista’, chamemos-lhe assim, são cenários diferentes, por isso vamos separá-los.

Imaginando a eventualidade de Portugal voltar a ser monárquico, devolvendo o trono ao seu herdeiro, a ideia de que cortará com a modernidade – não só politica mas culturalmente – já me parece demasiada suspensão da incredulidade para que os espectadores continuem a ver o filme. Não me parece igualmente que dure muito, mesmo que dê de início todos os passos certos. Só não argumento contra aqueles que acreditam na restauração por razões de fé – honestamente, apenas um milagre pode efectuar essa restauração, não só em nome, como em espírito. E a verdade é que ter fé em Deus é preferível a ter fé nos homens, em todas as ocasiões e circunstâncias.

Quanto aos monárquicos que acreditam, ou fingem acreditar, numa restauração por vias democráticas, rio-me da vossa ingenuidade e censuro a vossa malícia ou tolice.

Se sairmos do campo da monarquia, temos o ‘Faxismo’, as ditaturas populares de Direita (Salazarismo, Franquismo) ou com tiques de Direita (Fascismo, Nacional Socialismo). Imaginar uma restauração do Estado Novo, por exemplo, actualizado para o Portugal no Século XXI não deixa de ter o seu apelo nostálgico mas parece igualmente improvável, senão ainda mais. Aqui, nem o apelo ao Divino o pode fazer acreditar.

O problema das ditaduras populares é que são populares. Em última instância o poder está na figura carismática do líder. O Salazarismo era óptimo, mas morreu com Salazar – com ele era o que era, sem ele não era nada. Caetano não era terrível (era certamente melhor que qualquer político da I ou da III República), mas não tinha o carisma – e portanto não tinha a autoridade.

Na política, as massas são movidas por caras, símbolos, slogans – mas não são, nem nunca serão, actores políticos. Não o são em Monarquias Aristocráticas, como o não são em ‘Faxismo’, Comunismo ou Social-Democracia. Mas nestes últimos, mantém-se a fachada de que são (quer seja pela identificação do líder carismático ou do Estado com o povo, ou pelo sufrágio universal). Grande parte da propaganda do Fascismo Italiano e do Nacional-Socialismo Alemão propõe-se a afirmar que o Estado, o Líder, ou o Partido, agem em benefício do povo, através do povo: pelo povo e para o povo. Nessa pedra basilar está a fundação ideológica dos regimes autoritários de Direita. Ao contrário de uma ordem aristocrática, o poder está sempre na rua; a política faz parte da vida dos comuns mortais.

Pelo que para edificar uma ditadura popular de Direita, é preciso um povo em concordância. O povo português de hoje não é o povo português de 1926 ou até de 1945 – ou, sequer, de 1965. A consistente e insistente destruição e implosão do casamento, da família, da comunidade, da Igreja, etc etc etc, tem os seus efeitos inevitáveis. O povo é de Esquerda. O povo até pode querer mais autoritarismo, mas é de Esquerda. Imaginem um Estado mais agressivo no combate ao crime, na protecção das fronteiras, na punição da delinquência; imaginem um Estado que banisse a pornografia, ou proibisse as relações homossexuais. Imaginem um Estado que ilegalize o aborto. A reacção popular seria de rir se não fosse de chorar. Isto mesmo sem contar com o dinheiro estrangeiro que geralmente acaba no meio destas causas. Mas mesmo sem esse dinheiro, quer-me parecer que a probabilidade do regime durar é pequena.

Abrir a política ao povo é convidar e promover o elemento mercenário e o elemento parasítico numa ordem social, qualquer que seja. De repente, o exercício do poder, a garantia de uma ordem, não é um dever de homens capazes e dispostos, mas uma carreira com promessas de subir na vida. Os piores são atraídos para o topo, seja com partidos ou com o partido. Voltamos a repetir: o povo de hoje não é o povo de Salazar. É o povo de Mário Soares e Cavaco Silva. Uma importante diferença. Uma diferença que inviabiliza a restauração.

Pelo que a restauração monárquica ou ‘faxista’ é, na minha perspectiva, um sonho idílico de quem não costuma privar com o cidadão comum.

E aqui chegamos à questão da bandeira. “Se não acreditas na restauração, porquê a bandeira azul e branca?” “E porquê apropriar as cores sem a coroa?” O que a bandeira significa é que, apesar da nossa história e da tradição monárquica em Portugal, me interessam pouco os aspectos cosméticos da Monarquia. Sou monárquico porque acredito que o governo privado e hereditário é a forma natural de governo, porque considero que essa é a forma recta e desejável do exercício do poder, não porque nutra qualquer simpatia ou reverência pelos nossos membros da aristocracia, ou pelas qualidades estéticas da história da monarquia portuguesa. A aristocracia moderna é o produto do seu tempo e, admita-se, não serve. Uma nova aristocracia terá de nascer para que um regime monárquico exista. Uma aristocracia nascida do mérito, da honra e do sentido de justiça, ou seja, da verdadeira autoridade, na qual o exercício recto do poder se funda. Tal como surgiu aquela depois da queda do Império Romano, nascerá esta depois da queda do Império Americano.

Por isso, não desanimem. A batalha não está perdida. É simplesmente longa e nós estamos na fase de transição. Para fundar uma nova aristocracia é preciso fundar um novo povo que reconheça a sua autoridade natural. Não existem soluções fáceis e rápidas. Não existe revolução reaccionária que, numa manhã de nevoeiro, traga o almejado regime e o permita governar em paz. Para o regime mudar as pessoas têm de mudar. E isso leva tempo.

Por isso escolhi uma bandeira que não é a presente, nem a passada, mas uma que signifique a aspiração a um Portugal futuro. É a minha convicção que a “ordem” (e ponho aspas porque é mais uma desordem) presente está para lá da salvação e com a sua desintegração, as estruturas de poder vão desaparecer e a realidade será reduzida à sua base natural: a família. Depois, a comunidade. A nós, e provavelmente aos nossos filhos, netos e bisnetos, resta-nos continuar. Os nossos números vão descer. O nosso conforto vai diminuir, as adversidades aumentar. Mas pela persistência no esforço da continuação nascerá uma nova ordem.

A resposta simples, mas não fácil, é que para fundar uma nova monarquia, é simplesmente preciso ser um Homem. Ser um Homem nas acções e nas palavras. Ser honrado e não apologético. Fazer o bem e evitar o mal. Planear e construir. Ter uma família e liderá-la. Fazer filhos e educá-los, para que eles possam fazer o mesmo quando crescerem. Continuar, indiferente às modas e às obsessões do mundo iníquo que nos rodeia. E um dia, mais cedo ou mais tarde, os nossos netos ou bisnetos poderão hastear uma nova bandeira e proclamar Portugal uma pátria, novamente, integral.

O enigma dos Liberais

«Academia is to knowledge what prostitution is to love»
Nassim Nicholas Taleb

Depois de termos falado dos problemas do liberalismo, vamos falar dos problemas dos Liberais. Isto, admita-se, é mais fácil: existem muitas, muitas obras do pensamento liberal e nem todo esse pensamento é de deitar para o lixo (em alguns casos, como Mises, é absolutamente essencial). Os Liberais antigos, ao contrário dos modernos, ainda tinham algo que um reaccionário podia aproveitar.

Em especial, pode aproveitar-se a Escola Austríaca (ou pelo menos, as obras principais). Esta escola de pensamento é a única escola económica que não foi cooptada pelo materialismo (tanto o antigo, de Smith e Ricardo, como o moderno, de Fisher e Keynes) – e como tal é também a única que consegue apresentar uma teoria que represente a realidade económica e a explique de forma satisfatória.

Não será de surpreender, no entanto, que os escritos puramente económicos da Escola Austríaca (que não contêm necessariamente prescrições políticas) tenham com o tempo servido de base, e justificação, para prescrições políticas. Prescrições liberais.

Mises, a figura principal e certamente a mais interessante, fez sempre questão de distinguir entre os seus escritos puramente económicos e os seus escritos políticos. E por fazer essa distinção, ambos mantiveram a sua relevância. Theory of Money and Credit, por exemplo, continua a ser a obra essencial para explicar o clusterfuck que é a política monetária democrática, sem no entanto advogar contra ou a favor: limita-se a chamar os bois pelos nomes. Um retrato mais largo da teoria e realidade económica pode ser encontrado em Human Action. Ambos os livros são peças necessárias para entender o mundo em que vivemos.

Nos seus escritos puramente políticos (como o Nation, State and Economy) Mises observa o mundo com uma clareza que faria corar reaccionários modernos – como observámos aqui, em Democracia, o caminho é sempre para a Esquerda, o que faz de um liberal há cem anos um terrível reaccionário contemporâneo. No entanto aqui já podemos observar, no meio da sua enorme erudição, a tendência (talvez inevitável) de ver o mundo somente pela esfera económica, e cair na armadilha liberal, whig, progressista. Esta crença de que o mundo está em constante progresso (em vez de degeneração) era um conceito que Mises terminantemente rejeitou toda a vida na sua teoria económica (pois era inegável a degeneração da disciplina), e no entanto, na sua vertente puramente política Mises continuava a cair na patranha, e acreditar que a passagem das entidades políticas aristocráticas para as democráticas tinha sido um progresso. A obsessão económica tinha levado a melhor.

E aqui entramos especificamente no tema deste texto. Tal como Mises, os Liberais portugueses deixaram o seu conhecimento de teoria económica levar a melhor e enformar todo o seu pensamento político. Ao contrário de Mises, não o fazem com especial erudição (mas não os vamos censurar por isso – podem acusar-me do mesmo e com razão). Os principais sítios da blogosfera portuguesa liberal são o Blasfémias e o Insurgente e é neles que se encontra esta obsessão, à superfície incompreensível. Ambos são, supostamente, de Direita. E apesar de se aproveitar um ou outro indivíduo em particular (e de vez em quando), a verdade é que a maioria revela um autismo estonteante e tem um único barómetro político: a economia.

Os Liberais portugueses são democratas. Sendo democratas são obrigados a mover-se intelectualmente na Janela de Overton, por auto-censura inconsciente e por auto-censura PwnedCatconsciente. Por causa dessa auto-censura, os Liberais estão obcecados com reformas dentro do sistema. Nunca sequer lhes ocorre que o sistema deva morrer, que o sistema seja iníquo, que o sistema seja podre de raiz. E se ocorre, não o dizem. Pelo contrário. E há uma razão para isto, mas já lá vamos. Por agora convém salientar que a obsessão económica não é defeito, é feitio.

Como explicar que um liberal não queira sair da UE? A UE é essencialmente a versão moderna da União Soviética: um organismo insonso de burocratas cinzentos que ditam a vida de milhões de pessoas sem qualquer representatividade. Não são os Liberais a favor da representatividade?

A explicação é que os Liberais temem que haverá menos liberalismo económico nas nações europeias sem a alçada benévola da União Europeia. Temem em especial que haja menos em Portugal. E sendo essa a única métrica para a sua visão política, são contra. E é inegável que isto sucederia, a curto prazo. O que levaria a um colapso, a médio prazo.

E aí voltamos à mesma questão: os Liberais temem o colapso do sistema, por mais iníquo que o sistema seja, por mais antitética ao Liberalismo que a própria fundação monetária desse sistema 839d3c15540b493f867668a0ca132551.jpgseja, por mais iliberal que o sistema seja. Os Liberais lutarão incansavelmente (na esfera intelectual) para evitar descartar a constituição comunista que rege o país. Há anos que os Liberais andam a anunciar a falência da Segurança Social, há anos que falam da fundação fraudulenta do sistema monetário, há anos que apontam a ignomínia da dívida pública. E no entanto as suas prescrições são sempre no sentido de evitar o colapso inevitável. Em vez de matar o dragão, os Liberais querem domesticá-lo.

Eles sabem, no entanto, que o colapso é inevitável. Mas ao que parece os Liberais têm um enorme medo do sofrimento, mesmo do sofrimento salutar. Só que é inegável que, de uma forma ou outra, haverá sofrimento. Muito especificamente, sofrimento económico. Haverá tumultos por causa desse sofrimento. Para usar a analogia preferida dos Liberais, a desintoxicação não é agradável para o drogado. Mas estar constantemente na corda bamba dos paliativos não é uma solução. É uma cobardia.

O que escapa aos Liberais obcecados com as consequências económicas imediatas, ou que insistem em não ver, é que para uma boa parte da população (e muito em especial daquela população que vive à conta do Estado – em que muitos deles se incluem, quer gostem disso ou não), é necessário sofrimento. Cristo também teve de sofrer na cruz antes de ressuscitar.

É preciso que as pessoas vejam o que é viver sem subsídios. É preciso que vejam o que significa uma dívida impagável e as consequências de dizer, firmemente, que não a vamos pagar. É preciso que voltem a depender das famílias, dos amigos, dos vizinhos, da comunidade. É preciso que encarem a realidade de ter trabalhos duros e desagradáveis. É preciso que sejam obrigadas a não gastar tudo o que ganham, a viver com menos do que precisam, a poupar. A maioria das pessoas tem conforto a mais para o seu próprio bem. Tal como os Liberais, perderam a noção do que é importante. Não sabem distinguir o eterno do transiente.

A grande maioria dos nossos defensores do mercado, são defensores apenas do seu esqueleto, sem entenderem (ou não querendo entender) que a alma e a carne que enformam esse esqueleto são mais importantes para que o sistema funcione do que a formalidade desse sistema. Neste momento, a alma do povo é o Estado Social, é a dependência, é a morosidade, a preguiça, a vaidade e a gula. O liberal não diz ‘vamos acabar com o sistema para erigir sobre as ruínas uma fundação sólida‘. Diz ‘vamos adiar o seu colapso, e acentuar as consequências desse colapso‘. Porque, como Keynes dizia, a longo prazo estamos todos mortos. Os Liberais esperam honestamente estar mortos quando o colapso acontecer. E trabalham para adiar esse colapso de forma a garantir esse destino.

Assim se explica, em parte, o porquê de os Liberais acreditarem na democracia: é uma forma voluntária de cegueira. Acreditam que elegendo o PSD (ou, vá lá, a ala Liberal do PSD, que é a ala moderada da moderação deles mesmos) vamos caminhar para mercados mais abertos e atenuar o Estado Social (não se riam). Tentam vender o seu peixe a pessoas que só comem carne e cover26defendem eurodeputados porque disseram uma vez uma frase liberal (enquanto fazem parte do conselho cosmético da União das Repúblicas Socialistas Europeias). Acreditam que as pessoas comuns (o maior entrave ao liberalismo), pessoas que não poupam, que vivem do Estado Social, cujos únicos interesses são o futebol e a novela, que papam tudo o que lhes dizem na televisão, cuja única cultura é o consumismo, estas mesmas pessoas que nem cuidar de si e dos seus conseguem ou pretendem fazer, podem e devem votar em representantes. Representantes esses que não representam ninguém a não ser a si mesmos e aos interesses que os compram. Este retrato da Democracia e da população em Democracia não é um exagero, é observável. E mesmo que não fosse, é intuitivo. E se a intuição não fosse o seu forte, podiam sempre ler Hans Hermann Hoppe. Mas não. Estão presos numa visão whig da história em que à frente está sempre o progresso.

Mas existe uma peça do puzzle em falta. Acima dissemos que se trata de cegueira, mas é uma cegueira voluntária. A maioria dos Liberais é inteligente e certamente teve tempo e oportunidade de se deparar com a contradição em que se encontra, estes liberais certamente que leram os livros certos e reflectiram sobre o que leram. Da própria perspectiva do liberalismo, a sua defesa do status quo é inexplicável.

Mas explica-se perfeitamente quando se percebe que escrevem em nome próprio e que têm empregos e reputações a defender. Que quase todos são beneficiários do sistema falido das stock-vector-scale-favoring-self-interest-rather-than-personal-values-108478289universidades. São professores, ou consultores, ou comentadores especialistas. Pagam a renda a girar a alavanca das ciências sociais nas fábricas de mentecaptos. Ser liberal é alternativo, mas é trendy. Um liberal pode ir às festas e às conferências, pode fazer parte das instituições, pode viver em paz sendo o enfant terrible que o consenso de Esquerda tolera, porque não ameaça.

Não se espere, pois, que rejeitem o seu modo de vida em nome de ideais maiores, ou sequer de consistência ideológica. Não se morde a mão que dá de comer.