O Nacionalismo não é necessário, nem suficiente

Este texto serve de adição ao que se escreveu aqui sobre o identitarismo. O objectivo não é alienar aqueles que considero aliados e que professam o Nacionalismo como a sua ideologia, mas unicamente apontar uma falha que considero ser incompatível com o seu objectivo principal, analisar as suas origens históricas e as suas manifestações modernas, e argumentar uma alternativa.

 

«Quem dentre vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro para calcular a despesa e ver se tem com que a concluir? Não suceda que, depois de assentar os alicerces, não a podendo acabar, todos os que virem comecem a troçar dele, dizendo: ‘Este homem começou a construir e não pôde acabar’. Ou qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro para examinar se lhe é possível com dez mil homens opor-se àquele que vem contra ele com vinte mil? Se não pode, estando o outro ainda longe, manda-lhe embaixadores a pedir a paz

Lucas 14:28-32

O principal problema de qualquer putativo movimento dissidente é a sua sobrevalorização daquilo que pode ser quantificado, aquilo que é visível a olho nu, aquilo que é imediatamente palpável, em detrimento das questões filosóficas, metafísicas e espirituais que são muitas vezes consideradas espúrias. Como o construtor da torre e o rei que parte para a guerra nas palavras de Jesus, muitos não consideram o invisível que subjaz às realidades visíveis. Como um médico que toma os sintomas pela doença e se oferece para os tratar julgando tratar a doença, o Nacionalismo opera da mesma forma no plano político. É desta mentalidade que surge a defesa do Nacionalismo.

Pretendemos aqui argumentar que o Nacionalismo não pode constituir a base para o movimento, pois mesmo para os objectivos que pretende concretizar não é necessário, nem suficiente. Para isso temos primeiro de o definir, para que se saiba aquilo a que apontamos a nossa crítica. Como todas as ideologias, pode dizer-se que é tudo e mais french-nationalismalguma coisa, por isso tentaremos cingir-nos a uma definição que tenha em conta, ao mesmo tempo, a História da ideologia e a sua presente manifestação. O Nacionalismo é uma ideologia política Republicana e Democrática saída da Revolução Francesa, que postula a preservação da Nação enquanto entidade política (o Estado-Nação), a defesa de território delineado por fronteiras terrestres, da tradição e coesão linguística, cultural e étnica contra processos de destruição identitária ou transformação. Quando digo que o Nacionalismo não pode constituir a base, quererá isto dizer que sou contra os seus objectivos individuais postulados acima? Não. Mas quer dizer que estas ideias em si mesmas não garantem aquilo que pretendem garantir, e em particular a formalidade da ideologia (a identificação da nacionalidade com o estado-nação) não é necessária, nem suficiente.

Com a ameaça presente e tangível da imigração de massas, é compreensível que a ideologia do Nacionalismo se tenha tornado a bandeira em torno da qual os dissidentes maioritariamente se agitam, mas esse foco único confunde as árvores pela floresta, e a45210707118b976f894dcb852f4cdb5esquece que há factores metafísicos que o Nacionalismo por si mesmo não contradiz, que não só permitem mas promovem esta situação. Sendo uma invenção moderna saída do próprio Liberalismo, o Nacionalismo tem a mesma fundação no Materialismo Iluminista e sofre dos mesmos problemas insolúveis. O Nacionalismo, por mais benéficas que sejam as suas intenções, acaba a longo prazo na mesma situação que qualquer outra ideia democrática. Isto é, acaba na destruição daquilo que pretende defender. Tal como o Liberalismo é a longo prazo incapaz de defender a Liberdade, o Nacionalismo é incapaz de defender a Nação.

O caso Português, com as suas fronteiras e unidade política com quase mil anos, não é dos melhores exemplos para se perceber o argumento que fazemos aqui. Mas por outro lado, o facto de ser uma absoluta raridade na História Europeia, acaba por ilustrar ainda assim o ponto acima. As nacionalidades de Leste, por exemplo, oferecem um perfeito nationalismexemplo de como a coesão étnica e cultural de um povo não dependem de uma entidade política equivalente, ou seja, não precisam de Nacionalismo. E em alguns casos, observa-se que muitos grupos étnicos estavam mais bem servidos sob uma entidade política mais larga do que quando obtiveram os seus estados-nação. O Império Austro-Húngaro, a Jugoslávia de Tito, ou até a França pré-Revolucionária – onde, lembremos, existiam várias nacionalidades, entretanto extintas precisamente pelo Liberalismo – ou até a Rússia moderna, são bons exemplos de como o Nacionalismo não é necessário. Na maioria dos casos foram precisamente os poderes Liberais e a ideia da auto-determinação dos povos que desagregaram ou destruíram nacionalidades (como no caso Francês ou, em menor escala, na centralização nacionalista da Itália ou da Alemanha). Sob um ou outro império várias nacionalidades sobreviveram sem Nacionalismo, e com Nacionalismo destruíram-se várias nacionalidades e identidades.

Penso que isto prova que a questão da nacionalidade, da coesão étnica e cultural de um povo, é uma questão muito mais complexa do que a simples edificação política. Argumentar o contrário implica admitir, por exemplo, que os falsos estados-nação formados pelos poderes coloniais em África, na Ásia e nas Américas eram nações antes de serem estados, quando uma investigação simples da sua História demonstra que essa concepção é falsa. Obviamente que, com o tempo, outras nacionalidades (ou semi-nacionalidades) se formam a partir destes estados artificiais, mas esse mesmo facto confirma que nesses casos, antes de existir o estado, não existia a nacionalidade, mas uma colecção de grupos étnicos, culturais e linguísticos distintos.

O Nacionalismo não é, pois, necessário à manutenção daquilo que pretende defender. A verdade é que, paradoxalmente, sendo uma consequência da destruição da monarquia e da sociedade tradicional, o Nacionalismo é uma reacção inconsequente, desnorteada, um penso para uma ferida de bala, e sendo uma ideia em grande parte contraditória, como demonstrámos, acaba por ser utilizada amiúde pelas elites globalistas para fomentar o caos e destruir a sociedade tradicional. Obviamente, o Nacionalismo pode ser, sob determinadas circunstâncias, uma força contrária aos planos globalistas, sobretudo centenas de anos depois da destruição da ordem monárquica, mas é preciso nunca esquecer que o próprio Nacionalismo foi uma ideia promovida pelas elites maçónicas da época com o objectivo de destruir as sociedades que existiam, tal como hoje promovem o Globalismo para destruir as que existem. Como a História demonstra, o Nacionalismo não é uma condição necessária para a defesa da nacionalidade mas sobretudo não é suficiente – algo que é ilustrado perfeitamente no Nacionalismo dos nossos dias.

Se investigarmos seriamente os objectivos das elites globalistas percebemos que o seu plano não é somente de aniquilação da nacionalidade, mas aniquilação de qualquer tipo de identidade: étnica, cultural e linguística, mas também familiar, religiosa, sexual e, o plano final transhumanista, também da identidade humana. Quão fútil é pois que nos oponhamos a um dos seus objectivos mas descuremos a oposição aos outros? Ou pior, que se subscreva uma parte do seu programa? O Nacionalismo hoje pretende cortar uma das cabeças do monstro globalista, mas deixar as suas outras cabeças intactas. Isto é por MTG_Apocalypse-Hydra.jpgdemais óbvio olhando para os partidos nacionalistas que vão surgindo sob a bandeira da anti-imigração, e em particular anti-Islão, e que predicam a sua oposição na defesa de valores modernos completamente antagónicos à coesão nacional. Os exemplos são demasiado numerosos, tanto dos partidos e movimentos, como das ideias que partilham com os globalistas, para que se ignore esta tendência. A sua manifestação mais gritante é na oposição ao Islamismo. É um óbvio ululante que nos devemos opor ao Islamismo como ideologia, e ainda mais à imigração massiva de proponentes dessa ideologia para a Europa, mas há boas e más razões para o fazer. E, infelizmente, a maioria dos nacionalistas opõe-se ao Islamismo pelas razões erradas. A maioria das críticas feitas pelos nacionalistas são às ideias que caracterizam como ‘retrógradas’ e que contrastam com as ‘liberdades’ ocidentais: a submissão da mulher ao homem e a intolerância dos desviantes sexuais, em particular, comprazem a grande maioria das críticas. Nelas está subjacente a defesa da insubmissão e liberdade femininas e da tolerância dos desviantes sexuais. Ou seja, atacando o Islamismo por estas coisas, os Nacionalistas atacam igualmente qualquer sistema político e social que incorpore estes closet-rue-89.jpgprincípios. Isto demonstra que estes Nacionalistas são infelizmente ignorantes, tanto da História Ocidental como da História universal, pois todas as civilizações dignas desse nome impuseram regras sociais estritas, e em particular, a submissão da mulher ao homem e a remoção dos desviantes sexuais (aquelas que, com o tempo, deixaram de o fazer acabaram na mesma decadência em que a nossa se encontra hoje); e demonstra igualmente que são antagónicos à organização social Cristã que dominou a Europa durante pelo menos 1500 anos, e que foi paralela ao florescimento da Europa como força dominante em todos os aspectos em que normalmente se avaliam as civilizações. Ou seja, pretendendo defender o Ocidente, a maioria dos Nacionalistas defende as ideias que perverteram a nossa civilização e nos trouxeram ao ponto actual. O bem comum, a coesão social, a unidade nacional, requerem necessariamente determinados sacrifícios de liberdade individual. Ao elevarem essa liberdade ao princípio base da sua visão do Ocidente, estes Nacionalistas plantam a própria semente que germinará na disfunção política, social e económica que cria o problema migratório em primeiro lugar.

A base da Nação é a família e o individualismo primário que defendem é a antítese da família. Ao defenderem o individualismo contra o colectivismo dos Islamistas, os nacionalistas apenas escolhem uma forma de atentado contra a Nação em prol de outra. Esta defesa é emblemática da atitude que, na realidade, existe na génese do Nacionalismo: o Estado-Nação torna-se na única premissa, e a ordem social necessária à manutenção da nacionalidade é ignorada. Um movimento que defenda o Estado-Nação e se oponha à imigração, mas que aprove e permita todos os males da modernidade, que pretenda manter o status quo social de liberdade sexual, de supremacia feminina, de economia baseada na usura, de organização democrática, é incapaz de sequer manter aquilo que eleva como valor principal. E é a isto que nos referimos quando dizemos que o Nacionalismo descura o aspecto metafísico, pois é incapaz de perceber que a situação migratória é uma consequência da perda de valores tradicionais na sociedade, não é um assunto separado que possa ser resolvido sem se resolver este outro.

A identidade é feita de círculos concêntricos – o primeiro sendo a família nuclear, depois a família extensa, o bairro, a cidade, a região, a Nação (entendida como esfera partilhada de laços étnicos, linguísticos e culturais), a ligação regional (por exemplo, entre povos com línguas de origem latina ou de proximidade geográfica) e, por fim, a identidade geral europeia, que não pode ser entendida fora do domínio da Cristandade – pois hierocles-concentric-circles.jpgpreviamente os vários povos europeus não tinham língua, cultura ou logos em comum, mas eram sim uma colecção de povos com crenças, culturas e línguas distintas e rivais.

Os nacionalistas verdadeiros reconhecem que a Nação não é uma mera delineação geográfica e que o que a constitui não é meramente a terra onde se encontra (o ridículo conceito de ‘magic dirt’), mas sim as pessoas que a compõem, com uma etnia e cultura próprias. Reconhecem, logo, que não se pode substituir as pessoas sem aniquilar a Nação, ou sem a transformar em algo completamente distinto. No entanto, e infelizmente, muitos não prestam a devida atenção à conduta das pessoas que compõem a Nação, nem têm um entendimento de que o bem comum da Nação é muito mais do que o bem individual dos seus membros, e subscrevem assim uma forma ou outra de individualismo, que é radicalmente antagónico ao objectivo que pretendem alcançar.

Mesmo admitindo que o Nacionalismo consegue ganhar eleições e expulsar os alógenos, qual é o resultado? Ter paradas gay mais seguras? Um sistema de saúde a funcionar melhor para mais eficientemente abortar crianças? Jovens mulheres a embebedarem-se nas ruas das nossas cidades sem o receio de violação por parte de alógenos? O Nacionalismo hoje é análogo ao puxar um suicidário da beira da ponte, mas depois mandá-lo para casa onde tem cordas, armas e comprimidos. É a fantasia de achar que se não resolvermos o problema psicológico e espiritual ele vai deixar de ter tendências suicidas. A nossa civilização presente é patentemente suicidária, a vários níveis, e o Nacionalismo infelizmente apenas pretende criar as condições para que se suicide em paz.

double-headed-romanov-imperial-eagleComo expliquei anteriormente, o Ethnos tem de ser entendido e só pode ser defendido através do Ethos. Só o retorno a uma ordem tradicional, em todas as suas implicações, pode garantir a coesão étnica e cultural. Não podemos manter uma parte do edifício liberal e esperar que fique estanque e não volte a destruir aquilo que já destruiu uma vez. Aqueles que anseiam por uma sociedade etnicamente coesa mas que pretendem simultaneamente manter outros aspectos da sociedade moderna, estão a perseguir uma ilusão, mas ainda mais importante, não podem ser considerados como aliados. Pelo que é de extrema importância que se entenda que o movimento tem de rejeitar todos os pontos do liberalismo, e ser muito mais radical do que o simples Nacionalismo.

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Música Integral #2

01Guillaume_de_MachautNa edição de hoje trago-vos uma das minhas peças musicais favoritas, que me arrebatou desde a primeira vez que a ouvi há muitos anos atrás: a curta e singela ‘Hoquetus David’.

Composta pelo francês Guillaume de Machaut, possivelmente o mais conhecido e aclamado compositor da Baixa Idade Média, era também poeta e igualmente aclamado pela sua poesia. Na sua época, não era comum que se conhecesse detalhes biográficos de compositores (ou artistas em geral), pois o foco era na obra, não no homem. No entanto, Machaut acabou mesmo por se tornar o primeiro para quem esta regra se quebrou, talvez por ter sido também relativamente famoso durante a sua vida. A sua história pessoal, que incluiu ser secretário pessoal de João I da Boémia e acompanhá-lo em expedições militares, ser cónego e sobreviver à Peste Negra, é também de interesse,

Pertencendo a um ‘movimento’ musical a que se chamou ‘ars nova‘ (técnica nova), em oposição à antiga, Machaut ajudou a definir e aprofundar a música da sua época, influenciando a do futuro, escrevendo e sendo aclamado tanto pela sua música sacra como secular. A sua peça mais conhecida acabou mesmo por ser a Missa de Notre Dame, ainda hoje cantada pelo mundo.

A minha peça favorita do compositor, no entanto, continua a ser esta que vos trago hoje, geralmente instrumental (algo raro na época), mas também com versões à capela. A minha versão favorita é esta aqui em baixo, tocada com uma espécie de trombetas cujo nome não consegui apurar. Quando alguém vos repetir a fábula torpe de que a Idade Média era uma época de trevas, mostrem-lhes fotografias das Igrejas da época pela Europa fora, com esta música em pano de fundo.

O Problema da Fundação

«O Temor do Senhor é o princípio da sabedoria e a inteligência é a ciência dos santos.» (Provérbios 9:10)

«Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons. Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizámos nós em teu nome? e em teu nome não expulsámos demónios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi, abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade. Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha. E aquele que ouve estas minhas palavras, e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda.» (Mateus 7:17-27)

Nenhum movimento sobrevive sem unidade e em especial sem unidade filosófica. Sem uma mundividência partilhada, a tendência será sempre para a luta interna e, eventualmente, para a cisão. E um movimento com cisões é incapaz de levar a cabo as suas aspirações. Mas ainda mais importante é que essa fundação seja sólida, pois apenas sobre ela se pode construir um edifício resiliente. Aqui pretendo defender que só a mundividência Cristã pode providenciar esta fundação para a ampla e ainda vaga afiliação de vozes que, tendo em conta os objectivos expressos, podemos considerar da ‘Direita Dissidente’, e demonstrando que as outras fundações são insuficientes, prejudiciais e, em alguns casos, incoerentes com as consequências prescritivas a que são associadas.

Tendo seguido e investigado as várias vozes que podemos considerar como parte desta Direita consigo identificar três grupos, nos quais existe obviamente alguma sobreposição, mas que em termos fundacionais merecem ser mencionados em separado: os tradicionalistas perenialistas, os nacionalistas/identitários e os tradicionalistas Cristãos. Encontrando-me neste último grupo, e fazendo a apologia dele, tratarei das virtudes da sua fundação em comparação com as fundações dos outros dois.

Observando os principais blogs que representam estas três ‘facções’ há algum tempo e mergulhando nos seus arquivos, fiquei com a ideia que, dos três grupos, a ausência de fundação é observada maioritariamente nos nacionalistas/identitários, em que não só não existe uma mundividência base que seja partilhada, mas ainda mais grave, em alguns casos não existe uma preocupação em expor ou estabelecer essa mundividência. Há um imediatismo neste grupo que, embora tenha os seus méritos, põe de lado a questão fundacional e se preocupa somente em reagir a eventos, notícias ou ideias da modernidade. Nessas reacções está necessariamente subjacente uma visão do mundo, premissas antropológicas e ontológicas – mas estas nunca são explicitamente apresentadas ou explicadas, e não é claro que sejam reconhecidas pelos seus promotores. Em alguns casos, por serem inconscientemente professadas, acabam mesmo por ser contraditórias com as prescrições, dependendo da manifestação particular de texto para texto.

Embora exista algum tipo de unidade em relação a questões particulares, em especial a oposição à imigração, tudo o resto é difuso porque as questões de fundação filosófica não são postuladas. Sendo que a mundividência relativista já é o status quo fundacional do Ocidente, não me surpreende que, mesmo postulando valores que só podem ser compreendidos numa ética Cristã, muitos se considerem ateus ou perenialistas. Note-se que eu leio frequentemente, e já recomendei, uma boa parte das pessoas de quem estou a falar. Não é pois uma crítica, é uma exortação.

Antes de entrarmos a fundo na análise, observemos algumas dicotomias absolutamente absurdas que ilustram o vazio fundacional. Há quem seja ardentemente pró-Israel, e quem ache que o mundo é controlado por um cabal judaico (sendo o Cristianismo a maior conspiração de todos os tempos) – ambas as posições, a meu ver, demonstrando uma ignorância (ou malícia) risível. Vamos assumir que não é malícia, mas simplesmente ignorância. Os blogs (supostamente Cristãos) ardentemente pró-Israel e pró-Judeus fazem uma crónica ininterrupta dos males do Islão, nunca abrindo a boca sobre o papel dos Judeus na promoção da invasão Islâmica do Ocidente, as atrocidades cometidas pelos Israelitas ou as circunstâncias históricas em que o Estado se formou, a influência do Sionismo e dos judeus na propagação do relativismo no Ocidente, ou sequer reconhecendo as razões mais profundas, morais, da invasão islâmica que tanto criticam. Ou seja, proclamando-se Cristãos, são na prática meros materialistas e, na sua ardente defesa dos Judeus dos nossos dias, revelam que nunca leram a Bíblia com atenção. Os blogs anti-Israel, por seu turno, vivem obcecados com os judeus de tal forma que lêem o Novo Testamento (assumindo que o leram) e acham que Jesus de Nazaré foi um Sayanim da antiguidade, enviado para enganar os gentios. Ambas as posições são patentemente absurdas. No entanto, ambos os lados são considerados parte deste mesmo movimento – seria interessante ouvir um debate entre os representantes, mas isso é outra história – e a razão para o serem é porque concordam com prescrições específicas para problemas concretos (sobretudo, a oposição à imigração). Termino este parágrafo dizendo apenas que tanto os partidários da teoria de que o Cristianismo é uma conspiração judaica como os Cristãos que são ardentemente pró-Israel estão para lá de qualquer razão ou argumento – e digo isto por experiência. A insanidade dos anti e o sabujismo dos pró tolda-lhes a visão. Aos segundos, custa-me não atribuir também segundas intenções ou malícia, mas não importa muito explorar o fenómeno neste texto.

Tentemos, pois, encontrar as fundações subentendidas nas duas estirpes não-Cristãs.

Para os perenialistas a fundação é, à superfície, mais semelhante à Cristã, pois é de origem transcendental. No entanto, esta filosofia afirma que todas as tradições religiosas são apenas manifestações diferentes da mesma ideia, da mesma verdade metafísica. Assim, o Deus do Zoroastrismo ou o ‘motor imóvel’ de Aristóteles seriam apenas diferentes manifestações do Deus da Bíblia. E igualmente as doutrinas de um e de outro serão igualmente manifestações esteticamente distintas mas metafisicamente semelhantes – e todas portanto com a mesma validade e das quais se poderão inferir as mesmas implicações éticas. Usei os exemplos mais próximos (ao invés de, por exemplo, o Hinduísmo) precisamente porque, mesmo sendo na aparência mais semelhantes (afinal, são uma ou outra forma de monoteísmo), se pode mostrar que na verdade não existe equivalência, e que estas não são manifestações diferentes da mesma ideia, mas ideias distintas, com distintas consequências teóricas e práticas. Antes de apontar aquilo que distingue estas concepções da concepção Cristã, convém salientar que não disputamos a ideia de que as várias culturas e tradições religiosas chegaram a algumas conclusões práticas semelhantes – da mesma forma que as várias vozes dissidentes do nosso dia chegam também às mesmas conclusões apesar das suas fundações metafísicas distintas. Assim, por exemplo, quase todas as tradições religiosas, sobretudo aquelas que fundaram civilizações dignas desse nome, foram patriarcais, reconheciam a propriedade privada e restringiam a liberdade sexual. São Paulo, falando aos Pagãos Romanos, afirma: «Com efeito, quando há gentios que, não tendo a Lei, praticam, por inclinação natural, o que está na Lei, embora não tenham a Lei, para si próprios são lei. Esses mostram que o que a Lei manda praticar está escrito nos seus corações, tendo ainda o testemunho da sua consciência tal como dos pensamentos que, conforme o caso, os acusem ou defendam.» (Romanos, 2:14-15). Ou seja, Deus imprimiu em todos os homens a capacidade de discernir formas de conduta e de organização social desejáveis. Mas dizer que a Lei é discernível não remove a necessidade da sua revelação, tal como o facto de sabermos que moderar a velocidade é benéfico não remove a necessidade de conhecer o Código da Estrada.

O monoteísmo do Zoroastrismo e o monoteísmo do ‘motor imóvel’ não são iguais ao monoteísmo Bíblico, e as diferenças são logo encontradas na fundação. A antiga religião Persa afirma uma concepção divina, ontológica e antropológica dualista, em que o Bem e o Mal são forças equivalentes em constante fricção e à procura de equilíbrio – e em que tanto o ‘deus bom’ como o ‘deus mau’ existiam previamente à Criação: «Ahura Mazda spake unto Spitama Zarathushtra, saying: I have made every land dear (to its people), even though it had no charms whatever in it: had I not made every land dear (to its people), even zoroastrianism-symbol.jpgthough it had no charms whatever in it, then the whole living world would have invaded the Airyana Vaeja. The first of the good lands and countries which I, Ahura Mazda, created, was the Airyana Vaeja, by the Vanguhi Daitya. Thereupon came Angra Mainyu, who is all death, and he counter-created the serpent in the river and Winter, a work of the Daevas.» (Vendidad, Fargard 1:1-2). Por cada coisa boa que Ahura Mazda (o deus bom) cria de benéfico, o seu contraparte maléfico, Angra Mainyu, cria o seu oposto: «The second of the good lands and countries which I, Ahura Mazda, created, was the plain which the Sughdhas inhabit. Thereupon came Angra Mainyu, who is all death, and he counter-created the locust, which brings death unto cattle and plants. The third of the good lands and countries which I, Ahura Mazda, created, was the strong, holy Mouru. Thereupon came Angra Mainyu, who is all death, and he counter-created plunder and sin.» (Vendidad, Fargard 1:4-5).

Algo completamente distinto é-nos contado na história da Criação Bíblica, em que Deus Cria ex nihilo (isto é, nada existia antes além Dele), e em que o mal é simplesmente a rebelião de seres criados contra a sua autoridade. O Mal, portanto, não tem existência ontológica no Cristianismo, mas é simplesmente a ausência do Bem – e o Homem não foi criado com duas naturezas, mas com uma: uma natureza que a sua desobediência corrompeu. Isto pode parecer insignificante mas não é: na concepção Zoroastra o Mal já existia, e é uma de duas escolhas possíveis; na concepção Cristã existe obediência ou desobediência à Lei, adesão ou não-adesão ao Bem. Voltando à analogia do Código da Estrada, o Zoroastrianismo diz-nos que, na génese, há dois Códigos, o bom e o mau – e que devemos seguir o ‘bom’ porque gera boas consequências e evitar o ‘mau’ por gerar as más; no Cristianismo existe apenas um Código, o Bem, e é da nossa desobediência que surgem as más consequências, o Mal.

Também o ‘motor imóvel’ não é o Deus da Bíblia, mas algo mecânico e impessoal que ‘põe as coisas em movimento’: «Since this is a possible account of the matter, and if it were not true, the world would have proceeded out of night and ‘all things together’ and out of non-being, these difficulties may be taken as solved. There is, then, something which is always moved with an unceasing motion, which is motion in a circle; and this is plain not in theory only but in fact. Therefore the first heaven must be eternal. There is therefore also something which moves it. And since that which moves and is moved is intermediate, there is something which moves without being moved, being eternal, substance, and actuality.» (Metaphysics, Book 12, Part 7). Mas se Deus não é pessoal nem a Criação é o produto da sua acção, a Lei não existe como algo transcendente que nos foi revelado – mas torna-se um mero artifício humano, uma heurística, desenvolvida pelos mecanismos naturais derivados do primeiro movimento.

Pode questionar-se a relevância destas considerações para as questões mais concretas com que nos deparamos, mas a fundação determina não só a resiliência do edifício mas também a forma que esse edifício toma. Estas noções de ‘equilíbrio’ entre Bem e Mal creation_left_lg(existente nas concepções orientais do divino tão promovidas no Ocidente moderno) e do ‘motor imóvel’ (de que a teoria do Big Bang é um exemplo) são partes importantes da mundividência maçónica/gnóstica que tomou conta do Ocidente nos últimos séculos, e é sobre elas que as nossas sociedades são erigidas. Não admira, pois, que o edifício esteja a ruir. Ambas as fundações, embora na aparência monoteísticas, levam directamente ao relativismo. A abertura da teologia Cristã a estes conceitos antagónicos, numa tentativa de ‘ecumenismo’ e ‘sincretismo’, foi uma das principais razões para esta degeneração fundacional na civilização Ocidental. Não é um acaso que quando a consciência da fundação Cristã, da Criação ex nihilo e da Lei como revelação, foi apagada no Ocidente, se deixou de prestar tributo à dignidade humana inerente e se começou a achar que todas as formas de viver são certas.

Tornamo-nos agora para os identitários. Alguns subscrevem uma forma ou outra de neopaganismo como fundação supostamente transcendental – e digo supostamente porque, na maioria das vezes, é somente uma rejeição do Cristianismo do que uma convicção noutra forma de espiritualidade e fundação, uma forma de procurar algo que o ateísmo, por si mesmo, não oferece (e saúdo-lhes, pelo menos, o reconhecimento deste facto – embora, como vamos ver, não o sigam até à sua conclusão última). É, além disso, difícil analisar as premissas dos neo-pagãos porque, na verdade, não existe uma teologia coerente mesmo quando procuram essa fundação. Nas minhas observações noto que os vários neo-pagãos resume-se simplesmente à ideia de preservar a tribo a que pertencem e simultaneamente ao darwinismo social. Por isso esta análise é, não tanto de um ou vários neo-paganismos (que, na realidade, são apenas apêndices cosméticos), mas da visão ateia e evolucionária que permeia a mundividência identitária.

Para eles a fundação é a tribo ou a raça – o ethnos – e todas as outras considerações devem ser a ele subjugadas. Rejeitam o Cristanismo afirmando que este, postulando uma moral universal a que todos estamos subjugados, não tem qualquer apreciação pelo ethnos. Tal afirmação, tão comum nos nossos dias, seja da boca de anti-Cristãos como dos próprios Cristãos, é simplesmente falsa, e surge simplesmente de ignorância.

Se observamos muitos auto-proclamados Cristãos a denegrir o ethnos, é em directa oposição às escrituras e aos Pais da Igreja. Não só a tradição reconhece a existência do ethnos, como recomenda a sua preservação. São Paulo, pregando aos Atenienses, sublinha a existência e importância das diferenças entre as tribos no próprio plano Divino: «De um só homem fez Deus todas as raças humanas, a fim de que povoassem a terra, havendo determinado previamente as épocas e os lugares exactos onde deveriam habitar. Deus assim procedeu para que a humanidade o buscasse e provavelmente, como que tacteando, o pudesse encontrar, ainda que, de facto, não esteja distante de cada um de nós». São Paulo expressa também na sua carta aos Romanos o peso que tem o seu apego à sua própria tribo: «Digo a verdade em Cristo, não falo inverdades, minha consciência o confirma no Espírito Santo, que tenho grande tristeza e incessante dor no meu coração. Porquanto eu mesmo desejaria ser amaldiçoado e separado de Cristo por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne» (Romanos 9:1-3). Mais, a única ocasião em que S. Paulo repreende S. Pedro é precisamente na questão étnica, mostrando que, sendo a Lei para todos, cada cultura deve manter-se e não ser forçada uma sobre a outra: «Quando, porém, Pedro chegou a Antioquia, eu o enfrentei face a face, por causa da sua atitude reprovável. Porque antes de chegarem alguns da parte de Tiago, ele fazia suas refeições na companhia dos gentios; todavia, quando eles chegaram, Pedro foi se afastando até se apartar dos incircuncisos, apenas por temor aos que defendiam a circuncisão. E os outros judeus de igual modo se uniram a ele nessa atitude hipócrita, de modo que até mesmo Barnabé se deixou influenciar. Contudo, assim que percebi que não estavam se portando de acordo com a verdade do Evangelho, repreendi a Pedro, diante de todos: “Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não conforme a tradição judaica, por que obrigas os gentios a viver como judeus?”» (Gálatas 2:11-13). E também nas visões de S. João o ethnos surge como parte da providência eterna de Deus para a humanidade: «Em seguida, olhei, e diante de mim descortinava-se uma grande multidão tão vasta que ninguém podia contar, formada por pessoas de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam em pé, diante do trono do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas, empunhando folhas de palmeira. E proclamavam com grande voz: “A Salvação pertence ao nosso Deus, que se assenta no trono e ao Cordeiro!”» (Apocalipse 7:9-10).

Tendo em conta que os identitários reconhecem o valor da tribo e procuram uma ordem social que a sirva, e que o darwinismo social, quando levado à sua conclusão lógica, impossibilita qualquer forma de lei que não a da simples sobrevivência, o próprio facto de terem a tribo como valor e postularem uma ordem social é contraditória com essa fundação. Para ilustrar este ponto, pensemos no seguinte: várias vezes li identitários a aplaudir as raças do Oriente Extremo como ‘superiores’, querendo com isso dizer que exibem em grande quantidade as características que consideram de valor (quase todas fundadas no facto de terem QIs relativamente altos – com as consequências societais derivadas desse facto). Podemos concluir então que a nossa tribo merece, a bem da sobrevivência e da evolução, ser conquistada e substituída por Chineses e Japoneses. Não são eles ‘superiores’? Se tomarmos o darwinismo social como fundação filosófica, temos de responder que sim (lembremos que o título completo do famoso livro de Darwin é On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life), embora claramente os identitários respondam que não. E se se pudesse provar que a miscigenação criaria uma raça biologicamente superior, seriam os identitários darwinistas a favor desse destino? Obviamente que não. Mas porquê? Porque valorizam a sua tribo acima da sobrevivência do ‘mais forte’ e acima da evolução, e é nessa premissa que se funda a sua mundividência – por muito que erroneamente considerem que a fundam no darwinismo. Por outras palavras, a sua mundividência funda-se no amor ao próximo. E o próximo não é qualquer um, é aquele que está próximo. Porquê amar o próximo como a nós mesmos? Porque o próximo é como nós. É parte de nós. A concepção Cristã, a original, não é antagónica à identidade tribal: o ethos e o ethnos complementam-se. Perdendo-se um, perde-se o outro.

O facto de, aos olhos de Cristo, sermos todos iguais não significa que não existam diferenças entre nós, nem que essas diferenças não devam ser observadas por Cristãos (se assim fosse, Deus não teria, por exemplo, ordenado a submissão terrena da mulher ao homem, porque a famosa passagem Gálatas 3:28 diz que em Cristo ‘não há masculino nem feminino‘). Os Cristãos são comandados a observar tais diferenças, e o que Cristo observa é a nossa obediência. E o que é que Cristo requer de nós? «Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas.» (Mateus 22:36-40).

«Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia o seu irmão, é mentiroso. Pois, quem não ama o seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame, também, o seu irmão.» (1 João 4:20-21). Os Cristãos que professam a sua fé apoiando a invasão de povos alógenos estão a descurar o amor ao próximo em nome de um ideal universalista condenado por Deus, não só na separação dos povos na Babilónia mas ao dizer, pela voz de Cristo, que é ao próximo que devemos em primeiro lugar apontar o nosso amor. Dizendo amar a Deus e à sua Verdade, odeiam o próximo, e portanto, rejeitam a Deus. Pelo menos neste aspecto, aqueles que se dizem anti-Cristãos mas valorizam o ethnos, estão mais perto da Verdade do que aqueles que o desprezam, dizendo-se Cristãos.

O ethnos, no entanto, não pode ser a fundação e isso é claro quando compreendemos o sentido de ‘amar’ no Cristianismo. Amar não é ser tolerante, ou simpático, ou permissivo. Amar é ter o desejo de colocar alguém no caminho recto e agir de forma a fazer o Bem por quem se ama. Isso por vezes pode significar repreensão violenta: «Quem se nega a disciplinar e repreender seu filho não o ama; quem o ama de facto não hesita em corrigi-lo.» (Provérbios 13:24). No entanto, tendo o ethnos como base, todas as considerações têm de estar a ele subjugadas, o que implica a defesa dos membros degenerados da tribo em detrimento de algo maior (o ethos). E isso observa-se na facilidade com que tantos identitários abraçam o relativismo moral e aceitam membros da tribo na sua iniquidade por mais destrutivos que eles sejam para a própria tribo. Quantas famílias foram já destruídas por causa de “amor incondicional”, em que mães e pais defendem os filhos por mais pulhas que sejam? E quantas vezes vemos o problema de diagnóstico dos identitários, que na sua defesa incondicional da sua ‘família’ nacional, são incapazes de lhe ver as falhas e assim também incapazes de apontar a origem (moral) dos seus problemas? E nos casos em que os identitários de facto se recusam a aceitar degeneração moral e a rejeitar os membros da tribo que a personificam, deixaram de colocar a tribo em primeiro lugar, e inconscientemente aceitaram que o ethos tem de preceder ao ethnos.

Quem se dá ao trabalho de considerar questões políticas e sociais complexas, em geral não o faz tendo como objectivo apenas o seu próprio bem-estar – está subentendido um reconhecimento do valor da comunidade e da ordem. Se considera que existe valor na comunidade e na ordem, reconhece que existe uma dimensão superior, que não somos apenas pedaços de carne conscientes, produtos de forças aleatórias. Essa dimensão tem de ter uma origem e essa origem, para ser generalizável – como tem de ser numa ordem social – não pode ser baseada somente nas preferências pessoais de quem a postula. Mas rejeitando uma origem transcendental, isto é, divina, para essa dimensão, não podemos dizer sem contradição que a Ordem é preferível ao Caos, que a Justiça é preferível à Injustiça, ou sequer que a Ordem e a Justiça existam como conceitos válidos – se tudo é fluxo, também a Ordem e a Justiça são conceitos transitórios, mutáveis conforme os movimentos da história, da natureza, das condições materiais, etc. Ou seja, voltamos ao materialismo relativista que precisamos de rejeitar.

Um dos argumentos que já repeti mais vezes é o de que os nossos problemas materiais (como a imigração) têm origem na nossa disposição espiritual (o hedonismo). Esta disposição é o produto directo da fundação relativista que substituiu a fundação absolutista fundada na Criação revelada na Bíblia. Sem rejeitarmos as várias fundações erróneas, não temos meio de rejeitar os seus resultados. E sem aceitarmos a fundação certa, não temos meios de obter os seus benefícios.

Musica Integral #1

Liszt-kaulbach.jpgHá uns dias recebi um email de uma leitora, reproduzido abaixo, que me deu a ideia de iniciar uma rubrica neste blog para partilhar peças musicais.

Sendo a música um dos meus principais e mais antigos interesses, e apesar de não costumar falar desse tema aqui, é sempre entusiasmante para mim descobrir novas peças, sobretudo se forem belas – como é o caso desta peça sugerida. Daí surgiu a ideia de recomendar aos leitores música que talvez não conheçam, por ser de compositores mais obscuros ou peças menos conhecidas de compositores mais famosos.

Para quem achar que isto não se encaixa na temática do blog, posso apenas dizer que se procuramos uma restauração civilizacional não podemos cair na armadilha de pensar que pode ser feita somente através de política. Como já disse várias vezes: não podemos rejeitar apenas uma parte da degeneração da modernidade, temos de rejeitá-la em todas as suas vertentes. Se a nossa sociedade reverencia e promove o feio, o aberrante e o cínico, e que como tal destruiu o conceito de Arte, é salutar ressuscitar a apreciação da beleza. E nenhuma outra Arte representa a beleza na sua forma mais pura e despida do que a música.

Para a edição de hoje, passamos a palavra à leitora:

Envio esta mensagem com o propósito de contribuir para a divulgação musical, apesar de esse não ser o âmbito deste blog.

Assim sendo, proponho a audição de uma peça musical da autoria do compositor húngaro Franz Liszt.

A composição intitula-se Benediction de Dieu dans la Solitude (A Benção de Deus na Solidão) e integra o ciclo peças para piano Harmonias Poéticas e Religiosas. Este ciclo baseia-se na obra literária homónima do poeta francês Alphonse de Lamartine.
A peça musical apresentada para audição corresponde à tradução em música do seguinte poema:

De onde vem, ó meu Deus, esta paz que me inunda?
De onde vem esta fé que agora invade meu coração?
A mim que, a todo o instante, incerto, agitado,
E nas ondas ondas da dúvida balançado,
Aos quatro ventos, buscava o bem, o verdadeiro, no sonho dos sábios,
E a paz nos corações ecoando na tempestade.
Sobre a minha fronte, mal deslizaram alguns dias,
Parece que um século e um mundo passaram,
E que separado deles por um abismo imenso,
Um novo homem em mim renasce.e começa.

Franz Liszt é um compositor relativamente negligenciado e a descoberta desta música em particular foi uma agradável surpresa pela profunda espiritualidade que transmite.