O colapso de quê?

«This is the arresting and dominant fact about modern social discussion; that the quarrel is not merely about the difficulties, but about the aim. We agree about the evil; it is about the good that we should tear each other’s eyes out. (…) The social case is exactly the opposite of the medical case. We do not disagree, like doctors, about the precise nature of the illness, while agreeing about the nature of health. (…) I maintain, therefore, that the common sociological method is quite useless: that of first dissecting abject poverty or cataloguing prostitution. We all dislike abject poverty; but it might be another business if we began to discuss independent and dignified poverty. We all disapprove of prostitution; but we do not all approve of purity. The only way to discuss the social evil is to get at once to the social ideal

G. K. Chesterton, What is wrong with the world, 1910

Lendo o excerto acima (e, de preferência, o livro de onde é retirado e de que é só uma introdução), podemos observar que a situação do discurso político não se alterou em natureza, apenas em grau. Dizer, por exemplo, que hoje todos desaprovamos a prostituição é obviamente falso, quando a Esquerda decidiu abraçar todas as formas de degeneração possível – e a prostituição, comparada com algumas das novas causas da Esquerda, é um mal menor. E no entanto, continua a ser verdade que se concorda, mais ou menos, nos problemas sociais que existem, na medida em que se pode ter a discussão. Atingimos, porém, um ponto da discussão em que, dos partidos às escolas passando pelos meios de comunicação e pelas universidades (os vários tentáculos do mesmo monstro), não só não se concorda sobre as soluções, não se mantém sequer qualquer pretensão (em nenhuma das facções) de haver um ‘ideal’ social.

E no entanto, esse ideal existe. E não só existe como é a religião que enforma o mundo moderno há 300 anos (mais ou menos), a que podemos chamar Religião Salvacionista Democrática. Antes heres-what-donald-trump-supporters-really-believe.jpgde me aventurar nas consequências da RSD, vou explicar os três pilares da mesma: a RSD é uma Religião no sentido de um sistema cultural de práticas e comportamentos centrados numa colecção de valores e crenças (‘Liberdade, Fraternidade, Igualdade’ – ou LFI), com comemorações e instituições (escolas, universidades; dias internacionais; etc) e dogmas. Mesmo sem um ‘deus’ a RSD tem as suas premissas irredutíveis, e quando se investiga as suas origens descobre-se que só podem ter revelação divina, pois não são certamente susceptíveis de discussão racional. São crenças, no sentido básico do termo. Análogas à crença em Deus. A RSD é salvacionista porque acredita que todos os homens podem ser salvos, através da sua particular sopinha ética (a trindade da LFI), rejeitando qualquer ideia de pecado e punição (na essência, o único pecado é não acreditar e não agir em conformidade com a RSD-LFI). Por fim é Democrática porque é o único sistema político onde é possível pôr em prática a trindade da LFI, e a partir da qual se promovem as características salvíficas da mesma.

Existe uma frase célebre sobre o Demónio em que se afirma que o seu maior truque foi convencer as pessoas de que não existia. O mesmo pode ser dito da RSD. A RSD não se identifica como tal, nem clama existir – mas é indiscutível que existe, e que os seus tentáculos infiltraram o tecido social nas suas variadas camadas, incluindo as camadas do inimigo (as Igrejas Cristãs tradicionais). Em certa medida, o Protestantismo foi a primeira encarnação da RSD.

A RSD é, pois, uma rejeição do ideal de uma sociedade cristã, em que todos os seus conceitos – de autoridade, liberdade, propriedade e justiça – são reapropriados e virados do avesso e kitsappride2015HappyPride.jpgresultam na absoluta licensiosidade e defesa do abominável e na perseguição feroz a quem se atreve a julgar a abominação.

Visto que a RSD elevou a Ciência a um dos seus dogmas (essencialmente o que distingue a Ciência do Cientismo – se calhar deviamos mudar a sigla para LFIC), vamos analisar como a RSD se comporta de um ponto de vista evolucionário, isto é, se a RSD contribui para a perpetuação da espécie. Para isso, olhemos para o problema do declínio populacional.

Há anos que se sabe que as sociedades ‘civilizadas’ (as infectadas pela RSD) têm uma taxa de natalidade abaixo do necessário para manter a população presente. Simplesmente, não se produzem crianças suficientes. Se a tendência se mantiver, eventualmente o ‘homem europeu’ deixará de existir. As Nações Unidas, estando unicamente interessadas na sustentabilidade económica e na perpetuação da RSD (sendo a pedra ideológica em que se fundam), têm um plano para a sua resolução: Emigração de Substituição. O que isto significa é que a solução, do ponto de vista dos sacerdotes da RSD, é simplesmente importar pessoas de fora, de etnias e culturas distintas da população original, que se reproduzam e mantenham uma base tributária.

As razões para a solução proposta são discutíveis. A minha interpretação é que a liderança da RSD têm uma concepção (errónea, mas não ingénua) de igualdade entre os povos e as culturas; essa falta de ingenuidade baseia-se no facto de que os povos e culturas que querem importar são atrasadas (em comparação com as europeias) e que as populações associadas têm, em média, QIs mais baixos. Serão portanto, ou pelo menos imagina-se que sejam, mais fáceis de controlar. O objectivo de um mundo Orwelliano (o objectivo da RSD) é muito mais facilmente atingível com uma população intelectualmente diminuída, com nenhuma tradição de respeito pelo valor do

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“aquilo são dois homens aos beijos? ó diacho!”

indivíduo. O objectivo é ter eleitores/consumidores ignorantes, que permitam a continuação do sistema, que mantenham uma situação de caos (que “requer” uma vigilância constante) na rua, mas não possuam a capacidade de abstracção e organização que os povos europeus possuiam (e, imagina-se, possuem ainda em potência) para contestar os planos dos líderes da RSD de controlo total. Embora, admita-se, haja algumas indicações de que a situação talvez não seja assim tão simples, e que dadas as décadas de propaganda da RSD-LFI a que o Ocidente foi sujeito, talvez seja mesmo entre as populações mais primitivas que se encontre alguma resistência. É possível que a esperança esteja mesmo nos proles, embora no panorama global os proles sejam, não o estrato mais baixo da sociedade, mas as culturas mais primitivas, precisamente por serem mais primitivas e, logo, menos susceptíveis de engolirem a propaganda da RSD.

Seja como for, é claro que este objectivo e esta solução devem ser rejeitadas por qualquer pessoa europeia interessada em resgatar a cultura europeia pré-RSD, mas servindo um pouco de advogado do Diabo, esta solução não é tão descabida como parece, no sentido de adereçar o problema de forma racional. Afinal, é um facto que as etnias e culturas europeias deixaram de ser capazes de se reproduzir. Do ponto de vista da RSD, são precisas pessoas, mas é irrelevante para eles que pessoas populam os países europeus (afinal, a Igualdade é um dos seus dogmas). Mas que cultura na realidade existe na Europa? O consumismo? A licensiosidade? A tolerância suicída? O poder popular? O que existe, então, de bom para conservar? E se não existe nada, como argumentar contra esta solução? Os que rejeitam a Islamização ou Africanização da Europa em defesa da cultura do presente (que é uma cultura da RSD) não estão a defender nada a não ser um suicídio lento. ‘Deixem-nos morrer em paz na nossa vacuidade; deixem-nos ir para o Inferno ao nosso ritmo‘ – é, na essência, a sua posição. Uma posição em concordância com os dogmas da RSD – a ‘oposição controlada’.

Ou seja, quer se aceite a solução das elites globais ou não, o problema continua a existir. Mesmo sem esta solução final que vemos todos os dias praticada, mesmo sem a importação em massa de estrangeiros do terceiro mundo, os europeus continuam escravos da cultura da RSD que conduz à sua própria aniquilação (só os acólitos da RSD acham que é um acaso que a aniquilação moral do homem europeu ande de mãos dadas com a aniquilação física). Neste momento, os governos europeus dividem-se entre os que não querem incentivar a população nativa à reprodução (mais a oeste), e os que querem e incentivam (mais a leste), para atenuar ou reverter esta situação aberrante. Mas o simples facto dos europeus precisarem de incentivos fiscais e financeiros para a sua própria renovação populacional mostra o quão a civilização europeia está perdida. Em termos evolucionários, é uma experiência falhada. Mas que experiência?

A experiência é a RSD-LFIC.

Como já referimos, vários eventos históricos podem ser apresentados como catalisadores da RSD (por exemplo, a substituição do Feudalismo pela Monarquia Absoluta ou a Reforma Protestante). Mas talvez seja mais adequado apontar as revoluções liberais como a origem desta experiência e que são, em última instância, as responsáveis por esta degeneração civilizacional – afinal, a RSD não existe sem o patrocínio do poder político e foram as revoluções liberais que lhe deram a hegemonia (a história, afinal, é escrita pelos vencedores e a RSD teve as suas grandes vitórias políticas nas revoluções liberais). Chamando Chesterton de volta à conversa: «We often read nowadays of the valor or audacity with which some rebel attacks a hoary tyranny or an antiquated superstition. There is not really any courage at all in attacking hoary or antiquated things, any more than in offering to fight one’s grandmother» As revoluções liberais foram muito simplesmente essa revolta torpe e fácil contra a avó civilizacional. Não deixa de ser curioso que os mais acérrimos e ortodoxos defensores da RSD, completamente dentro da doutrina, se considerem parte da resistência.

A civilização europeia deixou de acreditar em Deus para passar a acreditar no Homem. Por outras palavras, e para voltar ao início do texto, a RSD substituiu o ideal antigo pelo seu avesso. E as consequências eram previsíveis.

É por isso importante sublinhar uma vez mais que a RSD não é a ausência de religião, mas uma religião em si mesma. E que como não podia deixar de ser, é intolerante para com os heréticos que questionam os seus dogmas. Nunca nenhuma sociedade humana existiu sem um paradigma picture-pledge-of-allegiance-praying-to-the-statereligioso e sem a garantia legal dos seus dogmas, e a nossa não é excepção. A diferença é simplesmente no objecto de culto. O caso só não é claro porque a RSD tem uma tendência natural para a dissonância cognitiva (daí o efeito curioso exemplificado no video linkado acima), e postula a sua religião como a sua ausência. Mas não é possível substituir algo por nada. O motor humano pode ser abastecido com diferentes combustíveis, mas não anda se estiver vazio. A RSD, portanto, não aboliu a religião, apenas substituiu a antiga por uma nova – um espelho perverso onde tudo o que era bom e desejável é agora vil e execrável e vice versa. Para citar Chesterton novamente (ou talvez não): «When men choose not to believe in God, they do not thereafter believe in nothing, they then become capable of believing in anything.»

Acontece que esta particular religião é inerentemente auto-destrutiva. Todas as suas premissas resultaram em suicidárias consequências. O “poder do povo” não só nunca o foi como resultou nos sistemas mais opressivos, onde o homem comum é mais controlado e indefeso perante o poder, do que em qualquer regime aristocrático – onde a distinção entre governantes e governados é clara e largamente inalterável. O cientismo/secularismo, em vez de libertar o democracy_o_838073.jpghomem do fanatismo e promover o pensamento livre, construiu gerações e gerações de IYIs (Intellectual Yet Idiots), confundindo as sombras pela realidade; e, no panorama da plebe, criou uma intolerância perante qualquer crítica ou julgamento em que já não é possível inquirir se existe alguma diferença entre a sombra na parede e a realidade reflectida – em suma, numa aceitação sem escrutínio de todos os vícios e pecados, e com isso uma imparável tendência para degeneração moral e física. A igualdade e a fraternidade, em vez de harmonizarem as diferentes naturezas e capacidades, ao ignorá-las criaram antagonismos ferozes que resultam numa guerra de todos contra todos (filhos contra pais, mulheres contra maridos, alunos contra professores, funcionários públicos contra privados) e que em termos geopolíticos resulta na guerra total (lembrar que o único regime a lançar uma bomba atómica foi exactamente aquele que representa o auge e a consagração da RSD). Em nenhum outro tópico, no entanto, isto é tão óbvio como na relação entre os sexos. O pináculo da RSD é a incapacidade dos seus aderentes de se reproduzirem.

Por isso o pessimismo talvez seja inevitável, mas não totalmente justificado. O colapso é eminente, mas o colapso de quê? Da RSD – e dos seus dogmas LFIC. Os valores ancestrais da honra, da

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Capítulo importante na história LGBT

autoridade, da razão e da caridade são ancestrais por alguma razão. Não são arbitrários (apesar de, em certa medida, não serem naturais e requererem esforço e cuidado). A aberração da RSD é apenas uma pequena intermissão. Como na história de Sodoma e Gomorra, as sociedades controladas pela RSD serão destruídas por força maior (quer se ache que é justiça divina ou simples consequência da sua irracionalidade, ou como eu, se ache que ambas são essencialmente a mesma coisa).  Salvar-se-á quem repudiar e abandonar a RSD. Quem olhar para trás, porém, arrisca-se a transformar-se numa pilha de sal.

Uma sociedade sem classe

Adenda (09/06/2017): Ler este post do João no Livro das Imagens, que complementa as ideias aqui descritas.

A Constituição da República Portuguesa foi originalmente escrita em 1976 por marxistas declarados que julgavam interpretar “os sentimento profundos” do povo português (sempre tão científicos estes comunistas) ao derrubar “o regime fascista” – mesmo que esses sentimentos fossem mistos e o regime nunca tivesse sido fascista – a não ser que se defina ‘fascismo‘ como um regime autoritário de Direita (e nesse caso, o Estado Novo era muito mais ‘fascista‘ do que o Fascismo original, visto que era um movimento verdadeiramente de Direita, isto é, antipopular).

Tendo em conta estas condições, é natural que o texto original designasse como objectivo expresso, logo no primeiro artigo, aspirar a uma “sociedade sem classes”, e no segundo artigo declarasse que o “Estado Democrático (…) tem por objectivo assegurar a transição para o socialismo”.

Entretanto a Constituição foi revista, se não me engano em 1989, e retirou alguns resquícios de verborreia marxista – em especial o objectivo do socialismo e da sociedade sem classes. E por retirar entenda-se substituir a linguagem aberta dos marxistas duros pela prosápia saneada dos marxistas suaves: substituir o comunismo pela social-democracia (essencialmente para nos integrar melhor no newspeak da nova ordem europeia e mascarar o facto de que o comunismo e a social democracia são apenas variações da mesma ideia). O peso da inclusão ou exclusão destes termos, ou até da importância efectiva de uma constituição numa República é discutível, mas efectivamente a referência aos termos originais foi retirada.

É preciso lembrar que na altura uma nova elite política surgia para dirigir o país, e quando digo nova quero dizer ‘renascida’: em paralelo com os velhos tecnocratas (e essencialmente membros da nobreza) que haviam colaborado com o fim do Estado Novo e que trabalharam

DuraoBarrosoMRPP
“Nessa altura ainda não sabia que tinha de usar gravata para ir a Bilderberg”

para o socialismo com tanto zelo e em tanto silêncio como o tinham feito para Marcello Caetano, existia a clique de extrema-esquerda, que entretanto crescera uma consciência e rejeitara as suas raízes, ao ver o fim da União Soviética no horizonte, confrontada com o óbvio ululante do homicídio em massa do Comunismo que já não era possível negar e aliciado pelas novas oportunidades de carreira oferecidas pela elite tecnocrata da União Europeia. Esta clique tornou-se de facto a elite governante do país nas décadas que se seguiram, alguns chegando mesmo ao cargo prestigiante de Primeiro Ministro. Só que já não eram do PCP, do MRPP ou de outros grupos esotéricos de Esquerda – eram do PSD e do CDS. O famoso livro de Zita Seabra (que devia ser incluído no género ‘prosa poética’) é o exemplo mais emblemático desta deriva. Um milagre de trazer lágrimas aos olhos.

É nesta milagrosa conversão que se funda a revisão constitucional e o abandono do objectivo da ‘sociedade sem classes‘. A partir daí, Portugal seria uma Democracia com D grande e concretizaria a ambição ocidental iniciada com as revoluções liberais de uma sociedade com classes, mas sem classe.

Na diatribe original do marxismo, a sociedade sem classes era especificamente apontada à natureza económica do fenómeno – ou não fosse o marxismo uma filosofia puramente materialista do Homem e da Sociedade. A Democracia Anglo-Saxónica, que é na verdade a versão designada com D grande, não aspira a apagar as diferenças económicas entre as classes. Originalmente não aspira sequer a atenuá-las. Mas também ela teve as suas subsequentes revisões e a Democracia 2.0 (também conhecida como Social Democracia), aspira a atenuar essas diferenças – sem na realidade o fazer.

A Democracia não manifesta qualquer parecer sobre a natureza extra-económica das classes. Só que manifesto ou não o desejo, o resultado é notório: a Democracia apaga as desigualdades morais, culturais e intelectuais entre classes sem ter de as apagar no plano financeiro.

Isto é uma consequência inevitável do seu ethos igualitário. Ao dizer que o povo é soberano e rejeitar a ideia de que certas pessoas são mais aptas a governar que outras; ao depositar, simbolicamente, o poder de decisão na plebe (a maioria), a Democracia constitui um passo para o abismo, uma descida ao mínimo denominador comum civilizacional – da mesma forma que o Comunismo (em si uma ideia democrática) constitui uma descida ao mínimo denominador comum económico.

Nos regimes monárquicos (em que não se inclui a fraude da ‘monarquia constitucional’) havia diferenças entre os nobres e a plebe, não só em poder económico, mas em instrução,

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direita: perdeu um olho a lutar contra os mouros; esquerda: auto-mutilado.

educação, higiene e erudição. De um membro da nobreza esperava-se que fosse fluente em várias línguas (incluindo línguas mortas); que fosse versado em estratégias militares e fisicamente capaz de as pôr em prática caso necessário; que soubesse manter uma conversa erudita sobre os mais variados assuntos, da ciência à literatura, da filosofia às artes plásticas; que tocasse as peças clássicas num instrumento (geralmente, piano) e que soubesse apreciar essas peças quando outros as tocavam; esperava-se que se comportasse com decoro e que evitasse os devaneios, excessos e obsessões dos plebeus. Por outras palavras, esperava-se que fosse nobre não só em título, mas nas suas acções.

A cultura dos nobres era nobre. A cultura dos plebeus era plebeia. A Igreja servia de intermediário entre as duas classes: trazendo algumas luzes à plebe; trazendo humildade à nobreza. A nobreza deveria servir como exemplo terreno aos plebeus, tal como os padres deveriam servir de exemplo divino (imitando Cristo). A nobreza, pela sua superioridade moral e cultural (não só pela sua capacidade monetária), deveria liderar.

Julgo não dar novidade a ninguém ao dizer que os ‘nobres’ de hoje só se distinguem dos plebeus pela quantidade de dinheiro que têm para gastar. E gastam-no não numa cultura elevada, mas na mesma cultura dos plebeus. Em muitos casos, não só consomem essa cultura como a produzem. E portanto, são incapazes de liderar coisa alguma.

Em paralelo, não só a nobreza desce constantemente aos níveis da plebe, como a própria plebe se torna menos recomendável. Compare-se os trovadores da idade medieval (a música popular) com as aberrações da música popular moderna. Afinal, se não há ninguém para dar o exemplo, não há exemplo a seguir. E se o impulso cultural é estritamente económico (e há mais plebe que nobres), então será a plebe a dirigir a cultura pelo seu consumo.

O caso de Salvador Sobral, o novo herói da pátria plebeia, ilustra bem a situação. Um rapaz de 27 anos, que noutra época já seria um homem (outro sinal da decadência democrática), que faz parte de uma família de origem nobre, não se distingue em quase nada de um membro da

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Membro da nobreza em Democracia

plebe. O aspecto descuidado, as opiniões, a falta de erudição. O que mais choca, tendo em conta as suas origens, é a sua gritante banalidade. Ou seja, o seu carácter plebeu.

E convém salientar que o menino Sobral não é dos casos mais aberrantes. Apesar da sua vulgaridade intelectual e da sua fraca figura, o rapaz até é simpático e relativamente educado. Já os inúmeros membros das classes altas (por família ou por ascensão social) que regularmente participam na cultura plebeia nos seus expoentes mais crassos e repugnantes, sem qualquer vergonha ou arrependimento, não têm qualquer característica que os redima. Abra-se uma revista ‘de sociedade‘ para confirmar.

Nos seus tempos de faculdade, o ex primeiro ministro Britânico David Cameron, bem como o ex Mayor de Londres Boris Johnson faziam parte de um clube aristocrático chamado Bullingdon Club. O clube foi fundado há mais de 200 anos e apesar de ser originalmente dedicado à caça e ao cricket (o desporto era nessa época ainda um actividade a que só os nobres se dedicavam), já nesta altura parece que os seus membros não se comportavam com as maneiras dignas da nobreza, bebendo demais e causando alguns distúrbios – afinal, convém lembrar que a transição das sociedades monárquicas para democracias já se tinha iniciado, e com ela a degeneração das elites.

Hoje, passados dois séculos, o clube já não se dedica à caça ou ao cricket, e é simplesmente famoso por organizar jantares e literalmente destruir os restaurantes onde eles tomam lugar, pagando imediatamente os estragos com desdém. A única coisa que distingue este clube de uma claque de futebol, é que os membros de Bullingdon têm dinheiro para não se meterem em sarilhos pela sua conduta boçal e selvática.

O Comunismo nunca conseguiu eliminar as diferenças entre classe, afinal existe sempre uma elite de governantes que vive como sultões e um círculo exterior limitado de membros do Partido que obtém algumas regalias pela sua posição, que distinguem, não só

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Sopinha democrática

economicamente mas também em termos culturais e intelectuais, estas duas classes da classe geral dos proles – a ironia suprema do Comunismo na prática – e que, sendo classes efectivamente separadas, exercem uma influência na classe abaixo de si. A Democracia, porém, conseguiu eliminar quase completamente as diferenças essenciais entre as elites e o povo, entre quem governa e quem é governado, entre quem deve dar o exemplo e quem o deve seguir. Como uma rã cozida lentamente, a população de um regime democrático morre lentamente sem dar por isso.

A natureza destrutiva do Comunismo é evidente e declarada; o carácter insidioso da Democracia é ignorado e invisível. O Comunismo exclama abertamente o seu objectivo de destruição, a Democracia destrói pela calada, sem nunca o declarar a ninguém – pelo contrário, fá-lo com a melhor das intenções, essas de que o Inferno está cheio.

O leitor que julgue qual das duas ideias é mais perniciosa a longo prazo.

O Meio é a Mensagem

Daily news and sugar confuse our system in the same manner.
Nassim Nicholas Taleb

A citação acima aparece no livro Antifragile (altamente recomendado, como os outros do autor) e vem na sequência de uma explicação do fenómeno de iatrogenia quando aplicado ao consumo regular de notícias. Em resumo, o que Taleb argumenta é que os jornalistas precisam de encher chouriços para vender jornais (e mais importante, anúncios), todos os dias. A atitude adequada seria ter jornais de várias páginas quando há notícias relevantes que o justifiquem, e jornais com poucas ou nenhumas quando não as há. Visto que isto não acontece, ler jornais é essencialmente consumir fast food – o pouco de nutritivo encontrado na refeição, é soterrado em, e anulado pela, enorme quantidade de porcaria.

Não é por isso de admirar que o consumo de notícias no mundo moderno, das notícias ao minuto, seja essencialmente um exercício plebeu. Uma forma perversa de entretenimento, a institucionalização do mexerico, a veia respeitável da intriga – ou a simples e c350px-Nompleta irrelevância. Comentar notícias é portanto uma actividade direccionada à plebe. Se Marshall Mcluhan estava certo, então os comentadores de notícias são a diabetes resultante do consumo do McDonalds dos media. Por vezes é difícil dizer se os blogs têm alguma mensagem independente do que aconteceu no próprio dia.

Os jornais são portanto, e no melhor dos casos, irrelevantes. Os blogs, no entanto, podem ter utilidade. Só que a maior parte deles está focada em reagir aos jornais – como se estes ainda fossem relevantes. Não é pois surpreendente, tendo em conta que o público alvo é a plebe, que os comentadores de notícias não se distingam em geral pela sua perspicácia, pertinência ou inteligência. Nos blogs o público alvo não é a plebe – a plebe, em geral, não lê – mas sim a classe média. Essa fraquíssima classe média que é essencialmente uma plebe com mais algum dinheiro para consumir a cultura plebeia. O resultado dos blogs cuja principal função é comentar notícias, para os quais não vou providenciar links, pois toda a gente sabe quem são – e que não estão na lista aqui ao lado por esta razão – é a perpetuação da plebeização da classe média.

Não temos um equivalente decente, na língua portuguesa, da expressão anglo-saxónica knee-jerk, mas assumo que os meus leitores, não fazendo parte da plebe, conheçam a expressão e saibam o que significa. Muitos blogs políticos, incluindo infelizmente os que se situam à direita, que são os que me interessam adereçar, existem para este exercício de knee-jerk. O governo faz ou diz qualquer coisa, um evento internacional ocorre, e lá vão eles comentar. Na grande maioria dos casos, é irrelevante. É apenas a saciação do instinto primitivo e plebeu para o mexerico. A maioria dos eventos ou das acções do governo encaixam em meia dúzia de categorias, pelo que o teor dos comentários é sempre o mesmo.

Quando a maioria do produto dos blogs é determinado pela reacção imediata a eventos recentes, o produto não pode distinguir-se pela clareza da reflexão. Muitas vezes não sabemos porque tomámos certa decisão, nem os seus efeitos a longo prazo, até muito tempo depois da decisão em si mesma. Se isto acontece a um nível pessoal, quanto mais acontecerá se estivermos a reagir a estímulos exteriores. Pelo que, tal como nos jornais, quando há de facto notícias relevantes, como vamos saber se o comentário é relevante?

Não é difícil entender que este meio, esta fórmula, é simplesmente um facilitismo. É mais fácil reagir às notícias diariamente do que encontrar algo diferente para dizer. Até porque já tudo foi dito uma e outra vez. Duvido que este texto tenha alguma coisa de original. Mas ao menos reajam à haute cuisine do pensamento político, não à fast food dos jornais. Ou tentem. Tentar já é meio caminho andado.

Quantas vezes é preciso dizer que o Presidente da República é inepto e movido pelo apelo popular e que o Primeiro Ministro é um arrivista, que muda o discurso conforme a plateia? Quantas vezes é necessário informar que as acções do governo são contraproducentes (como se em geral houvessem acções governamentais em democracia que sejam produtivas, e ainda por cima publicitadas nos jornais)? Quantas vezes é preciso apontar que o Bloco de Esquerda, o PCP e a Esquerda em geral são um cancro para a sociedade e a exemplificação da doença mental em forma política? Quantos posts são necessários para condenar a barbárie do Islão?

O ataque de Manchester, o mais recente exemplo da consequência lógica da Democracia, gerou inúmeros posts. E não era de esperar menos. O público assim o exige. No entanto, a Direita devia perguntar-se se a sua estratégia devia ser a mesma da Esquerda, isto é, apelar ao público. O apelo ao público, à plebe e à classe média plebeizada, que tem como resultado, e em alguns casos como objectivo, plebeizar ainda mais essa mesma classe média, é talvez o exemplo mais óbvio de que a Esquerda domina o discurso.

Isto sublinha a necessidade de novas elites de Direita, que em vez de apelarem ao público, o instruam. Que não se deixem arrastar para o mínimo denominador comum, mas pelo contrário tentem elevar a discussão. Que não corram em direcção ao vazio numa tentativa de reformar um sistema perverso por dentro, mas sim retornem a um modo de sanidade do discurso e se dediquem a discutir como sair do paradigma presente.

Agora, para ilustrar o meu argumento, vou ter de efectuar um comentário sobre o atentado de Manchester. O que salta à vista sobre o atentado em primeiro lugar é o seu carácter banal. Não há nada de excepcionalmente surpreendente no acontecimento, nem nas reacções à direita ou à esquerda. O barbarismo do Islão não é notícia, é rotina. O autismo da Esquerda não é só expectável como natural. A reacção ambígua e amoral das falsas elites políticas também é par for the course.

A verdadeira notícia sobre o atentado Manchester não é pois a violência, mas o relativismo moral do Ocidente. Essa deveria ser a preocupação da Direita.

Num “concerto” de uma stripper cantante, cujos cartazes que promovem o evento fazem alusão às coelhinhas da Playboy e ao sado-masoquismo, cujo “espectáculo” consiste em agitar-se semi-nua ao som de cacofonia sem qualquer redenção musical, com acompanhamento dançante de homens e mulheres que simulam actos sexuais (hetero e homo), cujo conteúdo lírico é essencialmente pornografia (pesquisem as letras se não acreditam), o que choca é a presença de crianças no evento. Que este facto não seja discutido, é preocupante. Eu tentei em vão procurar essa mesma discussão nos blogs de Direita, e não a encontrei.

As crianças morreram às mãos dos bárbaros porque a Democracia permitiu que eles entrassem nas nossas sociedades. Mas, mesmo que não se tivesse permitido a sua entrada, a cultura moderna no Ocidente continuaria a ser moral e intelectualmente degenerada. As vidas das crianças que morreram teriam sido salvas, mas não as suas almas. Porque as elites modernas continuariam na sua demissão, na sua cobardia, abandonando qualquer insistência em padrões artísticos e morais – ou sequer na simples rejeição da sexualização das crianças. A degeneração continuaria a ser promovida pela Esquerda, e à direita continuaria o silêncio gritante de quem não os tem no sítio para chamar os bois pelos nomes.

Este é o verdadeiro tema porque se a degeneração moral e intelectual do Ocidente não for resolvida, então o que resta para se salvar da nossa civilização? Porquê rejeitar os bárbaros? Essa é aliás uma das razões pelas quais os bárbaros nos vêm como presa fácil: uma civilização sem valores não dura muito mesmo sem invasão. A razão porque estamos abertos a essa invasão é precisamente por essa ausência de valores.

A Direita esqueceu-se que deveria ser moralista, e moralizante. Quer ser como a Esquerda. Para angariarem meia dúzia de plebeus, preferem mover-se intelectualmente na Overton Window, no discurso aceitável pelo consenso de Esquerda. Em suma, ao aderir ao meio da Esquerda (apelar ao público) a Direita transforma-se na Esquerda.

Por isso não é surpreendente que a Direita tenha tão pouca influência. Os seus comentários são o espelho da Esquerda, não uma interpretação independente. As suas reacções aos eventos são apenas sinalizações da sua posição no espectro político. Um espectro que é definido pela Esquerda. O seu meio é o mesmo, ou seja, a sua mensagem é a mesma.

2 overton usDaqui a dez anos, esta ‘Direita’ terá a mesma opinião que a Esquerda tem hoje – tal como essencialmente tem hoje a mesma opinião que a Esquerda tinha há dez anos (excepto talvez na Economia – é um tema difícil de desaprender). Um episódio caricato que ilustra bem a situação: há uns bons anos presenciei uma cena em que um padre se recusou a deixar entrar na igreja uma rapariga porque tinha os ombros destapados, e só  deixou quando ela, contrariada, os tapou. Hoje raparigas entram na igreja como se fossem à caça para o Intendente e ninguém diz nada. Provavelmente para não ferir as susceptibilidades progressistas dos pais, que deviam ter mais noção do que deixar a miúda vestir-se assim.

Com esta atitude, é impossível evitar que os postes da baliza se movam constantemente. O que é preciso é que a Direita saia de campo e jogue outro jogo.

O Liberalismo do presente é o Socialismo do futuro

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Antes de começar a expor os problemas da ideologia Liberal e evidenciar o porquê de ser necessário a Direita rejeitá-la, quero admitir (como um alcoólico em recuperação) que customava ser um ideólogo do Liberalismo e que a crítica abaixo se aplicaria em grande parte à minha visão do mundo ainda há uns anos atrás. Mas mais pertinentemente vou começar por salientar um facto que ilustra a minha tese central de forma caricata.

O facto é o seguinte. Nas sociedades em que o Liberalismo foi implementado (as anglo-saxónicas, e em especial, nos Estados Unidos da América), o significado do Liberalismo mudou radicalmente até passar a significar o seu contrário. Enquanto que na Europa continental o Liberalismo mantém, pelo menos em teoria, a liberdade individual (e subsequente defesa do mercado livre) como seu valor central, nas sociedades anglo-saxónicas o Liberalismo significa algo completamente diferente e quase totalmente oposto – que nas nossas sociedades continentais, que nunca tiveram Liberalismo, se designa como Social-Democracia. Resumindo: o Liberalismo é no mundo anglo-saxónico a ala moderada do Socialismo.

Por isso os liberais no mundo anglo-saxónico tiveram de encontrar uma nova forma de se designar. A designação escolhida foi Libertarianismo – curiosamente um termo que era originalmente usado para a vertente pacifista do Socialismo, talvez numa tentativa de vingança ou justiça poética pelo facto da Esquerda lhes ter roubado a palavra Liberalismo. Outras designações não tiveram uma aderência significativa, e apesar de manterem o seu nicho militante (como outras designações de Comunismo), os liberais passaram maioritariamente a designar-se a eles mesmos como Libertários.

Não surpreendentemente, e sem ser necessário terem chegado ao poder (algo impossível, dado que uma sociedade de origem liberal passadas várias décadas não volta às suas origens – veremos já porquê), os libertários já começaram a ter a sua nova designação infiltrada e, em breve, redefinida. O processo está em marcha para tornar o Libertarianismo no novo Liberalismo, ou seja, noutra ideologia inteiramente de Esquerda que representa algo diferente daquilo que era suposto representar. Poderia dar vários exemplos desta redefinição, mas tornar-se-ia aborrecido, por isso vou apenas deixar um nome: Gary Johnson.

Esta redefinição não é uma coincidência, mas um resultado inevitável do ethos do Estado Liberal. Alguns liberais poderão argumentar, como muitos comunistas argumentam desavergonhadamente, que o ‘Verdadeiro Liberalismo’ (com letras maiúsculas) nunca foi tentado – e só lhes dou razão se esses liberais estiverem a falar de anarco-capitalismo, mas geralmente não estão. Pelo que é, em ambos os casos (e como os liberais identificam no caso dos comunistas) apenas retórica para evitarem a realidade.

O Liberalismo é a verdadeira via do meio: nem de Direita, nem de Esquerda. A lula política por excelência. Da Direita retira o respeito pela propriedade privada – e daí extrai uma concepção secular de Livre Arbítrio (LA) – um tema que quero abordar em particular noutra altura; da Esquerda retira o igualitarismo (resultado da tal interpretação secular do LA).

O problema do Liberalismo é precisamente ser uma ideologia igualitária, e portanto indiscriminadamente tolerante. O ethos Liberal não diz nada sobre valores fundamentais, mas sim sobre liberdades fundamentais. É um ethos negativo, não positivo. Por ser igualitário, o Liberalismo é inapelavelmente Democrata. E por esta razão, degenera com a passagem do tempo e progressivamente na sua face de Esquerda, perdendo totalmente a sua parte de Direita.

O Liberalismo é uma óptima ideia para a elite, mas um desastre para a plebe. Antes de explicar porquê, uma palavra sobre as classes.

As diferenças entre classes podem essencialmente ser explicadas pela alta ou baixa preferência temporal – a plebe tem uma alta preferência temporal, vive obcecada com o presente e com a satisfacção dos seus desejos imediatos em detrimento da sua existência futura, enquanto que a elite tem uma baixa preferência temporal e é capaz de controlar os seus desejos presentes em prole da sua existência futura. Em geral, a alta ou baixa preferência temporal está ligada ao QI. Algures no meio, está a classe média.Um homem nascido na plebe com um QI acima da média, e se o nível de socialismo na sua sociedade for tolerável, não fará para sempre parte dessa classe. Um homem nascido na elite mas com um QI abaixo da média, tenderá a esbanjar a herança que lhe deixaram e a abandonar a elite.

A razão porque o Liberalismo é destrutivo para a plebe é porque assume que todos os seres humanos devem ter a possibilidade de escolher os seus próprios valores (o Secularismo é outra parte do igualitarismo que os Liberais fundamentalmente aprovam). Na prática, o Liberalismo não tem problemas com qualquer tipo de imoralidade, nem com a destruição pessoal através da mesma. Afinal, somos todos individuos e todos devemos ter a liberdade de nos auto-destruirmos. O problema é que a permissão da imoralidade e da auto-destruição não tem o mesmo resultado entre a elite que tem entre a plebe. Homens da elite saberão na maioria dos casos manter a sua imoralidade e auto-destruição a um nível moderado, não pondo em causa a sua existência futura, e por isso contendo-as essencialmente a si. Homens da plebe, pelo contrário, destruirão a sua vida, a dos filhos e a da comunidade. E, através da Democracia, destruirão também o país.

A plebe não tem a capacidade de se auto-moderar para salvar a própria vida. E o Estado Liberal, mantendo o seu ethos negativo, não tem meios, nem vontade, de evitar este desastre. Dito de outra forma, o Liberalismo é incapaz de formar cidadãos Liberais, acabando por formar cidadãos libertinos que, através da democracia, acabarão por destruir não só o Liberalismo mas também todas as liberdades.

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Isto porque o Estado Liberal não é apenas incapaz de evitar o naufrágio moral da plebe, mas igualmente incapaz de eliminar ideias e movimentos políticos que pretendam usar a plebe para destruir o seu ethos negativo – isto é, ideias e movimentos que propõem a violação dos seus princípios básicos, ou até que proponham abertamente a insurreição, o caos e o totalitarismo. Tanto o hedonismo e o niilismo como os vários tipos de socialismo, incluindo os revolucionários, são vistos pelo Estado Liberal, apesar das suas óbvias consequências de barbárie e miséria para a sociedade, como legítimos – pelo menos de um ponto de vista teórico. Se o Estado Liberal trata a incitação individual à violência com a força da Lei, trata a incitação colectiva a uma forma massiva de violência e subversão com diálogo e posições nas universidades e nos meios de comunicação.

Pelo que a plebe, vergada pela sua incapacidade de auto-moderação, votará em respostas iatrogénicas (socialismo) para adereçar os resultados da ausência de valores fundamentais a que foi entregue. E com o tempo, o Estado Liberal transforma-se, pela rotatividade das eleições de sufrágio universal, numa sistematica e virulenta rejeição da ideia de propriedade privada. De Direita, nada restará.

Eis a história do Liberalismo realizado na prática: uma transição, mais lenta ou mais acelerada, para o socialismo e o relativismo moral. O resultado é observável na política, na economia e na cultura. E por isso é necessário que a Direita, se não quiser acabar transformada em Esquerda, rejeite o Liberalismo.

Porque todos os partidos em Portugal são de Esquerda

Para começar a entender o título deste texto, é preciso compreender que em democracia a Direita não tem direito a existir. Na medida em que existem partidos nominalmente de Direita, que são identificados como de Direita pelas elites e que se identificam como de Direita perante o povo, eles existem apenas dentro de um espectro de opinião aceitável que é determinado pela Esquerda.

A opinião aceitável em democracia é determinada pela Esquerda porque a democracia é uma ideia de Esquerda e não permite que se pense fora da sua caixa. Se analisarmos as prescrições políticas dos vários partidos, verificamos que elas não diferem em substância. O espectro de opinião, de resto, é o mesmo que se ensina nas escolas – e que vai da Extrema-Esquerda até ao Centro, e relega a verdadeira Direita para o reino da imaginação. Se existe, é apenas num plano histórico. E mesmo nesse plano histórico, qualquer menção é uma crítica e qualquer julgamento vem com um premeditado veredicto. A democracia admite tudo o que é a seu favor, e nada do que é contra si.

Quem questiona a democracia não vai preso, porque não é necessário. Essencialmente não existe órgão oficial que a questione. Através da doutrinação política suave das escolas, das televisões, das rádios e dos jornais, não há necessidade de suprimir tais ideias. Matam-se à nascença ou ainda antes de nascer (uma ideia que a Esquerda aplica também aos seres humanos). Se porventura surgir uma criatura que dispute o consenso democrático, é ignorar. E se porventura o silêncio não funcionar, é ridicularizar a criatura como digna de internamento num manicómio.

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Legenda: à esquerda encontramos os Partidos democráticos. À direita temos, por ordem, Marcelo Caetano (que provavelmente deveria aparecer mais ao meio), António de Oliveira Salazar, António Sardinha (em cima) e Henrique Paiva Couceiro (em baixo). Inclui-os mais pela piada. Para o objectivo do texto, dado que é sobre o momento actual, podem imaginar a parte da Direita vazia.

Da economia à integração na União Europeia, os partidos democráticos não se distinguem particularmente uns dos outros. Se alguém conseguir ler os programas eleitorais e não morrer de tédio (confesso que tresli apenas, e sem muita atenção), poderá verificar que isto é essencialmente um truísmo.

Embora seja claro que o MRPP está mais à esquerda que o PNR, as diferenças não são muitas, nem fáceis de identificar. Por exemplo, no programa do PNR consta muita renegociação e reimaginação, mas não há nada que indique a saída da União Europeia (embora queiram sair do espaço Schengen), ou a saída da zona Euro. Já o MRPP, que não tem um programa eleitoral que se possa encontrar, provavelmente porque a sua existência é cosmética apenas – e devemos dar crédito à sanidade dos seus líderes por omitirem um documento que certamente ninguém iria ler – tem um manifesto onde entre outras coisas propõe a saída do Euro e a introdução de um novo escudo. Esse escudo, claro, não seria baseado no padrão ouro, e seria imediatamente inflacionado até valer exactamente zero – mas ao menos reconhecem parte do problema. Tendo em conta de quem estamos a falar, já não é mau.

Isto para demonstrar que da extrema-esquerda à ‘extrema-direita’ não vai muito. Dos partidos do centro nem vale a pena falar. Mas falemos brevemente. Distinguem-se uns dos outros apenas no seguinte: há os que são orgulhosamente herdeiros de Marx, Lenine, Trotsky e Estaline (entre outras encarnações menos emblemáticas e mais recentes) e os que são acólitos modernos da Catedral, e que apesar de na sua génese terem o mesmo marxismo, têm pudor em revelá-lo (possivelmente porque, tendo em conta o nível intelectual das suas figuras, também não sabem). Em alguns casos particulares, já de si raros, incluem uma tímida alusão ao Cristianismo, sem que daí tirem qualquer conclusão política. O CDS, por exemplo, fala no seu programa eleitoral no capítulo dos ‘princípios éticos’ em ser, moralmente, contra o aborto. E no entanto, nos capítulos sobre políticas concretas, não fala na sua proibição, ou nem sequer de um referendo específico sobre o assunto (embora uma das suas posições base seja fazer referendos por tudo e mais alguma coisa). O CDS tem pontos extra por iniciar o seu programa em forma de poesia, que é sempre bonito. Para terminar, menciono o PPM, que declara num acesso de radicalismo querer substituir a III República por uma Monarquia Constitucional. Que arrojado.

Isto, meus caros, é um inventário da miséria. E se por um momento se pensar que algum destes partidos, tendo ganho eleições e enchido as sinecuras com as suas cabeças, vai cumprir alguma alínea dos seus programas eleitorais, não há caso para pânico. É ciência certa que tal não vai suceder. Podemos dormir descansados.

Esta situação não é uma surpresa. A abolição da Direita é uma consequência inevitável do sistema democrático. Vários factores, que começaram a surgir ainda no Estado Novo, em particular quando Marcelo Caetano tomou o poder, podem ser apontados mas é mais importante perceber o cerne da questão: em Democracia o discurso político ou é de Esquerda, ou não existe. Na marcha imparável para o progresso, os postes da baliza política movem-se constantemente para a Esquerda. E os partidos e movimentos de ‘Direita’ ou aceitam o novo consenso, ou arriscam-se a ser apelidados de extremistas. O PNR pretende ser uma versão lusitana e sanitizada do NSDAP, sem racismo e sem violência. Por isto, é apelidado de extrema-direita. E no entanto, o NSDAP era de Esquerda. Acho que posso considerar o meu argumento adequadamente ilustrado.

Agora que definimos o problema, convém ir mais fundo para se perceber, afinal, o porquê de não existir Direita verdadeira. A Direita verdadeira é antidemocrática, tradicionalista, de preferência monárquica, descentralizadora. Pode dizer-se que quer um Estado pequeno, mas forte. Ou seja, é o exacto oposto da Esquerda, que é democrática, intransigentemente republicana, centralizadora, progressista – o que resulta num Estado enorme, mas fraco.

Há uma frase de Salazar que é icónica, que descreve a solução para o problema e identifica a origem do mesmo:

Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a Pátria e a sua história. Não discutimos a autoridade e o seu prestígio. Não discutimos a família e a sua moral. Não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.

Na prática, isto pressupõe suprimir essas mesmas discussões na esfera pública em geral e em órgãos oficiais em particular – que era de facto o que sucedia durante Salazar. Antes de se horrorizarem com a proposta de suprimir alguma coisa (porque em democracia é impensável suprimir opiniões políticas da vida pública – a menos, claro, que sejam opiniões de Direita), convém perceber que existem razões para o que acima vem descrito não ser discutido.

É óbvio que a discussão de Deus e da virtude, degenera no relativismo moral. Que a discussão da Pátria e da sua história degenera no fim da autonomia nacional e na entrega da soberania a entidades exteriores. Que a discussão da autoridade ameaça todas as relações hierárquicas e põe todos os que devem obedecer contra todos os que devem mandar (mulheres contra maridos, filhos contra pais, alunos contra professores, etc e tal). Que se discutirmos a família e a sua moral, aceitamos a promoção de estilos de vida alternativos (sejam eles homossexuais ou a simples assistência à filiação ilegítima e às mães solteiras). Que quando se discute a glória do trabalho e o seu dever, abrimos a porta aos subsídios que destroem comunidades e os indivíduos que delas fazem parte.

A partir do momento em que estas coisas se começam a discutir, quer dizer que não são absolutas. e a partir do momento em que não são absolutas, podem ser substituídas. Para uma ilustração prática, é olhar para Portugal – ou, se insistirmos em estrangeirismos, para a civilização ocidental desde a Revolução Francesa.

O que se observa em paralelo, e que arranca acelerando em direcção ao extremismo, é o avançar da discussão e da substituição desses valores (por outros, de Esquerda). Mais uma vez, isto não é só um problema português. Em Portugal começou nos anos 60, mas em muitos outros países, com uma tradição democrática mais antiga, começou antes. A verdade é que a viragem à esquerda é hoje em dia, em quase todo o mundo civilizado, praticamente total.

Mas não só os valores tradicionais se tornaram discutíveis, primeiro, e depois descartáveis, agora são intocáveis: é na prática, mesmo que não na lei, proibido advogar as posições tradicionais pelo preço social, económico e político que fazê-lo tem para qualquer indivíduo ou organização. Daí que um partido de centro esquerda como o PNR seja um pária no panorama político – mesmo sem defender na realidade nada que se distinga do consenso democrático da Catedral. E de qualquer das formas, atrai maioritariamente pessoas com pouca capacidade intelectual e que não têm nada a perder – e que por isso mesmo, ainda acabam por denegrir mais perante o cidadão comum a ideia de Direita.

E para as pessoas que se identificam como de Direita, e que no fundo só clamam pelo direito à existência, mesmo que seja uma existência limitada pelo consenso democrático, é importante que entendam que essa existência não é estática. Ontem podiam acreditar em coisas que hoje já não podem. Amanhã, sabe-se lá em quê é que poderão acreditar. Como dissemos, os postes continuam a ser movidos: há uns meses uma conferência inócua que Jaime Nogueira Pinto quis fazer sobre temas absolutamente não controversos (no fundo, sobre a eleição de partidos democráticos mais ou menos nacionalistas) foi cancelada por cobardia face à intimidação de ‘alunos’ e professores de extrema-esquerda e com a indiferença da maioria.

Depois não digam que não vos avisei.

Uma nova Direita

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Não é difícil adivinhar, vendo a comédia negra que é a governação do país, que os anos que restam a este governo vão cimentar o caos e a pobreza em Portugal, enquanto enriquecem as falsas elites de Lisboa.

Embora os paralelos com a situação pré-Salazar não sejam exactos, continuam a existir. A política dos partidos é mais uma vez (porque na realidade é a sua tendência natural) uma mera ferramenta de enriquecimento privado e troca de favores. O próprio governo só existe por uma coligação póstuma inventada pela simples vontade de ter poder e encher os bolsos com as esmolas da União. As esmolas não vêm sem directivas, e é claro que este governo, tal como todos os que precederam em democracia, se deleita em promover diligentemente a degradação moral, social e económica do país.

Tal como na Primeira República, a Terceira está soterrada em dívida pública que hipoteca o futuro dos nossos descendentes. E tal como na Primeira República, a situação não é só da responsabilidade da Esquerda oficial, porque a Direita limita-se a ser uma versão suave da Esquerda, compactuando em todos os pontos com o seu programa: economicamente tenta ser mais moderada, mas não arrisca afrontar o status-quo pois isso podia custar-lhe empregos e reformas chorudas, garantidas para a vida com o suor dos portugueses.

Agora como antes, o povo Português abomina secretamente as fraquíssimas elites – políticas, intelectuais e económicas. O povo Português não acredita nos partidos, e vota só como ritual macabro a que se resignou porque não tem alternativa. O regime é de Esquerda, e a Direita essencialmente não existe ou existe só dentro dos limites em que a Esquerda a permite existir.

Lisboa está mais uma vez completamente desligada das preocupações do país real. Andar por Lisboa – como, admita-se, andar por qualquer capital do mundo ocidental – demonstra a decadência do sistema: a degeneração moral, a podridão das infrastruturas, o consumismo desenfreado, a propagação de elementos estrangeiros inassimiláveis – no fundo, a desintegração da sociedade Portuguesa: desintegração moral, social e material.

Nos cem anos das aparições de Fátima, que foram o prenúncio simbólico da reacção tradicionalista, urge perguntar se Portugal ainda tem futuro.

Poderá uma nova Direita surgir do nevoeiro, como na épica lenda, e trazer Portugal de volta à razão?