Música Integral #2

01Guillaume_de_MachautNa edição de hoje trago-vos uma das minhas peças musicais favoritas, que me arrebatou desde a primeira vez que a ouvi há muitos anos atrás: a curta e singela ‘Hoquetus David’.

Composta pelo francês Guillaume de Machaut, possivelmente o mais conhecido e aclamado compositor da Baixa Idade Média, era também poeta e igualmente aclamado pela sua poesia. Na sua época, não era comum que se conhecesse detalhes biográficos de compositores (ou artistas em geral), pois o foco era na obra, não no homem. No entanto, Machaut acabou mesmo por se tornar o primeiro para quem esta regra se quebrou, talvez por ter sido também relativamente famoso durante a sua vida. A sua história pessoal, que incluiu ser secretário pessoal de João I da Boémia e acompanhá-lo em expedições militares, ser cónego e sobreviver à Peste Negra, é também de interesse,

Pertencendo a um ‘movimento’ musical a que se chamou ‘ars nova‘ (técnica nova), em oposição à antiga, Machaut ajudou a definir e aprofundar a música da sua época, influenciando a do futuro, escrevendo e sendo aclamado tanto pela sua música sacra como secular. A sua peça mais conhecida acabou mesmo por ser a Missa de Notre Dame, ainda hoje cantada pelo mundo.

A minha peça favorita do compositor, no entanto, continua a ser esta que vos trago hoje, geralmente instrumental (algo raro na época), mas também com versões à capela. A minha versão favorita é esta aqui em baixo, tocada com uma espécie de trombetas cujo nome não consegui apurar. Quando alguém vos repetir a fábula torpe de que a Idade Média era uma época de trevas, mostrem-lhes fotografias das Igrejas da época pela Europa fora, com esta música em pano de fundo.

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Musica Integral #1

Liszt-kaulbach.jpgHá uns dias recebi um email de uma leitora, reproduzido abaixo, que me deu a ideia de iniciar uma rubrica neste blog para partilhar peças musicais.

Sendo a música um dos meus principais e mais antigos interesses, e apesar de não costumar falar desse tema aqui, é sempre entusiasmante para mim descobrir novas peças, sobretudo se forem belas – como é o caso desta peça sugerida. Daí surgiu a ideia de recomendar aos leitores música que talvez não conheçam, por ser de compositores mais obscuros ou peças menos conhecidas de compositores mais famosos.

Para quem achar que isto não se encaixa na temática do blog, posso apenas dizer que se procuramos uma restauração civilizacional não podemos cair na armadilha de pensar que pode ser feita somente através de política. Como já disse várias vezes: não podemos rejeitar apenas uma parte da degeneração da modernidade, temos de rejeitá-la em todas as suas vertentes. Se a nossa sociedade reverencia e promove o feio, o aberrante e o cínico, e que como tal destruiu o conceito de Arte, é salutar ressuscitar a apreciação da beleza. E nenhuma outra Arte representa a beleza na sua forma mais pura e despida do que a música.

Para a edição de hoje, passamos a palavra à leitora:

Envio esta mensagem com o propósito de contribuir para a divulgação musical, apesar de esse não ser o âmbito deste blog.

Assim sendo, proponho a audição de uma peça musical da autoria do compositor húngaro Franz Liszt.

A composição intitula-se Benediction de Dieu dans la Solitude (A Benção de Deus na Solidão) e integra o ciclo peças para piano Harmonias Poéticas e Religiosas. Este ciclo baseia-se na obra literária homónima do poeta francês Alphonse de Lamartine.
A peça musical apresentada para audição corresponde à tradução em música do seguinte poema:

De onde vem, ó meu Deus, esta paz que me inunda?
De onde vem esta fé que agora invade meu coração?
A mim que, a todo o instante, incerto, agitado,
E nas ondas ondas da dúvida balançado,
Aos quatro ventos, buscava o bem, o verdadeiro, no sonho dos sábios,
E a paz nos corações ecoando na tempestade.
Sobre a minha fronte, mal deslizaram alguns dias,
Parece que um século e um mundo passaram,
E que separado deles por um abismo imenso,
Um novo homem em mim renasce.e começa.

Franz Liszt é um compositor relativamente negligenciado e a descoberta desta música em particular foi uma agradável surpresa pela profunda espiritualidade que transmite.