‘Pregar aos convertidos’ e algumas sugestões

UPDATE @ 18:57: um pouco depois de publicar o texto, encontrei isto que ilustra perfeitamente o meu argumento quanto ao problema de querer apelar às massas. No video vemos um dos ‘nacionalistas cívicos’ mais populares, Tommy Robinson, a chamar ao palco de um evento político um drag queen e a aplaudir-lhe a bravura. Isto é o que acontece quando se quer ser ‘big tent’.

A ideia para este texto surgiu de uma conversa que tive com o Afonso de Portugal, na caixa de comentários deste post.

A ideia de que ‘pregamos aos convertidos’ é algo que já terá ocorrido a todos os autores cujas ideias são diferentes do mainstream, sobretudo desde o advento da Internet. Com a possibilidade de chegar directamente a um vasto público vem a sensação de fracasso e o sentimento de frustração quando o não conseguimos concretizar, e em vez disso parece que escrevemos apenas para o pequeno grupo que já nos conhece. Talvez ainda mais descoroçoante seja realizar que nunca chegaremos a influenciar com os nossos escritos um número considerável de pessoas. Esta última asserção não é partilhada por todos. Pelo contrário, muitos dos meus pares têm ainda como objectivo alcançar as massas e convertê-las à causa. Aqui vou expor as razões porque acho que tal não é possível, nem desejável, no estágio presente do nosso movimento.

Como o Afonso aponta e bem a “blogosfera tem perdido muitos leitores nos últimos anos, em grande parte devido às redes sociais”. O imediatismo junta-se às injecções de dopamina por cada reacção nessas redes, algo que os blogs não podem replicar, e com o qual não podem portanto competir. Junte-se a isso o facto de os ‘nacionalistas’ e ‘tradicionalistas’ não terem conseguido ‘ter um impacto visível’ nas redes sociais. Penso que há formas de utilizar as redes sociais de forma benéfica a nosso favor, mas falarei mais à frente deste aspecto. O que não considero é que alguma vez consigamos ter o mesmo nível de impacto, ou sequer parecido, que personalidades e grupos do mainstream têm.

O Afonso compara, por exemplo, as audiências gigantescas de miúdos parvos no Youtube com o insucesso numérico dos nacionalistas, e conclui “Ou encontramos formas eficazes de seduzir os nossos potenciais eleitores ou estamos condenados a continuar a falar para meia-dúzia de pessoas que já pensam como nós. Isto é um problema muito sério, a que poucos no movimento nacionalista têm dado atenção. É preciso aprendermos a vender o nosso peixe, ou continuaremos a perder as batalhas e, no final, a guerra!“. Eu concordo, mas acho que o mais importante é saber o que estamos a vender. A publicidade direccionada gera muito mais frutos do que a indiscriminada: a BMW não vai fazer publicidade num bairro social, mas em bairros de classe média alta. Ou seja, temos de saber quem são os consumidores da nossa particular espécie de ‘peixe’. Para isso temos de saber que ‘peixe’ é (se queremos atrair as massas ou atrair um número mais reduzido de homens capazes e rectos) e tal como os publicitários da BMW sabem identificar quem tem meios financeiros de comprar BMWs, nós temos de saber quem tem meios intelectuais de ‘comprar’ as nossas ideias.

Considere-se o cidadão comum: aquele que obtém toda a sua informação de fontes oficiais e desconfia de tudo o que não venha com o selo dessas fontes; que papa novelas, reality shows ou filmes de superheróis; que ouve a música terrível e degradante que dá na rádio, etc. Ou considere-se até o intelectual comum (estudante universitário, professor, jornalista, etc), cujo bem estar e estabilidade financeira (para não falar da psicológica) dependem da sua aderência aos lugares comuns do nosso tempo. Consegue-se imaginar que as nossas ideias os convençam? Terão capacidade intelectual, ou honestidade moral, para sequer as entreterem seriamente?

Eu não concordo que se possa instruir as massas pois por definição estas são insusceptíveis de instrução. Isto pode soar excessivamente elitista mas não somos nós contra a ideia de igualdade? Não reconhecemos a naturalidade das hierarquias? Só porque a Internet oferece a possibilidade de se chegar a um número elevado de pessoas, não significa que todo o tipo de ideias possam ser adoptadas (ou sequer consideradas) pela maioria. A Internet mudou os meios de comunicação, mas não mudou a natureza humana. Esta incapacidade das massas de pensar em problemas sociais não existe apenas na nossa sociedade, existiu em todas as do passado e existirá em todas as do futuro. Simplesmente não é útil ou possível ao cidadão comum pensar sobre questões complexas de organização social ou teor moral. Vários psicólogos sugerem até aos seus pacientes que se deixem de preocupar com tais assuntos pois estão fora da sua esfera de influência e controlo e como tal tendem a gerar sentimentos de ansiedade e stress. Tudo indica que somos nós, os que pensamos a fundo e frequentemente sobre estes assuntos, e não eles, que os ignoram, os verdadeiros ‘malucos’, pois dedicamos o nosso tempo a assuntos que estão largamente fora da nossa esfera de influência directa. Ou seja e em suma: nunca chegaremos a 99% dos fãs dos miúdos parvos do Youtube.

Depois há a questão de que o nosso canto da Internet é considerado radical pois está fora do espectro do discurso aceitável. Tendo em conta a natureza das mulheres e a quantidade de homens efeminados para quem seguir a linha oficial em assuntos desta dont-think.jpgnatureza é absolutamente essencial para a sua estabilidade psicológica, para quem estar alinhado com as opiniões do zeitgeist constitui um selo de aprovação da sua existência, podemos descontar também estes – mesmo tendo QIs medianos ou até acima da média, a sua disposição psicológica não lhes permite entreter as nossas ideias, até que elas tenham algum peso e consequência fora dos meios intelectuais. Mesmo que o zeitgeist vá contra os seus interesses directos como sabemos ir, a panaceia do politicamente correcto é o ópio que lhes permite funcionar em sociedade e distraí-los da dissonância cognitiva. Para estes, e até sermos um exemplo a seguir, não na Internet mas na prática, continuaremos a ser uma ameaça à estabilidade mental destas pessoas e à estabilidade social que pensam depender da aderência ao zeitgeist. Mais uma vez somos nós os ‘malucos’, que rejeitamos o conforto psicológico que surge da aceitação da mundividência vigente.

É portanto duvidoso, no mínimo, que consigamos atrair um número considerável de pessoas para aquela que é uma esfera por enquanto puramente intelectual e, pior, das franjas. Mas será isto uma tragédia?

Não creio. Primeiro, como se costumava dizer, o que não tem remédio, remediado está. Não acho que alguma vez consigamos alterar a natureza humana que torna as considerações acima apresentadas uma realidade, e não penso que essas considerações possam ser disputadas. Mas se tentar apelar às massas é maioritariamente uma perda de tempo – pelas razões apresentadas acima – pode ser também potencialmente prejudicial. E passo a explicar porquê.

Desde 2016 que tenho observado a evolução de vários ‘movimentos’ que ganharam uma maior proeminência com o fenómeno Trump. De repente, estas franjas não eram tão minoritárias, apelavam a um número cada vez maior de pessoas, incluindo pessoas como as que descrevi anteriormente. O que sucedeu com esse alargamento, no entanto, foi que para o efectuar teve de se fazer um enorme número de concessões tácticas, como ClA8HJ2VEAA8oOwacrescentar água ao leite até ficar só um líquido nojento que não é nem uma coisa nem outra. Da mensagem nacionalista e tradicionalista, para apelar às massas, ficou só uma tímida e reduzida ideia de ‘nacionalismo cívico’ – a ideia de que podemos ter uma sociedade multiracial desde que os imigrantes se ‘integrem’ na nossa cultura presente – e o exacto progressismo que defende essa cultura presente contra o qual nos insurgimos. A única coisa que ficou entrincheirada foi a oposição ao Islão – mas há boas e más razões para se lhe opor, e esta estirpe (a popular), a que apela a um número considerável, opõe-se por más razões. Os seus argumentos vão todos no sentido de defender as ‘liberdades’ Ocidentais – aquelas que são a principal causa da degeneração moral e étnica da nossa civilização. Ou seja, para apelar às massas, foi preciso prestar tributo aos dogmas da nossa época, e fazê-lo inclusivamente através da estupidificação dos meios (alguns dos Youtubers mais populares desta estirpe são francamente embaraçosos, pois querem ser comentadores sérios e, ao mesmo tempo, editar os seus videos de forma a captar a atenção dos tais miúdos parvos que não conseguem prestar atenção a nada que seja sério e sóbrio).

Repare-se quem são as figuras mais populares desta estirpe mais mediática: sodomitas, mulheres, minorias étnicas, travestis. Não são os homens brancos heterossexuais que criaram e defenderam a doutrina original e não conspurcada, mas sim papagueadores imitativos Kanye-MAGApertencentes aos grupos que têm algumas medalhas nas Olimpiadas da Opressão e que portanto são passíveis de serem ouvidos pela populaça. Note-se um exemplo recente e hilariante: quando Kanye West (um homem desequilibrado e sem talento) decidiu que afinal Trump era do seu agrado, e foi ligeiramente contra o zeitgeist neste aspecto, a plebe que foi atraída pela versão ‘aguada’ do movimento entrou em euforia por ter a validação de uma das vacas sagradas do progressismo (alguém que não fosse branco), e também por ser alguém tão popular (por partilharem a opinião de que a popularidade é em si mesma uma coisa boa). O mesmo se observou amiúde com outras vacas sagradas: sodomitas como o Milo Yiannopoulos, trad thots (‘putéfias tradicionalistas’) como a Lauren Southern, ou 7efda4313127bb3389b11be36caa10d7-d596isxtravestis como o Blair White. Eu não quero estas pessoas no meu grupo, não só porque apresentam uma versão domesticada e bastardizada daquilo em que acredito, mas porque aquilo que são na prática contradiz a teoria. Não podemos promover um patriarcado tradicional etnicamente coeso através de mulheres, sodomitas e minorias étnicas. É um contrasenso. O próprio PNR, que muitos ainda consideram uma alternativa viável, já começou a desfilar afrodescendentes para se tornar mais moderno e acessível ao cidadão comum que grita de horror quando lhe dizem que Portugal devia ser dos Portugueses. Quanto tempo até o PNR ter o seu ‘nacionalista genderqueer’ para angariar votos entre desviantes e os seus defensores? Quanto tempo até ter a sua ‘putéfia tradicionalista’ para lucrar com a frustração sexual e a falta de masculinidade das novas gerações? Em suma, as pessoas que estes fantoches atraiem não são pessoas que queiramos atrair, nem são na sua maioria pessoas passíveis de serem convertidas. E as que forem passíveis de conversão não convém que o sejam à doutrina enfraquecida através de personagens semi-progressistas. Se o forem, devem ser à doutrina verdadeira, através de homens brancos heterossexuais, que representam na prática aquilo que advogam na teoria.

Resta o argumento do ‘stepping stone’, isto é, que estas personagens e as suas versões degeneradas da doutrina servem de porta de entrada para a versão dura, mas nunca observei nenhum participante sério ter sido trazido por este meio. O que observei foi uma catrefada de desviantes sexuais, minorias étnicas e homens sexualmente frustrados que enfraquecem o movimento e nunca chegam ao patamar superior. Os que por acaso se radicalizam contaminam com drama, e por vezes até doxing, porque cotinuam a ser os mesmos seres fracos e efeminados que ainda ontem acreditavam na cantilena progressista e que se juntaram ao movimento apenas por interesse, ou para satisfazer uma necessidade de pertença nascida da sua fraqueza.

Algo que já é vastamente reconhecido como necessário é a exclusão e condenação dos elementos violentos, ‘neonazis’, etc. Reconhece-se que para a percepção do homem comum ter ‘neonazis’ caricaturais a utilizar meios violentos só serve para descredibilizar e dar uma ideia errada das nossas intenções. Também eles pertencem ao grupo dos QIs baixos, mas por frustração, trauma ou disposição (ou uma combinação destes factores), são atraídos pelas franjas políticas. Mas é notório que não servem para dar uma ideia correcta daquilo que representamos, nem servem como aliados, pelo menos enquanto o movimento não existir com racionalidade e organização, e enquanto não existirem instituições próprias e liderança clara. As massas são seguidoras por natureza, mas por enquanto ainda não há nada que possam seguir, pois o movimento é ainda puramente intelectual e desorganizado.

Por todas estas razões, pregar aos convertidos é um fado inevitável, mas não é tão espúrio como se possa pensar. Há óptimas e importantes razões para se continuar a falar àqueles que já estão do nosso lado, sem moderar a mensagem. Fazê-lo endurece a convicção e assegura os participantes de que não estão sozinhos (também nós somos humanos e sofremos das mesmas disposições psicológicas que fazem com que necessitemos, até certo ponto, de saber que existe quem concorde connosco); clarifica a doutrina e expurga-a de degenerações, desvios e concessões. E através destas duas consequências da pregação aos convertidos pode chegar-se a um entendimento sobre os valores, causas e objectivos do movimento, sobre qual se pode erigir algo mais concreto. O facto de neste momento ser ainda difuso e disperso não implica que seja para sempre assim. E esta pregação não exclui a conversão de novos membros, pelo contrário, garante que se convertem os membros certos. O que é preciso ter em conta é que para se efectuar uma conversão o converso já tem de estar aberto a ser convertido. Homens curiosos e intelectualmente honestos procurar-nos-ão para essa conversão, se já estiverem abertos a ela. E para cumprir estes dois desígnios é preciso não nos deixarmos desencorajar e continuar a pregar.

Falarei noutro texto sobre um plano de acção que vá além dos esforços intelectuais, mas aqui quero deixar apenas algumas sugestões em relação a este aspecto e tendo em conta a situação presente, no sentido de atrair aqueles que já andam à procura de algo e que potencialmente o encontrarão entre nós:

1) Os blogs que tratem maioritariamente de notícias e ofereçam a nossa perspectiva dos eventos noticiados ganhavam bastante em manter uma presença regular nas redes sociais populares (sobretudo no Twitter), para publicitarem os posts e contactarem potenciais ‘conversos’. Usando os hashtags, categorias, etc, para ligar os posts aos assuntos do dia, e interagir com figuras da Direita moderada (‘Insurgentes’, ‘Blasfemos’, etc), não para os converter a eles, mas para ilustrar a alguns dos seus leitores potencialmente convertíveis que existem perspectivas diferentes sobre os assuntos.

2) Criar contas em redes sociais alternativas (Gab, Minds, etc), para direccionar a partir das contas nas redes populares e encorajar o maior número possível a migrar para estas plataformas alternativas.

3) Blogs que façam posts curtos podem converter uma boa parte do seu conteúdo em posts nas redes sociais. O conteúdo imediatista oferece-se a este tipo de plataforma bem mais do que ao formato blog, deixando este para conteúdos mais longos. Se esses posts curtos forem sobre notícias deixá-los nas caixas de comentários dos jornais (e também dos blogs da Direita moderada) com links para os blogs pode trazer alguns curiosos.

4) Uma última consideração sobre a importância que a questão estética tem para o primeiro contacto: muitos dos blogs deste canto da Internet têm infelizmente uma estética descuidada, por vezes kitsch ou até casos crassos de desformatação que causam uma aversão automática em qualquer novo leitor. A questão estética pode parecer supérflua ou mesquinha, mas a meu ver a aparência sinaliza algo sobre o conteúdo: da mesma forma que um homem deve apresentar-se em público lavado e vestido de forma civilizada para ser levado a sério, o mesmo pode ser dito sobre os blogs e a sua aparência. Pode não ser justo julgar-se um livro pela capa, mas a verdade é que sucede e provavelmente vai sempre suceder. Um pequeno esforço neste sentido faria uma diferença tremenda.

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O Liberalismo do presente é o Socialismo do futuro

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Antes de começar a expor os problemas da ideologia Liberal e evidenciar o porquê de ser necessário a Direita rejeitá-la, quero admitir (como um alcoólico em recuperação) que customava ser um ideólogo do Liberalismo e que a crítica abaixo se aplicaria em grande parte à minha visão do mundo ainda há uns anos atrás. Mas mais pertinentemente vou começar por salientar um facto que ilustra a minha tese central de forma caricata.

O facto é o seguinte. Nas sociedades em que o Liberalismo foi implementado (as anglo-saxónicas, e em especial, nos Estados Unidos da América), o significado do Liberalismo mudou radicalmente até passar a significar o seu contrário. Enquanto que na Europa continental o Liberalismo mantém, pelo menos em teoria, a liberdade individual (e subsequente defesa do mercado livre) como seu valor central, nas sociedades anglo-saxónicas o Liberalismo significa algo completamente diferente e quase totalmente oposto – que nas nossas sociedades continentais, que nunca tiveram Liberalismo, se designa como Social-Democracia. Resumindo: o Liberalismo é no mundo anglo-saxónico a ala moderada do Socialismo.

Por isso os liberais no mundo anglo-saxónico tiveram de encontrar uma nova forma de se designar. A designação escolhida foi Libertarianismo – curiosamente um termo que era originalmente usado para a vertente pacifista do Socialismo, talvez numa tentativa de vingança ou justiça poética pelo facto da Esquerda lhes ter roubado a palavra Liberalismo. Outras designações não tiveram uma aderência significativa, e apesar de manterem o seu nicho militante (como outras designações de Comunismo), os liberais passaram maioritariamente a designar-se a eles mesmos como Libertários.

Não surpreendentemente, e sem ser necessário terem chegado ao poder (algo impossível, dado que uma sociedade de origem liberal passadas várias décadas não volta às suas origens – veremos já porquê), os libertários já começaram a ter a sua nova designação infiltrada e, em breve, redefinida. O processo está em marcha para tornar o Libertarianismo no novo Liberalismo, ou seja, noutra ideologia inteiramente de Esquerda que representa algo diferente daquilo que era suposto representar. Poderia dar vários exemplos desta redefinição, mas tornar-se-ia aborrecido, por isso vou apenas deixar um nome: Gary Johnson.

Esta redefinição não é uma coincidência, mas um resultado inevitável do ethos do Estado Liberal. Alguns liberais poderão argumentar, como muitos comunistas argumentam desavergonhadamente, que o ‘Verdadeiro Liberalismo’ (com letras maiúsculas) nunca foi tentado – e só lhes dou razão se esses liberais estiverem a falar de anarco-capitalismo, mas geralmente não estão. Pelo que é, em ambos os casos (e como os liberais identificam no caso dos comunistas) apenas retórica para evitarem a realidade.

O Liberalismo é a verdadeira via do meio: nem de Direita, nem de Esquerda. A lula política por excelência. Da Direita retira o respeito pela propriedade privada – e daí extrai uma concepção secular de Livre Arbítrio (LA) – um tema que quero abordar em particular noutra altura; da Esquerda retira o igualitarismo (resultado da tal interpretação secular do LA).

O problema do Liberalismo é precisamente ser uma ideologia igualitária, e portanto indiscriminadamente tolerante. O ethos Liberal não diz nada sobre valores fundamentais, mas sim sobre liberdades fundamentais. É um ethos negativo, não positivo. Por ser igualitário, o Liberalismo é inapelavelmente Democrata. E por esta razão, degenera com a passagem do tempo e progressivamente na sua face de Esquerda, perdendo totalmente a sua parte de Direita.

O Liberalismo é uma óptima ideia para a elite, mas um desastre para a plebe. Antes de explicar porquê, uma palavra sobre as classes.

As diferenças entre classes podem essencialmente ser explicadas pela alta ou baixa preferência temporal – a plebe tem uma alta preferência temporal, vive obcecada com o presente e com a satisfacção dos seus desejos imediatos em detrimento da sua existência futura, enquanto que a elite tem uma baixa preferência temporal e é capaz de controlar os seus desejos presentes em prole da sua existência futura. Em geral, a alta ou baixa preferência temporal está ligada ao QI. Algures no meio, está a classe média.Um homem nascido na plebe com um QI acima da média, e se o nível de socialismo na sua sociedade for tolerável, não fará para sempre parte dessa classe. Um homem nascido na elite mas com um QI abaixo da média, tenderá a esbanjar a herança que lhe deixaram e a abandonar a elite.

A razão porque o Liberalismo é destrutivo para a plebe é porque assume que todos os seres humanos devem ter a possibilidade de escolher os seus próprios valores (o Secularismo é outra parte do igualitarismo que os Liberais fundamentalmente aprovam). Na prática, o Liberalismo não tem problemas com qualquer tipo de imoralidade, nem com a destruição pessoal através da mesma. Afinal, somos todos individuos e todos devemos ter a liberdade de nos auto-destruirmos. O problema é que a permissão da imoralidade e da auto-destruição não tem o mesmo resultado entre a elite que tem entre a plebe. Homens da elite saberão na maioria dos casos manter a sua imoralidade e auto-destruição a um nível moderado, não pondo em causa a sua existência futura, e por isso contendo-as essencialmente a si. Homens da plebe, pelo contrário, destruirão a sua vida, a dos filhos e a da comunidade. E, através da Democracia, destruirão também o país.

A plebe não tem a capacidade de se auto-moderar para salvar a própria vida. E o Estado Liberal, mantendo o seu ethos negativo, não tem meios, nem vontade, de evitar este desastre. Dito de outra forma, o Liberalismo é incapaz de formar cidadãos Liberais, acabando por formar cidadãos libertinos que, através da democracia, acabarão por destruir não só o Liberalismo mas também todas as liberdades.

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Isto porque o Estado Liberal não é apenas incapaz de evitar o naufrágio moral da plebe, mas igualmente incapaz de eliminar ideias e movimentos políticos que pretendam usar a plebe para destruir o seu ethos negativo – isto é, ideias e movimentos que propõem a violação dos seus princípios básicos, ou até que proponham abertamente a insurreição, o caos e o totalitarismo. Tanto o hedonismo e o niilismo como os vários tipos de socialismo, incluindo os revolucionários, são vistos pelo Estado Liberal, apesar das suas óbvias consequências de barbárie e miséria para a sociedade, como legítimos – pelo menos de um ponto de vista teórico. Se o Estado Liberal trata a incitação individual à violência com a força da Lei, trata a incitação colectiva a uma forma massiva de violência e subversão com diálogo e posições nas universidades e nos meios de comunicação.

Pelo que a plebe, vergada pela sua incapacidade de auto-moderação, votará em respostas iatrogénicas (socialismo) para adereçar os resultados da ausência de valores fundamentais a que foi entregue. E com o tempo, o Estado Liberal transforma-se, pela rotatividade das eleições de sufrágio universal, numa sistemática e virulenta rejeição da ideia de propriedade privada. De Direita, nada restará.

Eis a história do Liberalismo realizado na prática: uma transição, mais lenta ou mais acelerada, para o socialismo e o relativismo moral. O resultado é observável na política, na economia e na cultura. E por isso é necessário que a Direita, se não quiser acabar transformada em Esquerda, rejeite o Liberalismo.