O Papel das Mulheres

A ideia para este texto surgiu de um comentário de uma leitora, Ana Maria, a quem agradeço dar o mote para esta discussão que, tendo em conta a oposição que vou recebendo sobre este tema, já vem tardia.

O ditado popular sobre a mulher ser quem usa as calças em casa é bem conhecido de todo o povo português e aponta para o facto de, contrário à natureza humana, ser a mulher quem lidera o lar. Este ditado providencia um mote perfeito para a discussão que pretendemos efectuar aqui, que é o do papel da mulher no movimento dissidente. men9Analisando a expressão, o que podemos concluir? Primeiro, a supracitada artificialidade da liderança feminina, tão artificial que é necessário criar um ditado jocoso para ilustrar a situação. Segundo, que essa artificialidade é demonstrada não apenas no interior (liderança) mas no exterior (calças), sendo que o exterior é simbólico de algo maior, e mais pernicioso. Ao imitar os homens, as mulheres perdem as suas qualidades femininas, sem ganhar nenhuma das masculinas: tornam-se meramente homens de segunda. Por isso, não exagero quando digo que a decadência da nossa civilização se deve, em grande parte, ao facto das mulheres terem começado a usar calças. Pode parecer apenas um pormenor, mas é um símbolo da deriva maior da nossa civilização, da corrente igualitária que a inundou e virou do avesso, do caos identitário em que nos encontramos. Toda esta tragédia começou, não pela raça, não pela imigração, mas pela confusão do papel da mulher na sociedade. E tão importante é a concepção correcta dos papéis adequados de cada sexo, que todas as sociedades que foram além do mais básico primitivismo a reconheceram e aplicaram. Excepções sempre as houve, mas como se costuma dizer, servem apenas para confirmar a regra. E a regra existe com razão. Uma mulher como a Ayn Rand, por exemplo, fez muitíssimo bem em nunca ter tido filhos e ser dona de casa e, em vez disso, dedicar-se ao trabalho intelectual, produzindo ideias de indiscutível valor e originalidade (a avaliação última dessas ideias é uma questão demasiado complexa para discutirmos aqui). Mas também por essa razão, uma vez chamaram-lhe ‘o homem mais corajoso na América’. Por certo que os que pretendem que as mulheres tenham a liberdade de participar no movimento no mesmo patamar que os homens não quererão que elas se transformem em meras imitações dos homens. E no entanto, quando o fazem, é precisamente nisso que se transformam.

Não é ao acaso que a Bíblia menciona a indumentária especificamente: «Uma mulher não poderá usar coisas de homem e um homem não poderá vestir-se com roupas de mulher, porque o SENHOR, teu Deus, abomina quem assim procede.» (Deuteronómio 22:5). Especula-se que a razão para que tal viesse especificamente mencionado na Bíblia se encontra na proximidade das sociedades pagãs que rodeavam os hebreus na época, e que possivelmente não observariam estas distinções. Ora, tal razão aplica-se também à nossa moribunda civilização, que dedicada hoje a variadíssimos deuses pagãos, se acaba por esquecer até do mais fundamental da organização humana: das diferenças salutares entre homens e mulheres.

É fácil antecipar as objecções: que é um anacronismo extremista, que a sociedade mudou, que ‘evoluímos’, que tais concepções são resquícios antiquados de uma era primitiva, ou no mínimo, menos ‘iluminada’. Estas objecções são, em grande parte, feitas por companheiros dissidentes, a quem só podemos apontar que com essas mesmas objecções a Esquerda defende todo o seu programa – desde a imigração até à aceitação dos ‘estilos de vida alternativos’. Pelo que podemos concluir que tais argumentos são inválidos – ou, caso concluamos que são válidos para uma coisa, são igualmente válidos para outra. Por outras palavras, das mulheres usarem calças à abolição da identidade nacional, vai um tirinho.

Neste canto da Internet, ter opiniões impopulares e consideradas radicais pela maioria é uma inevitabilidade. No entanto, a visão tradicional da Mulher é impopular e considerada radical mesmo no seio do movimento dissidente, mesmo entre homens e mulheres que reconhecem as diferenças físicas, mentais e espirituais entre os sexos, que reconhecem o papel de ambos na ordem tradicional. Para eles, a ideia de que as mulheres devem ter uma função fundamentalmente distinta da dos homens no movimento ainda é tabu, senão mesmo anátema. Pelo contrário, o consenso parece ser 5a610cb01e000028005adbd4que as mulheres podem (e em alguns casos devem) ter um papel semelhante ao dos homens na produção e distribuição de ideias, na participação em demonstrações e debates e, deduz-se, nas batalhas campais em que muitos dos eventos se transformam e eventualmente nas trincheiras de uma potencial guerra civil.

Recentemente o Youtube lançou uma sequela do Karate Kid em forma de série que é surpreendentemente contrária ao politicamente correcto. A série chama-se Cobra Kai (o nome do dojo dos antagonistas no original), e uma das cenas mais hilariantes é quando uma preta gorda com cabelo de lésbica se tenta juntar ao dojo e o sensei lhe diz que não se aceitam mulheres no karaté pela mesma razão que não se aceitam no exército: porque é estúpido. Numa civilização em ordem, eu não necessitaria de justificar o porquê do papel das mulheres no movimento dever ser o de esposas e mães, de aliadas domésticas dos homens que efectuam o principal do trabalho (intelectual e físico) requerido para o triunfo das nossas ideias. Numa civilização em ordem, bastaria simplesmente repetir o truísmo da série e dizer que qualquer outra abordagem é estúpida. Mas infelizmente a nossa civilização não está em ordem, e até os truísmos têm de ser explicados, justificados e argumentados, uma e outra vez.

Já mencionámos a Bíblia, mas convém voltar a mencioná-la e lembrar que as prescrições sobre o papel feminino não se limitam à advertência contra o seu uso de indumentária masculina. Pelo contrário, a mulher é distinta do homem, e deve a ele ser submissa. Repare-se nas seguintes passagens:

«Como acontece em todas as assembleias de santos, as mulheres estejam caladas nas assembleias, porque não lhes é permitido tomar a palavra e, como diz também a Lei, devem ser submissas. Se quiserem saber alguma coisa, perguntem em casa aos maridos, porque não é conveniente para uma mulher falar na assembleia.» (1 Coríntios 14:33-35)

«Submetei-vos uns aos outros, no respeito que tendes a Cristo: as mulheres, aos seus maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da Igreja – Ele, o salvador do Corpo. Ora, como a Igreja se submete a Cristo, assim as mulheres, aos maridos, em tudo.» (Efésios 5:21-24)

«A mulher receba a instrução em silêncio, com toda a submissão. Não permito à mulher que ensine, nem que exerça domínio sobre o homem, mas que se mantenha em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzido mas a mulher que, deixando-se seduzir, incorreu na transgressão. Contudo, será salva pela sua maternidade, desde que persevere na fé, no amor e na santidade, com recato.» (1 Timóteo 2:11-15)

«Do mesmo modo, as anciãs tenham um comportamento reverente, não sejam caluniadoras nem escravas do vinho, mas mestras de virtude, a fim de ensinarem as jovens a amar os maridos e os filhos, a serem prudentes, castas, boas donas de casa e dóceis aos maridos, de modo que a palavra de Deus não seja difamada.» (Tito 2:3-5)

Saliento estas passagens porque elas não existiram no vácuo. Pelo contrário, elas foram a base da civilização que, de uma forma ou de outra, todo o movimento dissidente respeita como o auge da Europa e quer ressuscitar. A identidade nacional nasce primeiro na família, e a família nasce do homem e da mulher. Quão importante é, pois, que tenhamos a concepção correcta do relacionamento entre os dois? E quão destrutivo é que tenhamos uma errada? Basta observar a sociedade presente, que é predicada, não na distinção entre homem e mulher, e na submissão da mulher ao homem, mas pelo contrário, numa absoluta igualdade e individualismo que permite, a homens e a mulheres, fazerem o que bem lhes apetece, mesmo que o que lhes apeteça semeie a destruição da ordem social.

Mas toda esta conversa de religião e civilizações antigas diz muito pouco a um grande número de pessoas no nosso movimento, e apesar das evidências sobre a importância destas considerações, elas são maioritariamente relegadas para o plano da fantasia, pois a questão fundacional é muitas vezes esquecida ou abertamente ignorada (como já apontámos). Por isso avancemos para considerações mais terrenas.

Quando se advoga a participação das mulheres no movimento, não como esposas, mães e companheiras, mas como equivalentes intelectuais e físicas dos homens, obviamente que se tem em mente muitos casos recentes que, admita-se, angariaram indiscutivelmente um grande número de novos convertidos à causa identitária, à defesa do Ocidente e à tentativa de o ressuscitar do torpor terminal em que se encontra depois de ter sido vergado às forças igualitárias e relativistas do Iluminismo.

Consideremos o caso Lauren Southern. Com 23 anos, a menina Southern é não só a fêmea mais famosa no movimento, mas uma das figuras mais proeminentes mesmo descontando o seu cromossoma identificador. Qual é a razão para esta popularidade? Lauren_Southern_OKSerá a originalidade das suas ideias ou da apresentação dessas ideias? Ou será por ser uma jovem rapariga que, no decorrer do seu trabalho, vai mostrando as pernas e os ombros, e por vezes um pouco mais que isso? Não se pode subestimar o poder da libido masculina, que mesmo em assuntos em que deve ser posta de parte acaba por dominar as prioridades. Como podemos ver ilustrado nesta review do seu livro, a menina Southern não é nem original nas ideias, nem na apresentação – pelo contrário, nem sequer se eleva acima do mais básico em ambas as categorias. Nesse livro, inclusivamente, encontra-se esta pérola de intelectualidade e bom gosto: «If there was a moment in the 2016 U.S. election that epitomized this newfound hate for the young on the right, it was Republican consultant Rick Wilson’s infamous… declaration that Trump supporters were “childless, single losers who masturbate to anime.” Guilty as charged. Well, except I don’t masturbate to anime characters. I dress up like them and guys masturbate to meSe isto não demonstra que a menina Southern sabe perfeitamente qual é o seu papel – uma softcore camwhore para nerds políticos – não sei o que demonstra.

Convém neste momento fazer um reparo: não estamos a argumentar que a rapariga não produz nada de qualidade, pelo contrário. Um exemplo recente de algo de qualidade que produziu foi o documentário Farmlands, publicitado aqui com legendas em português do Brasil, que chama a atenção devida para a horrível e ignorada situação dos brancos na África do Sul. Mas há perguntas importantíssimas que se devem colocar: será que este documentário, ou as outras obras de qualidade feitas pela menina Southern, só poderiam ser feitas por ela ou, pelo contrário, um jornalista masculino poderia ter feito o mesmo, com pelo menos a mesma qualidade (note-se que as únicas partes más do filme são precisamente quando ela faz monólogos em voz off enquanto se pavoneia em frente da câmara)? E, sendo que um homem poderia fazer o mesmo trabalho, e potencialmente mais bem feito, haverá algo que só a menina Southern possa fazer, uma categoria de actividades em que um homem a não possa substituir? A resposta é igualmente afirmativa. E essas actividades são aquelas que coincidem com o papel tradicional da mulher na sociedade: ser uma esposa, uma mãe, providenciar acompanhamento emocional e intelectual nos primeiros anos de vida das crianças, manter um lar estável e saudável para a sua progenitura.

Nunca me deixa de surpreender que tantos anti-feministas queiram para as suas mulheres o mesmo que as feministas querem para todas as mulheres: que sejam imitações de segunda dos homens. Que em vez de se dedicarem àquilo que a sua biologia e seu espírito lhes lega como natural e que só mesmo elas podem concretizar, queiram que elas se dediquem a produzir frutos que os homens também podem produzir, e em geral melhor. Esta é uma das falhas primordiais da nossa civilização: esquecer as divisões naturais, os papéis naturais, e transformamos as mulheres em homens de segunda. Não observamos nós o vácuo criado por esta ideia de igualdade, em que as mulheres da nossa raça desperdiçam a sua fertilidade, os seus dons naturais, na perseguição do hedonismo, por um lado, mas por outro lado igualmente destrutivo, na perseguição de carreiras, na imitação do papel masculino? Não reconhecemos as consequências destrutivas para a civilização dessa nova ordem? Não as observamos todos os dias, quer em estatísticas, quer no dia-a-dia? E se sim, porque queremos nós que as nossas mulheres, participando num movimento que fundamentalmente rejeita as consequências dessa ordem social, funcionem da mesma forma e concretizem os mesmos erros?

Depois é preciso considerar algo que já foi mencionado noutros textos: primeiro, que o meio é a mensagem. E depois que atrair as pessoas erradas, e sobretudo os homens errados, é contraproducente. Neste caso, o meio é muitas vezes o de ter mulheres a ditar a homens aquilo em que devem acreditar e porquê. Psicologicamente, isto resulta em kjaskjshomens castrados. A verdade é que a popularidade de Lauren Southern, bem como de raparigas semelhantes, vem da percepção óbvia, mas perniciosa, de que o mesmo tema quando apresentado em conjunção com um decote ou uma carinha laroca tem automaticamente mais audiência. E note-se que a menina Lauren, em termos de beleza, será no máximo um 6.5. Tire-se a maquilhagem e desconfio que se encontra um 4 ou no máximo um 5. Será que queremos conquistar uma audiência de homens sexualmente frustrados que se perdem de amores por uma rapariga de aspecto banal com quem concordam politicamente?

Uma boa ilustração do tipo de homem que estas raparigas atraem para um movimento que se quer sério e que precisa, definitivamente, de homens com espinha, encontra-se quando se ‘segue’ o dinheiro. Antes de ser banida do Patreon, por exemplo, a Lauren estava a receber quase quatro mil dólares por mês e, além de mostrar um decote lauren patreon.pngproeminente na sua foto, referia-se jocosamente ao facto de uma doação dar o direito ao dador de dizer que era seu ‘namorado’ e que ela não confirmaria nem desmentiria. Outro exemplo, entretanto desaparecido da sua página, encontrava-se na possibilidade de pagar duzentos e cinquenta dólares por 15 minutos (!) de sessão de Skype privada com a menina Southern. Não sei de ciência certa, mas apostaria que uma prostituta de luxo levaria menos de mil dólares à hora – em carne e osso, não por sessão de Skype. Isto ilustra tanto o empreendedorismo (por assim dizer) da menina Southern, como a sede de atenção feminina e a total efeminação dos homens brancos modernos, obcecados com a sua ‘namorada virtual’ ao ponto de pagarem a peso de ouro a oportunidade de fazerem parte do seu ‘círculo íntimo’ (quão grande é esse círculo, nunca saberemos). Entretanto a menina Southern apagou esta opção do seu site (depois de algumas críticas) e ficou apenas a opção ‘Exclusive’, em que pagando cem dólares por mês, obtêm um livestream particular entre os subscritores dessa opção e, cereja no topo do bolo, ela segue-os no Twitter (não estou a gozar!). Não só não queremos estes homens ao nosso lado numa batalha, mas perpetuar este tipo de atitude é absolutamente contraproducente. Podemos ter um exército de milhões, mas se forem milhões como os que dão dinheiro à menina Southern, seremos derrotados por trezentos inimigos duros, como na mítica história.

Vários outros exemplos existem destas raparigas, também chamadas de trad thots (ou putéfias tradicionalistas), e das suas legiões de seguidores que comem demasiada soja. Nenhuma delas é casada, ou tem filhos. As únicas mulheres do movimento que os têm são muito mais recatadas, trabalham com os seus maridos e, por essa razão, não obtêm o mesmo nível de atenção masculina (nem é esse o seu objectivo). Mas não podemos culpar apenas as raparigas. Quem devemos culpar são os homens fracos que as promovem e lhes sustentam o estilo de vida. Espero estar enganado, mas suspeito que nenhuma dessas raparigas vai casar e ter filhos enquanto a sua beleza relativa e juventude lhes permitirem ter hordas de frustrados a patrocinar as suas viagens e ‘aventuras’. Para quê dedicarem-se a um homem, quando podem ter a atenção de milhares, senão milhões?

Começámos com um ditado popular, e acabamos com uma história que ilustra a importância, e a força imparável, que é viver e agir conforme a ordem divina, e como isso é espelhado pelos papéis, absolutamente distintos, dos homens e das mulheres.

Com a subida ao poder dos bolcheviques na Rússia, várias leis contra a religião foram passadas, impedindo os padres de evangelizar, incluindo ensinar o Cristianismo às novas gerações. O objectivo, claro, era destruir a prazo toda a religião visto que esta era um obstáculo, senão o maior obstáculo, à criação do paraíso socialista na terra. Estas leis mantiveram-se até praticamente ao final do regime soviético, quase 80 anos. Conta-se que um líder Soviético, pouco depois da revolução e tendo em conta as leis estabelecidas contra a religião, perguntou ao Patriarca de Moscovo o que iria acontecer à Igreja quando a última avó morresse. O Patriarca respondeu-lhe que haveria outra geração de avós para as substituir. Palavras proféticas, sobretudo se se considerar que a maioria das avós russas de hoje eram apenas crianças ou nem sequer nascidas quando estas palavras foram proferidas, e que a Igreja manteve-se ao longo de toda a animosidade comunista e retomou o seu lugar (e continuou a crescer) logo após a queda do regime.

21d602d5ff237aaa874221c992c8797f.jpgO que a história ilustra é que a Igreja salvou-se pelo facto das mulheres agirem como mulheres, cumprindo o seu papel natural, ensinando os mais novos, passando as tradições. Repare-se que não foi através da ordenação de mulheres para o sacerdócio que a Igreja continuou, mas pelo contrário, precisamente por manter essa restrição, cada sexo ter a sua função, permitiu que mesmo sob condições incrivelmente adversas encontrasse uma continuação. Há uma lição aqui para os homens e mulheres ocidentais dos nossos dias. Ao invés de aceitar a senda igualitarista e querer transformar as mulheres em homens de segunda, que invariavelmente transforma os homens em seres efeminados, devemos respeitar a ordem e separação natural de funções, cada um apelando às suas forças, em cooperação, em vez de competição.

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O Nacionalismo não é necessário, nem suficiente

Este texto serve de adição ao que se escreveu aqui sobre o identitarismo. O objectivo não é alienar aqueles que considero aliados e que professam o Nacionalismo como a sua ideologia, mas unicamente apontar uma falha que considero ser incompatível com o seu objectivo principal, analisar as suas origens históricas e as suas manifestações modernas, e argumentar uma alternativa.

 

«Quem dentre vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro para calcular a despesa e ver se tem com que a concluir? Não suceda que, depois de assentar os alicerces, não a podendo acabar, todos os que virem comecem a troçar dele, dizendo: ‘Este homem começou a construir e não pôde acabar’. Ou qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro para examinar se lhe é possível com dez mil homens opor-se àquele que vem contra ele com vinte mil? Se não pode, estando o outro ainda longe, manda-lhe embaixadores a pedir a paz

Lucas 14:28-32

O principal problema de qualquer putativo movimento dissidente é a sua sobrevalorização daquilo que pode ser quantificado, aquilo que é visível a olho nu, aquilo que é imediatamente palpável, em detrimento das questões filosóficas, metafísicas e espirituais que são muitas vezes consideradas espúrias. Como o construtor da torre e o rei que parte para a guerra nas palavras de Jesus, muitos não consideram o invisível que subjaz às realidades visíveis. Como um médico que toma os sintomas pela doença e se oferece para os tratar julgando tratar a doença, o Nacionalismo opera da mesma forma no plano político. É desta mentalidade que surge a defesa do Nacionalismo.

Pretendemos aqui argumentar que o Nacionalismo não pode constituir a base para o movimento, pois mesmo para os objectivos que pretende concretizar não é necessário, nem suficiente. Para isso temos primeiro de o definir, para que se saiba aquilo a que apontamos a nossa crítica. Como todas as ideologias, pode dizer-se que é tudo e mais french-nationalismalguma coisa, por isso tentaremos cingir-nos a uma definição que tenha em conta, ao mesmo tempo, a História da ideologia e a sua presente manifestação. O Nacionalismo é uma ideologia política Republicana e Democrática saída da Revolução Francesa, que postula a preservação da Nação enquanto entidade política (o Estado-Nação), a defesa de território delineado por fronteiras terrestres, da tradição e coesão linguística, cultural e étnica contra processos de destruição identitária ou transformação. Quando digo que o Nacionalismo não pode constituir a base, quererá isto dizer que sou contra os seus objectivos individuais postulados acima? Não. Mas quer dizer que estas ideias em si mesmas não garantem aquilo que pretendem garantir, e em particular a formalidade da ideologia (a identificação da nacionalidade com o estado-nação) não é necessária, nem suficiente.

Com a ameaça presente e tangível da imigração de massas, é compreensível que a ideologia do Nacionalismo se tenha tornado a bandeira em torno da qual os dissidentes maioritariamente se agitam, mas esse foco único confunde as árvores pela floresta, e a45210707118b976f894dcb852f4cdb5esquece que há factores metafísicos que o Nacionalismo por si mesmo não contradiz, que não só permitem mas promovem esta situação. Sendo uma invenção moderna saída do próprio Liberalismo, o Nacionalismo tem a mesma fundação no Materialismo Iluminista e sofre dos mesmos problemas insolúveis. O Nacionalismo, por mais benéficas que sejam as suas intenções, acaba a longo prazo na mesma situação que qualquer outra ideia democrática. Isto é, acaba na destruição daquilo que pretende defender. Tal como o Liberalismo é a longo prazo incapaz de defender a Liberdade, o Nacionalismo é incapaz de defender a Nação.

O caso Português, com as suas fronteiras e unidade política com quase mil anos, não é dos melhores exemplos para se perceber o argumento que fazemos aqui. Mas por outro lado, o facto de ser uma absoluta raridade na História Europeia, acaba por ilustrar ainda assim o ponto acima. As nacionalidades de Leste, por exemplo, oferecem um perfeito nationalismexemplo de como a coesão étnica e cultural de um povo não dependem de uma entidade política equivalente, ou seja, não precisam de Nacionalismo. E em alguns casos, observa-se que muitos grupos étnicos estavam mais bem servidos sob uma entidade política mais larga do que quando obtiveram os seus estados-nação. O Império Austro-Húngaro, a Jugoslávia de Tito, ou até a França pré-Revolucionária – onde, lembremos, existiam várias nacionalidades, entretanto extintas precisamente pelo Liberalismo – ou até a Rússia moderna, são bons exemplos de como o Nacionalismo não é necessário. Na maioria dos casos foram precisamente os poderes Liberais e a ideia da auto-determinação dos povos que desagregaram ou destruíram nacionalidades (como no caso Francês ou, em menor escala, na centralização nacionalista da Itália ou da Alemanha). Sob um ou outro império várias nacionalidades sobreviveram sem Nacionalismo, e com Nacionalismo destruíram-se várias nacionalidades e identidades.

Penso que isto prova que a questão da nacionalidade, da coesão étnica e cultural de um povo, é uma questão muito mais complexa do que a simples edificação política. Argumentar o contrário implica admitir, por exemplo, que os falsos estados-nação formados pelos poderes coloniais em África, na Ásia e nas Américas eram nações antes de serem estados, quando uma investigação simples da sua História demonstra que essa concepção é falsa. Obviamente que, com o tempo, outras nacionalidades (ou semi-nacionalidades) se formam a partir destes estados artificiais, mas esse mesmo facto confirma que nesses casos, antes de existir o estado, não existia a nacionalidade, mas uma colecção de grupos étnicos, culturais e linguísticos distintos.

O Nacionalismo não é, pois, necessário à manutenção daquilo que pretende defender. A verdade é que, paradoxalmente, sendo uma consequência da destruição da monarquia e da sociedade tradicional, o Nacionalismo é uma reacção inconsequente, desnorteada, um penso para uma ferida de bala, e sendo uma ideia em grande parte contraditória, como demonstrámos, acaba por ser utilizada amiúde pelas elites globalistas para fomentar o caos e destruir a sociedade tradicional. Obviamente, o Nacionalismo pode ser, sob determinadas circunstâncias, uma força contrária aos planos globalistas, sobretudo centenas de anos depois da destruição da ordem monárquica, mas é preciso nunca esquecer que o próprio Nacionalismo foi uma ideia promovida pelas elites maçónicas da época com o objectivo de destruir as sociedades que existiam, tal como hoje promovem o Globalismo para destruir as que existem. Como a História demonstra, o Nacionalismo não é uma condição necessária para a defesa da nacionalidade mas sobretudo não é suficiente – algo que é ilustrado perfeitamente no Nacionalismo dos nossos dias.

Se investigarmos seriamente os objectivos das elites globalistas percebemos que o seu plano não é somente de aniquilação da nacionalidade, mas aniquilação de qualquer tipo de identidade: étnica, cultural e linguística, mas também familiar, religiosa, sexual e, o plano final transhumanista, também da identidade humana. Quão fútil é pois que nos oponhamos a um dos seus objectivos mas descuremos a oposição aos outros? Ou pior, que se subscreva uma parte do seu programa? O Nacionalismo hoje pretende cortar uma das cabeças do monstro globalista, mas deixar as suas outras cabeças intactas. Isto é por MTG_Apocalypse-Hydra.jpgdemais óbvio olhando para os partidos nacionalistas que vão surgindo sob a bandeira da anti-imigração, e em particular anti-Islão, e que predicam a sua oposição na defesa de valores modernos completamente antagónicos à coesão nacional. Os exemplos são demasiado numerosos, tanto dos partidos e movimentos, como das ideias que partilham com os globalistas, para que se ignore esta tendência. A sua manifestação mais gritante é na oposição ao Islamismo. É um óbvio ululante que nos devemos opor ao Islamismo como ideologia, e ainda mais à imigração massiva de proponentes dessa ideologia para a Europa, mas há boas e más razões para o fazer. E, infelizmente, a maioria dos nacionalistas opõe-se ao Islamismo pelas razões erradas. A maioria das críticas feitas pelos nacionalistas são às ideias que caracterizam como ‘retrógradas’ e que contrastam com as ‘liberdades’ ocidentais: a submissão da mulher ao homem e a intolerância dos desviantes sexuais, em particular, comprazem a grande maioria das críticas. Nelas está subjacente a defesa da insubmissão e liberdade femininas e da tolerância dos desviantes sexuais. Ou seja, atacando o Islamismo por estas coisas, os Nacionalistas atacam igualmente qualquer sistema político e social que incorpore estes closet-rue-89.jpgprincípios. Isto demonstra que estes Nacionalistas são infelizmente ignorantes, tanto da História Ocidental como da História universal, pois todas as civilizações dignas desse nome impuseram regras sociais estritas, e em particular, a submissão da mulher ao homem e a remoção dos desviantes sexuais (aquelas que, com o tempo, deixaram de o fazer acabaram na mesma decadência em que a nossa se encontra hoje); e demonstra igualmente que são antagónicos à organização social Cristã que dominou a Europa durante pelo menos 1500 anos, e que foi paralela ao florescimento da Europa como força dominante em todos os aspectos em que normalmente se avaliam as civilizações. Ou seja, pretendendo defender o Ocidente, a maioria dos Nacionalistas defende as ideias que perverteram a nossa civilização e nos trouxeram ao ponto actual. O bem comum, a coesão social, a unidade nacional, requerem necessariamente determinados sacrifícios de liberdade individual. Ao elevarem essa liberdade ao princípio base da sua visão do Ocidente, estes Nacionalistas plantam a própria semente que germinará na disfunção política, social e económica que cria o problema migratório em primeiro lugar.

A base da Nação é a família e o individualismo primário que defendem é a antítese da família. Ao defenderem o individualismo contra o colectivismo dos Islamistas, os nacionalistas apenas escolhem uma forma de atentado contra a Nação em prol de outra. Esta defesa é emblemática da atitude que, na realidade, existe na génese do Nacionalismo: o Estado-Nação torna-se na única premissa, e a ordem social necessária à manutenção da nacionalidade é ignorada. Um movimento que defenda o Estado-Nação e se oponha à imigração, mas que aprove e permita todos os males da modernidade, que pretenda manter o status quo social de liberdade sexual, de supremacia feminina, de economia baseada na usura, de organização democrática, é incapaz de sequer manter aquilo que eleva como valor principal. E é a isto que nos referimos quando dizemos que o Nacionalismo descura o aspecto metafísico, pois é incapaz de perceber que a situação migratória é uma consequência da perda de valores tradicionais na sociedade, não é um assunto separado que possa ser resolvido sem se resolver este outro.

A identidade é feita de círculos concêntricos – o primeiro sendo a família nuclear, depois a família extensa, o bairro, a cidade, a região, a Nação (entendida como esfera partilhada de laços étnicos, linguísticos e culturais), a ligação regional (por exemplo, entre povos com línguas de origem latina ou de proximidade geográfica) e, por fim, a identidade geral europeia, que não pode ser entendida fora do domínio da Cristandade – pois hierocles-concentric-circles.jpgpreviamente os vários povos europeus não tinham língua, cultura ou logos em comum, mas eram sim uma colecção de povos com crenças, culturas e línguas distintas e rivais.

Os nacionalistas verdadeiros reconhecem que a Nação não é uma mera delineação geográfica e que o que a constitui não é meramente a terra onde se encontra (o ridículo conceito de ‘magic dirt’), mas sim as pessoas que a compõem, com uma etnia e cultura próprias. Reconhecem, logo, que não se pode substituir as pessoas sem aniquilar a Nação, ou sem a transformar em algo completamente distinto. No entanto, e infelizmente, muitos não prestam a devida atenção à conduta das pessoas que compõem a Nação, nem têm um entendimento de que o bem comum da Nação é muito mais do que o bem individual dos seus membros, e subscrevem assim uma forma ou outra de individualismo, que é radicalmente antagónico ao objectivo que pretendem alcançar.

Mesmo admitindo que o Nacionalismo consegue ganhar eleições e expulsar os alógenos, qual é o resultado? Ter paradas gay mais seguras? Um sistema de saúde a funcionar melhor para mais eficientemente abortar crianças? Jovens mulheres a embebedarem-se nas ruas das nossas cidades sem o receio de violação por parte de alógenos? O Nacionalismo hoje é análogo ao puxar um suicidário da beira da ponte, mas depois mandá-lo para casa onde tem cordas, armas e comprimidos. É a fantasia de achar que se não resolvermos o problema psicológico e espiritual ele vai deixar de ter tendências suicidas. A nossa civilização presente é patentemente suicidária, a vários níveis, e o Nacionalismo infelizmente apenas pretende criar as condições para que se suicide em paz.

double-headed-romanov-imperial-eagleComo expliquei anteriormente, o Ethnos tem de ser entendido e só pode ser defendido através do Ethos. Só o retorno a uma ordem tradicional, em todas as suas implicações, pode garantir a coesão étnica e cultural. Não podemos manter uma parte do edifício liberal e esperar que fique estanque e não volte a destruir aquilo que já destruiu uma vez. Aqueles que anseiam por uma sociedade etnicamente coesa mas que pretendem simultaneamente manter outros aspectos da sociedade moderna, estão a perseguir uma ilusão, mas ainda mais importante, não podem ser considerados como aliados. Pelo que é de extrema importância que se entenda que o movimento tem de rejeitar todos os pontos do liberalismo, e ser muito mais radical do que o simples Nacionalismo.

A Guerra dos Sexos

«O marido deve cumprir os seus deveres conjugais para com a sua mulher, e da mesma forma a mulher para com o seu marido. A mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido. Da mesma forma, o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher. Não se recusem um ao outro, excepto por mútuo consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio. Digo isso como concessão, e não como mandamento. Gostaria que todos os homens fossem como eu; mas cada um tem o seu próprio dom da parte de Deus; um de um modo, outro de outro. Digo, porém, aos solteiros e às viúvas: É bom que permaneçam como eu. Mas, se não conseguem controlar-se, devem casar-se, pois é melhor casar-se do que ficar ardendo de desejo.»

1 Coríntios 7:3-9

É triste verificar o quão removidos estamos do ideal bíblico e difícil imaginar que o abandono desse ideal pode ir mais longe. Mas a cada ano, a cada década, a distância aumenta.

É um óbvio ululante dizer que os papéis tradicionais dos sexos se alteraram radicalmente nos últimos cem anos, e em especial nos últimos cinquenta, com a velocidade dessa mudança a acelerar cada vez mais, ao ponto de praticamente não existirem diferenças sociais entre os sexos – na lei essas diferenças são proibidas, e na sociedade civil para aí se caminha. A Esquerda, claro, aplaude. A Direita, com poucas excepções, também. A Esquerda apregoa a igualdade mas promove, na prática, a supremacia das mulheres, sempre na sua demanda caótica. A Direita apregoa a igualdade e acredita nela, o que é mais trágico – na prática, actua como um travão muito ténue ao estabelecimento, legal e social, da supremacia feminina.

A revolução sexual não foi um movimento de baixo para cima, mas uma operação deliberada por sociedades secretas e agências governamentais. E se ainda não há muitos anos as elites eram tímidas na sua imposição do relativismo, hoje fazem-no abertamente e sem qualquer pudor. Há uma guerra artificial entre homens e mulheres, criada pelas elites. Esta conspiração está photo_2017-10-28_11-49-13vastamente documentada. O problema está identificado, pelo que não vale a pena perder muito tempo a afirmar o que já se sabe. Se ofereço contexto é porque pretendo apresentar uma tese que aposto irá eriçar muitos pêlos e ofender muitas cabeças. Não falo da Esquerda, nem sequer da Direita que pensa nos moldes de Esquerda – mas da verdadeira Direita, tradicionalista.

Por muito que as esganiçadas do Bloco de Esquerda gritem que vivemos ainda sob o jugo opressivo do Patriarcado, a verdade é que a situação actual pode ser mais correctamente descrita como um Matriarcado. Exceptuando os casos, parcos, em que a biologia exerce a sua inevitável influência de forma irremediável (como nas ciências duras ou no desporto – ou na criminalidade violenta), a supremacia feminina é facilmente observável. E mesmo nessas poucas excepções, existem programas pagos pelos contribuintes para ‘corrigir’ essas ‘injustiças’.

Por cada juiz que decide em favor do homem em disputas legais entre conjugues, existem milhares de outros em que a decisão é favorável à mulher. A propaganda oficial tende a mostrar as mulheres como fortes e independentes, e em geral bem intencionadas, enquanto que os homens tendem a ser pintados como patéticos ou psicopatas. As escolas, as igrejas e os locais de trabalho são ambientes cada vez mais direccionados às mulheres, desenhados propositadamente para não ferir as suas sensibilidades e para acomodar as suas peculiaridades. Espaços puramente masculinos são infiltrados, e quando o não são, aparecem nas notícias para serem publicamente vilificados.

Um exemplo ilustrativo. 1985 foi o último ano em que o número de homens inscritos na faculdade era superior ao número de mulheres. Mais raparigas estão a desperdiçar os seus anos férteis na perseguição de uma carreira – e em muitos casos, nem sequer a vão concretizar. Mas mesmo que concretizem, a tragédia não é menor: as mulheres que adquiram um emprego bem remunerado kjaskjs.jpgterão maior dificuldade em encontrar um homem para casar, pois apesar de toda a cantilena feminista, não é costume ver executivas de sucesso a casar com empregados de mesa – enquanto que o contrário é comum. As mulheres procurarão sempre, por força da sua natureza biológica, um homem que tenha mais valor do que elas. No mundo mercantil em que vivemos, o salário e status social são o indicador principal no que toca a juntar os trapos e formar família. Uma mulher não respeitará o seu marido se este tiver um status menor e trouxer menos dinheiro para casa que ela. E assim se explica a proliferação da solteirona, da maluca dos gatos – que tendo passado a juventude focada na sua carreira e satisfazendo a sua necessidade de intimidade com encontros casuais e relações insignificantes, entre contraceptivos e abortos, termina numa triste desolação ou, no melhor dos casos, arranja um parolo disposto a rebaixar-se por migalhas de intimidade, quando a sua fertilidade e a sua beleza tiverem desvanecido.

Enquanto a populaça se convence da benevolência das grandes vitórias do liberalismo, as elites regozijam com a destruição da família, o seu objectivo principal. A família é o único entrave à implementação do controlo total do Estado sobre o indivíduo, o primordial obstáculo a uma nova ordem mundial, pois é nela que se baseiam todas as outras instituições intermédias, sem as quais photo_2017-11-06_09-46-10homens e a mulheres ficam indefesos perante o poder político. Não é ao acaso que a destruição ou irrelevância das instituições intermédias tenha andado, década após década, de mão dada com a desintegração da família. E na génese da família está a união de um homem e de uma mulher.

Esta união, apesar de ser uma parceria, é tudo menos igualitária. O homem e a mulher têm funções diferentes, responsabilidades diferentes, poderes diferentes. E sem essa desigualdade, a instituição não sobrevive, nem consegue cumprir a sua função. Todo o edifício desmorona. Isto é o que vemos acontecer no mundo moderno. Chesterton tem uma frase adequada: nunca deitem abaixo uma cerca sem antes saber porque foi construída. A revolução sexual ofereceu à mulher o controlo sobre o seu aparelho reprodutivo e essa ‘libertação’, que no vácuo parece sábia e justa, abriu uma caixa de pandora que ameaça desmantelar todos os alicerces que mantêm, por enquanto, a sociedade de pé.

Tendo assim exposto o problema, a resposta é óbvia: retornar à ordem tradicional, restabelecer o Patriarcado. Mas daqui até lá há um longo caminho a percorrer, e neste momento o caminho está cheio de obstáculos e buracos, e sem iluminação. Com a libertação da mulher, veio o aprisionar do homem; com a masculinização da mulher, veio a efeminação do homem. Os homens têm de, mais uma vez, exercer domínio sobre as mulheres, mas como efectuar isso na prática?

A lei proíbe-o e a sociedade desencoraja-o. Pior: as instituições que deviam oferecer luz e auxílio, juntaram-se ao inimigo; as vozes tradicionalistas, recusam-se ao combate. Os conselhos das instituições e pensadores tradicionalistas não são aplicáveis no panorama actual. A Igreja 111.jpgrecomenda que se espere até ao casamento para ter sexo e num mundo são isto seria não só possível como desejável. No mundo moderno, é possível (de certa forma) mas não é desejável. Os incentivos que existem correntemente contribuem para que as mulheres não só não precisem de um homem, como não o respeitem. Um homem moral, que queira esperar até ao casamento, vai certamente casar virgem, mas não vai casar com uma virgem. Infelizmente, na sociedade moderna, para o homem exercer domínio sobre uma mulher, esse domínio tem de ser sexual. E tendo em conta que é difícil imaginar dois jovens a conhecerem-se e a casarem quase imediatamente, sucede que o sexo vai suceder antes do casamento ser consumado.

A alternativa de alguns tradicionalistas é remover-se da sociedade totalmente, viver uma vida ascética, de celibato. Em alguns, não poucos, casos, existe uma aura de misoginia, como se as mulheres tivessem escolha, ou culpa, de serem como são – como se não caísse sobre os homens a responsabilidade de as liderar. Se de um lado da boca afirmam as virtudes tradicionais, por outro resignam-se a aceitar as torpes mentiras modernas, não em teoria, mas na prática. Ao observarem a natureza hipergâmica das mulheres, completamente desenfreada dada a realidade legal e social, decidem – porque é mais simples – que nenhuma mulher merece o seu esforço, a sua tutela. Quando na realidade é mais importante do que nunca que os homens sejam masculinos, e ofereçam uma liderança viril para as mulheres da sua geração.

Não ponho de parte, claro, que há casos perdidos – querendo com isto dizer que há putéfias irredimíveis, tal como existem homens sem qualquer capacidade de serem viris. Mas é preciso compreender que as mulheres estão tão perdidas como os homens. São vítimas da mesma images.duckduckgodegeneração da civilização ocidental, da mesma hemorragia de valores, e não sairão desse abismo sem a liderança dos homens. A cada esquina as jovens mulheres são encorajadas a abrir as pernas, a oferecer aquilo que lhes é único (a sua beleza e fertilidade) a troco de nada; a saltar de ‘relação’ em ‘relação’, quando não mesmo de cama em cama, enquanto se focam naquilo que na distorção moderna se tornou o objectivo principal: o fantasma mitológico da ‘realização pessoal’, da carreira, do trabalho. Na prática são encorajadas a serem obedientes ao patrão, em vez de ao marido.

Mas como pode uma mulher moderna ser submissa se não encontra um homem recto e viril, que queira fazer dela uma esposa? Se os homens na sua vida são puramente hedonistas, ou fracos e inseguros, incapazes de dar um passo e tomar uma decisão? Se os homens rectos não conseguem sequer ganhar coragem para meter conversa com uma rapariga e convidá-la para beber um café? Se nem esse pequeno passo são capazes de dar, como vão ser líderes dentro da sua própria casa? O meme dos involuntariamente celibatários existe por uma razão. As mulheres não se sentem atraídas pela fraqueza, e muito menos se resignarão a aceitá-la durante o auge da sua fertilidade.

E se, por um lado, existe valor moral em ser voluntariamente celibatário, existe muito pouco em ser-se involuntariamente celibatário. A verdade é que a via ascética é, e sempre foi, um caminho adequado para uma pequena minoria. A maioria dos homens não nasceu com essa vocação, e numa era sã, estariam casados e com famílias. Acontece que esse caminho é cada vez mais difícil, e exige ainda mais virilidade para o atingir. Exige, na verdade, um esforço continuado para manter a mulher fora da esfera de influência do Demónio.

Que uma maioria dos homens de valor, com princípios, com uma ideia de como a sociedade deve funcionar, siga uma via ascética (voluntária ou involuntariamente), não é um caminho para a restauração, não é um alicerce para o futuro. Mesmo quando é moralmente impecável, não oferece qualquer saída para o buraco em que nos encontramos. Pelo contrário, ajuda a que a situação piore ainda mais rápido, pois não coloca qualquer entrave a que as mulheres cumpram a sua natureza hipergâmica, e desperdicem a sua beleza e fertilidade em busca do ideal hedonista.

A sociedade moderna é repleta de paradoxos morais. Um deles, talvez o maior, é que para voltar a estabelecer uma ordem natural e moral na sociedade, o homem tem de estabelecer um domínio sobre o imperativo feminino sem ter qualquer ferramenta legal ou social, mas unicamente a sua narcismasculinidade. Para dominar a mulher num clima de libertação sexual, o homem não pode simplesmente oferecer-lhe o que oferecia no passado pois praticamente tudo pode ser adquirido sem um homem. Desde o conforto material que o emprego lhe oferece até à atenção masculina das hordas de homens sexualmente frustrados obtida através das redes sociais. Só a virilidade da liderança, da tutela do homem, e o sexo, a atracção primária, não pode ser adquirida sem ele. Se um homem for casto, e a mulher não for (e tudo a impele a que não seja), ela nunca o respeitará e com a grande loteria do divórcio, que favorece desproporcionalmente as mulheres, o homem não terá qualquer hipótese de estabelecer domínio sobre a mulher. Pelo contrário, acabará figurativamente castrado.

As mulheres são naturalmente subordinadas ao homem, e portanto as suas atitudes são, mesmo neste clima tóxico, subordinadas ao que os homens na sua vida lhes permitem. Mas isto acarreta uma responsabilidade, um esforço, um peso sobre os ombros que muitos não querem tomar. Esta masculinitynegação da realidade vai do indivíduo às instituições, em especial no campo do tradicionalismo. A verdade é que por muito que vejamos as várias mentiras que o sistema lucra em nos vender e nos rejeitemos a comprá-las, há sempre uma parte de nós que quer voltar ao conforto da mentira. E a primeira mentira que insistimos em consumir é a de que podemos esperar a mesma força moral das mulheres que esperamos dos homens; que podemos confiar no cumprimento das regras quando já não existe árbitro ou penalização pelo seu não-cumprimento. A mulher submissa e casta era um produto, não da sua biologia, mas das circunstâncias legais e sociais em que se encontrava. Circunstâncias que já não existem, mas que pelo contrário são em tudo opostas às que mantinham esse santo equilíbrio.

O conforto da mentira é apelativo, porque não exige esforço, intelectual, moral ou físico. Em nenhum campo isto é mais observável do que nas relações entre os sexos. Queremos ainda acreditar que o contexto em que vivemos é o mesmo que vem descrito na Bíblia, e que portanto podemos aplicar as mesmas estratégias e obter os mesmos resultados. Ignoramos voluntariamente que o Demónio é um íntimo conhecedor da escritura, e que a sua estratégia é encaminhar o mundo para as ambiguidades dos versos, criar situações não explicitamente descritas, onde as prescrições não geram os efeitos desejados, pois o contexto mudou, e assim desencaminhar as almas do caminho recto ou votando as que não desencaminha à total impotência e sofrimento.

Não é pois surpreendente que tantos jovens se afastem da Igreja, quando esta ignora com violência a realidade fora das suas portas, apontando um caminho onde agora só existem obstáculos e sugerindo acções que geram o efeito contrário daquilo que deviam gerar. Não é de admirar que tantas famílias católicas votem os seus filhos ao celibato involuntário e as suas filhas à promiscuidade radical (um meme vivo do mundo moderno, observável por todo o mundo ocidental). O fariseismo na questão da sexualidade tem o mesmo efeito que qualquer forma de fariseismo: afastar as almas da verdade, focando-se nas regras, em vez de no espírito. E a total fifty.jpgefeminação da Igreja é por demais óbvia precisamente no catecismo sobre o casamento e a sexualidade. As mulheres são chamadas a serem submissas aos seus maridos, mas apenas na medida em que os homens ‘amam as suas esposas como Cristo à Igreja’, e a interpretação, claro, vem directamente da mulher: se o homem não faz a mulher ‘sentir-se’ amada, então este não merece a sua submissão. A Igreja moderna sublinha este absurdo mantra da cultura pop, de que o amor é um sentimento, em vez de uma acção. E naturalmente, no campo dos sentimentos, a mulher tem todo o poder. E enquanto castigam os homens pela sua libido, mesmo quando não tem qualquer escape moral, desculpam às mulheres a sua constante procura por atenção masculina ou as suas fantasias em forma de romances degenerados.

Os homens modernos não podem esperar, ou procurar, uma esposa. Têm de exercer a sua masculinidade para fazer esposas das mulheres que se cruzam no seu caminho – e mais, exercê-la continuamente para que elas se mantenham esposas. Da mesma forma que não podem encarar o contexto sexual de um ponto de vista hedonista, procurando apenas o prazer imediato, não podem encará-lo de uma perspectiva beata e formalista, obedecendo a regras de um jogo que deixou de ter regras há muitas décadas. Os homens têm de estar preparados e dispostos a procurar e abordar mulheres para fazer de uma delas a sua esposa – longe vão os tempos em que podia confiar no círculo social, nas relações de proximidade, para encontrá-la, e longe vão os tempos em que a primeira que lhe surgisse daria uma esposa obediente e cristã. E têm de estar preparados para abandonar a relação, não por razões egoístas, mas porque o clima presente é necessariamente um de tentativa e erro, e nada mostra melhor a superioridade e virilidade do que ter opções e estar disposto a sair quando a mulher não cumpre com a sua submissão. A natureza biológica da mulher impede-a de apreciar a força do compromisso masculino, a sua dedicação ou até mesmo a Lei – e sem forças externas como a tutela familiar, a influência da Igreja ou leis que a contenham, é necessário que o homem tome as rédeas, sozinho, e imponha a ordem natural ditada por Deus.

De todos os episódios bíblicos, nenhum é mais ilustrativo da natureza feminina do que a insubordinação da Eva perante o mandamento divino. Se a mulher não pode ser confiada para se adam and eve.jpgmanter fiel a Deus, quanta negação e ilusão é necessária para se acreditar que, sem constante supervisão e acção, num mundo em que a serpente está presente em cada esquina, se mantenha fiel ao homem?

O homem de princípios tem de encarar a relação presente entre os sexos como uma guerra, e numa guerra nem todos os mandamentos podem ser perfeitamente seguidos. Se forem, é a garantia da derrota. Para isto se desenvolveu o conceito Cristão de ‘guerra justa’. A guerra entre os sexos é real e fugir à batalha não é uma opção se o objectivo é voltar à sanidade social, à ordem natural, ao casamento Cristão.

A Revolução Reaccionária no Século XXI

novabandeiraPorquê ter uma bandeira azul e branca sem a coroa? O que é que significa? Vou explicar no fim. Para chegarmos ao destino, primeiro temos de percorrer o caminho. Por isso, façamo-nos à estrada.

Suponho ser inevitável que um reaccionário dê consigo a sonhar com alguma espécie de restauração, ou seja, uma revolução; um corte com a elite política do momento e, no caso da revolução reaccionária, a sua substituição pela elite passada ou pela elite presente que representa esse passado. E sendo reaccionária, esta revolução, seria no sentido de uma sociedade recta e ordeira.

Só por ler a frase se nota o quão difícil será efectuar na prática uma tal contradição teórica. As revoluções são sempre violentas, caóticas – o contrário do que se pretende. Os golpes palacianos são mais elegantes, menos primitivos, menos desmiolados. Por isso a Direita, em geral, prefere-os às revoluções puras e duras.

A única forma de a Direita fazer um golpe palaciano é através das instituições: infiltrando, influenciando, convertendo. Com instituições queremos dizer os centros de influência política, religiosa, militar, económica, cultural, legal – que em democracia fazem todos parte do mesmo bolo, e que em Portugal significa também, centralizar tudo em Lisboa, e deixar ao resto do país as migalhas.

Só que os golpes palacianos apenas funcionam quando as instituições foram infiltradas. A formalidade do golpe na transferência de poder quando é dita em voz alta, é apenas isso: uma formalidade. O verdadeiro golpe acontece aos poucos, devagar, por baixo – muito antes de chegar ao palácio. Mas a eficiência de uma tal revolução pressupõe que as instituições estejam num estado em que é possível e desejável recuperá-las. Gostaria que me apontassem uma que não esteja podre dos pés à cabeça e cujo resgate valha a pena, para não falar da possibilidade de a resgatar. E, para não nos perdermos muito cedo em deambulações teóricas, convém lembrar que as ‘instituições’ são simplesmente as pessoas que populam e agitam as tais. Não há um espírito mágico a correr pelos corredores, a não ser possivelmente um ou outro demónio, mas esses são também o resultado da presença humana.

Pelo que a conclusão é que as instituições estão podres, porque as pessoas estão podres. Triste realização. O clássico golpe palaciano parece improvável. Mas vamos esquecer o caminho para lá, e imaginar que está feito, por milagre. O golpe monárquico e o golpe ‘Faxista’, chamemos-lhe assim, são cenários diferentes, por isso vamos separá-los.

Imaginando a eventualidade de Portugal voltar a ser monárquico, devolvendo o trono ao seu herdeiro, a ideia de que cortará com a modernidade – não só politica mas culturalmente – já me parece demasiada suspensão da incredulidade para que os espectadores continuem a ver o filme. Não me parece igualmente que dure muito, mesmo que dê de início todos os passos certos. Só não argumento contra aqueles que acreditam na restauração por razões de fé – honestamente, apenas um milagre pode efectuar essa restauração, não só em nome, como em espírito. E a verdade é que ter fé em Deus é preferível a ter fé nos homens, em todas as ocasiões e circunstâncias.

Quanto aos monárquicos que acreditam, ou fingem acreditar, numa restauração por vias democráticas, rio-me da vossa ingenuidade e censuro a vossa malícia ou tolice.

Se sairmos do campo da monarquia, temos o ‘Faxismo’, as ditaturas populares de Direita (Salazarismo, Franquismo) ou com tiques de Direita (Fascismo, Nacional Socialismo). Imaginar uma restauração do Estado Novo, por exemplo, actualizado para o Portugal no Século XXI não deixa de ter o seu apelo nostálgico mas parece igualmente improvável, senão ainda mais. Aqui, nem o apelo ao Divino o pode fazer acreditar.

O problema das ditaduras populares é que são populares. Em última instância o poder está na figura carismática do líder. O Salazarismo era óptimo, mas morreu com Salazar – com ele era o que era, sem ele não era nada. Caetano não era terrível (era certamente melhor que qualquer político da I ou da III República), mas não tinha o carisma – e portanto não tinha a autoridade.

Na política, as massas são movidas por caras, símbolos, slogans – mas não são, nem nunca serão, actores políticos. Não o são em Monarquias Aristocráticas, como o não são em ‘Faxismo’, Comunismo ou Social-Democracia. Mas nestes últimos, mantém-se a fachada de que são (quer seja pela identificação do líder carismático ou do Estado com o povo, ou pelo sufrágio universal). Grande parte da propaganda do Fascismo Italiano e do Nacional-Socialismo Alemão propõe-se a afirmar que o Estado, o Líder, ou o Partido, agem em benefício do povo, através do povo: pelo povo e para o povo. Nessa pedra basilar está a fundação ideológica dos regimes autoritários de Direita. Ao contrário de uma ordem aristocrática, o poder está sempre na rua; a política faz parte da vida dos comuns mortais.

Pelo que para edificar uma ditadura popular de Direita, é preciso um povo em concordância. O povo português de hoje não é o povo português de 1926 ou até de 1945 – ou, sequer, de 1965. A consistente e insistente destruição e implosão do casamento, da família, da comunidade, da Igreja, etc etc etc, tem os seus efeitos inevitáveis. O povo é de Esquerda. O povo até pode querer mais autoritarismo, mas é de Esquerda. Imaginem um Estado mais agressivo no combate ao crime, na protecção das fronteiras, na punição da delinquência; imaginem um Estado que banisse a pornografia, ou proibisse as relações homossexuais. Imaginem um Estado que ilegalize o aborto. A reacção popular seria de rir se não fosse de chorar. Isto mesmo sem contar com o dinheiro estrangeiro que geralmente acaba no meio destas causas. Mas mesmo sem esse dinheiro, quer-me parecer que a probabilidade do regime durar é pequena.

Abrir a política ao povo é convidar e promover o elemento mercenário e o elemento parasítico numa ordem social, qualquer que seja. De repente, o exercício do poder, a garantia de uma ordem, não é um dever de homens capazes e dispostos, mas uma carreira com promessas de subir na vida. Os piores são atraídos para o topo, seja com partidos ou com o partido. Voltamos a repetir: o povo de hoje não é o povo de Salazar. É o povo de Mário Soares e Cavaco Silva. Uma importante diferença. Uma diferença que inviabiliza a restauração.

Pelo que a restauração monárquica ou ‘faxista’ é, na minha perspectiva, um sonho idílico de quem não costuma privar com o cidadão comum.

E aqui chegamos à questão da bandeira. “Se não acreditas na restauração, porquê a bandeira azul e branca?” “E porquê apropriar as cores sem a coroa?” O que a bandeira significa é que, apesar da nossa história e da tradição monárquica em Portugal, me interessam pouco os aspectos cosméticos da Monarquia. Sou monárquico porque acredito que o governo privado e hereditário é a forma natural de governo, porque considero que essa é a forma recta e desejável do exercício do poder, não porque nutra qualquer simpatia ou reverência pelos nossos membros da aristocracia, ou pelas qualidades estéticas da história da monarquia portuguesa. A aristocracia moderna é o produto do seu tempo e, admita-se, não serve. Uma nova aristocracia terá de nascer para que um regime monárquico exista. Uma aristocracia nascida do mérito, da honra e do sentido de justiça, ou seja, da verdadeira autoridade, na qual o exercício recto do poder se funda. Tal como surgiu aquela depois da queda do Império Romano, nascerá esta depois da queda do Império Americano.

Por isso, não desanimem. A batalha não está perdida. É simplesmente longa e nós estamos na fase de transição. Para fundar uma nova aristocracia é preciso fundar um novo povo que reconheça a sua autoridade natural. Não existem soluções fáceis e rápidas. Não existe revolução reaccionária que, numa manhã de nevoeiro, traga o almejado regime e o permita governar em paz. Para o regime mudar as pessoas têm de mudar. E isso leva tempo.

Por isso escolhi uma bandeira que não é a presente, nem a passada, mas uma que signifique a aspiração a um Portugal futuro. É a minha convicção que a “ordem” (e ponho aspas porque é mais uma desordem) presente está para lá da salvação e com a sua desintegração, as estruturas de poder vão desaparecer e a realidade será reduzida à sua base natural: a família. Depois, a comunidade. A nós, e provavelmente aos nossos filhos, netos e bisnetos, resta-nos continuar. Os nossos números vão descer. O nosso conforto vai diminuir, as adversidades aumentar. Mas pela persistência no esforço da continuação nascerá uma nova ordem.

A resposta simples, mas não fácil, é que para fundar uma nova monarquia, é simplesmente preciso ser um Homem. Ser um Homem nas acções e nas palavras. Ser honrado e não apologético. Fazer o bem e evitar o mal. Planear e construir. Ter uma família e liderá-la. Fazer filhos e educá-los, para que eles possam fazer o mesmo quando crescerem. Continuar, indiferente às modas e às obsessões do mundo iníquo que nos rodeia. E um dia, mais cedo ou mais tarde, os nossos netos ou bisnetos poderão hastear uma nova bandeira e proclamar Portugal uma pátria, novamente, integral.

O enigma dos Liberais

«Academia is to knowledge what prostitution is to love»
Nassim Nicholas Taleb

Depois de termos falado dos problemas do liberalismo, vamos falar dos problemas dos Liberais. Isto, admita-se, é mais fácil: existem muitas, muitas obras do pensamento liberal e nem todo esse pensamento é de deitar para o lixo (em alguns casos, como Mises, é absolutamente essencial). Os Liberais antigos, ao contrário dos modernos, ainda tinham algo que um reaccionário podia aproveitar.

Em especial, pode aproveitar-se a Escola Austríaca (ou pelo menos, as obras principais). Esta escola de pensamento é a única escola económica que não foi cooptada pelo materialismo (tanto o antigo, de Smith e Ricardo, como o moderno, de Fisher e Keynes) – e como tal é também a única que consegue apresentar uma teoria que represente a realidade económica e a explique de forma satisfatória.

Não será de surpreender, no entanto, que os escritos puramente económicos da Escola Austríaca (que não contêm necessariamente prescrições políticas) tenham com o tempo servido de base, e justificação, para prescrições políticas. Prescrições liberais.

Mises, a figura principal e certamente a mais interessante, fez sempre questão de distinguir entre os seus escritos puramente económicos e os seus escritos políticos. E por fazer essa distinção, ambos mantiveram a sua relevância. Theory of Money and Credit, por exemplo, continua a ser a obra essencial para explicar o clusterfuck que é a política monetária democrática, sem no entanto advogar contra ou a favor: limita-se a chamar os bois pelos nomes. Um retrato mais largo da teoria e realidade económica pode ser encontrado em Human Action. Ambos os livros são peças necessárias para entender o mundo em que vivemos.

Nos seus escritos puramente políticos (como o Nation, State and Economy) Mises observa o mundo com uma clareza que faria corar reaccionários modernos – como observámos aqui, em Democracia, o caminho é sempre para a Esquerda, o que faz de um liberal há cem anos um terrível reaccionário contemporâneo. No entanto aqui já podemos observar, no meio da sua enorme erudição, a tendência (talvez inevitável) de ver o mundo somente pela esfera económica, e cair na armadilha liberal, whig, progressista. Esta crença de que o mundo está em constante progresso (em vez de degeneração) era um conceito que Mises terminantemente rejeitou toda a vida na sua teoria económica (pois era inegável a degeneração da disciplina), e no entanto, na sua vertente puramente política Mises continuava a cair na patranha, e acreditar que a passagem das entidades políticas aristocráticas para as democráticas tinha sido um progresso. A obsessão económica tinha levado a melhor.

E aqui entramos especificamente no tema deste texto. Tal como Mises, os Liberais portugueses deixaram o seu conhecimento de teoria económica levar a melhor e enformar todo o seu pensamento político. Ao contrário de Mises, não o fazem com especial erudição (mas não os vamos censurar por isso – podem acusar-me do mesmo e com razão). Os principais sítios da blogosfera portuguesa liberal são o Blasfémias e o Insurgente e é neles que se encontra esta obsessão, à superfície incompreensível. Ambos são, supostamente, de Direita. E apesar de se aproveitar um ou outro indivíduo em particular (e de vez em quando), a verdade é que a maioria revela um autismo estonteante e tem um único barómetro político: a economia.

Os Liberais portugueses são democratas. Sendo democratas são obrigados a mover-se intelectualmente na Janela de Overton, por auto-censura inconsciente e por auto-censura PwnedCatconsciente. Por causa dessa auto-censura, os Liberais estão obcecados com reformas dentro do sistema. Nunca sequer lhes ocorre que o sistema deva morrer, que o sistema seja iníquo, que o sistema seja podre de raiz. E se ocorre, não o dizem. Pelo contrário. E há uma razão para isto, mas já lá vamos. Por agora convém salientar que a obsessão económica não é defeito, é feitio.

Como explicar que um liberal não queira sair da UE? A UE é essencialmente a versão moderna da União Soviética: um organismo insonso de burocratas cinzentos que ditam a vida de milhões de pessoas sem qualquer representatividade. Não são os Liberais a favor da representatividade?

A explicação é que os Liberais temem que haverá menos liberalismo económico nas nações europeias sem a alçada benévola da União Europeia. Temem em especial que haja menos em Portugal. E sendo essa a única métrica para a sua visão política, são contra. E é inegável que isto sucederia, a curto prazo. O que levaria a um colapso, a médio prazo.

E aí voltamos à mesma questão: os Liberais temem o colapso do sistema, por mais iníquo que o sistema seja, por mais antitética ao Liberalismo que a própria fundação monetária desse sistema 839d3c15540b493f867668a0ca132551.jpgseja, por mais iliberal que o sistema seja. Os Liberais lutarão incansavelmente (na esfera intelectual) para evitar descartar a constituição comunista que rege o país. Há anos que os Liberais andam a anunciar a falência da Segurança Social, há anos que falam da fundação fraudulenta do sistema monetário, há anos que apontam a ignomínia da dívida pública. E no entanto as suas prescrições são sempre no sentido de evitar o colapso inevitável. Em vez de matar o dragão, os Liberais querem domesticá-lo.

Eles sabem, no entanto, que o colapso é inevitável. Mas ao que parece os Liberais têm um enorme medo do sofrimento, mesmo do sofrimento salutar. Só que é inegável que, de uma forma ou outra, haverá sofrimento. Muito especificamente, sofrimento económico. Haverá tumultos por causa desse sofrimento. Para usar a analogia preferida dos Liberais, a desintoxicação não é agradável para o drogado. Mas estar constantemente na corda bamba dos paliativos não é uma solução. É uma cobardia.

O que escapa aos Liberais obcecados com as consequências económicas imediatas, ou que insistem em não ver, é que para uma boa parte da população (e muito em especial daquela população que vive à conta do Estado – em que muitos deles se incluem, quer gostem disso ou não), é necessário sofrimento. Cristo também teve de sofrer na cruz antes de ressuscitar.

É preciso que as pessoas vejam o que é viver sem subsídios. É preciso que vejam o que significa uma dívida impagável e as consequências de dizer, firmemente, que não a vamos pagar. É preciso que voltem a depender das famílias, dos amigos, dos vizinhos, da comunidade. É preciso que encarem a realidade de ter trabalhos duros e desagradáveis. É preciso que sejam obrigadas a não gastar tudo o que ganham, a viver com menos do que precisam, a poupar. A maioria das pessoas tem conforto a mais para o seu próprio bem. Tal como os Liberais, perderam a noção do que é importante. Não sabem distinguir o eterno do transiente.

A grande maioria dos nossos defensores do mercado, são defensores apenas do seu esqueleto, sem entenderem (ou não querendo entender) que a alma e a carne que enformam esse esqueleto são mais importantes para que o sistema funcione do que a formalidade desse sistema. Neste momento, a alma do povo é o Estado Social, é a dependência, é a morosidade, a preguiça, a vaidade e a gula. O liberal não diz ‘vamos acabar com o sistema para erigir sobre as ruínas uma fundação sólida‘. Diz ‘vamos adiar o seu colapso, e acentuar as consequências desse colapso‘. Porque, como Keynes dizia, a longo prazo estamos todos mortos. Os Liberais esperam honestamente estar mortos quando o colapso acontecer. E trabalham para adiar esse colapso de forma a garantir esse destino.

Assim se explica, em parte, o porquê de os Liberais acreditarem na democracia: é uma forma voluntária de cegueira. Acreditam que elegendo o PSD (ou, vá lá, a ala Liberal do PSD, que é a ala moderada da moderação deles mesmos) vamos caminhar para mercados mais abertos e atenuar o Estado Social (não se riam). Tentam vender o seu peixe a pessoas que só comem carne e cover26defendem eurodeputados porque disseram uma vez uma frase liberal (enquanto fazem parte do conselho cosmético da União das Repúblicas Socialistas Europeias). Acreditam que as pessoas comuns (o maior entrave ao liberalismo), pessoas que não poupam, que vivem do Estado Social, cujos únicos interesses são o futebol e a novela, que papam tudo o que lhes dizem na televisão, cuja única cultura é o consumismo, estas mesmas pessoas que nem cuidar de si e dos seus conseguem ou pretendem fazer, podem e devem votar em representantes. Representantes esses que não representam ninguém a não ser a si mesmos e aos interesses que os compram. Este retrato da Democracia e da população em Democracia não é um exagero, é observável. E mesmo que não fosse, é intuitivo. E se a intuição não fosse o seu forte, podiam sempre ler Hans Hermann Hoppe. Mas não. Estão presos numa visão whig da história em que à frente está sempre o progresso.

Mas existe uma peça do puzzle em falta. Acima dissemos que se trata de cegueira, mas é uma cegueira voluntária. A maioria dos Liberais é inteligente e certamente teve tempo e oportunidade de se deparar com a contradição em que se encontra, estes liberais certamente que leram os livros certos e reflectiram sobre o que leram. Da própria perspectiva do liberalismo, a sua defesa do status quo é inexplicável.

Mas explica-se perfeitamente quando se percebe que escrevem em nome próprio e que têm empregos e reputações a defender. Que quase todos são beneficiários do sistema falido das stock-vector-scale-favoring-self-interest-rather-than-personal-values-108478289universidades. São professores, ou consultores, ou comentadores especialistas. Pagam a renda a girar a alavanca das ciências sociais nas fábricas de mentecaptos. Ser liberal é alternativo, mas é trendy. Um liberal pode ir às festas e às conferências, pode fazer parte das instituições, pode viver em paz sendo o enfant terrible que o consenso de Esquerda tolera, porque não ameaça.

Não se espere, pois, que rejeitem o seu modo de vida em nome de ideais maiores, ou sequer de consistência ideológica. Não se morde a mão que dá de comer.

O Meio é a Mensagem

Daily news and sugar confuse our system in the same manner.
Nassim Nicholas Taleb

A citação acima aparece no livro Antifragile (altamente recomendado, como os outros do autor) e vem na sequência de uma explicação do fenómeno de iatrogenia quando aplicado ao consumo regular de notícias. Em resumo, o que Taleb argumenta é que os jornalistas precisam de encher chouriços para vender jornais (e mais importante, anúncios), todos os dias. A atitude adequada seria ter jornais de várias páginas quando há notícias relevantes que o justifiquem, e jornais com poucas ou nenhumas quando não as há. Visto que isto não acontece, ler jornais é essencialmente consumir fast food – o pouco de nutritivo encontrado na refeição, é soterrado em, e anulado pela, enorme quantidade de porcaria.

Não é por isso de admirar que o consumo de notícias no mundo moderno, das notícias ao minuto, seja essencialmente um exercício plebeu. Uma forma perversa de entretenimento, a institucionalização do mexerico, a veia respeitável da intriga – ou a simples e c350px-Nompleta irrelevância. Comentar notícias é portanto uma actividade direccionada à plebe. Se Marshall Mcluhan estava certo, então os comentadores de notícias são a diabetes resultante do consumo do McDonalds dos media. Por vezes é difícil dizer se os blogs têm alguma mensagem independente do que aconteceu no próprio dia.

Os jornais são portanto, e no melhor dos casos, irrelevantes. Os blogs, no entanto, podem ter utilidade. Só que a maior parte deles está focada em reagir aos jornais – como se estes ainda fossem relevantes. Não é pois surpreendente, tendo em conta que o público alvo é a plebe, que os comentadores de notícias não se distingam em geral pela sua perspicácia, pertinência ou inteligência. Nos blogs o público alvo não é a plebe – a plebe, em geral, não lê – mas sim a classe média. Essa fraquíssima classe média que é essencialmente uma plebe com mais algum dinheiro para consumir a cultura plebeia. O resultado dos blogs cuja principal função é comentar notícias, para os quais não vou providenciar links, pois toda a gente sabe quem são – e que não estão na lista aqui ao lado por esta razão – é a perpetuação da plebeização da classe média.

Não temos um equivalente decente, na língua portuguesa, da expressão anglo-saxónica knee-jerk, mas assumo que os meus leitores, não fazendo parte da plebe, conheçam a expressão e saibam o que significa. Muitos blogs políticos, incluindo infelizmente os que se situam à direita, que são os que me interessam adereçar, existem para este exercício de knee-jerk. O governo faz ou diz qualquer coisa, um evento internacional ocorre, e lá vão eles comentar. Na grande maioria dos casos, é irrelevante. É apenas a saciação do instinto primitivo e plebeu para o mexerico. A maioria dos eventos ou das acções do governo encaixam em meia dúzia de categorias, pelo que o teor dos comentários é sempre o mesmo.

Quando a maioria do produto dos blogs é determinado pela reacção imediata a eventos recentes, o produto não pode distinguir-se pela clareza da reflexão. Muitas vezes não sabemos porque tomámos certa decisão, nem os seus efeitos a longo prazo, até muito tempo depois da decisão em si mesma. Se isto acontece a um nível pessoal, quanto mais acontecerá se estivermos a reagir a estímulos exteriores. Pelo que, tal como nos jornais, quando há de facto notícias relevantes, como vamos saber se o comentário é relevante?

Não é difícil entender que este meio, esta fórmula, é simplesmente um facilitismo. É mais fácil reagir às notícias diariamente do que encontrar algo diferente para dizer. Até porque já tudo foi dito uma e outra vez. Duvido que este texto tenha alguma coisa de original. Mas ao menos reajam à haute cuisine do pensamento político, não à fast food dos jornais. Ou tentem. Tentar já é meio caminho andado.

Quantas vezes é preciso dizer que o Presidente da República é inepto e movido pelo apelo popular e que o Primeiro Ministro é um arrivista, que muda o discurso conforme a plateia? Quantas vezes é necessário informar que as acções do governo são contraproducentes (como se em geral houvessem acções governamentais em democracia que sejam produtivas, e ainda por cima publicitadas nos jornais)? Quantas vezes é preciso apontar que o Bloco de Esquerda, o PCP e a Esquerda em geral são um cancro para a sociedade e a exemplificação da doença mental em forma política? Quantos posts são necessários para condenar a barbárie do Islão?

O ataque de Manchester, o mais recente exemplo da consequência lógica da Democracia, gerou inúmeros posts. E não era de esperar menos. O público assim o exige. No entanto, a Direita devia perguntar-se se a sua estratégia devia ser a mesma da Esquerda, isto é, apelar ao público. O apelo ao público, à plebe e à classe média plebeizada, que tem como resultado, e em alguns casos como objectivo, plebeizar ainda mais essa mesma classe média, é talvez o exemplo mais óbvio de que a Esquerda domina o discurso.

Isto sublinha a necessidade de novas elites de Direita, que em vez de apelarem ao público, o instruam. Que não se deixem arrastar para o mínimo denominador comum, mas pelo contrário tentem elevar a discussão. Que não corram em direcção ao vazio numa tentativa de reformar um sistema perverso por dentro, mas sim retornem a um modo de sanidade do discurso e se dediquem a discutir como sair do paradigma presente.

Agora, para ilustrar o meu argumento, vou ter de efectuar um comentário sobre o atentado de Manchester. O que salta à vista sobre o atentado em primeiro lugar é o seu carácter banal. Não há nada de excepcionalmente surpreendente no acontecimento, nem nas reacções à direita ou à esquerda. O barbarismo do Islão não é notícia, é rotina. O autismo da Esquerda não é só expectável como natural. A reacção ambígua e amoral das falsas elites políticas também é par for the course.

A verdadeira notícia sobre o atentado Manchester não é pois a violência, mas o relativismo moral do Ocidente. Essa deveria ser a preocupação da Direita.

Num “concerto” de uma stripper cantante, cujos cartazes que promovem o evento fazem alusão às coelhinhas da Playboy e ao sado-masoquismo, cujo “espectáculo” consiste em agitar-se semi-nua ao som de cacofonia sem qualquer redenção musical, com acompanhamento dançante de homens e mulheres que simulam actos sexuais (hetero e homo), cujo conteúdo lírico é essencialmente pornografia (pesquisem as letras se não acreditam), o que choca é a presença de crianças no evento. Que este facto não seja discutido, é preocupante. Eu tentei em vão procurar essa mesma discussão nos blogs de Direita, e não a encontrei.

As crianças morreram às mãos dos bárbaros porque a Democracia permitiu que eles entrassem nas nossas sociedades. Mas, mesmo que não se tivesse permitido a sua entrada, a cultura moderna no Ocidente continuaria a ser moral e intelectualmente degenerada. As vidas das crianças que morreram teriam sido salvas, mas não as suas almas. Porque as elites modernas continuariam na sua demissão, na sua cobardia, abandonando qualquer insistência em padrões artísticos e morais – ou sequer na simples rejeição da sexualização das crianças. A degeneração continuaria a ser promovida pela Esquerda, e à direita continuaria o silêncio gritante de quem não os tem no sítio para chamar os bois pelos nomes.

Este é o verdadeiro tema porque se a degeneração moral e intelectual do Ocidente não for resolvida, então o que resta para se salvar da nossa civilização? Porquê rejeitar os bárbaros? Essa é aliás uma das razões pelas quais os bárbaros nos vêem como presa fácil: uma civilização sem valores não dura muito mesmo sem invasão. A razão porque estamos abertos a essa invasão é precisamente por essa ausência de valores.

A Direita esqueceu-se que deveria ser moralista, e moralizante. Quer ser como a Esquerda. Para angariarem meia dúzia de plebeus, preferem mover-se intelectualmente na Overton Window, no discurso aceitável pelo consenso de Esquerda. Em suma, ao aderir ao meio da Esquerda (apelar ao público) a Direita transforma-se na Esquerda.

Por isso não é surpreendente que a Direita tenha tão pouca influência. Os seus comentários são o espelho da Esquerda, não uma interpretação independente. As suas reacções aos eventos são apenas sinalizações da sua posição no espectro político. Um espectro que é definido pela Esquerda. O seu meio é o mesmo, ou seja, a sua mensagem é a mesma.

2 overton usDaqui a dez anos, esta ‘Direita’ terá a mesma opinião que a Esquerda tem hoje – tal como essencialmente tem hoje a mesma opinião que a Esquerda tinha há dez anos (excepto talvez na Economia – é um tema difícil de desaprender). Um episódio caricato que ilustra bem a situação: há uns bons anos presenciei uma cena em que um padre se recusou a deixar entrar na igreja uma rapariga porque tinha os ombros destapados, e só  deixou quando ela, contrariada, os tapou. Hoje raparigas entram na igreja como se fossem à caça para o Intendente e ninguém diz nada. Provavelmente para não ferir as susceptibilidades progressistas dos pais, que deviam ter mais noção do que deixar a miúda vestir-se assim.

Com esta atitude, é impossível evitar que os postes da baliza se movam constantemente. O que é preciso é que a Direita saia de campo e jogue outro jogo.