‘Pregar aos convertidos’ e algumas sugestões

UPDATE @ 18:57: um pouco depois de publicar o texto, encontrei isto que ilustra perfeitamente o meu argumento quanto ao problema de querer apelar às massas. No video vemos um dos ‘nacionalistas cívicos’ mais populares, Tommy Robinson, a chamar ao palco de um evento político um drag queen e a aplaudir-lhe a bravura. Isto é o que acontece quando se quer ser ‘big tent’.

A ideia para este texto surgiu de uma conversa que tive com o Afonso de Portugal, na caixa de comentários deste post.

A ideia de que ‘pregamos aos convertidos’ é algo que já terá ocorrido a todos os autores cujas ideias são diferentes do mainstream, sobretudo desde o advento da Internet. Com a possibilidade de chegar directamente a um vasto público vem a sensação de fracasso e o sentimento de frustração quando o não conseguimos concretizar, e em vez disso parece que escrevemos apenas para o pequeno grupo que já nos conhece. Talvez ainda mais descoroçoante seja realizar que nunca chegaremos a influenciar com os nossos escritos um número considerável de pessoas. Esta última asserção não é partilhada por todos. Pelo contrário, muitos dos meus pares têm ainda como objectivo alcançar as massas e convertê-las à causa. Aqui vou expor as razões porque acho que tal não é possível, nem desejável, no estágio presente do nosso movimento.

Como o Afonso aponta e bem a “blogosfera tem perdido muitos leitores nos últimos anos, em grande parte devido às redes sociais”. O imediatismo junta-se às injecções de dopamina por cada reacção nessas redes, algo que os blogs não podem replicar, e com o qual não podem portanto competir. Junte-se a isso o facto de os ‘nacionalistas’ e ‘tradicionalistas’ não terem conseguido ‘ter um impacto visível’ nas redes sociais. Penso que há formas de utilizar as redes sociais de forma benéfica a nosso favor, mas falarei mais à frente deste aspecto. O que não considero é que alguma vez consigamos ter o mesmo nível de impacto, ou sequer parecido, que personalidades e grupos do mainstream têm.

O Afonso compara, por exemplo, as audiências gigantescas de miúdos parvos no Youtube com o insucesso numérico dos nacionalistas, e conclui “Ou encontramos formas eficazes de seduzir os nossos potenciais eleitores ou estamos condenados a continuar a falar para meia-dúzia de pessoas que já pensam como nós. Isto é um problema muito sério, a que poucos no movimento nacionalista têm dado atenção. É preciso aprendermos a vender o nosso peixe, ou continuaremos a perder as batalhas e, no final, a guerra!“. Eu concordo, mas acho que o mais importante é saber o que estamos a vender. A publicidade direccionada gera muito mais frutos do que a indiscriminada: a BMW não vai fazer publicidade num bairro social, mas em bairros de classe média alta. Ou seja, temos de saber quem são os consumidores da nossa particular espécie de ‘peixe’. Para isso temos de saber que ‘peixe’ é (se queremos atrair as massas ou atrair um número mais reduzido de homens capazes e rectos) e tal como os publicitários da BMW sabem identificar quem tem meios financeiros de comprar BMWs, nós temos de saber quem tem meios intelectuais de ‘comprar’ as nossas ideias.

Considere-se o cidadão comum: aquele que obtém toda a sua informação de fontes oficiais e desconfia de tudo o que não venha com o selo dessas fontes; que papa novelas, reality shows ou filmes de superheróis; que ouve a música terrível e degradante que dá na rádio, etc. Ou considere-se até o intelectual comum (estudante universitário, professor, jornalista, etc), cujo bem estar e estabilidade financeira (para não falar da psicológica) dependem da sua aderência aos lugares comuns do nosso tempo. Consegue-se imaginar que as nossas ideias os convençam? Terão capacidade intelectual, ou honestidade moral, para sequer as entreterem seriamente?

Eu não concordo que se possa instruir as massas pois por definição estas são insusceptíveis de instrução. Isto pode soar excessivamente elitista mas não somos nós contra a ideia de igualdade? Não reconhecemos a naturalidade das hierarquias? Só porque a Internet oferece a possibilidade de se chegar a um número elevado de pessoas, não significa que todo o tipo de ideias possam ser adoptadas (ou sequer consideradas) pela maioria. A Internet mudou os meios de comunicação, mas não mudou a natureza humana. Esta incapacidade das massas de pensar em problemas sociais não existe apenas na nossa sociedade, existiu em todas as do passado e existirá em todas as do futuro. Simplesmente não é útil ou possível ao cidadão comum pensar sobre questões complexas de organização social ou teor moral. Vários psicólogos sugerem até aos seus pacientes que se deixem de preocupar com tais assuntos pois estão fora da sua esfera de influência e controlo e como tal tendem a gerar sentimentos de ansiedade e stress. Tudo indica que somos nós, os que pensamos a fundo e frequentemente sobre estes assuntos, e não eles, que os ignoram, os verdadeiros ‘malucos’, pois dedicamos o nosso tempo a assuntos que estão largamente fora da nossa esfera de influência directa. Ou seja e em suma: nunca chegaremos a 99% dos fãs dos miúdos parvos do Youtube.

Depois há a questão de que o nosso canto da Internet é considerado radical pois está fora do espectro do discurso aceitável. Tendo em conta a natureza das mulheres e a quantidade de homens efeminados para quem seguir a linha oficial em assuntos desta dont-think.jpgnatureza é absolutamente essencial para a sua estabilidade psicológica, para quem estar alinhado com as opiniões do zeitgeist constitui um selo de aprovação da sua existência, podemos descontar também estes – mesmo tendo QIs medianos ou até acima da média, a sua disposição psicológica não lhes permite entreter as nossas ideias, até que elas tenham algum peso e consequência fora dos meios intelectuais. Mesmo que o zeitgeist vá contra os seus interesses directos como sabemos ir, a panaceia do politicamente correcto é o ópio que lhes permite funcionar em sociedade e distraí-los da dissonância cognitiva. Para estes, e até sermos um exemplo a seguir, não na Internet mas na prática, continuaremos a ser uma ameaça à estabilidade mental destas pessoas e à estabilidade social que pensam depender da aderência ao zeitgeist. Mais uma vez somos nós os ‘malucos’, que rejeitamos o conforto psicológico que surge da aceitação da mundividência vigente.

É portanto duvidoso, no mínimo, que consigamos atrair um número considerável de pessoas para aquela que é uma esfera por enquanto puramente intelectual e, pior, das franjas. Mas será isto uma tragédia?

Não creio. Primeiro, como se costumava dizer, o que não tem remédio, remediado está. Não acho que alguma vez consigamos alterar a natureza humana que torna as considerações acima apresentadas uma realidade, e não penso que essas considerações possam ser disputadas. Mas se tentar apelar às massas é maioritariamente uma perda de tempo – pelas razões apresentadas acima – pode ser também potencialmente prejudicial. E passo a explicar porquê.

Desde 2016 que tenho observado a evolução de vários ‘movimentos’ que ganharam uma maior proeminência com o fenómeno Trump. De repente, estas franjas não eram tão minoritárias, apelavam a um número cada vez maior de pessoas, incluindo pessoas como as que descrevi anteriormente. O que sucedeu com esse alargamento, no entanto, foi que para o efectuar teve de se fazer um enorme número de concessões tácticas, como ClA8HJ2VEAA8oOwacrescentar água ao leite até ficar só um líquido nojento que não é nem uma coisa nem outra. Da mensagem nacionalista e tradicionalista, para apelar às massas, ficou só uma tímida e reduzida ideia de ‘nacionalismo cívico’ – a ideia de que podemos ter uma sociedade multiracial desde que os imigrantes se ‘integrem’ na nossa cultura presente – e o exacto progressismo que defende essa cultura presente contra o qual nos insurgimos. A única coisa que ficou entrincheirada foi a oposição ao Islão – mas há boas e más razões para se lhe opor, e esta estirpe (a popular), a que apela a um número considerável, opõe-se por más razões. Os seus argumentos vão todos no sentido de defender as ‘liberdades’ Ocidentais – aquelas que são a principal causa da degeneração moral e étnica da nossa civilização. Ou seja, para apelar às massas, foi preciso prestar tributo aos dogmas da nossa época, e fazê-lo inclusivamente através da estupidificação dos meios (alguns dos Youtubers mais populares desta estirpe são francamente embaraçosos, pois querem ser comentadores sérios e, ao mesmo tempo, editar os seus videos de forma a captar a atenção dos tais miúdos parvos que não conseguem prestar atenção a nada que seja sério e sóbrio).

Repare-se quem são as figuras mais populares desta estirpe mais mediática: sodomitas, mulheres, minorias étnicas, travestis. Não são os homens brancos heterossexuais que criaram e defenderam a doutrina original e não conspurcada, mas sim papagueadores imitativos Kanye-MAGApertencentes aos grupos que têm algumas medalhas nas Olimpiadas da Opressão e que portanto são passíveis de serem ouvidos pela populaça. Note-se um exemplo recente e hilariante: quando Kanye West (um homem desequilibrado e sem talento) decidiu que afinal Trump era do seu agrado, e foi ligeiramente contra o zeitgeist neste aspecto, a plebe que foi atraída pela versão ‘aguada’ do movimento entrou em euforia por ter a validação de uma das vacas sagradas do progressismo (alguém que não fosse branco), e também por ser alguém tão popular (por partilharem a opinião de que a popularidade é em si mesma uma coisa boa). O mesmo se observou amiúde com outras vacas sagradas: sodomitas como o Milo Yiannopoulos, trad thots (‘putéfias tradicionalistas’) como a Lauren Southern, ou 7efda4313127bb3389b11be36caa10d7-d596isxtravestis como o Blair White. Eu não quero estas pessoas no meu grupo, não só porque apresentam uma versão domesticada e bastardizada daquilo em que acredito, mas porque aquilo que são na prática contradiz a teoria. Não podemos promover um patriarcado tradicional etnicamente coeso através de mulheres, sodomitas e minorias étnicas. É um contrasenso. O próprio PNR, que muitos ainda consideram uma alternativa viável, já começou a desfilar afrodescendentes para se tornar mais moderno e acessível ao cidadão comum que grita de horror quando lhe dizem que Portugal devia ser dos Portugueses. Quanto tempo até o PNR ter o seu ‘nacionalista genderqueer’ para angariar votos entre desviantes e os seus defensores? Quanto tempo até ter a sua ‘putéfia tradicionalista’ para lucrar com a frustração sexual e a falta de masculinidade das novas gerações? Em suma, as pessoas que estes fantoches atraiem não são pessoas que queiramos atrair, nem são na sua maioria pessoas passíveis de serem convertidas. E as que forem passíveis de conversão não convém que o sejam à doutrina enfraquecida através de personagens semi-progressistas. Se o forem, devem ser à doutrina verdadeira, através de homens brancos heterossexuais, que representam na prática aquilo que advogam na teoria.

Resta o argumento do ‘stepping stone’, isto é, que estas personagens e as suas versões degeneradas da doutrina servem de porta de entrada para a versão dura, mas nunca observei nenhum participante sério ter sido trazido por este meio. O que observei foi uma catrefada de desviantes sexuais, minorias étnicas e homens sexualmente frustrados que enfraquecem o movimento e nunca chegam ao patamar superior. Os que por acaso se radicalizam contaminam com drama, e por vezes até doxing, porque cotinuam a ser os mesmos seres fracos e efeminados que ainda ontem acreditavam na cantilena progressista e que se juntaram ao movimento apenas por interesse, ou para satisfazer uma necessidade de pertença nascida da sua fraqueza.

Algo que já é vastamente reconhecido como necessário é a exclusão e condenação dos elementos violentos, ‘neonazis’, etc. Reconhece-se que para a percepção do homem comum ter ‘neonazis’ caricaturais a utilizar meios violentos só serve para descredibilizar e dar uma ideia errada das nossas intenções. Também eles pertencem ao grupo dos QIs baixos, mas por frustração, trauma ou disposição (ou uma combinação destes factores), são atraídos pelas franjas políticas. Mas é notório que não servem para dar uma ideia correcta daquilo que representamos, nem servem como aliados, pelo menos enquanto o movimento não existir com racionalidade e organização, e enquanto não existirem instituições próprias e liderança clara. As massas são seguidoras por natureza, mas por enquanto ainda não há nada que possam seguir, pois o movimento é ainda puramente intelectual e desorganizado.

Por todas estas razões, pregar aos convertidos é um fado inevitável, mas não é tão espúrio como se possa pensar. Há óptimas e importantes razões para se continuar a falar àqueles que já estão do nosso lado, sem moderar a mensagem. Fazê-lo endurece a convicção e assegura os participantes de que não estão sozinhos (também nós somos humanos e sofremos das mesmas disposições psicológicas que fazem com que necessitemos, até certo ponto, de saber que existe quem concorde connosco); clarifica a doutrina e expurga-a de degenerações, desvios e concessões. E através destas duas consequências da pregação aos convertidos pode chegar-se a um entendimento sobre os valores, causas e objectivos do movimento, sobre qual se pode erigir algo mais concreto. O facto de neste momento ser ainda difuso e disperso não implica que seja para sempre assim. E esta pregação não exclui a conversão de novos membros, pelo contrário, garante que se convertem os membros certos. O que é preciso ter em conta é que para se efectuar uma conversão o converso já tem de estar aberto a ser convertido. Homens curiosos e intelectualmente honestos procurar-nos-ão para essa conversão, se já estiverem abertos a ela. E para cumprir estes dois desígnios é preciso não nos deixarmos desencorajar e continuar a pregar.

Falarei noutro texto sobre um plano de acção que vá além dos esforços intelectuais, mas aqui quero deixar apenas algumas sugestões em relação a este aspecto e tendo em conta a situação presente, no sentido de atrair aqueles que já andam à procura de algo e que potencialmente o encontrarão entre nós:

1) Os blogs que tratem maioritariamente de notícias e ofereçam a nossa perspectiva dos eventos noticiados ganhavam bastante em manter uma presença regular nas redes sociais populares (sobretudo no Twitter), para publicitarem os posts e contactarem potenciais ‘conversos’. Usando os hashtags, categorias, etc, para ligar os posts aos assuntos do dia, e interagir com figuras da Direita moderada (‘Insurgentes’, ‘Blasfemos’, etc), não para os converter a eles, mas para ilustrar a alguns dos seus leitores potencialmente convertíveis que existem perspectivas diferentes sobre os assuntos.

2) Criar contas em redes sociais alternativas (Gab, Minds, etc), para direccionar a partir das contas nas redes populares e encorajar o maior número possível a migrar para estas plataformas alternativas.

3) Blogs que façam posts curtos podem converter uma boa parte do seu conteúdo em posts nas redes sociais. O conteúdo imediatista oferece-se a este tipo de plataforma bem mais do que ao formato blog, deixando este para conteúdos mais longos. Se esses posts curtos forem sobre notícias deixá-los nas caixas de comentários dos jornais (e também dos blogs da Direita moderada) com links para os blogs pode trazer alguns curiosos.

4) Uma última consideração sobre a importância que a questão estética tem para o primeiro contacto: muitos dos blogs deste canto da Internet têm infelizmente uma estética descuidada, por vezes kitsch ou até casos crassos de desformatação que causam uma aversão automática em qualquer novo leitor. A questão estética pode parecer supérflua ou mesquinha, mas a meu ver a aparência sinaliza algo sobre o conteúdo: da mesma forma que um homem deve apresentar-se em público lavado e vestido de forma civilizada para ser levado a sério, o mesmo pode ser dito sobre os blogs e a sua aparência. Pode não ser justo julgar-se um livro pela capa, mas a verdade é que sucede e provavelmente vai sempre suceder. Um pequeno esforço neste sentido faria uma diferença tremenda.

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Automatizar a Alienação: progresso tecnológico e anti-globalismo

«The conservatives are fools: They whine about the decay of traditional values, yet they enthusiastically support technological progress and economic growth. Apparently it never occurs to them that you can’t make rapid, drastic changes in the technology and the economy of a society without causing rapid changes in all other aspects of the society as well, and that such rapid changes inevitably break down traditional values.»

Theodore Kaczynski, Industrial Society and Its Future, 1995

Um dos argumentos mais usados pela intelligentsia globalista para justificar a imigração de massas para o Ocidente é o baixíssimo índice de fertilidade observado entre as populações nativas e a necessidade de manter a população a um nível estável evitando, desta forma, uma descida nos níveis de produtividade e um colapso do sistema de pensões. Esquecendo a perspectiva ‘conspiratória’ de que existem motivos ulteriores social_problems_depicted_in_cool_cartoon_art_04para as elites globalistas quererem esta solução, o argumento que apresentam é puramente económico – e nessa sua miopia estão perfeitamente alinhados com a Direita moderada, para quem a economia é o único barómetro político, social e cultural.

Este argumento pode ser rejeitado por várias razões, algumas económicas e outras de cariz moral: a mais importante, a meu ver, não tem absolutamente nada que ver com economia, e baseia-se no princípio moral de que uma população deve manter a integridade étnica (e logo, cultural) da sua nação ancestral. Acontece que este princípio, embora moralmente justificado, para ser aplicável na realidade, obriga a que se façam considerações de ordem técnica. Podemos achar, e com razão, que os argumentos e intenções dos globalistas são iníquos, mas temos de concordar que o seu raciocínio não é totalmente disparatado, sobretudo se quisermos manter ou aumentar o nível de riqueza presentemente existente. Tendo em conta o índice de fertilidade dos nativos europeus, a Segurança Social e semelhantes sistemas de transferência de rendimentos de jovens para idosos é insustentável. Já o é há várias décadas, e a combinação de declínio populacional e políticas inflacionárias promete destruir o sistema por dentro, seja através da impossibilidade de o Estado cumprir com os compromissos para com os beneficiários ou de os cumprir para com os credores a quem se endividou para pagar aos beneficiários. É um problema inamovível e que exige uma solução.

A Direita moderada não tem preferência: desde que se resolva, não importam os meios – mesmo que esses meios sejam a substituição da população original por africanos, árabes e ameríndios. Tendo em conta que esta substituição não implica uma reposição qualitativa, mas sim quantitativa, que os imigrantes que invadem o Ocidente não têm a mesma capacidade intelectual e produtiva dos nativos, que uma boa parte deles adicionam custos em vez de benefícios ao sistema, e que a economia mundial necessita de cada vez menos mão de obra não-especializada dada a automatização e o avanço tecnológico (algo que já afecta as classes baixas e médias do Ocidente) as considerações conspiratórias ganham alguma validade. Pelo que a Direita identitária rejeita obviamente esta solução, tanto moral como economicamente, e em contraposição diz que não precisamos de imigrantes, precisamos somente de mais automatização e progresso tecnológico. Com a automatização e o progresso tecnológico vem racionalidade económica, maior produtividade e logo a libertação de recursos sem se sacrificar a produção de riqueza, permitindo, em princípio manter o sistema de pensões mesmo perante uma população envelhecida e uma diminuição da população activa. A automatização permite já, e permitirá cada vez mais, a realização de inúmeras tarefas de forma menos dispendiosa do que a prévia necessidade de se empregar as classes baixas e médias, aumentando o nível geral de riqueza. O argumento é ilustrado sucintamente neste video. Ao contrário da Direita moderada e dos globalistas, a Direita identitária pode apontar para sociedades onde a sua solução já está a ser praticada.

Para os identitários, o Japão funciona como o exemplo a seguir. Uma sociedade envelhecida, sim, mas que, apesar disso, continua a prosperar economicamente, cada vez mais tecnologicamente avançada e que se mantém ainda etnicamente homogénea, e logo largamente livre do crime violento ou de propriedade, ao ponto de a polícia não ter o que fazer. No entanto, penso que é algo ingénuo olhar para o Japão como uma história de social_problems_depicted_in_cool_cartoon_art_640_36.jpgsucesso, quando essa história pode ser mais correctamente descrita como uma tragédia. Se as afirmações acima sobre a sociedade Japonesa são verdadeiras, é preciso no entanto olhar para o abismo social e moral em que o país caiu – não apesar delas, mas por causa delas. Neste mini-documentário, vemos a profundidade da decadência para lá dos números, aquela que não podendo ser quantificada, pode ser observada e sentida. Esta é uma sociedade altamente disfuncional, um pesadelo kafkiano de hotéis capsula, de homens herbívoros, de hikikomoris, em que homens e mulheres não têm interesse no sexo oposto, em que a figura do funcionário ideal da corporação se realiza na sua mais assustadora representação – e mesmo isso não sendo suficiente para satisfazer as necessidades de uma sociedade altamente competitiva – em suma: o cúmulo da sociedade materialista. O desenvolvimento tecnológico que tornou o Japão numa história de sucesso económico foi art-emgn-7o mesmo que tornou os seus cidadãos meros autómatos ultra-materialistas, desligados da sua humanidade e, logo, do próximo. E, sem alógenos violentos que, pelo seu barbarismo, os lembrem da realidade pura e dura da vida, têm liberdade e paz para adormecer num torpor estéril de conforto. Não admira que uma tal sociedade não produza progenitura. Para quê trazer crianças ao mundo quando o mundo é um vazio absoluto? Os Japoneses são um retrato aterrador do futuro que a automatização trará ao resto do mundo – se o permitirmos. No fundo são uma ilustração humana da fossa comportamental observada por John B. Calhoun na sua experiência com roedores. E na verdade, mesmo em países relativamente atrasados (em comparação com o Japão), observamos já as mesmas consequências.

Mesmo deixando de lado considerações sobre a alienação social, o problema demográfico é, pelo menos em parte, um produto da sociedade pós-industrial. Tome-se, por exemplo, o declínio nas contagens de espermatozóides nos homens ocidentais, cujas origens particulares não são objecto de concordância nos estudiosos mas em que todas as hipóteses são produtos do estilo de vida permitido e apenas possível pelo rápido progresso tecnológico (a comida altamente processada, o excesso de toxinas no ar, os químicos na água, etc).

A solução para um problema não pode ter a mesma natureza que a origem desse problema. Aquilo que permitiu a baixa fertilidade e o envelhecimento nas nossas sociedades foi a automatização e o avanço tecnológico, a terciarização da economia, o desligar da actividade económica da capacidade de sobrevivência. Pelo que mais automatização, mais avanço tecnológico e mais terciarização não vão resolver o problema, mas sim complicá-lo. Quanto mais removidas as pessoas estiverem das realidades da natureza, quanto mais conforto e alienação, quanto mais artificiais forem as suas vidas, mais fácil será subverter os seus valores e destruir a sua humanidade.

É inegável que o relativismo moral propagado quer pelas universidades quer pela sociedade de consumo e pela Internet teve e tem um efeito devastador nas atitudes sociais, incluindo aquelas directamente relacionadas com a reprodução, a sexualidade e as relações entre os sexos. Mas estas razões culturais são inseparáveis dos avanços tecnológicos que as permitiram – e sem os quais a propaganda que as promoveu não teria tido efeito, pois os recursos materiais para os realizar não existiriam. Não só a tecnologia permite disseminar a propaganda, mas as próprias atitudes são possíveis apenas através dos meios tecnológicos. Imagine-se, por exemplo, sexualidade desligada da reprodução de forma generalizada sem contraceptivos, transsexualismo sem técnicas avançadas de cirurgia plástica, homossexualidade continuada sem medicamentos que mantenham as várias doenças propagadas pela actividade sob controlo ou, para usar um exemplo ainda mais simples, a própria medicina que permite que pessoas, por mais ineptas ou irresponsáveis, sobrevivam até uma idade extremamente avançada.

Eu costumava partilhar da ideia que a tecnologia era socialmente neutra, isto é, que eram os homens e as suas disposições que imprimiam a uma particular tecnologia uma faceta benéfica ou maléfica. E até certo ponto é verdade. Mas é preciso entender que a tendência natural no Homem é para o mal devido à sua natureza caída. Como diziam os texto technoantigos: a carne é fraca. E é igualmente importante compreender que não é tanto uma tecnologia em particular que constitui o problema, mas o rápido e exponencial avanço da mesma, que leva à introdução de uma ou outra ferramenta na sociedade sem que haja uma consideração prévia das suas consequências para a sociedade. Os últimos 250 anos no Ocidente, quase sem excepção, foram de ditadura científica e tecnológica – sob um ou outro sistema político, a constante foi a primazia deste progresso sobre todas as outras considerações e o concomitante desprezo por qualquer preocupação levantada em relação a essa primazia. Salazar não prezava o ‘imobilismo’ português, como os seus detractores o apelidavam, nem o protegeu institucionalmente por uma questão de pequenez provinciana, mas sim porque sabia que o progresso tecnológico veloz levava a uma igual revolução nas estruturas sociais.

É óbvio que muita gente utiliza a tecnologia para fins nobres, para procurar a verdade, para se tornar uma pessoa melhor e mais completa, para ajudar os outros, etc. Mas, pela própria natureza humana, esses serão sempre uma minoria. Esta realidade, no entanto, só tem consequências sociais graves quando a tecnologia atinge um ponto de sublimação – ou seja, quando se torna generalizada.

A melhoria das condições de vida desligada do esforço individual não é uma estrada de sentido único. Estas melhorias, sobretudo a partir de um certo ponto de desligamento completo entre produção e sobrevivência, de controlo e alienação quase absolutos da natureza, criam as suas próprias estruturas mentais e culturais. As normas tradicionais existem dentro de uma moldura civilizacional em que os homens têm de trabalhar para sobreviver, estão sujeitos e, até certo ponto, limitados pelas forças da natureza. Não admira pois que, quanto mais avançada a revolução industrial e mais removidos os homens estão destas condições naturais, menos as normas tradicionais sejam seguidas ou vistas como válidas, e mais a promoção dos estilos de vida alternativos se torne aceitável.

Veja-se algo tão simples como veículos motorizados. Estes permitem percorrer distâncias relativamente longas com facilidade, onde antes as mesmas distâncias eram muito mais dispendiosas e difíceis. Por um lado, admitimos todos os benefícios que trouxe, mas não nos podemos admirar que esta mobilidade facilitada tenha ajudado também a acabar com a proximidade comunitária, que tenha levado a que a família estendida se transformasse em família nuclear, que a educação das crianças deixasse de ser um trabalho do bairro, da vila ou da aldeia. Isto para ilustrar que até uma tecnologia que tomamos como garantida, tem implicações para a organização social e enfraquece normas tradicionais de comunidade.

Outro exemplo do dia-a-dia pode ser encontrado nos electrodomésticos. Tendo sido originalmente oferecidos às donas de casa, para as ajudar nas tarefas diárias que faziam parte dos deveres de uma mulher, rapidamente se transformaram numa forma de libertação, não só dos aspectos mais cansativos da lida da casa, mas eventualmente da própria casa. A mulher libertada pelos electrodomésticos que não tinha de despender tanto tempo nas tarefas domésticas criou a ‘dona de casa aborrecida’, sujeita a todo o tipo de propaganda da sociedade de consumo, até eventualmente criar a mulher que entra no mercado de trabalho, a mulher carreirista, as enormes taxas de divórcio e mães solteiras, e por aí adiante.

Estes exemplos, e milhares de outros, sugerem que o nível de crescimento tecnológico, que é exponencial, não linear, é rápido demais para que exista uma concordante adaptação mental nas pessoas, gerando a disfunção e alienação que caracterizam as nossas sociedades.

As pessoas gostam de imaginar, por exemplo, que os carros conduzidos automaticamente vão libertar tempo para as pessoas se instruírem, adquirirem novas capacidades, criarem novas obras de arte, etc. Na realidade, o que vai acontecer e acontece sempre é que as pessoas vão usar esse tempo para ver pornografia, reality shows, tirar selfies e jogar jogos de computador. Da mesma forma que gostavam de imaginar que a Internet seria usada para expandir o conhecimento e erudição do cidadão comum, quando na verdade a maioria usa-a para satisfazer impulsos primários e alienar-se do vácuo da vida moderna através de entretenimento.

E repare-se que nem mencionámos os perigos que a Inteligência Artificial e a modificação genética apresentam para a humanidade, problemas distintos em natureza daqueles que falámos acima, e que são o produto do progresso tecnológico exponencial quando não existem entraves institucionais, ou sequer considerações sérias sobre as consequências desse progresso.

Por isso a invasão imigrante é menos destrutiva a longo prazo do que a crescente automatização e progresso tecnológico, precisamente por gerar mais sofrimento físico e mais tensão – uma tensão e sofrimento que podem trazer-nos de volta a um reconhecimento das realidades base da vida e que são essenciais para acordar o homem moderno ocidental do seu torpor tecnologicamente induzido. Quando tudo arde art-emgn-3nenhuma mulher vai queixar-se do patriarcado, nenhum homossexual vai insistir na sua perversão. Se insistirem vão rapidamente perecer. Os identitários gostam muito de falar nas práticas disgénicas da nossa sociedade, mas nunca mencionam o factor que permite esta disgenia generalizada: o progresso tecnológico. Pelo contrário, paradoxalmente encontramos entre eles alguns dos seus mais ávidos defensores. Nenhuma outra força permite numa escala tão grande a sobrevivência dos fracos, nem promove com a mesma ferocidade a complacência dos fortes. O avanço tecnológico é um sedativo gradual que leva ao equivalente social de um corpo vegetativo ligado a uma máquina.

Muitas sociedades e povos sobreviveram a invasões, nenhuma sobreviveu à decadência do conforto. Foram precisamente as sociedades afluentes, confortáveis e decadentes (uma combinação que não é um acaso) que foram incapazes de resistir aos invasores. Pelo que a solução não pode ser uma insistência e intensificação dos meios que geraram os fins que queremos evitar, mas sim uma rejeição desses meios e um retorno a uma forma de organização económica e social que não só reflicta os valores que consideramos certos, mas garanta a manutenção da sociedade de acordo com esses valores.

Maio de 68

Prof.-João-Carlos-Espada-pbO João Carlos Espada (JCP) publicou um texto que ilustra a vacuidade moral, a obsessão economicista e, sobretudo, a incapacidade de observar o mundo à volta e admitir um erro que caracteriza a Direita moderada.

A mundividência do JCP, talvez pela idade, talvez por teimosia, ou talvez por ser um marxista arrependido daqueles que se converteu tarde ao anti-Comunismo, não consegue conciliar a ideia de que o Capitalismo sem entraves e o relativismo moral andam de mãos dadas. Ou se consegue, continua a achar que os benefícios do primeiro justificam a iniquidade do segundo. Mais: se tiver de escolher, e não está sozinho nessa escolha, prefere que o capitalismo liberal continue, mesmo que para isso se tenha de destruir toda a moral absoluta, toda a identidade nacional e substituir as populações nativas por alógenos.

Não estou a exagerar quanto às opiniões da personagem. O próprio não tem problemas em admitir a total falência da sua filosofia, ou aliás, em ver a falência como uma vitória: «a legalidade da “República burguesa” saiu vitoriosa; e isso permitiu a vitória pacífica de CAR6805-29May68-001.jpgmuitas das ideias de Maio de 68.» E que ideias eram essas? Não as económicas, não o anti-capitalismo, a rejeição do sistema usurário internacional ou a oposição à sociedade de consumo. As ideias que saíram vitoriosas, e que tomaram conta da sociedade, foram as culturais: o relativismo moral e a liberdade absoluta do hedonismo que o acompanha. O JCP considera isto uma vitória, sem ironia. Mais, ele próprio admite que, sem a democracia e o capitalismo, essas ideias teriam sido impedidas de medrar: «a verdade é que, devido a essa vitória da “oligarquia burguesa”, as ideias libertárias de Maio de 68 puderam continuar a ser livremente defendidas — o que evidentemente não teria acontecido se tivesse ocorrido a revolução comunista.»

Se acham que estamos a citar fora do contexto, oferecemos a palavra ao JCP num parágrafo inteiro que sumariza toda a tragédia da sua mundividência:

«Muitos comentadores discutem hoje que avaliação devemos fazer das ideias libertárias de Maio de 68. É certamente um tema importante. Mas não creio que seja o essencial. O essencial é que, contra os anseios revolucionários de Maio de 68, a França permaneceu “burguesa” — isto é, livre e democrática. Por essa razão, pôde absorver muitas ideias de Maio de 68. Pela mesma razão, pôde e continua a poder também contrariá-las.»

As ideias libertárias a que se refere são as do relativismo moral que conquistou o Ocidente, aquele que destrói as relações hierárquicas na sociedade, que despreza os valores tradicionais, que envenena as relações naturais entre homens e mulheres, que idolatra a sodomia e os sodomitas, que esbate a coesão e identidade nacionais, que importa milhares de alógenos do terceiro mundo, que eleva o hedonismo e a ‘realização pessoal’ à razão de viver e ao objectivo a que todos devemos almejar. O JCP considera as concessões feitas em 1968, e por consequência os seus resultados, como algo que devemos aplaudir. Salvámos a democracia e o liberalismo, salvámos a pureza ideológica, e o resto que se lixe. Aqui aproxima-se mais dos ideólogos dogmáticos do Comunismo original, indiferentes aos resultados que a sua ideologia produz, do que do pragmatismo racional que é suposto representar.

Na sua obsessão económica, o JCP esquece que o Maio de 68 começou, não com as greves, mas com a ocupação das universidades e que este foi um prenúncio da subsequente e gradual ocupação, muito mais radical, permitida pela sua querida democracia liberal burguesa e que hoje é, sem grande protesto da Direita, o status quo académico. Mas rey_jean-pierre_1143_2005.jpgolhando de momento para a questão puramente económica, convém pensar como se conseguiu mobilizar toda a classe trabalhadora industrial (poderíamos dizer, o proletariado) para um protesto de tão massiva escala. A intelligentsia moderna que explica o apoio aos Nacional-Socialistas na Alemanha de Weimar meramente pela malícia da propaganda e do populismo, como se não houvessem razões para a população procurar alternativas à decadência total da república em questão, explica com a mesma cegueira os distúrbios proletários de Maio de 1968. Num caso como no outro, a Direita ignora ou menospreza as origens do fenómeno com a iniquidade ou ineficiência das soluções promovidas, como se não houvessem razões profundas para a revolta. Em 68 tinham-se passado mais de 20 anos desde a grande reorganização ideológica da indústria no mundo moderno, em que a capacidade produtiva Europeia se começava a exportar para a Ásia e América do Sul, e em que a inflação usurária se fazia sentir sobre o poder de compra e sobre a qualidade de vida que os trabalhadores podiam dar às suas famílias. A sua estratégia era errada e as suas alianças ignorantes, mas as suas preocupações eram válidas.

Os trabalhadores juntaram-se aos estudantes porque julgaram que as suas preocupações eram aliadas naturais das causas libertárias dos relativistas morais. Estes trabalhadores, com famílias para alimentar, não tinham capacidade nem disposição para perceber que a Esquerda Radical que ocupara as universidades (e a que, diga-se, o Partido Comunista Francês da época se opôs), queria tanto saber das suas aspirações mesquinhas de estabilidade laboral e salários que lhes permitissem manter as suas estruturas familiares intactas como os capitalistas. A Esquerda Radical queria sexo, drogas e rock n’ roll, como hoje quer sodomia, imigração de massas e mutilação genital. Note-se que, passados 50 anos, a classe trabalhadora ainda não percebeu a grande traição daqueles que lhes prometeram protecção e que em vez disso lhes deram hedonismo. Na última década, as novas gerações das classes trabalhadoras, já sem nada que reivindicar, sem famílias para proteger, sem trabalhos para manter, juntaram-se a eles, preferindo o hedonismo. Mas não os censuremos demais, pois de um lado e do outro não houve quem lhes oferecesse nada de melhor e da plebe não se pode, nem deve, esperar mais. O trágico é que, defendendo o contrário, os Comunistas percebiam este truísmo. Os liberais acharam que, sem pressões sociais, os valores tradicionais da plebe se manteriam intactos perante a grande subversão relativista que o seu sistema permitia.

Em Maio de 1968 era talvez natural e compreensível achar-se que a maior ameaça aos valores tradicionais vinha do Comunismo, não só pela ideologia, como pelo poder político que representava e pelas alianças culturais que mantinha no Ocidente (isto é, os relativistas morais). Meio século depois, os opositores do Comunismo, se o eram por razões morais (e hoje é difícil dizer se de facto o eram ou não), deveriam admitir o erro que cometeram ao promoverem o Liberalismo como força de oposição. Afinal, os valores que se combatiam em 68 não eram apenas económicos, e foram esses outros que ganharam a batalha, não através do Comunismo, mas através do Capitalismo. Já aqui o dissemos e voltamos a repetir, a combinação de mercado livre internacional e relativismo moral é a força mais destrutiva dos valores tradicionais, sobretudo pelo seu carácter progressivo e gradual, que não facilita a identificação do fenómeno e que essa combinação é absolutamente inevitável. Mas nem precisamos de ficar presos à teoria. Observando o trajecto das democracias liberais, bem como o trajecto paralelo que os países comunistas efectuaram, só uma boa dose de vaidade e dissonância cognitiva podem fazer com que não se admita o erro.

Sorriso de Raposa

Malcolm X é uma daquelas figuras que o zeitgeist moderno prefere não mencionar. Ao contrário de Martin Luther King, sempre aplaudido por todos os quadrantes por se encaixar nos desígnios das elites e promover todos os lugares comuns da nossa era, Malcolm X não faz parte dos santos seculares da historiografia oficial, pois era primeiramente conhecido por ser um opositor da integração entre os pretos e os brancos na América e favorecer o separatismo radical, uma ideia que levou inclusivamente a que se sentasse à mesa com dirigentes do Ku Klux Klan para discutir esta solução, demonstrando que a História muita vezes não é tão simples como a narrativa oficial faz crer. O que me leva a mencioná-lo aqui, no entanto, não é a sua defesa do separatismo racial, mas a exposição de uma outra ideia que também desafia a narrativa oficial.

Neste video, Malcolm X explica que a Esquerda na América age como defensora dos pretos americanos sem ter no entanto qualquer intenção de os ajudar, em contraste com a Direita, que não finge ter os pretos nas suas preocupações nem tem a pretensão de avançar as suas causas. Nem a Esquerda nem a Direita têm os interesses dos pretos em conta, segundo ele, mas a Esquerda, como uma raposa, diz que sim, sorrindo. A Direita, como um lobo, mostra os dentes por outras razões. Tendo isto em conta, Malcolm X conclui que a Esquerda é muito mais perigosa para os negros do que a Direita.

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Eu penso que podemos e devemos aplicar a mesma analogia aos partidos e à intelligentsia de Direita em relação aos tradicionalistas. Os tradicionalistas sabem que a Esquerda não lhes tem qualquer simpatia e os antagoniza abertamente, mostrando-lhes os dentes com a intenção de atacar. A Direita mainstream, pelo contrário, como a raposa, pretende fingir-se amiga (ou pelo menos simpatizante) dos tradicionalistas, sorrindo, ao mesmo tempo que nas suas ideias e acções avança, premeditada ou ingenuamente, uma agenda completamente distinta, avessa e hostil à causa tradicionalista.

A Direita mainstream em Portugal (e no resto do Ocidente) tem essencialmente duas bandeiras: a liberdade individual e a eficiência económica. A “Direita dos costumes” como lhe chamaram outrora, para todos os efeitos, na esfera mediática e partidária, não existe. Este fenómeno encontra-se muito bem sumarizado num excerto deste texto:

«A dimensão [dos] costumes tem sido menosprezada desde que o marxismo impôs o primado da economia, e antes de Marx já os liberais e os utilitaristas também davam maior importância à economia. Essa primazia não diminuiu, pelo contrário, com o aumento do rendimento e do conforto dos povos. A economia passou a ser o terreno onde se confrontavam as propostas políticas. (…) À direita, o vazio ideológico e a fraqueza política, aceitou-se a ditadura do politicamente correto. novo paradigma de revolução social. (…) a direita, jótica ou degenerada, abandona o combate cultural e adopta o niilismo relativista da esquerda. A direita socializou-se. Os valores passaram a ser rodapés de discursos eleitorais. Os políticos de direita aplaudidos pelos média são os que defendem o liberalismo de costumes, ainda que militem num partido democrata-cristão…».

Os tradicionalistas observam esta capitulação da Direita mainstream àquilo que chamam de ‘marxismo cultural’ e, até certo ponto, apontam-na como uma traição, para a qual não existe grande explicação fora da respeitabilidade profissional e da promoção pessoal. Eu considero no entanto que há um mal de raiz na matriz bipolar da Direita moderna, e que, apoiando o liberalismo económico, é apenas lógico e natural que apoiem o liberalismo social. São os Liberais com visões sociais tradicionalistas que estão em grave contradição.

Parte do problema começa no termo com que se designa a ideologia que pretende destruir todas as relações hierárquicas da sociedade tradicional através da destruição da moral que as sustenta: ‘marxismo cultural’. O termo é mal empregado porque, na prática e na teoria, não há melhor veículo para o pro-gayrelativismo moral, para a destruição das estruturas tradicionais e da moralidade subjacente a esta do que o liberalismo económico – e que portanto, e apesar das origens intelectuais dos seus promotores originais, o termo deveria ser ‘liberalismo cultural’ (o termo que prefiro, no entanto, é simplesmente ‘relativismo’). ‘Marxismo cultural’, apontando o epíteto dos seus promotores originais, esconde o veículo pelo qual ele se perpetua com sucesso. É inegável que os revolucionários culturais que deram origem à teoria se designavam como marxistas, mas foi no país mais liberal do mundo e principal baluarte dessa ideologia económica que a semente encontrou terreno fértil.

De onde vêm as modas e tendências que, ano após ano, destroem o tecido social? De onde vem o entretenimento que serve de veículo à propaganda relativista e que é responsável pela disseminação destas ideias? Vem dos países marxistas ou dos países capitalistas liberais? Não são as multinacionais – representantes maiores do capitalismo DHgIEh4UwAAJ4BIliberal e da globalização – os principais motores e promotores da imigração de massas, da bastardização da cultura, da ausência de identidade nacional e comunitária, da criação do homem-novo consumista, dos desvios e desviantes sexuais, dos estilos de vida alternativos, da sobresexualização da sociedade e da sexualização precoce – em suma, de todos os cancros sociais a que nos opomos? E que, muito mais do que através da retórica política esquerdista e da propaganda a que são submetidos na escola, é através do progresso tecnológico e do capitalismo global que estas ideias demoníacas se inculcam nas mentes do povinho?

Não observamos também que, nas sociedades que estavam fechadas ao capitalismo global, as mesmas ideias, promovidas agressivamente pelo sistema político, não medraram ao longo de décadas da mesma forma que se infiltraram, pela calada, nos países liberais? Como explicamos que os países de Leste, sujeitos a ditaduras marxistas usury and sodomy.JPGagressivas, sejam hoje os únicos onde ainda existe alguma identidade nacional, rejeição da imigração de massas e dos ‘estilos de vida alternativos’ e onde o Cristianismo ainda é relevante, não só na vida comunitária, mas nos destinos nacionais? A explicação é simples: ao contrário do Ocidente, o Leste esteve insulado do capitalismo global e, portanto, da lenta subversão dos valores tradicionais, que só a riqueza e o conforto conseguem promover e enraizar com extrema facilidade. A tragédia para estes países é que caso não tomem medidas para limitar as consequências económicas da globalização, as suas sociedades, tornando-se mais prósperas, vão contrair o vírus do relativismo liberal e acabar por destruir aquilo que cem anos de comunismo não conseguiram destruir.

Tendo nós uma visão sã do Homem e da Sociedade Humana, e sabendo que a liberdade de escolha leva necessariamente, na maioria da população, a um nivelamento por baixo, podemos continuar a ignorar que é através do liberalismo económico que aquilo que consideramos sagrado vai sendo destruído, lentamente, contaminando os nossos compatriotas, as nossas famílias, os nossos filhos? Que muito antes de ser legalmente enquadrado pelo Estado, o relativismo moral e cultural foi propagado através da sociedade de consumo massificado e da globalização?

Há quem considere a promoção do liberalismo nos costumes pela Direita uma aberração, mas na verdade não há contradição: a sua defesa da economia liberal, do progresso tecnológico, da eficiência económica anda de mãos dadas com a destruição do tradicionalismo. Não é pois de estranhar que a Esquerda dite o discurso e a Direita o aceite, pois pela sua própria moldura ideológica, não tem meios de o rejeitar. Reparem que não estamos a argumentar que o capitalismo liberal não é o mecanismo mais adequado para melhorar o nível de vida dos cidadãos: é inegável a eficiência do sistema em produzir riqueza material. O que estamos a argumentar é que a forma radical com que remove a pobreza material promove, na mesma medida, a pobreza espiritual e moral.

Na busca da prosperidade e do progresso tecnológico, na procura de melhorar o bem estar económico dos cidadãos e de tornar eficientes os mecanismos para esse melhoramento, a Direita promove o veneno que infecta o espírito da nação. É ingénuo achar que as mudanças económicas radicais que o capitalismo opera podem deixar as workbuyconsumedieestruturas sociais intactas. O capitalismo procura consumidores (a única categoria que lhe interessa) e sendo que a eficiência na obtenção desses consumidores é de suprema importância para a maximização dos seus lucros, a promoção de valores anti-tradicionais é inevitável, mais, é uma necessidade: a uniformização cultural, nacional e racial (através da plebeização da cultura, da promoção do internacionalismo e da imigração de massas) e a atomização do indivíduo (através da promoção de ‘estilos de vida alternativos’) são os veículos pelos quais se obtém o consumidor perfeito, ou seja, que se maximiza o lucro. O sonho do Internacionalismo Comunista só é conseguido, paradoxalmente, através do capitalismo liberal.

A Direita Liberal que ainda vai mostrando, pouco e esporadicamente, algum interesse pelas questões culturais e morais, ignora este fenómeno e vive numa dissonância cognitiva. Eu ignorei-o durante vários anos apesar dessa dissonância. O Liberal vê a 635952276665246516-755625981_consumerliberdade como a ausência de coerção pelo Estado, mas não vê a servidão imposta pelo capitalismo liberal, em que o homem é desligado da sua nação, da sua comunidade e até da sua família, pela promoção de uma cultura uniformizadora, degenerativa e ultra-individualista, que mina as fundações dessas relações primordiais. O homem moderno é tão indefeso perante o capitalismo liberal como o era perante o comunismo, a diferença é que no primeiro está bem alimentado, em conforto, e as suas raízes vão sendo arrancadas lentamente, sem se aperceber, e portanto, muito menos susceptível de se revoltar.

Concluímos portanto que o facto da Direita moderna ser liberal nos costumes (como a Esquerda), mas também liberal na economia (ao contrário da Esquerda), faz com que a Direita seja na prática uma ameaça maior à sociedade tradicional, ou o que dela resta. A sua combinação de liberdade individual e eficiência económica é a receita perfeita para a realização prática do relativismo: a desagregação da família, a destruição das instituições intermédias, a atomização do indivíduo. Ou seja, um tradicionalista tem muito mais a temer da Direita mainstream do que da Esquerda. Até a Direita abandonar o liberalismo económico o tributo que presta aos valores tradicionais não passa de um sorriso da raposa.

A Apologia da Ignorância

«Ignorância é felicidade e eu quero que o meu povo seja feliz»

A frase, por vezes atribuída a Salazar, cuja veracidade da atribuição não conseguimos averiguar, é apontada, quando é, em modo de escárnio e nojo pelos seus inimigos – querendo com isso atacar o homem pela sua suposta vontade de manter o povo ignorante para poder, despoticamente, controlá-lo. Aqui não é tanto a veracidade histórica que pretendemos discutir, mas a sabedoria intrínseca da afirmação, defender a sua intenção e fazer uma apologia da ignorância – e explicaremos a seu tempo o que queremos dizer com isto. Ou seja, se Salazar a tivesse dito, teria o nosso apoio e compreensão: o povo será sempre ignorante, e mais vale que o seja em consciência, do que inconsciente, podendo assim ser feliz na sua condição, e a governação continuar sem impedimentos criados pela soberba dos ignorantes. Ou seja, o exacto contrário do que acontece com o regime presente.

Em jeito de introdução, convém apontar que a ideia de que o Estado Novo quis manter a população ignorante através do analfabetismo generalizado é em si mesma um produto da ignorância, um mito criado pelas cliques cosmopolitas que governam Portugal desde o 25 de Abril, e que através das suas estruturas propagam a sua estirpe especial de ignorância disfarçada de catastrophic-human-ignorance-kmhh-7-638.jpgsabedoria. Apenas mais uma das mentiras torpes que o regime novo, fundado na rejeição do antigo, é obrigado a perpetuar para se justificar. Consultando os dados sobre literacia e analfabetismo, tal como de investimento na educação, durante o Século XX em Portugal, vemos claramente um esforço e uma conquista da parte do governo do Estado Novo em remover o grosso do analfabetismo e em promover a educação básica aos seus cidadãos. E no entanto, apesar da descida do analfabetismo ter continuado até praticamente ser zero nos nossos dias, os mitos sobre o Estado Novo permanecem contra toda a evidência, fundados numa ignorância voluntária da maioria da população. Se pensarmos que esta ignorância não se encontra somente nas classes mais baixas, desinteressadas do estudo e das questões da governação, a quem não aquece nem arrefece questões abstractas e intelectuais como os destinos do país, mas também – e com grande ênfase – nas camadas intelectuais, naquelas cuja vocação é precisamente congeminar, analisar, escrever e propagar ideias, vemos ilustrado o abismo entre as pretensões democráticas do votante informado e a realidade crua da natureza humana.

Entreviste-se o estudante médio de Ciência Política, de Filosofia, de História, ou até o graduado, ou o professor, e observe-se a ignorância voluntária a que se acomoda, a ausência de capacidade crítica, a disposição para aceitar todos os lugares comuns do seu tempo sem nunca os questionar, e conclua-se que educação e ignorância não são mutuamente exclusivos. platonic_caveA ignorância é o estado natural do Homem. Independentemente das ferramentas que se lhe oferecem, o cidadão comum vai continuar agrilhoado na Caverna, interpretando as sombras como realidade, mesmo tendo as chaves dos grilhões na mão e um manual de fuga na outra. Isto sem se falar na outra fatia populacional de quem não se espera qualquer afrontamento teórico abstracto, mas a quem a doutrina democrática também atribui responsabilidade na sua libertação. Os democratas esperam que uma vaca toque piano e surpreendem-se quando ela é incapaz de sequer perceber para que servem as teclas – mas se por acaso produzir meia dúzia de sons desconexos, tomam-no como evidência de que as vacas, de facto, podem ser pianistas. A pouco mais que isto se resume o sistema eleitoral de sufrágio universal.

A doutrina democrática assume, porque tem de assumir, que o povo é capaz de escolher os seus representantes, assim decidindo por interposta pessoa, os destinos do país. Mas só uma ingenuidade mortal, ou uma malevolência premeditada, poderia levar a que proclamássemos tão clara mentira como sendo a verdade. Mas sendo o regime fundado nessa mentira, as estruturas exteriores têm de se conformar a ela, sob pena de todo o edifício ruir. Daí nasce a obrigatoriedade da escolaridade muito para além do necessário ao desempenho da maioria das funções requiridas para o funcionamento da sociedade, primeiro até ao nono ano, depois até ao décimo segundo, e eventualmente, dada a parvoice progressiva do nosso sistema, até à licenciatura. Este estado de coisas só pode advir das duas origens que mencionámos, pois é por demais óbvio que a extensão da obrigatoriedade, ao invés de elevar o conhecimento e o pensamento crítico dos cidadãos, rebaixa a relevância e profundidade do ensino, reduz a motivação e dedicação dos professores, forçados a lidar com miúdos sem interesse no que lhes estão a tentar ensinar, e necessariamente faz cair as exigências de conhecimento para que a promoção deste novo patamar não resulte em inúmeras desistências do salto, ou em saltos que não elevem o atleta à altura desejada. A isto se chama reduzir ao mínimo denominador comum, tarefa que nenhum outro sistema concretiza com tamanha mestria como o democrático.

Quando Eva e Adão comeram o fruto da Árvore da Sabedoria não souberam o que fazer com o seu novo conhecimento. Também a maioria da população não sabe o que fazer com o que lhe ensinam para além das artes de contar, ler e escrever. Não sabem porque não lhe vêem qualquer préstimo, não lhes dá mais oportunidades de serem homens produtivos e morais, não lhes permite uma mundividência mais completa, pois incompleta será sempre a mundividência dos simples. No entanto, em grande parte, convence-os de que têm agora capacidade para 121323.JPGcompreender e opinar sobre assuntos que de facto não compreendem e cujas opiniões não são, na verdade, suas, mas regurgitadas em segunda mão com origem em figuras de autoridade – para mais, em muitos casos, caracterizados por uma arrogância natural e uma aversão a trabalhos manuais para os quais serão, na verdade, mais dotados. Mostrem-nos um ignorante orgulhoso, e nós desvendamo-vos um universitário moderno. Mas o ignorante convencido da sua sabedoria continuará, na verdade, mais interessado na baixa cultura do seu tempo, crente sem crítica nas convenções que lhe colocam à frente dos olhos como verdadeiras, ingenuamente interpretando as notícias e os seus veículos como fidedignos, ouvindo os seus professores como autoridades, incapazes de entender que eles foram e são como eles – ignorantes que, na verdade, não dão para muito mais.

A maioria da população, agora como sempre, é atraída quase exclusivamente por pães e actividades circenses – sendo o tipo de pão e o tipo de circo as únicas variáveis. E isto não é uma crítica, é uma apologia. O que nos separa do pensamento vigente é, em primeiro lugar, reconhecer esta inevitabilidade, sejam quais forem os anos obrigatórios de escolaridade e as exigências cívicas dos cidadãos, e em segundo, não lamentarmos essa condição, pois fingir que se pode evitar o inevitável, como já dissemos, só pode ser produto de ingenuidade ou de malevolência. E como tal, prescrevemos um sistema que leve em conta esta realidade, um sistema que não finja que todos podem e devem ser filósofos-reis, quando a maioria não serve para bobo da corte. Consideramos uma aberração que se peça opiniões e se exijam decisões sobre o mundo real, a quem só o conhece pelas sombras reflectidas nas paredes.

Quando a Revolução Protestante declarou que o comum mortal podia, e devia, interpretar a Bíblia pelas suas próprias luzes, abriu-se a Caixa de Pandora das mais torpes e idióticas interpretações, tudo e o seu contrário podia ser encontrado nas media_propaganda_by_trosiousEscrituras a partir desse momento, e com efeito, encontrou-se – pois se há matéria infindável no universo é a da estupidez humana. Em vez de ser um veículo para procurar a Verdade única, foi o meio de a esconder e soterrar em mil mentiras. O mesmo se pode dizer do presente zeitgeist, em que perante a infindável biblioteca da Internet, o cidadão comum continua mais interessado na vida das celebridades, nas novelas e filmes e músicas da baixa cultura em que elas se distinguem sem distinção, no futebol e nas suas narrativas, exercendo a sua capacidade crítica em assuntos em que ela não tem préstimo, porque não dão para mais e simultaneamente aceitando sem crítica, sem a sombra de uma dúvida, o que um actor que se convencionou chamar de pivô lhe diz todas as noites ou todas as manhãs sobre o país e o mundo. Porque, repetimos, não é capaz de mais, e é um ultraje, uma irresponsabilidade e uma violência exigir-lhe mais. Mas exige-se, com resultados atrozes.

A diferença entre um electricista com a quarta classe durante o Estado Novo e um universitário dos nossos dias é que o electricista não tinha a soberba de achar que a sua opinião valia muito fora dos limites do seu mister; o antigo tinha a humildade de dizer ‘não sei’ e aquela ainda maior de dizer ‘não quero saber’. Isso, e provavelmente escrevia melhor o português. Por esta ignóbil situação temos de agradecer aos sucessivos aumentos da escolaridade obrigatória e à estupidez congénita de perguntar a todos aquilo que só alguns podem saber. Afinal, são aqueles que agitam os fantoches formando as sombras que iludem o cidadão comum, os mesmos que perpetuam a mentira de que este vê a realidade tal como ela é.

Por isso fazemos a apologia da ignorância, não porque gostemos dela mas precisamente por não gostarmos. Um sistema que finge que ela não é o destino da maioria, está condenado a generalizá-la e a dar-lhe poder, em vez de a limitar e a manter inofensiva. Devolvamos ao povo o privilégio de ser ignorante sem culpa, e devolvamos aos capazes o dever do governo sapiente.

O enigma dos Liberais

«Academia is to knowledge what prostitution is to love»
Nassim Nicholas Taleb

Depois de termos falado dos problemas do liberalismo, vamos falar dos problemas dos Liberais. Isto, admita-se, é mais fácil: existem muitas, muitas obras do pensamento liberal e nem todo esse pensamento é de deitar para o lixo (em alguns casos, como Mises, é absolutamente essencial). Os Liberais antigos, ao contrário dos modernos, ainda tinham algo que um reaccionário podia aproveitar.

Em especial, pode aproveitar-se a Escola Austríaca (ou pelo menos, as obras principais). Esta escola de pensamento é a única escola económica que não foi cooptada pelo materialismo (tanto o antigo, de Smith e Ricardo, como o moderno, de Fisher e Keynes) – e como tal é também a única que consegue apresentar uma teoria que represente a realidade económica e a explique de forma satisfatória.

Não será de surpreender, no entanto, que os escritos puramente económicos da Escola Austríaca (que não contêm necessariamente prescrições políticas) tenham com o tempo servido de base, e justificação, para prescrições políticas. Prescrições liberais.

Mises, a figura principal e certamente a mais interessante, fez sempre questão de distinguir entre os seus escritos puramente económicos e os seus escritos políticos. E por fazer essa distinção, ambos mantiveram a sua relevância. Theory of Money and Credit, por exemplo, continua a ser a obra essencial para explicar o clusterfuck que é a política monetária democrática, sem no entanto advogar contra ou a favor: limita-se a chamar os bois pelos nomes. Um retrato mais largo da teoria e realidade económica pode ser encontrado em Human Action. Ambos os livros são peças necessárias para entender o mundo em que vivemos.

Nos seus escritos puramente políticos (como o Nation, State and Economy) Mises observa o mundo com uma clareza que faria corar reaccionários modernos – como observámos aqui, em Democracia, o caminho é sempre para a Esquerda, o que faz de um liberal há cem anos um terrível reaccionário contemporâneo. No entanto aqui já podemos observar, no meio da sua enorme erudição, a tendência (talvez inevitável) de ver o mundo somente pela esfera económica, e cair na armadilha liberal, whig, progressista. Esta crença de que o mundo está em constante progresso (em vez de degeneração) era um conceito que Mises terminantemente rejeitou toda a vida na sua teoria económica (pois era inegável a degeneração da disciplina), e no entanto, na sua vertente puramente política Mises continuava a cair na patranha, e acreditar que a passagem das entidades políticas aristocráticas para as democráticas tinha sido um progresso. A obsessão económica tinha levado a melhor.

E aqui entramos especificamente no tema deste texto. Tal como Mises, os Liberais portugueses deixaram o seu conhecimento de teoria económica levar a melhor e enformar todo o seu pensamento político. Ao contrário de Mises, não o fazem com especial erudição (mas não os vamos censurar por isso – podem acusar-me do mesmo e com razão). Os principais sítios da blogosfera portuguesa liberal são o Blasfémias e o Insurgente e é neles que se encontra esta obsessão, à superfície incompreensível. Ambos são, supostamente, de Direita. E apesar de se aproveitar um ou outro indivíduo em particular (e de vez em quando), a verdade é que a maioria revela um autismo estonteante e tem um único barómetro político: a economia.

Os Liberais portugueses são democratas. Sendo democratas são obrigados a mover-se intelectualmente na Janela de Overton, por auto-censura inconsciente e por auto-censura PwnedCatconsciente. Por causa dessa auto-censura, os Liberais estão obcecados com reformas dentro do sistema. Nunca sequer lhes ocorre que o sistema deva morrer, que o sistema seja iníquo, que o sistema seja podre de raiz. E se ocorre, não o dizem. Pelo contrário. E há uma razão para isto, mas já lá vamos. Por agora convém salientar que a obsessão económica não é defeito, é feitio.

Como explicar que um liberal não queira sair da UE? A UE é essencialmente a versão moderna da União Soviética: um organismo insonso de burocratas cinzentos que ditam a vida de milhões de pessoas sem qualquer representatividade. Não são os Liberais a favor da representatividade?

A explicação é que os Liberais temem que haverá menos liberalismo económico nas nações europeias sem a alçada benévola da União Europeia. Temem em especial que haja menos em Portugal. E sendo essa a única métrica para a sua visão política, são contra. E é inegável que isto sucederia, a curto prazo. O que levaria a um colapso, a médio prazo.

E aí voltamos à mesma questão: os Liberais temem o colapso do sistema, por mais iníquo que o sistema seja, por mais antitética ao Liberalismo que a própria fundação monetária desse sistema 839d3c15540b493f867668a0ca132551.jpgseja, por mais iliberal que o sistema seja. Os Liberais lutarão incansavelmente (na esfera intelectual) para evitar descartar a constituição comunista que rege o país. Há anos que os Liberais andam a anunciar a falência da Segurança Social, há anos que falam da fundação fraudulenta do sistema monetário, há anos que apontam a ignomínia da dívida pública. E no entanto as suas prescrições são sempre no sentido de evitar o colapso inevitável. Em vez de matar o dragão, os Liberais querem domesticá-lo.

Eles sabem, no entanto, que o colapso é inevitável. Mas ao que parece os Liberais têm um enorme medo do sofrimento, mesmo do sofrimento salutar. Só que é inegável que, de uma forma ou outra, haverá sofrimento. Muito especificamente, sofrimento económico. Haverá tumultos por causa desse sofrimento. Para usar a analogia preferida dos Liberais, a desintoxicação não é agradável para o drogado. Mas estar constantemente na corda bamba dos paliativos não é uma solução. É uma cobardia.

O que escapa aos Liberais obcecados com as consequências económicas imediatas, ou que insistem em não ver, é que para uma boa parte da população (e muito em especial daquela população que vive à conta do Estado – em que muitos deles se incluem, quer gostem disso ou não), é necessário sofrimento. Cristo também teve de sofrer na cruz antes de ressuscitar.

É preciso que as pessoas vejam o que é viver sem subsídios. É preciso que vejam o que significa uma dívida impagável e as consequências de dizer, firmemente, que não a vamos pagar. É preciso que voltem a depender das famílias, dos amigos, dos vizinhos, da comunidade. É preciso que encarem a realidade de ter trabalhos duros e desagradáveis. É preciso que sejam obrigadas a não gastar tudo o que ganham, a viver com menos do que precisam, a poupar. A maioria das pessoas tem conforto a mais para o seu próprio bem. Tal como os Liberais, perderam a noção do que é importante. Não sabem distinguir o eterno do transiente.

A grande maioria dos nossos defensores do mercado, são defensores apenas do seu esqueleto, sem entenderem (ou não querendo entender) que a alma e a carne que enformam esse esqueleto são mais importantes para que o sistema funcione do que a formalidade desse sistema. Neste momento, a alma do povo é o Estado Social, é a dependência, é a morosidade, a preguiça, a vaidade e a gula. O liberal não diz ‘vamos acabar com o sistema para erigir sobre as ruínas uma fundação sólida‘. Diz ‘vamos adiar o seu colapso, e acentuar as consequências desse colapso‘. Porque, como Keynes dizia, a longo prazo estamos todos mortos. Os Liberais esperam honestamente estar mortos quando o colapso acontecer. E trabalham para adiar esse colapso de forma a garantir esse destino.

Assim se explica, em parte, o porquê de os Liberais acreditarem na democracia: é uma forma voluntária de cegueira. Acreditam que elegendo o PSD (ou, vá lá, a ala Liberal do PSD, que é a ala moderada da moderação deles mesmos) vamos caminhar para mercados mais abertos e atenuar o Estado Social (não se riam). Tentam vender o seu peixe a pessoas que só comem carne e cover26defendem eurodeputados porque disseram uma vez uma frase liberal (enquanto fazem parte do conselho cosmético da União das Repúblicas Socialistas Europeias). Acreditam que as pessoas comuns (o maior entrave ao liberalismo), pessoas que não poupam, que vivem do Estado Social, cujos únicos interesses são o futebol e a novela, que papam tudo o que lhes dizem na televisão, cuja única cultura é o consumismo, estas mesmas pessoas que nem cuidar de si e dos seus conseguem ou pretendem fazer, podem e devem votar em representantes. Representantes esses que não representam ninguém a não ser a si mesmos e aos interesses que os compram. Este retrato da Democracia e da população em Democracia não é um exagero, é observável. E mesmo que não fosse, é intuitivo. E se a intuição não fosse o seu forte, podiam sempre ler Hans Hermann Hoppe. Mas não. Estão presos numa visão whig da história em que à frente está sempre o progresso.

Mas existe uma peça do puzzle em falta. Acima dissemos que se trata de cegueira, mas é uma cegueira voluntária. A maioria dos Liberais é inteligente e certamente teve tempo e oportunidade de se deparar com a contradição em que se encontra, estes liberais certamente que leram os livros certos e reflectiram sobre o que leram. Da própria perspectiva do liberalismo, a sua defesa do status quo é inexplicável.

Mas explica-se perfeitamente quando se percebe que escrevem em nome próprio e que têm empregos e reputações a defender. Que quase todos são beneficiários do sistema falido das stock-vector-scale-favoring-self-interest-rather-than-personal-values-108478289universidades. São professores, ou consultores, ou comentadores especialistas. Pagam a renda a girar a alavanca das ciências sociais nas fábricas de mentecaptos. Ser liberal é alternativo, mas é trendy. Um liberal pode ir às festas e às conferências, pode fazer parte das instituições, pode viver em paz sendo o enfant terrible que o consenso de Esquerda tolera, porque não ameaça.

Não se espere, pois, que rejeitem o seu modo de vida em nome de ideais maiores, ou sequer de consistência ideológica. Não se morde a mão que dá de comer.

Uma sociedade sem classe

Adenda (09/06/2017): Ler este post do João no Livro das Imagens, que complementa as ideias aqui descritas.

A Constituição da República Portuguesa foi originalmente escrita em 1976 por marxistas declarados que julgavam interpretar “os sentimento profundos” do povo português (sempre tão científicos estes comunistas) ao derrubar “o regime fascista” – mesmo que esses sentimentos fossem mistos e o regime nunca tivesse sido fascista – a não ser que se defina ‘fascismo‘ como um regime autoritário de Direita (e nesse caso, o Estado Novo era muito mais ‘fascista‘ do que o Fascismo original, visto que era um movimento verdadeiramente de Direita, isto é, antipopular).

Tendo em conta estas condições, é natural que o texto original designasse como objectivo expresso, logo no primeiro artigo, aspirar a uma “sociedade sem classes”, e no segundo artigo declarasse que o “Estado Democrático (…) tem por objectivo assegurar a transição para o socialismo”.

Entretanto a Constituição foi revista, se não me engano em 1989, e retirou alguns resquícios de verborreia marxista – em especial o objectivo do socialismo e da sociedade sem classes. E por retirar entenda-se substituir a linguagem aberta dos marxistas duros pela prosápia saneada dos marxistas suaves: substituir o comunismo pela social-democracia (essencialmente para nos integrar melhor no newspeak da nova ordem europeia e mascarar o facto de que o comunismo e a social democracia são apenas variações da mesma ideia). O peso da inclusão ou exclusão destes termos, ou até da importância efectiva de uma constituição numa República é discutível, mas efectivamente a referência aos termos originais foi retirada.

É preciso lembrar que na altura uma nova elite política surgia para dirigir o país, e quando digo nova quero dizer ‘renascida’: em paralelo com os velhos tecnocratas (e essencialmente membros da nobreza) que haviam colaborado com o fim do Estado Novo e que trabalharam

DuraoBarrosoMRPP
“Nessa altura ainda não sabia que tinha de usar gravata para ir a Bilderberg”

para o socialismo com tanto zelo e em tanto silêncio como o tinham feito para Marcello Caetano, existia a clique de extrema-esquerda, que entretanto crescera uma consciência e rejeitara as suas raízes, ao ver o fim da União Soviética no horizonte, confrontada com o óbvio ululante do homicídio em massa do Comunismo que já não era possível negar e aliciado pelas novas oportunidades de carreira oferecidas pela elite tecnocrata da União Europeia. Esta clique tornou-se de facto a elite governante do país nas décadas que se seguiram, alguns chegando mesmo ao cargo prestigiante de Primeiro Ministro. Só que já não eram do PCP, do MRPP ou de outros grupos esotéricos de Esquerda – eram do PSD e do CDS. O famoso livro de Zita Seabra (que devia ser incluído no género ‘prosa poética’) é o exemplo mais emblemático desta deriva. Um milagre de trazer lágrimas aos olhos.

É nesta milagrosa conversão que se funda a revisão constitucional e o abandono do objectivo da ‘sociedade sem classes‘. A partir daí, Portugal seria uma Democracia com D grande e concretizaria a ambição ocidental iniciada com as revoluções liberais de uma sociedade com classes, mas sem classe.

Na diatribe original do marxismo, a sociedade sem classes era especificamente apontada à natureza económica do fenómeno – ou não fosse o marxismo uma filosofia puramente materialista do Homem e da Sociedade. A Democracia Anglo-Saxónica, que é na verdade a versão designada com D grande, não aspira a apagar as diferenças económicas entre as classes. Originalmente não aspira sequer a atenuá-las. Mas também ela teve as suas subsequentes revisões e a Democracia 2.0 (também conhecida como Social Democracia), aspira a atenuar essas diferenças – sem na realidade o fazer.

A Democracia não manifesta qualquer parecer sobre a natureza extra-económica das classes. Só que manifesto ou não o desejo, o resultado é notório: a Democracia apaga as desigualdades morais, culturais e intelectuais entre classes sem ter de as apagar no plano financeiro.

Isto é uma consequência inevitável do seu ethos igualitário. Ao dizer que o povo é soberano e rejeitar a ideia de que certas pessoas são mais aptas a governar que outras; ao depositar, simbolicamente, o poder de decisão na plebe (a maioria), a Democracia constitui um passo para o abismo, uma descida ao mínimo denominador comum civilizacional – da mesma forma que o Comunismo (em si uma ideia democrática) constitui uma descida ao mínimo denominador comum económico.

Nos regimes monárquicos (em que não se inclui a fraude da ‘monarquia constitucional’) havia diferenças entre os nobres e a plebe, não só em poder económico, mas em instrução,

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direita: perdeu um olho a lutar contra os mouros; esquerda: auto-mutilado.

educação, higiene e erudição. De um membro da nobreza esperava-se que fosse fluente em várias línguas (incluindo línguas mortas); que fosse versado em estratégias militares e fisicamente capaz de as pôr em prática caso necessário; que soubesse manter uma conversa erudita sobre os mais variados assuntos, da ciência à literatura, da filosofia às artes plásticas; que tocasse as peças clássicas num instrumento (geralmente, piano) e que soubesse apreciar essas peças quando outros as tocavam; esperava-se que se comportasse com decoro e que evitasse os devaneios, excessos e obsessões dos plebeus. Por outras palavras, esperava-se que fosse nobre não só em título, mas nas suas acções.

A cultura dos nobres era nobre. A cultura dos plebeus era plebeia. A Igreja servia de intermediário entre as duas classes: trazendo algumas luzes à plebe; trazendo humildade à nobreza. A nobreza deveria servir como exemplo terreno aos plebeus, tal como os padres deveriam servir de exemplo divino (imitando Cristo). A nobreza, pela sua superioridade moral e cultural (não só pela sua capacidade monetária), deveria liderar.

Julgo não dar novidade a ninguém ao dizer que os ‘nobres’ de hoje só se distinguem dos plebeus pela quantidade de dinheiro que têm para gastar. E gastam-no não numa cultura elevada, mas na mesma cultura dos plebeus. Em muitos casos, não só consomem essa cultura como a produzem. E portanto, são incapazes de liderar coisa alguma.

Em paralelo, não só a nobreza desce constantemente aos níveis da plebe, como a própria plebe se torna menos recomendável. Compare-se os trovadores da idade medieval (a música popular) com as aberrações da música popular moderna. Afinal, se não há ninguém para dar o exemplo, não há exemplo a seguir. E se o impulso cultural é estritamente económico (e há mais plebe que nobres), então será a plebe a dirigir a cultura pelo seu consumo.

O caso de Salvador Sobral, o novo herói da pátria plebeia, ilustra bem a situação. Um rapaz de 27 anos, que noutra época já seria um homem (outro sinal da decadência democrática), que faz parte de uma família de origem nobre, não se distingue em quase nada de um membro da

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Membro da nobreza em Democracia

plebe. O aspecto descuidado, as opiniões, a falta de erudição. O que mais choca, tendo em conta as suas origens, é a sua gritante banalidade. Ou seja, o seu carácter plebeu.

E convém salientar que o menino Sobral não é dos casos mais aberrantes. Apesar da sua vulgaridade intelectual e da sua fraca figura, o rapaz até é simpático e relativamente educado. Já os inúmeros membros das classes altas (por família ou por ascensão social) que regularmente participam na cultura plebeia nos seus expoentes mais crassos e repugnantes, sem qualquer vergonha ou arrependimento, não têm qualquer característica que os redima. Abra-se uma revista ‘de sociedade‘ para confirmar.

Nos seus tempos de faculdade, o ex primeiro ministro Britânico David Cameron, bem como o ex Mayor de Londres Boris Johnson faziam parte de um clube aristocrático chamado Bullingdon Club. O clube foi fundado há mais de 200 anos e apesar de ser originalmente dedicado à caça e ao cricket (o desporto era nessa época ainda um actividade a que só os nobres se dedicavam), já nesta altura parece que os seus membros não se comportavam com as maneiras dignas da nobreza, bebendo demais e causando alguns distúrbios – afinal, convém lembrar que a transição das sociedades monárquicas para democracias já se tinha iniciado, e com ela a degeneração das elites.

Hoje, passados dois séculos, o clube já não se dedica à caça ou ao cricket, e é simplesmente famoso por organizar jantares e literalmente destruir os restaurantes onde eles tomam lugar, pagando imediatamente os estragos com desdém. A única coisa que distingue este clube de uma claque de futebol, é que os membros de Bullingdon têm dinheiro para não se meterem em sarilhos pela sua conduta boçal e selvática.

O Comunismo nunca conseguiu eliminar as diferenças entre classe, afinal existe sempre uma elite de governantes que vive como sultões e um círculo exterior limitado de membros do Partido que obtém algumas regalias pela sua posição, que distinguem, não só

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Sopinha democrática

economicamente mas também em termos culturais e intelectuais, estas duas classes da classe geral dos proles – a ironia suprema do Comunismo na prática – e que, sendo classes efectivamente separadas, exercem uma influência na classe abaixo de si. A Democracia, porém, conseguiu eliminar quase completamente as diferenças essenciais entre as elites e o povo, entre quem governa e quem é governado, entre quem deve dar o exemplo e quem o deve seguir. Como uma rã cozida lentamente, a população de um regime democrático morre lentamente sem dar por isso.

A natureza destrutiva do Comunismo é evidente e declarada; o carácter insidioso da Democracia é ignorado e invisível. O Comunismo exclama abertamente o seu objectivo de destruição, a Democracia destrói pela calada, sem nunca o declarar a ninguém – pelo contrário, fá-lo com a melhor das intenções, essas de que o Inferno está cheio.

O leitor que julgue qual das duas ideias é mais perniciosa a longo prazo.