O enigma dos Liberais

«Academia is to knowledge what prostitution is to love»
Nassim Nicholas Taleb

Depois de termos falado dos problemas do liberalismo, vamos falar dos problemas dos Liberais. Isto, admita-se, é mais fácil: existem muitas, muitas obras do pensamento liberal e nem todo esse pensamento é de deitar para o lixo (em alguns casos, como Mises, é absolutamente essencial). Os Liberais antigos, ao contrário dos modernos, ainda tinham algo que um reaccionário podia aproveitar.

Em especial, pode aproveitar-se a Escola Austríaca (ou pelo menos, as obras principais). Esta escola de pensamento é a única escola económica que não foi cooptada pelo materialismo (tanto o antigo, de Smith e Ricardo, como o moderno, de Fisher e Keynes) – e como tal é também a única que consegue apresentar uma teoria que represente a realidade económica e a explique de forma satisfatória.

Não será de surpreender, no entanto, que os escritos puramente económicos da Escola Austríaca (que não contêm necessariamente prescrições políticas) tenham com o tempo servido de base, e justificação, para prescrições políticas. Prescrições liberais.

Mises, a figura principal e certamente a mais interessante, fez sempre questão de distinguir entre os seus escritos puramente económicos e os seus escritos políticos. E por fazer essa distinção, ambos mantiveram a sua relevância. Theory of Money and Credit, por exemplo, continua a ser a obra essencial para explicar o clusterfuck que é a política monetária democrática, sem no entanto advogar contra ou a favor: limita-se a chamar os bois pelos nomes. Um retrato mais largo da teoria e realidade económica pode ser encontrado em Human Action. Ambos os livros são peças necessárias para entender o mundo em que vivemos.

Nos seus escritos puramente políticos (como o Nation, State and Economy) Mises observa o mundo com uma clareza que faria corar reaccionários modernos – como observámos aqui, em Democracia, o caminho é sempre para a Esquerda, o que faz de um liberal há cem anos um terrível reaccionário contemporâneo. No entanto aqui já podemos observar, no meio da sua enorme erudição, a tendência (talvez inevitável) de ver o mundo somente pela esfera económica, e cair na armadilha liberal, whig, progressista. Esta crença de que o mundo está em constante progresso (em vez de degeneração) era um conceito que Mises terminantemente rejeitou toda a vida na sua teoria económica (pois era inegável a degeneração da disciplina), e no entanto, na sua vertente puramente política Mises continuava a cair na patranha, e acreditar que a passagem das entidades políticas aristocráticas para as democráticas tinha sido um progresso. A obsessão económica tinha levado a melhor.

E aqui entramos especificamente no tema deste texto. Tal como Mises, os Liberais portugueses deixaram o seu conhecimento de teoria económica levar a melhor e enformar todo o seu pensamento político. Ao contrário de Mises, não o fazem com especial erudição (mas não os vamos censurar por isso – podem acusar-me do mesmo e com razão). Os principais sítios da blogosfera portuguesa liberal são o Blasfémias e o Insurgente e é neles que se encontra esta obsessão, à superfície incompreensível. Ambos são, supostamente, de Direita. E apesar de se aproveitar um ou outro indivíduo em particular (e de vez em quando), a verdade é que a maioria revela um autismo estonteante e tem um único barómetro político: a economia.

Os Liberais portugueses são democratas. Sendo democratas são obrigados a mover-se intelectualmente na Janela de Overton, por auto-censura inconsciente e por auto-censura PwnedCatconsciente. Por causa dessa auto-censura, os Liberais estão obcecados com reformas dentro do sistema. Nunca sequer lhes ocorre que o sistema deva morrer, que o sistema seja iníquo, que o sistema seja podre de raiz. E se ocorre, não o dizem. Pelo contrário. E há uma razão para isto, mas já lá vamos. Por agora convém salientar que a obsessão económica não é defeito, é feitio.

Como explicar que um liberal não queira sair da UE? A UE é essencialmente a versão moderna da União Soviética: um organismo insonso de burocratas cinzentos que ditam a vida de milhões de pessoas sem qualquer representatividade. Não são os Liberais a favor da representatividade?

A explicação é que os Liberais temem que haverá menos liberalismo económico nas nações europeias sem a alçada benévola da União Europeia. Temem em especial que haja menos em Portugal. E sendo essa a única métrica para a sua visão política, são contra. E é inegável que isto sucederia, a curto prazo. O que levaria a um colapso, a médio prazo.

E aí voltamos à mesma questão: os Liberais temem o colapso do sistema, por mais iníquo que o sistema seja, por mais antitética ao Liberalismo que a própria fundação monetária desse sistema 839d3c15540b493f867668a0ca132551.jpgseja, por mais iliberal que o sistema seja. Os Liberais lutarão incansavelmente (na esfera intelectual) para evitar descartar a constituição comunista que rege o país. Há anos que os Liberais andam a anunciar a falência da Segurança Social, há anos que falam da fundação fraudulenta do sistema monetário, há anos que apontam a ignomínia da dívida pública. E no entanto as suas prescrições são sempre no sentido de evitar o colapso inevitável. Em vez de matar o dragão, os Liberais querem domesticá-lo.

Eles sabem, no entanto, que o colapso é inevitável. Mas ao que parece os Liberais têm um enorme medo do sofrimento, mesmo do sofrimento salutar. Só que é inegável que, de uma forma ou outra, haverá sofrimento. Muito especificamente, sofrimento económico. Haverá tumultos por causa desse sofrimento. Para usar a analogia preferida dos Liberais, a desintoxicação não é agradável para o drogado. Mas estar constantemente na corda bamba dos paliativos não é uma solução. É uma cobardia.

O que escapa aos Liberais obcecados com as consequências económicas imediatas, ou que insistem em não ver, é que para uma boa parte da população (e muito em especial daquela população que vive à conta do Estado – em que muitos deles se incluem, quer gostem disso ou não), é necessário sofrimento. Cristo também teve de sofrer na cruz antes de ressuscitar.

É preciso que as pessoas vejam o que é viver sem subsídios. É preciso que vejam o que significa uma dívida impagável e as consequências de dizer, firmemente, que não a vamos pagar. É preciso que voltem a depender das famílias, dos amigos, dos vizinhos, da comunidade. É preciso que encarem a realidade de ter trabalhos duros e desagradáveis. É preciso que sejam obrigadas a não gastar tudo o que ganham, a viver com menos do que precisam, a poupar. A maioria das pessoas tem conforto a mais para o seu próprio bem. Tal como os Liberais, perderam a noção do que é importante. Não sabem distinguir o eterno do transiente.

A grande maioria dos nossos defensores do mercado, são defensores apenas do seu esqueleto, sem entenderem (ou não querendo entender) que a alma e a carne que enformam esse esqueleto são mais importantes para que o sistema funcione do que a formalidade desse sistema. Neste momento, a alma do povo é o Estado Social, é a dependência, é a morosidade, a preguiça, a vaidade e a gula. O liberal não diz ‘vamos acabar com o sistema para erigir sobre as ruínas uma fundação sólida‘. Diz ‘vamos adiar o seu colapso, e acentuar as consequências desse colapso‘. Porque, como Keynes dizia, a longo prazo estamos todos mortos. Os Liberais esperam honestamente estar mortos quando o colapso acontecer. E trabalham para adiar esse colapso de forma a garantir esse destino.

Assim se explica, em parte, o porquê de os Liberais acreditarem na democracia: é uma forma voluntária de cegueira. Acreditam que elegendo o PSD (ou, vá lá, a ala Liberal do PSD, que é a ala moderada da moderação deles mesmos) vamos caminhar para mercados mais abertos e atenuar o Estado Social (não se riam). Tentam vender o seu peixe a pessoas que só comem carne e cover26defendem eurodeputados porque disseram uma vez uma frase liberal (enquanto fazem parte do conselho cosmético da União das Repúblicas Socialistas Europeias). Acreditam que as pessoas comuns (o maior entrave ao liberalismo), pessoas que não poupam, que vivem do Estado Social, cujos únicos interesses são o futebol e a novela, que papam tudo o que lhes dizem na televisão, cuja única cultura é o consumismo, estas mesmas pessoas que nem cuidar de si e dos seus conseguem ou pretendem fazer, podem e devem votar em representantes. Representantes esses que não representam ninguém a não ser a si mesmos e aos interesses que os compram. Este retrato da Democracia e da população em Democracia não é um exagero, é observável. E mesmo que não fosse, é intuitivo. E se a intuição não fosse o seu forte, podiam sempre ler Hans Hermann Hoppe. Mas não. Estão presos numa visão whig da história em que à frente está sempre o progresso.

Mas existe uma peça do puzzle em falta. Acima dissemos que se trata de cegueira, mas é uma cegueira voluntária. A maioria dos Liberais são inteligentes e certamente tiveram tempo e oportunidade de se deparar com a contradição em que se encontram, certamente que leram os livros certos e reflectiram sobre o que leram. Da própria perspectiva do liberalismo, a sua defesa do status quo é inexplicável.

Mas explica-se perfeitamente quando se percebe que escrevem em nome próprio e que têm empregos e reputações a defender. Que quase todos são beneficiários do sistema falido das stock-vector-scale-favoring-self-interest-rather-than-personal-values-108478289universidades. São professores, ou consultores, ou comentadores especialistas. Pagam a renda a girar a alavanca das ciências sociais nas fábricas de mentecaptos. Ser liberal é alternativo, mas é trendy. Um liberal pode ir às festas e às conferências, pode fazer parte das instituições, pode viver em paz sendo o enfant terrible que o consenso de Esquerda tolera, porque não ameaça.

Não se espere, pois, que rejeitem o seu modo de vida em nome de ideais maiores, ou sequer de consistência ideológica. Não se morde a mão que dá de comer.

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O Liberalismo do presente é o Socialismo do futuro

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Antes de começar a expor os problemas da ideologia Liberal e evidenciar o porquê de ser necessário a Direita rejeitá-la, quero admitir (como um alcoólico em recuperação) que customava ser um ideólogo do Liberalismo e que a crítica abaixo se aplicaria em grande parte à minha visão do mundo ainda há uns anos atrás. Mas mais pertinentemente vou começar por salientar um facto que ilustra a minha tese central de forma caricata.

O facto é o seguinte. Nas sociedades em que o Liberalismo foi implementado (as anglo-saxónicas, e em especial, nos Estados Unidos da América), o significado do Liberalismo mudou radicalmente até passar a significar o seu contrário. Enquanto que na Europa continental o Liberalismo mantém, pelo menos em teoria, a liberdade individual (e subsequente defesa do mercado livre) como seu valor central, nas sociedades anglo-saxónicas o Liberalismo significa algo completamente diferente e quase totalmente oposto – que nas nossas sociedades continentais, que nunca tiveram Liberalismo, se designa como Social-Democracia. Resumindo: o Liberalismo é no mundo anglo-saxónico a ala moderada do Socialismo.

Por isso os liberais no mundo anglo-saxónico tiveram de encontrar uma nova forma de se designar. A designação escolhida foi Libertarianismo – curiosamente um termo que era originalmente usado para a vertente pacifista do Socialismo, talvez numa tentativa de vingança ou justiça poética pelo facto da Esquerda lhes ter roubado a palavra Liberalismo. Outras designações não tiveram uma aderência significativa, e apesar de manterem o seu nicho militante (como outras designações de Comunismo), os liberais passaram maioritariamente a designar-se a eles mesmos como Libertários.

Não surpreendentemente, e sem ser necessário terem chegado ao poder (algo impossível, dado que uma sociedade de origem liberal passadas várias décadas não volta às suas origens – veremos já porquê), os libertários já começaram a ter a sua nova designação infiltrada e, em breve, redefinida. O processo está em marcha para tornar o Libertarianismo no novo Liberalismo, ou seja, noutra ideologia inteiramente de Esquerda que representa algo diferente daquilo que era suposto representar. Poderia dar vários exemplos desta redefinição, mas tornar-se-ia aborrecido, por isso vou apenas deixar um nome: Gary Johnson.

Esta redefinição não é uma coincidência, mas um resultado inevitável do ethos do Estado Liberal. Alguns liberais poderão argumentar, como muitos comunistas argumentam desavergonhadamente, que o ‘Verdadeiro Liberalismo’ (com letras maiúsculas) nunca foi tentado – e só lhes dou razão se esses liberais estiverem a falar de anarco-capitalismo, mas geralmente não estão. Pelo que é, em ambos os casos (e como os liberais identificam no caso dos comunistas) apenas retórica para evitarem a realidade.

O Liberalismo é a verdadeira via do meio: nem de Direita, nem de Esquerda. A lula política por excelência. Da Direita retira o respeito pela propriedade privada – e daí extrai uma concepção secular de Livre Arbítrio (LA) – um tema que quero abordar em particular noutra altura; da Esquerda retira o igualitarismo (resultado da tal interpretação secular do LA).

O problema do Liberalismo é precisamente ser uma ideologia igualitária, e portanto indiscriminadamente tolerante. O ethos Liberal não diz nada sobre valores fundamentais, mas sim sobre liberdades fundamentais. É um ethos negativo, não positivo. Por ser igualitário, o Liberalismo é inapelavelmente Democrata. E por esta razão, degenera com a passagem do tempo e progressivamente na sua face de Esquerda, perdendo totalmente a sua parte de Direita.

O Liberalismo é uma óptima ideia para a elite, mas um desastre para a plebe. Antes de explicar porquê, uma palavra sobre as classes.

As diferenças entre classes podem essencialmente ser explicadas pela alta ou baixa preferência temporal – a plebe tem uma alta preferência temporal, vive obcecada com o presente e com a satisfacção dos seus desejos imediatos em detrimento da sua existência futura, enquanto que a elite tem uma baixa preferência temporal e é capaz de controlar os seus desejos presentes em prole da sua existência futura. Em geral, a alta ou baixa preferência temporal está ligada ao QI. Algures no meio, está a classe média.Um homem nascido na plebe com um QI acima da média, e se o nível de socialismo na sua sociedade for tolerável, não fará para sempre parte dessa classe. Um homem nascido na elite mas com um QI abaixo da média, tenderá a esbanjar a herança que lhe deixaram e a abandonar a elite.

A razão porque o Liberalismo é destrutivo para a plebe é porque assume que todos os seres humanos devem ter a possibilidade de escolher os seus próprios valores (o Secularismo é outra parte do igualitarismo que os Liberais fundamentalmente aprovam). Na prática, o Liberalismo não tem problemas com qualquer tipo de imoralidade, nem com a destruição pessoal através da mesma. Afinal, somos todos individuos e todos devemos ter a liberdade de nos auto-destruirmos. O problema é que a permissão da imoralidade e da auto-destruição não tem o mesmo resultado entre a elite que tem entre a plebe. Homens da elite saberão na maioria dos casos manter a sua imoralidade e auto-destruição a um nível moderado, não pondo em causa a sua existência futura, e por isso contendo-as essencialmente a si. Homens da plebe, pelo contrário, destruirão a sua vida, a dos filhos e a da comunidade. E, através da Democracia, destruirão também o país.

A plebe não tem a capacidade de se auto-moderar para salvar a própria vida. E o Estado Liberal, mantendo o seu ethos negativo, não tem meios, nem vontade, de evitar este desastre. Dito de outra forma, o Liberalismo é incapaz de formar cidadãos Liberais, acabando por formar cidadãos libertinos que, através da democracia, acabarão por destruir não só o Liberalismo mas também todas as liberdades.

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Isto porque o Estado Liberal não é apenas incapaz de evitar o naufrágio moral da plebe, mas igualmente incapaz de eliminar ideias e movimentos políticos que pretendam usar a plebe para destruir o seu ethos negativo – isto é, ideias e movimentos que propõem a violação dos seus princípios básicos, ou até que proponham abertamente a insurreição, o caos e o totalitarismo. Tanto o hedonismo e o niilismo como os vários tipos de socialismo, incluindo os revolucionários, são vistos pelo Estado Liberal, apesar das suas óbvias consequências de barbárie e miséria para a sociedade, como legítimos – pelo menos de um ponto de vista teórico. Se o Estado Liberal trata a incitação individual à violência com a força da Lei, trata a incitação colectiva a uma forma massiva de violência e subversão com diálogo e posições nas universidades e nos meios de comunicação.

Pelo que a plebe, vergada pela sua incapacidade de auto-moderação, votará em respostas iatrogénicas (socialismo) para adereçar os resultados da ausência de valores fundamentais a que foi entregue. E com o tempo, o Estado Liberal transforma-se, pela rotatividade das eleições de sufrágio universal, numa sistematica e virulenta rejeição da ideia de propriedade privada. De Direita, nada restará.

Eis a história do Liberalismo realizado na prática: uma transição, mais lenta ou mais acelerada, para o socialismo e o relativismo moral. O resultado é observável na política, na economia e na cultura. E por isso é necessário que a Direita, se não quiser acabar transformada em Esquerda, rejeite o Liberalismo.