O Nacionalismo não é necessário, nem suficiente

Este texto serve de adição ao que se escreveu aqui sobre o identitarismo. O objectivo não é alienar aqueles que considero aliados e que professam o Nacionalismo como a sua ideologia, mas unicamente apontar uma falha que considero ser incompatível com o seu objectivo principal, analisar as suas origens históricas e as suas manifestações modernas, e argumentar uma alternativa.

 

«Quem dentre vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro para calcular a despesa e ver se tem com que a concluir? Não suceda que, depois de assentar os alicerces, não a podendo acabar, todos os que virem comecem a troçar dele, dizendo: ‘Este homem começou a construir e não pôde acabar’. Ou qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro para examinar se lhe é possível com dez mil homens opor-se àquele que vem contra ele com vinte mil? Se não pode, estando o outro ainda longe, manda-lhe embaixadores a pedir a paz

Lucas 14:28-32

O principal problema de qualquer putativo movimento dissidente é a sua sobrevalorização daquilo que pode ser quantificado, aquilo que é visível a olho nu, aquilo que é imediatamente palpável, em detrimento das questões filosóficas, metafísicas e espirituais que são muitas vezes consideradas espúrias. Como o construtor da torre e o rei que parte para a guerra nas palavras de Jesus, muitos não consideram o invisível que subjaz às realidades visíveis. Como um médico que toma os sintomas pela doença e se oferece para os tratar julgando tratar a doença, o Nacionalismo opera da mesma forma no plano político. É desta mentalidade que surge a defesa do Nacionalismo.

Pretendemos aqui argumentar que o Nacionalismo não pode constituir a base para o movimento, pois mesmo para os objectivos que pretende concretizar não é necessário, nem suficiente. Para isso temos primeiro de o definir, para que se saiba aquilo a que apontamos a nossa crítica. Como todas as ideologias, pode dizer-se que é tudo e mais french-nationalismalguma coisa, por isso tentaremos cingir-nos a uma definição que tenha em conta, ao mesmo tempo, a História da ideologia e a sua presente manifestação. O Nacionalismo é uma ideologia política Republicana e Democrática saída da Revolução Francesa, que postula a preservação da Nação enquanto entidade política (o Estado-Nação), a defesa de território delineado por fronteiras terrestres, da tradição e coesão linguística, cultural e étnica contra processos de destruição identitária ou transformação. Quando digo que o Nacionalismo não pode constituir a base, quererá isto dizer que sou contra os seus objectivos individuais postulados acima? Não. Mas quer dizer que estas ideias em si mesmas não garantem aquilo que pretendem garantir, e em particular a formalidade da ideologia (a identificação da nacionalidade com o estado-nação) não é necessária, nem suficiente.

Com a ameaça presente e tangível da imigração de massas, é compreensível que a ideologia do Nacionalismo se tenha tornado a bandeira em torno da qual os dissidentes maioritariamente se agitam, mas esse foco único confunde as árvores pela floresta, e a45210707118b976f894dcb852f4cdb5esquece que há factores metafísicos que o Nacionalismo por si mesmo não contradiz, que não só permitem mas promovem esta situação. Sendo uma invenção moderna saída do próprio Liberalismo, o Nacionalismo tem a mesma fundação no Materialismo Iluminista e sofre dos mesmos problemas insolúveis. O Nacionalismo, por mais benéficas que sejam as suas intenções, acaba a longo prazo na mesma situação que qualquer outra ideia democrática. Isto é, acaba na destruição daquilo que pretende defender. Tal como o Liberalismo é a longo prazo incapaz de defender a Liberdade, o Nacionalismo é incapaz de defender a Nação.

O caso Português, com as suas fronteiras e unidade política com quase mil anos, não é dos melhores exemplos para se perceber o argumento que fazemos aqui. Mas por outro lado, o facto de ser uma absoluta raridade na História Europeia, acaba por ilustrar ainda assim o ponto acima. As nacionalidades de Leste, por exemplo, oferecem um perfeito nationalismexemplo de como a coesão étnica e cultural de um povo não dependem de uma entidade política equivalente, ou seja, não precisam de Nacionalismo. E em alguns casos, observa-se que muitos grupos étnicos estavam mais bem servidos sob uma entidade política mais larga do que quando obtiveram os seus estados-nação. O Império Austro-Húngaro, a Jugoslávia de Tito, ou até a França pré-Revolucionária – onde, lembremos, existiam várias nacionalidades, entretanto extintas precisamente pelo Liberalismo – ou até a Rússia moderna, são bons exemplos de como o Nacionalismo não é necessário. Na maioria dos casos foram precisamente os poderes Liberais e a ideia da auto-determinação dos povos que desagregaram ou destruíram nacionalidades (como no caso Francês ou, em menor escala, na centralização nacionalista da Itália ou da Alemanha). Sob um ou outro império várias nacionalidades sobreviveram sem Nacionalismo, e com Nacionalismo destruíram-se várias nacionalidades e identidades.

Penso que isto prova que a questão da nacionalidade, da coesão étnica e cultural de um povo, é uma questão muito mais complexa do que a simples edificação política. Argumentar o contrário implica admitir, por exemplo, que os falsos estados-nação formados pelos poderes coloniais em África, na Ásia e nas Américas eram nações antes de serem estados, quando uma investigação simples da sua História demonstra que essa concepção é falsa. Obviamente que, com o tempo, outras nacionalidades (ou semi-nacionalidades) se formam a partir destes estados artificiais, mas esse mesmo facto confirma que nesses casos, antes de existir o estado, não existia a nacionalidade, mas uma colecção de grupos étnicos, culturais e linguísticos distintos.

O Nacionalismo não é, pois, necessário à manutenção daquilo que pretende defender. A verdade é que, paradoxalmente, sendo uma consequência da destruição da monarquia e da sociedade tradicional, o Nacionalismo é uma reacção inconsequente, desnorteada, um penso para uma ferida de bala, e sendo uma ideia em grande parte contraditória, como demonstrámos, acaba por ser utilizada amiúde pelas elites globalistas para fomentar o caos e destruir a sociedade tradicional. Obviamente, o Nacionalismo pode ser, sob determinadas circunstâncias, uma força contrária aos planos globalistas, sobretudo centenas de anos depois da destruição da ordem monárquica, mas é preciso nunca esquecer que o próprio Nacionalismo foi uma ideia promovida pelas elites maçónicas da época com o objectivo de destruir as sociedades que existiam, tal como hoje promovem o Globalismo para destruir as que existem. Como a História demonstra, o Nacionalismo não é uma condição necessária para a defesa da nacionalidade mas sobretudo não é suficiente – algo que é ilustrado perfeitamente no Nacionalismo dos nossos dias.

Se investigarmos seriamente os objectivos das elites globalistas percebemos que o seu plano não é somente de aniquilação da nacionalidade, mas aniquilação de qualquer tipo de identidade: étnica, cultural e linguística, mas também familiar, religiosa, sexual e, o plano final transhumanista, também da identidade humana. Quão fútil é pois que nos oponhamos a um dos seus objectivos mas descuremos a oposição aos outros? Ou pior, que se subscreva uma parte do seu programa? O Nacionalismo hoje pretende cortar uma das cabeças do monstro globalista, mas deixar as suas outras cabeças intactas. Isto é por MTG_Apocalypse-Hydra.jpgdemais óbvio olhando para os partidos nacionalistas que vão surgindo sob a bandeira da anti-imigração, e em particular anti-Islão, e que predicam a sua oposição na defesa de valores modernos completamente antagónicos à coesão nacional. Os exemplos são demasiado numerosos, tanto dos partidos e movimentos, como das ideias que partilham com os globalistas, para que se ignore esta tendência. A sua manifestação mais gritante é na oposição ao Islamismo. É um óbvio ululante que nos devemos opor ao Islamismo como ideologia, e ainda mais à imigração massiva de proponentes dessa ideologia para a Europa, mas há boas e más razões para o fazer. E, infelizmente, a maioria dos nacionalistas opõe-se ao Islamismo pelas razões erradas. A maioria das críticas feitas pelos nacionalistas são às ideias que caracterizam como ‘retrógradas’ e que contrastam com as ‘liberdades’ ocidentais: a submissão da mulher ao homem e a intolerância dos desviantes sexuais, em particular, comprazem a grande maioria das críticas. Nelas está subjacente a defesa da insubmissão e liberdade femininas e da tolerância dos desviantes sexuais. Ou seja, atacando o Islamismo por estas coisas, os Nacionalistas atacam igualmente qualquer sistema político e social que incorpore estes closet-rue-89.jpgprincípios. Isto demonstra que estes Nacionalistas são infelizmente ignorantes, tanto da História Ocidental como da História universal, pois todas as civilizações dignas desse nome impuseram regras sociais estritas, e em particular, a submissão da mulher ao homem e a remoção dos desviantes sexuais (aquelas que, com o tempo, deixaram de o fazer acabaram na mesma decadência em que a nossa se encontra hoje); e demonstra igualmente que são antagónicos à organização social Cristã que dominou a Europa durante pelo menos 1500 anos, e que foi paralela ao florescimento da Europa como força dominante em todos os aspectos em que normalmente se avaliam as civilizações. Ou seja, pretendendo defender o Ocidente, a maioria dos Nacionalistas defende as ideias que perverteram a nossa civilização e nos trouxeram ao ponto actual. O bem comum, a coesão social, a unidade nacional, requerem necessariamente determinados sacrifícios de liberdade individual. Ao elevarem essa liberdade ao princípio base da sua visão do Ocidente, estes Nacionalistas plantam a própria semente que germinará na disfunção política, social e económica que cria o problema migratório em primeiro lugar.

A base da Nação é a família e o individualismo primário que defendem é a antítese da família. Ao defenderem o individualismo contra o colectivismo dos Islamistas, os nacionalistas apenas escolhem uma forma de atentado contra a Nação em prol de outra. Esta defesa é emblemática da atitude que, na realidade, existe na génese do Nacionalismo: o Estado-Nação torna-se na única premissa, e a ordem social necessária à manutenção da nacionalidade é ignorada. Um movimento que defenda o Estado-Nação e se oponha à imigração, mas que aprove e permita todos os males da modernidade, que pretenda manter o status quo social de liberdade sexual, de supremacia feminina, de economia baseada na usura, de organização democrática, é incapaz de sequer manter aquilo que eleva como valor principal. E é a isto que nos referimos quando dizemos que o Nacionalismo descura o aspecto metafísico, pois é incapaz de perceber que a situação migratória é uma consequência da perda de valores tradicionais na sociedade, não é um assunto separado que possa ser resolvido sem se resolver este outro.

A identidade é feita de círculos concêntricos – o primeiro sendo a família nuclear, depois a família extensa, o bairro, a cidade, a região, a Nação (entendida como esfera partilhada de laços étnicos, linguísticos e culturais), a ligação regional (por exemplo, entre povos com línguas de origem latina ou de proximidade geográfica) e, por fim, a identidade geral europeia, que não pode ser entendida fora do domínio da Cristandade – pois hierocles-concentric-circles.jpgpreviamente os vários povos europeus não tinham língua, cultura ou logos em comum, mas eram sim uma colecção de povos com crenças, culturas e línguas distintas e rivais.

Os nacionalistas verdadeiros reconhecem que a Nação não é uma mera delineação geográfica e que o que a constitui não é meramente a terra onde se encontra (o ridículo conceito de ‘magic dirt’), mas sim as pessoas que a compõem, com uma etnia e cultura próprias. Reconhecem, logo, que não se pode substituir as pessoas sem aniquilar a Nação, ou sem a transformar em algo completamente distinto. No entanto, e infelizmente, muitos não prestam a devida atenção à conduta das pessoas que compõem a Nação, nem têm um entendimento de que o bem comum da Nação é muito mais do que o bem individual dos seus membros, e subscrevem assim uma forma ou outra de individualismo, que é radicalmente antagónico ao objectivo que pretendem alcançar.

Mesmo admitindo que o Nacionalismo consegue ganhar eleições e expulsar os alógenos, qual é o resultado? Ter paradas gay mais seguras? Um sistema de saúde a funcionar melhor para mais eficientemente abortar crianças? Jovens mulheres a embebedarem-se nas ruas das nossas cidades sem o receio de violação por parte de alógenos? O Nacionalismo hoje é análogo ao puxar um suicidário da beira da ponte, mas depois mandá-lo para casa onde tem cordas, armas e comprimidos. É a fantasia de achar que se não resolvermos o problema psicológico e espiritual ele vai deixar de ter tendências suicidas. A nossa civilização presente é patentemente suicidária, a vários níveis, e o Nacionalismo infelizmente apenas pretende criar as condições para que se suicide em paz.

double-headed-romanov-imperial-eagleComo expliquei anteriormente, o Ethnos tem de ser entendido e só pode ser defendido através do Ethos. Só o retorno a uma ordem tradicional, em todas as suas implicações, pode garantir a coesão étnica e cultural. Não podemos manter uma parte do edifício liberal e esperar que fique estanque e não volte a destruir aquilo que já destruiu uma vez. Aqueles que anseiam por uma sociedade etnicamente coesa mas que pretendem simultaneamente manter outros aspectos da sociedade moderna, estão a perseguir uma ilusão, mas ainda mais importante, não podem ser considerados como aliados. Pelo que é de extrema importância que se entenda que o movimento tem de rejeitar todos os pontos do liberalismo, e ser muito mais radical do que o simples Nacionalismo.

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Porque todos os partidos em Portugal são de Esquerda

Para começar a entender o título deste texto, é preciso compreender que em democracia a Direita não tem direito a existir. Na medida em que existem partidos nominalmente de Direita, que são identificados como de Direita pelas elites e que se identificam como de Direita perante o povo, eles existem apenas dentro de um espectro de opinião aceitável que é determinado pela Esquerda.

A opinião aceitável em democracia é determinada pela Esquerda porque a democracia é uma ideia de Esquerda e não permite que se pense fora da sua caixa. Se analisarmos as prescrições políticas dos vários partidos, verificamos que elas não diferem em substância. O espectro de opinião, de resto, é o mesmo que se ensina nas escolas – e que vai da Extrema-Esquerda até ao Centro, e relega a verdadeira Direita para o reino da imaginação. Se existe, é apenas num plano histórico. E mesmo nesse plano histórico, qualquer menção é uma crítica e qualquer julgamento vem com um premeditado veredicto. A democracia admite tudo o que é a seu favor, e nada do que é contra si.

Quem questiona a democracia não vai preso, porque não é necessário. Essencialmente não existe órgão oficial que a questione. Através da doutrinação política suave das escolas, das televisões, das rádios e dos jornais, não há necessidade de suprimir tais ideias. Matam-se à nascença ou ainda antes de nascer (uma ideia que a Esquerda aplica também aos seres humanos). Se porventura surgir uma criatura que dispute o consenso democrático, é ignorar. E se porventura o silêncio não funcionar, é ridicularizar a criatura como digna de internamento num manicómio.

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Legenda: à esquerda encontramos os Partidos democráticos. À direita temos, por ordem, Marcelo Caetano (que provavelmente deveria aparecer mais ao meio), António de Oliveira Salazar, António Sardinha (em cima) e Henrique Paiva Couceiro (em baixo). Inclui-os mais pela piada. Para o objectivo do texto, dado que é sobre o momento actual, podem imaginar a parte da Direita vazia.

Da economia à integração na União Europeia, os partidos democráticos não se distinguem particularmente uns dos outros. Se alguém conseguir ler os programas eleitorais e não morrer de tédio (confesso que tresli apenas, e sem muita atenção), poderá verificar que isto é essencialmente um truísmo.

Embora seja claro que o MRPP está mais à esquerda que o PNR, as diferenças não são muitas, nem fáceis de identificar. Por exemplo, no programa do PNR consta muita renegociação e reimaginação, mas não há nada que indique a saída da União Europeia (embora queiram sair do espaço Schengen), ou a saída da zona Euro. Já o MRPP, que não tem um programa eleitoral que se possa encontrar, provavelmente porque a sua existência é cosmética apenas – e devemos dar crédito à sanidade dos seus líderes por omitirem um documento que certamente ninguém iria ler – tem um manifesto onde entre outras coisas propõe a saída do Euro e a introdução de um novo escudo. Esse escudo, claro, não seria baseado no padrão ouro, e seria imediatamente inflacionado até valer exactamente zero – mas ao menos reconhecem parte do problema. Tendo em conta de quem estamos a falar, já não é mau.

Isto para demonstrar que da extrema-esquerda à ‘extrema-direita’ não vai muito. Dos partidos do centro nem vale a pena falar. Mas falemos brevemente. Distinguem-se uns dos outros apenas no seguinte: há os que são orgulhosamente herdeiros de Marx, Lenine, Trotsky e Estaline (entre outras encarnações menos emblemáticas e mais recentes) e os que são acólitos modernos da Catedral, e que apesar de na sua génese terem o mesmo marxismo, têm pudor em revelá-lo (possivelmente porque, tendo em conta o nível intelectual das suas figuras, também não sabem). Em alguns casos particulares, já de si raros, incluem uma tímida alusão ao Cristianismo, sem que daí tirem qualquer conclusão política. O CDS, por exemplo, fala no seu programa eleitoral no capítulo dos ‘princípios éticos’ em ser, moralmente, contra o aborto. E no entanto, nos capítulos sobre políticas concretas, não fala na sua proibição, ou nem sequer de um referendo específico sobre o assunto (embora uma das suas posições base seja fazer referendos por tudo e mais alguma coisa). O CDS tem pontos extra por iniciar o seu programa em forma de poesia, que é sempre bonito. Para terminar, menciono o PPM, que declara num acesso de radicalismo querer substituir a III República por uma Monarquia Constitucional. Que arrojado.

Isto, meus caros, é um inventário da miséria. E se por um momento se pensar que algum destes partidos, tendo ganho eleições e enchido as sinecuras com as suas cabeças, vai cumprir alguma alínea dos seus programas eleitorais, não há caso para pânico. É ciência certa que tal não vai suceder. Podemos dormir descansados.

Esta situação não é uma surpresa. A abolição da Direita é uma consequência inevitável do sistema democrático. Vários factores, que começaram a surgir ainda no Estado Novo, em particular quando Marcelo Caetano tomou o poder, podem ser apontados mas é mais importante perceber o cerne da questão: em Democracia o discurso político ou é de Esquerda, ou não existe. Na marcha imparável para o progresso, os postes da baliza política movem-se constantemente para a Esquerda. E os partidos e movimentos de ‘Direita’ ou aceitam o novo consenso, ou arriscam-se a ser apelidados de extremistas. O PNR pretende ser uma versão lusitana e sanitizada do NSDAP, sem racismo e sem violência. Por isto, é apelidado de extrema-direita. E no entanto, o NSDAP era de Esquerda. Acho que posso considerar o meu argumento adequadamente ilustrado.

Agora que definimos o problema, convém ir mais fundo para se perceber, afinal, o porquê de não existir Direita verdadeira. A Direita verdadeira é antidemocrática, tradicionalista, de preferência monárquica, descentralizadora. Pode dizer-se que quer um Estado pequeno, mas forte. Ou seja, é o exacto oposto da Esquerda, que é democrática, intransigentemente republicana, centralizadora, progressista – o que resulta num Estado enorme, mas fraco.

Há uma frase de Salazar que é icónica, que descreve a solução para o problema e identifica a origem do mesmo:

Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a Pátria e a sua história. Não discutimos a autoridade e o seu prestígio. Não discutimos a família e a sua moral. Não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.

Na prática, isto pressupõe suprimir essas mesmas discussões na esfera pública em geral e em órgãos oficiais em particular – que era de facto o que sucedia durante Salazar. Antes de se horrorizarem com a proposta de suprimir alguma coisa (porque em democracia é impensável suprimir opiniões políticas da vida pública – a menos, claro, que sejam opiniões de Direita), convém perceber que existem razões para o que acima vem descrito não ser discutido.

É óbvio que a discussão de Deus e da virtude, degenera no relativismo moral. Que a discussão da Pátria e da sua história degenera no fim da autonomia nacional e na entrega da soberania a entidades exteriores. Que a discussão da autoridade ameaça todas as relações hierárquicas e põe todos os que devem obedecer contra todos os que devem mandar (mulheres contra maridos, filhos contra pais, alunos contra professores, etc e tal). Que se discutirmos a família e a sua moral, aceitamos a promoção de estilos de vida alternativos (sejam eles homossexuais ou a simples assistência à filiação ilegítima e às mães solteiras). Que quando se discute a glória do trabalho e o seu dever, abrimos a porta aos subsídios que destroem comunidades e os indivíduos que delas fazem parte.

A partir do momento em que estas coisas se começam a discutir, quer dizer que não são absolutas. e a partir do momento em que não são absolutas, podem ser substituídas. Para uma ilustração prática, é olhar para Portugal – ou, se insistirmos em estrangeirismos, para a civilização ocidental desde a Revolução Francesa.

O que se observa em paralelo, e que arranca acelerando em direcção ao extremismo, é o avançar da discussão e da substituição desses valores (por outros, de Esquerda). Mais uma vez, isto não é só um problema português. Em Portugal começou nos anos 60, mas em muitos outros países, com uma tradição democrática mais antiga, começou antes. A verdade é que a viragem à esquerda é hoje em dia, em quase todo o mundo civilizado, praticamente total.

Mas não só os valores tradicionais se tornaram discutíveis, primeiro, e depois descartáveis, agora são intocáveis: é na prática, mesmo que não na lei, proibido advogar as posições tradicionais pelo preço social, económico e político que fazê-lo tem para qualquer indivíduo ou organização. Daí que um partido de centro esquerda como o PNR seja um pária no panorama político – mesmo sem defender na realidade nada que se distinga do consenso democrático da Catedral. E de qualquer das formas, atrai maioritariamente pessoas com pouca capacidade intelectual e que não têm nada a perder – e que por isso mesmo, ainda acabam por denegrir mais perante o cidadão comum a ideia de Direita.

E para as pessoas que se identificam como de Direita, e que no fundo só clamam pelo direito à existência, mesmo que seja uma existência limitada pelo consenso democrático, é importante que entendam que essa existência não é estática. Ontem podiam acreditar em coisas que hoje já não podem. Amanhã, sabe-se lá em quê é que poderão acreditar. Como dissemos, os postes continuam a ser movidos: há uns meses uma conferência inócua que Jaime Nogueira Pinto quis fazer sobre temas absolutamente não controversos (no fundo, sobre a eleição de partidos democráticos mais ou menos nacionalistas) foi cancelada por cobardia face à intimidação de ‘alunos’ e professores de extrema-esquerda e com a indiferença da maioria.

Depois não digam que não vos avisei.