O Papel das Mulheres

A ideia para este texto surgiu de um comentário de uma leitora, Ana Maria, a quem agradeço dar o mote para esta discussão que, tendo em conta a oposição que vou recebendo sobre este tema, já vem tardia.

O ditado popular sobre a mulher ser quem usa as calças em casa é bem conhecido de todo o povo português e aponta para o facto de, contrário à natureza humana, ser a mulher quem lidera o lar. Este ditado providencia um mote perfeito para a discussão que pretendemos efectuar aqui, que é o do papel da mulher no movimento dissidente. men9Analisando a expressão, o que podemos concluir? Primeiro, a supracitada artificialidade da liderança feminina, tão artificial que é necessário criar um ditado jocoso para ilustrar a situação. Segundo, que essa artificialidade é demonstrada não apenas no interior (liderança) mas no exterior (calças), sendo que o exterior é simbólico de algo maior, e mais pernicioso. Ao imitar os homens, as mulheres perdem as suas qualidades femininas, sem ganhar nenhuma das masculinas: tornam-se meramente homens de segunda. Por isso, não exagero quando digo que a decadência da nossa civilização se deve, em grande parte, ao facto das mulheres terem começado a usar calças. Pode parecer apenas um pormenor, mas é um símbolo da deriva maior da nossa civilização, da corrente igualitária que a inundou e virou do avesso, do caos identitário em que nos encontramos. Toda esta tragédia começou, não pela raça, não pela imigração, mas pela confusão do papel da mulher na sociedade. E tão importante é a concepção correcta dos papéis adequados de cada sexo, que todas as sociedades que foram além do mais básico primitivismo a reconheceram e aplicaram. Excepções sempre as houve, mas como se costuma dizer, servem apenas para confirmar a regra. E a regra existe com razão. Uma mulher como a Ayn Rand, por exemplo, fez muitíssimo bem em nunca ter tido filhos e ser dona de casa e, em vez disso, dedicar-se ao trabalho intelectual, produzindo ideias de indiscutível valor e originalidade (a avaliação última dessas ideias é uma questão demasiado complexa para discutirmos aqui). Mas também por essa razão, uma vez chamaram-lhe ‘o homem mais corajoso na América’. Por certo que os que pretendem que as mulheres tenham a liberdade de participar no movimento no mesmo patamar que os homens não quererão que elas se transformem em meras imitações dos homens. E no entanto, quando o fazem, é precisamente nisso que se transformam.

Não é ao acaso que a Bíblia menciona a indumentária especificamente: «Uma mulher não poderá usar coisas de homem e um homem não poderá vestir-se com roupas de mulher, porque o SENHOR, teu Deus, abomina quem assim procede.» (Deuteronómio 22:5). Especula-se que a razão para que tal viesse especificamente mencionado na Bíblia se encontra na proximidade das sociedades pagãs que rodeavam os hebreus na época, e que possivelmente não observariam estas distinções. Ora, tal razão aplica-se também à nossa moribunda civilização, que dedicada hoje a variadíssimos deuses pagãos, se acaba por esquecer até do mais fundamental da organização humana: das diferenças salutares entre homens e mulheres.

É fácil antecipar as objecções: que é um anacronismo extremista, que a sociedade mudou, que ‘evoluímos’, que tais concepções são resquícios antiquados de uma era primitiva, ou no mínimo, menos ‘iluminada’. Estas objecções são, em grande parte, feitas por companheiros dissidentes, a quem só podemos apontar que com essas mesmas objecções a Esquerda defende todo o seu programa – desde a imigração até à aceitação dos ‘estilos de vida alternativos’. Pelo que podemos concluir que tais argumentos são inválidos – ou, caso concluamos que são válidos para uma coisa, são igualmente válidos para outra. Por outras palavras, das mulheres usarem calças à abolição da identidade nacional, vai um tirinho.

Neste canto da Internet, ter opiniões impopulares e consideradas radicais pela maioria é uma inevitabilidade. No entanto, a visão tradicional da Mulher é impopular e considerada radical mesmo no seio do movimento dissidente, mesmo entre homens e mulheres que reconhecem as diferenças físicas, mentais e espirituais entre os sexos, que reconhecem o papel de ambos na ordem tradicional. Para eles, a ideia de que as mulheres devem ter uma função fundamentalmente distinta da dos homens no movimento ainda é tabu, senão mesmo anátema. Pelo contrário, o consenso parece ser 5a610cb01e000028005adbd4que as mulheres podem (e em alguns casos devem) ter um papel semelhante ao dos homens na produção e distribuição de ideias, na participação em demonstrações e debates e, deduz-se, nas batalhas campais em que muitos dos eventos se transformam e eventualmente nas trincheiras de uma potencial guerra civil.

Recentemente o Youtube lançou uma sequela do Karate Kid em forma de série que é surpreendentemente contrária ao politicamente correcto. A série chama-se Cobra Kai (o nome do dojo dos antagonistas no original), e uma das cenas mais hilariantes é quando uma preta gorda com cabelo de lésbica se tenta juntar ao dojo e o sensei lhe diz que não se aceitam mulheres no karaté pela mesma razão que não se aceitam no exército: porque é estúpido. Numa civilização em ordem, eu não necessitaria de justificar o porquê do papel das mulheres no movimento dever ser o de esposas e mães, de aliadas domésticas dos homens que efectuam o principal do trabalho (intelectual e físico) requerido para o triunfo das nossas ideias. Numa civilização em ordem, bastaria simplesmente repetir o truísmo da série e dizer que qualquer outra abordagem é estúpida. Mas infelizmente a nossa civilização não está em ordem, e até os truísmos têm de ser explicados, justificados e argumentados, uma e outra vez.

Já mencionámos a Bíblia, mas convém voltar a mencioná-la e lembrar que as prescrições sobre o papel feminino não se limitam à advertência contra o seu uso de indumentária masculina. Pelo contrário, a mulher é distinta do homem, e deve a ele ser submissa. Repare-se nas seguintes passagens:

«Como acontece em todas as assembleias de santos, as mulheres estejam caladas nas assembleias, porque não lhes é permitido tomar a palavra e, como diz também a Lei, devem ser submissas. Se quiserem saber alguma coisa, perguntem em casa aos maridos, porque não é conveniente para uma mulher falar na assembleia.» (1 Coríntios 14:33-35)

«Submetei-vos uns aos outros, no respeito que tendes a Cristo: as mulheres, aos seus maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da Igreja – Ele, o salvador do Corpo. Ora, como a Igreja se submete a Cristo, assim as mulheres, aos maridos, em tudo.» (Efésios 5:21-24)

«A mulher receba a instrução em silêncio, com toda a submissão. Não permito à mulher que ensine, nem que exerça domínio sobre o homem, mas que se mantenha em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzido mas a mulher que, deixando-se seduzir, incorreu na transgressão. Contudo, será salva pela sua maternidade, desde que persevere na fé, no amor e na santidade, com recato.» (1 Timóteo 2:11-15)

«Do mesmo modo, as anciãs tenham um comportamento reverente, não sejam caluniadoras nem escravas do vinho, mas mestras de virtude, a fim de ensinarem as jovens a amar os maridos e os filhos, a serem prudentes, castas, boas donas de casa e dóceis aos maridos, de modo que a palavra de Deus não seja difamada.» (Tito 2:3-5)

Saliento estas passagens porque elas não existiram no vácuo. Pelo contrário, elas foram a base da civilização que, de uma forma ou de outra, todo o movimento dissidente respeita como o auge da Europa e quer ressuscitar. A identidade nacional nasce primeiro na família, e a família nasce do homem e da mulher. Quão importante é, pois, que tenhamos a concepção correcta do relacionamento entre os dois? E quão destrutivo é que tenhamos uma errada? Basta observar a sociedade presente, que é predicada, não na distinção entre homem e mulher, e na submissão da mulher ao homem, mas pelo contrário, numa absoluta igualdade e individualismo que permite, a homens e a mulheres, fazerem o que bem lhes apetece, mesmo que o que lhes apeteça semeie a destruição da ordem social.

Mas toda esta conversa de religião e civilizações antigas diz muito pouco a um grande número de pessoas no nosso movimento, e apesar das evidências sobre a importância destas considerações, elas são maioritariamente relegadas para o plano da fantasia, pois a questão fundacional é muitas vezes esquecida ou abertamente ignorada (como já apontámos). Por isso avancemos para considerações mais terrenas.

Quando se advoga a participação das mulheres no movimento, não como esposas, mães e companheiras, mas como equivalentes intelectuais e físicas dos homens, obviamente que se tem em mente muitos casos recentes que, admita-se, angariaram indiscutivelmente um grande número de novos convertidos à causa identitária, à defesa do Ocidente e à tentativa de o ressuscitar do torpor terminal em que se encontra depois de ter sido vergado às forças igualitárias e relativistas do Iluminismo.

Consideremos o caso Lauren Southern. Com 23 anos, a menina Southern é não só a fêmea mais famosa no movimento, mas uma das figuras mais proeminentes mesmo descontando o seu cromossoma identificador. Qual é a razão para esta popularidade? Lauren_Southern_OKSerá a originalidade das suas ideias ou da apresentação dessas ideias? Ou será por ser uma jovem rapariga que, no decorrer do seu trabalho, vai mostrando as pernas e os ombros, e por vezes um pouco mais que isso? Não se pode subestimar o poder da libido masculina, que mesmo em assuntos em que deve ser posta de parte acaba por dominar as prioridades. Como podemos ver ilustrado nesta review do seu livro, a menina Southern não é nem original nas ideias, nem na apresentação – pelo contrário, nem sequer se eleva acima do mais básico em ambas as categorias. Nesse livro, inclusivamente, encontra-se esta pérola de intelectualidade e bom gosto: «If there was a moment in the 2016 U.S. election that epitomized this newfound hate for the young on the right, it was Republican consultant Rick Wilson’s infamous… declaration that Trump supporters were “childless, single losers who masturbate to anime.” Guilty as charged. Well, except I don’t masturbate to anime characters. I dress up like them and guys masturbate to meSe isto não demonstra que a menina Southern sabe perfeitamente qual é o seu papel – uma softcore camwhore para nerds políticos – não sei o que demonstra.

Convém neste momento fazer um reparo: não estamos a argumentar que a rapariga não produz nada de qualidade, pelo contrário. Um exemplo recente de algo de qualidade que produziu foi o documentário Farmlands, publicitado aqui com legendas em português do Brasil, que chama a atenção devida para a horrível e ignorada situação dos brancos na África do Sul. Mas há perguntas importantíssimas que se devem colocar: será que este documentário, ou as outras obras de qualidade feitas pela menina Southern, só poderiam ser feitas por ela ou, pelo contrário, um jornalista masculino poderia ter feito o mesmo, com pelo menos a mesma qualidade (note-se que as únicas partes más do filme são precisamente quando ela faz monólogos em voz off enquanto se pavoneia em frente da câmara)? E, sendo que um homem poderia fazer o mesmo trabalho, e potencialmente mais bem feito, haverá algo que só a menina Southern possa fazer, uma categoria de actividades em que um homem a não possa substituir? A resposta é igualmente afirmativa. E essas actividades são aquelas que coincidem com o papel tradicional da mulher na sociedade: ser uma esposa, uma mãe, providenciar acompanhamento emocional e intelectual nos primeiros anos de vida das crianças, manter um lar estável e saudável para a sua progenitura.

Nunca me deixa de surpreender que tantos anti-feministas queiram para as suas mulheres o mesmo que as feministas querem para todas as mulheres: que sejam imitações de segunda dos homens. Que em vez de se dedicarem àquilo que a sua biologia e seu espírito lhes lega como natural e que só mesmo elas podem concretizar, queiram que elas se dediquem a produzir frutos que os homens também podem produzir, e em geral melhor. Esta é uma das falhas primordiais da nossa civilização: esquecer as divisões naturais, os papéis naturais, e transformamos as mulheres em homens de segunda. Não observamos nós o vácuo criado por esta ideia de igualdade, em que as mulheres da nossa raça desperdiçam a sua fertilidade, os seus dons naturais, na perseguição do hedonismo, por um lado, mas por outro lado igualmente destrutivo, na perseguição de carreiras, na imitação do papel masculino? Não reconhecemos as consequências destrutivas para a civilização dessa nova ordem? Não as observamos todos os dias, quer em estatísticas, quer no dia-a-dia? E se sim, porque queremos nós que as nossas mulheres, participando num movimento que fundamentalmente rejeita as consequências dessa ordem social, funcionem da mesma forma e concretizem os mesmos erros?

Depois é preciso considerar algo que já foi mencionado noutros textos: primeiro, que o meio é a mensagem. E depois que atrair as pessoas erradas, e sobretudo os homens errados, é contraproducente. Neste caso, o meio é muitas vezes o de ter mulheres a ditar a homens aquilo em que devem acreditar e porquê. Psicologicamente, isto resulta em kjaskjshomens castrados. A verdade é que a popularidade de Lauren Southern, bem como de raparigas semelhantes, vem da percepção óbvia, mas perniciosa, de que o mesmo tema quando apresentado em conjunção com um decote ou uma carinha laroca tem automaticamente mais audiência. E note-se que a menina Lauren, em termos de beleza, será no máximo um 6.5. Tire-se a maquilhagem e desconfio que se encontra um 4 ou no máximo um 5. Será que queremos conquistar uma audiência de homens sexualmente frustrados que se perdem de amores por uma rapariga de aspecto banal com quem concordam politicamente?

Uma boa ilustração do tipo de homem que estas raparigas atraem para um movimento que se quer sério e que precisa, definitivamente, de homens com espinha, encontra-se quando se ‘segue’ o dinheiro. Antes de ser banida do Patreon, por exemplo, a Lauren estava a receber quase quatro mil dólares por mês e, além de mostrar um decote lauren patreon.pngproeminente na sua foto, referia-se jocosamente ao facto de uma doação dar o direito ao dador de dizer que era seu ‘namorado’ e que ela não confirmaria nem desmentiria. Outro exemplo, entretanto desaparecido da sua página, encontrava-se na possibilidade de pagar duzentos e cinquenta dólares por 15 minutos (!) de sessão de Skype privada com a menina Southern. Não sei de ciência certa, mas apostaria que uma prostituta de luxo levaria menos de mil dólares à hora – em carne e osso, não por sessão de Skype. Isto ilustra tanto o empreendedorismo (por assim dizer) da menina Southern, como a sede de atenção feminina e a total efeminação dos homens brancos modernos, obcecados com a sua ‘namorada virtual’ ao ponto de pagarem a peso de ouro a oportunidade de fazerem parte do seu ‘círculo íntimo’ (quão grande é esse círculo, nunca saberemos). Entretanto a menina Southern apagou esta opção do seu site (depois de algumas críticas) e ficou apenas a opção ‘Exclusive’, em que pagando cem dólares por mês, obtêm um livestream particular entre os subscritores dessa opção e, cereja no topo do bolo, ela segue-os no Twitter (não estou a gozar!). Não só não queremos estes homens ao nosso lado numa batalha, mas perpetuar este tipo de atitude é absolutamente contraproducente. Podemos ter um exército de milhões, mas se forem milhões como os que dão dinheiro à menina Southern, seremos derrotados por trezentos inimigos duros, como na mítica história.

Vários outros exemplos existem destas raparigas, também chamadas de trad thots (ou putéfias tradicionalistas), e das suas legiões de seguidores que comem demasiada soja. Nenhuma delas é casada, ou tem filhos. As únicas mulheres do movimento que os têm são muito mais recatadas, trabalham com os seus maridos e, por essa razão, não obtêm o mesmo nível de atenção masculina (nem é esse o seu objectivo). Mas não podemos culpar apenas as raparigas. Quem devemos culpar são os homens fracos que as promovem e lhes sustentam o estilo de vida. Espero estar enganado, mas suspeito que nenhuma dessas raparigas vai casar e ter filhos enquanto a sua beleza relativa e juventude lhes permitirem ter hordas de frustrados a patrocinar as suas viagens e ‘aventuras’. Para quê dedicarem-se a um homem, quando podem ter a atenção de milhares, senão milhões?

Começámos com um ditado popular, e acabamos com uma história que ilustra a importância, e a força imparável, que é viver e agir conforme a ordem divina, e como isso é espelhado pelos papéis, absolutamente distintos, dos homens e das mulheres.

Com a subida ao poder dos bolcheviques na Rússia, várias leis contra a religião foram passadas, impedindo os padres de evangelizar, incluindo ensinar o Cristianismo às novas gerações. O objectivo, claro, era destruir a prazo toda a religião visto que esta era um obstáculo, senão o maior obstáculo, à criação do paraíso socialista na terra. Estas leis mantiveram-se até praticamente ao final do regime soviético, quase 80 anos. Conta-se que um líder Soviético, pouco depois da revolução e tendo em conta as leis estabelecidas contra a religião, perguntou ao Patriarca de Moscovo o que iria acontecer à Igreja quando a última avó morresse. O Patriarca respondeu-lhe que haveria outra geração de avós para as substituir. Palavras proféticas, sobretudo se se considerar que a maioria das avós russas de hoje eram apenas crianças ou nem sequer nascidas quando estas palavras foram proferidas, e que a Igreja manteve-se ao longo de toda a animosidade comunista e retomou o seu lugar (e continuou a crescer) logo após a queda do regime.

21d602d5ff237aaa874221c992c8797f.jpgO que a história ilustra é que a Igreja salvou-se pelo facto das mulheres agirem como mulheres, cumprindo o seu papel natural, ensinando os mais novos, passando as tradições. Repare-se que não foi através da ordenação de mulheres para o sacerdócio que a Igreja continuou, mas pelo contrário, precisamente por manter essa restrição, cada sexo ter a sua função, permitiu que mesmo sob condições incrivelmente adversas encontrasse uma continuação. Há uma lição aqui para os homens e mulheres ocidentais dos nossos dias. Ao invés de aceitar a senda igualitarista e querer transformar as mulheres em homens de segunda, que invariavelmente transforma os homens em seres efeminados, devemos respeitar a ordem e separação natural de funções, cada um apelando às suas forças, em cooperação, em vez de competição.

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O Nacionalismo não é necessário, nem suficiente

Este texto serve de adição ao que se escreveu aqui sobre o identitarismo. O objectivo não é alienar aqueles que considero aliados e que professam o Nacionalismo como a sua ideologia, mas unicamente apontar uma falha que considero ser incompatível com o seu objectivo principal, analisar as suas origens históricas e as suas manifestações modernas, e argumentar uma alternativa.

 

«Quem dentre vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro para calcular a despesa e ver se tem com que a concluir? Não suceda que, depois de assentar os alicerces, não a podendo acabar, todos os que virem comecem a troçar dele, dizendo: ‘Este homem começou a construir e não pôde acabar’. Ou qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro para examinar se lhe é possível com dez mil homens opor-se àquele que vem contra ele com vinte mil? Se não pode, estando o outro ainda longe, manda-lhe embaixadores a pedir a paz

Lucas 14:28-32

O principal problema de qualquer putativo movimento dissidente é a sua sobrevalorização daquilo que pode ser quantificado, aquilo que é visível a olho nu, aquilo que é imediatamente palpável, em detrimento das questões filosóficas, metafísicas e espirituais que são muitas vezes consideradas espúrias. Como o construtor da torre e o rei que parte para a guerra nas palavras de Jesus, muitos não consideram o invisível que subjaz às realidades visíveis. Como um médico que toma os sintomas pela doença e se oferece para os tratar julgando tratar a doença, o Nacionalismo opera da mesma forma no plano político. É desta mentalidade que surge a defesa do Nacionalismo.

Pretendemos aqui argumentar que o Nacionalismo não pode constituir a base para o movimento, pois mesmo para os objectivos que pretende concretizar não é necessário, nem suficiente. Para isso temos primeiro de o definir, para que se saiba aquilo a que apontamos a nossa crítica. Como todas as ideologias, pode dizer-se que é tudo e mais french-nationalismalguma coisa, por isso tentaremos cingir-nos a uma definição que tenha em conta, ao mesmo tempo, a História da ideologia e a sua presente manifestação. O Nacionalismo é uma ideologia política Republicana e Democrática saída da Revolução Francesa, que postula a preservação da Nação enquanto entidade política (o Estado-Nação), a defesa de território delineado por fronteiras terrestres, da tradição e coesão linguística, cultural e étnica contra processos de destruição identitária ou transformação. Quando digo que o Nacionalismo não pode constituir a base, quererá isto dizer que sou contra os seus objectivos individuais postulados acima? Não. Mas quer dizer que estas ideias em si mesmas não garantem aquilo que pretendem garantir, e em particular a formalidade da ideologia (a identificação da nacionalidade com o estado-nação) não é necessária, nem suficiente.

Com a ameaça presente e tangível da imigração de massas, é compreensível que a ideologia do Nacionalismo se tenha tornado a bandeira em torno da qual os dissidentes maioritariamente se agitam, mas esse foco único confunde as árvores pela floresta, e a45210707118b976f894dcb852f4cdb5esquece que há factores metafísicos que o Nacionalismo por si mesmo não contradiz, que não só permitem mas promovem esta situação. Sendo uma invenção moderna saída do próprio Liberalismo, o Nacionalismo tem a mesma fundação no Materialismo Iluminista e sofre dos mesmos problemas insolúveis. O Nacionalismo, por mais benéficas que sejam as suas intenções, acaba a longo prazo na mesma situação que qualquer outra ideia democrática. Isto é, acaba na destruição daquilo que pretende defender. Tal como o Liberalismo é a longo prazo incapaz de defender a Liberdade, o Nacionalismo é incapaz de defender a Nação.

O caso Português, com as suas fronteiras e unidade política com quase mil anos, não é dos melhores exemplos para se perceber o argumento que fazemos aqui. Mas por outro lado, o facto de ser uma absoluta raridade na História Europeia, acaba por ilustrar ainda assim o ponto acima. As nacionalidades de Leste, por exemplo, oferecem um perfeito nationalismexemplo de como a coesão étnica e cultural de um povo não dependem de uma entidade política equivalente, ou seja, não precisam de Nacionalismo. E em alguns casos, observa-se que muitos grupos étnicos estavam mais bem servidos sob uma entidade política mais larga do que quando obtiveram os seus estados-nação. O Império Austro-Húngaro, a Jugoslávia de Tito, ou até a França pré-Revolucionária – onde, lembremos, existiam várias nacionalidades, entretanto extintas precisamente pelo Liberalismo – ou até a Rússia moderna, são bons exemplos de como o Nacionalismo não é necessário. Na maioria dos casos foram precisamente os poderes Liberais e a ideia da auto-determinação dos povos que desagregaram ou destruíram nacionalidades (como no caso Francês ou, em menor escala, na centralização nacionalista da Itália ou da Alemanha). Sob um ou outro império várias nacionalidades sobreviveram sem Nacionalismo, e com Nacionalismo destruíram-se várias nacionalidades e identidades.

Penso que isto prova que a questão da nacionalidade, da coesão étnica e cultural de um povo, é uma questão muito mais complexa do que a simples edificação política. Argumentar o contrário implica admitir, por exemplo, que os falsos estados-nação formados pelos poderes coloniais em África, na Ásia e nas Américas eram nações antes de serem estados, quando uma investigação simples da sua História demonstra que essa concepção é falsa. Obviamente que, com o tempo, outras nacionalidades (ou semi-nacionalidades) se formam a partir destes estados artificiais, mas esse mesmo facto confirma que nesses casos, antes de existir o estado, não existia a nacionalidade, mas uma colecção de grupos étnicos, culturais e linguísticos distintos.

O Nacionalismo não é, pois, necessário à manutenção daquilo que pretende defender. A verdade é que, paradoxalmente, sendo uma consequência da destruição da monarquia e da sociedade tradicional, o Nacionalismo é uma reacção inconsequente, desnorteada, um penso para uma ferida de bala, e sendo uma ideia em grande parte contraditória, como demonstrámos, acaba por ser utilizada amiúde pelas elites globalistas para fomentar o caos e destruir a sociedade tradicional. Obviamente, o Nacionalismo pode ser, sob determinadas circunstâncias, uma força contrária aos planos globalistas, sobretudo centenas de anos depois da destruição da ordem monárquica, mas é preciso nunca esquecer que o próprio Nacionalismo foi uma ideia promovida pelas elites maçónicas da época com o objectivo de destruir as sociedades que existiam, tal como hoje promovem o Globalismo para destruir as que existem. Como a História demonstra, o Nacionalismo não é uma condição necessária para a defesa da nacionalidade mas sobretudo não é suficiente – algo que é ilustrado perfeitamente no Nacionalismo dos nossos dias.

Se investigarmos seriamente os objectivos das elites globalistas percebemos que o seu plano não é somente de aniquilação da nacionalidade, mas aniquilação de qualquer tipo de identidade: étnica, cultural e linguística, mas também familiar, religiosa, sexual e, o plano final transhumanista, também da identidade humana. Quão fútil é pois que nos oponhamos a um dos seus objectivos mas descuremos a oposição aos outros? Ou pior, que se subscreva uma parte do seu programa? O Nacionalismo hoje pretende cortar uma das cabeças do monstro globalista, mas deixar as suas outras cabeças intactas. Isto é por MTG_Apocalypse-Hydra.jpgdemais óbvio olhando para os partidos nacionalistas que vão surgindo sob a bandeira da anti-imigração, e em particular anti-Islão, e que predicam a sua oposição na defesa de valores modernos completamente antagónicos à coesão nacional. Os exemplos são demasiado numerosos, tanto dos partidos e movimentos, como das ideias que partilham com os globalistas, para que se ignore esta tendência. A sua manifestação mais gritante é na oposição ao Islamismo. É um óbvio ululante que nos devemos opor ao Islamismo como ideologia, e ainda mais à imigração massiva de proponentes dessa ideologia para a Europa, mas há boas e más razões para o fazer. E, infelizmente, a maioria dos nacionalistas opõe-se ao Islamismo pelas razões erradas. A maioria das críticas feitas pelos nacionalistas são às ideias que caracterizam como ‘retrógradas’ e que contrastam com as ‘liberdades’ ocidentais: a submissão da mulher ao homem e a intolerância dos desviantes sexuais, em particular, comprazem a grande maioria das críticas. Nelas está subjacente a defesa da insubmissão e liberdade femininas e da tolerância dos desviantes sexuais. Ou seja, atacando o Islamismo por estas coisas, os Nacionalistas atacam igualmente qualquer sistema político e social que incorpore estes closet-rue-89.jpgprincípios. Isto demonstra que estes Nacionalistas são infelizmente ignorantes, tanto da História Ocidental como da História universal, pois todas as civilizações dignas desse nome impuseram regras sociais estritas, e em particular, a submissão da mulher ao homem e a remoção dos desviantes sexuais (aquelas que, com o tempo, deixaram de o fazer acabaram na mesma decadência em que a nossa se encontra hoje); e demonstra igualmente que são antagónicos à organização social Cristã que dominou a Europa durante pelo menos 1500 anos, e que foi paralela ao florescimento da Europa como força dominante em todos os aspectos em que normalmente se avaliam as civilizações. Ou seja, pretendendo defender o Ocidente, a maioria dos Nacionalistas defende as ideias que perverteram a nossa civilização e nos trouxeram ao ponto actual. O bem comum, a coesão social, a unidade nacional, requerem necessariamente determinados sacrifícios de liberdade individual. Ao elevarem essa liberdade ao princípio base da sua visão do Ocidente, estes Nacionalistas plantam a própria semente que germinará na disfunção política, social e económica que cria o problema migratório em primeiro lugar.

A base da Nação é a família e o individualismo primário que defendem é a antítese da família. Ao defenderem o individualismo contra o colectivismo dos Islamistas, os nacionalistas apenas escolhem uma forma de atentado contra a Nação em prol de outra. Esta defesa é emblemática da atitude que, na realidade, existe na génese do Nacionalismo: o Estado-Nação torna-se na única premissa, e a ordem social necessária à manutenção da nacionalidade é ignorada. Um movimento que defenda o Estado-Nação e se oponha à imigração, mas que aprove e permita todos os males da modernidade, que pretenda manter o status quo social de liberdade sexual, de supremacia feminina, de economia baseada na usura, de organização democrática, é incapaz de sequer manter aquilo que eleva como valor principal. E é a isto que nos referimos quando dizemos que o Nacionalismo descura o aspecto metafísico, pois é incapaz de perceber que a situação migratória é uma consequência da perda de valores tradicionais na sociedade, não é um assunto separado que possa ser resolvido sem se resolver este outro.

A identidade é feita de círculos concêntricos – o primeiro sendo a família nuclear, depois a família extensa, o bairro, a cidade, a região, a Nação (entendida como esfera partilhada de laços étnicos, linguísticos e culturais), a ligação regional (por exemplo, entre povos com línguas de origem latina ou de proximidade geográfica) e, por fim, a identidade geral europeia, que não pode ser entendida fora do domínio da Cristandade – pois hierocles-concentric-circles.jpgpreviamente os vários povos europeus não tinham língua, cultura ou logos em comum, mas eram sim uma colecção de povos com crenças, culturas e línguas distintas e rivais.

Os nacionalistas verdadeiros reconhecem que a Nação não é uma mera delineação geográfica e que o que a constitui não é meramente a terra onde se encontra (o ridículo conceito de ‘magic dirt’), mas sim as pessoas que a compõem, com uma etnia e cultura próprias. Reconhecem, logo, que não se pode substituir as pessoas sem aniquilar a Nação, ou sem a transformar em algo completamente distinto. No entanto, e infelizmente, muitos não prestam a devida atenção à conduta das pessoas que compõem a Nação, nem têm um entendimento de que o bem comum da Nação é muito mais do que o bem individual dos seus membros, e subscrevem assim uma forma ou outra de individualismo, que é radicalmente antagónico ao objectivo que pretendem alcançar.

Mesmo admitindo que o Nacionalismo consegue ganhar eleições e expulsar os alógenos, qual é o resultado? Ter paradas gay mais seguras? Um sistema de saúde a funcionar melhor para mais eficientemente abortar crianças? Jovens mulheres a embebedarem-se nas ruas das nossas cidades sem o receio de violação por parte de alógenos? O Nacionalismo hoje é análogo ao puxar um suicidário da beira da ponte, mas depois mandá-lo para casa onde tem cordas, armas e comprimidos. É a fantasia de achar que se não resolvermos o problema psicológico e espiritual ele vai deixar de ter tendências suicidas. A nossa civilização presente é patentemente suicidária, a vários níveis, e o Nacionalismo infelizmente apenas pretende criar as condições para que se suicide em paz.

double-headed-romanov-imperial-eagleComo expliquei anteriormente, o Ethnos tem de ser entendido e só pode ser defendido através do Ethos. Só o retorno a uma ordem tradicional, em todas as suas implicações, pode garantir a coesão étnica e cultural. Não podemos manter uma parte do edifício liberal e esperar que fique estanque e não volte a destruir aquilo que já destruiu uma vez. Aqueles que anseiam por uma sociedade etnicamente coesa mas que pretendem simultaneamente manter outros aspectos da sociedade moderna, estão a perseguir uma ilusão, mas ainda mais importante, não podem ser considerados como aliados. Pelo que é de extrema importância que se entenda que o movimento tem de rejeitar todos os pontos do liberalismo, e ser muito mais radical do que o simples Nacionalismo.

‘Pregar aos convertidos’ e algumas sugestões

UPDATE @ 18:57: um pouco depois de publicar o texto, encontrei isto que ilustra perfeitamente o meu argumento quanto ao problema de querer apelar às massas. No video vemos um dos ‘nacionalistas cívicos’ mais populares, Tommy Robinson, a chamar ao palco de um evento político um drag queen e a aplaudir-lhe a bravura. Isto é o que acontece quando se quer ser ‘big tent’.

A ideia para este texto surgiu de uma conversa que tive com o Afonso de Portugal, na caixa de comentários deste post.

A ideia de que ‘pregamos aos convertidos’ é algo que já terá ocorrido a todos os autores cujas ideias são diferentes do mainstream, sobretudo desde o advento da Internet. Com a possibilidade de chegar directamente a um vasto público vem a sensação de fracasso e o sentimento de frustração quando o não conseguimos concretizar, e em vez disso parece que escrevemos apenas para o pequeno grupo que já nos conhece. Talvez ainda mais descoroçoante seja realizar que nunca chegaremos a influenciar com os nossos escritos um número considerável de pessoas. Esta última asserção não é partilhada por todos. Pelo contrário, muitos dos meus pares têm ainda como objectivo alcançar as massas e convertê-las à causa. Aqui vou expor as razões porque acho que tal não é possível, nem desejável, no estágio presente do nosso movimento.

Como o Afonso aponta e bem a “blogosfera tem perdido muitos leitores nos últimos anos, em grande parte devido às redes sociais”. O imediatismo junta-se às injecções de dopamina por cada reacção nessas redes, algo que os blogs não podem replicar, e com o qual não podem portanto competir. Junte-se a isso o facto de os ‘nacionalistas’ e ‘tradicionalistas’ não terem conseguido ‘ter um impacto visível’ nas redes sociais. Penso que há formas de utilizar as redes sociais de forma benéfica a nosso favor, mas falarei mais à frente deste aspecto. O que não considero é que alguma vez consigamos ter o mesmo nível de impacto, ou sequer parecido, que personalidades e grupos do mainstream têm.

O Afonso compara, por exemplo, as audiências gigantescas de miúdos parvos no Youtube com o insucesso numérico dos nacionalistas, e conclui “Ou encontramos formas eficazes de seduzir os nossos potenciais eleitores ou estamos condenados a continuar a falar para meia-dúzia de pessoas que já pensam como nós. Isto é um problema muito sério, a que poucos no movimento nacionalista têm dado atenção. É preciso aprendermos a vender o nosso peixe, ou continuaremos a perder as batalhas e, no final, a guerra!“. Eu concordo, mas acho que o mais importante é saber o que estamos a vender. A publicidade direccionada gera muito mais frutos do que a indiscriminada: a BMW não vai fazer publicidade num bairro social, mas em bairros de classe média alta. Ou seja, temos de saber quem são os consumidores da nossa particular espécie de ‘peixe’. Para isso temos de saber que ‘peixe’ é (se queremos atrair as massas ou atrair um número mais reduzido de homens capazes e rectos) e tal como os publicitários da BMW sabem identificar quem tem meios financeiros de comprar BMWs, nós temos de saber quem tem meios intelectuais de ‘comprar’ as nossas ideias.

Considere-se o cidadão comum: aquele que obtém toda a sua informação de fontes oficiais e desconfia de tudo o que não venha com o selo dessas fontes; que papa novelas, reality shows ou filmes de superheróis; que ouve a música terrível e degradante que dá na rádio, etc. Ou considere-se até o intelectual comum (estudante universitário, professor, jornalista, etc), cujo bem estar e estabilidade financeira (para não falar da psicológica) dependem da sua aderência aos lugares comuns do nosso tempo. Consegue-se imaginar que as nossas ideias os convençam? Terão capacidade intelectual, ou honestidade moral, para sequer as entreterem seriamente?

Eu não concordo que se possa instruir as massas pois por definição estas são insusceptíveis de instrução. Isto pode soar excessivamente elitista mas não somos nós contra a ideia de igualdade? Não reconhecemos a naturalidade das hierarquias? Só porque a Internet oferece a possibilidade de se chegar a um número elevado de pessoas, não significa que todo o tipo de ideias possam ser adoptadas (ou sequer consideradas) pela maioria. A Internet mudou os meios de comunicação, mas não mudou a natureza humana. Esta incapacidade das massas de pensar em problemas sociais não existe apenas na nossa sociedade, existiu em todas as do passado e existirá em todas as do futuro. Simplesmente não é útil ou possível ao cidadão comum pensar sobre questões complexas de organização social ou teor moral. Vários psicólogos sugerem até aos seus pacientes que se deixem de preocupar com tais assuntos pois estão fora da sua esfera de influência e controlo e como tal tendem a gerar sentimentos de ansiedade e stress. Tudo indica que somos nós, os que pensamos a fundo e frequentemente sobre estes assuntos, e não eles, que os ignoram, os verdadeiros ‘malucos’, pois dedicamos o nosso tempo a assuntos que estão largamente fora da nossa esfera de influência directa. Ou seja e em suma: nunca chegaremos a 99% dos fãs dos miúdos parvos do Youtube.

Depois há a questão de que o nosso canto da Internet é considerado radical pois está fora do espectro do discurso aceitável. Tendo em conta a natureza das mulheres e a quantidade de homens efeminados para quem seguir a linha oficial em assuntos desta dont-think.jpgnatureza é absolutamente essencial para a sua estabilidade psicológica, para quem estar alinhado com as opiniões do zeitgeist constitui um selo de aprovação da sua existência, podemos descontar também estes – mesmo tendo QIs medianos ou até acima da média, a sua disposição psicológica não lhes permite entreter as nossas ideias, até que elas tenham algum peso e consequência fora dos meios intelectuais. Mesmo que o zeitgeist vá contra os seus interesses directos como sabemos ir, a panaceia do politicamente correcto é o ópio que lhes permite funcionar em sociedade e distraí-los da dissonância cognitiva. Para estes, e até sermos um exemplo a seguir, não na Internet mas na prática, continuaremos a ser uma ameaça à estabilidade mental destas pessoas e à estabilidade social que pensam depender da aderência ao zeitgeist. Mais uma vez somos nós os ‘malucos’, que rejeitamos o conforto psicológico que surge da aceitação da mundividência vigente.

É portanto duvidoso, no mínimo, que consigamos atrair um número considerável de pessoas para aquela que é uma esfera por enquanto puramente intelectual e, pior, das franjas. Mas será isto uma tragédia?

Não creio. Primeiro, como se costumava dizer, o que não tem remédio, remediado está. Não acho que alguma vez consigamos alterar a natureza humana que torna as considerações acima apresentadas uma realidade, e não penso que essas considerações possam ser disputadas. Mas se tentar apelar às massas é maioritariamente uma perda de tempo – pelas razões apresentadas acima – pode ser também potencialmente prejudicial. E passo a explicar porquê.

Desde 2016 que tenho observado a evolução de vários ‘movimentos’ que ganharam uma maior proeminência com o fenómeno Trump. De repente, estas franjas não eram tão minoritárias, apelavam a um número cada vez maior de pessoas, incluindo pessoas como as que descrevi anteriormente. O que sucedeu com esse alargamento, no entanto, foi que para o efectuar teve de se fazer um enorme número de concessões tácticas, como ClA8HJ2VEAA8oOwacrescentar água ao leite até ficar só um líquido nojento que não é nem uma coisa nem outra. Da mensagem nacionalista e tradicionalista, para apelar às massas, ficou só uma tímida e reduzida ideia de ‘nacionalismo cívico’ – a ideia de que podemos ter uma sociedade multiracial desde que os imigrantes se ‘integrem’ na nossa cultura presente – e o exacto progressismo que defende essa cultura presente contra o qual nos insurgimos. A única coisa que ficou entrincheirada foi a oposição ao Islão – mas há boas e más razões para se lhe opor, e esta estirpe (a popular), a que apela a um número considerável, opõe-se por más razões. Os seus argumentos vão todos no sentido de defender as ‘liberdades’ Ocidentais – aquelas que são a principal causa da degeneração moral e étnica da nossa civilização. Ou seja, para apelar às massas, foi preciso prestar tributo aos dogmas da nossa época, e fazê-lo inclusivamente através da estupidificação dos meios (alguns dos Youtubers mais populares desta estirpe são francamente embaraçosos, pois querem ser comentadores sérios e, ao mesmo tempo, editar os seus videos de forma a captar a atenção dos tais miúdos parvos que não conseguem prestar atenção a nada que seja sério e sóbrio).

Repare-se quem são as figuras mais populares desta estirpe mais mediática: sodomitas, mulheres, minorias étnicas, travestis. Não são os homens brancos heterossexuais que criaram e defenderam a doutrina original e não conspurcada, mas sim papagueadores imitativos Kanye-MAGApertencentes aos grupos que têm algumas medalhas nas Olimpiadas da Opressão e que portanto são passíveis de serem ouvidos pela populaça. Note-se um exemplo recente e hilariante: quando Kanye West (um homem desequilibrado e sem talento) decidiu que afinal Trump era do seu agrado, e foi ligeiramente contra o zeitgeist neste aspecto, a plebe que foi atraída pela versão ‘aguada’ do movimento entrou em euforia por ter a validação de uma das vacas sagradas do progressismo (alguém que não fosse branco), e também por ser alguém tão popular (por partilharem a opinião de que a popularidade é em si mesma uma coisa boa). O mesmo se observou amiúde com outras vacas sagradas: sodomitas como o Milo Yiannopoulos, trad thots (‘putéfias tradicionalistas’) como a Lauren Southern, ou 7efda4313127bb3389b11be36caa10d7-d596isxtravestis como o Blair White. Eu não quero estas pessoas no meu grupo, não só porque apresentam uma versão domesticada e bastardizada daquilo em que acredito, mas porque aquilo que são na prática contradiz a teoria. Não podemos promover um patriarcado tradicional etnicamente coeso através de mulheres, sodomitas e minorias étnicas. É um contrasenso. O próprio PNR, que muitos ainda consideram uma alternativa viável, já começou a desfilar afrodescendentes para se tornar mais moderno e acessível ao cidadão comum que grita de horror quando lhe dizem que Portugal devia ser dos Portugueses. Quanto tempo até o PNR ter o seu ‘nacionalista genderqueer’ para angariar votos entre desviantes e os seus defensores? Quanto tempo até ter a sua ‘putéfia tradicionalista’ para lucrar com a frustração sexual e a falta de masculinidade das novas gerações? Em suma, as pessoas que estes fantoches atraiem não são pessoas que queiramos atrair, nem são na sua maioria pessoas passíveis de serem convertidas. E as que forem passíveis de conversão não convém que o sejam à doutrina enfraquecida através de personagens semi-progressistas. Se o forem, devem ser à doutrina verdadeira, através de homens brancos heterossexuais, que representam na prática aquilo que advogam na teoria.

Resta o argumento do ‘stepping stone’, isto é, que estas personagens e as suas versões degeneradas da doutrina servem de porta de entrada para a versão dura, mas nunca observei nenhum participante sério ter sido trazido por este meio. O que observei foi uma catrefada de desviantes sexuais, minorias étnicas e homens sexualmente frustrados que enfraquecem o movimento e nunca chegam ao patamar superior. Os que por acaso se radicalizam contaminam com drama, e por vezes até doxing, porque cotinuam a ser os mesmos seres fracos e efeminados que ainda ontem acreditavam na cantilena progressista e que se juntaram ao movimento apenas por interesse, ou para satisfazer uma necessidade de pertença nascida da sua fraqueza.

Algo que já é vastamente reconhecido como necessário é a exclusão e condenação dos elementos violentos, ‘neonazis’, etc. Reconhece-se que para a percepção do homem comum ter ‘neonazis’ caricaturais a utilizar meios violentos só serve para descredibilizar e dar uma ideia errada das nossas intenções. Também eles pertencem ao grupo dos QIs baixos, mas por frustração, trauma ou disposição (ou uma combinação destes factores), são atraídos pelas franjas políticas. Mas é notório que não servem para dar uma ideia correcta daquilo que representamos, nem servem como aliados, pelo menos enquanto o movimento não existir com racionalidade e organização, e enquanto não existirem instituições próprias e liderança clara. As massas são seguidoras por natureza, mas por enquanto ainda não há nada que possam seguir, pois o movimento é ainda puramente intelectual e desorganizado.

Por todas estas razões, pregar aos convertidos é um fado inevitável, mas não é tão espúrio como se possa pensar. Há óptimas e importantes razões para se continuar a falar àqueles que já estão do nosso lado, sem moderar a mensagem. Fazê-lo endurece a convicção e assegura os participantes de que não estão sozinhos (também nós somos humanos e sofremos das mesmas disposições psicológicas que fazem com que necessitemos, até certo ponto, de saber que existe quem concorde connosco); clarifica a doutrina e expurga-a de degenerações, desvios e concessões. E através destas duas consequências da pregação aos convertidos pode chegar-se a um entendimento sobre os valores, causas e objectivos do movimento, sobre qual se pode erigir algo mais concreto. O facto de neste momento ser ainda difuso e disperso não implica que seja para sempre assim. E esta pregação não exclui a conversão de novos membros, pelo contrário, garante que se convertem os membros certos. O que é preciso ter em conta é que para se efectuar uma conversão o converso já tem de estar aberto a ser convertido. Homens curiosos e intelectualmente honestos procurar-nos-ão para essa conversão, se já estiverem abertos a ela. E para cumprir estes dois desígnios é preciso não nos deixarmos desencorajar e continuar a pregar.

Falarei noutro texto sobre um plano de acção que vá além dos esforços intelectuais, mas aqui quero deixar apenas algumas sugestões em relação a este aspecto e tendo em conta a situação presente, no sentido de atrair aqueles que já andam à procura de algo e que potencialmente o encontrarão entre nós:

1) Os blogs que tratem maioritariamente de notícias e ofereçam a nossa perspectiva dos eventos noticiados ganhavam bastante em manter uma presença regular nas redes sociais populares (sobretudo no Twitter), para publicitarem os posts e contactarem potenciais ‘conversos’. Usando os hashtags, categorias, etc, para ligar os posts aos assuntos do dia, e interagir com figuras da Direita moderada (‘Insurgentes’, ‘Blasfemos’, etc), não para os converter a eles, mas para ilustrar a alguns dos seus leitores potencialmente convertíveis que existem perspectivas diferentes sobre os assuntos.

2) Criar contas em redes sociais alternativas (Gab, Minds, etc), para direccionar a partir das contas nas redes populares e encorajar o maior número possível a migrar para estas plataformas alternativas.

3) Blogs que façam posts curtos podem converter uma boa parte do seu conteúdo em posts nas redes sociais. O conteúdo imediatista oferece-se a este tipo de plataforma bem mais do que ao formato blog, deixando este para conteúdos mais longos. Se esses posts curtos forem sobre notícias deixá-los nas caixas de comentários dos jornais (e também dos blogs da Direita moderada) com links para os blogs pode trazer alguns curiosos.

4) Uma última consideração sobre a importância que a questão estética tem para o primeiro contacto: muitos dos blogs deste canto da Internet têm infelizmente uma estética descuidada, por vezes kitsch ou até casos crassos de desformatação que causam uma aversão automática em qualquer novo leitor. A questão estética pode parecer supérflua ou mesquinha, mas a meu ver a aparência sinaliza algo sobre o conteúdo: da mesma forma que um homem deve apresentar-se em público lavado e vestido de forma civilizada para ser levado a sério, o mesmo pode ser dito sobre os blogs e a sua aparência. Pode não ser justo julgar-se um livro pela capa, mas a verdade é que sucede e provavelmente vai sempre suceder. Um pequeno esforço neste sentido faria uma diferença tremenda.

A Revolução Reaccionária no Século XXI

novabandeiraPorquê ter uma bandeira azul e branca sem a coroa? O que é que significa? Vou explicar no fim. Para chegarmos ao destino, primeiro temos de percorrer o caminho. Por isso, façamo-nos à estrada.

Suponho ser inevitável que um reaccionário dê consigo a sonhar com alguma espécie de restauração, ou seja, uma revolução; um corte com a elite política do momento e, no caso da revolução reaccionária, a sua substituição pela elite passada ou pela elite presente que representa esse passado. E sendo reaccionária, esta revolução, seria no sentido de uma sociedade recta e ordeira.

Só por ler a frase se nota o quão difícil será efectuar na prática uma tal contradição teórica. As revoluções são sempre violentas, caóticas – o contrário do que se pretende. Os golpes palacianos são mais elegantes, menos primitivos, menos desmiolados. Por isso a Direita, em geral, prefere-os às revoluções puras e duras.

A única forma de a Direita fazer um golpe palaciano é através das instituições: infiltrando, influenciando, convertendo. Com instituições queremos dizer os centros de influência política, religiosa, militar, económica, cultural, legal – que em democracia fazem todos parte do mesmo bolo, e que em Portugal significa também, centralizar tudo em Lisboa, e deixar ao resto do país as migalhas.

Só que os golpes palacianos apenas funcionam quando as instituições foram infiltradas. A formalidade do golpe na transferência de poder quando é dita em voz alta, é apenas isso: uma formalidade. O verdadeiro golpe acontece aos poucos, devagar, por baixo – muito antes de chegar ao palácio. Mas a eficiência de uma tal revolução pressupõe que as instituições estejam num estado em que é possível e desejável recuperá-las. Gostaria que me apontassem uma que não esteja podre dos pés à cabeça e cujo resgate valha a pena, para não falar da possibilidade de a resgatar. E, para não nos perdermos muito cedo em deambulações teóricas, convém lembrar que as ‘instituições’ são simplesmente as pessoas que populam e agitam as tais. Não há um espírito mágico a correr pelos corredores, a não ser possivelmente um ou outro demónio, mas esses são também o resultado da presença humana.

Pelo que a conclusão é que as instituições estão podres, porque as pessoas estão podres. Triste realização. O clássico golpe palaciano parece improvável. Mas vamos esquecer o caminho para lá, e imaginar que está feito, por milagre. O golpe monárquico e o golpe ‘Faxista’, chamemos-lhe assim, são cenários diferentes, por isso vamos separá-los.

Imaginando a eventualidade de Portugal voltar a ser monárquico, devolvendo o trono ao seu herdeiro, a ideia de que cortará com a modernidade – não só politica mas culturalmente – já me parece demasiada suspensão da incredulidade para que os espectadores continuem a ver o filme. Não me parece igualmente que dure muito, mesmo que dê de início todos os passos certos. Só não argumento contra aqueles que acreditam na restauração por razões de fé – honestamente, apenas um milagre pode efectuar essa restauração, não só em nome, como em espírito. E a verdade é que ter fé em Deus é preferível a ter fé nos homens, em todas as ocasiões e circunstâncias.

Quanto aos monárquicos que acreditam, ou fingem acreditar, numa restauração por vias democráticas, rio-me da vossa ingenuidade e censuro a vossa malícia ou tolice.

Se sairmos do campo da monarquia, temos o ‘Faxismo’, as ditaturas populares de Direita (Salazarismo, Franquismo) ou com tiques de Direita (Fascismo, Nacional Socialismo). Imaginar uma restauração do Estado Novo, por exemplo, actualizado para o Portugal no Século XXI não deixa de ter o seu apelo nostálgico mas parece igualmente improvável, senão ainda mais. Aqui, nem o apelo ao Divino o pode fazer acreditar.

O problema das ditaduras populares é que são populares. Em última instância o poder está na figura carismática do líder. O Salazarismo era óptimo, mas morreu com Salazar – com ele era o que era, sem ele não era nada. Caetano não era terrível (era certamente melhor que qualquer político da I ou da III República), mas não tinha o carisma – e portanto não tinha a autoridade.

Na política, as massas são movidas por caras, símbolos, slogans – mas não são, nem nunca serão, actores políticos. Não o são em Monarquias Aristocráticas, como o não são em ‘Faxismo’, Comunismo ou Social-Democracia. Mas nestes últimos, mantém-se a fachada de que são (quer seja pela identificação do líder carismático ou do Estado com o povo, ou pelo sufrágio universal). Grande parte da propaganda do Fascismo Italiano e do Nacional-Socialismo Alemão propõe-se a afirmar que o Estado, o Líder, ou o Partido, agem em benefício do povo, através do povo: pelo povo e para o povo. Nessa pedra basilar está a fundação ideológica dos regimes autoritários de Direita. Ao contrário de uma ordem aristocrática, o poder está sempre na rua; a política faz parte da vida dos comuns mortais.

Pelo que para edificar uma ditadura popular de Direita, é preciso um povo em concordância. O povo português de hoje não é o povo português de 1926 ou até de 1945 – ou, sequer, de 1965. A consistente e insistente destruição e implosão do casamento, da família, da comunidade, da Igreja, etc etc etc, tem os seus efeitos inevitáveis. O povo é de Esquerda. O povo até pode querer mais autoritarismo, mas é de Esquerda. Imaginem um Estado mais agressivo no combate ao crime, na protecção das fronteiras, na punição da delinquência; imaginem um Estado que banisse a pornografia, ou proibisse as relações homossexuais. Imaginem um Estado que ilegalize o aborto. A reacção popular seria de rir se não fosse de chorar. Isto mesmo sem contar com o dinheiro estrangeiro que geralmente acaba no meio destas causas. Mas mesmo sem esse dinheiro, quer-me parecer que a probabilidade do regime durar é pequena.

Abrir a política ao povo é convidar e promover o elemento mercenário e o elemento parasítico numa ordem social, qualquer que seja. De repente, o exercício do poder, a garantia de uma ordem, não é um dever de homens capazes e dispostos, mas uma carreira com promessas de subir na vida. Os piores são atraídos para o topo, seja com partidos ou com o partido. Voltamos a repetir: o povo de hoje não é o povo de Salazar. É o povo de Mário Soares e Cavaco Silva. Uma importante diferença. Uma diferença que inviabiliza a restauração.

Pelo que a restauração monárquica ou ‘faxista’ é, na minha perspectiva, um sonho idílico de quem não costuma privar com o cidadão comum.

E aqui chegamos à questão da bandeira. “Se não acreditas na restauração, porquê a bandeira azul e branca?” “E porquê apropriar as cores sem a coroa?” O que a bandeira significa é que, apesar da nossa história e da tradição monárquica em Portugal, me interessam pouco os aspectos cosméticos da Monarquia. Sou monárquico porque acredito que o governo privado e hereditário é a forma natural de governo, porque considero que essa é a forma recta e desejável do exercício do poder, não porque nutra qualquer simpatia ou reverência pelos nossos membros da aristocracia, ou pelas qualidades estéticas da história da monarquia portuguesa. A aristocracia moderna é o produto do seu tempo e, admita-se, não serve. Uma nova aristocracia terá de nascer para que um regime monárquico exista. Uma aristocracia nascida do mérito, da honra e do sentido de justiça, ou seja, da verdadeira autoridade, na qual o exercício recto do poder se funda. Tal como surgiu aquela depois da queda do Império Romano, nascerá esta depois da queda do Império Americano.

Por isso, não desanimem. A batalha não está perdida. É simplesmente longa e nós estamos na fase de transição. Para fundar uma nova aristocracia é preciso fundar um novo povo que reconheça a sua autoridade natural. Não existem soluções fáceis e rápidas. Não existe revolução reaccionária que, numa manhã de nevoeiro, traga o almejado regime e o permita governar em paz. Para o regime mudar as pessoas têm de mudar. E isso leva tempo.

Por isso escolhi uma bandeira que não é a presente, nem a passada, mas uma que signifique a aspiração a um Portugal futuro. É a minha convicção que a “ordem” (e ponho aspas porque é mais uma desordem) presente está para lá da salvação e com a sua desintegração, as estruturas de poder vão desaparecer e a realidade será reduzida à sua base natural: a família. Depois, a comunidade. A nós, e provavelmente aos nossos filhos, netos e bisnetos, resta-nos continuar. Os nossos números vão descer. O nosso conforto vai diminuir, as adversidades aumentar. Mas pela persistência no esforço da continuação nascerá uma nova ordem.

A resposta simples, mas não fácil, é que para fundar uma nova monarquia, é simplesmente preciso ser um Homem. Ser um Homem nas acções e nas palavras. Ser honrado e não apologético. Fazer o bem e evitar o mal. Planear e construir. Ter uma família e liderá-la. Fazer filhos e educá-los, para que eles possam fazer o mesmo quando crescerem. Continuar, indiferente às modas e às obsessões do mundo iníquo que nos rodeia. E um dia, mais cedo ou mais tarde, os nossos netos ou bisnetos poderão hastear uma nova bandeira e proclamar Portugal uma pátria, novamente, integral.

O enigma dos Liberais

«Academia is to knowledge what prostitution is to love»
Nassim Nicholas Taleb

Depois de termos falado dos problemas do liberalismo, vamos falar dos problemas dos Liberais. Isto, admita-se, é mais fácil: existem muitas, muitas obras do pensamento liberal e nem todo esse pensamento é de deitar para o lixo (em alguns casos, como Mises, é absolutamente essencial). Os Liberais antigos, ao contrário dos modernos, ainda tinham algo que um reaccionário podia aproveitar.

Em especial, pode aproveitar-se a Escola Austríaca (ou pelo menos, as obras principais). Esta escola de pensamento é a única escola económica que não foi cooptada pelo materialismo (tanto o antigo, de Smith e Ricardo, como o moderno, de Fisher e Keynes) – e como tal é também a única que consegue apresentar uma teoria que represente a realidade económica e a explique de forma satisfatória.

Não será de surpreender, no entanto, que os escritos puramente económicos da Escola Austríaca (que não contêm necessariamente prescrições políticas) tenham com o tempo servido de base, e justificação, para prescrições políticas. Prescrições liberais.

Mises, a figura principal e certamente a mais interessante, fez sempre questão de distinguir entre os seus escritos puramente económicos e os seus escritos políticos. E por fazer essa distinção, ambos mantiveram a sua relevância. Theory of Money and Credit, por exemplo, continua a ser a obra essencial para explicar o clusterfuck que é a política monetária democrática, sem no entanto advogar contra ou a favor: limita-se a chamar os bois pelos nomes. Um retrato mais largo da teoria e realidade económica pode ser encontrado em Human Action. Ambos os livros são peças necessárias para entender o mundo em que vivemos.

Nos seus escritos puramente políticos (como o Nation, State and Economy) Mises observa o mundo com uma clareza que faria corar reaccionários modernos – como observámos aqui, em Democracia, o caminho é sempre para a Esquerda, o que faz de um liberal há cem anos um terrível reaccionário contemporâneo. No entanto aqui já podemos observar, no meio da sua enorme erudição, a tendência (talvez inevitável) de ver o mundo somente pela esfera económica, e cair na armadilha liberal, whig, progressista. Esta crença de que o mundo está em constante progresso (em vez de degeneração) era um conceito que Mises terminantemente rejeitou toda a vida na sua teoria económica (pois era inegável a degeneração da disciplina), e no entanto, na sua vertente puramente política Mises continuava a cair na patranha, e acreditar que a passagem das entidades políticas aristocráticas para as democráticas tinha sido um progresso. A obsessão económica tinha levado a melhor.

E aqui entramos especificamente no tema deste texto. Tal como Mises, os Liberais portugueses deixaram o seu conhecimento de teoria económica levar a melhor e enformar todo o seu pensamento político. Ao contrário de Mises, não o fazem com especial erudição (mas não os vamos censurar por isso – podem acusar-me do mesmo e com razão). Os principais sítios da blogosfera portuguesa liberal são o Blasfémias e o Insurgente e é neles que se encontra esta obsessão, à superfície incompreensível. Ambos são, supostamente, de Direita. E apesar de se aproveitar um ou outro indivíduo em particular (e de vez em quando), a verdade é que a maioria revela um autismo estonteante e tem um único barómetro político: a economia.

Os Liberais portugueses são democratas. Sendo democratas são obrigados a mover-se intelectualmente na Janela de Overton, por auto-censura inconsciente e por auto-censura PwnedCatconsciente. Por causa dessa auto-censura, os Liberais estão obcecados com reformas dentro do sistema. Nunca sequer lhes ocorre que o sistema deva morrer, que o sistema seja iníquo, que o sistema seja podre de raiz. E se ocorre, não o dizem. Pelo contrário. E há uma razão para isto, mas já lá vamos. Por agora convém salientar que a obsessão económica não é defeito, é feitio.

Como explicar que um liberal não queira sair da UE? A UE é essencialmente a versão moderna da União Soviética: um organismo insonso de burocratas cinzentos que ditam a vida de milhões de pessoas sem qualquer representatividade. Não são os Liberais a favor da representatividade?

A explicação é que os Liberais temem que haverá menos liberalismo económico nas nações europeias sem a alçada benévola da União Europeia. Temem em especial que haja menos em Portugal. E sendo essa a única métrica para a sua visão política, são contra. E é inegável que isto sucederia, a curto prazo. O que levaria a um colapso, a médio prazo.

E aí voltamos à mesma questão: os Liberais temem o colapso do sistema, por mais iníquo que o sistema seja, por mais antitética ao Liberalismo que a própria fundação monetária desse sistema 839d3c15540b493f867668a0ca132551.jpgseja, por mais iliberal que o sistema seja. Os Liberais lutarão incansavelmente (na esfera intelectual) para evitar descartar a constituição comunista que rege o país. Há anos que os Liberais andam a anunciar a falência da Segurança Social, há anos que falam da fundação fraudulenta do sistema monetário, há anos que apontam a ignomínia da dívida pública. E no entanto as suas prescrições são sempre no sentido de evitar o colapso inevitável. Em vez de matar o dragão, os Liberais querem domesticá-lo.

Eles sabem, no entanto, que o colapso é inevitável. Mas ao que parece os Liberais têm um enorme medo do sofrimento, mesmo do sofrimento salutar. Só que é inegável que, de uma forma ou outra, haverá sofrimento. Muito especificamente, sofrimento económico. Haverá tumultos por causa desse sofrimento. Para usar a analogia preferida dos Liberais, a desintoxicação não é agradável para o drogado. Mas estar constantemente na corda bamba dos paliativos não é uma solução. É uma cobardia.

O que escapa aos Liberais obcecados com as consequências económicas imediatas, ou que insistem em não ver, é que para uma boa parte da população (e muito em especial daquela população que vive à conta do Estado – em que muitos deles se incluem, quer gostem disso ou não), é necessário sofrimento. Cristo também teve de sofrer na cruz antes de ressuscitar.

É preciso que as pessoas vejam o que é viver sem subsídios. É preciso que vejam o que significa uma dívida impagável e as consequências de dizer, firmemente, que não a vamos pagar. É preciso que voltem a depender das famílias, dos amigos, dos vizinhos, da comunidade. É preciso que encarem a realidade de ter trabalhos duros e desagradáveis. É preciso que sejam obrigadas a não gastar tudo o que ganham, a viver com menos do que precisam, a poupar. A maioria das pessoas tem conforto a mais para o seu próprio bem. Tal como os Liberais, perderam a noção do que é importante. Não sabem distinguir o eterno do transiente.

A grande maioria dos nossos defensores do mercado, são defensores apenas do seu esqueleto, sem entenderem (ou não querendo entender) que a alma e a carne que enformam esse esqueleto são mais importantes para que o sistema funcione do que a formalidade desse sistema. Neste momento, a alma do povo é o Estado Social, é a dependência, é a morosidade, a preguiça, a vaidade e a gula. O liberal não diz ‘vamos acabar com o sistema para erigir sobre as ruínas uma fundação sólida‘. Diz ‘vamos adiar o seu colapso, e acentuar as consequências desse colapso‘. Porque, como Keynes dizia, a longo prazo estamos todos mortos. Os Liberais esperam honestamente estar mortos quando o colapso acontecer. E trabalham para adiar esse colapso de forma a garantir esse destino.

Assim se explica, em parte, o porquê de os Liberais acreditarem na democracia: é uma forma voluntária de cegueira. Acreditam que elegendo o PSD (ou, vá lá, a ala Liberal do PSD, que é a ala moderada da moderação deles mesmos) vamos caminhar para mercados mais abertos e atenuar o Estado Social (não se riam). Tentam vender o seu peixe a pessoas que só comem carne e cover26defendem eurodeputados porque disseram uma vez uma frase liberal (enquanto fazem parte do conselho cosmético da União das Repúblicas Socialistas Europeias). Acreditam que as pessoas comuns (o maior entrave ao liberalismo), pessoas que não poupam, que vivem do Estado Social, cujos únicos interesses são o futebol e a novela, que papam tudo o que lhes dizem na televisão, cuja única cultura é o consumismo, estas mesmas pessoas que nem cuidar de si e dos seus conseguem ou pretendem fazer, podem e devem votar em representantes. Representantes esses que não representam ninguém a não ser a si mesmos e aos interesses que os compram. Este retrato da Democracia e da população em Democracia não é um exagero, é observável. E mesmo que não fosse, é intuitivo. E se a intuição não fosse o seu forte, podiam sempre ler Hans Hermann Hoppe. Mas não. Estão presos numa visão whig da história em que à frente está sempre o progresso.

Mas existe uma peça do puzzle em falta. Acima dissemos que se trata de cegueira, mas é uma cegueira voluntária. A maioria dos Liberais é inteligente e certamente teve tempo e oportunidade de se deparar com a contradição em que se encontra, estes liberais certamente que leram os livros certos e reflectiram sobre o que leram. Da própria perspectiva do liberalismo, a sua defesa do status quo é inexplicável.

Mas explica-se perfeitamente quando se percebe que escrevem em nome próprio e que têm empregos e reputações a defender. Que quase todos são beneficiários do sistema falido das stock-vector-scale-favoring-self-interest-rather-than-personal-values-108478289universidades. São professores, ou consultores, ou comentadores especialistas. Pagam a renda a girar a alavanca das ciências sociais nas fábricas de mentecaptos. Ser liberal é alternativo, mas é trendy. Um liberal pode ir às festas e às conferências, pode fazer parte das instituições, pode viver em paz sendo o enfant terrible que o consenso de Esquerda tolera, porque não ameaça.

Não se espere, pois, que rejeitem o seu modo de vida em nome de ideais maiores, ou sequer de consistência ideológica. Não se morde a mão que dá de comer.

Teocracia e Escravatura

Não existem homens sem Religião, existem apenas homens que não sabem que Religião seguem. Visto que o Estado é operado por homens, baseado em constituições feitas por homens, que aplica leis escritas por homens, segue que o Estado também não existe sem uma Religião. Tal como o indivíduo, o Estado pode não saber, ou não declarar, que Religião de facto o enforma –

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história da Igreja em Democracia

mas ignorar ou esconder este facto não o torna menos verdade. O status quo da modernidade, porém, é fundado precisamente nessa falsa premissa de que o Estado e a Religião estão, e devem estar, separados. A premissa só será verdadeira se por Religião se designar as fés ancestrais, pois o Estado democrático é o principal veículo das fés modernas, promovendo-as através de todos os seus tentáculos. Qualquer regime de duração média, passado ou presente, funda-se em última instância nas ideias que o enformam, ou seja, numa Religião.

Por isso, a verdade é que vivemos numa Teocracia. Vou repetir, para o caso de ter atordoado o leitor: vivemos numa Teocracia. A asserção pode parecer absurda, mas isso deve-se à natureza desonesta da propaganda da era em que vivemos, que é um produto da classe teocrática dominante. Por isso, deixem que me explique.

Bem sei que a origem da palavra é grega, e que o original theos significa Deus. Mas visto que não distingue entre falsos e verdadeiro, a palavra aplica-se: a história moderna (democrática) é nada mais nada menos que a incessante adoração de falsos deuses, promovidos pela classe teocrática através do Estado. A Teocracia em que vivemos é baseada em falsos deuses (o poder popular, a igualdade, o hedonismo e por aí for a), e promove esses falsos deuses com a mesma assertividade com que teocracias passadas afirmavam e promoviam outros, ou Aquele.

Se isto não chega, e de facto convém ir mais longe, vamos mais longe. O dicionário define sucintamente a Teocracia como um ‘Estado em que o poder está na mão do clero‘. Mas quem é o clero moderno? Quem tem de facto poder no Estado Democrático?

A pergunta é mais difícil do que parece. Um dos principais problemas da Democracia é precisamente que o poder está incrivelmente disperso, sem no entanto estar descentralizado. Por disperso entende-se o carácter inerentemente obstruccionista das instituições democráticas, em que uma (por exemplo, o Governo) não pode dar um passo sem que outra (por exemplo, o Parlamento) o permita – além das outras todas que também lá estão pelo meio a obstruir. Os magníficos checks and balances são na verdade uma forma de não se conseguir fazer nada de bom, sem se impedir que se faça todo o tipo de mal (ver a teoria da Captura Regulatória). A captura, no entanto, aplica-se a exemplos concretos e económicos, não à natureza religiosa do poder do Estado. As empresas de facto infiltram-se no Estado Democrático para retirar dele benefícios (que surpresa!), mas não são as empresas que definem, por exemplo, os currículos escolares, as leis anti-discriminação ou a posição do Estado em relação ao aborto – ou seja, os elementos religiosos. Curiosamente, e em grande parte por causa da captura, as empresas acabam, sem serem necessariamente obrigadas, a criar e aplicar dentro das suas próprias estruturas as mesmas regras religiosas (quem já trabalhou numa empresa de tamanho relativamente apreciável, pense, por exemplo, em todas as campanhas internas pela diversidade, inclusão, apoio aos refugiados, protecção do ambiente, etc). Por isso temos de procurar o nosso clero noutro sítio. As empresas são os aristocratas modernos, mas não são eles quem detém o verdadeiro, e último, poder.

De onde vêm então estas ideias que enformam o Estado e que eventualmente chegam até às leis e às instituições (mesmo àquelas que não são, nominalmente, estatais)? Se o leitor respondeu “das scientismUniversidades”, acertou. Se respondeu outra coisa, não se aflija: a resposta não é óbvia, até porque não existe qualquer incentivo para que os carrascos retirem o capuz e revelem a sua identidade. O facto é este: o clero moderno, o poder no Estado Democrático, está nas Universidades. Se se quiser saber que legislação religiosa será passada nos próximos quinze anos, procure-se que obsessões se promoveram nas Universidades nos últimos quinze. Da próxima vez que vir um professor catedrático, faça-lhe uma vénia. Está perante um soberano.

Não se pode descontar os incentivos económicos, claro. As universidades (e em menor grau, as escolas) são um dos maiores e mais perversos esquemas de lavagem de dinheiro do mundo moderno (dos cursos às bolsas, dos professores às publicações, passando pelos inúmeros institutos e grupos de investigação – todos pagos, e eventualmente engolidos, pelo cidadão comum). Mas adivinhe-se de onde surgiu o esqueleto, a ideia, deste sistema em que as Universidades gozam de prestígio e privilégio (totalmente indevido), antes de ter sido efectivado na lei? Nas universidades. O lema oficial da Educação “Superior” devia ser ‘damos vida ao termo circle jerk‘. A lavagem de dinheiro é, no entanto, menos importante e vem na sequência da lavagem cerebral.

O que distingue o clero moderno dos cleros passados, é que a Academia não ensina ou promove a verdade, nem conserva ou dissemina o conhecimento (de vez em quando fá-lo por acaso, e sem intenção – e na grande maioria dos casos esses acasos são ignorados ou punidos). A razão para isto é não ter uma base teológica para além da sua própria perpetuação.

Por isso, e para concluir: vivemos numa Teocracia em que o clero é a Academia. E isso, caso ainda não seja claro, é mau. Não por causa do sistema, que é inevitável (e o que não tem remédio, remediado está), mas por quem o dirige: o nosso clero educativo além de prepotente (o que, admita-se, vem um pouco com a função), não é lá muito educado – o que acaba por se notar na sociedade que produz e dirige.

Julgo ter ilustrado suficientemente o meu argumento, pelo que vou passar à segunda parte do texto.

Não só vivemos numa Teocracia Académica, como vivemos em Escravatura. E tal como no caso da Teocracia, não houve nenhuma sociedade até hoje em que o homem não vivesse em Escravatura – em vários graus, certo, mas Escravatura ainda assim. Voltemos ao Dicionário: A Escravatura é a ‘Condição do indivíduo privado da sua liberdade e submetido à vontade de outrem, que o considera sua propriedade‘. Perante a definição, não é difícil aferir a veracidade da proposição.

O leitor sente-se totalmente livre? Acha que é proprietário de si mesmo? Acha que pode contestar as leis feitas pelo parlamento? Acha que pode não pagar impostos? Pense outra vez. A diferença entre um servo no Século XIV, um escravo no Século XVI e um cidadão no Século XXI é uma diferença de grau, não de natureza.

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Antes de entrar em pânico e procurar soltar os grilhões (metafóricos) que tem à volta dos tornozelos, convém não esquecer que a Escravatura não é uma estrada de sentido único. A escravidão tem obrigações, mas também tem contrapartidas. O lorde oferecia ao servo terra e materiais para trabalhá-la, oferecia-lhe protecção e ordem, não o podia vender a outro lorde – embora pudesse libertá-lo ou vender-lhe a sua liberdade – e não o podia agredir indiscriminadamente – embora pudesse puni-lo no caso de cometer um crime. O dono do escravo oferecia-lhe casa, comida, saúde e instrução básica (e ao contrário do que é popularmente acreditado, a violência indiscriminada era usada muito raramente – e por razões óbvias, afinal, só um idiota destrói a sua propriedade, e só um idiota maior destrói a sua propriedade quando a sua riqueza depende dela). Em alguns casos, o escravo era formalmente libertado e ascendia à condição de assalariado. E não podemos deixar de mencionar que o lorde e o dono de escravos, também eles, eram sujeitos a submissão (ao Rei ou ao Parlamento), e também eles tinham as suas obrigações e contrapartidas – as Teocracias que se sobrepunham a um e a outro eram, no entanto, bem menos destrutivas que a presente.

Nós, cidadãos, os escravos do século XXI, temos um “acordo” menos parecido com os servos e mais parecido com o dos escravos. Se há coisa que o Estado Democrático não oferece é protecção e ordem, e também não podemos comprar a nossa liberdade – pelo menos não oficialmente (o suborno e o lobbying são indissociáveis da democracia). A principal diferença entre o cidadão e o escravo é que, ao contrário dos donos de escravos de outrora, o nosso dono (o Estado) não tem grande incentivo em manter-nos saudáveis, ou em instruir-nos de forma a aumentar a nossa capacidade de trabalho, e além disso são precisamente os que menos contribuem que recebem a maior quantidade de regalias. Apesar de tudo, podia ser pior. Mas como dizia o velho anarquista, um homem não é menos escravo por poder escolher o seu dono de tantos em tantos anos.

Convém igualmente desconfiar sempre que alguém promete libertações (as libertações resultam precisamente nos exemplos acima). Quase todos os terroristas se chamam a si mesmo libertadores. E as consequências, mesmo quando se considera o ideal como moralmente indiscutível, nem sempre são as mais desejadas. A história está cheia de exemplos, da Revolução Francesa à descolonização, em que a libertação acabou por ser pior (no momento e no futuro) que a servidão que se aboliu. Pior a emenda que o soneto, como se diz. Às vezes parece que a iatrogenia é a constante na história política humana. O que só torna mais trágico o facto de quase ninguém saber do que se trata.

Outra diferença é que o cidadão tem um papel (embora mínimo e em última instância insignificante) na escolha do seu dono temporário, através do voto, e pode aspirar e concretizar a sua ascensão (temporária) à condição de dono, ou pelo menos a parte da classe dos donos (seja na condição executiva ou de teocrata). À superfície, isto pode parecer uma vantagem. Mas, analisando a questão em teoria como na prática, o resultado não se recomenda mais do que a Escravatura clássica, e menos ainda que a servidão feudal.

Apesar de ser perene e existente em todas as sociedades, a Escravatura não provém de nenhum contrato social. O servo nasce servo, o escravo nasce escravo, o cidadão nasce cidadão. O que keep-calm-and-love-democracydistingue o cidadão do Estado Democrático acima de tudo é que o cidadão não tem qualquer noção da sua condição de escravo.

E, não tendo essa noção, o seu dono nunca lhe virá a oferecer a oportunidade de se libertar mas pelo contrário, a sua viagem é para baixo, o seu nível de servidão vai aumentando, sem influência apreciável no processo, com umas migalhas atiradas para o chão em forma de recompensa – ignorando o que as migalhas representam. O facto de o seu dono mudar a cada quatro ou cinco anos, só acelera e aprofunda o processo – o dono temporário, ao contrário do dono permanente, não tem qualquer interesse em manter a qualidade da sua propriedade (o cidadão). Pelo que a qualidade de vida, estabilidade e segurança do cidadão (e por consequência da sociedade em geral) vão se deteriorando. Ao mesmo tempo, o seu dono continua a assegurar-lhe que é livre através da instrução, cada vez menos relevante e construtiva, que lhe oferece. E, para confundir ainda mais o pobre escravo e atissando a natureza ínvia do homem, apresenta-lhe a possibilidade de subir à posição temporária de dono, apaziguando a sua tendência para se rebelar se, por acaso, notar que as condições de submissão estão cada vez piores para si, e melhores para o dono.

A Democracia é, pois, uma Teocracia de falsos e etéreos deuses e uma Escravatura rotativa em espiral descendente. Da próxima vez que entregar o IRS ou colocar o boletim de voto na caixa, pense na sua condição, porque como lembra o poeta o melhor escravo é o que acredita ser livre. E se há fantasia que os nossos teocratas têm necessidade de perpetuar, é essa.

Não lhes faça esse favor.