Maio de 68

Prof.-João-Carlos-Espada-pbO João Carlos Espada (JCP) publicou um texto que ilustra a vacuidade moral, a obsessão economicista e, sobretudo, a incapacidade de observar o mundo à volta e admitir um erro que caracteriza a Direita moderada.

A mundividência do JCP, talvez pela idade, talvez por teimosia, ou talvez por ser um marxista arrependido daqueles que se converteu tarde ao anti-Comunismo, não consegue conciliar a ideia de que o Capitalismo sem entraves e o relativismo moral andam de mãos dadas. Ou se consegue, continua a achar que os benefícios do primeiro justificam a iniquidade do segundo. Mais: se tiver de escolher, e não está sozinho nessa escolha, prefere que o capitalismo liberal continue, mesmo que para isso se tenha de destruir toda a moral absoluta, toda a identidade nacional e substituir as populações nativas por alógenos.

Não estou a exagerar quanto às opiniões da personagem. O próprio não tem problemas em admitir a total falência da sua filosofia, ou aliás, em ver a falência como uma vitória: «a legalidade da “República burguesa” saiu vitoriosa; e isso permitiu a vitória pacífica de CAR6805-29May68-001.jpgmuitas das ideias de Maio de 68.» E que ideias eram essas? Não as económicas, não o anti-capitalismo, a rejeição do sistema usurário internacional ou a oposição à sociedade de consumo. As ideias que saíram vitoriosas, e que tomaram conta da sociedade, foram as culturais: o relativismo moral e a liberdade absoluta do hedonismo que o acompanha. O JCP considera isto uma vitória, sem ironia. Mais, ele próprio admite que, sem a democracia e o capitalismo, essas ideias teriam sido impedidas de medrar: «a verdade é que, devido a essa vitória da “oligarquia burguesa”, as ideias libertárias de Maio de 68 puderam continuar a ser livremente defendidas — o que evidentemente não teria acontecido se tivesse ocorrido a revolução comunista.»

Se acham que estamos a citar fora do contexto, oferecemos a palavra ao JCP num parágrafo inteiro que sumariza toda a tragédia da sua mundividência:

«Muitos comentadores discutem hoje que avaliação devemos fazer das ideias libertárias de Maio de 68. É certamente um tema importante. Mas não creio que seja o essencial. O essencial é que, contra os anseios revolucionários de Maio de 68, a França permaneceu “burguesa” — isto é, livre e democrática. Por essa razão, pôde absorver muitas ideias de Maio de 68. Pela mesma razão, pôde e continua a poder também contrariá-las.»

As ideias libertárias a que se refere são as do relativismo moral que conquistou o Ocidente, aquele que destrói as relações hierárquicas na sociedade, que despreza os valores tradicionais, que envenena as relações naturais entre homens e mulheres, que idolatra a sodomia e os sodomitas, que esbate a coesão e identidade nacionais, que importa milhares de alógenos do terceiro mundo, que eleva o hedonismo e a ‘realização pessoal’ à razão de viver e ao objectivo a que todos devemos almejar. O JCP considera as concessões feitas em 1968, e por consequência os seus resultados, como algo que devemos aplaudir. Salvámos a democracia e o liberalismo, salvámos a pureza ideológica, e o resto que se lixe. Aqui aproxima-se mais dos ideólogos dogmáticos do Comunismo original, indiferentes aos resultados que a sua ideologia produz, do que do pragmatismo racional que é suposto representar.

Na sua obsessão económica, o JCP esquece que o Maio de 68 começou, não com as greves, mas com a ocupação das universidades e que este foi um prenúncio da subsequente e gradual ocupação, muito mais radical, permitida pela sua querida democracia liberal burguesa e que hoje é, sem grande protesto da Direita, o status quo académico. Mas rey_jean-pierre_1143_2005.jpgolhando de momento para a questão puramente económica, convém pensar como se conseguiu mobilizar toda a classe trabalhadora industrial (poderíamos dizer, o proletariado) para um protesto de tão massiva escala. A intelligentsia moderna que explica o apoio aos Nacional-Socialistas na Alemanha de Weimar meramente pela malícia da propaganda e do populismo, como se não houvessem razões para a população procurar alternativas à decadência total da república em questão, explica com a mesma cegueira os distúrbios proletários de Maio de 1968. Num caso como no outro, a Direita ignora ou menospreza as origens do fenómeno com a iniquidade ou ineficiência das soluções promovidas, como se não houvessem razões profundas para a revolta. Em 68 tinham-se passado mais de 20 anos desde a grande reorganização ideológica da indústria no mundo moderno, em que a capacidade produtiva Europeia se começava a exportar para a Ásia e América do Sul, e em que a inflação usurária se fazia sentir sobre o poder de compra e sobre a qualidade de vida que os trabalhadores podiam dar às suas famílias. A sua estratégia era errada e as suas alianças ignorantes, mas as suas preocupações eram válidas.

Os trabalhadores juntaram-se aos estudantes porque julgaram que as suas preocupações eram aliadas naturais das causas libertárias dos relativistas morais. Estes trabalhadores, com famílias para alimentar, não tinham capacidade nem disposição para perceber que a Esquerda Radical que ocupara as universidades (e a que, diga-se, o Partido Comunista Francês da época se opôs), queria tanto saber das suas aspirações mesquinhas de estabilidade laboral e salários que lhes permitissem manter as suas estruturas familiares intactas como os capitalistas. A Esquerda Radical queria sexo, drogas e rock n’ roll, como hoje quer sodomia, imigração de massas e mutilação genital. Note-se que, passados 50 anos, a classe trabalhadora ainda não percebeu a grande traição daqueles que lhes prometeram protecção e que em vez disso lhes deram hedonismo. Na última década, as novas gerações das classes trabalhadoras, já sem nada que reivindicar, sem famílias para proteger, sem trabalhos para manter, juntaram-se a eles, preferindo o hedonismo. Mas não os censuremos demais, pois de um lado e do outro não houve quem lhes oferecesse nada de melhor e da plebe não se pode, nem deve, esperar mais. O trágico é que, defendendo o contrário, os Comunistas percebiam este truísmo. Os liberais acharam que, sem pressões sociais, os valores tradicionais da plebe se manteriam intactos perante a grande subversão relativista que o seu sistema permitia.

Em Maio de 1968 era talvez natural e compreensível achar-se que a maior ameaça aos valores tradicionais vinha do Comunismo, não só pela ideologia, como pelo poder político que representava e pelas alianças culturais que mantinha no Ocidente (isto é, os relativistas morais). Meio século depois, os opositores do Comunismo, se o eram por razões morais (e hoje é difícil dizer se de facto o eram ou não), deveriam admitir o erro que cometeram ao promoverem o Liberalismo como força de oposição. Afinal, os valores que se combatiam em 68 não eram apenas económicos, e foram esses outros que ganharam a batalha, não através do Comunismo, mas através do Capitalismo. Já aqui o dissemos e voltamos a repetir, a combinação de mercado livre internacional e relativismo moral é a força mais destrutiva dos valores tradicionais, sobretudo pelo seu carácter progressivo e gradual, que não facilita a identificação do fenómeno e que essa combinação é absolutamente inevitável. Mas nem precisamos de ficar presos à teoria. Observando o trajecto das democracias liberais, bem como o trajecto paralelo que os países comunistas efectuaram, só uma boa dose de vaidade e dissonância cognitiva podem fazer com que não se admita o erro.

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