O Elefante Tecnológico

A ortodoxia do nosso tempo assegura-nos que vivemos numa era sem tabus. Na verdade, a nossa era é não só fértil em tabus, como tem neles a sua fundação, meras inversões dos tabus antigos. O consenso social é, em qualquer era, um que requer certas verdades inquestionáveis. O processo de questioná-las e da dissolução do consenso social é uma bola de neve. Quanto mais o consenso é discutido, mais os tabus que o mantêm são destruídos, e mais a sociedade se transforma noutra direcção, com os seus próprios tabus.

É observável nas sociedades modernas que vivemos o fim de uma era, que certos tabus que reinaram desde que os antigos foram destruídos, estão a ser questionados, pelo menos por uma minoria. Todos nós sabemos quais são: a questão da imigração, provavelmente a mais proeminente, mas nas franjas também a questão racial, o liberalismo social, a teoria da evolução, o materialismo, o igualitarismo e até a democracia de massas.

No entanto há um tabu (e, por conseguinte, um consenso) que persiste, entre Esquerda e Direita, entre Progressistas e Tradicionalistas, que é raramente questionado e, pelo contrário, é defendido e proposto, não só como acompanhamento inevitavelmente elephant-in-room-800x634.jpgbenéfico, mas como panaceia para os problemas criados pelos outros tabus – e ainda mais estranhamente, esta visão salvífica é principalmente mantida pelo lado direito da barricada.

O tabu, e consenso, em questão é o progresso tecnológico – e quão estranho e irónico é que tal tabu seja uma precondição, uma necessidade para a manutenção de todos os outros. Nem o anti-imigracionista, nem o racialista, nem o tradicionalista se referem a ele. Preferem ignorá-lo e focar-se nos tabus e consensos permitidos pelo progresso tecnológico, ou pior, exaltá-lo como mágica solução para a destruição desses tabus e consensos. Como um médico diligentemente dedicado a tratar os sintomas, ignorando ou comicamente promovendo a doença que os causa. O progresso tecnológico tornou-se o elefante na sala que a direita insiste em ignorar, enquanto este destrói a mobília.

O anti-imigracionista vocifera contra a imigração de massas, vendo os navios e aviões que trazem milhões de pessoas vindas de longínquas paragens, sem nunca ligar os dois pontos. Diz ele que trazer pessoas de culturas completamente distintas, com padrões civilizacionais completamente díspares, evoluções históricas e padrões sociais avessos, é uma receita para o desastre. Mas não só ignora ou aplaude o mecanismo que torna essa integração forçada possível, como nem contempla as origens de tais distinções e disparidades e portanto é incapaz de entender a génese do problema.

O carácter de cada cultura tem obviamente raízes religiosas, raciais e ideológicas. Mas têm igualmente um carácter geográfico, delimitado. A única cultura que não é geograficamente delimitada é a cultura global, contra a qual se insurgem, pelo menos em parte. As distinções entre as várias culturas derivam do facto de não terem tido uma evolução em comum, de estarem, mais ou menos, isoladas umas das outras, desenvolvendo os seus próprios padrões, costumes e normas. Até à Revolução Industrial, as distinções culturais entre vários países, regiões e localidades Europeias eram certamente menores do que as distinções entre culturas Europeias e Africanas – mas as distinções existiam, e eram parte fundamental da identidade de cada povo, região e localidade. Apesar das raízes religiosas e raciais comuns, havia diversidade entre elas. Com o progresso tecnológico, veio a possibilidade de unificar culturas intra-nacionais, como em Itália, França ou Alemanha, e eventualmente fazê-lo num panorama multi-nacional. O paradigma e objectivo presente é fazê-lo à escala global, mas a natureza do problema é a mesma.

Existem ainda distinções entre a cultura de Portugal e da Alemanha, mas em larga medida, muitas das que existiam e caracterizavam estes povos como distintos um do outro deixaram de existir. Não vêem todos os mesmos programas de televisão, usam os mesmos smartphones com as mesmas aplicações, conduzem os mesmos carros, praticam as mesmas profissões seguindo os mesmos métodos, bebem as mesmas bebidas, comem nos mesmos restaurantes, partilham da mesma ideologia? E qual é o instrumento que, africanão só lhes permite fazê-lo hoje, mas que destruiu as suas prévias ligações nacionais, locais, comunitárias? Só há uma resposta válida: o progresso tecnológico.

A verdade é que cada cultura distinta que existe e existiu na terra, era circunscrita por um determinado contexto geográfico que era, por sua vez, condicionado pelo desenvolvimento tecnológico, que não lhe permitia estender as suas fronteiras e entrar em contacto continuado e massivo com outras culturas. O progresso tecnológico leva, então, inevitavelmente à contaminação e unificação das culturas, primeiro locais, depois regionais, depois nacionais e, agora, globais.

E é importante notar que a possibilidade de integração com outras culturas torna-se uma eventualidade pois é uma necessidade do próprio sistema tecnológico – tal como todas as outras inovações trazidas por ele. Não só o progresso tecnológico traz facilidades e confortos que são atractivos para o cidadão comum, como eventualmente a sua rejeição torna-se impossível para qualquer um que queira participar na sociedade. Isto acontece no plano individual como no plano comunitário, local, regional e nacional. O rebelde que em meados do Século XX dizia que nunca iria conduzir ou utilizar meios de transporte automatizados, torna-se obrigado a usá-los quando todos à sua volta e a própria organização do seu meio envolvente o obriga a tal, se quiser ter uma participação ainda que ínfima na sociedade e obter o seu próprio sustento. Ou o empresário que pretende manter os seus empregados pois é ideologicamente contra a automatização ou simplesmente porque tem uma relação extra-económica com eles, eventualmente terá de automatizar os seus processos, cada vez mais, para acompanhar as outras empresas e manter a sua rentável. Em alternativa, declara falência, despede os seus funcionários e torna-se ele mesmo um funcionário de outrem, sempre com o cutelo da automatização a pairar sobre a sua cabeça, ameaçando o seu posto de trabalho e a sua capacidade de se sustentar. E também o país que rejeita os avanços tecnológicos que vão ocorrendo noutras paragens torna-se vulnerável à conquista por países tecnologicamente mais avançados, e sofre pelo menos a pressão do seu próprio povo para emular estes países pela informação que chega de fora sobre as maravilhas trazidas pelos desenvolvimentos tecnológicos.

Ou seja, o progresso tecnológico é primeiro introduzido como uma opção, mas, eventualmente, e cada vez mais rapidamente, se torna uma necessidade. A adesão aos seus serviços deixa de ser uma escolha e passa a ser uma obrigação para todos – e o preço a pagar pela não-adesão cada vez maior quanto maior o desfasamento entre um e outro grupo. E claro que este processo sempre ocorreu, mesmo em sociedades primitivas, mas sempre de forma muito limitada. Com a Revolução Industrial o espectro de influência e a velocidade com que sucede, tornou-se inescapável para qualquer povo, em qualquer parte do mundo.

O racialista encontra-se na mesma posição. Ele sabe que a integração de raças diferentes, não só de culturas, é em geral uma fonte de conflicto e, excepto em casos históricos pontuais com a combinação perfeita de outros factores, degenera no caos social. Ele sabe que a miscigenação entre raças díspares é uma fonte de fraqueza, não só genética como cultural, e uma destruição da herança deixada pelos 18i2cwilgs7n4jpgnossos antepassados. E, no entanto, ignora ou promove o progresso tecnológico através do qual é possível a importação de outras raças, a convivência continuada e a atenuação das consequências directas da miscigenação. Os problemas e perigos da endogamia são bem conhecidos, sendo que confirmam os tabus modernos, mas os perigos da exogamia são largamente ignorados. No entanto os estudos apontam que, entre membros de raças díspares, existe uma depressão exogâmica, uma degeneração que enfraquece os seus frutos, e quanto mais díspares as combinações, mais geneticamente fraco será o produto. No entanto, através do progresso tecnológico, estas fraquezas são atenuadas – e, eventualmente, resolvidas. Qual é, nesse caso, o argumento contra, se a tecnologia nos permite solucionar os problemas causados pela exogamia? Torna-se num argumento meramente cultural e sentimental. E aí voltamos aos parágrafos anteriores sobre a contaminação e unificação cultural levada a cabo pelo progresso tecnológico.

Mais, numa era em que as culturas se unificam e homogeneízam, o argumento de que importar outras raças e culturas é disruptivo torna-se ele mesmo espúrio, pois até que ponto podemos falar de culturas diferentes num mundo globalizado? O Africano tribal é certamente inassimilável à cultura tradicional Portuguesa, mas o Africano que ouve música popular americana, come McDonalds, bebe Coca-Cola e vê Netflix é culturalmente semelhante ao Português que faz exactamente o mesmo. A cultura é a suma das acções e atitudes de um grupo humano – se as acções e atitudes são as mesmas, os grupos, para todos os efeitos, são os mesmos e podem misturar-se à vontade, pois já não há praticamente nada a separá-los.

Da mesma forma, o tradicionalista queixa-se do declínio moral observado na sociedade, da destruição da família e da comunidade, da atomização e do individualismo, sem nunca apontar a mira ao mecanismo que não só possibilitou a destruição de toda a ordem social que considera valiosa, mas tornou essa destruição uma inevitabilidade.

Na sociedade tradicional, a família e a comunidade não eram uma escolha, nem uma convenção, mas uma necessidade de sobrevivência. O indivíduo precisava de uma rede de apoios familiares e comunitários para existir e persistir. A tradição era, ao mesmo tempo, uma ferramenta para as novas gerações, que tinham um ponto de partida, e um Waltons_on_porchobjectivo que significava a sua perpetuação, porque ao perpetuá-la cada família e comunidade assegurava o seu futuro. Coisas tão simples como os filhos continuarem os misteres dos pais, ao invés de perseguirem outras ocupações, assegurava a continuação e manutenção da comunidade. A introdução de automatismos retira esta necessidade, e promove a dispersão e dissolução da comunidade. A invenção da fábrica moderna destruiu, para todos os efeitos, esta forma de vida – ou seja, destruiu a comunidade e a família tal como foi entendida durante milénios. Hordas de rurais abandonaram as suas comunidades porque as suas actividades económicas já não eram rentáveis face às capacidades tecnológicas das fábricas; substituíram a sua comunidade particular pelos habitáculos indistintos e estranhos da cidade onde não conheciam os vizinhos, nem tinham com eles nada em comum, a não ser a desgraça de terem sido empurrados para aquela situação; as suas culturas comunitárias, por sua vez, desapareceram, visto que o ciclo de continuação foi abruptamente parado; nas cidades, bayard-st-5-cent-lodgingos indivíduos atomizados aderem, pois, necessariamente à cultura urbana, cosmopolita e desligada de qualquer raiz, pois é a única que existe e que pode existir.

A moralidade tradicional perde toda a sua força quando é desligada da sua razão objectiva, de sobrevivência. A castidade e a monogamia deixam de ser ferramentas necessárias para uma vida salubre, e tornam-se opções – opções morais, mas cuja não-adesão deixa de ter penas concretas na vida terrena. Onde antes a libertinagem sexual trazia graves consequências para o indivíduo (e, visto que este estava inserido numa comunidade, também para todos à sua volta), com a introdução de métodos contraceptivos modernos, de métodos abortivos mais seguros, até da facilidade de providenciar sustento sendo mãe solteira, as consequências são atenuadas, quando não removidas, e a regra moral deixa de ter uma aplicação clara e objectiva na vida comum. O mesmo para a monogamia heterossexual, que numa sociedade tradicional é a única forma de produzir progenitura e assegurar que esta tenha possibilidade, não só de estabilidade psicológica, mas de sustento e fhhsobrevivência, através da introdução tecnológica torna-se uma escolha – e todo o tipo de arranjos alternativos se auto-justificam.

E reparem que não referimos as consequências dos malefícios do progresso tecnológico, que em geral só são descobertos tarde demais, como por exemplo a destruição do meio natural pela poluição industrial ou a contaminação dos nossos corpos por partículas tóxicas, como comprovadas regularmente em estudos que chegam à conclusão de que os avanços tecnológicos têm, afinal, também prejuízos. Estamos a falar das consequências, não dos malefícios, mas dos benefícios do progresso tecnológico. Estes benefícios, que são inegáveis, como o aumento da esperança de vida ou a relativa facilidade na produção de alimentos, têm em si mesmos contrapartidas nefastas, sobretudo de um ponto de vista de direita. Que os vários avanços tecnológicos tenham algumas consequências materiais negativas é óbvio para todos com o passar do tempo, mas que as consequências materiais positivas trazem os seus próprios problemas – e que não são problemas pontuais e circunscritos, mas problemas civilizacionais, de paradigma – não é tão fácil de ver, ou de admitir. Se o fosse teriamos muito mais vozes na direita a expressar preocupações com este fenómeno, e a verdade é que não temos.

Inúmeros outros exemplos podem ser dados daquilo que era natural e necessário numa sociedade tradicional, mono-cultural e mono-racial, e que se torna acessório, opcional ou até desvantajoso com a introdução de tecnologia moderna. Aqueles que lutam a favor de um retorno sem criticar o sistema tecnológico, estão a lutar contra uma sombra numa parede – e quem dá murros contra paredes, não só magoa a mão, como não fere o DSC00494PS21.jpginimigo. A modernidade pode ser uma doença espiritual, mas é enquadrada em parâmetros físicos. Todas as sociedades Europeias, no continente ou na diáspora, estão afectadas e infectadas por esta doença. Será que o problema é, então, especificamente Europeu? Não, a razão para as sociedades Europeias (e logo a seguir as do extremo Oriente) serem as mais afectadas é que são as que há mais tempo convivem com a tecnologia moderna, que lideram os seus avanços e sofrem primeiro as consequências da sua introdução. A existência de grupos como os Quakers, os Amish ou os Menonitas, que rejeitam a tecnologia moderna e, não por acaso, mantêm comunidades tradicionais, mono-culturais e mono-raciais, prova a origem do problema.

O Globalismo, em todos os seus aspectos culturais, raciais e morais, não é na sua génese uma simples ideologia, que pode ou não ser promovida e pode ou não ser combatida em si mesma. O Globalismo é a mera racionalização do sistema tecnológico, a moldura necessária para o quadro pintado pelo progresso tecnológico. A história da Torre de Babel é muitas vezes trazida à discussão para ilustrar o Globalismo, tanto da parte dos eu-tower-of-babel-poster.jpgseus opositores como dos seus proponentes. Mas os seus opositores falham em ver que há uma lição tecnológica na história: a construção não seria possível sem os materiais, o conhecimento e a linguagem comum. Quando Deus dispersa as nações, não as separa simplesmente em termos geográficos, mas retira-lhes a ferramenta, a linguagem comum, que era a condição principal para a sua afronta a Deus. A mesma lição existe na história da desobediência humana no Jardim do Éden, em que o novo conhecimento precipita a decadência de toda a criação. Aqueles que encolhem os ombros e vêem esta admonição como irrelevante ou até contraproducente, estão presos numa visão progressista do mundo, a mesma da Esquerda, de que o progresso é um bem em si mesmo, trazendo novos amanhãs que cantam, e que a estabilidade é uma anomalia. Daí verem o progresso tecnológico, não como destrutivo, mas como libertador. Mas piores são aqueles que, entendendo a lição Bíblica, ainda assim fecham os olhos à sua manifesta e óbvia encenação contemporânea, o progresso tecnológico e as suas consequências para a saúde moral dos homens e das suas sociedades. Ambos, porém, ao ignorarem ou apoiarem o progresso tecnológico, passado, presente e futuro, estão a lutar sem saberem contra si mesmos, em contradição absoluta.

Este parece ser o comprimido mais difícil de engolir para os meus correligionários: o progresso tecnológico é inerentemente disruptivo de tudo aquilo que a direita diz querer preservar, seja de natureza cultural, racial ou moral. Ou seja, é necessariamente uma ferramenta da esquerda, que só pode avançar os objectivos da esquerda. Se a direita quiser lutar de forma séria e eficaz contra os males que correctamente identifica no mundo, tem de ser necessariamente céptica de avanços tecnológicos e favorecer um retorno, não só aos aspectos exteriores da sociedade tradicional, mas às condições tecnológicas que as tornavam possíveis e salutares.

Portugal Desintegrado : EP 47 : Nada de Novo

Causas habituais não geram efeitos especiais.

Neste episódio falamos das consequências inevitáveis da nossa cultura de liberdade sexual: contaminar as crianças, espalhar doenças e propagar a auto-destruição. A nossa sociedade é um mau romance de cyber punk. Os erros de sempre, com as consequências de sempre.

Ouvir no Youtube ou sacar aqui.

Automatizar a Alienação: progresso tecnológico e anti-globalismo

«The conservatives are fools: They whine about the decay of traditional values, yet they enthusiastically support technological progress and economic growth. Apparently it never occurs to them that you can’t make rapid, drastic changes in the technology and the economy of a society without causing rapid changes in all other aspects of the society as well, and that such rapid changes inevitably break down traditional values.»

Theodore Kaczynski, Industrial Society and Its Future, 1995

Um dos argumentos mais usados pela intelligentsia globalista para justificar a imigração de massas para o Ocidente é o baixíssimo índice de fertilidade observado entre as populações nativas e a necessidade de manter a população a um nível estável evitando, desta forma, uma descida nos níveis de produtividade e um colapso do sistema de pensões. Esquecendo a perspectiva ‘conspiratória’ de que existem motivos ulteriores social_problems_depicted_in_cool_cartoon_art_04para as elites globalistas quererem esta solução, o argumento que apresentam é puramente económico – e nessa sua miopia estão perfeitamente alinhados com a Direita moderada, para quem a economia é o único barómetro político, social e cultural.

Este argumento pode ser rejeitado por várias razões, algumas económicas e outras de cariz moral: a mais importante, a meu ver, não tem absolutamente nada que ver com economia, e baseia-se no princípio moral de que uma população deve manter a integridade étnica (e logo, cultural) da sua nação ancestral. Acontece que este princípio, embora moralmente justificado, para ser aplicável na realidade, obriga a que se façam considerações de ordem técnica. Podemos achar, e com razão, que os argumentos e intenções dos globalistas são iníquos, mas temos de concordar que o seu raciocínio não é totalmente disparatado, sobretudo se quisermos manter ou aumentar o nível de riqueza presentemente existente. Tendo em conta o índice de fertilidade dos nativos europeus, a Segurança Social e semelhantes sistemas de transferência de rendimentos de jovens para idosos é insustentável. Já o é há várias décadas, e a combinação de declínio populacional e políticas inflacionárias promete destruir o sistema por dentro, seja através da impossibilidade de o Estado cumprir com os compromissos para com os beneficiários ou de os cumprir para com os credores a quem se endividou para pagar aos beneficiários. É um problema inamovível e que exige uma solução.

A Direita moderada não tem preferência: desde que se resolva, não importam os meios – mesmo que esses meios sejam a substituição da população original por africanos, árabes e ameríndios. Tendo em conta que esta substituição não implica uma reposição qualitativa, mas sim quantitativa, que os imigrantes que invadem o Ocidente não têm a mesma capacidade intelectual e produtiva dos nativos, que uma boa parte deles adicionam custos em vez de benefícios ao sistema, e que a economia mundial necessita de cada vez menos mão de obra não-especializada dada a automatização e o avanço tecnológico (algo que já afecta as classes baixas e médias do Ocidente) as considerações conspiratórias ganham alguma validade. Pelo que a Direita identitária rejeita obviamente esta solução, tanto moral como economicamente, e em contraposição diz que não precisamos de imigrantes, precisamos somente de mais automatização e progresso tecnológico. Com a automatização e o progresso tecnológico vem racionalidade económica, maior produtividade e logo a libertação de recursos sem se sacrificar a produção de riqueza, permitindo, em princípio manter o sistema de pensões mesmo perante uma população envelhecida e uma diminuição da população activa. A automatização permite já, e permitirá cada vez mais, a realização de inúmeras tarefas de forma menos dispendiosa do que a prévia necessidade de se empregar as classes baixas e médias, aumentando o nível geral de riqueza. O argumento é ilustrado sucintamente neste video. Ao contrário da Direita moderada e dos globalistas, a Direita identitária pode apontar para sociedades onde a sua solução já está a ser praticada.

Para os identitários, o Japão funciona como o exemplo a seguir. Uma sociedade envelhecida, sim, mas que, apesar disso, continua a prosperar economicamente, cada vez mais tecnologicamente avançada e que se mantém ainda etnicamente homogénea, e logo largamente livre do crime violento ou de propriedade, ao ponto de a polícia não ter o que fazer. No entanto, penso que é algo ingénuo olhar para o Japão como uma história de social_problems_depicted_in_cool_cartoon_art_640_36.jpgsucesso, quando essa história pode ser mais correctamente descrita como uma tragédia. Se as afirmações acima sobre a sociedade Japonesa são verdadeiras, é preciso no entanto olhar para o abismo social e moral em que o país caiu – não apesar delas, mas por causa delas. Neste mini-documentário, vemos a profundidade da decadência para lá dos números, aquela que não podendo ser quantificada, pode ser observada e sentida. Esta é uma sociedade altamente disfuncional, um pesadelo kafkiano de hotéis capsula, de homens herbívoros, de hikikomoris, em que homens e mulheres não têm interesse no sexo oposto, em que a figura do funcionário ideal da corporação se realiza na sua mais assustadora representação – e mesmo isso não sendo suficiente para satisfazer as necessidades de uma sociedade altamente competitiva – em suma: o cúmulo da sociedade materialista. O desenvolvimento tecnológico que tornou o Japão numa história de sucesso económico foi art-emgn-7o mesmo que tornou os seus cidadãos meros autómatos ultra-materialistas, desligados da sua humanidade e, logo, do próximo. E, sem alógenos violentos que, pelo seu barbarismo, os lembrem da realidade pura e dura da vida, têm liberdade e paz para adormecer num torpor estéril de conforto. Não admira que uma tal sociedade não produza progenitura. Para quê trazer crianças ao mundo quando o mundo é um vazio absoluto? Os Japoneses são um retrato aterrador do futuro que a automatização trará ao resto do mundo – se o permitirmos. No fundo são uma ilustração humana da fossa comportamental observada por John B. Calhoun na sua experiência com roedores. E na verdade, mesmo em países relativamente atrasados (em comparação com o Japão), observamos já as mesmas consequências.

Mesmo deixando de lado considerações sobre a alienação social, o problema demográfico é, pelo menos em parte, um produto da sociedade pós-industrial. Tome-se, por exemplo, o declínio nas contagens de espermatozóides nos homens ocidentais, cujas origens particulares não são objecto de concordância nos estudiosos mas em que todas as hipóteses são produtos do estilo de vida permitido e apenas possível pelo rápido progresso tecnológico (a comida altamente processada, o excesso de toxinas no ar, os químicos na água, etc).

A solução para um problema não pode ter a mesma natureza que a origem desse problema. Aquilo que permitiu a baixa fertilidade e o envelhecimento nas nossas sociedades foi a automatização e o avanço tecnológico, a terciarização da economia, o desligar da actividade económica da capacidade de sobrevivência. Pelo que mais automatização, mais avanço tecnológico e mais terciarização não vão resolver o problema, mas sim complicá-lo. Quanto mais removidas as pessoas estiverem das realidades da natureza, quanto mais conforto e alienação, quanto mais artificiais forem as suas vidas, mais fácil será subverter os seus valores e destruir a sua humanidade.

É inegável que o relativismo moral propagado quer pelas universidades quer pela sociedade de consumo e pela Internet teve e tem um efeito devastador nas atitudes sociais, incluindo aquelas directamente relacionadas com a reprodução, a sexualidade e as relações entre os sexos. Mas estas razões culturais são inseparáveis dos avanços tecnológicos que as permitiram – e sem os quais a propaganda que as promoveu não teria tido efeito, pois os recursos materiais para os realizar não existiriam. Não só a tecnologia permite disseminar a propaganda, mas as próprias atitudes são possíveis apenas através dos meios tecnológicos. Imagine-se, por exemplo, sexualidade desligada da reprodução de forma generalizada sem contraceptivos, transsexualismo sem técnicas avançadas de cirurgia plástica, homossexualidade continuada sem medicamentos que mantenham as várias doenças propagadas pela actividade sob controlo ou, para usar um exemplo ainda mais simples, a própria medicina que permite que pessoas, por mais ineptas ou irresponsáveis, sobrevivam até uma idade extremamente avançada.

Eu costumava partilhar da ideia que a tecnologia era socialmente neutra, isto é, que eram os homens e as suas disposições que imprimiam a uma particular tecnologia uma faceta benéfica ou maléfica. E até certo ponto é verdade. Mas é preciso entender que a tendência natural no Homem é para o mal devido à sua natureza caída. Como diziam os texto technoantigos: a carne é fraca. E é igualmente importante compreender que não é tanto uma tecnologia em particular que constitui o problema, mas o rápido e exponencial avanço da mesma, que leva à introdução de uma ou outra ferramenta na sociedade sem que haja uma consideração prévia das suas consequências para a sociedade. Os últimos 250 anos no Ocidente, quase sem excepção, foram de ditadura científica e tecnológica – sob um ou outro sistema político, a constante foi a primazia deste progresso sobre todas as outras considerações e o concomitante desprezo por qualquer preocupação levantada em relação a essa primazia. Salazar não prezava o ‘imobilismo’ português, como os seus detractores o apelidavam, nem o protegeu institucionalmente por uma questão de pequenez provinciana, mas sim porque sabia que o progresso tecnológico veloz levava a uma igual revolução nas estruturas sociais.

É óbvio que muita gente utiliza a tecnologia para fins nobres, para procurar a verdade, para se tornar uma pessoa melhor e mais completa, para ajudar os outros, etc. Mas, pela própria natureza humana, esses serão sempre uma minoria. Esta realidade, no entanto, só tem consequências sociais graves quando a tecnologia atinge um ponto de sublimação – ou seja, quando se torna generalizada.

A melhoria das condições de vida desligada do esforço individual não é uma estrada de sentido único. Estas melhorias, sobretudo a partir de um certo ponto de desligamento completo entre produção e sobrevivência, de controlo e alienação quase absolutos da natureza, criam as suas próprias estruturas mentais e culturais. As normas tradicionais existem dentro de uma moldura civilizacional em que os homens têm de trabalhar para sobreviver, estão sujeitos e, até certo ponto, limitados pelas forças da natureza. Não admira pois que, quanto mais avançada a revolução industrial e mais removidos os homens estão destas condições naturais, menos as normas tradicionais sejam seguidas ou vistas como válidas, e mais a promoção dos estilos de vida alternativos se torne aceitável.

Veja-se algo tão simples como veículos motorizados. Estes permitem percorrer distâncias relativamente longas com facilidade, onde antes as mesmas distâncias eram muito mais dispendiosas e difíceis. Por um lado, admitimos todos os benefícios que trouxe, mas não nos podemos admirar que esta mobilidade facilitada tenha ajudado também a acabar com a proximidade comunitária, que tenha levado a que a família estendida se transformasse em família nuclear, que a educação das crianças deixasse de ser um trabalho do bairro, da vila ou da aldeia. Isto para ilustrar que até uma tecnologia que tomamos como garantida, tem implicações para a organização social e enfraquece normas tradicionais de comunidade.

Outro exemplo do dia-a-dia pode ser encontrado nos electrodomésticos. Tendo sido originalmente oferecidos às donas de casa, para as ajudar nas tarefas diárias que faziam parte dos deveres de uma mulher, rapidamente se transformaram numa forma de libertação, não só dos aspectos mais cansativos da lida da casa, mas eventualmente da própria casa. A mulher libertada pelos electrodomésticos que não tinha de despender tanto tempo nas tarefas domésticas criou a ‘dona de casa aborrecida’, sujeita a todo o tipo de propaganda da sociedade de consumo, até eventualmente criar a mulher que entra no mercado de trabalho, a mulher carreirista, as enormes taxas de divórcio e mães solteiras, e por aí adiante.

Estes exemplos, e milhares de outros, sugerem que o nível de crescimento tecnológico, que é exponencial, não linear, é rápido demais para que exista uma concordante adaptação mental nas pessoas, gerando a disfunção e alienação que caracterizam as nossas sociedades.

As pessoas gostam de imaginar, por exemplo, que os carros conduzidos automaticamente vão libertar tempo para as pessoas se instruírem, adquirirem novas capacidades, criarem novas obras de arte, etc. Na realidade, o que vai acontecer e acontece sempre é que as pessoas vão usar esse tempo para ver pornografia, reality shows, tirar selfies e jogar jogos de computador. Da mesma forma que gostavam de imaginar que a Internet seria usada para expandir o conhecimento e erudição do cidadão comum, quando na verdade a maioria usa-a para satisfazer impulsos primários e alienar-se do vácuo da vida moderna através de entretenimento.

E repare-se que nem mencionámos os perigos que a Inteligência Artificial e a modificação genética apresentam para a humanidade, problemas distintos em natureza daqueles que falámos acima, e que são o produto do progresso tecnológico exponencial quando não existem entraves institucionais, ou sequer considerações sérias sobre as consequências desse progresso.

Por isso a invasão imigrante é menos destrutiva a longo prazo do que a crescente automatização e progresso tecnológico, precisamente por gerar mais sofrimento físico e mais tensão – uma tensão e sofrimento que podem trazer-nos de volta a um reconhecimento das realidades base da vida e que são essenciais para acordar o homem moderno ocidental do seu torpor tecnologicamente induzido. Quando tudo arde art-emgn-3nenhuma mulher vai queixar-se do patriarcado, nenhum homossexual vai insistir na sua perversão. Se insistirem vão rapidamente perecer. Os identitários gostam muito de falar nas práticas disgénicas da nossa sociedade, mas nunca mencionam o factor que permite esta disgenia generalizada: o progresso tecnológico. Pelo contrário, paradoxalmente encontramos entre eles alguns dos seus mais ávidos defensores. Nenhuma outra força permite numa escala tão grande a sobrevivência dos fracos, nem promove com a mesma ferocidade a complacência dos fortes. O avanço tecnológico é um sedativo gradual que leva ao equivalente social de um corpo vegetativo ligado a uma máquina.

Muitas sociedades e povos sobreviveram a invasões, nenhuma sobreviveu à decadência do conforto. Foram precisamente as sociedades afluentes, confortáveis e decadentes (uma combinação que não é um acaso) que foram incapazes de resistir aos invasores. Pelo que a solução não pode ser uma insistência e intensificação dos meios que geraram os fins que queremos evitar, mas sim uma rejeição desses meios e um retorno a uma forma de organização económica e social que não só reflicta os valores que consideramos certos, mas garanta a manutenção da sociedade de acordo com esses valores.

Sorriso de Raposa

Malcolm X é uma daquelas figuras que o zeitgeist moderno prefere não mencionar. Ao contrário de Martin Luther King, sempre aplaudido por todos os quadrantes por se encaixar nos desígnios das elites e promover todos os lugares comuns da nossa era, Malcolm X não faz parte dos santos seculares da historiografia oficial, pois era primeiramente conhecido por ser um opositor da integração entre os pretos e os brancos na América e favorecer o separatismo radical, uma ideia que levou inclusivamente a que se sentasse à mesa com dirigentes do Ku Klux Klan para discutir esta solução, demonstrando que a História muita vezes não é tão simples como a narrativa oficial faz crer. O que me leva a mencioná-lo aqui, no entanto, não é a sua defesa do separatismo racial, mas a exposição de uma outra ideia que também desafia a narrativa oficial.

Neste video, Malcolm X explica que a Esquerda na América age como defensora dos pretos americanos sem ter no entanto qualquer intenção de os ajudar, em contraste com a Direita, que não finge ter os pretos nas suas preocupações nem tem a pretensão de avançar as suas causas. Nem a Esquerda nem a Direita têm os interesses dos pretos em conta, segundo ele, mas a Esquerda, como uma raposa, diz que sim, sorrindo. A Direita, como um lobo, mostra os dentes por outras razões. Tendo isto em conta, Malcolm X conclui que a Esquerda é muito mais perigosa para os negros do que a Direita.

WITHERING-wolf-bearing-teeth

Eu penso que podemos e devemos aplicar a mesma analogia aos partidos e à intelligentsia de Direita em relação aos tradicionalistas. Os tradicionalistas sabem que a Esquerda não lhes tem qualquer simpatia e os antagoniza abertamente, mostrando-lhes os dentes com a intenção de atacar. A Direita mainstream, pelo contrário, como a raposa, pretende fingir-se amiga (ou pelo menos simpatizante) dos tradicionalistas, sorrindo, ao mesmo tempo que nas suas ideias e acções avança, premeditada ou ingenuamente, uma agenda completamente distinta, avessa e hostil à causa tradicionalista.

A Direita mainstream em Portugal (e no resto do Ocidente) tem essencialmente duas bandeiras: a liberdade individual e a eficiência económica. A “Direita dos costumes” como lhe chamaram outrora, para todos os efeitos, na esfera mediática e partidária, não existe. Este fenómeno encontra-se muito bem sumarizado num excerto deste texto:

«A dimensão [dos] costumes tem sido menosprezada desde que o marxismo impôs o primado da economia, e antes de Marx já os liberais e os utilitaristas também davam maior importância à economia. Essa primazia não diminuiu, pelo contrário, com o aumento do rendimento e do conforto dos povos. A economia passou a ser o terreno onde se confrontavam as propostas políticas. (…) À direita, o vazio ideológico e a fraqueza política, aceitou-se a ditadura do politicamente correto. novo paradigma de revolução social. (…) a direita, jótica ou degenerada, abandona o combate cultural e adopta o niilismo relativista da esquerda. A direita socializou-se. Os valores passaram a ser rodapés de discursos eleitorais. Os políticos de direita aplaudidos pelos média são os que defendem o liberalismo de costumes, ainda que militem num partido democrata-cristão…».

Os tradicionalistas observam esta capitulação da Direita mainstream àquilo que chamam de ‘marxismo cultural’ e, até certo ponto, apontam-na como uma traição, para a qual não existe grande explicação fora da respeitabilidade profissional e da promoção pessoal. Eu considero no entanto que há um mal de raiz na matriz bipolar da Direita moderna, e que, apoiando o liberalismo económico, é apenas lógico e natural que apoiem o liberalismo social. São os Liberais com visões sociais tradicionalistas que estão em grave contradição.

Parte do problema começa no termo com que se designa a ideologia que pretende destruir todas as relações hierárquicas da sociedade tradicional através da destruição da moral que as sustenta: ‘marxismo cultural’. O termo é mal empregado porque, na prática e na teoria, não há melhor veículo para o pro-gayrelativismo moral, para a destruição das estruturas tradicionais e da moralidade subjacente a esta do que o liberalismo económico – e que portanto, e apesar das origens intelectuais dos seus promotores originais, o termo deveria ser ‘liberalismo cultural’ (o termo que prefiro, no entanto, é simplesmente ‘relativismo’). ‘Marxismo cultural’, apontando o epíteto dos seus promotores originais, esconde o veículo pelo qual ele se perpetua com sucesso. É inegável que os revolucionários culturais que deram origem à teoria se designavam como marxistas, mas foi no país mais liberal do mundo e principal baluarte dessa ideologia económica que a semente encontrou terreno fértil.

De onde vêm as modas e tendências que, ano após ano, destroem o tecido social? De onde vem o entretenimento que serve de veículo à propaganda relativista e que é responsável pela disseminação destas ideias? Vem dos países marxistas ou dos países capitalistas liberais? Não são as multinacionais – representantes maiores do capitalismo DHgIEh4UwAAJ4BIliberal e da globalização – os principais motores e promotores da imigração de massas, da bastardização da cultura, da ausência de identidade nacional e comunitária, da criação do homem-novo consumista, dos desvios e desviantes sexuais, dos estilos de vida alternativos, da sobresexualização da sociedade e da sexualização precoce – em suma, de todos os cancros sociais a que nos opomos? E que, muito mais do que através da retórica política esquerdista e da propaganda a que são submetidos na escola, é através do progresso tecnológico e do capitalismo global que estas ideias demoníacas se inculcam nas mentes do povinho?

Não observamos também que, nas sociedades que estavam fechadas ao capitalismo global, as mesmas ideias, promovidas agressivamente pelo sistema político, não medraram ao longo de décadas da mesma forma que se infiltraram, pela calada, nos países liberais? Como explicamos que os países de Leste, sujeitos a ditaduras marxistas usury and sodomy.JPGagressivas, sejam hoje os únicos onde ainda existe alguma identidade nacional, rejeição da imigração de massas e dos ‘estilos de vida alternativos’ e onde o Cristianismo ainda é relevante, não só na vida comunitária, mas nos destinos nacionais? A explicação é simples: ao contrário do Ocidente, o Leste esteve insulado do capitalismo global e, portanto, da lenta subversão dos valores tradicionais, que só a riqueza e o conforto conseguem promover e enraizar com extrema facilidade. A tragédia para estes países é que caso não tomem medidas para limitar as consequências económicas da globalização, as suas sociedades, tornando-se mais prósperas, vão contrair o vírus do relativismo liberal e acabar por destruir aquilo que cem anos de comunismo não conseguiram destruir.

Tendo nós uma visão sã do Homem e da Sociedade Humana, e sabendo que a liberdade de escolha leva necessariamente, na maioria da população, a um nivelamento por baixo, podemos continuar a ignorar que é através do liberalismo económico que aquilo que consideramos sagrado vai sendo destruído, lentamente, contaminando os nossos compatriotas, as nossas famílias, os nossos filhos? Que muito antes de ser legalmente enquadrado pelo Estado, o relativismo moral e cultural foi propagado através da sociedade de consumo massificado e da globalização?

Há quem considere a promoção do liberalismo nos costumes pela Direita uma aberração, mas na verdade não há contradição: a sua defesa da economia liberal, do progresso tecnológico, da eficiência económica anda de mãos dadas com a destruição do tradicionalismo. Não é pois de estranhar que a Esquerda dite o discurso e a Direita o aceite, pois pela sua própria moldura ideológica, não tem meios de o rejeitar. Reparem que não estamos a argumentar que o capitalismo liberal não é o mecanismo mais adequado para melhorar o nível de vida dos cidadãos: é inegável a eficiência do sistema em produzir riqueza material. O que estamos a argumentar é que a forma radical com que remove a pobreza material promove, na mesma medida, a pobreza espiritual e moral.

Na busca da prosperidade e do progresso tecnológico, na procura de melhorar o bem estar económico dos cidadãos e de tornar eficientes os mecanismos para esse melhoramento, a Direita promove o veneno que infecta o espírito da nação. É ingénuo achar que as mudanças económicas radicais que o capitalismo opera podem deixar as workbuyconsumedieestruturas sociais intactas. O capitalismo procura consumidores (a única categoria que lhe interessa) e sendo que a eficiência na obtenção desses consumidores é de suprema importância para a maximização dos seus lucros, a promoção de valores anti-tradicionais é inevitável, mais, é uma necessidade: a uniformização cultural, nacional e racial (através da plebeização da cultura, da promoção do internacionalismo e da imigração de massas) e a atomização do indivíduo (através da promoção de ‘estilos de vida alternativos’) são os veículos pelos quais se obtém o consumidor perfeito, ou seja, que se maximiza o lucro. O sonho do Internacionalismo Comunista só é conseguido, paradoxalmente, através do capitalismo liberal.

A Direita Liberal que ainda vai mostrando, pouco e esporadicamente, algum interesse pelas questões culturais e morais, ignora este fenómeno e vive numa dissonância cognitiva. Eu ignorei-o durante vários anos apesar dessa dissonância. O Liberal vê a 635952276665246516-755625981_consumerliberdade como a ausência de coerção pelo Estado, mas não vê a servidão imposta pelo capitalismo liberal, em que o homem é desligado da sua nação, da sua comunidade e até da sua família, pela promoção de uma cultura uniformizadora, degenerativa e ultra-individualista, que mina as fundações dessas relações primordiais. O homem moderno é tão indefeso perante o capitalismo liberal como o era perante o comunismo, a diferença é que no primeiro está bem alimentado, em conforto, e as suas raízes vão sendo arrancadas lentamente, sem se aperceber, e portanto, muito menos susceptível de se revoltar.

Concluímos portanto que o facto da Direita moderna ser liberal nos costumes (como a Esquerda), mas também liberal na economia (ao contrário da Esquerda), faz com que a Direita seja na prática uma ameaça maior à sociedade tradicional, ou o que dela resta. A sua combinação de liberdade individual e eficiência económica é a receita perfeita para a realização prática do relativismo: a desagregação da família, a destruição das instituições intermédias, a atomização do indivíduo. Ou seja, um tradicionalista tem muito mais a temer da Direita mainstream do que da Esquerda. Até a Direita abandonar o liberalismo económico o tributo que presta aos valores tradicionais não passa de um sorriso da raposa.